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A professora Beatriz Sallet orientou as quatro equipes de estudantes, que se dividiram para cobrir o máximo possível da ação. “Trata-se de um trabalho muito sensível, no qual cada repórter e fotógrafo puderam trazer diferentes histórias”, conta Bea, como é conhecida pelos alunos.
A empatia e a solidariedade foram imediatas quando os estudantes conheceram pessoas que passam por dificuldades e que não foram amparadas de forma correta. A ideia do trabalho da Fé e Alegria é prevenir situações de risco pessoal e social decorrentes de diversos problemas, como a pobreza, falta de acesso aos serviços públicos e fragilização de vínculos afetivos e comunitários. “Acompanhando tudo isso, nota-se que há de ter cada vez mais políticas públicas avançadas nesse tema. O direito de viver com dignidade é essencial para a coletividade humana”, avalia a professora.

Assistentes sociais e educadores da Fé e Alegria saem as ruas e dialogam com as pessoas que estão morando na rua. Bruna Schlisting, que acompanhou um desses momentos, pode observar a Fundação levar cuidado e preocupação de integridade para essas pessoas. “De um lado, pudemos ver o quanto tem gente nessa situação vulnerável e que não está em nossas mãos resolver o problema. Porém, posso escrever sobre isso, trazendo a situação à tona e, quem sabe, fazer com que os leitores se sensibilizem para também ajudar”, salienta a aluna.

“A parte positiva é que existem instituições que dão atenção da porta para fora, ou seja, a ajuda vem até eles, e não o contrário, dando um auxílio básico com um cobertor, cesta básica, documentos e orientações”, afirma Bruna.
Ela fez parte da equipe que atuou no Centro da capital, ao lado da também repórter Paola Torres e da Julia Azevedo, que ficou responsável pelas fotografias. “Por mais que soubéssemos como seria, ver realmente a maneira como as pessoas em situação de rua se viram para sobreviver é uma experiência que nos tira da nossa bolha”, reflete.

Bruna conta que elas foram levadas para conversar com pessoas com dependência química, e os relatos deles evidenciam muito a importância desses trabalhos da Fé e Alegria. Houve um momento em que Julia falou com um homem que mora há anos no mesmo lugar. Ele tem uma “estrutura” maior, com um colchão protegido por madeiras, algo parecido com uma barraca. Essa moradia precária acaba dificultado a possiblidade dele conseguir trabalho, pois, se ele se ausentar do local, outras pessoas podem passar ali e achar que utensílios e objetos não estão sendo usados, e ele perderia tudo o que tem.
Com a ajuda do projeto, o morador de rua conseguiu ter documentos de identidade, além de receber auxílios que tem direto. “Agora, ele espera conseguir alugar um lugar para morar e poder voltar a trabalhar como pintor. Passamos só algumas horas com eles, que fazem essas ações todos os dias, atendendo centenas de pessoas, e pudemos ver o impacto que esse serviço tem, fornecendo apoio, ajuda para eles receberem seus direitos e até outros itens, como cobertores, para ficarem mais confortáveis dentro do que têm”, comenta Bruna.
A futura repórter pondera que existe certo preconceito por quem vê de longe o drama dos desassistidos, pois muita gente pensa que todos os moradores de rua são só dependentes químicos. Porém, existem outros fatores que levam as pessoas a perderem tudo, como a má situação financeira e problemas psiquiátricos, por exemplo.
Bruna notou que a maioria da população de rua é formada por homens, e as mulheres, muitas vezes, estão ali pra fugir dos maridos abusivos. “Um comunicador social que estava com a gente contou que existem relatos de que elas sofrem abusos na rua, vindo de todos os lados, então, às vezes, preferem voltar para casa e sofrer isso só do marido.”

Para Julia, todo mundo merecia viver com dignidade, segurança e conforto, e é triste ver a quantidade de gente que não tem isso. Paola Torres falou que, para ela, foi uma experiência jornalística muito interessante, porque é preciso contar histórias muito duras, e acessar elas não são fáceis. “As pessoas que estão na rua sentem medo, além de nem sempre estarem sóbrias. Estivemos percorrendo o Centro de Porto Alegre e vimos ele de outra perspectiva, entrando em lugares que não teríamos visto no nosso dia a dia”, destacou.
Paola observa que foi tomado todo o cuidado em preservar a identidade das pessoas e a identificação dos lugares onde elas ficam, para evitar retaliações. “Por fim, foi uma experiência muito forte do ponto vista humano. Acho que é uma vivência que todo cidadão deveria ter: acompanhar e ouvir o que as pessoas em situação de rua vivem e passam. Fizemos um trabalho que uniu a informação, a construção de narrativa e a divulgação de um serviço da maior importância”, avalia.
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Mescla – Como se deu o seu encontro e identificação com a fotografia?
Rodrigo – Quando entrei no curso de Jornalismo, uma das primeiras disciplinas que cursei foi Fotografia, e prontamente me identifiquei com a área. Sempre gostei muito de arte e expressão visual, então eu já tinha uma propensão a essa linguagem, de alguma forma. A partir dessa disciplina, fui direcionando meu currículo para Jornalismo Multimeios e usando todas as disciplinas optativas e de livre escolha para cursar cadeiras como Luz e Estúdio, Fotografia Publicitária e Projeto Experimental em Fotografia.
Mescla – Qual o estilo de imagem que mais gosta de fazer?
Rodrigo – Sem sombra de dúvida, o que mais gosto de fazer é retrato. Claro, dentro desse estilo fotográfico, existem muitos nichos, como retrato de moda, de reportagem, empresarial, íntimo, entre outros. Mas gosto de explorar o máximo possível essas variações. A fotografia de retrato permite uma troca muito grande entre fotógrafo e retratado, o que é uma oportunidade de conhecer muitas pessoas e aprender com elas de alguma maneira. Acredito que seja um dos estilos mais ricos da fotografia, justamente por essa possibilidade de troca com uma diversidade grande de pessoas.

Mescla – Você foi repórter fotográfico na Unisinos por bastante tempo. Esse tipo de experiência ajudou a “moldar o olhar” sob a perspectiva da fotografia institucional?
Rodrigo – A fotografia institucional, de maneira geral, é muito protocolar e requer uma discrição do profissional. Na Unisinos, ela tem essa característica muito presente, mas, ao mesmo tempo, oferece uma gama muito grande de atuações em diversos ramos. Existem as pautas mais tradicionais, de eventos institucionais, em que o fotógrafo deve ter um comportamento e produção fotográfica de acordo com os parâmetros estabelecidos pela instituição. Por outro lado, a Universidade é muito ampla e plural, com demandas que exigem olhar fotojornalístico, por vezes uma veia de fotografia publicitária. Em outros, momentos de fotografia de paisagem, fotografia de arquitetura e por aí vai. Ter trabalhado como fotógrafo na Unisinos me permitiu ampliar meu leque de atuação e crescer muito com isso. Minha rotina variava. Ia de eventos em lugares como a Reitoria, Palácio Piratini, empresas SAP e HT Micron (onde a língua oficial é inglês), passava por pautas jornalísticas em aldeias indígenas, cooperativas de reciclagem, por exemplo, e chegava, também, na produção em estúdio fotográfico. Tudo isso, muitas vezes, em um mesmo dia. Essa variação tão grande de pautas, ambientes, pessoas e estilos fotográficos é de uma riqueza imensurável.

Mescla – Ainda na Unisinos, que impacto a sua jornada acadêmica teve no profissional que você é hoje?
Rodrigo – Como eu disse, pude direcionar minha graduação para a fotografia. No entanto, a formação em jornalismo trouxe conhecimentos que utilizo muito até hoje, e isso se estende a todo o currículo formativo. Aprendi muito durante o curso e aproveito demais minha formação acadêmica. Claro, os conhecimentos em assessoria de imprensa foram muito utilizados durante minha jornada profissional dentro da Unisinos, mas houve momentos em que precisei pôr em prática habilidades como redação jornalística, SEO, rádio – ser repórter multimeios é uma realidade do jornalista há tempos. Uma parte importante dessa formação para o profissional que sou hoje foram as disciplinas de TV, em que aprendi fundamentos de captação de vídeo, edição, roteiro e muitas das habilidades que uso para produção de audiovisual que, atualmente, é parte relevante da minha rotina de trabalho na agência de conteúdo da qual sou sócio, a Wit Conteúdo.
Mescla – Alguma fotografia em especial foi muito marcante na sua carreira?
Rodrigo – Não sou uma pessoa com muitos ídolos. Sou um tanto crítico e raramente tenho uma relação de fã incondicional com figuras públicas. Mas ter tido a oportunidade de conversar brevemente e fazer um retrato da jornalista e escritora Eliane Brum foi uma experiência muito importante para mim, pois tenho profunda admiração por ela.

Mescla – Sua foto no projeto obs_cu_ra foi tirada no dia do seu aniversário, certo? Poderia contar um pouco mais sobre a história por trás dessa imagem e sobre a sensação de ver uma foto sua atravessar quase todos os continentes?
Rodrigo – O projeto obs_cu_ra é uma criação do fotógrafo Bruno Alencastro que, além de ter sido muito feliz na concepção da ideia e na elaboração de um trabalho colaborativo em tempos de isolamento, foi extremamente competente na produção e na inscrição desse projeto em todos os editais, prêmios e concursos possíveis. Quando ele me contatou, fiquei muito feliz de ter sido convidado para fazer parte do primeiro – e seleto – grupo que deu luz ao projeto. A pandemia foi muito impactante para nossa geração e nossa história, e poder fazer parte de uma obra tão cheia de significado, potência, poesia e que conta tão bem esse período, foi incrível. Ter feito a foto no dia do meu aniversário, no contexto em que ocorreu, foi um presente.

Mescla – Daria algum conselho para os jornalistas em formação que também se identificam com a fotografia?
Rodrigo – Meu principal conselho é: criem e valorizem sua rede de contatos. É durante a graduação que fazemos as conexões que vão nos oferecer as oportunidades certas no mercado de trabalho. Outra dica é: o mercado é muito mais amplo do que um conglomerado midiático. Explorem os nichos, explorem as possibilidades de carreiras em outras regiões, outros estados ou, até mesmo, em outros países. A fotografia é uma linguagem universal e a comunicação é uma carreira com potencial global.
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Mescla: O que lhe atraiu na fotografia?
Bruno: [Isso] é curioso… Entrei no jornalismo pensando em reportagem cultural, achando que trabalharia com a parte cultural. Aí, já tinha alguma pista de que futuramente trabalharia com as artes visuais de uma maneira geral, ainda não sabia disso. Mas acho que, logo na primeira cadeira de fotografia, no Jornalismo, vi essa possibilidade de contar história em imagem. Simples assim. Vi que aquilo que eu imaginava que contaria em texto tinha um potencial muito grande para explorar e narrar através de uma sequência de imagens, através de fotografia. Futuramente, descobri o vídeo também como uma possibilidade de contar história. A atração foi por esse poder sintético, universal e ao mesmo tempo complexo, de vários sentidos que a gente pode colocar. Através da estética, através da linguagem, trabalhar com narrativas visuais. Foi isso que me encantou.
Não consigo mais sintetizar em um conceito o que eu trabalho. Gosto de me considerar assim: uma pessoa que foi se especializando em narrativas visuais e hoje não vê muito onde termina uma e começa outra. Eu me sinto mais completo e podendo desenvolver minha criatividade ao máximo transitando entre todas essas linguagens, relacionadas à imagem.
Mescla: Como surgiu a ideia do ensaio obs_cu_ra?
Bruno: O obs_cu_ra foi justamente um momento em que todos nós estávamos trancados em casa e eu sempre sou muito inquieto [em termos] de produção e produtividade. Sempre gosto de estar me desenvolvendo e me desafiando, do ponto de vista criativo e de inovação, a pensar algo [de um jeito] diferente. Estava, naquele momento, vendo vários trabalhos sendo produzidos durante a pandemia e pensando que eu também tinha que fazer um trabalho sobre esse período histórico e único, para a nossa geração. E foi isso, um insight de olhar para as paredes brancas do meu apartamento e pensar “bom, vou primeiro experimentar essa ideia de uma câmera obscura”, que era algo que eu conhecia do ponto de vista teórico. Li sobre esse período de formação da imagem, do desenvolvimento técnico da fotografia, mas eu nunca tinha explorado essas questões analógicas, sempre fui um cara muito digital.
Eu [pensei] “ah, vou fazer um teste, já que estou em casa, tenho tempo para isso e vou explorar o que tem de potencial ao construir uma câmera, transformar a minha casa numa grande câmera”. E foi o que fiz, testei e achei a fotografia muito potente. Essa é a primeira fotografia do ensaio, em que aparece eu, a minha mulher e o nosso bichinho de estimação ali, o cachorrinho, o nosso mascote. Achei muito potente essa foto e pensei “isso aqui fala muito sobre esse período que a gente está vivendo, deixa eu transformar essa foto única num ensaio fotográfico e ver o que comunica, o que essas fotos podem comunicar sobre esse período que a gente está vivendo”. Sozinho eu não conseguiria desenvolver esse trabalho, então fui em busca do coletivo, convidei vários fotógrafos e fotógrafas para participarem junto comigo e aí deu no que deu.

A gente lançou um ensaio, e rapidamente outras pessoas começaram a me perguntar sobre ele, como é que elas poderiam também participar. E aí, em um segundo momento, fiz isso: abri uma convocatória para receber fotos de quem tivesse a fim de participar do ensaio. E cheguei nesse quantitativo maluco: mais de oitenta participações de vinte e poucos países. E aí toda a repercussão que teve, publicado em vários lugares, ali no meu site eu coloco os principais lugares, os continentes, só na Oceania que não (risos). É mais fácil falar em continente do que em país, de tanto lugar em que ele repercutiu.
Levar o meu trabalho para um nível inimaginável, para um lugar em que nunca imaginei que poderia ter uma repercussão, como os grandes centros e festivais de fotografia ao redor do mundo: o convite para ir à Eslovênia apresentar o meu trabalho presencialmente.
Mescla: No seu site, há a premiada fotografia “Encontro de Super-heróis”. Poderia contar um pouco mais sobre a história daquela imagem?
Bruno: Eu guardo um carinho muito especial sobre essa foto, o Encontro de Super-heróis, porque foi com ela que eu ganhei o principal prêmio de Jornalismo que tem aqui no estado, que é o prêmio da Ari [Associação Rio-Grandense de Imprensa], na categoria Fotojornalismo. Essa foto foi premiada naquele ano [2016], e também teve um concurso nacional de fotografia em que ela foi premiada [Prêmio Fundação FEAC de Jornalismo, de Campinas/SP]. Os bastidores dela são bem interessantes, porque é um plantão, eu estava num plantão de final de semana [na Zero Hora], em um sábado. E, assim, esperando o tempo passar, né… A gente em um plantão de final de semana quer mais é que passe logo, voltar pra casa, descansar um pouco. Então, nem tinha grandes expectativas de fotografia naquele dia, até que uma repórter passou ali na fotografia e pediu um fotógrafo para acompanhar ela nessa pauta. Era uma ação que estava tendo no Dia das Crianças e eu acabei indo com ela, por decisão da equipe, de que eu a acompanhasse. Fui com ela, e chegando no local, a ação até já tinha começado. A gente desceu do carro do jornal e olhou a fachada do Hospital da Criança Santo Antônio [em Porto Alegre], na parte de oncologia e já tinha esses super-heróis.
Eram vários, tinha o Super-Homem, o Homem Aranha, o Batman, vários desses alpinistas ali pelo lado de fora do prédio descendo de rapel. E eu rapidamente peguei a minha câmera, a lente de maior distância que eu tinha, que era uma teleobjetiva, para pegar de longe, e fiz as fotos do lado de fora, pela fachada, porque já estava acontecendo. E aí pensei comigo “puxa, essa foto seria muito legal se ela fosse feita lá de dentro, pra mostrar as crianças dentro, e não dar tanto protagonismo pros super-heróis e dar mais protagonismo para as crianças, interagindo com eles”, mesmo que através do vidro. E pra minha sorte, depois que eles terminaram o rapel pelo lado de fora, a gente conseguiu se aproximar mais da equipe da assessoria de imprensa e a assessora nos falou que eles iam fazer uma nova descida. E aí, tive a chance de entrar no hospital e poder produzir fotos do lado de dentro.
Uma outra sorte, por conta disso, é que toda a equipe de televisão (tinham vários veículos de imprensa lá), todo mundo já estava lá do lado de dentro, nessa primeira descida que eles fizeram. E foram pro lado de fora, para daí fazer imagens do lado de fora. Quando fui pra dentro do hospital estava praticamente sozinho. Então, por isso consegui essa foto bem limpa, bem plástica, bem estética, sem grandes informações, sem grandes ruídos para desviar a atenção. Imagina que eu ia ter que estar disputando essa imagem com cinegrafista, com câmera, de repente não ia conseguir fazer ela tão clássica assim, tão bonita e potente do jeito que ela é, por ter conseguido essa liberdade de trabalhar praticamente sozinho lá. Sou muito grato a ela.

Depois que ganhei esse prêmio, procurei a família do menino. Achei que nada mais justo do que dividir este prêmio com a família, com ele, era perto do Natal, Dia das Crianças, então perguntei o que ele queria de Natal, e ele queria uma moto elétrica. Com parte do dinheiro do prêmio, comprei uma moto elétrica, fui levar lá na casa dele. Rapidamente ele já conseguiu alta do hospital, se recuperou e estava muito feliz com o brinquedo novo. Então, é uma história, acima de tudo, com um final feliz. Naquele momento que estava super pesado, ele tratando um câncer que tinha na época, e felizmente saiu dessa. Até hoje tenho contato com a família, e o Vicktor Gabriel está firme e forte.
Mescla: No seu site, você se apresenta como diretor de fotografia, não fotógrafo ou fotojornalista. Como aconteceu essa diferenciação?
Bruno: Sobre fotógrafo, diretor de fotografia, fotojornalista… Eu nunca consegui me enquadrar numa categoria, numa caixinha ou numa gaveta, em que a gente coloca ali o que a gente é de fato. Ah, “sou jornalista”, ou “sou fotojornalista”, ou “sou repórter fotográfico”, ou “sou diretor de fotografia”, ou “sou filmmaker”… Tem muita terminologia para quem trabalha com imagem, e para mim é sempre uma crise quando eu chego, tenho que fazer check in em algum hotel, tem que preencher um formulário e colocar profissão e sempre fico em crise pra saber o que escrevo. Na verdade, sou um entusiasta das narrativas visuais, acima de tudo.
Gosto de trabalhar com as narrativas visuais, sou inquieto, estou sempre tentando produzir coisas que nunca fiz e me testar e me desafiar em áreas em que ainda não fui desafiado. Gosto de viver as artes visuais, a fotografia e o vídeo, o cinema, o filme, por completo. Transito por todas elas. É claro que no mercado a gente vai ter categorias, vagas, salários, profissões, mas hoje para mim isso está muito misturado. Na verdade, não consigo mais sintetizar em um conceito o que eu trabalho. Gosto de me considerar assim: uma pessoa que foi se especializando em narrativas visuais e hoje não vê muito onde termina uma e começa outra. Eu me sinto mais completo e podendo desenvolver minha criatividade ao máximo transitando entre todas essas linguagens, relacionadas à imagem.
Mescla: Você passou pela Unisinos na Graduação em Jornalismo, depois no Mestrado em Ciências da Comunicação e ainda como docente. De que forma a trajetória acadêmica contribui para o profissional que é hoje?
Bruno: Me formei em Jornalismo, mestrado em Ciências da Comunicação, especialização depois, que fiz em Barcelona, dentro do fotojornalismo e da fotografia social. A trajetória acadêmica contribuiu totalmente para a minha trajetória profissional e vice-versa. Nunca tive esse “ranço” que a academia tem com o mercado e o mercado tem com a academia, sabe? Um achando que é mais que o outro e um criticando o outro. Me sinto completo pela trajetória que eu fiz em cada uma dessas frentes, teorizando, pensando, refletindo e agindo, produzindo e tendo experiência prática mesmo. A importância é mútua, é um equilíbrio que tem entre as duas.
Mescla: Daria alguma dica para jornalistas também identificados com a fotografia que estejam em início de carreira?
Bruno: A dica que tenho vai justamente ao encontro do que eu falei antes, desse profissional que hoje é híbrido, transita entre várias áreas. Eu diria para quem está interessado em fotografia não ficar fechado na fotografia, se abrir para a imagem como um todo. Mais do que fotografia, pensar em imagem: imagem estática, em movimento, imagem que é tecnológica, e que ganha outra cara quando está presente nas redes sociais. Imagem expressa em narrativas curtas do story ou do Tik Tok, e presente em narrativas longas no cinema, e presente numa fotografia para ser plástica, admirada e contemplada numa galeria de arte. Enfim, pensar imagem das mais variadas formas, dos mais variados formatos e linguagens, e transitar por esse maravilhoso mundo das narrativas visuais sem preconceito. […] Acho que é um grande atalho para conseguir se desenvolver nesse mercado de trabalho híbrido e complexo que a gente tem hoje.
Gosto de trabalhar com as narrativas visuais, sou inquieto, estou sempre tentando produzir coisas que nunca fiz e me testar e me desafiar em áreas em que ainda não fui desafiado. Gosto de viver as artes visuais, a fotografia e o vídeo, o cinema, o filme, por completo. Transito por todas elas.
Mescla: Destacaria em especial algum projeto ou etapa da sua carreira?
Bruno: Sempre gostei desses marcos que foram me dando a certeza de que eu estava no caminho certo. Tem um primeiro marco na graduação, na forma de concursos de fotografia que fui ganhando, todos eles estão no meu site. Tem uma área da minha bio onde eu deixo relacionadas as minhas exposições e os prêmios que ganhei. Então, já foi uma certeza de que eu poderia desenvolver algum trabalho relacionado à imagem, ainda na graduação. Depois, cada trabalho pelo qual passei, sou extremamente grato [a eles] e às conquistas que tive, as histórias que pude contar dentro deles. A história desse menino no Encontro de Super-heróis, a história do jovem contrabaixista, o Weslei, que é um menino que eu acompanhei desde o início, se formando em Música Clássica na escola de música da Ospa [Orquestra Sinfônica de Porto Alegre], e agora ele está lá em Genebra estudando música em um dos maiores conservatórios de música do mundo.

Esses marcos de histórias pessoais que eu fui podendo contar e compartilhar com outras pessoas e que a profissão me possibilitou. Até, claro, chegar ao maior deles, que sem dúvida foi o obs_cu_ra. Levar o meu trabalho para um nível inimaginável, para um lugar em que nunca imaginei que poderia ter uma repercussão, como os grandes centros e festivais de fotografia ao redor do mundo: o convite para ir à Eslovênia apresentar o meu trabalho presencialmente, e no International Center of Photography de Nova Iorque, enfim… Todos esses lugares que ainda hoje eu paro e fico pensando “puxa, o Bruno lá da graduação nunca poderia imaginar que um dia iria conseguir levar o trabalho dele para tantos lugares que sempre olhei com encanto, com admiração e não tinha noção, não tinha capacidade de imaginar que um dia poderia estar lá também”, participando e expondo meu trabalho nesses lugares.
Mescla: Podemos esperar novos projetos em breve?
Bruno: Com certeza, como falei antes, sou um inquieto das narrativas visuais. […] É um constante estágio de estar procurando oportunidades para me desenvolver mais e mais dentro das narrativas visuais. Ainda continuei inscrevendo o obs_cu_ra em vários festivais de fotografia nesses últimos meses, então é possível que ele seja selecionado para alguns desses eventos que ainda estão falando sobre a pandemia. E, também, a partir de agora, eu começo a mirar editais e convocatórias, já pensando em desenvolver outros trabalhos.
Tem uma agora aqui na minha cidade mesmo. Moro em Canoas, e tem um edital aberto do município na área cultural, em que inscrevi um projeto. A gente brinca que Canoas é a cidade do avião, [por causa] da praça do avião, até foi aprovada uma lei no ano passado que coloca a cidade como a capital do avião. Aí, pegando esse gancho conceitual, inscrevi um projeto na Secretaria de Cultura justamente para, a partir de fotografias aéreas, a partir de fotografias obtidas com drone, documentar essa cidade e mostrá-la dentro de um ponto de vista que ela se coloca, dentro desse ponto de vista aéreo, pensando a capital do avião. Está concorrendo em um edital público, vamos ver se vai ser aprovado.
O obs_cu_ra também está concorrendo em um edital aqui do estado, não do município, para ser exibido para as pessoas na forma de exposições a céu aberto, em projeções fotográficas, que é algo que acho que tem absolutamente tudo a ver com o projeto, que ele já nasce de fotografias obtidas através dessa projeção analógica, da câmera obscura, apresentar ele agora para as pessoas na forma de projeção digital. O projeto foi classificado, vamos ver se ele vai conseguir ser selecionado, dentro dos projetos que serão contemplados neste edital. Esses são dois editais públicos que estão, neste momento, aguardando aprovação.
E daqui pra frente, é isso. É encontrar inquietações e motivações para seguir me desenvolvendo dentro das narrativas visuais, seja como for. Como foi com o obs_cu_ra, um projeto arcaico, rudimentar, analógico, seja com vídeo, com produção de conteúdo para as redes sociais, com fotografias aéreas, enfim, o que essa mente inquieta e criativa permitir e desejar e imaginar daqui pra frente, pra continuar de novo nessa fantástica vida e privilégio que é a gente pode viver das narrativas visuais.
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Marina Chiapinotto
“É um curso que foi aprendendo
a se atualizar e amadureceu muito
bem ao longo do tempo”

Jornalista profissional, com Especialização em Projetos de Mídia e Mestrado em Ciências da Comunicação, Marina iniciou na fotografia pelo fotojornalismo. Sua carreira como professora no Ensino Superior começou em 2008. Em 2012, entrou para o corpo docente do curso de Fotografia da Unisinos. Em 2018, aceitou o convite e assumiu a atividade de coordenação. Marina tem se dedicado a trabalhar com fotografias autorais e documentais desde 2016.
Para Marina, o curso sempre foi direcionado para aproveitar as mudanças no mercado de trabalho e na tecnologia. “É uma graduação que foi aprendendo a se atualizar e amadureceu muito bem ao longo do tempo”, avalia. A professora entende que esse amadurecimento, adaptação e atualização do curso aconteceu naturalmente, já que a profissão de fotógrafo mudou bastante na última década.
Há dez anos, lembra Marina, a atuação de um fotógrafo era ainda muito nichada. Por conta disso, os alunos que chegam nesse momento no curso têm uma visão diferente daqueles que frequentaram as primeiras turmas. “Em 2011, muitos estudantes já trabalhavam na área e buscavam apenas uma certificação. Hoje em dia, é diferente. Muitas vezes, o aluno entra sem conhecer nada de fotografia com a intenção de aprender, de fato, na universidade”, explica.
O mercado de trabalho e as redes sociais foram aspectos que também modificaram consideravelmente a atividade de fotógrafo, acredita Marina. Para a coordenadora, a área de eventos está no topo da pirâmide das oportunidades de trabalho, diferente de dez anos atrás, quando o posto era ocupado pela fotografia de moda. “As mídias sociais são o principal portfólio do profissional hoje em dia. Cada vez mais, a fotografia é usada como uma forma de comunicação. Por isso, hoje, o fotógrafo precisa ser multifacetado”, afirma.
Beatriz Sallet
“O curso foi constituído sobre
três pilares: excelência técnica,
excelência estética e a reflexão
do fazer fotográfico”
Beatriz descobriu que gostava de atuar como repórter fotográfica ainda quando cursava o segundo ano de Jornalismo. Formada, começou a carreira em 1996 como fotojornalista freelancer e assessora de imprensa. Tempos depois, já como professora na Unisinos, ajudou a idealizar o curso de Fotografia, que estreou em 2011. Beatriz foi a primeira coordenadora, cargo que atuou até 2018. Atualmente, segue como professora. “O curso foi constituído sobre três pilares: excelência técnica, excelência estética e a reflexão do fazer fotográfico”, recorda.
Assim como Marina, Beatriz enxerga que o curso está sempre em atualização e amadurecimento. Ainda assim, na opinião dela, é uma área que carece de mais estudo. “Quanto mais formos alfabetizados para a imagem, melhor será, já que vivemos em um mundo com enorme demanda de exposição de imagens”, salienta.
As redes sociais limitaram um pouco a prática profissional do fotojornalismo, acredita Beatriz. “A facilidade de ter uma câmera no telefone nas mãos da maioria da população democratizou a produção desse tipo de fotografia, mas acabou tirando um pouco de espaço de profissionais dessa área”, analisa a professora.
Beatriz percebe que, agora, todos os alunos são nativos digitais e estão extremamente familiarizados com as novas tecnologias. Mas, comparando com dez anos atrás, a professora observa que os novos estudantes estão chegando com menos conhecimento sobre o que é fotografia. “É por isso que, no curso, o aluno irá aprender a história da fotografia, em como chegar nos três pilares essenciais e, principalmente, em como exercer o seu olhar fotográfico”, sublinha.
Timóteo Flores
“A graduação é o que há de mais importante. Foi uma realização pessoal muito grande, além de ter me dado muita referência e contato para o seguimento na profissão”
Timóteo tornou-se fotógrafo por hobby. Ele entrou no curso de Fotografia da Unisinos quase que por acaso. “Eu ia me inscrever no vestibular para Publicidade e Propaganda e, no dia, fiquei sabendo da existência da graduação em Fotografia”, lembra.
Natural de São Leopoldo, o fotógrafo foi o primeiro graduado do curso. “A graduação é o que há de mais importante. Foi uma realização pessoal muito grande, além de ter me dado muita referência e contato para o seguimento na profissão”, revela.
Timóteo trabalha desde 2014 com fotografia de esportes e eventos, além de atuar como freelancer em fotografia de publicidade. Para ele, a ajuda e oportunidades dadas por professores foram essenciais para o seu crescimento no mundo da fotografia. “Trabalhei em alguns lugares por indicação de professores. Eles sempre tiveram a intenção de que o aluno aprendesse o máximo possível no curso, por isso eram muito atentos e prestativos”, comenta.
Para o egresso, o mercado da profissão mudou bastante ao longo desses dez anos. “Atualmente, ficou mais fácil de entrar nesse ambiente, mas mais difícil de se destacar. Hoje em dia, comprar uma câmera e iniciar uma carreira acontece de maneira mais democrática. Agora, como as redes sociais tornaram todos em produtores de conteúdo e imagem, ficou mais complicado ter um trabalho reconhecido no meio de tantos”, afirma Timóteo.
Dez anos em… imagens, claro!
A seguir, uma pequena amostra de trabalhos realizados por alunos que foram destaque na última década.
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]]>A ideia de organizar esse trabalho surgiu quando o fotógrafo se deparou com fotos antigas que ele fez. Isso levou Goelzer a refletir sobre o que aquelas imagens representaram para ele no período em que foram registradas e o que representam agora, com toda a vivência que ele teve desde então. Então, ele decidiu fazer um recorte do seu período como fotógrafo do DDC. “Isso é uma coisa que eu gosto na fotografia: a possibilidade de voltar para algo que aconteceu, mas com a experiência e vivência que a gente tem agora”, comenta o fotógrafo.
A exposição foi realizada por meio de cinco vídeos curtos onde são mostradas as fotos juntamente com depoimentos de Goelzer sobre como ele se sentiu durante as apresentações expostas. O fotógrafo escolheu esse formato para agregar sua voz com as fotografias e, com isso, dar um sentido para elas além do que é captado pelos olhos. “Se eu trouxesse palavras escritas, eu me expressaria pela voz de outra pessoa que estivesse lendo. Colocar a minha voz na imagem é algo muito mágico para mim”, explica.

Para Goelzer, é importante manter a produção e os eventos culturais em meio à pandemia do novo coronavírus para os artistas deixarem claro que ainda estão vivendo. “É muito importante para colocar o corpo da obra e o corpo do artista em um lugar, mesmo que seja um lugar pandêmico. É isso o que a gente pode fazer agora, depois a gente não sabe ainda”, defende.
Porém, segundo o fotógrafo, exposições culturais são um desafio em meio a esse cenário. “É muito difícil para quem vive de cultura estar preso nessa realidade, enfrentando dificuldades que vão desde emocionais até sanitárias, e mesmo assim atuar na criação, produção e difusão da arte”, lamenta Goelzer. “E em exposições virtuais, é muito complicado fazer com que ela aconteça e seja consumida, compreendida e apreciada pelo público. A arte, agora, precisa de mais força do que antes.”
Quem tiver interesse em conferir os vídeos que compõem a exposição “Imagens sentidas, imagens vividas”, pode acessá-los através do YouTube, Instagram, Twitter e Facebook do DDC da UFRGS.





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]]>Formada em dezembro de 2019, Vitória apresentou em ambas premiações trabalhos produzidos durante sua trajetória acadêmica que abordam vivências pessoais dela como mulher negra. Por exemplo, uma vez em que ela viajou para São Paulo e as pessoas ficaram chocadas quando ela disse que é gaúcha, pois diziam conhecer gaúchos que afirmavam que no sul não tem negros. “Gaúchos saindo daqui para afirmar lá fora que no sul não tem negro quer dizer duas coisas. Um: a gente é invisível aqui; dois: um estado que supostamente não tem negros se torna socialmente higienizado, consequentemente melhor do que o resto do Brasil”, explica a fotógrafa.
Para retratar isso, Vitória apresentou um trabalho analógico feito para a Unisinos que não deu certo, pois na revelação as imagens ficaram muito esbranquiçadas. Mesmo assim, ela guardou as fotos, que acabaram servindo como uma representação metafórica do processo de apagamento e do domínio do branco sobre o preto. Além desse, também foram apresentadas fotografias retratando inseguranças que ela teve com sua aparência, seu desejo por um mundo onde as mulheres não sofram assédio e pesquisas que ela fez sobre a diáspora africana.

Vitória diz que sempre acreditou que artistas nascem com sua criatividade e talento, mas o curso de fotografia da Unisinos foi fundamental para ela entender que existe um processo entre querer expressar algo e conseguir executar isso. “Geralmente os meus projetos vêm de acontecimentos cotidianos e de coisas que eu fico pensando durante muito tempo, até que eu vou pesquisar sobre o assunto e procurar referências visuais e teóricas”, diz. Porém, ao buscar referências teóricas, Vitória sentiu que havia pouco material produzido por pessoas negras, o que dificultou seu trabalho.
A fotógrafa já havia sido selecionada em 2019 para o prêmio da Aliança Francesa de Artes. Ela acreditou que levaria anos para ter um trabalho exposto, e ficou muito feliz não apenas por ter sido selecionada pela segunda vez esse ano, mas também por ver um crescimento na diversidade entre os selecionados da premiação. “Esse ano a seleção da mostra está trazendo artistas bem diversos em suas representatividades, como a Mitti Mendonça e o Xadalu, que ficaram com as duas primeiras colocações. Isso demonstra que há o interesse e o esforço por parte dos organizadores em dar visibilidade e espaço de inclusão a todos”, afirma.
A professora e coordenador do curso de Fotografia, Marina Chiapinotto, diz que sente um orgulho enorme de ver uma fotógrafa que foi sua aluna selecionada nessas premiações. “A Vitória é uma aluna que representa, como todos os outros, um pouco do que é a construção da Fotografia na Unisinos. Ela desenvolveu múltiplas habilidades durante o curso, e possui uma voz importante dentro da representatividade”, conta a coordenadora.
Atualmente, Vitória trabalha como fotógrafa freelancer e pretende se especializar em direção de arte para cinema. Ela conta que essas premiações servem como incentivo tanto para ela quanto para outros fotógrafos no início da carreira para que sigam com suas produções.
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]]>E, com tantos episódios bizarros acontecendo ao mesmo tempo, o papel da mídia fica ainda mais evidente. Se a função do jornalismo sempre foi informar ao público sobre os atuais eventos, isso se tornou muito mais necessário agora, com tudo o que vem acontecendo no mundo inteiro. Afinal, trazer a visão da Ciência, da Medicina, dos agentes públicos, dos cidadãos é o que os meios podem fazer para nos ajudar enfrentar as incertezas de um hoje, que insistem em não passar.
Porém, a informação não precisa ser transmitida apenas por meio dos textos das reportagens, notícias e boletins. Fotos e ilustrações também dizem muito sobre sobre o que estamos vivendo. E isso se torna ainda mais útil quando a imagem for bem pensada e trabalhada, resultando em algo que fica marcado na memória de quem vê.
A professora Beatriz Sallet, do curso de Fotografia da Unisinos, explica que fotos impactantes são fundamentais no fotojornalismo. “Porém, com um olhar treinado para ver, os fotojornalistas conseguem se distanciar um tanto da cena mais explícita e chegar a uma construção simbólica, quando a semiótica trabalha”, diz a professora.
Pensando nisso, a equipe Mescla pediu para que alguns professores da Escola da Indústria Criativa sugerissem capas e ilustrações de jornais, revistas e cadernos que retratem de forma inteligente e criativa o início desta década. São ilustrações que mostram desde a pandemia do novo coronavírus, até acontecimentos ligados ao governo federal e as manifestações antirracismo que tomaram o mundo recentemente.
Confira:

A escolha de Pedro Osório, professor do curso de Jornalismo, foi a capa do jornal O Globo do dia 10 de maio, período em que o Brasil passou das 10 mil mortes causadas pelo novo coronavírus. Aqui, ao invés de foto ou ilustração, a capa foi preenchida com nomes de pessoas que perderam a vida por conta da doença, para lembrar os leitores que as vítimas não são meros números, mas, sim, seres humanos com nomes, sonhos e histórias. “É impactante, pois o signo ‘palavra’ carrega um significado associado ao raciocínio, à compreensão, à explicação para além das sensações inerentes a outros signos”, explica o professor. “Mas a capa não deixa de carregar e causar também uma poderosa sensação, decorrente da identificação dos mortos, da explicitação dos seus nomes, cada um significando uma vida, um viver distinto, um sujeito único, que nos deixou para sempre.”

Já o fotojornalista e professor do curso de Jornalismo, Flávio Dutra, selecionou a capa do caderno “Ilustrada”, da Folha de S. Paulo, na edição do dia 20 de junho. Aqui, vemos o ator Mário de Frias, escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para ser o novo Secretário Especial da Cultura, posando seminu em um ensaio que fez nos anos 2000 para o site Paparazzo. A capa, sexualizada com o sentido de desqualificar o ator que não tem experiência como gestor cultural, chamou a atenção do professor Dutra. “A maneira de se opor ao descalabro não é promovendo descalabros. Se contrapor à falta de ética é ser ético ao extremo. Usar qualquer arma à disposição é dar motivo para que os outros digam ‘imprensa lixo’”, argumenta o professor. “É irresponsável com o papel que a imprensa tem neste momento – pois a fragiliza, e é irresponsável quanto à luta contra a homofobia, pois a justifica”. De fato, uma capa memorável, mas pelos motivos errados.

Nikão Duarte, professor do curso de Jornalismo, optou por uma capa publicada em diversos jornais do país inteiro. Periódicos como O Globo, Folha de S. Paulo, Estadão, Zero Hora, entre outros, se uniram e publicaram capas idênticas em suas edições do dia 23 de março. Nela, vemos um fundo azul com os dizerem “Juntos vamos derrotar o vírus”, acompanhado também da hashtag #imprensacontraovirus. Trata-se de uma mensagem de união dos jornalistas para combaterem a pandemia do novo coronavírus por meio da disseminação de informações. “Foi chamativo pelo impacto coletivo e por avançar sobre um dogma do ambiente jornalístico: o furo, a exclusividade. Uma rara unidade na imprensa de referência brasileira, em nome de um bem maior, o combate à pandemia”, explica o professor.

O professor Everton Cardoso cruzou fronteiras e selecionou a capa da edição de 22 de junho da revista americana New Yorker. Aqui, foi retratado o episódio de assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos, que gerou uma explosão de manifestações contra o racismo no mundo inteiro. “Essa construção dá a ideia de que a luta de um negro também é luta de todos os negros. E uma revista como a New Yorker trazer uma capa dessas tem muita força. Isso diz muito sobre o posicionamento editorial da revista. Não estamos falando de uma publicação leviana, a New Yorker é uma referência no mundo inteiro”, afirma Cardoso.

A professora Beatriz Sallet, do curso de Fotografia, selecionou uma foto compartilhada no Instagram da Páginas Amarelas HQ’s. De autoria de Roberto Parizotti, a foto foi tirada em São Paulo no dia 13 de junho, três dias após a reabertura dos shoppings na capital paulista. O fotógrafo tirou a foto de um ângulo em que o piso em frente ao shopping forma um crucifixo, dando a entender que o local é um caminho em direção à morte. “Esse primeiro plano revela semioticamente o resultado que foi constatado dias depois com a reabertura do comércio em SP: o aumento exponencial do número de infecções por Covid-19”, explica a professora.
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]]>A professora Rochele Zandavalli, do curso de Fotografia da Unisinos, foi indicada na categoria “destaque em exposição individual”, pelo trabalho “Nosso lugar ao Sol”. O projeto ficou exposto no Centro Cultural da UFRGS de novembro de 2019 até março deste ano, trazendo uma narrativa dividida em três eixos que questiona desde a relação humana com a natureza até a censura e a fetichização do corpo feminino.
Rochele conta que “Nosso lugar ao Sol” consiste em recortes de diversas produções que ela fez desde 2009. Na primeira sala da exposição, a fotógrafa trouxe retratos da relação humana com a morte, do pertencimento à natureza e da efemeridade da vida. Na segunda sala, Rochele trabalhou com a figura feminina e a força que as mulheres podem dar umas para as outras por meio da união. Aqui, foram expostos retratos de grupos de mulheres felizes e unidas em meio à natureza. Por fim, na terceira sala, a exposição de Rochele trouxe um vídeo com imagens de mamilos censurados que ela pegou no Instagram.
“É um trabalho muito voltado para a expressão do corpo feminino, da liberdade, do comportamento. Também há uma crítica à forma como a gente se relaciona com as imagens nas redes sociais, principalmente quando envolvem corpos femininos, e com o quanto a gente naturaliza uma certa violência contra esses corpos”, explica a professora. “O corpo feminino está sempre sendo jogado entre a censura e a pornografia. E nesse jogo, as mulheres perdem dos dois lados.”
Para produzir a exposição, Rochele utilizou, principalmente, a fotografia analógica e algumas técnicas de pintura, como aquarela e até esmalte de unha. A fotógrafa diz que se sente muito grata pela indicação ao Prêmio Açorianos de Artes Plásticas e pela oportunidade de ter realizado essa exposição juntamente com a UFRGS. Principalmente por ela ter sido feita em 2019, um ano em que, conforme Rochele, a universidade sofreu muitos ataques ideológicos, políticos e estruturais contra a educação e a cultura.
“E este ano, essa indicação ao prêmio também é um grande feito. Por conta da situação de isolamento social em que estamos, a exposição acabou sendo quase que profética, até de uma forma irônica. Ela se chama ‘Nosso lugar ao Sol’, fala sobre um lugar amplo, externo, livre e coletivo, que é justamente o que menos estamos tendo agora. ‘Nosso lugar ao Sol’ é tudo o que estamos querendo recuperar nesse momento”, finaliza.
O resultado do XIII Prêmio Açorianos de Artes Plásticas será divulgado nesta sexta-feira, dia 19. A equipe Mescla deseja boa sorte para a professora Rochele Zandavalli!










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]]>O crime que ocorreu no início da década chamou a atenção do artista Tomaz Klotzel. “Eu comecei a ler mais sobre o assunto e entender mais sobre esta região da Amazônia. Então, teria o segundo julgamento do mandante do assassinato de José Cláudio e Maria, fui para o julgamento e acabei indo para a região de Marabá”, conta. Tomaz ficou no local por um mês e meio, conheceu a CPT – Comissão Pastoral da Terra, órgão que dá assistência aos povos da região amazônica e visitou os locais onde tinham ocorrido os assassinatos, afinal, ali havia uma disputa de terras em que outros casos já tinham ocorrido.
Conversou com testemunhas, parentes, sobreviventes e iniciou pesquisas nos registros policiais. Ao ler o texto de julgamento começou a entender os casos. Aos poucos percebeu que o que tinha em mãos poderia ser denunciado. Para isso, usou sua arte.
“Quando eu chegava nos locais eram lugares sem memória, como uma beira de estrada, uma rua, ou capoeira na mata. Então, o interessante era que os eventos desapareciam, mas os locais davam testemunho do processo de invisibilidade. Um processo violento que tem um objetivo específico, invisibilizar populações. Ao mesmo tempo, eu vi que a coleção de relatos que eu tinha me ajudava a reconstruir essa imagem. Eu comecei a pensar em uma maneira de apresentar um trabalho que unisse a fotografia e o texto e que isso pudesse construir uma imagem” – Tomaz Klotzel
Assim, nasceu Ousadia, Majestade!
Meu esposo era um sindicalista, vivia na luta, trabalhando, lutando para adquirir um pedaço de terra para trabalhar, ele e a minha filha. E acabou sendo assassinado aqui dentro de casa. E no dia do assassinato a casa aqui estava cheia de gente. Tinha até uma criança recém nascida, deitada na rede. – Cleonira Barbosa da Silva Torres, viúva de Pedro de Oliveira Torres (Foto e Texto: Tomaz Klotzel)
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Aqui foi aqui que aconteceu a tragédia. Hoje é uma casa diferente, era uma casa de madeira na época, simples. Eram 7 horas da noite, vieram dois rapazes, bateram na porta, entraram. Executaram a minha mãe, Cleonice, meu pai José e meu irmão caçula que estava na rua. – Edinaldo Campos Lima, filho das vítimas (Foto e Texto: Tomaz Klotzel)
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A Curva do S é um lugar de tristeza para mim. Porque nós convivemos ali. Eu não sinto aquele lugar ali como a moradia de pessoas alegres. A gente sente a presença, quando chega naquele local – não sei se acontece com outras pessoas, ou se é porque isso não sai da minha cabeça, e acho que só vai sair quando eu morrer mesmo. – Maria Jesuíta de Araújo, sobrevivente do massacre (Foto e Texto: Tomaz Klotzel)
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A moto saiu da ponte e caiu aqui na frente. O tiro pegou de lado nele. Terminaram de executar ele e depois executaram a Maria. – Zé Rondon, cunhado das vítimas. (Foto e Texto: Tomaz Klotzel)
Confira o áudio completo
Tomaz criou a obra como uma forma de indagar como se constrói uma imagem e sua constituição. Atualmente, está em exposição no Vídeo Brasil, até 2 de fevereiro.
“A resolução expográfica do trabalho é uma das maneiras de apresentar. A outra é a que apresentei no MARGS, uma palestra com um texto não exatamente explicativo, mas que lida com algumas ideias e questões poéticas. O trabalho é uma coleção de dados que pode ser apresentada de diferentes formas” – Tomaz Klotzel
Ousadia era uma expressão que a Maria tinha, ela dizia: “É necessário ousadia para conviver com a floresta”, o que é muito interessante, porque eles enfrentavam grandes madeireiros. Existe uma expressão que é consórcio, quando vários poderes se reúnem nessa violência que visa silenciar, Zé Cláudio e Maria foram assassinados por um consórcio de madeireiros e de outros poderes. Ousadia não era da luta, mas do convívio. A ousadia de ter a coragem de não batalhar. Já Majestade é o nome de uma castanheira centenária, 60m de altura, que está no lote de terras do casal. – Tomaz Klotzel

Tomaz ,40 anos,tem bacharelado em Fotografia pelo Senac/SP e se considera um nômade: está onde tem trabalho. Suas andanças incluem São Paulo, Marabá, Buenos Aires, Rio de Janeiro, mas suas raízes estão em Pelotas (RS). O pai assinava a revista National Geographic, cujas fotos o encantavam. A fotografia de guerra era uma de suas aspirações, queria viver coisas extremas e liberar o hormônio da adrenalina.
Este gaúcho já desgarrado de seu pago levou um tempo até se entender como artista, resultado do trabalho Meteora, no qual fez um cruzamento de investigações sobre o tempo a partir da ativação de ideias como memória, rito e materialidade. “Foi quando eu tive mais contato com a arte contemporânea. Lá eu conheci outros artistas e minha cabeça explodiu”, afirma Tomaz que prefere não delimitar seu trabalho dentro de mídias. “Para mim, nunca fez muito sentido essas divisões (Fotografia, Cinema, Pintura, Música, Poesia), pelo menos na história da arte, século XX, os caras exploravam os limites. Como assim fotografia? Aí eles faziam fotogramas. A fronteira é um lugar específico”, conta o artista.
O artista também fala sobre ausência. Para ele, as artes visuais sofrem um esgotamento que é do visual, afinal, como podemos fazer uma imagem que seja interessante? Até que ponto podemos trabalhar com ela? “Talvez, assumir uma incapacidade de registro da fotografia, pelo consumo excessivo de imagens algumas coisas se tornam invisíveis”, diz o artista que usa justamente a ausência em seu trabalho Ousadia, Majestade!
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