wp-mailinglist domain was triggered too early. This is usually an indicator for some code in the plugin or theme running too early. Translations should be loaded at the init action or later. Please see Debugging in WordPress for more information. (This message was added in version 6.7.0.) in /home/agexcom/mescla.cc/wp-includes/functions.php on line 6170The post Histórias de humanidade e esperança na tragédia appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>
Acompanhar de perto e ao vivo uma tragédia que já vimos muito pela televisão me trouxe sensações que não pensei que o jornalismo me proporcionaria tão cedo. Ver o barro, sentir o cheiro forte exalado dele e presenciar a destruição em Arroio do Meio, sabendo ainda que essa não foi a cidade mais atingida, me causa desolação e tristeza. No caso de várias famílias, tudo o que elas tinham virou lixo. Ao chegar lá, percebi mesmo que a enchente não fez distinção entre pessoas com mais ou menos dinheiro. Uma certa sensação de impotência se instalou logo ao chegar na cidade, o que foi mudando ao longo do dia, visualizando a verdadeira força de trabalho que se instaurou no território, com o esforço de dezenas de pessoas para melhorar a situação dentro do possível.

Mas não quero que o foco desse texto seja a tragédia em si, e sim a onda de solidariedade que ela trouxe para os que precisam. Os esforços começaram assim que a água começou a baixar. A cidade inteira está servindo de abrigo para pessoas e para doações, numa força-tarefa que não para. Os principais pontos de apoio são o salão da Paróquia Perpétuo Socorro, o ginásio do Colégio Bom Jesus, o Clube Esportivo de Arroio do Meio e o Seminário Sagrado Coração de Jesus, que receberam doações de todos os tipos, como comida, roupas, materiais de limpeza, higiene pessoal e brinquedos.

No dia que estivemos no salão paroquial, voluntários, como a estudante de Fisioterapia Nicole Meneghini, e vítimas buscando doações, se misturavam. A jovem de 23 anos conta que o avô teve a casa atingida, mas está bem. Ela está atuando com as colegas no trabalho de apoio, já que conseguiram liberação dos estágios. “Quase todos os pacientes que a gente atendia tiveram a casa levada, literalmente, pela água.” Elas estão acompanhadas pela professora Lydia Koetz Jaeger, 39 anos. Todas vêm da Univates, Universidade do Vale do Taquari, que tem sede em Lajeado.

O Seminário Sagrado Coração de Jesus já há tempo não funciona mais com o intuito de formação de futuros padres, mas ainda tem uma função dentro da igreja: promover cursos e retiros, principalmente para a capacitação de ministros (que fornecem orientação espiritual para a comunidade).
Com a tragédia, essa função se transformou, e hoje o local está focado na alimentação das pessoas atingidas pela enchente na cidade. Heitor e Margarete Schmidt, coordenadores do antigo seminário, conversaram comigo. Eles contaram que trabalham todos os dias, incluindo finais de semana, das 8h30 até às 18h. Na verdade, o pessoal da cozinha começa às 5h para dar conta da quantidade de marmitas. No começo, segundo o casal, havia uma certa desorganização. Mas ao longo dos dias, tudo foi se ajeitando: “Se tem uma coordenação, a coisa flui”, é a opinião de Margarete.

A cozinha do Seminário é utilizada por voluntários que vieram de diversos lugares do país para a confecção de marmitas. As salas do primeiro andar serviam para a confecção de cestas básicas e armazenamento de doações. Margarete explicou que várias empresas acabaram fazendo doações de larga escala e cedendo funcionários para ajudar – a BRF, que tem vários ex-funcionários aposentados cujas casas foram atingidas na cidade, por exemplo, chegou a enviar 15 colaboradores em apenas um dia.

No decorrer da primeira semana pós-tragédia, uma figura importante na cozinha foi a professora de Gastronomia da Unisinos Franciele Reche. Em um depoimento emocionado, junto da aluna de Nutrição Karine Gräbin, ela compartilhou o sentimento de fazer parte deste momento tão delicado, afirmando que é muito difícil de falar sobre a experiência.
“No mínimo, transformador. O tempo passa muito rápido, é diferente aqui”, diz Karine, ao mesmo tempo que Fran complementa: “É um misto de emoções. Uma hora a gente está triste, depois feliz, depois desesperada. Mas acho que o que permanece sempre é a esperança”. As duas ficaram hospedadas no mesmo local que as vítimas, no segundo andar do Seminário, que serviu naquela semana para alojamento de desabrigados e voluntários vindos de outras cidades. Elas e outros professores e alunos da Unisinos dormiram lá desde o começo das operações, na terça-feira (12 de setembro) até a sexta-feira (15).

Professora e aluna destacam a importância do padre Alfonso Antoni, pároco da paróquia principal da cidade, que não mediu esforços para que tudo desse certo. “Ele não para um segundo, está sempre de carro viajando entre as cidades para buscar mantimentos”, concordaram Franciele e Karine. Por isso, foi impossível fazer uma entrevista com ele, naquele dia. Mas o programa Pretinho Básico, da Rede Atlântida, conseguiu. O repórter Raphael Gomes foi até onde eu estive para conversar pessoalmente com o padre, em campo, exatamente onde tudo estava acontecendo. Para conferir as histórias e conhecer um pouco do Seminário em um vídeo de Reels, você pode clicar aqui.

Uma das poucas coisas que o padre conseguiu compartilhar comigo foi mostrar, no local onde era o salão de festas da igreja, o “barco da esperança”, objeto cedido por uma fiel que fez uma promessa e pagou na forma da doação. A embarcação ficou intacta mesmo com toda a destruição da estrutura em volta.

Karine conta que teve que improvisar e abrir mão do ideal saudável, em prol da refeição possível. “Um dia, o cardápio possível a ser feito era composto por massa com salsicha. Quem recomenda comer isso numa aula de Nutrição? Ninguém. Nesse momento, temos que trabalhar com o que se tem. E isso alimenta, sim, quem está com fome”, afirmou.
Junto da professora de Gastronomia, Franciele, uma conterrânea ajudou a coordenar as atividades. A moradora Cátia Schnorr, culinarista e youtuber com anos de experiência, não teve grandes danos materiais, diferentemente do filho, que teve a casa muito atingida. Segundo ela, o foco inicial foi na limpeza das casas.
“Nós ficamos sem água. Eu pegava da piscina pra limpar a roupa. Quando vi que estavam precisando de voluntários, me ofereci pelo Instagram e vim para cá”, disse. A chefe de cozinha se preocupa com a queda de mão de obra ao longo do tempo e dá o recado à comunidade: “Quem quiser vir, tem que vir! Porque semana que vem a força continua”.
As pessoas saíram de suas rotinas. No Seminário, por exemplo, os horários são definidos e seguidos à risca. Mas uma atividade que Arlindo Eduardo Kronbauer, de 88 anos, não abre mão, é a de assistir às novelas das 18h e das 21h na TV. Tendo perdido a esposa há 2 anos, ele morava com a filha na casa que foi tomada pela água. O Seminário possui uma sala cheia de móveis que serão doados. Em meio à bagunça, existe uma televisão que sintoniza os principais canais nacionais.

“Eu gosto de vir no final da tarde para pegar a novela das 18h, aproveito para ver o jornal e, depois, a Terra e Paixão, que eu gosto também.” Arlindo faz questão de me mostrar a chave do carro, que foi salva da enchente, e dizer que, mesmo com a idade, ainda é muito ativo. Ele sai da entrevista correndo para outro compromisso.

Outro relato de Karine e Franciele é de uma professora aposentada que chegou apressada no Seminário, pedindo desculpas pelo atraso no horário. “Nós perguntamos: ‘Tu trabalhas aqui?’ E ela respondeu: ‘Sim, limpando minha casa que está tomada por barro’”.
É preciso destacar também a força de Natália Schwarzer, que está atuando na coordenação geral das atividades do Seminário. Natural também de Arroio do Meio, ela está executando atividades administrativas de diversos tipos, algumas até mesmo de assistência social, apesar de atuar profissionalmente como cabeleireira. “Eu apenas tenho esse perfil”, diz Natália.

“Conhecemos pessoas que nunca conheceríamos em outras circunstâncias. Tipo os bombeiros do Paraná, ou de Minas Gerais, que inclusive atuaram em Brumadinho. Queremos fazer um encontro só dos voluntários. Vamos sentir muitas saudades. Nos apegamos muito, parece que foi um mês e não uma semana”, afirmaram Karine, Franciele e Natália juntas, em meio às lagrimas, pois estava na hora das voluntárias de São Leopoldo retornarem às suas casas. O desejo de fazer o reencontro é para quando a cidade estiver reconstruída.

E o desejo deste estudante de Jornalismo é que tudo o que é material se recupere, o rio Taquari permaneça onde está, e as pessoas continuem com o mesmo espírito de solidariedade e coletividade depois que tudo passar.

Por causa da tragédia do Vale do Taquari, tive a oportunidade de embarcar em uma jornada profissional e pessoal que jamais esquecerei. Como jornalista, sempre acreditei no poder das palavras para contar histórias que fazem a diferença, mas nada poderia ter me preparado para a experiência de cobrir a tragédia que assolou a região.
Quando me voluntariei para ir até o Vale, sabia que seria um desafio extraordinário. As imagens das enchentes e da destruição que vi nos noticiários não se comparavam à realidade que encontrei lá. Quando cheguei na cidade de Muçum, uma das mais atingidas, o cenário era devastador, e as vidas das pessoas estavam em pedaços.
O ar estava carregado de tristeza, solidariedade e uma sensação de comunidade que transcendia o desastre. As pessoas que encontrei, apesar de terem perdido tanto, eram incrivelmente resilientes e unidas. Elas compartilharam suas histórias de perda, luta e esperança comigo, e em troca, só queriam ser ouvidas. Minha câmera e meu bloco de notas se tornaram minhas ferramentas para registrar os momentos mais tocantes daquela jornada. Eu conversei com moradores que haviam perdido suas casas, suas empresas e até mesmo entes queridos. Cada história era um testemunho da força humana diante da adversidade.

A agente comunitária de saúde Lucilene Bonetti conseguiu reservar um tempo do seu dia corrido para me contar sua história. Quando o rio começou a transbordar e a água a invadir a cidade, Lu, como prefere ser chamada, estava em casa e iniciou o protocolo que já era conhecido nessas ocasiões, colocando seus móveis em cima de algo mais alto, para evitar danos, e retirando os equipamentos eletrônicos para levar com ela. “Por volta das 17h, a água começou a entrar no meu quintal, mas avançou tão rápido que em 20 minutos ela já estava cobrindo o meu porão. Foi então que decidimos sair da nossa casa.”

Lu e a família foram para a casa da sogra, local onde até então nunca havia chegado água durante outras enchentes. “Às 19h, a água já invadia o terreno da minha sogra. Às 21h, ela já estava cobrindo o porão, e 15 minutos depois eu estava saindo de lá com água até o meio da minha perna”, relatou. Ela e toda a família conseguiram sair e foram para o Mirante Bixo do Mato, ponto turístico da cidade, que agora abriga diversas famílias que perderam suas casas. Foi lá que eles passaram a noite, mas não conseguiram descansar, pois a ansiedade para voltar e ver como estava a cidade era enorme. “Quando nós chegamos, a surpresa: Muçum estava toda dentro d’água e nós não tínhamos mais casa. A minha tinha ido literalmente embora.”
Quando questionada se pretende sair de Muçum, Lu prontamente responde: “Eu fico porque amo essa cidade, estou aqui há 21 anos, criei meus filhos aqui, tenho muitos amigos aqui e irei sentir muito se tiver que sair de Muçum, tanto é que eu sinto muito em ver o horror que ela está hoje.”
Mesmo sendo muito falado na possibilidade de a cidade deixar de existir, para Lu isso não irá acontecer, pois o povo não vai deixar. “Eles irão levantar Muçum, e juntos, vão se reconstruir”, frisou. Por fim, ela destaca o mais importante de toda esta situação atual: a solidariedade. “Hoje, a nossa cidade está virada do avesso, mas estão ajudando a construir ela de novo, pois isso está sendo feito do zero”.

Aqueles que, como nós, vão para a cidade oferecer ajuda, testemunham não apenas a devastação, mas também a incrível solidariedade que surgiu. Voluntários de todos os cantos do país se juntaram para ajudar na recuperação. Lá, eu tive o prazer de presenciar uma comunidade unida pelo mesmo objetivo: ajudar Muçum a se reerguer. A tragédia no Vale do Taquari foi um lembrete doloroso de como somos vulneráveis diante da natureza, mas também de como somos capazes de nos unir em tempos difíceis.
The post Histórias de humanidade e esperança na tragédia appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>The post A correria e o nervosismo das grandes coberturas appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>Em 2016, o Brasil passou por um acontecimento que ficaria marcado na sua história: o impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Veículos de imprensa do país inteiro acompanharam o andamento do processo, bem como as diversas manifestações tanto a favor dele quanto contra que aconteceram em todas as regiões. E é claro que com a Beta Redação não seria diferente.
Uma das repórteres que estava na Beta naquele período, na editoria de Política, foi Joyce Heurich, formada em 2016 e atualmente atuando como repórter freelancer. Ela comenta que foi uma feliz coincidência o processo de impeachment da Dilma ter acontecido justamente naquele período, em que ela estava cursando seu último semestre da faculdade e atuando como repórter de Política da Beta.
Foi um trabalho muito intenso não apenas para Joyce, mas também para a turma toda. Nesse período, Joyce participou da cobertura de diversas manifestações que aconteceram na Esquina Democrática, em Porto Alegre, e precisou constantemente pesquisar e se atualizar sobre o andamento do processo. Mas o que mais marcou Joyce nesse trabalho foi uma entrevista em vídeo que ela conseguiu para a Beta Redação com o ex-marido de Dilma, Carlos Araújo (que viria a falecer no ano seguinte).
“Eu e o Roberto Caloni, que foi minha dupla nessa entrevista, ficamos muito nervosos até fazer o primeiro contato com ele. Conseguimos o telefone do Carlos e ligamos para ele durante a aula, em um dos telefones da sala da Beta. Ele foi muito atencioso conosco e marcou um horário para nos receber na casa dele, em Porto Alegre, e conceder essa entrevista”, comenta Joyce.
A repórter diz que o principal motivo do nervosismo era porque eles acreditavam que muitos veículos de imprensa estavam entrando em contato com Carlos para conseguir uma entrevista naquele momento, e não esperavam que ele fosse aceitar gastar o tempo dele conversando com universitários. Porém, no dia da entrevista, quando Joyce e Roberto já estavam na casa dele, descobriram que o trunfo deles era justamente este.
“O Carlos nos contou que, de fato, estava sendo muito procurado por jornalistas. Porém, ele estava recusando algumas entrevistas e fez questão de aceitar a nossa justamente por sermos estudantes”, diz Joyce. “Alguns dos veículos que procuravam o Carlos tinham uma linha editorial que ele não concordava, mas em nós, que éramos a próxima geração de jornalistas, ele acreditava”.
Joyce também comenta que aquela entrevista do Carlos para a Beta Redação pode ter sido uma das últimas que ele concedeu na vida, visto que viria a falecer dali a pouco mais de um ano, em agosto de 2017, aos 79 anos. Nessa entrevista dele para a Beta já é possível ver que ele não estava bem de saúde, o que colaborou para a decisão de recusar outras entrevistas.
Enquanto Joyce produziu e conduziu a entrevista com Carlos Araújo, seu colega, Roberto Caloni, ficou com a captação de imagens e edição do vídeo da entrevista. Ele conta que estava com um pouco de receio, já que era a primeira vez que fazia uma filmagem de uma figura pública de relevância, mas a atenção dispensada por Carlos o deixou mais tranquilo. Estresse mesmo foi o pouco tempo que teve para finalizar.
“Precisávamos postar aquela entrevista o quanto antes, ou então perderíamos o gancho e a pauta esfriaria. E isso foi trabalhoso, pois era muito material para editar. A conversa com o Carlos foi longa, e filmamos tudo na íntegra. Tive dois ou três dias para editar tudo”, conta Caloni.
Mas todo o trabalho compensou no final. Além de ambos acreditarem que foi uma ótima experiência, a entrevista teve uma repercussão bem significativa, com outros veículos passando ela adiante e uma boa visualização no vídeo logo depois de ele ter sido postado.
Em 2017, a turma da editoria de Política da Beta Redação soube que Ciro Gomes, na época pré-candidato à presidência pelo PDT, estaria vindo ao Rio Grande do Sul e faria uma fala no Anfiteatro Padre Werner, na Unisinos de São Leopoldo. Então, obviamente, seria feita uma cobertura da ocasião para publicar no site.
Porém, já no próprio dia da vinda de Ciro à Unisinos, o professor Felipe Boff, que ministrava a disciplina de Política no campus Porto Alegre, soube que Ciro estava na capital gaúcha naquele momento e que ele iria para a Unisinos de trem (Trensurb). E Anderson Guerreiro, que cursava a cadeira, ficou encarregado de se certificar disso. Felizmente, ele possuía contatos do partido de Ciro, que confirmaram a presença do candidato em Porto Alegre e foram informando o estudante sobre o horário aproximado em que ele pegaria o trem para São Leopoldo.
Por volta das 17h, Guerreiro se deslocou para a Estação Mercado sem ter certeza se realmente encontraria Ciro Gomes por lá. Mas Ciro apareceu, e o repórter imediatamente passou pela catraca para acompanhar o pré-candidato o mais de perto possível. Juntos, eles entraram no trem para São Leopoldo.
“Eu fiquei o tempo todo com o celular em uma mão fazendo fotos dele, e na outra eu tinha um bloco onde fui anotando tudo o que pude observar. O que Ciro estava vestindo, o semblante dele, quem estava acompanhando ele… Exatamente o que deve ser feito quando o repórter vai para a rua”, explica.

Porém, ainda era preciso se aproximar do Ciro Gomes para conversar com ele, o que não parecia tarefa fácil pela quantidade de pessoas ao redor do pré-candidato. Por sorte, o então estudante encontrou outra pessoa do PDT que ele já conhecia e pediu ajuda para se aproximar de Ciro. Assim que o repórter conseguiu ficar frente a frente com personagem – no caso, o candidato – ele se apresentou e a conversa teve início.
“Eu dei sorte por não haver mais ninguém da imprensa ali, apenas eu. Conversamos de Porto Alegre até São Leopoldo, quando desembarcamos. E nos momentos em que ele parou de conversar comigo para dar atenção a outras pessoas ao redor, aproveitei para observar a forma como ele as tratava e incluí isso na matéria”, comenta Guerreiro. “Ciro já havia declarado na época que se candidataria à presidência em 2018, e ver como um candidato se porta diante do povo, que usa o transporte público todos os dias para ir e voltar do trabalho, é uma boa oportunidade para ver como ele realmente é”.
Quando Guerreiro chegou na Unisinos de São Leopoldo, ele encontrou o professor Boff e disse que iria fechar a matéria no dia seguinte para poder assistir à fala de Ciro no Anfiteatro Padre Werner. Porém, o professor não permitiu isso e disse que ele deveria entregar a matéria naquele mesmo dia. Então, Guerreiro sentou e escreveu a matéria sobre a viagem de Trensurb do Ciro Gomes de Porto Alegre até São Leopoldo.
A repercussão da matéria foi bem positiva. Além de ter sido compartilhada dentro e fora da Unisinos. Para Anderson, a experiência foi um aprendizado sobre a importância de o jornalista ter sua rede de contatos, pois ele não acredita que teria conseguido produzir essa matéria se não fosse pelo auxílio das pessoas do PDT que ele conhecia.
Mas não é apenas por meio de entrevistas com figuras políticas de projeção nacional que uma matéria da Beta Redação se destaca entre as outras. Como é o caso da turma da editoria de Cultura de 2019, que recebeu do professor Everton Cardoso a tarefa de cobrir o carnaval de Porto Alegre para uma série de matérias que seriam publicadas na Beta.
A egressa Stefany Rocha, que fez parte da cobertura, relembra com carinho da experiência. Na sexta-feira, 15 de março, que foi o primeiro dia dos desfiles de carnaval daquele ano, a turma se reuniu no campus São Leopoldo para, em seguida, pegar um ônibus até Porto Alegre. As tarefas estavam bem divididas, cada repórter estava encarregado de acompanhar uma das escolas de samba para depois escrever a respeito. E aqueles que não receberam uma escola para acompanhar deveriam auxiliar com a produção de fotos e de conteúdo para redes sociais.
Ao chegarem no local do evento, a turma se dirigiu ao espaço destinado para a imprensa. Embora eles não possuíssem uma área reservada junto com os outros veículos, conseguiram se ajustar e dar início aos trabalhos. Além de acompanharem os desfiles, também conheceram os bastidores e fizeram entrevistas. Stefany ressalta que isso serviu para dar uma visão totalmente diferente a respeito do carnaval, que não era algo que ela acompanhava.
“Pude perceber a importância dessa cultura para quem estava lá assistindo e desfilando, e isso me deu uma perspectiva diferente. Me fez ver como eu não reconhecia algo que sempre esteve muito próximo de mim”, comenta Stefany. “Era muito legal ver a empolgação de quem estava assistindo. Lembro de ter conversado com uma mulher que estava lá com a filha dela, que era uma criança pequena, mas já falava que sonhava em participar do desfile”.
A turma virou a madrugada trabalhando. Chegaram no evento na noite de sexta-feira e foram embora no sábado, quando estava amanhecendo. Stefany conta que estavam todos completamente exaustos, mas com uma exaustão boa, causada pelo sentimento de dever cumprido.
“Não foi um trabalho nada fácil, um desfile de carnaval é barulho e movimento sem pausa. Se deixássemos passar a oportunidade de tirar uma foto durante o desfile, não tinha volta. As entrevistas foram difíceis de fazer porque era um lugar escuro e bem barulhento”, relembra a egressa. “Era uma correria constante. Tínhamos que aproveitar ao máximo os intervalos para conversar com a plateia, sendo que nem todos queriam papo com a gente, e conferir o que estava acontecendo nos bastidores sem atrapalhar o pessoal que iria desfilar”.
Para completar, Stefany precisava também acompanhar uma escola que desfilaria no sábado. Porém, ela não tinha como se deslocar ao local naquele dia, então acompanhou ouvindo o rádio em casa. E, segundo ela, isso foi ainda mais desafiador. Ela já estava exausta de todo o trabalho da noite anterior e ainda sem o agito do local que te mantém acordado. Trabalhando de casa, ela pode experimentar a sensação de ter que cumprir uma tarefa mesmo estando muito cansada.
Stefany diz que a turma trabalhou com muita união durante a cobertura. Todos se ajudaram, o que foi muito bom por ser uma experiência inédita para a turma inteira. E todos ficaram muito contentes com o resultado final.
The post A correria e o nervosismo das grandes coberturas appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>The post O que aprendemos com a greve dos caminhoneiros appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>
Nas redes sociais, a cena era de seriado apocalíptico. Mas, as estradas vazias não anunciavam o fim do mundo. Era uma greve no principal setor de transportes do país, que cruzou os braços durante dez dias. Empunhando bandeiras do Brasil, manifestantes fizeram uma série de reivindicações, entre elas, pedidos de intervenção militar no Estado e de socorro ao alto escalão do Exército Nacional.
A greve ocorrida em maio passado provocou pane geral no governo, no país e na mídia, que viu seu trabalho questionado na mesma proporção que o movimento se estendia. Em 2013 e 2015, os caminhoneiros também se mobilizaram, mas, em 2018, pegou de surpresa uma imprensa desacreditada na força da categoria. Desse modo, o movimento demorou para ser percebido pelo jornalismo e, quando foi notado, foi apresentado a partir de suas consequências, e não das causas.
No dia 16 de maio, cinco dias antes da paralização, em ofício enviado ao Palácio do Planalto, e revelado pela publicação online The Intercept, os caminhoneiros avisaram: “vamos parar o Brasil”. Encaminhado por entidades ligadas à categoria e endereçado a diversos ministros e ao próprio presidente da República, o documento encontrou as gavetas do congresso. No dia 21, sem respostas, de fato, eles pararam.

A greve teve um aliado poderoso e utilizado por mais de 120 milhões de brasileiros: o WhatsApp. O aplicativo foi crucial para a organização dos manifestantes que colecionavam grupos com lideranças, repassavam fotos e textos patriotas, áudios narrando as paralisações e mensagens de supostos militares anunciando uma intervenção militar iminente. Toda essa carga de informações, muitas vezes recheadas de notícias falsas, foi uma pedra no sapato dos jornalistas que cobriam o acontecimento.
A doutoranda em Comunicação e professora de Jornalismo da Unisinos Luciana Kraemer questionou o fato do aplicativo ser capaz de, ao mesmo tempo, tornar acessível e omitir a informação de todos. “O WhatsApp nem é uma mídia que a gente possa monitorar, quer dizer, claro que pode, se tu tá recebendo. Mas, as mídias sociais, de notícia, que até então eram mais conhecidas como sendo de notícias, como o Facebook, o Instagram, o Twitter, eles ainda preveem um monitoramento, mas e o WhatsApp?”, indagou.

A imprensa também demorou para notar o que acontecia nos smartphones dos manifestantes. Noticiando o modo como os caminhoneiros estavam se organizando, a primeira reportagem foi publicada dias depois do início da greve, o que, para Leandro Demori, editor executivo do The Intercept, foi um erro das redações. “É o mínimo alguém que vá nos pontos de greve e converse ‘como vocês se organizaram, como surgiu a ideia?‘ Um negócio bem básico que deveria ter sido feito no primeiro dia, mas que de fato foram feitas lá no final”, comentou.
No dia 21, enquanto os caminhões começavam a parar pelas estradas, os jornais impressos do país não deram espaço para o movimento. A demora na reação da imprensa e a consequente cobertura do evento feita por ela geraram críticas nos mais diversos meios. A ombudsman da Folha de São Paulo disse que o jornal não conseguiu responder quem, de fato, parou o país. O jornalista gaúcho Carlos Wagner afirmou que a mídia forneceu aos leitores informações imprecisas, “justamente no momento em que ele precisava saber o que estava acontecendo para se organizar”, diz.



Quem acompanhava a greve de casa, via pela televisão três pontos principais de entradas ao vivo dos repórteres: postos e abastecedoras de combustível, supermercados e feiras e o Palácio do Planalto. Nos jornais impressos e internet, a lógica se repetia, assim como as informações e fontes utilizadas.
“Quando acontece um negócio desses, no começo é muito difícil ter uma leitura exata do que fazer. Eu acho que a imprensa tem algumas horas desde o início de um evento traumático em que ela realmente precisa ajustar o foco, é algo normal”, opinou Demori. O The Intercept, veículo em que o jornalista atua, não trabalhou com a cobertura ponto a ponto da greve dos caminhoneiros. Ao contrário, optou por entender o impacto do acontecimento e, após, entrar com matérias de análises e, como no caso do ofício divulgado, informações exclusivas.
Para Demori, a mídia ficou muito presa nos discursos oficiais e o que se viu foi uma cobertura voltada a falas e posicionamentos dos ministros e presidente. “Muitas vezes (a imprensa) acaba caindo em várias armadilhas, intencionais ou não, e compactuando com o discurso oficial. Isso ficou claro quando o Temer anunciou o fim da greve. Ele juntou alguns representantes de entidades lá no palácio e monocraticamente anunciou que a greve acabaria, e claramente isso não aconteceu. Então eu acho que falta senso crítico em relação a isso”, contou.
Luciana Kraemer apontou e criticou uma imprensa pautada pelos poderes. “A agenda dos veículos, tirando os independentes, tem sido a dos governos, o que o ele faz, deixa de fazer ou tá fazendo. Então, quando os poderes fazem, dizem ou agendam algum ato ou ação, aí a imprensa vai atrás. Acho que a imprensa tá muito reativa e não pró ativa”.

Quem acredita que a greve dos caminhoneiros tenha sido um evento complexo para se acompanhar é o professor de Jornalismo da Unisinos Felipe Boff. Para ele, os jornalistas não são figuras desligadas do restante da sociedade e sofreram dos mesmos efeitos do restante da população. Mas, apesar de tal condição, ele não poupou críticas ao trabalho da imprensa na cobertura o evento.
“Percebi que, no primeiro momento, não se mostrou tanto o caminhoneiro. Quando eclodiu a greve, ele não era o principal da cobertura, e sim, imediatamente, se partiu para cobrir os efeitos da greve. A imprensa procurou ouvir o caminhoneiro a partir do momento em que viu que aquela liderança que negociava com o governo não representava de fato a categoria. Então, foi se tentar descobrir quem são essas pessoas que estão protestando e o que elas querem”, comentou o professor.
A pesquisadora e professora da Unisinos, Dra. Beatriz Marocco avaliou o discurso da mídia como “alarmista”. Ela apontou as manchetes voltadas para o desabastecimento de combustíveis, alimentos e medicamentos que predominaram as reportagens. “O discurso parece voltado a amedrontar as pessoas em relação ao desabastecimento nos setores de alimentação e hospitalar. Há um predomínio do discurso oficial”. Beatriz ainda bateu o martelo dizendo que “no Brasil, mídia e governo são irmãos siameses”.
A cobertura da greve não se diferenciou drasticamente de um veículo a outro, dentro da imprensa mais tradicional. De modo geral: sobraram oficialismos, faltaram lados a mostrar. Na televisão, repórteres se revezavam em entradas ao vivo, e, por diversas vezes, com a função de repetir informações.
“A repetição é característica da cultura de massa, na qual o jornalismo também se inclui. A repetição da informação tem função de redundância para que seja assimilada e chegue a todos. Há, também, uma repetição na forma, que faz ouvir sempre as mesmas fontes”, explicou a pesquisadora Dra. Christa Berger. Ela acredita que tal prática tenha, de fato, criado um efeito alarmista na população, enfatizando os efeitos da greve e criando uma espécie de caos social.
Tanto Christa, quanto Beatriz concordam, quando afirmam que a mídia criou um alvoroço na população, com a chamada Teoria Hipodérmica, conhecida no jornalismo. A teoria afirma que uma mensagem enviada para um público afeta a todos os indivíduos da mesma maneira. O que, neste caso, explicaria o fato de que a imprensa teria inflamado a população quanto a falta de abastecimento, criando filas gigantescas nos postos de gasolina e supermercados.
Na opinião de Felipe Boff, os veículos de comunicação não têm o poder de determinar o caos, o que não significa que, em algum momento do passado, não o tenha feito. “Talvez nos primórdios essa teoria tivesse mais sentido, não hoje, com a variedade de canais de informação que nós temos. Não vejo que a imprensa disseminou o caos, eu acho que a ela noticiou. O grande cuidado que nós precisamos ter é sempre a informação de contexto, mostrar que isso aconteceu ali e não necessariamente tá acontecendo em todo lugar”.
Luciana disse que a mídia pecou em não ouvir os manifestantes, mas que isso é um reflexo histórico do distanciamento dos profissionais com os ativistas dos movimentos sociais. Segundo ela, o jornalismo é uma profissão conectada à sociedade, e que, por isso, poderia trazer abordagens diferentes da mobilização sem depender do ponto de vista do governo.
Beatriz sentenciou que o enquadramento, a escolha do que mostrar, por parte da mídia, é, por si só, uma forma de manipulação das informações. Christa não retirou a responsabilidade dos veículos, mas afirmou que há a ausência de recepção crítica por parte da população, para que possa se contrapor a esse efeito do enquadramento midiático.
Boff acredita ser um romântico do jornalismo ao afirmar que o mal das redações é quando o profissional não sai para a rua e acaba realizando um trabalho pelo telefone, e-mail e, pela própria ironia do movimento, pelo WhatsApp. “É o que vai diferenciar mais o trabalho do jornalista do trabalho de quem simplesmente joga a informação na rede. O jornalista é o cara que tem a missão de ir lá, de ir até o fato e ver se tá acontecendo, conversar com as pessoas olho no olho, sabe? As outras pessoas não têm esse compromisso, né?”.
Tanto os professores Luciana e Boff, quanto as pesquisadoras Christa e Beatriz apostam na formação dos profissionais para criar lógicas diferentes dentro da imprensa tradicional. Beatriz disse que as redações são majoritariamente brancas, e que, portanto, é difícil mostrar um lado que não o normativo destas pessoas. “Uma boa formação do jornalista pode mudar esta prática. As cotas são outro fator importante, porque pode tirar da classe média branca o predomínio nas redações jornalísticas”, disse.

Luciana é, entre outras, professora das disciplinas de Jornalismo Investigativo e de Telejornalismo na Unisinos. Ela apontou que o trabalho realizado dentro das salas de aula é o de justamente tentar desmistificar o jornalismo decoratório, de oficialismos. “Eu trabalho muito intensamente essa busca de pautas que não são agendadas pelo poder. Desfazer esse olhar do mais importante ser o que os poderes estão dizendo. Acho isso fundamental”.
Demori falou que existem muitos profissionais excelentes na imprensa, mas que muitas vezes eles ficam presos as lógicas destas mesmas redações. “Cada uma dessas grandes organizações de mídia tem seus papéis bem estabelecidos no poder, então é injusto com o jornalista. Se os chefes de redação falassem para os seus jornalistas ‘nada de hard news, vamos fazer uma cobertura fod*, vamos ver o que a gente consegue trazer’. Temos jornalistas muito bons por aí, esse jogo não é justo”, afirmou.
Boff também falou sobre as dificuldades da imprensa e o quanto isso pode ter afetado o trabalho na cobertura desde evento. “Não é que a imprensa não saiba disso, ela sabe, por outro lado, ela tá sendo muito pressionada com os custos de produção do jornalismo. As pessoas não querem pagar por informação. Aí, como tu vai colocar um repórter na rua se não tem receita pra isso? A imprensa deixa de fazer o trabalho completo, em boa parte, porque ela não tem condições de fazer”, alegou.

The post O que aprendemos com a greve dos caminhoneiros appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>