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]]>Ao todo, foram 17 curtas-metragens de ficção, 3 documentários, 7 animações em stop motion e, ainda, 1 episódio piloto de seriado de televisão. Além disso, houve um momento de retrospectiva, com uma seleção de obras marcantes criadas por alunos que já não estão mais no curso.
Tudo isso dividido em 7 sessões com debates ao longo de 3 dias de muito bom cinema, celebração da cultura e integração entre equipe cinematográfica e público. E ainda aconteceu uma festa no tradicional no Bar Ocidente, especialmente em comemoração aos 20 anos do curso. Agora, confira os destaques da Mostra de 2023!
Começando os trabalhos, no dia 18/12, segunda-feira, o Programa “Ficção 1” apresentou filmes com temática familiar. Um longa do primeiro dia que se destaca é “Baltazar”, dirigido por Eduardo Scharlau. Foi a primeira vez do aluno ocupando cadeira de direção em uma produção, já que ele está muito mais acostumado a atuar no departamento de som. “Baltazar” conta a história de um pai que tem uma relação estranha com o filho e vai redescobrindo situações passadas que podem ter sido a causa dessa estranheza entre eles.

Eduardo contou ao Mescla que ocupar esse lugar foi, para ele, uma oportunidade de experienciar a realidade de fazer um filme, com todos os desafios de conseguir um bom elenco e locações. “Mas, ao mesmo tempo, foi uma experiência ótima que me deixou com muita vontade de produzir outras obras como diretor no futuro.”
O segundo dia, terça-feira, já iniciou com bastante movimento. O Programa “Documentários, Stop Motions e Piloto” apresentou nada menos que 11 obras de diferentes estilos e autores com diferentes tempos de curso. As animações em stop motion, com elementos do humor e da fantasia, trouxeram uma quebra de tensão entre os documentários que abordavam questões mais sérias e pesadas, como o “Linha Final”, que fala sobre a problemática do suicídio a partir da perspectiva de funcionários da Trensurb.
Em debate após a exibição dos filmes, a diretora-aluna Valentina Peroni diz que, pensando sobre o assunto, se fez a pergunta: “Como os funcionários do trem ficam depois que isso acontece?”. Daí, surgiu o documentário, em que vemos que esse é um drama mais frequente do que se pode imaginar para quem trabalha no Trensurb, e os relatos são extremamente fortes e sensíveis. Foram várias as técnicas criativas utilizadas por Valentina para contar a história, dentre elas, o uso de uma câmera GoPro posicionada embaixo dos trilhos, alternando para outra câmera na visão dos maquinistas.
Seguindo a programação de terça-feira, o Programa “Ficção 2” foi um reflexo claro do resultado da pandemia na mente dos jovens cineastas da Unisinos. Todos os filmes entraram de cabeça na questão da saúde mental. Uns de maneira mais explícita, outros utilizando metáforas com criaturas fantásticas e elementos do terror. Mas todos os autores com uma fala em comum: “aqui estão os meus medos mais íntimos”.

O curta “Ansiosamente”, dirigido e escrito por Lívia Azambuja, conta uma história muito pessoal, difícil de ser falada e importante de ser divulgada. A obra não chega a ser do gênero de terror, mas causa calafrios ao retratar de forma fiel como funciona a ansiedade em si, inclusive com seus picos nas chamadas “crises”. Ao estilo “Heartstopper”, a animação aqui é um recurso que ajuda a expressar emoções dos personagens de forma visual.
O último bloco de exibição da terça-feira, “Ficção 3”, contou com filmes sérios, que se aprofundam em questões como câncer, morte, envelhecer, luto e perda. Ana Luiza Azevedo, que comandou o debate após os filmes, se deslumbrou com o resultado do trabalho dos alunos: “Me encanta a maturidade nos filmes, são filmes muito coesos. Os diálogos são bem escritos, com uma impressionante precisão nas palavras”.
“Pior que morrer é saber que se está morrendo.” Esta é a sinopse de “Uma última xícara de café”, de Victor Curi. Werner Schünemann vive, aqui, um homem em estágio terminal que conversa com um jovem afrontoso e violento. Em debate, foi conversado com toda a sala de cinema do Capitólio quem era aquele rapaz. Alguns interpretaram como sendo o próprio homem doente, outros como sendo a depressão, outros pensam que é a própria morte. É claro que o diretor Victor não forneceu resposta alguma.
O último dia da 18ª Mostra Unisinos de Cinema foi inteiro de celebração. Não que os outros não tenham sido, mas a aproximação da festa dos 20 anos de CRAV no Ocidente deu um tom diferente. A quarta-feira iniciou com uma seleção de curtas de épocas passadas do curso, indo de 2008 até 2014. Com certeza os coordenadores Milton do Prado e Vicente Moreno sentiram a nostalgia no ar.
O destaque vai para “O Matador de Bagé”, de 2012. Felipe Iesbick apresenta Assis, um assassino profissional de Porto Alegre que executa suas vítimas “respeitosamente”, como o mesmo denomina. Assis se irrita quando chega à cidade um concorrente, que realiza os assassinatos de forma grotesca e sem nenhuma classe, no conceito do veterano. A divertida briga de gato e rato fala sobre o tema do confronto de gerações de uma forma muito inusitada. O curta-metragem está na íntegra no YouTube e você pode conferir abaixo.
Filmes com elenco mais infantil, que falam sobre o processo de crescer e se entender como pessoa no mundo, constituíram o Programama “Ficção 4”. Foi um momento de prova de que temáticas tratadas de maneira mais “leve” não são menos importantes. Mesmo não sendo animações, são filmes no estilo do estúdio “Pixar”, que utilizam uma linguagem que dialoga com adultos e crianças ao mesmo tempo de forma maestral.
“Redação sobre família” é dirigido por João Eltz e conta a angústia de um órfão que não sabe o que escrever sobre “o que é família?” em uma redação na escola. Em sua escrita, ele narra a sua relação com o “Tio do Surfe”, com quem teve uma conexão de pai, tio, avô e irmão – de coração. A base do roteiro foi uma turma de escola real, do 5º ano do ensino fundamental. João misturou vários trechos dos textos de diferentes crianças.
João ainda diz, no debate pós sessão: “Estou com várias das minhas famílias (de sangue e coração) aqui na sala hoje”. O filme mescla animação e live-action e, com elementos que vão de Turma da Mônica a Wes Anderson, é uma linda prova de que família, às vezes, se escolhe, sim.
Combinando com a festa de 20 anos do curso que estava se aproximando, os últimos momentos de Mostra, com o Programa “Ficção 5”, foram focados na comédia, na vida noturna e, acima de tudo, nas conexões.

Pedro Rimoli apresenta, em “Pizza de Abacaxi e O Fim do Mundo”, um ambiente surtado à la “Se Beber Não Case”. Mas ao invés de se passar em Los Angeles, os personagens têm um sotaque porto-alegrense carregadíssimo, o que o torna muito mais engraçado que a produção americana. E envolvendo uma possibilidade de apocalipse. “Imagina tu achar que o mundo vai acabar. Tu decide fazer uma bebedeira. No dia seguinte, o mundo não acaba e tu tem que lidar com o monte de besteira que tu fez. Esse é o meu filme”, ri Pedro. Tudo isso com, no final, ainda contar com a aparição especial de uma professora querida por toda a Unisinos, Luciana Kraemer. Encerrado com chave de mestre.
Além de ser um momento de orgulho, de mostrar ao mundo o fruto de seus trabalhos árduos, os alunos do CRAV, na Mostra, se conectam, tanto entre si, como com as famílias uns dos outros, amigos uns dos outros, e com o público em geral. “A gente enxerga o CRAV como uma grande comunidade. Quem está no curso agora, os professores e quem já saiu, todos se juntam numa grande festa”, fala Vicente Moreno, orgulhoso. “Cada ano é como se fosse uma safra de vinhos, sempre gostamos de ver e rever o que os alunos produzem.”
Acesse o Instagram do Mescla para conferir as falas de algumas figuras presentes na 18ª Mostra Unisinos de Cinema e ter uma palhinha visual de como foi o evento!
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]]>“Aconteceu à luz da lua”, curta-metragem de ficção que será produzido a partir do prêmio conquistado por Crystom, contará a história de um adolescente periférico que quer ter o direito de sonhar. A previsão é de que tudo fique pronto ainda em 2024.
O “craviano” fez o Ensino Básico no Colégio Protásio Alves, da Capital, e sempre se interessou pelas artes, principalmente a música, tanto que chegou a estudar para o vestibular da UFRGS dessa área. Acabou prestando o ENEM e entrando na Unisinos como estudante bolsista do ProUni. Hoje, em paralelo à carreira de artista e com o mundo audiovisual, Crystom trabalha como motorista de delivery.

Pioneiro na família e no cinema gaúcho
Primeiro da família a ingressar em um curso superior em uma universidade particular, Crystom vem da zona leste de Porto Alegre para ocupar um espaço no mundo acadêmico – mais um dentre tantos dos quais vêm se apropriando. Apesar de estar começando os estudos agora, ele já possui experiência com trabalhos envolvendo grandes marcas. No currículo, a produção de making ofs de campanhas para Nike, Huggies e Disney. Em um deles, o jovem documentou a experiência de participar de ações da Nike para divulgação da camiseta da seleção brasileira na última Copa do Mundo.
Crystom já atuou também como assistente de direção do filme “Samba às avessas”, de Pâmela Amaro; assistente de câmera do filme “O tempo”, dirigido por Ellen Correa, e que participou do Festival de Cinema Gramado; e continuísta em “Flora”, da Bactéria Filmes, produtora da egressa Daniela Israel – que já foi entrevistada aqui no Mescla. Ele enfatiza que todas as produções das quais participou são feitas por pessoas como ele. Os filmes citados, por exemplo, são todos dirigidos por mulheres negras.
Do Morro da Cruz ao Projac
Mas o seu trabalho no YouTube, com o canal Justiça Poética, foi o que acabou dando uma virada de chave em sua vida. Acontece que, em 2021, produtores da TV Globo descobriram o trabalho de Crystom e o convidaram para participar do especial do Dia da Consciência Negra chamado Falas Negras.
Ele conta que essa oportunidade de presenciar o trabalho de uma equipe de televisão de alto nível o motivou a fazer o mesmo. “Me peguei pensando: ‘como assim eu posso me expressar através da arte, ainda por cima com uma equipe toda igual a mim?’. Foi muito bom ver que isso é possível.”
O canal Justiça Poética acabou virando uma produtora audiovisual de divulgação do trabalho de pessoas negras habitantes do sul do país. “Começou com a minha comunidade no Morro da Cruz, depois foi abraçando toda Porto Alegre, depois a Região Metropolitana da Capital e, no fim, acabamos abrangendo o Estado todo.”
Com toda essa visibilidade, Crystom inspirou outros membros da comunidade, principalmente os mais novos. Vários desses indivíduos aparecem em outro projeto, o ensaio fotográfico intitulado “Favela Presente”, que o artista mantém em seu Instagram pessoal. Os planos futuros são, inclusive, de transformar as fotografias em uma exposição física.
Por muitos anos, ele teve como ferramenta de trabalho o celular e câmeras emprestadas por outras pessoas. Hoje, possui uma câmera semiprofissional. “Já é um começo”, orgulha-se.

O poder da luz da lua
Agora, com o resultado do edital, Crystom vai poder desfrutar de recursos um pouco mais avançados para a execução de seu primeiro filme, “Aconteceu à luz da lua”. Ele revela ao Mescla que escreveu o roteiro vencedor do edital Paulo Gustavo – o primeiro de sua vida – em três dias. Esse é o poder de inspiração, segundo Crystom, que a lua lhe dá.
O diretor estreante vai contar com uma equipe formada apenas por pessoas com as quais ele se identifica, duas delas colegas suas do curso: Isabella Corrêa Bauer, primeira aluna PCD do CRAV, como diretora de arte; Fernanda Gregório Fernandes no som; e Maicon Ferreira da Silva, que será o assistente de direção.
“Ideias surgem e eu vou anotando, sempre. Temos que apresentar nossas narrativas. Essa é a chance de transformar o cinema nacional em uma indústria”, enfatiza. Ele pretende, ainda, “chacoalhar o Estado” com seu filme. Quer que seus iguais se reconheçam, ao mesmo tempo em que os que não falam muito sobre o assunto se conscientizem.
E os planos do diretor e roteirista para depois do filme? “Quero fazer mais e mais, inspirar os meus iguais e os diferentes de mim também.”
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Assim como nas edições anteriores, a Semana de Imagem de Comunicação contará com convidados internacionais. Peter Krapp (Universidade da Califórnia Irvine) dá início a rodada de palestras programadas com o tópico “Seria a internet um museu da computação?” (Is the internet a museum of computing). Já no dia seguinte, Lori Emerson (Universidade do Colorado), integrará a mesa com o tema “Práticas situadas na arqueologia da mídia” (Situated practices in the media archaelogy).
Além desses convidados, farão parte do evento: Bruno Moreschi, que irá analisar as imagens que treinam máquinas e seus processos, com a palestra “Ver e praticar a visão computacional”; Julherme Pires e Analu Favretto com a exibição dos curtas-metragens “É assim que eu me lembro” e “Meu pai vestido de trabalhador” para falar sobre o processo que envolve desde a pesquisa até a produção do filme.
Como o encerramento do PPG reflete em um evento como esse
Recentemente, a Unisinos anunciou o encerramento de 12 Programas de Pós-Graduação, entre eles o PPG em Ciências da Comunicação. Dessa forma, a 20ª Semana da Imagem e Comunicação será a primeira edição desde essa decisão. Contudo, o professor do PPGCC da Universidade, que integra o grupo de pesquisa TCAv, o Dr. Gustavo Fischer, reitera o comprometimento com a Ciência.
“Independente das informações recentes, nosso entendimento é que o PPG está ativo, na medida em que estamos nos desenvolvendo, orientando nossos atuais alunos de mestrado e doutorado e, claro, realizando nossos eventos. Nosso compromisso é com a pesquisa, a formação e o compartilhamento do conhecimento (em especial com a graduação, como é tradição na Semana da Imagem), tudo está sempre em atualização, tanto na pesquisa como na vida” – acrescenta o professor.

Para conhecer um pouco mais sobre as pesquisas que estarão sendo apresentadas na semana que vem, o Mescla reproduz trechos de entrevistas feitas pelos alunos do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação com alguns dos palestrantes que estarão presentes na 20ª edição do evento:
> Palestrante: Peter Krapp
> Discente que entrevistou: Camila de Ávila (doutoranda)
Peter Krapp busca saber se a história da computação pode ajudar na evolução da tecnologia e nos faz a seguinte provocação: “para que serve a história da computação?”. Krapp aponta que, ainda que a história da computação seja um campo de pesquisa bastante jovem, “a abordagem antiquada que ‘musealiza’ o legado dos dispositivos de computação é fascinante, mas os museus de computação são ainda mais jovens do que os estudos sistemáticos na história da computação, e colocar dispositivos antigos sob tampas de vidro protetoras pouco auxilia na compreensão das contribuições feitas ou das oportunidades esquecidas.”

> Palestrante: Lori Emerson
> Discente: Augusto Bozzetti (doutorando)
“Desde 2009, quando fundei o Laboratório de Arqueologia da Mídia (LAM), o laboratório ficou conhecido por desconstruir muitas suposições sobre o que os laboratórios deveriam ser ou fazer. Ao contrário de laboratórios que são estruturados hierarquicamente e dirigidos por uma pessoa com uma única visão, o LAM assume muitas formas: um arquivo para trabalhos originais de arte/literatura digital inicial com suas plataformas originais; um aparato através do qual passamos a compreender uma complexa história da mídia e as consequências dessa história; um local para intervenções artísticas, experimentos e projetos; um espaço flexível e fluido para estudantes e professores de várias disciplinas realizarem pesquisas baseadas na prática; um meio pelo qual os alunos de pós-graduação treinam de forma prática em áreas que vão desde humanidades digitais, estudos literários, estudos de mídia e estudos curatoriais até educação da comunidade”

> Palestrante: Bruno Moreschi
> Discente: Aline Corso (doutoranda)
Comentando sobre quais seriam as principais contribuições da Inteligência Artificial na mudança da nossa forma de ver e estudar as imagens, o pesquisador Bruno Moreschi afirma que “hoje não vivemos mais em um mundo apenas da reprodutibilidade técnica, mas também da padronização algorítmica. Isso pressupõe que o estudo da imagem é também o estudo de dados, de suas escalas e de possíveis metodologias para dar conta de ver essas imagens para além de seus discursos visuais mais aparentes. Isso não é pouca coisa.”

> Palestrante: Julherme Pires
> Discente: Priscila Boeira de Lima (mestranda)
“Participo da Semana da Imagem desde 2015, e sempre saio do evento muito animado e cheio de ideias. No ano passado, fiz uma participação como conferencista sobre a minha tese, o que me deixou bastante feliz pela valorização dos nossos trabalhos pelo programa. É um importante meio de comunicação do que fazemos na linha de pesquisa e um meio precioso de encontro entre a ciência e a graduação. Este ano, ao debatermos produtos audiovisuais que pensam entre outras coisas conceitos que estudamos, estaremos fazendo um movimento curioso de desdiscretização de nossos procedimentos de criação. Estou bastante curioso sobre como será essa dinâmica, o que virá dos espectadores.”

Serviço:
O que: 20ª Semana da Imagem de Comunicação
Promoção: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Escola da Indústria Criativa, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCC), Instituto de Cultura Digital e Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos)
Mediador: Dr. Gustavo Fischer, Dr. João Ricardo Bittencourt, Dr. Tiago Ricciardi Correa Lopes
Público: destinado em especial à alunos de pós e de graduação, acadêmicos e demais interessados nos temas
Quando: de 7 a 10 de novembro, das 17h às 19h30
Formato: Online
Onde: Canal do TCAv no YouTube ou via Zoom
Zoom: Mesa 1 – Peter Krapp (07/11)
Mesa 2 – Lori Emerson (08/11)
Mesa 3 – Bruno Moreschi (09/11)
Mesa 4 – Julherme Pires e Analu Favretto. (10/11)
A tradução simultânea português-inglês e vice-versa está prevista apenas para os dois primeiros dias de evento apenas pelo YouTube. Para assistir no idioma original, basta acessar as reuniões através do Zoom.
Investimento: Gratuito
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Tanto a nova opção quanto o já conhecido curso de Cinema e Realização Audiovisual (Crav) são orquestrados pela mesma dupla de coordenadores: os cineastas e professores Vicente Nunes Moreno e Milton do Prado Franco Neto. O Mescla conversou com o professor Vicente para entender um pouco mais a proposta e os diferenciais de cada modalidade. Ele é mestre em Comunicação e egresso da primeira turma de Cinema e Realização Audiovisual formada pela Unisinos.
Vicente destaca que ambos os cursos possuem a mesma essência, além de grades curriculares bastante parecidas nos semestres iniciais. Em ambos, ele diz, é preciso “vestir a camisa”, porque exigem bastante entrega e envolvimento dos estudantes. Novidades podem ser acompanhadas pelo perfil dos cursos no Instagram, e alguns curtas podem ser assistidos diretamente pelo canal no YouTube.
O Crav é um curso de bacharelado, enquanto a Produção Audiovisual é um curso tecnólogo, portanto, uma das diferenças é o tempo de formação. Enquanto o Crav tem duração mínima de quatro anos, para estudantes que cursarem o máximo de disciplinas previstas por semestre, o curso de Produção Audiovisual prevê o término da formação em um período mínimo de dois anos e meio.
No entanto, os dois são experiências imersivas. Assim como ocorre no Crav, os planos de aprendizagem (PAs) possuem nomes de filmes, começando com A Chegada do Trem, pequeno documentário que simboliza a criação do primeiro filme no mundo.
Para Vicente, a oferta de dois cursos próximos conceitualmente, mas com algumas especificidades, permite que os estudantes optem pela alternativa que melhor se encaixar na rotina e nas necessidades de cada um. A Produção Audiovisual é uma nova possibilidade para os que desejarem uma formação mais fluida, dinâmica e flexível, com o interesse pela inserção mais rápida no mercado de trabalho.

Esses fatores foram decisivos na escolha de Laura, do primeiro semestre, que encontrou no tecnólogo em Produção Audiovisual o formato mais condizente com sua rotina e interesses. “Foram três pontos que me motivaram a escolher o curso. Primeiramente, a questão financeira, já que é um curso mais acessível e flexível; também [escolhi] em virtude do turno de aula, que é noturno, pois existe a possibilidade de eu conseguir um estágio em turno integral e já começar a me inserir na área; e pela localização, já que estudar em São Leopoldo é mais perto para mim do que em Porto Alegre”, analisa. Por outro lado, “temos, de certa forma, um menor tempo para ficar na universidade e nos aprofundarmos na área, principalmente em relação às especialidades”, ela completa.
A partir deste ano, o curso de Cinema e Realização Audiovisual, antes ofertado nos dois campi (São Leopoldo e Porto Alegre) passa a ser oferecido apenas na capital. O professor Vicente explica que a mudança se dá pelo fato de a cidade ser um dos grandes polos do cinema no Brasil. Por outro lado, o tecnólogo em Produção Audiovisual seguirá sendo ministrado apenas em São Leopoldo.

Dessa forma, os alunos podem escolher a localidade ideal para seus estudos, com toda a estrutura e currículo semelhantes, especialmente nos primeiros Planos de Aprendizagem (PAs) de cada curso. Além disso, enquanto o Crav é um curso multiturno, com atividades que acontecem durante o dia, a Produção Audiovisual é totalmente noturna, o que facilita a rotina dos estudantes que desejarem trabalhar durante o dia.
Vicente elucidou ainda que, com os dois primeiros anos de formação muito parecidos entre os cursos, a mudança fundamental está no final, já que o Crav possui vantagem pelo tempo de desenvolvimento dos profissionais. A certa altura do curso, todos os estudantes do Crav escolhem sua ênfase, ou seja, a área em que desejam aprofundar os estudos. Junto a isso, passam por um período de um ano de estágio obrigatório, além da construção do Trabalho de Conclusão de Curso a ser realizado nos últimos semestres da formação acadêmica.

Ao todo, já são mais de 300 curtas produzidos pelos acadêmicos durante toda a existência do Crav, surgido em 2006. Um dos curtas de conclusão mais recentes foi dirigido por Natália Polla, 21 anos, recém-formada pelo Crav. Natália não esconde o orgulho de toda a construção e produção do material final. “Eu tinha medo de dirigir, não sabia, achava que eu não ia conseguir, mas dirigir, escrever, fazer o set do meu curta foi provavelmente a minha melhor experiência na faculdade, em que eu pude trabalhar com os atores, pude colocar as minhas ideias do papel para a tela”, ela relembra.

A prática a partir das especialidades é um dos grandes diferenciais do curso, como conta Eduarda Brum, 20 anos, aluna do sexto semestre. “Na primeira aula prática de som que eu tive, estávamos em um momento pandêmico bem ruim, e conseguimos nos reunir para ver os equipamentos de som, poder tocar e ouvir coisas. Foi muito mágico para mim, apesar de que era um momento ruim de Covid-19. Foi muito boa essa experiência de poder tocar pela primeira vez em equipamentos que eu nunca tinha tocado na minha vida”, recorda.

Para apresentar as produções realizadas pelos alunos ao público em geral, o curso organiza a Mostra Unisinos de Cinema, em um evento anual. No entanto, durante a pandemia a exibição foi interrompida, mas deve voltar neste ano. O professor Vicente conta que serão duas Mostras em 2022 – uma ao final do primeiro semestre, onde serão reproduzidos os materiais elaborados durante 2020 e 2021, e a outra no final do segundo semestre, com as produções do ano corrente.
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‘A Colmeia’ ganha o cenário da primeira metade do século 20, no sul do Brasil, onde um grupo de imigrantes alemães vivem isolados. Tentando se manter invisíveis, eles lidam com fatores que os colocam uns contra os outros, entre eles a fome, medo do mundo externo a seu grupo e o embate entre gerações.
A obra estreou mundialmente no Festival PÖFF 23 – Black Nights International Film Festival, na Estônia, dentro da mostra Rebels With a Cause e ganhou o prêmio de “Melhor Longa-Metragem Estrangeiro” no Festival Internacional de Zaragoza, na Espanha. Estreando no Brasil na mostra Novos Realizadores do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, fazendo um circuito até o Rio Grande do Sul, onde foi o destaque da presença craviana no 49º Festival de Cinema de Gramado levando “Melhor Direção”, “Melhor Ator”, “Melhor Fotografia”, “Melhor Direção de Arte” e “Melhor Desenho de Som”, sendo o maior premiado da noite na categoria Longa-Metragens Gaúchos.
O bate-papo aconteceu pelo Teams, cedo pela manhã, com o professor falando de Garopaba, SC, onde possui residência. Durante a conversa, o cineasta falou sobre a produção e recepção do filme, bem como sobre os planos para o futuro da obra e o cenário do setor cultural no país, que mesmo antes da pandemia já sofria as consequências da atual gestão política.
Qual foi a sua inspiração para o filme?
Até mesmo pela minha atividade junto à Unisinos de São Leopoldo, comecei a me aproximar muito do Vale dos Sinos e do Vale do Caí e me interessar por essas questões que tem haver com a colonização dessa região, do Brasil. Sempre tive um interesse pela história do Brasil, na sua diversidade e nas suas adversidades também, mas comecei a ter um interesse mais especial por essa questão da colonização alemã, principalmente. Eu comecei a ler a respeito desse tema e isso começou a me suscitar ideias para reinventar essa realidade, olhar para ela com uma ênfase mais ficcional.
‘A Colmeia’ é um filme que tem como plano de fundo a questão da presença do colonizador, digamos assim, sendo que não é o da “primeira leva” do século 19, mas, sim, já no século 20, durante o período do final da 2ª Grande Guerra. Isso é o plano de fundo do filme, porque o filme não é um filme histórico, não é um filme que tem o compromisso com a realidade histórica, é muito mais um filme de ficção, um filme de gênero – que inclusive flerta com o gênero do terror, por exemplo, que usa elementos do cinema de terror.
Uma das coisas que está presente no filme é o tema da intolerância, da falta de empatia, de alteridade, do medo do outro, das fraturas emocionais dentro das famílias, da polarização da sociedade, isso está representado dentro do filme. Então, é um filme que não só mistura gêneros como também evoca e mistura temáticas que acompanharam a construção da sociedade brasileira desde sempre, mas que agora, nesse momento em que a gente vive, ganham áreas – infelizmente – muito drásticas. Então, quando eu falo que é um filme que flerta com o terror, não é um terror sobrenatural, é muito mais um terror sobre como nós mesmos, seres humanos, podemos nos tornar pessoas terríveis quando estamos nos sentindo oprimidos e, muitas vezes, aquele que se sente oprimido também se torna opressor, pois não sabe lidar com essas forças que estão nesse jogo entre as pessoas.

Parece ser um filme com mais interpretações do que as que estão diretamente na tela…
Eu acho que uma das coisas mais interessantes e instigantes para nós, realizadores e realizadoras de cinema, quando a gente tem a oportunidade de participar de todas as etapas, ou seja, construir um projeto, uma ideia, escrever um roteiro, dirigir e depois acompanhar a fase de finalização, incluindo a montagem – uma das coisas que eu acho mais interessante de perseguir é a possibilidade da narrativa ter mais de uma leitura, camadas de entendimento que estão ali sobrepostas.
Isso é um grande desafio. É um grande desafio conseguir se comunicar com uma audiência mais ampla e, ao mesmo tempo, não perder questões de fundo que estão ali entranhadas na própria temática. Quem traz esse julgamento, se isso funciona ou não, é o próprio público, a crítica, e a gente nunca tem certeza se conseguimos articular essas possíveis camadas de leitura.
Como foi montar uma equipe para realizar esse tipo de projeto, atrás e na frente das câmeras?
Eu procuro montar as equipes sempre com pessoas que eu tenho algum vínculo, não só de admiração profissional, não só de confiança artística e técnica, mas, também, onde se constroem afetos. Então as pessoas que eu trabalho são pessoas muito próximas de mim, que dividem pensamentos de mundo e que debatem comigo também, discordam muitas vezes, o que é muito importante. Porque fazer um filme é dar materialidade na tela para uma ideia, construir uma ideia através de imagens e sons uma ideia. Uma ideia de mundo. Eu acho muito bom poder compartilhar essas ideias de mundo, por meio da ficção, com pessoas que, além das suas competências profissionais, tem uma compatibilidade humana que vai além disso.
Os filmes demoram muito tempo para serem feitos, em qualquer lugar do mundo, não é só uma realidade brasileira, portanto, é um casamento que tem ali e ele precisa ser duradouro e harmonioso. Não que de vez em quando não vá haver turbulências, é claro que tem, mas eu sinto que essa jornada de fazer um filme com pessoas que eu tenho algum tipo de vínculo além do profissional mais prazerosa, mais produtiva e com mais longevidade. Vai além.
O elenco depende muito do roteiro. Aí eu acho que tem uma coisa, também, de encontrar novas pessoas, de renovar os vínculos com os novos personagens que surgem a cada história através dos novos atores e atrizes que surgem para cada filme. Ainda assim, é importante para mim que eu tenha uma admiração pessoal, que eu acredite naquela pessoa como parceiro e parceira de trabalho. Não basta atuar bem, tem que atuar bem, mas também tem que ser uma boa companheira e bom companheiro de trabalho.
O elenco de ‘A Colmeia’ é um elenco incrível. Todas as pessoas que estão ali são pessoas com quem eu tive muita conversa antes de fechar o convite. Eu não deleguei a seleção desse elenco, não teve um Produtor de Elenco, um Assistente de Direção ou alguém que fez essa intermediação por mim. Isso foi muito importante para a coesão, para a harmonia, para a gente ter uma vivência, que foi muito intensa, de fazer esse filme – a gente foi, realmente, muito imersivo.
Os atores tiveram que fazer uma grande entrega para construir esses personagens, que são tão distantes deles, porque um personagem da ‘Colmeia’ não vai pegar uma caneta como a gente pega, mas sim como se tivesse pegando o cabo de uma enxada. Não vão falar como a gente fala, com meu sotaque de Porto Alegre, ele vai ter outra dicção, outro vocabulário – ele vai ter outro pensamento. Então, toda essa construção cultural do personagem, dentro da ficção, teve que ser feita através de uma grande imersão dos atores. Desafios que mexeram com a própria identidade deles como, por exemplo, o fato de todos terem que cortar os cabelos, porque, no filme, há uma infestação de piolhos. Principalmente, para as mulheres com os cabelos longos e bem cuidados, ter que cortar rente à cabeça e ao couro cabeludo, com aqueles caminho de rato, é um despojamento muito grande. E isso foi possível porque as pessoas tiveram uma compreensão do que era o trabalho, das exigências do trabalho como obra artística, e isso só é possível de ser feito quando a gente tem pessoas que são muito compromissadas e muito parceiras.
O filme estreou em festivais, primeiro internacionais e depois nacionais, como foi a recepção dele, tanto pelo público quanto pela crítica?
O filme estreou em um Festival que é bem importante no cenário de festivais europeus que a gente, aqui no Brasil, não está tão habituado. Estamos mais habituados a ouvir falar de ‘Berlim’, ‘Cannes’, ‘Sundance’, nos Estados Unidos, Festival de Veneza… Mas existe, claro, todo um outro circuito de festivais muito grandes e muito importantes, que são festivais emergentes e que estão ganhando força no cenário dos festivais. Um deles é o “Black Nights” ou PÖFF, que é o Festival que acontece em Tallinn, na Estônia. Um Festival ali daquela região que faz convergir, não só o cinema do mundo inteiro, mas muito do cinema que é feito na região do Leste Europeu.
Foi muito interessante poder estrear o filme lá, para uma platéia muito diferente da platéia brasileira. Eu tenho o costume de viajar para muitos festivais em vários lugares, mas eu achei especialmente diferente essa experiência de Tallinn, porque o filme tem alguns códigos que talvez nós, brasileiros, pela questão da contextualização da colonização alemã, tenhamos uma visão, enquanto que lá, muito possivelmente, eles tenham uma outra visão. Não só isso, acho que existe um imaginário do europeu, principalmente do europeu que tem menos contato com a realidade brasileira, de que é tudo muita selva – apesar de que hoje o imaginário é o da selva sendo destruída, nesse caso não é um imaginário imaginativo, é um imaginário real, estamos sofrendo com isso infelizmente -, mas, também, aquele imaginário do Carnaval, do sol, do ambiente tropical, até mesmo de um tipo físico que é mais vinculado com as nossas origens ou dos nativos aqui, antes da invenção do Brasil, ou dos afrodescendentes. Então, um filme com pessoas de uma imagem muito mais europeia, que é a questão do colonizador, que veio para cá, inclusive, em um projeto cujo, um dos vieses era fazer um processo de branqueamento da sociedade, o que é algo bastante forte para se discutir e que foi muito drástico com uma perspectiva, digamos assim, de desumanidade. Levar um filme assim causa um certo estranhamento, o que foi muito positivo, porque gerou muitas discussões e debates, o que foi muito bom.

E, aí, o filme veio vindo, né? Porque ele estreou na Estônia e depois teve as exibições no Festival de Zaragoza, na Espanha, que, de alguma forma, tem um pouco mais de familiaridade com questões mais recorrentes, digamos assim, diálogo Brasil-Espanha. O filme ganhou, nesse Festival, o prêmio de “Melhor Longa Estrangeiro”, o que nos deixou muito felizes, portanto, foi muito bem recebido, pelo menos pelo júri e, em seguida, ele estreia no Brasil, no Festival de Brasília, um Festival super tradicional. Depois ele teve outras exibições: Festival Brasileiro de Miami, de Nova York… A chegada em Gramado, para a gente, foi muito importante, porque foi uma espécie de aterrissar em casa, um Festival que acontece muito próximo da gente, um Festival que é importante para a nossa emoção de ter um vínculo afetivo. Então, fazer esse circuito, de tão distante para tão próximo, foi o melhor circuito que a gente pôde fazer e ficamos muito felizes que foi um circuito tão bem sucedido.
Quanto a recepção da crítica, já existem algumas críticas que estão disponíveis para as pessoas lerem, a gente ficou feliz com o entendimento que a crítica teve sobre o que o filme quis dizer. Acho que é muito importante quando os nossos colegas críticos compreendem o que a gente quer dizer e isso é bem sucedido, mas o que mais a gente quer e tem expectativa, que ainda está para acontecer, é a estreia do filme comercialmente falando, para que o amplo público possa assistir. Eu fico muito curioso, como diretor, para saber o que as pessoas vão achar de fato – a audiência de fato.
A história sobre o grupo de imigrantes alemães se derivou de um sketch teatral de Diones Camargo, um dos roteiristas do longa, que foi dirigido por Gilson Vargas no 6º FestiPOA Literária no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS). Parte das etapas de produção de ‘A Colmeia’ incluíram a busca por uma casa original do século 19 para autenticar o cenário, assim como, uma música regravada em alemão feita para o filme.

Abaixo, conheça os nomes por trás da realização do longa-metragem ‘A Colmeia’:
Equipe de produção
Direção: Gilson Vargas
Roteiro: Diones Camargo, Gilson Vargas, Matheus Borges
Produção executiva: Gabriela Bervian, Gilson Vargas, Francisco Caselani
Direção de produção: Deise Chagas, Eduarda Nedel, Gabriela Bervian
Direção de fotografia: Bruno Polidoro
Montagem: Gabriela Bervian
Direção de arte: Gilka Vargas, Iara Noemi
Som direto: Higor Rodrigues e Tiago Meyer
Desenho de Som: Gabriela Bervian
Trilha sonora: Leo Henkin
Na frente das câmeras, a obra contou com o envolvimento dos atores e atrizes em se imergirem nas realidades dos personagens de época. Os artistas realizaram atividades em campos de cultivo e aulas de alemão para compor os papéis, eles também contribuíram com a escolha de itens usados dentro da narrativa durante as gravações.

Elenco completo (artista e personagem)
Andressa Matos como Mayla
Janaina Pelizzon como Bertha
João Pedro Prates como Christoffer
Martina Fröhlich como Uli
Rafael Franskowiak como Werner
Renata de Lélis como Lila
Samuel Reginatto como Asper
Thais Petzhold como Erika
Com a participação de
Alexandre Vargas como Policial
Danny Gris como Médico
Elison Couto como Açoitador
Indianara Vãn Kafej como Menina na Gruta
Iracema Nascimento como Mulher na Gruta
Marcio Reolon como Homem da Cidade
Marcos Guarani como Fugitivo
Falando sobre essa estreia comercial do longa… Ele foi concluído no final de 2019, a pandemia de Covid-19 afetou, de alguma maneira, o cronograma pré-planejado para o filme?
É… Na verdade, a gente tem duas questões bem importantes. Uma delas é que, infelizmente, os projetos que estão vinculados à Agência Nacional de Cinema estão muito lentos em termos de liberação de recursos. ‘A Colmeia’ ganhou um edital de distribuição, a nossa distribuidora é a Lança-Filmes, que é uma distribuidora muito interessante, parceira nossa aqui no Rio Grande do Sul, e esse recurso não nos foi liberado até hoje. É um recurso do Fundo Setorial Audiovisual, justamente para distribuir as obras brasileiras em todo Brasil, em salas físicas e nos streamings ou em qualquer tipo de suporte possível.
Somado a isso, a gente teve a pandemia. Então, o nosso projeto inicial que era estrear o filme em março de 2020 acabou se protelando e, até agora, a gente está aguardando, tanto a liberação do recurso quanto um momento mais oportuno, porque queremos colocar em salas também, é o objetivo. Não temos certeza se nesse momento, essa nova realidade que a gente está atravessando, vai fazer com que o filme vá, de fato, para as salas de cinema, mas, evidentemente, de alguma forma ele vai estrear, independente das salas ou não, ele vai estar nos streamings, disponível para o público quando esse recurso for liberado pela Ancine, e a gente está trabalhando para isso.
Vocês já têm alguma ideia de quando isso vai acontecer, alguma base com a qual consigam trabalhar o próximo passo do filme?
Nós temos um planejamento, uma ideia, de como o filme vai ser lançado, isso fica muito a cargo da distribuidora, mas, claro, numa conversa conosco. Eu sou sócio de uma produtora que se chama Pata Negra, que é a produtora que produziu o filme. Os produtores-executivos, que são o Francisco Caselani, eu também sou produtor executivo e a Gabriela Bervian, a gente discute as estratégias junto com a Daniela Menegotto, que é da distribuidora, mas o cenário está muito volátil, porque as questões da pandemia, as questões econômicas, fazem com que a gente tenha que ter um planejamento que seja flexível.
A nossa ideia, nosso desejo, é lançar o filme até o final do ano, mas, de novo, vai depender, também, de que esses recursos sejam liberados. A nossa ideia é para 2021 ainda, mas isso não é algo que, nesse momento, eu possa garantir por depender de terceiros.
Como cineasta, ainda falando sobre a projeção futura do filme, mas entrando, também, na questão do setor cultural, do setor de filmes como um todo, como é ver, no momento em que estamos, às salas de cinema voltando?
Eu acho que a arte como um todo – a produção artística dentro do ambiente do tempo-espaço em que ela está inserida – ela não é só um reflexo do que se vive, mas também um remédio para o que se vive. Então, a arte reflete o sentimento de época, aquilo que a gente vem atravessando, que não é só a questão da pandemia, são as questões que afligem, mas não só reflete como, também, oferece lugares de conforto, reflexão e amparo para esse próprio momento.
Ver os filmes, ou o teatro, ou os shows de música, ou as exposições de arte voltando aos poucos, não só é um reflexo que nós estamos resistindo, e resistiremos sempre, como é, também, a possibilidade de a gente ter esse convívio, digamos assim, com uma dimensão que é não é só da sobrevivência biológica, mas da sobrevivência das nossas consciências, dos nossos sonhos e dos nossos desejos. Ou, pelo menos, que seja o conforto de um momento em que eu tenho um entretenimento, uma janela para um espaço que é outro, de ficção, onde eu possa repousar um pouco meus pensamentos. Eu acho que a arte, como algo que mexe com o nosso intangível, nossas emoções e sentimentos, nesse momento, ela é um dos grandes remédios que a gente pode ter.
Primeira coisa é todo mundo estar vacinado e imunizado, até a terceira dose, seja o que for, para poder estar ativo com aquilo que a ciência preconiza como correto, mas sem deixar de lado essa subjetividade que a arte nos traz e que é, também, uma resposta para as nossas inquietações.
E, com essa visão e como alguém do meio, você diria que o setor cultural já passou pelo “pior momento” que poderia ter se originado da pandemia, ou que tem muito pela frente ainda?
A gente teve muitos momentos nessa narrativa toda da Covid entrando nas nossas vidas. Primeiramente, não tínhamos ideia da dimensão disso, o que era isso, e nós tivemos uma certa ilusão – pelo menos eu tenho essa sensação, mas compartilho essa sensação com vários colegas – de que a pandemia, por mais aterradora que fosse, parecia que ela causava uma espécie de possibilidade de reacordo entre as pessoas que se viam em conflito por visões de mundo muito discrepantes. Como se nós tivéssemos todos um grande inimigo comum, como acontece nos filmes, às vezes, e tivéssemos que nos unir contra esse inimigo comum. Acho que houve uma certa ilusão disso.
Então, dentro de todo o desconforto que era do início de uma pandemia, parecia haver uma sinalização de uma transformação social, porém, foi só uma impressão e o que aconteceu foi o contrário, vimos as pessoas mais divididas ainda. Até porque muitas pessoas se valeram da pandemia para benefícios próprios, inclusive econômicos, o que é muito grave, muito sério e muito desumano. Me parece que essas diferenças aumentaram mais ainda, ficaram mais evidentes, basta a gente ver a CPI da Covid para acompanhar essa infeliz realidade – que no Brasil tem a sua expressão mais violenta.
Do ponto de vista da produção cultural, a gente tem não só a pandemia, mas o desaparelhamento dos instrumentos, o enfraquecimento dos instrumentos de fomento, como também uma guerra subjetiva do que vale ser arte, a questão da censura, mesmo que velada e, às vezes, nem tão velada no Brasil, o que tem haver com alinhamentos ideológicos que se contrapõem dentro do espectro da nossa sociedade como um todo.
A pandemia, a gente está entendendo já o que ela é, não sabemos a longevidade de uma imunização da vacina, não sabemos se novas variações vão surgir ou não, não sabemos se todos os anos teremos que fazer essa vacina novamente, mas parece que sim. Temos um cenário, pelo menos é o que a ciência mostra, de possíveis outras pandemias, até porque o homem, no desgaste que provoca a natureza, acaba recebendo esse tipo de resposta da própria natureza.Tudo isso pode trazer, de novo, instabilidades, mas dessa pandemia, me parece, que o setor cultural conseguiu atravessar a pior fase.
A gente precisa, muito mais agora, é reconquistar os nossos espaços de produção artístico-cultural através do resgate das nossas atividades e da reorganização do nosso setor como um todo. E de uma conversa. Estipular uma conversa com o setor público, o setor privado, repactuar e renovar alguns laços, refazer alguns caminhos e fazer alguns descartes de coisas que não funcionam, inclusive, essas coisas que estão vinculadas as nossas escolhas eleitorais, quem a gente coloca para trabalhar para a sociedade brasileira nos poderes que a gente elege.
Você gostaria de acrescentar mais alguma coisa?
Deixar uma última palavra dizendo o seguinte: eu sou realizador de cinema, de audiovisual, já fazem quase 30 anos, comecei bem cedo. Eu fui aluno de jornalismo, me formei em jornalismo e fui migrando para o audiovisual, me apaixonando por esse setor, mas eu dou aula também, então eu sou um realizador que dá aula de cinema. Eu adoro dar aula de cinema e é através das aulas de cinema que eu vejo uma luz, a renovação. Os jovens realizadores e realizadoras e, claro, os jovens jornalistas e todas as pessoas que estão na área da comunicação ou na área da produção cultural, é muito importante que essa juventude não só se preserve dentro de nós, que já não somos tão jovens, mas que, principalmente, não deixe os próprios jovens, porque eu acho que é muito difícil, hoje, eu acredito, ser alguém que está chegando no mundo do trabalho, no mundo da sua independência, da sua individuação, da sua afirmação no mundo, com o mundo como ele está.
Então, a palavra que eu digo é: a gente precisa não soltar a mão de ninguém e por muito mais tempo. Esse jargão já está antigo, ele já começou a alguns anos, mas ele ainda está valendo, valendo cada vez mais, na verdade. Eu digo aos colegas, que não basta ser diferente, tem que fazer a diferença e essa diferença se faz no dia-a-dia, nas relações que a gente tem, não só no trabalho, relações pessoais, enfim, em uma relação mais ética com o mundo, seja onde estivermos. Acho que é um pouco essa a missão de nós, professores, dentro de uma sala de aula, mas isso depende muito, sobretudo, da disponibilidade dos jovens de querer fazer esse diálogo e levar esse bastão adiante. É isso que eu desejo, que esse bastão da resistência e da lucidez seja levado adiante pelas pessoas que estão chegando.
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Uma história sobre amor e cura. O filme mostra o encontro entre as narrativas de Nina (Lisiane Cohen) e Carol (Laura Cohen), mãe e filha. Carol faz uma imersão nas memórias da mãe através de fotos e filmes caseiros, permitindo a ela uma nova aproximação com a vida de Nina.
O curta expressa o processo de cicatrização por meio da fala. “A psicanálise, desde Freud, diz que, para a gente começar a se curar, precisamos colocar em linguagem, falar sobre. E eu quis transpor a ideia de que essa linguagem poderia ser qualquer uma, inclusive a audiovisual”, aponta Lisiane, que é Pós-Graduada em Psicanálise, sobre um dos fatores que a influenciou na estruturação do filme.
“Era Uma Vez… Uma Princesa” foi gravado em dois dias por uma equipe de cinco pessoas, incluindo o elenco, para respeitar os protocolos sanitários devido à pandemia. Além de Lisiane Cohen, o filme contou com a participação de Carmem Fernandes na direção de arte, Fernanda Kern na assistência de fotografia e edição e Maurício Borges de Medeiros na direção de fotografia. Também podemos ver Laura Cohen, sobrinha de Lisiane, como atriz, o que, somado a outros fatores, transformou esse em um projeto “em família”.
Esse filme surgiu de uma abstinência, abstinência de set. Em janeiro deste ano, Lisiane estava desesperada para gravar alguma coisa e voltar a pôr a mão na massa. “Eu mandei uma mensagem para o Maurício falando: ‘Mau, eu preciso filmar!’, e ele estava com a mesma necessidade. Então, a gente combinou de fazer alguma coisa”, recorda, aos risos.

Inicialmente, o roteiro seria outro, mas, devido às limitações impostas pela Covid-19, o texto original seria inviável. Logo, uma das necessidades para essa produção se mostrou ser a capacidade de pensar algo adaptado à pandemia, para que poucas pessoas pudessem fazer. Com isso em mente, aditado ao desejo de gravar de uma vez, Lisiane começou a escrever um novo roteiro no sábado e o enviou para Maurício no domingo.
Esse roteiro acabou virando um processo de “se jogar nas próprias memórias”, como explica Lisiane, uma vez que ela utilizou de arquivos pessoais para integrar a narrativa como sendo recordações da própria Nina. Isso criou uma quebra da “quarta parede” – tela imaginária que separa o público das pessoas que estão assistindo – , em que esse processo ocorre simultaneamente de duas maneiras: com a Carol imergindo nas memórias de Nina e Lisiane visitando sua trajetória até aquele momento, análise da qual, segundo ela, saiu bem feliz com o que viu.

Para criar uma exposição crível, outros elementos da vida da roteirista precisaram ser adaptados à história, como, por exemplo, a estrutura familiar de dois irmãos mais velhos. Porém, o filme não cessa ali em pessoalidade. Na verdade, Lisiane vinha se dedicando apenas à escrita e direção, mas, nesse projeto, precisou conciliar essas funções com sua volta como atriz. O que a motivou a assumir esse papel foi, principalmente, às condições que cercavam a gravação, afinal, estando em meio à uma pandemia, ela não queria colocar ninguém em risco.
“Foi um negócio muito rápido. Eu não tive muito tempo para pensar e, talvez, se eu tivesse pensado, não teria me posto como atriz. Teria chamado alguém para fazer o papel de Nina. Mas eu acho que pelo filme ter esse lado autoral, de ser muito eu, muito o que eu penso, talvez não devesse ser outra pessoa a interpretar a personagem”, reflete Lisiane.

Carol, a outra personagem do curta, é interpretada por Laura Cohen. Esse envolvimento foi incentivado por vários motivos, como a pandemia, o contato frequente entre as duas – ambas sabiam dos cuidados que estavam tomando – e a semelhança física, já que viveriam os papéis de mãe e filha. “Eu queria algo intenso entre as nossas personagens, e eu e a Laura temos essa intensidade. Ela estava super afim de fazer e se entregou para o papel”, revela a intérprete de Nina.

A equipe por trás das câmeras já fez vários projetos juntos e, por consequência, conseguiram fluir em sintonia durante todas as etapas de produção. “O Maurício e a Carmem, por serem meus amigos há muito tempo, conhecem a Laura desde pequena. É bacana estar em família assim, porque a proposta do filme, de uma relação familiar, se tornava muito mais real”, comenta Lisiane.
Com uma equipe reduzida, todo mundo acabou fazendo um pouco de tudo. A diretora lembra que, inicialmente, essa parecia uma empreitada difícil, mas a realidade se mostrou muito mais simples. Segundo ela, a equipe se entendia rapidamente e, pela experiência na área, todos desenvolveram o pensamento rápido para solucionar qualquer imprevisto.
Em uma das cenas, na qual Laura está vendo algumas fotos no sofá, a diretora queria mostrar as tatuagens da atriz, uma no abdômen especificamente, mas nenhum dos figurinos disponíveis permitiam isso. “Eu disse: ‘Carmem, eu queria aquilo’. Então, ela pegou uma blusa e uma tesoura, e foi bem aquela coisa de desenho animado. Ela fez assim (gestos e barulhos de tesoura cortando o ar). Quando eu vi, estava lá o figurino para mostrar a tatuagem!”, conta Lisiane aos risos ao imitar a cena. Os acontecimentos engraçados que englobaram os dois dias de gravação foram muitos, de planos de câmera complicados que deram certo até um tingimento de cabelo que levou três dias para desaparecer completamente.
Por terem usado a produtora do Maurício como locação, com todos os materiais cênicos e de figurino pertencendo aos envolvidos, foi possível respeitar o tempo de cada um, sem apressar a produção. “Era aniversário da filha da Carmem no sábado, então, a gente gravou na sexta e no domingo. Nós nos demos ao luxo de ter esse momento respeitado”, exemplifica Lisiane. O resultado dessa colaboração é um filme que aborda um tema necessário de uma maneira contundente e sem exageros, fazendo com que muitas das pessoas que o assistem sentirem que aquela é uma realidade com a qual a roteirista tinha proximidade.

(pode implicar spoilers sobre o filme)
“Meu sonho é que a gente não precise mais falar sobre a violência contra a mulher e que as coisas mudem. Se lemos o jornal, vemos que é algo que se repete todo o dia”, lamenta Lisiane. No Brasil, a pandemia de Covid-19 foi um dos fatores que fizeram o cenário de agressões a mulheres se mostrar em uma crescente. Foram registrados 105.821 casos em 2020, o equivalente a 30% de todas as denúncias realizadas no Disque 100 e o Ligue 180. “Ao mesmo tempo, as pessoas não debatem muito sobre o que precisa ser debatido, dão muita atenção à violência física, e o debate vai além disso. Eu espero que o filme ajude nisso, gere esse debate”, acredita Lisiane.
A violência contra a mulher não se identifica como sendo somente física ou sexual. Na verdade, ela pode ser caracterizada como moral – submeter a mulher a xingamentos e humilhações –, psicológica – restringindo crenças ou ações – e patrimonial – controlando o dinheiro e documentos da mulher. A violência sexual tem um alcance amplo, e poucos sabem disso. Por exemplo, não ter autonomia para decidir sobre seus direitos sexuais e reprodutivos também é considerado violência sexual, essa sendo a condição de metade das mulheres em 57 países em desenvolvimento, de acordo com o Fundo de População das Nações Unidas.
Esse tipo de questão, que se tornou a mensagem principal do roteiro do filme, preocupa a cineasta há anos. “Um jornalista que eu adoro, Hélio Gama Filho, dizia que, certa vez, pediram para ele fazer um texto, e as pessoas amaram o que ele escreveu. Então, alguém perguntou quanto tempo ele tinha levado para concluir aquela escrita, e ele respondeu “40 anos”. Na real, a escrita é rápida, mas o amadurecimento e a introjeção da história, para ela sair, precisa de tempo”, contempla Lisiane. Idealista, a diretora acredita que podemos mudar o mundo, e o filme contribui ao incentivo de uma nova realidade, para que as mulheres possam ser o que quiserem.
Para contribuir com essa mudança, Lisiane planeja continuar trazendo essas temáticas para as telas. “Era Uma Vez… Uma Princesa” é o primeiro filme da série “Ninas”, que discute o protagonismo feminino em diversas abordagens, através de protagonistas chamadas Nina. Os próximos filmes da série ainda não têm data de lançamento. A intenção também está presente no palco da comédia com a série “As Supimpas”, uma parceria com a produtora baiana Layepas, que está em fase de captação de recursos. Ela irá abordar as convergências entre os temas de reinvenção na terceira idade e feminismo.
Os filmes indicados serão exibidos no site do festival e na página do YouTube do Canal Brasil a partir do dia 13 de agosto. A premiação e entrega das estatuetas ocorrerá no dia 21 de agosto, com transmissão ao vivo nas mesmas plataformas.
O curta-metragem “Era Uma Vez… Uma Princesa” está concorrendo nas categorias “curta-metragem”, “roteiro”, “direção”, “produção executiva”, “direção de fotografia”, “montagem”, “direção de arte”, “música original”, “desenho de som” e “melhor atriz”, com indicação para Lisiane e Laura Cohen.
Essa não é a primeira vez que Lisiane Cohen foi indicada para o Festival. Sua primeira indicação foi no XVI prêmio, em que ganhou os Kikitos de melhor filme nas categorias “documentário” e “ficção” pelos filmes “Gota de Teatro” e “Acreditem!”, respectivamente. “Eu sei que o prêmio é bom e traz reconhecimento, mas, nesse caso, o que mais importa para mim é que o filme seja visto e que ele possa ajudar muitas mulheres. Para mim, isso é o que mais tem valor”, destaca.
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Dando continuidade às adaptações que as cadeiras de Beta Redação vêm desenvolvendo desde o início da pandemia, os lançamentos da Editoria de Cultura caminham de entrevistas com personalidades do meio artístico, até grandes reportagens conjuntas, cobrindo por diferentes ângulos a participação da Lei Aldir Blanc em um setor cultural em crise.
Vinda de uma maratona de resenhas críticas culturais que guiaram a primeira parte do semestre, a Beta Cultura segue tentando desenvolver novas maneiras de exercitar as várias formas de jornalismo cultural em suas produções. Desse modo, as entrevistas de perfil (ping-pong) entram como uma dinâmica relevante dentro dos contextos de experimentação e isolamento.
“A entrevista veio cobrir uma lacuna que a gente teve durante a pandemia e que é uma coisa que valorizamos muito, na Beta Cultura especificamente, a possibilidade de conhecer as coisas, conhecer o mundo, através do jornalismo”, estabelece Felipe Boff, um dos professores que ministram a atividade. Com uma linha editorial não limitada, os alunos da cadeira tiveram a oportunidade para fazer um recorte livre na decisão das fontes, o que possibilitou um registro autêntico do nosso imenso cenário cultural.
As pessoas mais e mais se apoiam na arte para escapar da realidade que as cerca e as publicações produzem uma reflexão importante: o quanto a arte é relevante e importante na vida de todos nós, não só dos que vivem dela?
Versando sobre como os artistas estão produzindo e planejando em cenário de quarentena, as entrevistas perfil apresentadas transitam entre os mais diversos subtemas, podendo ir da poética do empoderamento feminino através do Grafite, até uma carreira de 33 anos de música nativista. São entrevistas que constroem um amplo panorama de narrativas para conhecer as várias vertentes artísticas que existem.
Entrevistas que nos permitem “ouvir” Dedé Ribeiro falar sobre como a neurociência a influenciou em ‘contar’ através da colagem, ou como o slam tomou espaço na vida de Mariana Bavaresco (Ella), acabam oportunizando uma conversa entre o artista e o leitor, uma vez que refletem o interesse do jornalista sobre o tema.
“A Beta Cultura é mais leve em relação a outras Betas, que acabam se baseando mais em dados, por ser algo mais humanizado. Para mim, entre todas as cadeiras que preenchiam a semana, [a Beta] Cultura era um alívio, porque me dava a liberdade para abordar sobre as temáticas que eu gostava”, é o que diz a aluna Tainara Pietrobelli. A estudante entrevistou a fotojornalista gaúcha Mirian Fichtner, sobre seu documentário Cavalo de Santo.
Para Tainara, a experiência trouxe novos aprendizados: “Um conselho importante, nesse sentido, é o de só falar com pessoas que tu realmente tem interesse. Eu tinha interesse por ela e pela temática, então eu fui eu”, argumenta, relembrando que a interação com a entrevistada foi um momento muito marcante para seu desenvolvimento na qualidade de estudante.
Além das boas histórias, é possível encontrar nas publicações indicações para expandir os repertórios referenciais. Seja na música, quando Rafael Decarli fala de suas inspirações em Véronique Vincent & Aksak Maboul ou no cinema, quando o documentário ‘Paris is Burning’ (1990) é apresentado na fala de Rayan Pires para mostrar o que é a Cultura Ballroom e como estilo de dança Vogue é mais do que um mimetismo das capas de revista.
Arte é resistência, é sobrevivência, pois criar, no contexto em que estamos vivendo, é também lutar pela vida simbólica, a vida representada. Este desabafo/clamor se manteve constante nos diálogos com as fontes entrevistadas. Isso acabou por incentivar as turmas a abordarem o impacto da Lei Aldir Blanc de uma maneira mais direta, originando a ideia de uma grande reportagem.
Os estudantes, que já vinham divididos desde o início do semestre em cinco grupos, com um editor cada, usaram dessa formação para abordar a matéria de uma forma mais dilatada. Assim, conversando sobre o impacto da Lei Aldir Blanc e a influência que ela teve nos palcos de Audiovisual, Culturas Vivas (Populares), Literatura e Música, a cobertura se resolveu em uma série de reportagens conjuntas. “Nós sempre queremos que as turmas experimentem o máximo de situações que o jornalismo vai oferecer na atividade normal profissional e uma dessas situações é a produção coletiva”, justifica Boff.

É comum que os alunos idealizem as funções da edição como sendo as mais fáceis, quando comparadas com as do repórter, mas, nessa atividade de prática jornalística, exercer o papel de editor mostra outro lado da profissão. Após a definição dos temas de cada grupo, a conversa de organização ficou a cargo dos editores, ao que a Beta encoraja que os alunos tomem o protagonismo das produções, logo, foram eles os responsáveis pelos cortes e pela reescrita dos materiais dos colegas, precisando respeitar o jeito de cada um de escrever e o apego emocional que teriam ao que haviam escrito.
Pensando em uma matéria que “emendaria” o trabalho de diferentes repórteres em um único texto, um dos desafios seria manter a coesão do produto publicado. “O exercício da reportagem conjunta é fazer com que os textos dos repórteres conversem no final, porque se isso não acontecer, a matéria fica parecendo um Frankenstein. Não é simplesmente juntar tudo e entregar, e aí entra o trabalho de edição”, é o que explica William Martins, editor de texto do grupo responsável por abordar Culturas Vivas.
Kellen Dalbosco, editora do grupo atribuído à legislação da Lei, comenta que o corte que seu grupo trouxe, de introdução e fechamento da série de reportagens, foi dado “de trás para a frente”, uma vez que o contato com as fontes apontou um outro lado da LAB. “Quando se estuda e conversa com pesquisadores, se começa a interpretar e entender que muitos municípios não possuem uma Secretaria de Cultura por não existir nem mesmo um Ministério da Cultura!”, constata a aluna, argumentando que ela [a Lei] veio, contudo, para demonstrar também o descaso do Estado com a cultura.
“Quando falamos sobre cultura, no atual cenário brasileiro, ela acaba sendo algo político. Nós precisamos falar sobre essas políticas públicas, pois elas serviram para mostrar a crise no setor cultural”, é o que diz a editora. Nesse semestre, Kellen já havia escrito sobre a gestão dos recursos da Lei Aldir Blanc no município de Garibaldi, para a Beta Economia e, com seu irmão sendo um dos artistas que obteve o suporte da Aldir Blanc, conseguiu observar de perto os desafios da Lei.
A verba de R$ 3 bilhões disponibilizada para a manutenção do setor cultural possibilitou que muitas histórias fossem contadas, entretanto, por vezes o auxílio recebido não é o suficiente. É o que, por um lado, retrata a reportagem de Audiovisual. Trazendo os cases dos projetos Intransitivo (documentário), Em Nome do Pai (curta), Papo de Criança (série online) e Danças Tradicionais do Rio Grande do Sul (filme), o grupo apontou como a Lei foi fundamental para que esses trabalhos saíssem do papel, mas que, ao mesmo tempo, os recursos de R$ 30 mil a R$ 50 mil não suprem as necessidades de uma equipe de produção (cenário, equipamento, artista).
A equipe de Literatura aponta que, mesmo o Brasil não sendo um país de leitores, ainda existem iniciativas que buscam, além de estimular essa prática desde cedo, usá-la para conscientizar a sociedade e puderam dispor da Aldir Blanc para esse objetivo. É isso que se enxerga nas narrativas sobre o I Festival Germinação Cultural, o Circuito Cultural nas Bibliotecas da Rede Beabah! e a Coleção PríncipXs, que incentivam a diversidade através das palavras. Algo que se manteve presente nas histórias pautadas pelo olhar da música, ao contar sobre o projeto Batuco Educo e o grupo Além dos Muros. A musicista Lela Rosanelli, também entrou nos cases, como mais um artista que conseguiu utilizar da Aldir Blanc para desenvolver novas propostas musicais durante a pandemia de Covid-19.
Culturas Populares apresentou para publicação quatro cases de projetos sociais que, com o recurso da Lei Aldir Blanc, conseguiram sair do papel e retomaram suas atividades. O projeto Capoeira Social, de Sapucaia do Sul, o DesapagaPOA, a Rede de Pontos de Cultura e o grupo de Dança Nossas Raízes, de Portão, são os atores dessa narrativa. “Nós tivemos a chance de retratar coisas importantes do lugar onde a gente mora e isso é bem importante. No decorrer das Betas a gente tem que tentar fazer alguma coisa que ajude o lugar onde moramos e as pessoas que estão aqui”, conclui Tainara, que compõe a equipe.
Tal abordagem acaba por visibilizar iniciativas culturais que, muitas vezes, não são amplamente conhecidas, por não possuírem tantos espaços de divulgação nas mídias tradicionais e, com a Beta sendo um site de notícias experimental, essa é uma necessidade que pode ser elaborada sem a pressão dos veículos da imprensa comercial. Para William, a questão social que a cultura carrega deve ser visibilizada. “É nosso dever, como jornalistas e comunicadores, dar a possibilidade para que o excluído e o diferente fale – dar voz àqueles que são marginalizados e silenciados pela sociedade”, fundamenta.
Após as publicações das matérias as atividades dos alunos continuaram, com a intenção de trazer visibilidade para as produções, e essa movimentação aconteceu por meio das redes sociais.

Em um exercício para liberar toda a criatividade, Luiza Soares, editora de redes da turma de Porto Alegre, comenta sobre atuar com essa mediação entre as reportagens e o público leitor . “Foi bem legal ter esses feedbacks e ter a experiência de uma pessoa que trabalha com isso e é social media, tendo de pensar coisas novas e diferentes e então montar e ter o retorno dessa divulgação”, relembra.
As postagens no perfil da Beta Redação no instagram foram bem repercutidas, refletindo o trabalho em equipe para que a Beta ganhasse mais visibilidade e a potência das páginas da Beta nas redes.
“Participar do processo criativo de formar a identidade visual para as postagens e ver o material que os repórteres pensavam para as redes também foi uma troca”, comenta Luiza que ajudou no desenvolvimento da estética dos posts e no apoio aos colegas para aumentar o engajamento nas mídias sociais.
As Betas entram no final do currículo da graduação em jornalismo e, para muitos, essas publicações não serão apenas as últimas do semestre, mas também o encerramento de toda a jornada da Universidade. Alunos como Kellen e William, que integram esse grupo, podem enxergar nessas entregas, todas de maneiras diferentes, como resultados que marcam suas histórias como jornalistas em formação, aprendendo como usar a profissão para agendar temas e questões que são de interesse público.
As séries de entrevistas e reportagens podem ser conferidas na Editoria de Cultura da Beta no Medium, aproveite, também, para conhecer as outras editorias do Laboratório de Beta Redação.
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