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Arquivos #cinema - Portal da Indústria Criativa https://mescla.cc/tag/cinema-2/ Informação, inovação, tendências e eventos. O Mescla reúne tudo que você precisa saber sobre a Indústria Criativa. Wed, 10 Jan 2024 16:12:19 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 18ª Mostra Unisinos de Cinema trouxe uma boa safra de filmes, diz coordenador do CRAV  https://mescla.cc/2024/01/09/18a-mostra-unisinos-de-cinema-trouxe-uma-boa-safra-de-filmes-diz-coordenador-do-crav/ https://mescla.cc/2024/01/09/18a-mostra-unisinos-de-cinema-trouxe-uma-boa-safra-de-filmes-diz-coordenador-do-crav/#respond Tue, 09 Jan 2024 19:21:34 +0000 https://mescla.cc/?p=19579 Vicente Moreno, que foi aluno da primeira turma do curso e agora é coordenador, diz que a Mostra de 2023 teve um diferencial. “Essas turmas de agora passaram quase três anos na pandemia, então vimos muitas inquietações intimistas, muitos monstros materializando medos, alguns filmes mais intimistas e acabando com comédias que transitam entre o político e […]

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Vicente Moreno, que foi aluno da primeira turma do curso e agora é coordenador, diz que a Mostra de 2023 teve um diferencial. “Essas turmas de agora passaram quase três anos na pandemia, então vimos muitas inquietações intimistas, muitos monstros materializando medos, alguns filmes mais intimistas e acabando com comédias que transitam entre o político e o absurdo.” 

Ao todo, foram 17 curtas-metragens de ficção, 3 documentários, 7 animações em stop motion e, ainda, 1 episódio piloto de seriado de televisão. Além disso, houve um momento de retrospectiva, com uma seleção de obras marcantes criadas por alunos que já não estão mais no curso.

Tudo isso dividido em 7 sessões com debates ao longo de 3 dias de muito bom cinema, celebração da cultura e integração entre equipe cinematográfica e público. E ainda aconteceu uma festa no tradicional no Bar Ocidente, especialmente em comemoração aos 20 anos do curso. Agora, confira os destaques da Mostra de 2023! 

Famílias

Começando os trabalhos, no dia 18/12, segunda-feira, o Programa “Ficção 1” apresentou filmes com temática familiar. Um longa do primeiro dia que se destaca é “Baltazar”, dirigido por Eduardo Scharlau. Foi a primeira vez do aluno ocupando cadeira de direção em uma produção, já que ele está muito mais acostumado a atuar no departamento de som. “Baltazar” conta a história de um pai que tem uma relação estranha com o filho e vai redescobrindo situações passadas que podem ter sido a causa dessa estranheza entre eles. 

“Baltazar, meu primeiro filme”, escreve Eduardo em post. Reprodução: Instagram @ eduardo_scharlau 

Eduardo contou ao Mescla que ocupar esse lugar foi, para ele, uma oportunidade de experienciar a realidade de fazer um filme, com todos os desafios de conseguir um bom elenco e locações. “Mas, ao mesmo tempo, foi uma experiência ótima que me deixou com muita vontade de produzir outras obras como diretor no futuro.” 

Seriedade dosada com leveza 

O segundo dia, terça-feira, já iniciou com bastante movimento. O Programa “Documentários, Stop Motions e Piloto” apresentou nada menos que 11 obras de diferentes estilos e autores com diferentes tempos de curso. As animações em stop motion, com elementos do humor e da fantasia, trouxeram uma quebra de tensão entre os documentários que abordavam questões mais sérias e pesadas, como o “Linha Final”, que fala sobre a problemática do suicídio a partir da perspectiva de funcionários da Trensurb. 

Em debate após a exibição dos filmes, a diretora-aluna Valentina Peroni diz que, pensando sobre o assunto, se fez a pergunta: “Como os funcionários do trem ficam depois que isso acontece?”. Daí, surgiu o documentário, em que vemos que esse é um drama mais frequente do que se pode imaginar para quem trabalha no Trensurb, e os relatos são extremamente fortes e sensíveis. Foram várias as técnicas criativas utilizadas por Valentina para contar a história, dentre elas, o uso de uma câmera GoPro posicionada embaixo dos trilhos, alternando para outra câmera na visão dos maquinistas. 

Loucura 

Seguindo a programação de terça-feira, o Programa “Ficção 2” foi um reflexo claro do resultado da pandemia na mente dos jovens cineastas da Unisinos. Todos os filmes entraram de cabeça na questão da saúde mental. Uns de maneira mais explícita, outros utilizando metáforas com criaturas fantásticas e elementos do terror. Mas todos os autores com uma fala em comum: “aqui estão os meus medos mais íntimos”. 

“Ansiosamente” utiliza elementos de animação para expressar emoções. Foto: Pôster do filme 

O curta “Ansiosamente”, dirigido e escrito por Lívia Azambuja, conta uma história muito pessoal, difícil de ser falada e importante de ser divulgada. A obra não chega a ser do gênero de terror, mas causa calafrios ao retratar de forma fiel como funciona a ansiedade em si, inclusive com seus picos nas chamadas “crises”. Ao estilo “Heartstopper”, a animação aqui é um recurso que ajuda a expressar emoções dos personagens de forma visual.  

Profundidade 

O último bloco de exibição da terça-feira, “Ficção 3”, contou com filmes sérios, que se aprofundam em questões como câncer, morte, envelhecer, luto e perda. Ana Luiza Azevedo, que comandou o debate após os filmes, se deslumbrou com o resultado do trabalho dos alunos: “Me encanta a maturidade nos filmes, são filmes muito coesos. Os diálogos são bem escritos, com uma impressionante precisão nas palavras”. 

“Pior que morrer é saber que se está morrendo.” Esta é a sinopse de “Uma última xícara de café”, de Victor Curi. Werner Schünemann vive, aqui, um homem em estágio terminal que conversa com um jovem afrontoso e violento. Em debate, foi conversado com toda a sala de cinema do Capitólio quem era aquele rapaz. Alguns interpretaram como sendo o próprio homem doente, outros como sendo a depressão, outros pensam que é a própria morte. É claro que o diretor Victor não forneceu resposta alguma. 

Retrospectiva 

O último dia da 18ª Mostra Unisinos de Cinema foi inteiro de celebração. Não que os outros não tenham sido, mas a aproximação da festa dos 20 anos de CRAV no Ocidente deu um tom diferente. A quarta-feira iniciou com uma seleção de curtas de épocas passadas do curso, indo de 2008 até 2014. Com certeza os coordenadores Milton do Prado e Vicente Moreno sentiram a nostalgia no ar. 

O destaque vai para “O Matador de Bagé”, de 2012. Felipe Iesbick apresenta Assis, um assassino profissional de Porto Alegre que executa suas vítimas “respeitosamente”, como o mesmo denomina. Assis se irrita quando chega à cidade um concorrente, que realiza os assassinatos de forma grotesca e sem nenhuma classe, no conceito do veterano. A divertida briga de gato e rato fala sobre o tema do confronto de gerações de uma forma muito inusitada. O curta-metragem está na íntegra no YouTube e você pode conferir abaixo. 

Filme “O Matador de Bagé” completo. Reprodução: YouTube 

Crescer 

Filmes com elenco mais infantil, que falam sobre o processo de crescer e se entender como pessoa no mundo, constituíram o Programama “Ficção 4”. Foi um momento de prova de que temáticas tratadas de maneira mais “leve” não são menos importantes. Mesmo não sendo animações, são filmes no estilo do estúdio “Pixar”, que utilizam uma linguagem que dialoga com adultos e crianças ao mesmo tempo de forma maestral. 

“Redação sobre família” é dirigido por João Eltz e conta a angústia de um órfão que não sabe o que escrever sobre “o que é família?” em uma redação na escola. Em sua escrita, ele narra a sua relação com o “Tio do Surfe”, com quem teve uma conexão de pai, tio, avô e irmão – de coração. A base do roteiro foi uma turma de escola real, do 5º ano do ensino fundamental. João misturou vários trechos dos textos de diferentes crianças. 

João ainda diz, no debate pós sessão: “Estou com várias das minhas famílias (de sangue e coração) aqui na sala hoje”. O filme mescla animação e live-action e, com elementos que vão de Turma da Mônica a Wes Anderson, é uma linda prova de que família, às vezes, se escolhe, sim.  

Festa 

Combinando com a festa de 20 anos do curso que estava se aproximando, os últimos momentos de Mostra, com o Programa “Ficção 5”, foram focados na comédia, na vida noturna e, acima de tudo, nas conexões.  

Set de filmagem de “Pizza de Abacaxi e O Fim do mundo”. Foto: Unisinos 

Pedro Rimoli apresenta, em “Pizza de Abacaxi e O Fim do Mundo”, um ambiente surtado à la “Se Beber Não Case”. Mas ao invés de se passar em Los Angeles, os personagens têm um sotaque porto-alegrense carregadíssimo, o que o torna muito mais engraçado que a produção americana. E envolvendo uma possibilidade de apocalipse. “Imagina tu achar que o mundo vai acabar. Tu decide fazer uma bebedeira. No dia seguinte, o mundo não acaba e tu tem que lidar com o monte de besteira que tu fez. Esse é o meu filme”, ri Pedro. Tudo isso com, no final, ainda contar com a aparição especial de uma professora querida por toda a Unisinos, Luciana Kraemer. Encerrado com chave de mestre. 

Uma boa safra de filmes 

Além de ser um momento de orgulho, de mostrar ao mundo o fruto de seus trabalhos árduos, os alunos do CRAV, na Mostra, se conectam, tanto entre si, como com as famílias uns dos outros, amigos uns dos outros, e com o público em geral. “A gente enxerga o CRAV como uma grande comunidade. Quem está no curso agora, os professores e quem já saiu, todos se juntam numa grande festa”, fala Vicente Moreno, orgulhoso. “Cada ano é como se fosse uma safra de vinhos, sempre gostamos de ver e rever o que os alunos produzem.” 

Acesse o Instagram do Mescla para conferir as falas de algumas figuras presentes na 18ª Mostra Unisinos de Cinema e ter uma palhinha visual de como foi o evento!

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Aluno de Realização Audiovisual da Unisinos vence edital da Lei Paulo Gustavo  https://mescla.cc/2024/01/03/aluno-de-realizacao-audiovisual-da-unisinos-vence-edital-da-lei-paulo-gustavo/ https://mescla.cc/2024/01/03/aluno-de-realizacao-audiovisual-da-unisinos-vence-edital-da-lei-paulo-gustavo/#respond Wed, 03 Jan 2024 13:42:40 +0000 https://mescla.cc/?p=19570 Crystom Rodrigues está no primeiro ano do curso de Realização Audiovisual da Unisinos (CRAV) e já orgulha a comunidade audiovisual da Universidade e o cinema gaúcho. Isso porque ele foi um dos selecionados no edital da Lei Paulo Gustavo que, por todo o Brasil, destina quase R$ 4 bilhões para produções audiovisuais nacionais.  “Aconteceu à […]

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Crystom Rodrigues está no primeiro ano do curso de Realização Audiovisual da Unisinos (CRAV) e já orgulha a comunidade audiovisual da Universidade e o cinema gaúcho. Isso porque ele foi um dos selecionados no edital da Lei Paulo Gustavo que, por todo o Brasil, destina quase R$ 4 bilhões para produções audiovisuais nacionais. 

“Aconteceu à luz da lua”, curta-metragem de ficção que será produzido a partir do prêmio conquistado por Crystom, contará a história de um adolescente periférico que quer ter o direito de sonhar. A previsão é de que tudo fique pronto ainda em 2024. 

O “craviano” fez o Ensino Básico no Colégio Protásio Alves, da Capital, e sempre se interessou pelas artes, principalmente a música, tanto que chegou a estudar para o vestibular da UFRGS dessa área. Acabou prestando o ENEM e entrando na Unisinos como estudante bolsista do ProUni. Hoje, em paralelo à carreira de artista e com o mundo audiovisual, Crystom trabalha como motorista de delivery

Crystom em seu primeiro dia de aula, no campus de Porto Alegre 
Foto: Arquivo pessoal

Pioneiro na família e no cinema gaúcho 

Primeiro da família a ingressar em um curso superior em uma universidade particular, Crystom vem da zona leste de Porto Alegre para ocupar um espaço no mundo acadêmico – mais um dentre tantos dos quais vêm se apropriando. Apesar de estar começando os estudos agora, ele já possui experiência com trabalhos envolvendo grandes marcas. No currículo, a produção de making ofs de campanhas para Nike, Huggies e Disney. Em um deles, o jovem documentou a experiência de participar de ações da Nike para divulgação da camiseta da seleção brasileira na última Copa do Mundo. 

Crystom já atuou também como assistente de direção do filme “Samba às avessas”, de Pâmela Amaro; assistente de câmera do filme “O tempo”, dirigido por Ellen Correa, e que participou do Festival de Cinema Gramado; e continuísta em “Flora”, da Bactéria Filmes, produtora da egressa Daniela Israel – que já foi entrevistada aqui no Mescla. Ele enfatiza que todas as produções das quais participou são feitas por pessoas como ele. Os filmes citados, por exemplo, são todos dirigidos por mulheres negras. 

Crystom foi assistente de direção do filme “Samba às avessas”  
Reprodução: YouTube 

Do Morro da Cruz ao Projac 

Mas o seu trabalho no YouTube, com o canal Justiça Poética, foi o que acabou dando uma virada de chave em sua vida. Acontece que, em 2021, produtores da TV Globo descobriram o trabalho de Crystom e o convidaram para participar do especial do Dia da Consciência Negra chamado Falas Negras. 

Ele conta que essa oportunidade de presenciar o trabalho de uma equipe de televisão de alto nível o motivou a fazer o mesmo. “Me peguei pensando: ‘como assim eu posso me expressar através da arte, ainda por cima com uma equipe toda igual a mim?’. Foi muito bom ver que isso é possível.” 

O canal Justiça Poética acabou virando uma produtora audiovisual de divulgação do trabalho de pessoas negras habitantes do sul do país. “Começou com a minha comunidade no Morro da Cruz, depois foi abraçando toda Porto Alegre, depois a Região Metropolitana da Capital e, no fim, acabamos abrangendo o Estado todo.” 

Vídeo da série “Desabafo Poético” com o próprio autor, Crystom 
Reprodução: YouTube 

Com toda essa visibilidade, Crystom inspirou outros membros da comunidade, principalmente os mais novos. Vários desses indivíduos aparecem em outro projeto, o ensaio fotográfico intitulado “Favela Presente”, que o artista mantém em seu Instagram pessoal. Os planos futuros são, inclusive, de transformar as fotografias em uma exposição física. 

Por muitos anos, ele teve como ferramenta de trabalho o celular e câmeras emprestadas por outras pessoas. Hoje, possui uma câmera semiprofissional. “Já é um começo”, orgulha-se.  

Imagem da exposição online “Favela Presente”,  
que Crystom quer trazer para o formato físico 
Foto: Crystom Rodrigues 

O poder da luz da lua 

Agora, com o resultado do edital, Crystom vai poder desfrutar de recursos um pouco mais avançados para a execução de seu primeiro filme, “Aconteceu à luz da lua”. Ele revela ao Mescla que escreveu o roteiro vencedor do edital Paulo Gustavo – o primeiro de sua vida – em três dias. Esse é o poder de inspiração, segundo Crystom, que a lua lhe dá. 

O diretor estreante vai contar com uma equipe formada apenas por pessoas com as quais ele se identifica, duas delas colegas suas do curso: Isabella Corrêa Bauer, primeira aluna PCD do CRAV, como diretora de arte; Fernanda Gregório Fernandes no som; e Maicon Ferreira da Silva, que será o assistente de direção. 

“Ideias surgem e eu vou anotando, sempre. Temos que apresentar nossas narrativas. Essa é a chance de transformar o cinema nacional em uma indústria”, enfatiza. Ele pretende, ainda, “chacoalhar o Estado” com seu filme. Quer que seus iguais se reconheçam, ao mesmo tempo em que os que não falam muito sobre o assunto se conscientizem.  

E os planos do diretor e roteirista para depois do filme? “Quero fazer mais e mais, inspirar os meus iguais e os diferentes de mim também.”  

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Os desafios de produzir um longa que levou dois Kikitos em Gramado    https://mescla.cc/2023/09/06/professora-de-pp-da-unisinos-conta-sobre-os-desafios-de-produzir-um-longa-que-levou-dois-kikitos-em-gramado/ https://mescla.cc/2023/09/06/professora-de-pp-da-unisinos-conta-sobre-os-desafios-de-produzir-um-longa-que-levou-dois-kikitos-em-gramado/#respond Wed, 06 Sep 2023 20:09:39 +0000 https://mescla.cc/?p=19041 O longa-metragem Céu Aberto, que teve participação, na produção executiva, da professora Lisiane Cohen, da Escola da Indústria Criativa, foi premiado recentemente em duas categorias na 51ª edição do Festival de Cinema de Gramado. Dirigido por Elisa Pessoa, o documentário recebeu os “Kikitos” de “Melhor desenho de Som”, feito por Chrístian Vaisz, Kiko Ferraz e Ricardo […]

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O longa-metragem Céu Aberto, que teve participação, na produção executiva, da professora Lisiane Cohen, da Escola da Indústria Criativa, foi premiado recentemente em duas categorias na 51ª edição do Festival de Cinema de Gramado. Dirigido por Elisa Pessoa, o documentário recebeu os “Kikitos” de “Melhor desenho de Som”, feito por Chrístian Vaisz, Kiko Ferraz e Ricardo Costa; e “Melhor Trilha Musical”, realizada por Bruno Mad e Rita Zart. Além de Lisiane, a produção executiva ficou a cargo também de Beca Furtado e Priscila Guerra.

Na foto, da esquerda para a direita: Rita Zart, a diretora Elisa Pessoa e Kiko Ferraz (Foto: arquivo pessoal) 


Realizado pela produtora Margem Cinema Brasil, da qual Lisiane é uma das gestoras, Céu Aberto fala sobre a transição entre infância e juventude. Conta a história da Andriele, uma menina nascida e criada na zona rural de Dom Pedrito (distante 440 km de Porto Alegre), no Rio Grande do Sul, que tem o desejo de se mudar para a zona urbana da cidade. A diretora do filme acompanhou a personagem durante cinco anos através de um exercício de encontros, em que Andriele se torna cada vez mais dona de si, refletindo sobre as transformações da paisagem em torno dela, e bem como o preço de suas escolhas.

Os desafios de realizar o longa  

Lisiane conta que participar do filme foi uma experiência interessante e complexa, pois o dinheiro ganho em um edital em 2018 para realizar o projeto foi disponibilizado somente em março de 2020, quando a pandemia de covid-19 e o lockdown já tinham começado. “Já havia protocolos que nos impediam de filmar, e como estávamos acompanhando a Andriele, que tinha o desejo de ir morar na cidade e já estava indo fazer isso, tivemos que tomar decisões e fazer mudanças na nossa produção, pois se a gente não filmasse, não teria documentário”, lembra. Diante disso, toda a estrutura de produção foi alterada, para permitir a filmagem durante a pandemia. Como a equipe não podia ir, os esforços foram direcionados muito mais em consultoria de montagem e de roteiro. “Fizemos isso para que não ficasse tudo tão concentrado só na diretora, e não tivesse tanta perda por conta da função da pandemia”, explica a professora.

Momento de encontros e reencontros 

Participar do festival é sempre muito bacana, revela Lisiane, porque lá se conhece muitas pessoas e reencontra outras. A última vez que participou da premiação foi em 2021, quando ainda estava em formato virtual devido à pandemia. “Voltar agora de forma presencial foi maravilhoso por conta desses momentos de reencontro e novos encontros. Conheci bastante gente e revi ex-alunos”, alegra-se Lisiane. 

“Ano passado, estivemos com o filme no Olhar de Cinema, de Curitiba, mas foi no Festival de Gramado que ele estreou em solo gaúcho, o que dá um gostinho especial né?”, comenta a professora, orgulhosa. A equipe levou ao evento a personagem principal, Andriele, e a mãe dela, Sandra, que também participa do documentário. “Foi fantástico, um momento único e muito lindo”, apontou Lisiane. 

Andriele (ao microfone) e Sandra (vestindo laranja) participaram de uma coletiva de imprensa juntas com a equipe de produção do longa (Foto: arquivo pessoal) 


A professora destaca também a felicidade de estar em um ambiente em que é possível ver muito filmes diferentes e conversar com quem os fez. “A repercussão do nosso documentário foi muito positiva. As pessoas vieram conversar com a gente e revelaram que gostaram dele. Eu sinto que a gente saiu do Festival com o longa muito fortalecido. Claro, os prêmios fortalecem, mas a conversa com as pessoas que o assistiram foi muito rica, o que ajudou muito o projeto”, observa Lisiane.   

Do Interior para o Festival de Gramado 

O Mescla também conversou com a personagem principal do longa. Por aplicativo de mensagem, Andriele Rodrigues Soares avaliou que participar do longa foi uma experiência diferente da sua realidade, já que vive em uma cidade onde não há cinema. “Foi tudo muito novo pra mim. Aprendi bastante e sou grata por tudo que o filme me proporcionou. Foi ótimo poder mostrar para as pessoas e jovens, como eu, que as indecisões, incertezas e obstáculos que a vida faz a gente passar são normais, e que tudo tem seu lado bom e o tempo certo para acontecer”, diz Andriele.   

Ele contou que nunca imaginou que o longa teria toda essa visibilidade, e muito menos que poderiam participar do Festival. “Foi uma experiência incrível e mágica. Todo mundo foi muito receptivo e gentil, e a estrutura do Festival é muito boa. Mas o melhor foi a reação dos jovens e das pessoas que assistiram ao filme. Eles foram muito carinhosos e ficaram admirados”, comenta. 

Andriele e a mãe, Sandra, posam para fotos no Festival de Gramado com a equipe do documentário (Foto: arquivo pessoal) 


Céu Aberto está participando da Mostra dos filmes gaúchos de Gramado, que ocorre entre os dias 5 e 10 de setembro na Casa de Cultura Mario Quintana (Rua dos Andradas, 736, andar térreo, em Porto Alegre). O filme será exibido nesta quinta-feira dia 7/9, às 19h, e contará com um debate após a exibição. A entrada é franca e os ingressos podem ser retirados na bilheteria. 

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Aluna do CRAV é finalista no prêmio ABC https://mescla.cc/2023/05/29/aluna-do-crav-e-finalista-no-premio-abc/ https://mescla.cc/2023/05/29/aluna-do-crav-e-finalista-no-premio-abc/#respond Mon, 29 May 2023 20:02:57 +0000 http://mescla.cc/?p=18257 Em sua primeira indicação a um prêmio por um trabalho audiovisual, Beatriz Potenza, aluna do 7º semestre do Curso de Realização Audiovisual (CRAV) da Unisinos, fez sua estreia justamente em uma das principais associações cinematográficas do Brasil, a Associação Brasileira de Cinematografia (ABC). Ela disputou a categoria de Melhor Direção de Fotografia de Filme Estudantil com […]

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Em sua primeira indicação a um prêmio por um trabalho audiovisual, Beatriz Potenza, aluna do 7º semestre do Curso de Realização Audiovisual (CRAV) da Unisinos, fez sua estreia justamente em uma das principais associações cinematográficas do Brasil, a Associação Brasileira de Cinematografia (ABC). Ela disputou a categoria de Melhor Direção de Fotografia de Filme Estudantil com o filme “Para Joana”, concorrendo com estudantes de vários Estados do Brasil, como São Paulo e Paraíba. Também foram finalistas os egressos Bruno Polidoro (CRAV 2003) e Luciana Baseggio (CRAV 2005), ambos pela direção de fotografia de Longa-metragem de Ficção e Documentário, respectivamente.


O curta-metragem “Para Joana”, produzido em aula do curso, conta a história de duas irmãs, Lena e Clara, que vão passar um tempo na casa da bisavó delas, que já morreu. Então, há uma despedida iminente entre elas. Além de Beatriz na direção de fotografia, o filme conta com a seguinte equipe:

  • Direção e roteiro: Alice Graziuso;
  • Produção: João Quaresma;
  • Direção de arte: Laura Kullmann Toledo;
  • Som: Nicolle Ferrer;
  • Montagem: Artur Ilha;
  • Assistência de direção: Luísa Zarth Carvalho;
  • Elenco: Andressa Matos e Bela Becker.


Atualmente, Beatriz é estagiária de roteiro na Fehorama Filmes, uma produtora criada por três ex-alunos do CRAV. Ela atua realizando as atas das mesas de roteiro e fazendo pesquisas necessárias para o desenvolvimento dos trabalhos.


Beatriz está na reta final do curso e tem perspectivas de ser, além de diretora de fotografia, roteirista e diretora
(Foto: arquivo pessoal)


Sobre a sensação de ser indicada, ela diz que não consegue explicar muito bem. “Eu fiquei muito feliz na hora. Estava deitada mexendo no celular num dia pós-festa. Já tinham anunciado os indicados de todas as outras categorias, menos da estudantil. Minha amiga Alice Graziuso (diretora de ‘Para Joana’) tinha dormido na minha casa, e estava lá comigo quando viu que eu era finalista. Ela me mostrou e logo nós avisamos o pessoal da equipe. Eu mandei a notícia para a minha família também”, conta.


Beatriz acompanhou a premiação presencialmente em São Paulo, na Cinemateca Brasileira. Ela se sentou na segunda fileira da sala, e conseguiu conversar com Tiago Bello e Marcos Lopes, egressos do CRAV que ganharam o prêmio de Melhor Equipe de Som para Longa-metragem de ficção por “Marte Um”, filme premiado também no Festival de Gramado e selecionado para representar o Brasil na disputa do Oscar de Melhor Filme Internacional de 2023. “Foi uma bela oportunidade de troca”, comenta a aluna. 


Beatriz na cerimônia de premiação que ocorreu em São Paulo
(Foto: Marcelo Potenza) 

Marte Um, filme premiado no ABC.
(Vídeo: reprodução YouTube)


A futura diretora de fotografia conta que ela estava mais bem preparada quando trabalhou em “Para Joana” porque já tinha tido outras experiências. “Somado a isso, toda a equipe era muito competente, todo mundo trabalhava muito bem junto. Foi um dos sets mais organizados em que eu trabalhei, um dos menos estressantes também. Foi o melhor set para mim!”.


Uma cena em particular foi especial para Beatriz: “Tem uma cena com uma luz rosa e bolhas de sabão que deixa bem forte a presença da bisavó das meninas. Ela é a mais fantástica dentro do curta. Na hora de gravar, estava uma correria. Quando terminamos, todos pararam para assistir depois. Foi um momento bem especial, todo mundo ficou bem emocionado. Eu e a Alice demos uma choradinha. Foi um daqueles momentos em que tu sabe que está fazendo a coisa certa, que tu está estudando o que tu quer estudar”, avalia. 


Todas as composições das cenas foram pensadas anteriormente por Beatriz e o resto da equipe
(Imagem: frames do filme “Para Joana” concedidas pela equipe)


Entre as principais referências para a concepção visual e estética do filme, foram utilizadas algumas obras, como “A Primeira Morte de Joana”, de Cristiane Oliveira, temáticas e enquadramentos de “O Pântano”, de Lucrecia Martel, e algumas inspirações na filmografia de Sofia Coppola. “Teve todo um trabalho em equipe, um diálogo entre todas as áreas criativas”, explica Beatriz.


A aluna revela algumas técnicas usadas durante as gravações: “Eu procurei utilizar sempre uma fonte de luz única, com um refletor só, por exemplo. Trabalhar bem na decupagem também, para facilitar na hora da gravação. Muitas vezes, o diretor de fotografia precisa operar a câmera, em se tratando de equipes mais reduzidas, e foi no nosso caso”.


A chave de um projeto bem-sucedido, para Beatriz, é a boa comunicação entre os membros da equipe. “Tentar fazer coisas diferentes e se arriscar dentro do possível, testando novos caminhos e possibilidades”.

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Entre o mercado e a academia: Daniela Israel é empreendedora criativa e pesquisadora  https://mescla.cc/2023/05/22/entre-o-mercado-e-academia-daniela-israel-e-empreendedora-criativa-e-pesquisadora/ https://mescla.cc/2023/05/22/entre-o-mercado-e-academia-daniela-israel-e-empreendedora-criativa-e-pesquisadora/#respond Mon, 22 May 2023 19:18:36 +0000 http://mescla.cc/?p=18151 Daniela Israel se formou pelo Curso de Realização Audiovisual (CRAV) da Unisinos em 2007. De lá para cá, se consolidou como produtora, diretora, empreendedora e, ainda, mestra, pesquisadora CNPq e doutoranda em processos e manifestações culturais. Ela é sócia e CEO da Bactéria Filmes, uma companhia de conteúdo original para todas as telas e audiências. […]

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Daniela Israel se formou pelo Curso de Realização Audiovisual (CRAV) da Unisinos em 2007. De lá para cá, se consolidou como produtora, diretora, empreendedora e, ainda, mestra, pesquisadora CNPq e doutoranda em processos e manifestações culturais.


Ela é sócia e CEO da Bactéria Filmes, uma companhia de conteúdo original para todas as telas e audiências. Fundada em 2007, a missão da empresa é compartilhar histórias fascinantes com o mundo. No catálogo, filmes e séries ambientados em universos fantásticos, assim como documentários focados em manifestações culturais.  


Daniela em seu escritório
(Foto: arquivo pessoal)


Como professora universitária, foi reconhecida com o Laureate Recognition Program – LATAM (2017), e como produtora, recebeu, no Festival Internacional de Cinema de Gramado, o prêmio de “Melhor Produção Executiva” (2019). Representando o projeto Força Gurias, palestrou no TEDxUFRGS em 2016.


Por duas gestões (2014-2016), representou o setor audiovisual no Conselho Estadual de Cultura do RS (CEC-RS), participando, também, como membro da comissão julgadora de diversos editais do FAC Pro-Cultura RS. Foi membro da diretoria da Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos do RS (APTC-RS), a primeira mulher a assumir a presidência do Sindicato da Indústria Audiovisual do RS (SIAVRS), participou da fundação do Fórum Audiovisual Minas Gerais, Espírito Santo e Sul/Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (Fames).


Daniela iniciou sua carreira muito cedo, tendo se formado com 19 anos. Segundo ela, sua transição de aluna para profissional foi tranquila, mas que, no começo, teve que assumir posições que não eram as que ela almejava quando estava na faculdade, como assistente de direção, por exemplo. Apesar disso, ela considera que foi um processo relativamente rápido de inclusão no mercado de trabalho, considerando a realidade de muitos trabalhadores da área de realização audiovisual. “Em 5 anos, eu já era minha própria chefe”, destaca.


Autogestão e organização do tempo para gestar a carreira


Para equilibrar a manutenção de todas as posições que mantém na sua vida profissional, ela afirma que a chave é a autogestão, em que organização e priorização de tarefas têm papel fundamental. Definir uma ordem do que é mais urgente, escalonando afazeres e dividindo o tempo, são atividades essenciais para Daniela. “Quinta-feira, por exemplo, eu sou só pesquisadora. Não exerço nenhuma outra função”, comenta.


Como produtora, ela explica que não trabalha com foco na realização do filme em específico, mas sim em um nível mais macro. “Eu trabalho para captar, conceber, desenhar um projeto e conseguir financiamento. Quando os recursos financeiros ficam disponíveis, eu passo o projeto para um produtor, que vai executá-lo. Meu trabalho se ocupa muito da escrita criativa, dos materiais para vendas, da participação em editais”, detalha Daniela. Ela acredita que o doutorado a ajuda a desenvolver a escrita, e que as funções que ela executa se complementam nesse sentido.


“É preciso saber o que você quer para a vida”, observa. Uma das habilidades mais importantes, segundo Daniela, é a perseverança, “por mais que pareça clichê”. “Essa noção de entender o que você faz e ser um profissional o mais múltiplo possível é essencial. Sonhar com um Kikito (prêmio do Festival de Cinema de Gramado) e sonhar com um Oscar dão o mesmo trabalho, então, é melhor sonhar com o que me põe para a frente”.


Ela ainda lembra que o cinema não é um setor convencional, com horas de trabalho diárias bem definidas e carteira assinada, por exemplo. É uma outra lógica de trabalho, que possui vantagens e desvantagens, e sempre é preciso se adaptar às diferentes condições que se apresentam na rotina.


“O que eu acho legal do audiovisual é que cada projeto vai te desafiar em algum sentido. Cada projeto vai te dar a oportunidade de mergulhar em um mundo. Os problemas de um filme não são os mesmos problemas de outro. O maior desafio é dar conta de tarefas que são diferentes por natureza. Quando se assiste um filme, ninguém se dá conta que alguém teve que se preocupar com a comida da equipe, pensar onde a equipe fica à noite…”, esclarece a produtora.


Atualmente, Daniela trabalha em alguns projetos. Ela é a produtora da série “Família Parafina”, uma ficção animada para adultos sobre uma família que administra uma pousada. Paralelo a isso, há também a segunda temporada de “Vida Fluxo”, série documental de cinco episódios, com roteiro da própria Daniela. Como diretora, está atuando nos filmes “O Jardim da Rua 13” e “De Volta ao Jardim da Rua 13”, uma animação e sua continuação, que contam a história da cantiga “O Cravo Brigou com a Rosa”. Além disso, está finalizando outra série de animação, “Histórias Atrás da Porta”, e dirigindo “Modo Orgânico”, um documentário sobre a única cadeia de produção de algodão orgânico no mundo, que fica no Brasil, em cooperação com uma empresa da Bahia.


Dentre as referências, os antigos desenhos japoneses transmitidos pela TV aberta  


“A tecnologia veio para afetar, facilitando os processos de produção. Ela não vai afetar tanto os resultados. O próprio mercado deve aceitar e se adaptar às tecnologias desenvolvidas para as produtoras. O conhecimento técnico, o conhecimento artístico em relação a isso é que muda. A questão, para mim, hoje, é como nós trabalhamos de uma forma integrada com a tecnologia”, debate Daniela.  


As principais influências na carreira de Daniela foram os desenhos japoneses da extinta TV Manchete. “Quando eu fui fazer cinema, eu queria produzir desenhos animados. Me disseram que isso não existia, que eu não poderia fazer isso no Brasil. E, hoje, é exatamente isso o que eu faço”. Ela cita também os animes e todo o movimento de cultura pop e blockbusters. “Como eu faço parte de uma equipe que trabalha com cinema fantástico, na Bactéria Filmes nós temos uma linha voltada para isso, nós somos o grupo dos nerds, não posso negar. A minha pegada é mais no sentido de criar universos inimagináveis”, diz a produtora.  


Para ela, tanto produzir quanto dirigir projetos giram em torno do desejo de contar histórias. “Dirigir exige todo um conceito estético por trás, uma proposta, o que tu queres dizer para o mundo, como tu vais trazer isso para o mundo. Eu trabalho majoritariamente na direção de filmes de animação, porque eu não gosto muito do set de filmagem. A produção já vem de um desejo de localizar certa história para que outras pessoas a contem, dando oportunidade e estrutura para que outras pessoas executem o projeto”. 


O interesse por questões de gênero e a importância do CRAV  


Sobre a trajetória acadêmica, Daniela acredita que o CRAV é um curso voltado “para dentro”, já sendo uma especialização dentro da comunicação. Com o intuito de “abrir” o leque de conhecimentos e expandir os horizontes, ela procurou pós-graduações. Depois de finalizar o mestrado, agora está no processo de obtenção do doutorado.  


A pesquisa de mestrado de Daniela teve como tema o desenho Dragon Ball e as teorias do imaginário, com foco na história mítica do Japão, trabalhando a questão do mito, de narrativas que sustentam paradigmas do funcionamento humano.  


No doutorado, procurou entender os filmes dirigidos por mulheres no Brasil. “Tanto a questão da diversidade quanto a questão racial foram coisas que foram surgindo ao longo do meu trabalho. O meu doutorado vem, então, com esse desejo de tentar entender cientificamente as questões relevantes na minha prática diária. A gente precisa questionar alguns fatos, como o de que se tem, no Rio Grande do Sul, a cada oito filmes dirigidos por homens, um é dirigido por mulheres. E essa mulher ainda é branca, se fosse negra não estaria na lista. Essas coisas, que eu considero como injustiças, são motivos para que a gente lute por um cinema mais plural, mais representativo”, defende. 


A relação com os professores foi o principal fator na caminhada na Unisinos que influenciou na trajetória profissional de Daniela. “O meu primeiro emprego eu consegui através de um professor. O CRAV tem professores que trabalham no mercado, então isso te ‘atalha’ muito, porque, assim, tu já conhece pessoas, já sabe onde bater na porta para pedir ajuda”. Daniela menciona também o fato do curso proporcionar um conhecimento sobre o todo da profissão: “Hoje, eu entendo um pouco de tudo. Eu entendo de produção, de animação, também sei montar, alguns projetos eu roteirizo. O curso traz uma particularidade que é essa vivência em cada uma das ‘pontas’”, elogia a produtora.  

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O fenômeno dos games que viram filmes e séries  https://mescla.cc/2023/03/31/o-fenomeno-dos-games-que-viram-filmes-e-series/ https://mescla.cc/2023/03/31/o-fenomeno-dos-games-que-viram-filmes-e-series/#respond Fri, 31 Mar 2023 17:57:47 +0000 http://mescla.cc/?p=17776 Há quem acredite que adaptar jogos para o cinema seja uma prática desnecessária e sem sentido. E há aqueles que defendem essa tendência que existe há anos na indústria do audiovisual.   Alguns exemplos são muito bem-sucedidos, como a recente série da HBO “The Last of Us” e o filme “POKÉMON – Detetive Pikachu”, enquanto outros […]

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Há quem acredite que adaptar jogos para o cinema seja uma prática desnecessária e sem sentido. E há aqueles que defendem essa tendência que existe há anos na indústria do audiovisual.  


Alguns exemplos são muito bem-sucedidos, como a recente série da HBO “The Last of Us” e o filme “POKÉMON – Detetive Pikachu”, enquanto outros são um completo fracasso, como o filme “Super Mario Bros.” – a obra de 1993, não a que está para estrear agora em 2023.  


Falando mais sobre “The Last of Us”, ela é a terceira maior série adaptada dos games em popularidade entre os fãs, segundo o site JustWatch, plataforma que cataloga obras audiovisuais no streaming e possui mais de 30 milhões de usuários. A produção é uma das mais citadas atualmente como um bom exemplo de adaptação do mundo dos jogos para o audiovisual.


Para entender melhor esse fenômeno, o Mescla conversou com a cineasta Lisiane Cohen, professora do Curso de Realização Audiovisual (CRAV) da Unisinos, e com dois alunos da graduação.


A opinião dos fãs 


Pedro Rimoli é aluno do 5º semestre do CRAV e aficionado pelo jogo e pela série. Para o estudante, a experiência de jogar e a de assistir são completamente diferentes. A interatividade do game facilita a conexão com os personagens da história. “Por isso, para uma boa adaptação, é muito importante ser fiel à essência do jogo, mesmo sabendo que são criados novos conceitos e elementos a partir da referência que já existe”, avalia.



Pedro diz que é muito importante para uma boa adaptação ser fiel à essência do jogo (Imagem: arquivo pessoal) 



Leonel Dadalt, colega de curso de Pedro, e que está também no 5º semestre, entende que se criou uma reputação ruim (dos filmes que são adaptados de jogos). “Isso porque, antigamente, nos anos 1990, teve bastante adaptação ‘tosca’, que era feita unicamente para juntar dinheiro rápido”, comenta o estudante. Ele cita como exemplos “Street Fighter”, os filmes da franquia “Mortal Kombat” e, mais recentemente, “Warcraft – O Encontro de Dois Mundos”. Mas Leonel é bastante otimista e vê com bons olhos o avanço dessas produções. “Com o passar do tempo, nós vamos vendo cada vez mais adaptações boas”.



Na opinião de Leonel, a reputação ruim dos filmes adaptados de jogos surgiu nos anos 1990, quando foram produzidas obras ‘toscas’ unicamente para juntar dinheiro rápido (Imagem: arquivo pessoal)



Pedro e Leonel pensam igual com relação a como as adaptações de jogos para o audiovisual devem ser desenvolvidos. Para eles, não é preciso que os filmes sejam super fieis à história dos games. Mas uma boa adaptação deve trazer a identidade daquele jogo para a tela, cuidando especialmente dos personagens, das interações e dos cenários. Filmes como “Terror em Silent Hill”, na opinião da dupla de alunos, fazem isso com maestria. 


A contrapartida 


Lisiane Cohen, que ministra disciplinas de roteiro e dá aulas para diversos cursos da Escola da Indústria Criativa (EIC) da Unisinos, lembra que um filme é um produto, principalmente no mainstream. “E os patrocinadores visam o lucro desse produto, o que significa que eles não estão, necessariamente, muito preocupados com o conteúdo das obras”, observa a professora.



Lisiane Cohen lembra que um filme é um produto que visa o lucro (Imagem: arquivo pessoal) 



“Mais tempo de filme significa menos exibições por dia numa sala de cinema, o que quer dizer menos dinheiro para os produtores”, explica Lisiane. Segundo ela, fazem parte da realidade desse meio os cortes e o limite de tempo. “Por serem mercadorias com objetivos diferentes, essas obras (filme e jogos) não devem ser comparadas”, destaca a professora.  


Sonic: O Filme” é citado pela cineasta como um exemplo negativo de adaptação. Na opinião dela, além do filme ser ruim, ele não possibilita que o público se relacione com o personagem como se relaciona no game. “O que leva as pessoas a jogarem o Sonic é o Sonic. Não é a história”, pontua. Em casos como o desse jogo, que não possui uma narrativa linear, com acontecimentos que compõem uma história propriamente dita, Lisiane sugere que se deve trabalhar em cima dos personagens que já existem.



Sonic em versão para o cinema (direita) e jogo: “Sonic: O Filme” é um exemplo ruim, que não possibilita que o público se relacione com o personagem como se relaciona no jogo, segundo Lisiane Cohen (Imagens: divulgação) 



Para ela, incluir o desenvolvimento de personagens no roteiro é uma das chaves para se ter uma boa história, seja ela uma adaptação ou não, e a escassez de tempo do cinema dificulta esse processo. A maioria dos games dispõe ao público horas de experiência, o que facilita esse desenvolvimento. Essa é uma vantagem dos jogos.    


Leonel ainda aponta para o sentimento de saudosismo que existe entre os jogadores. “O investimento que você coloca em um jogo é diferente. Há um investimento pessoal naquele jogo. Você jogou aquilo e teve a sua história com aquilo, e vê-lo ser transformado em uma outra mídia é sempre algo complicado”, diz o estudante.  


Ele relembra também o caso de “Sonic: O Filme”, que teve o visual do personagem principal completamente alterado após críticas de fãs ao primeiro trailer do filme, que apresentava uma versão mais realista do ouriço tão querido pelo público. “A internet caiu em cima, pedindo por um visual que lembrasse mais o clássico dos jogos. E os pedidos foram ouvidos”, comemora Leonel. 


As discussões são muitas. Mas o que não se pode negar é que a prática de adaptar jogos para filmes ou séries não vai ser abandonada pela indústria tão cedo, já que essa é uma forma de expandir o público e celebrar obras aclamadas. Lisiane acredita que qualquer história pode ser contada em qualquer mídia. “Mas devemos sempre ter em mente que existem as limitações e características únicas que cada meio oferece”, alerta a cineasta.  

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Da Unisinos para o mundo: curta produzido por estudantes é selecionado para festival de cinema internacional https://mescla.cc/2023/03/16/da-unisinos-para-o-mundo-curta-produzido-por-estudantes-e-selecionado-para-festival-de-cinema-internacional/ https://mescla.cc/2023/03/16/da-unisinos-para-o-mundo-curta-produzido-por-estudantes-e-selecionado-para-festival-de-cinema-internacional/#respond Thu, 16 Mar 2023 14:55:38 +0000 http://mescla.cc/?p=17676 Inspirados pela história de Margot, personagem do repertório da banda Maestro Sujo e Sanatório Gotham, os alunos da cadeira de Projeto Audiovisual transformaram a história da música em um curta-metragem. A adaptação da obra foi produzida no primeiro semestre do último ano, e a estreia (sim!) foi na Sala Paulo Amorim, na Casa de Cultura […]

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Inspirados pela história de Margot, personagem do repertório da banda Maestro Sujo e Sanatório Gotham, os alunos da cadeira de Projeto Audiovisual transformaram a história da música em um curta-metragem. A adaptação da obra foi produzida no primeiro semestre do último ano, e a estreia (sim!) foi na Sala Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre. 


Paris (onde Margot era feliz)” conta a história de uma jovem judia que vivia na França no contexto da Segunda Guerra Mundial. Margot, além de dar aulas de piano, escondia um grande segredo que afetava o destino dos seus alunos. “É um filme independente, com pessoas que não trabalham diretamente com audiovisual e que deram muito de si”, explica a estudante de RP Lawrin Ritter, uma das responsáveis pela produção do curta.

No sofá, durante as gravações, a atriz Mônica Borba De Rivero, que deu vida à personagem da mãe de Margot.
(Foto: Turma de Produção Audiovisual) 



Lawrin conta que assim que o trabalho foi exibido na Casa de Cultura, passou a submeter o curta em diversas plataformas gratuitas para filmes independentes –tanto nacionais quanto internacionais –, que distribuem as obras para vários festivais que estejam aceitando inscrições.  


A adaptação está concorrendo na categoria Cineasta Estreante no festival Lift-Off Global Network. Desde 2011, a premiação promove o cinema independente. Mesmo com sede no Pinewood Studios, um dos maiores estúdios cinematográficos do Reino Unido, o Lift-Off Global Network também acontece em diferentes partes do mundo.  


O curta “Margot”, produzido pelos estudantes da Unisinos em parceria com o Departamento de Arte Dramática (DAD) da UFRGS, concorre com curtas de muitos países. O vencedor da categoria só será definido no final deste ano.


 

O figurino e o elenco do curta “Margot” fazem parte do Diretório de Arte Dramática da UFRGS 
(Foto: Lawrin Ritter) 


As gravações ocorreram em junho de 2022. A professora da Escola da Indústria Criativa da Unisinos Lisiane Fagundes Cohen, que orientou a produção, vê com satisfação o resultado final. “É um trabalho muito bem-feito, de qualidade, então eu não me surpreendo dele ter sido selecionado”, comenta. 


Um dos desafios foi construir os diferentes cenários da história em uma única locação. “Tinha a sala da Margot com seus pais, seu quarto e a sala de aula com o piano. Montamos e desmontamos o cenário em um único dia, começando às seis da manhã e finalizando às seis da tarde”, relembra Lawrin.  


Onde posso encontrar o filme? 


O curta ainda não está disponível nas plataformas digitais, condição para participar de diferentes processos seletivos, nacionais e internacionais. Confira a seguir a ficha técnica completa do filme: 

Ficha Técnica – Margot 
 
Atriz – Bianca Crux 
Atriz – Mônica Borba De Rivero 
Ator – Pedro Moll 
Ator – Vinicius Contessa 
Ator – Guilherme Galvão 
Ator – Fernando Ribas 
Ator – Rafael Domingues 
Ator – Renê De Palma 
Ator – João Vitor Ruppenthal Coimbra 
Ator – Rafael Pereira 
Diretora – Cássia Canto Schuch 
Diretor – Leonardo Dobosz Lopes 

Assistente de Direção – João Vitor Ruppenthal Coimbra   
Roteirista – Ana Carolina Alves 
Roteirista – Gabriel Cauduro 
Roteirista – Pedro Henrique Forell Zortea 
Produtora – Lais Telles De Andrade 
Produtor – Rafael Pereira 
Produtora – Fernanda Ferreira 
Produtora – Lawrin Ritter 

Assistente de Produção – Savana Ferreira  
Diretora de Elenco – Savana Ferreira   
Diretor de Fotografia – Eugênio Cappelari 
Diretor de Fotografia – Marcos Aurélio Naves Borges 

Diretor de Arte – Gabriel Cauduro   
Diretora de Arte e Make-up – Jordana Tais Brandt 
Diretora de Arte e Make-up – Melissa Lemos Klein 

Produção de Objetos – Fernanda Ferreira   

Produção de Figurino – Lawrin Ritter 

Produção de Locação – João Vitor Ruppenthal Coimbra  

Editor – Marcos Aurélio Naves Borges  
Mixagem de Som – Fernanda Corrêa Santos 
Mixagem de Som – Seymion Moura 
Editor de Som – Fernanda Corrêa Santos 
Editor de Som – Igor Ávila 
Música – Maestro Sujo e o Sanatório Gotham 
Monitoria – Jean Carlos Teixeira 
Orientação – Lisiane Cohen 

Apoio: UFRGS, DAD-UFRGS, Beija-Flor Produtora e Savana Multiartes 

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2022 marca o início do curso de Produção Audiovisual da Unisinos https://mescla.cc/2022/05/11/2022-marca-o-inicio-do-curso-de-producao-audiovisual-da-unisinos/ https://mescla.cc/2022/05/11/2022-marca-o-inicio-do-curso-de-producao-audiovisual-da-unisinos/#respond Wed, 11 May 2022 17:27:39 +0000 http://mescla.cc/?p=16444 Bastidores do curta Pelos Olhos Teus (Foto: Arquivo pessoal/Natália Polla)

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No início deste ano, a universidade abriu a primeira turma de alunos do tecnólogo de Produção Audiovisual no campus de São Leopoldo, e uma das alunas é Laura Rodrigues da Silva Viegas, de 19 anos. “Estou gostando bastante e tenho grandes expectativas para os próximos semestres e projetos que estão por vir”, diz a estudante, que sempre sonhou em trabalhar com cinema.


Tanto a nova opção quanto o já conhecido curso de Cinema e Realização Audiovisual (Crav) são orquestrados pela mesma dupla de coordenadores: os cineastas e professores Vicente Nunes Moreno e Milton do Prado Franco Neto. O Mescla conversou com o professor Vicente para entender um pouco mais a proposta e os diferenciais de cada modalidade. Ele é mestre em Comunicação e egresso da primeira turma de Cinema e Realização Audiovisual formada pela Unisinos.


Vicente destaca que ambos os cursos possuem a mesma essência, além de grades curriculares bastante parecidas nos semestres iniciais. Em ambos, ele diz, é preciso “vestir a camisa”, porque exigem bastante entrega e envolvimento dos estudantes. Novidades podem ser acompanhadas pelo perfil dos cursos no Instagram, e alguns curtas podem ser assistidos diretamente pelo canal no YouTube.

Modalidade e tempo de duração



O Crav é um curso de bacharelado, enquanto a Produção Audiovisual é um curso tecnólogo, portanto, uma das diferenças é o tempo de formação. Enquanto o Crav tem duração mínima de quatro anos, para estudantes que cursarem o máximo de disciplinas previstas por semestre, o curso de Produção Audiovisual prevê o término da formação em um período mínimo de dois anos e meio.


No entanto, os dois são experiências imersivas. Assim como ocorre no Crav, os planos de aprendizagem (PAs) possuem nomes de filmes, começando com A Chegada do Trem, pequeno documentário que simboliza a criação do primeiro filme no mundo.


Para Vicente, a oferta de dois cursos próximos conceitualmente, mas com algumas especificidades, permite que os estudantes optem pela alternativa que melhor se encaixar na rotina e nas necessidades de cada um. A Produção Audiovisual é uma nova possibilidade para os que desejarem uma formação mais fluida, dinâmica e flexível, com o interesse pela inserção mais rápida no mercado de trabalho.

Bastidores das gravações do curta Pelos Olhos Teus, dirigido por Natália Polla (Foto: Arquivo pessoal/Natália Polla)


Esses fatores foram decisivos na escolha de Laura, do primeiro semestre, que encontrou no tecnólogo em Produção Audiovisual o formato mais condizente com sua rotina e interesses. “Foram três pontos que me motivaram a escolher o curso. Primeiramente, a questão financeira, já que é um curso mais acessível e flexível; também [escolhi] em virtude do turno de aula, que é noturno, pois existe a possibilidade de eu conseguir um estágio em turno integral e já começar a me inserir na área; e pela localização, já que estudar em São Leopoldo é mais perto para mim do que em Porto Alegre”, analisa. Por outro lado, “temos, de certa forma, um menor tempo para ficar na universidade e nos aprofundarmos na área, principalmente em relação às especialidades”, ela completa.

Campus e turnos



A partir deste ano, o curso de Cinema e Realização Audiovisual, antes ofertado nos dois campi (São Leopoldo e Porto Alegre) passa a ser oferecido apenas na capital. O professor Vicente explica que a mudança se dá pelo fato de a cidade ser um dos grandes polos do cinema no Brasil. Por outro lado, o tecnólogo em Produção Audiovisual seguirá sendo ministrado apenas em São Leopoldo.

Corredor das aulas do Crav, no campus de São Leopoldo (Foto: Marília Port)


Dessa forma, os alunos podem escolher a localidade ideal para seus estudos, com toda a estrutura e currículo semelhantes, especialmente nos primeiros Planos de Aprendizagem (PAs) de cada curso. Além disso, enquanto o Crav é um curso multiturno, com atividades que acontecem durante o dia, a Produção Audiovisual é totalmente noturna, o que facilita a rotina dos estudantes que desejarem trabalhar durante o dia.

Estágio e TCC 



Vicente elucidou ainda que, com os dois primeiros anos de formação muito parecidos entre os cursos, a mudança fundamental está no final, já que o Crav possui vantagem pelo tempo de desenvolvimento dos profissionais. A certa altura do curso, todos os estudantes do Crav escolhem sua ênfase, ou seja, a área em que desejam aprofundar os estudos. Junto a isso, passam por um período de um ano de estágio obrigatório, além da construção do Trabalho de Conclusão de Curso a ser realizado nos últimos semestres da formação acadêmica.

Equipamentos utilizados em aula do curso de Cinema e Realização Audiovisual (Foto: Arquivo pessoal/Natália Polla)

Um pouco da história do Crav



Ao todo, já são mais de 300 curtas produzidos pelos acadêmicos durante toda a existência do Crav, surgido em 2006. Um dos curtas de conclusão mais recentes foi dirigido por Natália Polla, 21 anos, recém-formada pelo Crav. Natália não esconde o orgulho de toda a construção e produção do material final. “Eu tinha medo de dirigir, não sabia, achava que eu não ia conseguir, mas dirigir, escrever, fazer o set do meu curta foi provavelmente a minha melhor experiência na faculdade, em que eu pude trabalhar com os atores, pude colocar as minhas ideias do papel para a tela”, ela relembra.

Bastidores das gravações do curta Pelos Olhos Teus, dirigido por Natália Polla (Foto: Arquivo pessoal/Natália Polla)


A prática a partir das especialidades é um dos grandes diferenciais do curso, como conta Eduarda Brum, 20 anos, aluna do sexto semestre. “Na primeira aula prática de som que eu tive, estávamos em um momento pandêmico bem ruim, e conseguimos nos reunir para ver os equipamentos de som, poder tocar e ouvir coisas. Foi muito mágico para mim, apesar de que era um momento ruim de Covid-19. Foi muito boa essa experiência de poder tocar pela primeira vez em equipamentos que eu nunca tinha tocado na minha vida”, recorda.

Cena do curta “Se Essa Lua Fosse Minha”, desenvolvido por alunos do Crav e premiado no 42° Festival de Cinema de Gramado (Foto: Reprodução/YouTube)


Para apresentar as produções realizadas pelos alunos ao público em geral, o curso organiza a Mostra Unisinos de Cinema, em um evento anual. No entanto, durante a pandemia a exibição foi interrompida, mas deve voltar neste ano. O professor Vicente conta que serão duas Mostras em 2022 – uma ao final do primeiro semestre, onde serão reproduzidos os materiais elaborados durante 2020 e 2021, e a outra no final do segundo semestre, com as produções do ano corrente.

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“A arte é um reflexo da sociedade” https://mescla.cc/2021/10/13/a-arte-e-um-reflexo-da-sociedade/ https://mescla.cc/2021/10/13/a-arte-e-um-reflexo-da-sociedade/#respond Wed, 13 Oct 2021 16:18:00 +0000 http://mescla.cc/?p=15702 Pós-Graduado em Comunicação pela PUCRS, Gilson Vargas tem uma carreira de quase 30 anos como cineasta, na qual contabiliza a realização de séries, curtas, médias e longas-metragens, assim como peças de teatro. Ele compõe o corpo docente da Unisinos desde 2004, professor de direção e roteiro do curso de Realização Audiovisual. É sócio da produtora […]

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Pós-Graduado em Comunicação pela PUCRS, Gilson Vargas tem uma carreira de quase 30 anos como cineasta, na qual contabiliza a realização de séries, curtas, médias e longas-metragens, assim como peças de teatro. Ele compõe o corpo docente da Unisinos desde 2004, professor de direção e roteiro do curso de Realização Audiovisual. É sócio da produtora Pata Negra, que produziu o longa  ‘A Colmeia’, filme dirigido por ele.  


‘A Colmeia’ ganha o cenário da primeira metade do século 20, no sul do Brasil, onde um grupo de imigrantes alemães vivem isolados. Tentando se manter invisíveis, eles lidam com fatores que os colocam uns contra os outros, entre eles a fome, medo do mundo externo a seu grupo e o embate entre gerações. 


A obra estreou mundialmente no Festival PÖFF 23 – Black Nights International Film Festival, na Estônia, dentro da mostra Rebels With a Cause e ganhou o prêmio de “Melhor Longa-Metragem Estrangeiro” no Festival Internacional de Zaragoza, na Espanha. Estreando no Brasil na mostra Novos Realizadores do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, fazendo um circuito até o Rio Grande do Sul, onde foi o destaque da presença craviana no 49º Festival de Cinema de Gramado levando “Melhor Direção”, “Melhor Ator”, “Melhor Fotografia”, “Melhor Direção de Arte” e “Melhor Desenho de Som”, sendo o maior premiado da noite na categoria Longa-Metragens Gaúchos. 


O bate-papo aconteceu pelo Teams, cedo pela manhã, com o professor falando de Garopaba, SC, onde possui residência. Durante a conversa, o cineasta falou sobre a produção e recepção do filme, bem como sobre os planos para o futuro da obra e o cenário do setor cultural no país, que mesmo antes da pandemia já sofria as consequências da atual gestão política.


Qual foi a sua inspiração para o filme? 


Até mesmo pela minha atividade junto à Unisinos de São Leopoldo, comecei a me aproximar muito do Vale dos Sinos e do Vale do Caí e me interessar por essas questões que tem haver com a colonização dessa região, do Brasil. Sempre tive um interesse pela história do Brasil, na sua diversidade e nas suas adversidades também, mas comecei a ter um interesse mais especial por essa questão da colonização alemã, principalmente. Eu comecei a ler a respeito desse tema e isso começou a me suscitar ideias para reinventar essa realidade, olhar para ela com uma ênfase mais ficcional. 


‘A Colmeia’ é um filme que tem como plano de fundo a questão da presença do colonizador, digamos assim, sendo que não é o da “primeira leva” do século 19, mas, sim, já no século 20, durante o período do final da 2ª Grande Guerra. Isso é o plano de fundo do filme, porque o filme não é um filme histórico, não é um filme que tem o compromisso com a realidade histórica, é muito mais um filme de ficção, um filme de gênero – que inclusive flerta com o gênero do terror, por exemplo, que usa elementos do cinema de terror. 


Uma das coisas que está presente no filme é o tema da intolerância, da falta de empatia, de alteridade, do medo do outro, das fraturas emocionais dentro das famílias, da polarização da sociedade, isso está representado dentro do filme. Então, é um filme que não só mistura gêneros como também evoca e mistura temáticas que acompanharam a construção da sociedade brasileira desde sempre, mas que agora, nesse momento em que a gente vive, ganham áreas – infelizmente – muito drásticas. Então, quando eu falo que é um filme que flerta com o terror, não é um terror sobrenatural, é muito mais um terror sobre como nós mesmos, seres humanos, podemos nos tornar pessoas terríveis quando estamos nos sentindo oprimidos e, muitas vezes, aquele que se sente oprimido também se torna opressor, pois não sabe lidar com essas forças que estão nesse jogo entre as pessoas. 

‘A Colmeia’ flerta com o gênero terror a partir da natureza humana
(Imagem: Reprodução)


Parece ser um filme com mais interpretações do que as que estão diretamente na tela…


Eu acho que uma das coisas mais interessantes e instigantes para nós, realizadores e realizadoras de cinema, quando a gente tem a oportunidade de participar de todas as etapas, ou seja, construir um projeto, uma ideia, escrever um roteiro, dirigir e depois acompanhar a fase de finalização, incluindo a montagem – uma das coisas que eu acho mais interessante de perseguir é a possibilidade da narrativa ter mais de uma leitura, camadas de entendimento que estão ali sobrepostas. 


Isso é um grande desafio. É um grande desafio conseguir se comunicar com uma audiência mais ampla e, ao mesmo tempo, não perder questões de fundo que estão ali entranhadas na própria temática. Quem traz esse julgamento, se isso funciona ou não, é o próprio público, a crítica, e a gente nunca tem certeza se conseguimos articular essas possíveis camadas de leitura


Como foi montar uma equipe para realizar esse tipo de projeto, atrás e na frente das câmeras? 


Eu procuro montar as equipes sempre com pessoas que eu tenho algum vínculo, não só de admiração profissional, não só de confiança artística e técnica, mas, também, onde se constroem afetos. Então as pessoas que eu trabalho são pessoas muito próximas de mim, que dividem pensamentos de mundo e que debatem comigo também, discordam muitas vezes, o que é muito importante. Porque fazer um filme é dar materialidade na tela para uma ideia, construir uma ideia através de imagens e sons uma ideia. Uma ideia de mundo. Eu acho muito bom poder compartilhar essas ideias de mundo, por meio da ficção, com pessoas que, além das suas competências profissionais, tem uma compatibilidade humana que vai além disso.


Os filmes demoram muito tempo para serem feitos, em qualquer lugar do mundo, não é só uma realidade brasileira, portanto, é um casamento que tem ali e ele precisa ser duradouro e harmonioso. Não que de vez em quando não vá haver turbulências, é claro que tem, mas eu sinto que essa jornada de fazer um filme com pessoas que eu tenho algum tipo de vínculo além do profissional mais prazerosa, mais produtiva e com mais longevidade. Vai além. 


O elenco depende muito do roteiro. Aí eu acho que tem uma coisa, também, de encontrar novas pessoas, de renovar os vínculos com os novos personagens que surgem a cada história através dos novos atores e atrizes que surgem para cada filme. Ainda assim, é importante para mim que eu tenha uma admiração pessoal, que eu acredite naquela pessoa como parceiro e parceira de trabalho. Não basta atuar bem, tem que atuar bem, mas também tem que ser uma boa companheira e bom companheiro de trabalho. 


O elenco de ‘A Colmeia’ é um elenco incrível. Todas as pessoas que estão ali são pessoas com quem eu tive muita conversa antes de fechar o convite. Eu não deleguei a seleção desse elenco, não teve um Produtor de Elenco, um Assistente de Direção ou alguém que fez essa intermediação por mim. Isso foi muito importante para a coesão, para a harmonia, para a gente ter uma vivência, que foi muito intensa, de fazer esse filme – a gente foi, realmente, muito imersivo. 


Os atores tiveram que fazer uma grande entrega para construir esses personagens, que são tão distantes deles, porque um personagem da ‘Colmeia’ não vai pegar uma caneta como a gente pega, mas sim como se tivesse pegando o cabo de uma enxada. Não vão falar como a gente fala, com meu sotaque de Porto Alegre, ele vai ter outra dicção, outro vocabulário – ele vai ter outro pensamento. Então, toda essa construção cultural do personagem, dentro da ficção, teve que ser feita através de uma grande imersão dos atores. Desafios que mexeram com a própria identidade deles como, por exemplo, o fato de todos terem que cortar os cabelos, porque, no filme,  há uma infestação de piolhos. Principalmente, para as mulheres com os cabelos longos e bem cuidados, ter que cortar rente à cabeça e ao couro cabeludo, com aqueles caminho de rato, é um despojamento muito grande. E isso foi possível porque as pessoas tiveram uma compreensão do que era o trabalho, das exigências do trabalho como obra artística, e isso só é possível de ser feito quando a gente tem pessoas que são muito compromissadas e muito parceiras. 


O filme estreou em festivais, primeiro internacionais e depois nacionais, como foi a recepção dele, tanto pelo público quanto pela crítica? 


O filme estreou em um Festival que é bem importante no cenário de festivais europeus que a gente, aqui no Brasil, não está tão habituado. Estamos mais habituados a ouvir falar de ‘Berlim’, ‘Cannes’, ‘Sundance’, nos Estados Unidos, Festival de Veneza… Mas existe, claro, todo um outro circuito de festivais muito grandes e muito importantes, que são festivais emergentes e que estão ganhando força no cenário dos festivais. Um deles é o “Black Nights” ou PÖFF, que é o Festival que acontece em Tallinn, na Estônia. Um Festival ali daquela região que faz convergir, não só o cinema do mundo inteiro, mas muito do cinema que é feito na região do Leste Europeu. 


Foi muito interessante poder estrear o filme lá, para uma platéia muito diferente da platéia brasileira. Eu tenho o costume de viajar para muitos festivais em vários lugares, mas eu achei especialmente diferente essa experiência de Tallinn, porque o filme tem alguns códigos que talvez nós, brasileiros, pela questão da contextualização da colonização alemã, tenhamos uma visão, enquanto que lá, muito possivelmente, eles tenham uma outra visão. Não só isso, acho que existe um imaginário do europeu, principalmente do europeu que tem menos contato com a realidade brasileira, de que é tudo muita selva –  apesar de que hoje o imaginário é o da selva sendo destruída, nesse caso não é um imaginário imaginativo, é um imaginário real, estamos sofrendo com isso infelizmente -, mas, também, aquele imaginário do Carnaval, do sol, do ambiente tropical, até mesmo de um tipo físico que é mais vinculado com as nossas origens ou dos nativos aqui, antes da invenção do Brasil, ou dos afrodescendentes. Então, um filme com pessoas de uma imagem muito mais europeia, que é a questão do colonizador, que veio para cá, inclusive, em um projeto cujo, um dos vieses era fazer um processo de branqueamento da sociedade, o que é algo bastante forte para se discutir e que foi muito drástico com uma perspectiva, digamos assim, de desumanidade. Levar um filme assim causa um certo estranhamento, o que foi muito positivo, porque gerou muitas discussões e debates, o que foi muito bom. 

O longa foca em um grupo de imigrantes alemães
(Imagem: Reprodução)


E, aí, o filme veio vindo, né? Porque ele estreou na Estônia e depois teve as exibições no Festival de Zaragoza, na Espanha, que, de alguma forma, tem um pouco mais de familiaridade com questões mais recorrentes, digamos assim, diálogo Brasil-Espanha. O filme ganhou, nesse Festival, o prêmio de “Melhor Longa Estrangeiro”, o que nos deixou muito felizes, portanto, foi muito bem recebido, pelo menos pelo júri e, em seguida, ele estreia no Brasil, no Festival de Brasília, um Festival super tradicional. Depois ele teve outras exibições: Festival Brasileiro de Miami, de Nova York… A chegada em Gramado, para a gente, foi muito importante, porque foi uma espécie de aterrissar em casa, um Festival que acontece muito próximo da gente, um Festival que é importante para a nossa emoção de ter um vínculo afetivo. Então, fazer esse circuito, de tão distante para tão próximo, foi o melhor circuito que a gente pôde fazer e ficamos muito felizes que foi um circuito tão bem sucedido.


Quanto a recepção da crítica, já existem algumas críticas que estão disponíveis para as pessoas lerem, a gente ficou feliz com o entendimento que a crítica teve sobre o que o filme quis dizer. Acho que é muito importante quando os nossos colegas críticos compreendem o que a gente quer dizer e isso é bem sucedido, mas o que mais a gente quer e tem expectativa, que ainda está para acontecer, é a estreia do filme comercialmente falando, para que o amplo público possa assistir. Eu fico muito curioso, como diretor, para saber o que as pessoas vão achar de fato – a audiência de fato. 


Por trás das câmeras e além dos personagens


A história sobre o grupo de imigrantes alemães se derivou de um sketch teatral de Diones Camargo, um dos roteiristas do longa, que foi dirigido por Gilson Vargas no 6º FestiPOA Literária no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS). Parte das etapas de produção de ‘A Colmeia’ incluíram a busca por uma casa original do século 19 para autenticar o cenário, assim como, uma música regravada em alemão feita para o filme. 

O cenário principal de ‘A Colmeia’ é uma casa original do século 19
(Imagem: Reprodução)


Abaixo, conheça os nomes por trás da realização do longa-metragem ‘A Colmeia’:


Equipe de produção

Direção: Gilson Vargas 

Roteiro: Diones Camargo, Gilson Vargas, Matheus Borges

Produção executiva: Gabriela Bervian, Gilson Vargas, Francisco Caselani

Direção de produção: Deise Chagas, Eduarda Nedel, Gabriela Bervian

Direção de fotografia: Bruno Polidoro

Montagem: Gabriela Bervian

Direção de arte: Gilka Vargas, Iara Noemi

Som direto: Higor Rodrigues e Tiago Meyer

Desenho de Som: Gabriela Bervian

Trilha sonora: Leo Henkin


Na frente das câmeras, a obra contou com o envolvimento dos atores e atrizes em se imergirem nas realidades dos personagens de época. Os artistas realizaram atividades em campos de cultivo e aulas de alemão para compor os papéis, eles também contribuíram com a escolha de itens usados dentro da narrativa durante as gravações.

   

Os atores e atrizes fizeram um processo de imersão para a construção dos personagens
(Imagem: Reprodução)


Elenco completo (artista e personagem)


Andressa Matos como Mayla

Janaina Pelizzon como Bertha

João Pedro Prates como Christoffer

Martina Fröhlich como Uli

Rafael Franskowiak como Werner

Renata de Lélis como Lila

Samuel Reginatto como Asper

Thais Petzhold como Erika


Com a participação de

Alexandre Vargas como Policial

Danny Gris como Médico

Elison Couto como Açoitador

Indianara Vãn Kafej como Menina na Gruta

Iracema Nascimento como Mulher na Gruta

Marcio Reolon como Homem da Cidade

Marcos Guarani como Fugitivo


“Nós estamos resistindo e resistiremos sempre”


Falando sobre essa estreia comercial do longa… Ele foi concluído no final de 2019, a pandemia de Covid-19 afetou, de alguma maneira, o cronograma pré-planejado para o filme? 


É… Na verdade, a gente tem duas questões bem importantes. Uma delas é que, infelizmente, os projetos que estão vinculados à Agência Nacional de Cinema estão muito lentos em termos de liberação de recursos. ‘A Colmeia’ ganhou um edital de distribuição, a nossa distribuidora é a Lança-Filmes, que é uma distribuidora muito interessante, parceira nossa aqui no Rio Grande do Sul, e esse recurso não nos foi liberado até hoje. É um recurso do Fundo Setorial Audiovisual, justamente para distribuir as obras brasileiras em todo Brasil, em salas físicas e nos streamings ou em qualquer tipo de suporte possível. 


Somado a isso, a gente teve a pandemia. Então, o nosso projeto inicial que era estrear o filme em março de 2020 acabou se protelando e, até agora, a gente está aguardando, tanto a liberação do recurso quanto um momento mais oportuno, porque queremos colocar em salas também, é o objetivo. Não temos certeza se nesse momento, essa nova realidade que a gente está atravessando, vai fazer com que o filme vá, de fato, para as salas de cinema, mas, evidentemente, de alguma forma ele vai estrear, independente das salas ou não, ele vai estar nos streamings, disponível para o público quando esse recurso for liberado pela Ancine, e a gente está trabalhando para isso. 


Vocês já têm alguma ideia de quando isso vai acontecer, alguma base com a qual consigam trabalhar o próximo passo do filme?  


Nós temos um planejamento, uma ideia, de como o filme vai ser lançado, isso fica muito a cargo da distribuidora, mas, claro, numa conversa conosco. Eu sou sócio de uma produtora que se chama Pata Negra, que é a produtora que produziu o filme. Os produtores-executivos, que são o Francisco Caselani, eu também sou produtor executivo e a Gabriela Bervian, a gente discute as estratégias junto com a Daniela Menegotto, que é da distribuidora, mas o cenário está muito volátil, porque as questões da pandemia, as questões econômicas, fazem com que a gente tenha que ter um planejamento que seja flexível. 


A nossa ideia, nosso desejo, é lançar o filme até o final do ano, mas, de novo, vai depender, também, de que esses recursos sejam liberados. A nossa ideia é para 2021 ainda, mas isso não é algo que, nesse momento, eu possa garantir por depender de terceiros.  


Como cineasta, ainda falando sobre a projeção futura do filme, mas entrando, também, na questão do setor cultural, do setor de filmes como um todo, como é ver, no momento em que estamos, às salas de cinema voltando?


Eu acho que a arte como um todo – a produção artística dentro do ambiente do tempo-espaço em que ela está inserida – ela não é só um reflexo do que se vive, mas também um remédio para o que se vive. Então, a arte reflete o sentimento de época, aquilo que a gente vem atravessando, que não é só a questão da pandemia, são as questões que afligem, mas não só reflete como, também, oferece lugares de conforto, reflexão e amparo para esse próprio momento. 


Ver os filmes, ou o teatro, ou os shows de música, ou as exposições de arte voltando aos poucos, não só é um reflexo que nós estamos resistindo, e resistiremos sempre, como é, também, a possibilidade de a gente ter esse convívio, digamos assim, com uma dimensão que é não é só da sobrevivência biológica, mas da sobrevivência das nossas consciências, dos nossos sonhos e dos nossos desejos. Ou, pelo menos, que seja o conforto de um momento em que eu tenho um entretenimento, uma janela para um espaço que é outro, de ficção, onde eu possa repousar um pouco meus pensamentos. Eu acho que a arte, como algo que mexe com o nosso intangível, nossas emoções e sentimentos, nesse momento, ela é um dos grandes remédios que a gente pode ter. 


Primeira coisa é todo mundo estar vacinado e imunizado, até a terceira dose, seja o que for, para poder estar ativo com aquilo que a ciência preconiza como correto, mas sem deixar de lado essa subjetividade que a arte nos traz e que é, também, uma resposta para as nossas inquietações.  


E, com essa visão e como alguém do meio, você diria que o setor cultural já passou pelo “pior momento” que poderia ter se originado da pandemia, ou que tem muito pela frente ainda?


A gente teve muitos momentos nessa narrativa toda da Covid entrando nas nossas vidas. Primeiramente, não tínhamos ideia da dimensão disso, o que era isso, e nós tivemos uma certa ilusão – pelo menos eu tenho essa sensação, mas compartilho essa sensação com vários colegas – de que a pandemia, por mais aterradora que fosse, parecia que ela causava uma espécie de possibilidade de reacordo entre as pessoas que se viam em conflito por visões de mundo muito discrepantes. Como se nós tivéssemos todos um grande inimigo comum, como acontece nos filmes, às vezes, e tivéssemos que nos unir contra esse inimigo comum. Acho que houve uma certa ilusão disso. 


Então, dentro de todo o desconforto que era do início de uma pandemia, parecia haver uma sinalização de uma transformação social, porém, foi só uma impressão e o que aconteceu foi o contrário, vimos as pessoas mais divididas ainda. Até porque muitas pessoas se valeram da pandemia para benefícios próprios, inclusive econômicos, o que é muito grave, muito sério e muito desumano. Me parece que essas diferenças aumentaram mais ainda, ficaram mais evidentes, basta a gente ver a CPI da Covid para acompanhar essa infeliz realidade – que no Brasil tem a sua expressão mais violenta.


Do ponto de vista da produção cultural, a gente tem não só a pandemia, mas o desaparelhamento dos instrumentos, o enfraquecimento dos instrumentos de fomento, como também uma guerra subjetiva do que vale ser arte, a questão da censura, mesmo que velada e, às vezes, nem tão velada no Brasil, o que tem haver com alinhamentos ideológicos que se contrapõem dentro do espectro da nossa sociedade como um todo.     


A pandemia, a gente está entendendo já o que ela é, não sabemos a longevidade de uma imunização da vacina, não sabemos se novas variações vão surgir ou não, não sabemos se todos os anos teremos que fazer essa vacina novamente, mas parece que sim. Temos um cenário, pelo menos é o que a ciência mostra, de possíveis outras pandemias, até porque o homem, no desgaste que provoca a natureza, acaba recebendo esse tipo de resposta da própria natureza.Tudo isso pode trazer, de novo, instabilidades, mas dessa pandemia, me parece, que o setor cultural conseguiu atravessar a pior fase. 


A gente precisa, muito mais agora, é reconquistar os nossos espaços de produção artístico-cultural através do resgate das nossas atividades e da reorganização do nosso setor como um todo. E de uma conversa. Estipular uma conversa com o setor público, o setor privado, repactuar e renovar alguns laços, refazer alguns caminhos e fazer alguns descartes de coisas que não funcionam, inclusive, essas coisas que estão vinculadas as nossas escolhas eleitorais, quem a gente coloca para trabalhar para a sociedade brasileira nos poderes que a gente elege. 


Você gostaria de acrescentar mais alguma coisa?


Deixar uma última palavra dizendo o seguinte: eu sou realizador de cinema, de audiovisual, já fazem quase 30 anos, comecei bem cedo. Eu fui aluno de jornalismo, me formei em jornalismo e fui migrando para o audiovisual, me apaixonando por esse setor, mas eu dou aula também, então eu sou um realizador que dá aula de cinema. Eu adoro dar aula de cinema e é através das aulas de cinema que eu vejo uma luz, a renovação. Os jovens realizadores e realizadoras e, claro, os jovens jornalistas e todas as pessoas que estão na área da comunicação ou na área da produção cultural, é muito importante que essa juventude não só se preserve dentro de nós, que já não somos tão jovens, mas que, principalmente, não deixe os próprios jovens, porque eu acho que é muito difícil, hoje, eu acredito, ser alguém que está chegando no mundo do trabalho, no mundo da sua independência, da sua individuação, da sua afirmação no mundo, com o mundo como ele está. 


Então, a palavra que eu digo é: a gente precisa não soltar a mão de ninguém e por muito mais tempo. Esse jargão já está antigo, ele já começou a alguns anos, mas ele ainda está valendo, valendo cada vez mais, na verdade. Eu digo aos colegas, que não basta ser diferente, tem que fazer a diferença e essa diferença se faz no dia-a-dia, nas relações que a gente tem, não só no trabalho, relações pessoais, enfim, em uma relação mais ética com o mundo, seja onde estivermos. Acho que é um pouco essa a missão de nós, professores, dentro de uma sala de aula, mas isso depende muito, sobretudo, da disponibilidade dos jovens de querer fazer esse diálogo e levar esse bastão adiante. É isso que eu desejo, que esse bastão da resistência e da lucidez  seja levado adiante pelas pessoas que estão chegando. 

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