Deu certo

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As origens da Beta Redação
"Reconhecida como uma das principais atividades do curso de Jornalismo, a prática chegou a encontrar resistência dos dos alunos na fase inicial"
Pedro Hameister


Quem estuda Jornalismo na Unisinos com certeza conhece a Beta Redação. Mesmo que ainda não tenham cursado nenhuma de suas disciplinas, certamente já ouviu os outros alunos falando sobre ela, sobre como são feitos os trabalhos por lá, ou já passou em frente às salas da Beta, seja no quarto andar do prédio D04 do campus São Leopoldo ou no segundo andar da Torre Educacional do campus Porto Alegre.


Já comentamos sobre o aniversário da Beta Redação, que completa 5 anos este semestre. Mas vocês conhecem a história dela? Sabem como surgiu esse veículo multiplataforma? E como ele era feito antes da inauguração de sua sala?

Uma residência jornalística

A proposta de criar um veículo multiplataforma, onde os estudantes de Jornalismo teriam o protagonismo na apuração e produção das matérias, surgiu por volta de 2010, em um momento em que os professores estavam discutindo novas mudanças no currículo do curso. Nesse assunto, havia um consenso entre eles: o aprendizado dos alunos estava muito teórico e acadêmico. Era preciso dar a eles um ensino mais prático e voltado para o mercado. A pergunta era: como fazer isso?


Quem trouxe a solução foi a Thais Furtado, que, além ter larga experiência como professora de redação jornalística, também já acumulou as funções de coordenadora da Agexcom e gestora do curso de Jornalismo de Porto Alegre entre 2012 e 2017. Nesse meio tempo em que os professores estavam discutindo quais mudanças o currículo precisava, ela assistiu a um congresso na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Lá, a professora Christa Berger, que na época integrava o Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da Unisinos, fez uma fala associando a faculdade de Jornalismo com o período de residência médica, onde os estudantes de Medicina colocam em prática toda a teoria que aprenderam ao longo do curso. Então, Thaís percebeu que era exatamente isso o que o curso de Jornalismo precisava: uma “residência jornalística”.


“Eu imaginei os alunos chegando no final do curso de Jornalismo passando por uma redação, onde haveria apenas prática jornalística. Além de ser uma boa experiência para os estudantes, os professores também poderiam se manter ativos no mercado, pois teriam que pensar como editores”, explica a professora, que agora é professora do curso de Jornalismo da Fabico, na UFRGS. “Claro, o curso já possuía disciplinas práticas, em que os alunos entregavam reportagens, mas não com o ritmo e a intensidade que se tem em uma redação. Além disso, os trabalhos práticos feitos nas outras disciplinas costumam ficar somente na sala de aula. São feitos pensando apenas no professor, não em um público”.


Então, Thaís se reuniu com os demais professores do Jornalismo e apresentou essa ideia. Com o passar do tempo, conforme novas reuniões para discutir o futuro do currículo do curso foram sendo feitas, a ideia foi sendo aprimorada. Foi definido que seria criado um site alimentado apenas com notícias feitas pelos alunos; que haveria cinco disciplinas para trabalhar nesse veículo, cada uma focada em uma editoria; que todas as disciplinas seriam do último semestre, e assim por diante. E foi definido o nome “Beta Redação” para passar a mensagem de que se trata de um produto em transformação, como se fosse uma versão beta de algum serviço para ser testada e, futuramente, aprimorada.

A Beta Redação foi ao ar em 2012 com a proposta de ser uma “residência jornalística” para os alunos

Um choque para os alunos

As primeiras atividades da Beta Redação ocorreram em 2012. O professor Edelberto Behs, que foi coordenador de Jornalismo de 2003 a 2019, lembra que houve bastante choque e insatisfação dos primeiros alunos a se depararem com a novidade. Inclusive, ele precisou ir em sala de aula algumas vezes para defender o veículo.


“Os alunos ficaram descontentes que as disciplinas da Beta Redação tomaram o lugar de cadeiras de rádio e telejornalismo, que era o interesse deles. Não compreenderam de imediato a proposta multiplataforma da Beta, em que eles poderiam trabalhar também com áudio e vídeo, não só com texto”, comenta Behs. “Também houve um grande susto com a carga de trabalho que eles teriam nela, além de reclamações sobre os computadores dos laboratórios que eles utilizavam na época, que consideravam lentos para a realização das atividades”.


Behs também relembra que as primeiras produções da Beta Redação foram muito similares ao que era feito e publicado na mídia como um todo, o que não era a proposta do veículo. Foi preciso explicar que a Beta Redação estava ali para incentivar a experimentação e a criatividade dos futuros jornalistas na apuração e produção de reportagens.


Quem coordenou a Beta Redação quando suas atividades tiveram início foi o professor Nikão Duarte. Ele comenta que o começo foi difícil, pois os alunos não gostaram do método apresentado para o desenvolvimento da prática, e a insatisfação migrou da sala de aula para as redes sociais dos alunos e do curso. Porém, ele admite que os estudantes não estavam totalmente errados e que houve equívocos na implementação da Beta Redação. 


“No início, o funcionamento da Beta era diferente. Os alunos tinham que desenvolver uma matéria dentro da sala de aula, com os recursos que tínhamos, e dar seu jeito para entregá-la pronta até o fim do horário de aula. Hoje, o aluno entrega uma pauta, passa a semana produzindo a matéria e entrega pronta na aula seguinte. Aquilo foi um exagero que cometemos. Por mais brilhante e experiente que o aluno seja, ele ainda é um aprendiz”, admite o professor. “Estávamos cobrando dos alunos algo que eles não tinham condições de entregar. O primeiro semestre de Beta Redação foi muito rico em questão de inovação e novas experiências, mas também foi muito traumático tanto para os estudantes quanto para os professores. Todos ali eram inexperientes nesse quesito.”


Os problemas foram enfrentados com transparência. A partir dos comentários e sugestões tanto dos alunos quanto dos professores, melhorias foram surgindo, a prática foi sendo aprimorada e os trabalhos foram gratificando a todos. O ritmo de produção na Beta foi modulado, facilitando o trabalho dos estudantes. Profissionais de diversas áreas passaram a serem convidados para conversarem com os alunos. Temas como lazer, saúde, cidadania e entretenimento foram inseridos nas disciplinas.


Porém, havia uma questão a ser resolvida: a Beta Redação ainda não possuía um espaço próprio. Até então, as atividades eram feitas nos laboratórios de informática que os alunos tinham à disposição. Quem cuidou disso foi Edelberto Behs, que conversou com a Unidade de Graduação da Unisinos e, em São Leopoldo, conseguiu apoio para transformar aquele espaço, que até então era um laboratório de rádio, na sala que conhecemos hoje. Sua inauguração foi em 2014. Em Porto Alegre, a atividade ganhou um local próprio em 2017, com a inauguração do novo campus. A Beta, enfim, tinha sua própria redação!

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