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]]>É através dessa linha do tempo que descobrimos alguns detalhes curiosos sobre o famoso cantor. Por exemplo, que ele sempre causou “problemas” nas instituições onde passava. Desde os 5 anos, estava mais interessado em cantarolar e batucar do que prestar atenção nas aulas. Seja na escola Liceu Porto-Alegrense, seja no Exército. Aliás, foi lá que, a partir dos 15 anos, o então soldado Rodrigues recebeu diversas punições por indisciplina. Para protestar contra a má qualidade da comida do local, a saída foi, claro, compor um samba.

A Ilhota
Lupi, como era chamado pelos íntimos, amigos próximos e admiradores, cresceu na Ilhota, uma ilha que existiu no século passado em Porto Alegre. Ficava localizada na área que hoje vai da Praça Garibaldi até a Avenida Ipiranga, se espalhando em direção à Rua Lima e Silva por um lado e, pelo outro, até a Avenida Getúlio Vargas. A região abrigava pessoas humildes, em sua maioria pretas. Como era um ambiente alvo de muitos preconceitos e isolamento social, os moradores viam na música uma forma de tornar mais leve a vivência naquele pedacinho da cidade. Então, essa experiência de morar na Ilhota e ter contato com o mundo boêmio desde sempre influenciou muito a obra de Lupicínio.
Segundo informações da exposição, a Ilhota foi, aos poucos, sofrendo com um processo de gentrificação – mudança de paisagens urbanas em áreas populares que apresentam sinais de degradação física, transformadas por obras públicas em localidades mais bem estruturadas, que passam a ser ocupadas por grupos mais abastados –, onde os moradores foram sendo removidos. Muitos recorreram ao bairro Restinga, dezenas de quilômetros distante. Foi uma tentativa de “branqueamento” da cidade. Portanto, essa é uma parte importante da história não só de Lupicínio Rodrigues, mas da capital gaúcha também.
“Ilhota, minha favela moderna,
Onde a vida na taberna
É das melhores que há.
Ilhota, arrebalde de enchente
E que nem assim a gente
Pensa em se mudar de lá (…)
Ilhota, a tua simplicidade
É que dá felicidade
Para o teu pobre morador.”
(Composição de Lupicínio em 1937)
Vários Lupis
Se vê, através da exposição, que Lupicínio teve diversas faces. Além de cantor e compositor, também foi
O que muita gente não sabe é que Lupi foi o autor do Hino do Grêmio. Ele era um apaixonado por futebol e, mais especificamente, pelo tricolor. Como torcedor, acompanhou assiduamente no estádio os jogos do clube do seu coração, assim como muitos outros gaúchos. Chegou a jogar nos dois times amadores da Ilhota: Lagarto e Ferreira.
Em 1953, uma greve de motoristas e cobradores de bondes e ônibus dificultou o deslocamento da torcida para um jogo do time. A solução foi caminhar até o Estádio da Baixada. Foi assim que surgiu o primeiro verso do hino: “Até a pé nós iremos”.

Lupi e o rádio
Lupicínio viveu o seu auge na época de ouro do rádio, entre 1930 e 1960, quando esse era o grande veículo de comunicação no Brasil. Vários artistas gravaram e regravaram composições do músico nesse período.
A televisão toma o lugar do rádio na preferência popular a partir da década de 1960, momento em que também se solidificaram os gêneros musicais da Jovem Guarda, Bossa Nova e do rock como os preferidos dos jovens. O estilo musical de Lupi parecia não combinar mais com esses novos tempos. Apesar das gravações de suas músicas continuarem, é um período de relativo “esquecimento” de Lupi pela mídia.
Falando mais sobre as gravações por outros músicos, a obra de Lupi foi redescoberta e interpretada por vários cantores consagrados a partir da década de 1950 até os dias atuais. A exposição traz um apanhado dessas regravações e exibe um mural cheio das centenas de nomes que ajudaram a popularizar as canções. Além do mural, são disponibilizadas apresentações de diferentes épocas que relembram a obra de Lupicínio, como interpretações de Elza Soares, Gilberto Gil, Andréa Cavalheiro, Glau Barros e Pamela Amaro.

Ao final da trilha pela vida de Lupicínio, a exposição agracia o público com um show simulando uma performance ao vivo através de um holograma. Tudo isso com um ambiente muito bem preparado representando um bar, local que Lupicínio adorava. Tem até cardápio disponível. Mas não é um cardápio comum. Ao abri-lo, se vê, na verdade, um “menu dos amigos”, com nomes de diversos parceiros que passaram pela vida de Lupi. É uma forma singela de valorizar essas pessoas que se fizeram presentes e foram importantes para ele.
Nota do repórter: é muito indicado que os leitores desta reportagem façam uma visita à exposição, pois não há foto ou texto capaz de expressar ou chegar perto da experiência de estar no museu sentindo todas as homenagens e tributos que relatam a vida e a obra de Lupicínio Rodrigues. Uma ilustre figura da música nacional, muitas vezes esquecida pelas gerações mais novas. Aproveite até o dia 23 de julho para ir até o Farol Santander. Vale a pena conferir!
Você pode ter um gostinho e se preparar para a exposição ouvindo a playlist com os maiores sucessos regravados de Lupicínio Rodrigues e uma coletânea de músicas dele organizada em 2011.
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Em uma noite de segunda, a repórter que aqui escreve conversou o Felipe, em um bate papo descontraído. De dentro de um estúdio com as paredes cobertas por isolamento acústico, ele me atendeu por chamada de vídeo e compartilhou uma parcela da sua vasta, precoce e encantadora experiência. Confira abaixo a íntegra dessa entrevista embalada por muita música e inspiração.
Mescla – Você é formado em Produção Fonográfica pela Uni, certo? Pode contar um pouco sobre a sua formação e o impacto dela no profissional que você é hoje?
Felipe Saul – Para começar, nesse exato momento, estou aqui no estúdio, com o Pedro [Nascente, também egresso da Uni e membro da Yellow Boulevard]. Ele trabalha aqui, nessa produtora [Allas.cc], e eu estou fazendo um freela para eles durante essa semana, por causa disso. Então, dá para dizer que começamos por aí. O curso foi onde de fato comecei a conhecer as pessoas e a ir atrás de trabalhos com música, ou com áudio, ou enfim… Fiz um estágio quando estava no meu segundo ano de Unisinos. Fiquei um ano em uma rádio, tendo um programa só meu. As minhas horas complementares foram praticamente todas aproveitadas ali, porque eu fazia tudo – a produção do programa, a divulgação, pautas, lançamentos, enfim, abordava vários temas. Foi o meu primeiro trabalho com áudio, “oficial” como a gente fala, mas toco na noite desde os 13, o que é bastante tempo. A Produção Fonográfica teve isso, de eu começar a conhecer a galera. Por exemplo, eu falo bastante do Pedro, porque nos conhecemos no primeiro dia de faculdade e estamos juntos até hoje. Tivemos N projetos juntos, o maior de todos foi a Yellow Boulevard, em que tocamos por muito tempo, apesar de agora a banda estar parada. São coisas que tu vai construindo, vai conhecendo as pessoas e vai tendo aula com o Frank [Jorge], e aí toda aula é um aprendizado. Um aprendizado para um monte de piada (risos). Tu vai adicionando na tua vida. Volta e meia o Frank faz umas brincadeirinhas conosco, mandamos umas fotos para ele do nada no WhatsApp. É essa coisa de ficar amigo dos caras que estão no meio da música para sempre, e é uma relação mega sincera. Tu vai construindo essas amizades, essas pontes, e foi assim que eu fui parar no SXSW Music Festival, na verdade, com o Akeem. Porque a gente se conhecia de “cara, tu tem o projeto Akeem Music, eu sou o Felipe, eu toco na Yellow Boulevard, sou guitarrista” e tudo mais. E fomos fazer um brique de guitarras um com o outro, e rolou uma conversa assim: ele disse “estou sem banda pra ir”, e eu falei “cara, eu vou contigo”, foi isso. Essa é a loucura da Produção Fonográfica, tu te coloca nesse meio da música, ou em qualquer meio em que tu vá atuar na vida. Se tu for jornalista, por exemplo, vai conhecer a galera do jornalismo, vai começar a fazer as pontes, vai cada vez subindo a escadinha. Acho que a Produção Fonográfica foi um degrau, não diria que o primeiro, porque a música começa bem antes, mas é um degrau bem importante. É um networking, é basicamente tudo da vida de todo mundo, nesse século XXI.

Mescla – Acompanhamos uma ascensão que parece tão rápida de alguns artistas no meio da música, e também às vezes se escuta que “é uma área para a qual não se larga currículo”, a galera vai muito pro YouTube hoje em dia. Na sua visão de músico, produtor musical, formado em Produção Fonográfica, como avalia essa formação mais formal, vindo do ambiente acadêmico?
Felipe – Assim como milhões de profissões que existem por aí, ser músico de fato não requer que tu tenha um diploma. Muitas vezes, esse diploma não conta para muita coisa. Jamais vou falar para as pessoas não fazerem faculdade, mas em inglês o termo é “outcome” – o que quer dizer que são inúmeras as coisas que aconteceram com a pessoa para ela chegar nesse resultado. “Ah, ela teve mais vontade”, às vezes não é isso, não significa que ela teve mais vontade de, por exemplo, estar em uma posição que é mais benéfica para ela do que para outra, e sim porque ela tem contatos. Às vezes, ela deu sorte. E muitas vezes a pessoa estudou para caramba. Costumamos ver isso nos esportes, onde as pessoas treinam, treinam, treinam… Elas buscam se aprimorar, como em muitas profissões. Tenho parentes que estudam Toxicologia Analítica, por exemplo, e estão lá ralando todo dia para descobrir um monte de paradas que colocam na nossa comida, ou desenvolver tratamentos para o futuro. E eles estão ralando, ralando, ralando para isso ficar cada vez melhor: tanto eles quanto o mundo. Acho que é a mesma coisa com o artista e com qualquer profissão. Sou uma pessoa que tem muita vontade de fazer o que faz, então é por isso que eu faço. Nas artes, em geral, se tu não tiver uma paixão absurda pelo negócio, tu desiste muito fácil. É uma área menos apreciada na cultura, acabamos às vezes ganhando menos, tendo que passar por mais perrengues e tudo mais. Acho muito massa que, por exemplo, citei na pergunta anterior que tive esse network. Então, isso para mim é a parte mais legal da faculdade: conhecer pessoas que têm mais a ver com as tuas ideias, outras nem tanto. Acho muito verdade aquilo de que as pessoas vão para a faculdade para se descobrirem, porque para muita gente tu começa um semestre ali e bah, é o fim do mundo se não gostar desse curso que escolheu para si. E, na verdade, nada a ver. Está todo mundo se descobrindo, todos os dias. Conheço pessoas que querem mudar de profissão aos quarenta, cinquenta. Acho que a resposta foi tão complexa quanto a pergunta (risos).
Mescla – Tem alguma dica para quem está estudando ou se formando em Produção Fonográfica agora?
Felipe – A melhor dica que eu recebi na minha vida foi “tenha muita cara de pau”. Falo isso para mim todo dia, porque sou muito tímido. Sou de uma cidade pequena, Canela, na Serra Gaúcha. Sempre fui mais quieto. Sempre quis fazer muita coisa bem, mas ficava relutante em chegar no cara de uma rádio e perguntar “tem uma vaga pra mim, de qualquer coisa? Só quero trabalhar com o som, só isso”, sabe? Acho que é muito valioso a pessoa ser despachada, porque não consigo ser assim todo dia. Conheço uma galera que é muito cara de pau, de “ah, vamos fazer isso”, “vamos” e já estão lá fazendo. Tive um choque de realidade. Crescemos com o surrealismo de que fora do Brasil as coisas super funcionam e caem de mão beijada para ti, e isso é totalmente mentira. Tu tem que ralar igual, se não duas vezes mais para conseguir as coisas, porque onde a coisa funciona é onde mais tem competição. Eu via as bandas norte-americanas tocando na rua. Eram bandas muito profissionais. “Queria estar no SXSW, então vou dirigir a minha van aqui de Chicago, atravessar os Estados Unidos inteiros até Austin, no Texas, e vou tocar lá”, entende? Óbvio, no Brasil isso é muito difícil de fazer, estou dando só um exemplo prático de lá, onde tem estradas boas, entre outras coisas… Tem N fatores, mas é só um exemplo de “tenha cara de pau pra caramba”, em qualquer coisa na vida. Fala com as pessoas e, se tiver dúvida, pergunta. Não tem como dar errado, tu só vai aprender. O SXSW só rolou para mim por causa disso, e depois nunca mais, porque na verdade o Akeem foi selecionado e eu achei incrível. Sem brincadeira, conheço esse festival desde 2009, quando eu tinha 12 anos, porque o pai de um amigo foi tocar, ele é de Novo Hamburgo, e eu pensei “que coisa surreal, isso existe, esse cara está tocando lá em Austin, no Texas”. E aí super acompanhei a vida inteira. A Unisinos, de 2018 para 2019, abriu viagens pro SXSW. Sempre foi massa, mas aí o Akeem passou e eu fiquei “cara, que massa”. E um dia do nada ele só largou um story assim no Instagram: “cara, quem quer ir comigo?”. Achei que estivesse zoando. A galera respondia “se me pagar eu vou” e eu falei “eu vou”. Já tinha em mente ir pela excursão da Unisinos, só que não rolou porque custava uma grana bizarra, quando tu vai com ingresso comprado e tudo mais… Aí pensei “vou ir para ficar de roadie, qualquer coisa”, e ele respondeu “vamos tocar”, aí fechou todas. Foi só a cara de pau perfeita na hora certa.
Mescla – Como foi a experiência de tocar no SXSW Music Festival, no Texas, em março? Foi a primeira vez que tocou fora do Brasil?
Felipe – Então, eu não tinha [tocado fora], já fui tocar em São Paulo, já fiz Nordeste, Rio Grande do Sul por um bom tempo. A Yellow Boulevard fez umas turnês legais por aí. Sempre falávamos de ir para a Argentina, para o Uruguai, no final acabou não rolando. Até por conta da pandemia, estávamos bem engatilhados quando tudo começou, e então não rolou. Aí, quando essa oportunidade caiu no meu colo, pensei “dois anos trancado em casa, vou tocar na rua agora, longe, finalmente”. Fizemos fez três shows na semana do SXSW, dois eram mais “second stage”, como chamam lá, que é um show menor, na recepção de hotéis, mais intimista. E aí fizemos um show oficial, numa casa de shows mesmo, no centro de Austin. Ficamos amigos de uma galera. Conhecemos gente de Porto Rico, do Uruguai, da Argentina, do Peru que estava morando em Los Angeles e tinha ido só pra tocar… Um dia, estávamos vendo um show de uma dupla, um guitarrista completamente fora do normal tocando no meio de uma chapelaria, e uma menina cantando como a Kelly Clarkson, detonando. Um pouquinho antes de subirem no palco, falei para o guitarrista “teu amplificador é muito legal”. Ficamos uns cinco minutos falando em inglês, até que falei “I’m from Brazil” [sou do Brasil], aí ele disse “pô, meu irmão, cê tá brincando”, mega carioca (risos). São momentos incríveis da vida, foi muito bom. O SXSW rolou do dia dez ao dia 20, nós ficamos do dia 11 ao dia 20, foram nove dias lá. Três shows, mais um monte de palestras e outros shows que consegui ver.

Mescla – E sobre a Yellow Boulevard, que é um projeto superbacana, podemos esperar uma retomada, novas produções em breve?
Felipe – Eu não estava esperando ser o primeiro a falar oficialmente sobre esse assunto (risos). Então, é uma situação delicada. Estamos parados por vários motivos, e o que consegui tirar disso é que foi muito importante essa parada. Foi o maior projeto na vida de todos nós, isso é um fato. E a gente teve que parar, claro que a gente só entende isso depois, mas tivemos que dar um tempo. Não sei o que vai acontecer no futuro, de verdade. “Vão produzir alguma coisa ano que vem?”, não sei. “Vão produzir alguma coisa daqui a cinco anos?”, não sei. Eu realmente não sei, mas foi uma mudança para o bem e estou vendo de perto que foi muito pro crescimento de todos, de verdade. Acho que às vezes tu precisa buscar novos ares, dar um tempo de um processo diário. O Pedro me perguntou ontem “deu quatro anos de banda?”, mas não, deu 3 anos e 10 meses quando decidimos fazer essa parada. Então, teoricamente agora a gente tem quatro anos de banda. Trabalhávamos 365 dias do ano. É por isso que era um projeto tão legal, a galera chegava junto. Como falei, o Pedro está ali produzindo as trilhas dele, eu estou aqui inclusive fazendo freela com ele essa semana, fui tocar com o Akeem, estou escalado para tocar com mais um artista agora no meio do ano em alguns festivais e, enfim, está cada um fazendo suas coisas mesmo. A gente fala que os nossos últimos trabalhos estavam mais afinados e como a gente queria que estivessem do que nunca, então por favor escutem!
Mescla – Quais as suas cinco maiores referências? Não só para a música, vale tudo.
Felipe – Da vida assim? Nossa, “cinco maiores referências” é muito forte (risos). Seria o David Bowie, que é referência máxima. Gosto muito do diretor de cinema Christopher Nolan. Mas tem um cara melhor. São o David Bowie e o David Linch, coloca um do lado do outro. O Linch é um diretor de cinema muito famoso e incrível. Minha mãe é referência máxima, ela conquista todos os corações possíveis. [Pede ajuda ao Pedro] Bota o Emicida também, que chega a ser ridículo eu não ter pensado nele primeiro. Eu e o Pedro temos um negócio de simbiose muito louco assim, a gente compartilha de muitos gostos em comum. Está faltando alguém… A Lady Gaga. Fui obrigado a escolher, que fique registrado (risos). Teria mais um monte para listar. Consegui ver o show do Gilberto Gil esse ano no Rio, do lado da Duda Beat inclusive, ela estava do meu lado. Acontecem umas coisas aleatórias comigo. Enfim, o Gil não está listado porque ele está em uma entidade acima.
Mescla – Podemos esperar novos projetos seus em breve? Onde a galera pode acompanhá-lo?
Felipe – Podem seguir o meu Instagram. Assumi que virei uma pessoa que trabalha com a música. Eu e o Pedro recentemente lançamos um projeto, que se chama Bu Produz, onde a gente produz uns sons. Somos uma dupla de pessoas que produz coisas e que resolveu colocar isso em algum lugar. Esse é um projeto. Estamos fazendo isso aqui agora. E continuo tocando, acompanhando artistas. Estou com o Zuana, o Mateus Zuanazzi. Inclusive, ele estava gravando um clipe e está para fazer uma turnê disso e eu estou escalado pra tocar na banda. E continuo gravando com uma galera no estúdio. Estou mais em estúdio ultimamente, ensaiando e tal, mas vou sair eventualmente da gaiola, vou tocar na rua um tempo. Estou usando bastante o tempo pra tudo que eu peguei na pandemia, para melhorar a produção num geral. Agora estou conseguindo executar mais, porque a galera está mais acessível, dá pra ir à casa dos outros músicos, eles podem ir a tua casa gravar, cada um no seu home studio ou em um estúdio de verdade.
Mescla – Parece um trabalho mais introspectivo.
Felipe – Sim, lembrei agora da Billie Eilish, referência máxima, com um asterisco de menção honrosa na lista (risos). No documentário dela, ela fala que a coisa mais agonizante que existe para ela é fazer uma música. É um dos exemplos que tu falou, vemos hoje artistas estourando, em uma magnitude que a gente não consegue nem ter noção. 70% da população mundial sabe quem ela é. E ela chega e fala isso, e é por causa disso que tu falou. É tão introspectivo que tu tá colocando a tua verdade para milhões de pessoas saberem, ou às vezes tu tá só colocando pra uma pessoa saber e mesmo assim é difícil.
Mescla – Quer complementar algo?
Felipe – Eu falaria para os estudantes lerem o livro All You Need to Know about the Music Business [“Tudo o que você precisa saber sobre a indústria da música”]. Esse livro é a Bíblia do Music Business, e todo mundo que quer um dia ter carreira na música deveria ler ele pra entender como é que funciona. Sei que é muito legal a gente dizer “faça sua arte, porque você acredita em todas as coisas do universo”, e sei que estou falando isso de uma maneira quase debochada, mas é sério, tem uma hora que precisamos sentar e pagar as contas, levar a sério. Então, leiam esse livro. E tem essa outra dica também, sei que custa uma grana, mas se a pessoa tiver como ir ao SXSW ou até no SIM São Paulo (Semana Internacional de Música de São Paulo), que acontece normalmente em dezembro. Não sei como está agora, pós-pandemia não rolou nenhum ainda. Mas vão nesses eventos de música, estejam nos lugares! No Brasil, é muito forte o eixo Rio-São Paulo, só que tu obviamente faz contatos pelo Brasil inteiro se tu estiver no lugar certo numa hora dessas. Tu descobre que o cara é dono da casa de shows massa de Belo Horizonte – ele vai estar lá. Ou alguém que conhece as manhas – também vai estar lá. Eu diria pra galera estar sempre nesses festivais. É o que o mundo da música virou, muitos festivais.
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Mas antes ele participou do episódio especial do EduVoices desta semana, podcast do Instituto para Inovação em Educação da Unisinos. O artista fala de dois temas centrais ao Instituto, que são arte e cultura como mobilização social, seja nos espaços formais como informais da educação. Criolo respondeu às questões encaminhadas pelo decano da Escola da Indústria Criativa, Gustavo Borba. O papo foi transcrito para o Mescla. Boa leitura!

Gustavo Borba – Tu vens de uma família que tem como mãe uma professora. Tu poderias nos contar um pouco como os processos de educação formais e informais foram acontecendo em tua vida e te construindo enquanto pessoa?
Criolo – Começamos muito cedo em casa. Minha mãe é autodidata, ela foi se virando sozinha. Meu avô a alfabetizou quando ela tinha 5 anos de idade. Houve um início de alfabetização e logo ele veio a falecer. Então ela pegou esse gosto pela palavra. Nasceu em uma família muito simples, muito humilde, da cidade de Fortaleza, no Ceará, em 1955. Ele tinha um pequeno curtume e, naquela época, tudo se embalava em papel jornal, e no açougue da mesma forma. Como ela era alfabetizada com o jornal que embrulhava a carne, toda a vez que ela voltava do açougue, voltava correndo o máximo que podia, porque ela ficava agoniada vendo o sangue lhe tomando as palavras. E assim começa a história desse ser de luz chamada Maria Vilani, assim começa sua paixão pelas letras, pela nossa língua, nossa gramática, nossa literatura e nossa história. Assim, dentro de casa, eu sempre fui muito incentivado a ler, muito incentivado a estar atento ao que o texto nos propõe, e se ele faz sentido. Depois dessa vivência – na realidade, essa vivência é contínua lá em casa –, viemos para o ensino formal. Estudamos sempre em escola pública, e foi dada a continuidade do que ela já fazia dentro de casa. Também participávamos de uma associação de bairro que nos oferecia algumas oficinas culturais e, depois, no circo escola Grajaú, onde pude ter contato com outros ambientes de arte que não a literatura. Lá nasceu o sonho, depois de 4 anos naquele ambiente, de também ser um educador social, de ser uma pessoa que pudesse desenvolver alguma coisa no bairro e dar um retorno. Dentro desses dois ambientes, da escola pública e das organizações que nos ofereciam algum tipo de alento, algum tipo de apoio, companhia, cursos e alimento, porque era muito importante para a gente o complemento do que esses dois espaços nos proporcionavam de comida. Passávamos uma situação muito difícil, então era muito bom ir para a escola porque sabíamos que íamos comer, e quando nós tínhamos as atividades, que eram duas vezes por semana, fora da escola, tínhamos reforço alimentar, muito importante, essa construção da massa que compõe nossa estrutura física, dá suporte para que os pensamentos venham a ser construídos, por isso que as vezes eu acho muito cruel quando se cobra um jovem sobre seus êxitos, é que de barriga vazia é muito difícil pensar, e mesmo assim a gente consegue criar coisas incríveis, mas é muito cruel essa rotina.
Borba – Um dos pontos principais quando falamos de educação é a importância da arte e da música para a formação dos jovens. Como tu vês isso hoje acontecendo no Brasil, especialmente como uma forma de mobilidade social?
Criolo – Essa educação acontece também de modo formal e informal. Acredito que esse informal, nosso criativo, plural, que são essas trocas naturais que acontecem quando a gente se apaixona por determinada expressão de arte, no meu caso o Rap. O Rap me abriu portas para a música do mundo, a gente tem uma construção de ambiente maravilhosa porque a gente não se sente mais só, e quando a gente não se sente só a gente se sente forte, e quando a gente percebe que existem outras pessoas que estão gostando do que a gente gosta, é como se a gente fizesse parte de um grupo, como se a gente não precisasse mais lutar por aceitação. Até que em determinado momento esse grupo também cria suas subdivisões e, por muitas vezes, você também tem que ficar provando algo: quem escreve melhor, quem rima melhor, quem tem as melhores ideias, e a gente acaba saindo do ambiente do que é essa construção maior, do todo, e a gente vai aprendendo a lidar com estas outras situações que são colocadas. A vida é um tanto assim também, um reflexo social desta esteira de comando, que propõe começo, meio e fim. A música, além de lhe oferecer essas sensações de não se sentir só, de se perceber capaz de construir algo, de fazer parte de algo, também de algum jeito lhe ajuda a como lidar com essa sociedade contemporânea, extremamente competitiva e brutalmente desigual.
Borba – Gostaria de entrar agora em uma questão relacionada ao teu novo disco, que considero uma verdadeira obra prima. O disco fala muito sobre a vida e a morte em nosso país, sobre intolerância com religiões, racismo, impactos da covid, entre tantos outros temas que nos fazem refletir e ter vontade de agir. Como foi a construção deste álbum?
Criolo – Muita dor, muito medo, muita tristeza no coração. Esse impacto de se perceber frágil, se perceber sozinho. Eu perdi minha irmã, eu perdi tantos amigos e amigas, quase perdi meus pais. E a gente perde um tanto da gente quando essas pessoas se vão, e eu já vinha de um processo de uns 3 anos, 4 anos antes do “Sobre Viver” vir para o mundo, de me questionar muito: será que eu conseguiria escrever, ainda? Será que eu conseguiria desenvolver um rap, uma canção? Eu não sabia que ainda tinha jeito. Por muito tempo eu me questionei: será que eu ainda sei? Ou será que eu ainda tenho força? Eu pensei que eu não fosse mais conseguir fazer um outro álbum. Então, esse álbum vem com essas camadas de emoções e também com muita revolta: o país que mais persegue a comunidade queer no mundo, um dos países que mais mata jovens pretos e pretas, um país que fez um pacto de aniquilação aos originais da terra, um país que não aceita o outro em sua singularidade, em sua naturalidade, nós vivemos um ambiente extremamente hostil. O rap já está há 30 anos gritando isso. Trinta anos. O Rap, essa energia de força jovem, de força agora madura contemporânea, que vem apresentando outras vertentes, outras vozes, outras histórias, outros sabores. Vem gritando isso, falando do tanto que nosso país é desigual, fala sobre a perseguição das religiões de matriz africana. É um pedido a reflexão, é um grito de socorro e um chamado em urgência para à reflexão, para dizer que ainda existe caminho, que existe possibilidade, que nós temos coisas incríveis para construir juntos e que a juventude de nosso país é uma juventude incrível, cheia de amor, cheia de desejo de mudança e de transformação. É um álbum de fé, de muita fé, de um olhar para o futuro e de acreditar que é possível ter dias melhores.
Borba – Essa perspectiva de um álbum de fé, de olhar para o futuro, mostra possibilidades de transformação, excelente. Eu queria entrar na perspectiva da pandemia, vivemos em um país onde mais de 676 mil pessoas já perderam a vida devido à covid-19. Muitas famílias, incluindo a sua, foram fortemente impactadas por isso. Tu achas que enquanto nação, aprendemos algo com esse período?
Criolo – Eu acredito que de algum jeito, as humanidades foram percebidas. Uma pessoa que era um tanto apática nas causas sociais, nas questões humanitárias, se percebeu querendo contribuir, querendo ajudar, querendo fazer parte de uma coisa maior. Se percebeu forte, de que pode estender a mão, de que pode contribuir de algum jeito. Acredito que para outras pessoas não, é uma coisa pessoal. Para muitos a única preocupação era quando vamos poder ligar nossos brinquedos, para continuar brincando porque está chata a vida. Reclamam como se o mundo fosse um grande parque de diversões, onde todo mundo pode tudo, e isso não corresponde à nem 1% da população. Mas acredito que até nesse lugar, nesse lugar que se põe distante do Brasil, que se põe distante da realidade do planeta, existem corações que foram impactados e é nisso que eu quero acreditar, é nisso que a gente põe a nossa energia. Nesses 1% existe pessoas que com uma assinatura no papel definem a vida de uma nação inteira: que comida vai ter na creche de uma criança na favela do Brasil? Que avô, que avó vai poder chegar em um hospital público e ser atendido e não morrer em uma fila? Essas pessoas têm nas mãos vida e morte dos filhos da nação. Então, eu não quero acreditar que todas as pessoas estão com o seu coração fechado e não perceberam que a transformação também passa por elas.
Borba – Eu queria que tu falasses um pouquinho da nova turnê. Os teus shows têm uma intensidade única, e colocam muitos sentimentos em pauta, mas são costurados pelo amor, pela sensação de coletividade. O que dá para esperar desta turnê?
Criolo – Eu acredito que nossa fome é de viver. De onde eu venho a gente vê a morte todo dia, mas para muita gente isso é novidade. Eu percebi que as pessoas estão com fome de vida, pois perceberam que a vida é muito frágil. E esse tour carrega esse sentimento de amor a vida, de amor ao outro, do melhor sentimento possível sendo esparramado nesse palco, para levar as pessoas a nossa melhor energia, dentro destas canções que foram feitas com todo coração.
Borba – Queria te perguntar ainda se podes dividir com nossos ouvintes algum livro que estejas lendo, seriado ou filme que tenha visto, ou disco que estejas ouvindo.
Criolo – Eu estou terminando de ler “Memórias de Maria e um pouquinho de mim”, que acabou de ser lançado pelo selo Capsianos, um selo literário do extremo sul da zona sul de São Paulo, do Grajaú, livro de minha mãe amada, que estou terminando de ler. É o primeiro romance dela, seu sétimo livro. Convido todos vocês a conhecerem a obra, e quem puder seguir ela nas redes, o Instagram dela é casa_do_silencio, onde ela deixa pensamentos, reflexões, fala dos livros, não apenas dos livros dela, mas fala dessa produção literária que acontece no Grajaú. A zona sul de São Paulo é incrível, tem uma produção literária magnífica, existem feiras literárias, encontros literários, temos a querida Elisandra, o grande mestre Ferrés, temos a Cooperiga, com o queridíssimo Sergio Vaz, são muitas pessoas desenvolvendo suas atividades no extremo sul da zona sul. Então, através do casa_do_silencio, pode abrir para vocês um portal para encontrar muito, mais sobre essa literatura feita nestes espaços incríveis de amor, de alegria e de palavra. Eu tenho aqui, pertinho de mim, o livro “Bahia De Todos Os Negros: As rebeliões escravas do século XIX”, de Fernando Granato. Recentemente eu li o livro “O avesso da Pele”, de Jeferson Tenório, grande escritor porto-alegrense, ganhou o prêmio Jabuti em 2021. Nós nos encontramos por conta do lançamento de um box de livros chamado “Vozes Negras”, são livros incríveis e o livro dele faz parte deste box, e tive o prazer e a honra de conversar com ele sobre a obra. É sempre bom visitar o “Colecionador de pedras”, do Sergio Vaz. De disco, eu acabei de ganhar o vinil do Elo da Corrente, o Rosa de Jericó, o disco do Síntese, chamado “Ambrosia”, e o disco “Astral”, do Seletores de Frequência, ficam essas dicas para vocês.
Borba – Criolo, muito obrigado por esse momento.
Criolo – Muito obrigado. Muito amor para todos vocês, muito carinho, muita alegria. Vamos com tudo e se possível, se tiverem um tempinho, dia 23 de julho, que possamos nos encontrar. Colem no show, levem a família, vamos gritar, vamos dançar, sorrir, brincar e se abraçar. Cada vida é importante. Um beijo no coração de todos. Um abraço!
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Dando continuidade às adaptações que as cadeiras de Beta Redação vêm desenvolvendo desde o início da pandemia, os lançamentos da Editoria de Cultura caminham de entrevistas com personalidades do meio artístico, até grandes reportagens conjuntas, cobrindo por diferentes ângulos a participação da Lei Aldir Blanc em um setor cultural em crise.
Vinda de uma maratona de resenhas críticas culturais que guiaram a primeira parte do semestre, a Beta Cultura segue tentando desenvolver novas maneiras de exercitar as várias formas de jornalismo cultural em suas produções. Desse modo, as entrevistas de perfil (ping-pong) entram como uma dinâmica relevante dentro dos contextos de experimentação e isolamento.
“A entrevista veio cobrir uma lacuna que a gente teve durante a pandemia e que é uma coisa que valorizamos muito, na Beta Cultura especificamente, a possibilidade de conhecer as coisas, conhecer o mundo, através do jornalismo”, estabelece Felipe Boff, um dos professores que ministram a atividade. Com uma linha editorial não limitada, os alunos da cadeira tiveram a oportunidade para fazer um recorte livre na decisão das fontes, o que possibilitou um registro autêntico do nosso imenso cenário cultural.
As pessoas mais e mais se apoiam na arte para escapar da realidade que as cerca e as publicações produzem uma reflexão importante: o quanto a arte é relevante e importante na vida de todos nós, não só dos que vivem dela?
Versando sobre como os artistas estão produzindo e planejando em cenário de quarentena, as entrevistas perfil apresentadas transitam entre os mais diversos subtemas, podendo ir da poética do empoderamento feminino através do Grafite, até uma carreira de 33 anos de música nativista. São entrevistas que constroem um amplo panorama de narrativas para conhecer as várias vertentes artísticas que existem.
Entrevistas que nos permitem “ouvir” Dedé Ribeiro falar sobre como a neurociência a influenciou em ‘contar’ através da colagem, ou como o slam tomou espaço na vida de Mariana Bavaresco (Ella), acabam oportunizando uma conversa entre o artista e o leitor, uma vez que refletem o interesse do jornalista sobre o tema.
“A Beta Cultura é mais leve em relação a outras Betas, que acabam se baseando mais em dados, por ser algo mais humanizado. Para mim, entre todas as cadeiras que preenchiam a semana, [a Beta] Cultura era um alívio, porque me dava a liberdade para abordar sobre as temáticas que eu gostava”, é o que diz a aluna Tainara Pietrobelli. A estudante entrevistou a fotojornalista gaúcha Mirian Fichtner, sobre seu documentário Cavalo de Santo.
Para Tainara, a experiência trouxe novos aprendizados: “Um conselho importante, nesse sentido, é o de só falar com pessoas que tu realmente tem interesse. Eu tinha interesse por ela e pela temática, então eu fui eu”, argumenta, relembrando que a interação com a entrevistada foi um momento muito marcante para seu desenvolvimento na qualidade de estudante.
Além das boas histórias, é possível encontrar nas publicações indicações para expandir os repertórios referenciais. Seja na música, quando Rafael Decarli fala de suas inspirações em Véronique Vincent & Aksak Maboul ou no cinema, quando o documentário ‘Paris is Burning’ (1990) é apresentado na fala de Rayan Pires para mostrar o que é a Cultura Ballroom e como estilo de dança Vogue é mais do que um mimetismo das capas de revista.
Arte é resistência, é sobrevivência, pois criar, no contexto em que estamos vivendo, é também lutar pela vida simbólica, a vida representada. Este desabafo/clamor se manteve constante nos diálogos com as fontes entrevistadas. Isso acabou por incentivar as turmas a abordarem o impacto da Lei Aldir Blanc de uma maneira mais direta, originando a ideia de uma grande reportagem.
Os estudantes, que já vinham divididos desde o início do semestre em cinco grupos, com um editor cada, usaram dessa formação para abordar a matéria de uma forma mais dilatada. Assim, conversando sobre o impacto da Lei Aldir Blanc e a influência que ela teve nos palcos de Audiovisual, Culturas Vivas (Populares), Literatura e Música, a cobertura se resolveu em uma série de reportagens conjuntas. “Nós sempre queremos que as turmas experimentem o máximo de situações que o jornalismo vai oferecer na atividade normal profissional e uma dessas situações é a produção coletiva”, justifica Boff.

É comum que os alunos idealizem as funções da edição como sendo as mais fáceis, quando comparadas com as do repórter, mas, nessa atividade de prática jornalística, exercer o papel de editor mostra outro lado da profissão. Após a definição dos temas de cada grupo, a conversa de organização ficou a cargo dos editores, ao que a Beta encoraja que os alunos tomem o protagonismo das produções, logo, foram eles os responsáveis pelos cortes e pela reescrita dos materiais dos colegas, precisando respeitar o jeito de cada um de escrever e o apego emocional que teriam ao que haviam escrito.
Pensando em uma matéria que “emendaria” o trabalho de diferentes repórteres em um único texto, um dos desafios seria manter a coesão do produto publicado. “O exercício da reportagem conjunta é fazer com que os textos dos repórteres conversem no final, porque se isso não acontecer, a matéria fica parecendo um Frankenstein. Não é simplesmente juntar tudo e entregar, e aí entra o trabalho de edição”, é o que explica William Martins, editor de texto do grupo responsável por abordar Culturas Vivas.
Kellen Dalbosco, editora do grupo atribuído à legislação da Lei, comenta que o corte que seu grupo trouxe, de introdução e fechamento da série de reportagens, foi dado “de trás para a frente”, uma vez que o contato com as fontes apontou um outro lado da LAB. “Quando se estuda e conversa com pesquisadores, se começa a interpretar e entender que muitos municípios não possuem uma Secretaria de Cultura por não existir nem mesmo um Ministério da Cultura!”, constata a aluna, argumentando que ela [a Lei] veio, contudo, para demonstrar também o descaso do Estado com a cultura.
“Quando falamos sobre cultura, no atual cenário brasileiro, ela acaba sendo algo político. Nós precisamos falar sobre essas políticas públicas, pois elas serviram para mostrar a crise no setor cultural”, é o que diz a editora. Nesse semestre, Kellen já havia escrito sobre a gestão dos recursos da Lei Aldir Blanc no município de Garibaldi, para a Beta Economia e, com seu irmão sendo um dos artistas que obteve o suporte da Aldir Blanc, conseguiu observar de perto os desafios da Lei.
A verba de R$ 3 bilhões disponibilizada para a manutenção do setor cultural possibilitou que muitas histórias fossem contadas, entretanto, por vezes o auxílio recebido não é o suficiente. É o que, por um lado, retrata a reportagem de Audiovisual. Trazendo os cases dos projetos Intransitivo (documentário), Em Nome do Pai (curta), Papo de Criança (série online) e Danças Tradicionais do Rio Grande do Sul (filme), o grupo apontou como a Lei foi fundamental para que esses trabalhos saíssem do papel, mas que, ao mesmo tempo, os recursos de R$ 30 mil a R$ 50 mil não suprem as necessidades de uma equipe de produção (cenário, equipamento, artista).
A equipe de Literatura aponta que, mesmo o Brasil não sendo um país de leitores, ainda existem iniciativas que buscam, além de estimular essa prática desde cedo, usá-la para conscientizar a sociedade e puderam dispor da Aldir Blanc para esse objetivo. É isso que se enxerga nas narrativas sobre o I Festival Germinação Cultural, o Circuito Cultural nas Bibliotecas da Rede Beabah! e a Coleção PríncipXs, que incentivam a diversidade através das palavras. Algo que se manteve presente nas histórias pautadas pelo olhar da música, ao contar sobre o projeto Batuco Educo e o grupo Além dos Muros. A musicista Lela Rosanelli, também entrou nos cases, como mais um artista que conseguiu utilizar da Aldir Blanc para desenvolver novas propostas musicais durante a pandemia de Covid-19.
Culturas Populares apresentou para publicação quatro cases de projetos sociais que, com o recurso da Lei Aldir Blanc, conseguiram sair do papel e retomaram suas atividades. O projeto Capoeira Social, de Sapucaia do Sul, o DesapagaPOA, a Rede de Pontos de Cultura e o grupo de Dança Nossas Raízes, de Portão, são os atores dessa narrativa. “Nós tivemos a chance de retratar coisas importantes do lugar onde a gente mora e isso é bem importante. No decorrer das Betas a gente tem que tentar fazer alguma coisa que ajude o lugar onde moramos e as pessoas que estão aqui”, conclui Tainara, que compõe a equipe.
Tal abordagem acaba por visibilizar iniciativas culturais que, muitas vezes, não são amplamente conhecidas, por não possuírem tantos espaços de divulgação nas mídias tradicionais e, com a Beta sendo um site de notícias experimental, essa é uma necessidade que pode ser elaborada sem a pressão dos veículos da imprensa comercial. Para William, a questão social que a cultura carrega deve ser visibilizada. “É nosso dever, como jornalistas e comunicadores, dar a possibilidade para que o excluído e o diferente fale – dar voz àqueles que são marginalizados e silenciados pela sociedade”, fundamenta.
Após as publicações das matérias as atividades dos alunos continuaram, com a intenção de trazer visibilidade para as produções, e essa movimentação aconteceu por meio das redes sociais.

Em um exercício para liberar toda a criatividade, Luiza Soares, editora de redes da turma de Porto Alegre, comenta sobre atuar com essa mediação entre as reportagens e o público leitor . “Foi bem legal ter esses feedbacks e ter a experiência de uma pessoa que trabalha com isso e é social media, tendo de pensar coisas novas e diferentes e então montar e ter o retorno dessa divulgação”, relembra.
As postagens no perfil da Beta Redação no instagram foram bem repercutidas, refletindo o trabalho em equipe para que a Beta ganhasse mais visibilidade e a potência das páginas da Beta nas redes.
“Participar do processo criativo de formar a identidade visual para as postagens e ver o material que os repórteres pensavam para as redes também foi uma troca”, comenta Luiza que ajudou no desenvolvimento da estética dos posts e no apoio aos colegas para aumentar o engajamento nas mídias sociais.
As Betas entram no final do currículo da graduação em jornalismo e, para muitos, essas publicações não serão apenas as últimas do semestre, mas também o encerramento de toda a jornada da Universidade. Alunos como Kellen e William, que integram esse grupo, podem enxergar nessas entregas, todas de maneiras diferentes, como resultados que marcam suas histórias como jornalistas em formação, aprendendo como usar a profissão para agendar temas e questões que são de interesse público.
As séries de entrevistas e reportagens podem ser conferidas na Editoria de Cultura da Beta no Medium, aproveite, também, para conhecer as outras editorias do Laboratório de Beta Redação.
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