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Arquivos arte - Portal da Indústria Criativa https://mescla.cc/tag/arte/ Informação, inovação, tendências e eventos. O Mescla reúne tudo que você precisa saber sobre a Indústria Criativa. Fri, 22 Jul 2022 17:35:28 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 De barriga vazia é muito difícil pensar, diz Criolo https://mescla.cc/2022/07/21/de-barriga-vazia-e-muito-dificil-pensar-diz-criolo/ https://mescla.cc/2022/07/21/de-barriga-vazia-e-muito-dificil-pensar-diz-criolo/#respond Thu, 21 Jul 2022 20:54:58 +0000 http://mescla.cc/?p=16751 Um dos grandes nomes da música brasileira hoje, Criolo criou uma estética muito própria, e fez do rap um espaço para incorporar ritmos como o samba, a MPB, o reggae, e outras pulsações melódicas. Em 2019, sua música “Boca de Lobo” foi indicada ao Grammy Latino. Músico, ator, cidadão ativo, Criolo está em Porto Alegre […]

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Um dos grandes nomes da música brasileira hoje, Criolo criou uma estética muito própria, e fez do rap um espaço para incorporar ritmos como o samba, a MPB, o reggae, e outras pulsações melódicas. Em 2019, sua música “Boca de Lobo” foi indicada ao Grammy Latino. Músico, ator, cidadão ativo, Criolo está em Porto Alegre para apresentar seu novo disco. O show será neste sábado, no Auditório Araújo Vianna.


Mas antes ele participou do episódio especial do EduVoices desta semana, podcast do Instituto para Inovação em Educação da Unisinos. O artista fala de dois temas centrais ao Instituto, que são arte e cultura como mobilização social, seja nos espaços formais como informais da educação. Criolo respondeu às questões encaminhadas pelo decano da Escola da Indústria Criativa, Gustavo Borba. O papo foi transcrito para o Mescla. Boa leitura! 



(Imagem: Reprodução / Instagram)



Gustavo Borba – Tu vens de uma família que tem como mãe uma professora. Tu poderias nos contar um pouco como os processos de educação formais e informais foram acontecendo em tua vida e te construindo enquanto pessoa?


Criolo – Começamos muito cedo em casa. Minha mãe é autodidata, ela foi se virando sozinha. Meu avô a alfabetizou quando ela tinha 5 anos de idade. Houve um início de alfabetização e logo ele veio a falecer. Então ela pegou esse gosto pela palavra. Nasceu em uma família muito simples, muito humilde, da cidade de Fortaleza, no Ceará, em 1955. Ele tinha um pequeno curtume e, naquela época, tudo se embalava em papel jornal, e no açougue da mesma forma. Como ela era alfabetizada com o jornal que embrulhava a carne, toda a vez que ela voltava do açougue, voltava correndo o máximo que podia, porque ela ficava agoniada vendo o sangue lhe tomando as palavras. E assim começa a história desse ser de luz chamada Maria Vilani, assim começa sua paixão pelas letras, pela nossa língua, nossa gramática, nossa literatura e nossa história. Assim, dentro de casa, eu sempre fui muito incentivado a ler, muito incentivado a estar atento ao que o texto nos propõe, e se ele faz sentido. Depois dessa vivência – na realidade, essa vivência é contínua lá em casa –, viemos para o ensino formal. Estudamos sempre em escola pública, e foi dada a continuidade do que ela já fazia dentro de casa. Também participávamos de uma associação de bairro que nos oferecia algumas oficinas culturais e, depois, no circo escola Grajaú, onde pude ter contato com outros ambientes de arte que não a literatura. Lá nasceu o sonho, depois de 4 anos naquele ambiente, de também ser um educador social, de ser uma pessoa que pudesse desenvolver alguma coisa no bairro e dar um retorno. Dentro desses dois ambientes, da escola pública e das organizações que nos ofereciam algum tipo de alento, algum tipo de apoio, companhia, cursos e alimento, porque era muito importante para a gente o complemento do que esses dois espaços nos proporcionavam de comida. Passávamos uma situação muito difícil, então era muito bom ir para a escola porque sabíamos que íamos comer, e quando nós tínhamos as atividades, que eram duas vezes por semana, fora da escola, tínhamos reforço alimentar, muito importante, essa construção da massa que compõe nossa estrutura física, dá suporte para que os pensamentos venham a ser construídos, por isso que as vezes eu acho muito cruel quando se cobra um jovem sobre seus êxitos, é que de barriga vazia é muito difícil pensar, e mesmo assim a gente consegue criar coisas incríveis, mas é muito cruel essa rotina.


Borba – Um dos pontos principais quando falamos de educação é a importância da arte e da música para a formação dos jovens. Como tu vês isso hoje acontecendo no Brasil, especialmente como uma forma de mobilidade social? 


Criolo – Essa educação acontece também de modo formal e informal. Acredito que esse informal, nosso criativo, plural, que são essas trocas naturais que acontecem quando a gente se apaixona por determinada expressão de arte, no meu caso o Rap. O Rap me abriu portas para a música do mundo, a gente tem uma construção de ambiente maravilhosa porque a gente não se sente mais só, e quando a gente não se sente só a gente se sente forte, e quando a gente percebe que existem outras pessoas que estão gostando do que a gente gosta, é como se a gente fizesse parte de um grupo, como se a gente não precisasse mais lutar por aceitação. Até que em determinado momento esse grupo também cria suas subdivisões e, por muitas vezes, você também tem que ficar provando algo: quem escreve melhor, quem rima melhor, quem tem as melhores ideias, e a gente acaba saindo do ambiente do que é essa construção maior, do todo, e a gente vai aprendendo a lidar com estas outras situações que são colocadas. A vida é um tanto assim também, um reflexo social desta esteira de comando, que propõe começo, meio e fim. A música, além de lhe oferecer essas sensações de não se sentir só, de se perceber capaz de construir algo, de fazer parte de algo, também de algum jeito lhe ajuda a como lidar com essa sociedade contemporânea, extremamente competitiva e brutalmente desigual. 


Borba – Gostaria de entrar agora em uma questão relacionada ao teu novo disco, que considero uma verdadeira obra prima. O disco fala muito sobre a vida e a morte em nosso país, sobre intolerância com religiões, racismo, impactos da covid, entre tantos outros temas que nos fazem refletir e ter vontade de agir. Como foi a construção deste álbum? 


Criolo – Muita dor, muito medo, muita tristeza no coração. Esse impacto de se perceber frágil, se perceber sozinho. Eu perdi minha irmã, eu perdi tantos amigos e amigas, quase perdi meus pais. E a gente perde um tanto da gente quando essas pessoas se vão, e eu já vinha de um processo de uns 3 anos, 4 anos antes do “Sobre Viver” vir para o mundo, de me questionar muito: será que eu conseguiria escrever, ainda? Será que eu conseguiria desenvolver um rap, uma canção? Eu não sabia que ainda tinha jeito. Por muito tempo eu me questionei: será que eu ainda sei? Ou será que eu ainda tenho força? Eu pensei que eu não fosse mais conseguir fazer um outro álbum. Então, esse álbum vem com essas camadas de emoções e também com muita revolta: o país que mais persegue a comunidade queer no mundo, um dos países que mais mata jovens pretos e pretas, um país que fez um pacto de aniquilação aos originais da terra, um país que não aceita o outro em sua singularidade, em sua naturalidade, nós vivemos um ambiente extremamente hostil. O rap já está há 30 anos gritando isso. Trinta anos. O Rap, essa energia de força jovem, de força agora madura contemporânea, que vem apresentando outras vertentes, outras vozes, outras histórias, outros sabores. Vem gritando isso, falando do tanto que nosso país é desigual, fala sobre a perseguição das religiões de matriz africana. É um pedido a reflexão, é um grito de socorro e um chamado em urgência para à reflexão, para dizer que ainda existe caminho, que existe possibilidade, que nós temos coisas incríveis para construir juntos e que a juventude de nosso país é uma juventude incrível, cheia de amor, cheia de desejo de mudança e de transformação. É um álbum de fé, de muita fé, de um olhar para o futuro e de acreditar que é possível ter dias melhores.


Borba – Essa perspectiva de um álbum de fé, de olhar para o futuro, mostra possibilidades de transformação, excelente. Eu queria entrar na perspectiva da pandemia, vivemos em um país onde mais de 676 mil pessoas já perderam a vida devido à covid-19. Muitas famílias, incluindo a sua, foram fortemente impactadas por isso. Tu achas que enquanto nação, aprendemos algo com esse período? 


Criolo – Eu acredito que de algum jeito, as humanidades foram percebidas. Uma pessoa que era um tanto apática nas causas sociais, nas questões humanitárias, se percebeu querendo contribuir, querendo ajudar, querendo fazer parte de uma coisa maior. Se percebeu forte, de que pode estender a mão, de que pode contribuir de algum jeito. Acredito que para outras pessoas não, é uma coisa pessoal. Para muitos a única preocupação era quando vamos poder ligar nossos brinquedos, para continuar brincando porque está chata a vida. Reclamam como se o mundo fosse um grande parque de diversões, onde todo mundo pode tudo, e isso não corresponde à nem 1% da população. Mas acredito que até nesse lugar, nesse lugar que se põe distante do Brasil, que se põe distante da realidade do planeta, existem corações que foram impactados e é nisso que eu quero acreditar, é nisso que a gente põe a nossa energia. Nesses 1% existe pessoas que com uma assinatura no papel definem a vida de uma nação inteira: que comida vai ter na creche de uma criança na favela do Brasil? Que avô, que avó vai poder chegar em um hospital público e ser atendido e não morrer em uma fila? Essas pessoas têm nas mãos vida e morte dos filhos da nação. Então, eu não quero acreditar que todas as pessoas estão com o seu coração fechado e não perceberam que a transformação também passa por elas. 


Borba – Eu queria que tu falasses um pouquinho da nova turnê. Os teus shows têm uma intensidade única, e colocam muitos sentimentos em pauta, mas são costurados pelo amor, pela sensação de coletividade. O que dá para esperar desta turnê? 


Criolo – Eu acredito que nossa fome é de viver. De onde eu venho a gente vê a morte todo dia, mas para muita gente isso é novidade. Eu percebi que as pessoas estão com fome de vida, pois perceberam que a vida é muito frágil. E esse tour carrega esse sentimento de amor a vida, de amor ao outro, do melhor sentimento possível sendo esparramado nesse palco, para levar as pessoas a nossa melhor energia, dentro destas canções que foram feitas com todo coração. 


Borba – Queria te perguntar ainda se podes dividir com nossos ouvintes algum livro que estejas lendo, seriado ou filme que tenha visto, ou disco que estejas ouvindo.


Criolo – Eu estou terminando de ler “Memórias de Maria e um pouquinho de mim”, que acabou de ser lançado pelo selo Capsianos, um selo literário do extremo sul da zona sul de São Paulo, do Grajaú, livro de minha mãe amada, que estou terminando de ler. É o primeiro romance dela, seu sétimo livro. Convido todos vocês a conhecerem a obra, e quem puder seguir ela nas redes, o Instagram dela é casa_do_silencio, onde ela deixa pensamentos, reflexões, fala dos livros, não apenas dos livros dela, mas fala dessa produção literária que acontece no Grajaú. A zona sul de São Paulo é incrível, tem uma produção literária magnífica, existem feiras literárias, encontros literários, temos a querida Elisandra, o grande mestre Ferrés, temos a Cooperiga, com o queridíssimo Sergio Vaz, são muitas pessoas desenvolvendo suas atividades no extremo sul da zona sul. Então, através do casa_do_silencio, pode abrir para vocês um portal para encontrar muito, mais sobre essa literatura feita nestes espaços incríveis de amor, de alegria e de palavra. Eu tenho aqui, pertinho de mim, o livro “Bahia De Todos Os Negros: As rebeliões escravas do século XIX”, de Fernando Granato. Recentemente eu li o livro “O avesso da Pele”, de Jeferson Tenório, grande escritor porto-alegrense, ganhou o prêmio Jabuti em 2021. Nós nos encontramos por conta do lançamento de um box de livros chamado “Vozes Negras”, são livros incríveis e o livro dele faz parte deste box, e tive o prazer e a honra de conversar com ele sobre a obra. É sempre bom visitar o “Colecionador de pedras”, do Sergio Vaz. De disco, eu acabei de ganhar o vinil do Elo da Corrente, o Rosa de Jericó, o disco do Síntese, chamado “Ambrosia”, e o disco “Astral”, do Seletores de Frequência, ficam essas dicas para vocês. 


Borba – Criolo, muito obrigado por esse momento. 


Criolo – Muito obrigado. Muito amor para todos vocês, muito carinho, muita alegria. Vamos com tudo e se possível, se tiverem um tempinho, dia 23 de julho, que possamos nos encontrar. Colem no show, levem a família, vamos gritar, vamos dançar, sorrir, brincar e se abraçar. Cada vida é importante. Um beijo no coração de todos. Um abraço!


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Semana de Arte Moderna de 1922: misoginia histórica https://mescla.cc/2021/10/08/semana-de-arte-moderna-de-1922-misoginia-historica/ https://mescla.cc/2021/10/08/semana-de-arte-moderna-de-1922-misoginia-historica/#respond Fri, 08 Oct 2021 19:06:31 +0000 http://mescla.cc/?p=15692 Na primeira reportagem desta série, que você confere aqui, o Mescla mostrou que a Semana de Arte Moderna de 1922, evento que marcou o começo do Modernismo no Brasil, deixou um importante legado ao longo dos anos – a possibilidade de fazer cultura com uma “perspectiva de brasilidade”. O texto revisitou esse acontecimento para enxergar […]

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Na primeira reportagem desta série, que você confere aqui, o Mescla mostrou que a Semana de Arte Moderna de 1922, evento que marcou o começo do Modernismo no Brasil, deixou um importante legado ao longo dos anos – a possibilidade de fazer cultura com uma “perspectiva de brasilidade”. O texto revisitou esse acontecimento para enxergar novos ângulos de reflexão. Agora, a segunda matéria vai avançar e discutir o evento do ponto de vista das mulheres. Apesar de ser um movimento inovador, foram poucas as que ficaram marcadas como artistas modernistas. A reportagem debate ainda como o machismo estrutural ocultou esses nomes na historiografia.


Ausências de gênero

O Brasil é composto majoritariamente por mulheres e negros. Com esses dados em mãos, é preciso voltar ao passado e vasculhar o baú dessa história ora dolorosa, ora maravilhosa. O que queremos propor para a área da produção de sentidos é o reencontro com o autêntico e o singular, mas tornando visíveis as ausências de gênero e raça no que ficou conhecido como a Semana de Arte Moderna de 1922.


“O que resta às mulheres? Tu fica no meio, em um espaço dissidente. É o que acontece quando a gente vai estudar o Modernismo por outras vias, que são Modernismos díspares, como eu falo. Eles acontecem no mesmo período, só que de forma totalmente diferente, sob outras perspectivas, sobre outras vivências, e que a gente desconhece, porque quem escreveu sobre isso normalmente foram homens”, verifica Thiane Nunes, doutora em História, Teoria e Crítica de Arte pelo Instituto de Artes da UFRGS. 


Thiane produziu a tese “Misoginia modernista e a invisibilidade da mulher artista: resgate, legado e repercussões contemporâneas”, em que investiga, com ênfase, a história de 23 artistas mulheres, em contexto mundial, que acabaram sendo esquecidas (ou pouco lembradas) no fluxo da história. “Isso se deve não só aos artistas ou companheiros – ou pessoas que conviviam –, mas, pelo que eu constatei na pesquisa, se deve muito à historiografia, a quem deixou de escrever sobre. Foram escolhas conscientes em deixar algumas pessoas de lado. E, normalmente, quem escreve a história que a gente conhece são os homens”, sentencia.


Perguntei para ela se é possível reescrever a história. Segundo Thiane, não é possível, mas podemos contar e refletir sobre as partes que faltam. “Não é só uma recuperação, como é um remodelamento, digamos assim, do Modernismo. Eu não estou exatamente recuperando, mas mostrando que ele é muito mais polivocal, muito mais rico, inclusive, e ele pode aumentar nosso acervo cultural e de saber de uma forma muito mais gratificante se a gente notar o que ficou à margem desses escritos. Porque tem muita coisa a ser descoberta.”


A pesquisadora, inclusive, não utilizou referências bibliográficas masculinas, não para ignorar o trabalho já realizado por este gênero,  mas para mostrar a riqueza e quantidade de livros, teses, artigos, enfim, escritos pelo feminino. 


Casamento da novidade com o Brasil

A professora do curso de Letras da Unisinos, Márcia Lopes Duarte, segue a linha de Thiane: “As mulheres modernistas eram mal vistas. Elas não seguiam o padrão que se esperava das mulheres naquele momento do Brasil. O Brasil tem uma cara conservadora, tem um núcleo na sociedade brasileira que tem essa coisa de manutenção ‘da família’”, pontua. “Essas mulheres que produziam, seja literatura, seja artes plásticas ou música, eram taxadas como aquelas que precisavam ficar de lado, não eram ‘bom exemplo’”.


No decorrer da conversa, perguntei para Márcia o que surge em sua mente quando ela pensa em  Modernismo no Brasil. Para ela, são as obras de Tarsila do Amaral. “Eu acho que a Tarsila tem essa perspectiva. Ela casou essa coisa das vanguardas com o Brasil, o que não é uma coisa fácil, por causa dessa cara conservadora que o Brasil tem, e está muito entranhado. Então, a Tarsila trouxe essa coisa da novidade e botou o Brasil aí dentro.”



(Carnaval em Madureira – Tarsila do Amaral)



Múltiplas linguagens 

“O movimento modernista foi absolutamente misógino. Ele tem algumas protagonistas – a Anita Malfatti, e Tarsila –, mas muito em função dos companheiros que elas tinham, da vida que elas levavam”, diz Rita Lenira de Freitas Bittencourt, professora de Literatura Comparada da UFRGS, que também cita o episódio em que Monteiro Lobato “detona” a arte de Anita. “E o Lobato, na época, era um escritor conhecido, era um editor, tinha uma editora, publicava muita gente. Esse evento acaba sendo um pouco paradigmático do que acontecia com as mulheres que queriam trabalhar com arte ou literatura.”


A pesquisadora Thiane concorda, e analisa que os nomes dessas mulheres estavam costurados, formando uma teia, e se encontrando de alguma forma. Pode ser coincidência, mas ao longo da apuração, conversei apenas com pesquisadoras ou professoras mulheres, e foi o nome da professora Rita que me levou ao de Thiane. Enquanto conversava com Rita, ela refletiu:


“Uma característica que eu acho que é bem relevante em relação às mulheres do  Modernismo é que elas não se vinculam a apenas uma linguagem artística, elas acabam atravessando outras linguagens. Acho que isso é bem importante pensar. Como as grandes artes, a literatura tradicional, a poesia, eram um território masculino, desde o começo as mulheres vão entrando pelas bordas, fazendo outras coisas, experimentando outras linguagens. Isso dá até uma certa liberdade para elas. A Semana de Arte Moderna detonou a visibilidade das mulheres. Mais adiante, vai vir nessa esteira, de múltiplas linguagens, o próprio trabalho da Pagú”.


Para entender a história da Pagú, a Rita me apresentou a Thiane.


“Se tem alguma artista que ainda precisa ser lida, revisitada, estudada, é a Pagú. Porque as outras, a Tarsila e a Anita, bem ou mal já chegaram num lugar canônico.” Rita Lenira Bittencourt


Musa modernista?

Patrícia Rehder Galvão ficou muito mais conhecida pelas polêmicas do que pela multidisciplinaridade do seu trabalho artístico.  Apelidada de Pagú, pelo poeta Raul Bopp – Thiane afirma que ela não gostava do apelido – era a jovem de 1922. Depois, descobrimos que ela adotou outros pseudônimos, como o de Mara Lobo, Solange Sohl, Peste, Cobra, Patsy, K.B. Luda. Muitas vezes, a imagem dela fica reduzida a de “musa”, de mulher ousada que usava batom escuro, fumava e bebia, aquela que virou amiga dos modernistas e acabou com o casamento de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral.


Mas Patrícia Galvão foi tradutora, jornalista, romancista, poetisa, crítica de arte e de literatura, cartunista, desenhista, produtora de teatro e ativista política. Por sinal, Pagú, além de ser pioneira em diversos assuntos, foi uma das primeiras mulheres a se tornar presa por motivos políticos. Ela foi ao cárcere 23 vezes.



(Pagú por ela mesma, 1929)



“Ela traduziu Ionesco, que é um teatro super vanguardista, ninguém nem conhecia no Brasil. Ela traduziu Kafka. Ela foi crítica de arte, de literatura, escreveu dois livros muito interessantes, que são opostos um do outro, inclusive. Um em 1932, depois em 1945, quando ela já era dissidente do PCB (Partido Comunista Brasileiro). Tu vê nuances bem diferentes do que ela já acreditava ali, já que ela virou uma dissidente, como várias mulheres acabaram virando”, explica a pesquisadora. 


Para Thiane, Patrícia foi muito mais vanguardista do que muitos outros nomes masculinos conhecidos do período. “Nos dois romances, por exemplo, eles partem muito de diálogos, eles quase não tem adjetivos, quase não tem verbos, eles não tem descrição de paisagem. Então, tem todos alguns subtextos ali, que são formais, que são de estudos e pesquisas formalistas mesmo, da forma, de como fazer, só que, ao mesmo tempo, tem o contexto do engajamento. Isso que difere de muitos outros, que difere de um non sense dadá, por exemplo”, explica. Patrícia escreveu “Parque Industrial” e “A Famosa Revista”.


A estudiosa acrescenta detalhes na análise da obra literária de Patrícia: “Existe toda uma cadência, independente do roteiro, do contexto, que é feito ali, que é baseado totalmente no Manifesto Antropofágico, que segue as linhas e tudo mais. Então, é raro quem fez um romance engajado, romance mesmo, que não é só uma prosa, que não foi só poesia, e ainda utilizou do seus ‘parâmetros modernos’, as questões que tinham definido como tal. E, nesse sentido, é bem vanguardista, muito mais vanguardista que algumas outras literaturas.”



(Trecho do poema “Canal” da Patrícia Galvão)



Pioneirismo nos quadrinhos

Patrícia publicou incontáveis cartuns e quadrinhos. Incontáveis mesmo. Estão separados em jornais, revistas e outros meios, além do que foi assinado com os seus diversos pseudônimos. Patrícia é uma das primeiras mulheres a se aventurar nesse tipo de arte, e a veia provocadora não poderia faltar ali. Na tirinha abaixo, que foi publicada em O Homem do Povo, jornal que produziu com Oswald de Andrade enquanto eram companheiros, podemos ver um deboche escrachado com a Igreja, e seu papel de “educadora sexual de crenças”. 



(O Homem do Povo ganhou formatação de livro através de fac-símile, assim como “Caderno de Croquis de Pagú”. Ambos podem ser comprados na na internet)



O Caderno de Croquis de Pagú surge através de uma produção chamada de “Álbum de Pagú”, que não chegou a ser publicada em vida. “Tem uma parte, inclusive, na tese que eu escrevo, que eu não quis fazer uma comparação, de jeito nenhum, mas eu quis mostrar que pessoas faziam comparações, e que eu mostrei algumas linhas de desenhos da Tarsila e algumas linhas de desenhos da Pagú, que são similares ao extremo”, comenta Thiane.



(Tarsila do Amaral por Pagú, publicado na revista “Para Todos”, em 1929. Patrícia dedicou seu álbum a ela)



“Colagem de meios”

Ao comentar os meios utilizados por Patrícia e a dificuldade que isso implica em encontrar materiais, Thiane explica: “Isso acaba se tornando quase parte de uma ‘arte efêmera’, que some, porque não está no museu, vira parte de uma coisa popular, de massa. Mas era parte de um projeto, de levar isso para todos, ‘levar para o povo’. Isso fazia parte do ideário de pensamento da Patrícia”. 


Essa multidisciplinaridade é muito vanguardista. A professora Rita resgata: “Durante muito tempo, foi considerado uma coisa inferior, tipo ‘homem escreve romance, mulher escreve qualquer coisinha’ (crônica, conto), como se fossem artes menores. Esses espaços sobram para as mulheres. Elas conseguem trabalhar nesses buracos onde a literatura masculina não entra, e, por isso, também elas ficam à margem durante muito tempo.”


Thiane aponta que essas colagens de meios são totalmente vanguardistas, mas não teve a consideração necessária. “Porque foi feito por uma mulher. Se fosse por um homem, que, às vezes, perambulava por vários meios, ele era visto como ‘super multimídia’ (risos). Mas, se fosse por uma mulher, daí vinha o ‘ah, não, mas é que ela não era focada’. Sempre tinha uma desculpa”.


Além do mais, ela não se preocupava com autoria, com “egos”, como diz a pesquisadora. “Era mais uma sensação de compartilhamento, de querer. O ‘eu preciso fazer’ era importante pra ela. Era ‘eu preciso dizer isso, eu acredito nisso, não importa que seja eu que tenha dito, mas que alguém leia isso’. Era a verdade dela, independente se estava correto ou não. Não tinha essa ânsia em ser um gênio que assina sua obra embaixo”.


Para continuar 

  • Maria Lúcia Furlani – Pesquisadora. Ela mantém o site “Viva Pagú”. Já editou e publicou materiais sobre a Patrícia.
  • “Pagú: Vida – Obra” – Biografia escrita pelo poeta concretista Augusto de Campos.




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Entendendo e narrando o mundo https://mescla.cc/2020/11/27/entendendo-e-narrando-o-mundo/ https://mescla.cc/2020/11/27/entendendo-e-narrando-o-mundo/#respond Fri, 27 Nov 2020 17:26:12 +0000 http://mescla.cc/?p=14477 Este repórter que vos escreve lembra de conhecer a Mafalda ainda no ensino fundamental, enquanto folheava alguns livros de Português e História. Pouquíssimas crianças se interessam por Jornalismo, Política ou até mesmo para os problemas do mundo. Mas parecia que aquela menina falante e um tanto quanto “xereta” falava sobre coisas importantes e complexas de […]

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Este repórter que vos escreve lembra de conhecer a Mafalda ainda no ensino fundamental, enquanto folheava alguns livros de Português e História. Pouquíssimas crianças se interessam por Jornalismo, Política ou até mesmo para os problemas do mundo. Mas parecia que aquela menina falante e um tanto quanto “xereta” falava sobre coisas importantes e complexas de um jeito diferente.


Assim como Quino fez com a Mafalda, diversos outros artistas trabalham assuntos contemporâneos – ou não – através da charge, cartum ou quadrinho. Eles são meio jornalistas opinativos, meio artistas, enfim, personagens que me enchem de curiosidade: como é ter uma ideia por dia e passar para o traço? Quais são os formatos possíveis? Pode-se fazer uma reportagem com quadrinhos? Com tantas perguntas em mente, bolei esta pauta e conversei com quatro artistas – de diferentes gerações, lugares do Brasil e estilos – sobre a profissão e as referências deles. Para todos, perguntei sobre a importância do Quino em seus trabalhos. O cartunista argentino morreu aos 88 anos, em setembro desde ano.


Ah, antes, uma curiosidade. É difícil saber exatamente qual a origem, porém, há registros que mostram a presença da charge e do cartum, no Brasil,  já no século 19. Apesar das sutis diferenças entre os dois, eles foram usados, ao longo dos anos, como uma forma de criticar ou abordar alguns comportamentos sociais e políticos, essencialmente em períodos ditatoriais e totalitários.

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O traço gaúcho

Gilmar Fraga, 52 anos, trabalha como “profissional de traço” há mais de 25 anos. Natural de Viamão, cidade da Região Metropolitana de Porto Alegre, ele tem seu trabalho publicado nas plataformas de GZH, atuando em um campo opinativo, todos os dias, desde abril deste ano. Tudo começou de uma forma bem inusitada após um acidente, ainda na infância. O artista sofreu um ferimento no olho quando era criança e, como forma de tratamento, era estimulado a fazer desenhos de personagens da época, como a Minnie e o Mickey, através de um projetor gráfico, utilizando apenas o olho ferido. Ali, teve o primeiro contato com todo o universo dos personagens e do desenho. Ainda na escola, as revistas e os quadrinhos também fizeram parte da formação de Fraga como chargista e cartunista.


Fraga começou no jornal Zero Hora nos anos 90, época em que os grandes “medalhões” do jornalismo local trabalhavam no veículo: “Era uma época diferente e um pouco difícil para quem estava começando. O pessoal passava por ti e nem cumprimentava, era uma coisa meio que ‘escola de filme americano’”, relembra rindo.


Questionei o entrevistado sobre a importância e a influência do Quino no seu trabalho. Fraga resumiu tudo em apenas duas palavras: influência espiritual. Além do argentino, outra grande referência no trabalho de Gilmar foi o ilustrador e cartunista brasileiro J.Carlos.


Mas, afinal, como é ter uma boa ideia todo dia? Fraga explica que esse foi um dos maiores desafios que enfrentou. O chargista, que antes produzia uma charge por semana, passou a produzir uma charge por dia após a saída do colega Iotti: “Fazer charge diária é escolher abrir mão de outros projetos e fazer escolhas diárias entre os principais acontecimentos do dia”, explica. O artista ainda fala que é importante saber organizar os elementos dentro das charges e dos quadrinhos.


O trabalho de Fraga tem como objetivo retratar e fazer críticas, sejam sociais ou políticas. Uma delas foi a charge feita sobre o “caso Mari Ferrer“. Ele comenta que houve muita repercussão, com comentários positivos e negativos. Um deles foi de um juiz. Ele disse que a charge estava “desconstruindo símbolos da justiça”. Ah, sim! A interpretação do público é um dos fatos que acompanham o artista. Fraga reforça que a charge é uma constante crítica aos costumes do nosso tempo.

Em charge publicada em GZH, no dia 04/11/2020, o chargista retratou o “caso Mari Ferrer” (Foto: Gilmar Fraga)


Mas, afinal, dá para contar a história de alguém apenas com quadrinhos? Para o Pablito, 32 anos, sim! Assim como o maltês Joe Sacco, referência mundial no gênero, Pablito conta diferentes histórias, de diferentes pessoas, através dos quadrinhos e do desenho. Tudo começou em 2016, quando começou a trabalhar no jornal de sua cidade, Alvorada. Ele iniciou como diagramador e chargista, mas, após alguns meses, passou a fazer, também, quadrinhos.


Com novos modos de narrar histórias, quem ganha é o próprio jornalismo: “Vejo os quadrinhos como um outro tipo de leitura que atrai o leitor através da imagem e texto. Acredito que essa diversidade para o jornalismo é bem rica”, defende Pablito. Além de citar Joe Sacco e sua obra mais famosa, Palestina, ele também faz referência ao artista francês Matthias Picard, com Jeanine, como fonte de inspiração. Pablito entende que o que define se os quadrinhos podem ou não configurar novos gêneros no jornalismo é a própria intenção do autor, pois as opções são infinitas.


Como não podia ser diferente, a influência do artista argentino Quino é direta na vida de Pablito, seja na carreira ou até mesmo na vida pessoal: “A Mafalda me influenciou não somente no meu trabalho como quadrinista, mas, também, na minha forma de encarar a vida, através do olhar dela – que era o olhar do Quino – em relação ao mundo e a política que nos cerca”, resume.


Nas histórias que conta, Pablito, que é formado em Comunicação Digital pela Unisinos, desenvolve um sentimento diferente em cada uma delas. E uma destas histórias marcantes foi a da diarista e mãe solteira de cinco filhos Adriana: “Fui em um culto com ela e também fui em sua casa entrevistá-la. Aprendi bastante e me emocionei diversas vezes enquanto fazia esse quadrinho”, revela.

Quadrinho retratando a história de Adriana, por Pablito (Fotos: Pablito Aguiar)

Apenas Laerte

É impossível falar sobre charge e cartum sem falar sobre a Laerte. Sugiro assistir o documentário Laerte-se, dirigido pela Eliane Brum e disponibilizado na Netflix. Nele, a cartunista nos convida a conhecer melhor o seu mundo e fala sobre o processo de autoaceitação como, também, mulher. Natural da cidade de São Paulo e com 69 anos, sendo 50 dedicados a sua vida profissional, Laerte é referência para chargistas, cartunistas e quadrinistas de diferentes gerações. Criadora de personagens como os Piratas do Tietê e Overman, a artista já publicou em diversas revistas, como O Pasquim e Chiclete com Banana, e em diversos jornais, como Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo. Laerte também é ilustradora e roteirista. No anos 90, atuou como roteirista em diversos programas na Rede Globo, como TV Pirata e Sai de Baixo.


Sobre a relação da arte com o jornalismo, para Laerte é extremamente importante: “Acho que as charges têm um impacto bem específico na leitura de um jornal, já que não são, necessariamente, material informativo”, explica. Para a artista, as charges também constituem um tipo muito particular de material opinativo.


Já a influência do Quino em seu trabalho é total: “Foi um dos grandes motivadores para que eu decidisse ser desenhista na imprensa”, revela Laerte, que diz sempre ter acompanhado o trabalho do argentino, seja a Mafalda ou os cartuns.


Com um humor refinado e ao mesmo tempo severo, as tiras de Laerte abordam as mais diferentes questões da existência humana. Se para uma pessoa comum já é difícil escolher um trabalho favorito, imagina para alguém que tem quase 50 anos de carreira: “Vejo tudo o que já fiz de um modo meio embolado, como um grande acervo. Acho que evito analisar”, resume Laerte.

Em tirinha de novembro de 2020, como em outras, Laerte aborda as mais diferentes questões da existência humana (Foto: Laerte Coutinho)

“Condenar o cartunista (não) vai resolver o problema”

Com tirinhas ácidas e sem medo algum de falar sobre os assuntos mais polêmicos e controversos do Brasil contemporâneo, Ricardo Coimbra, 42 anos, natural de Recreio, uma cidade pequena do interior de Minas Gerais, se destaca no cenário atual. Ainda na infância, o primeiro contato com a arte foi através dos gibis e desenhos animados. Já na adolescência, como grande partes dos jovens que queriam trabalhar com quadrinhos, Ricardo teve como inspiração a Chiclete com Banana, revista underground dos anos 80.


“A primeira coisa que eu fazia, quando abria os livros didáticos da escola, era ir direto para as tirinhas da Mafalda”, lembra Ricardo. A relação com a personagem era controversa: “Acho ela um pouco chata. Me lembra aquele fenômeno que tinha nas novelas da Globo, da ‘criança adulta’”, brinca o artista.


Ricardo ainda fala sobre a violência contemporânea, principalmente relacionada à arte e à comunicação, como no “caso Charlie Hebdo“. Para ele, ninguém muda o mundo com tirinha. Ela é apenas uma reação a tal realidade: “As pessoas sempre se revoltam com o vetor mais fraco, achando que condenar o cartunista vai resolver o problema”, explica. Como elucida Ricardo, tal comportamento tem relação com a atual economia simbólica, em que as pessoas dão uma dimensão gigantesca para o discurso.


E, às vezes, as tirinhas podem romper fronteiras, como é o caso da tirinha que fez sobre a vida adolescente, em 2010. Ricardo conta que recebeu de amigos uma imagem da internet, em que a tirinha estava traduzida em alfabeto cirílico russo: “Isso é uma coisa fascinante e me faz pensar que existem alguns tipos de conteúdos que são universais”, conta.

Tirinha de 2010 satiriza as reclamações da vida adolescente (Foto: Ricardo Coimbra)

Relato do repórter

Conhecida mundialmente pelas capas de suas edições, a revista estadunidense The New Yorker também é famosa por seus cartuns. Eu poderia escrever diversas linhas apontando e indicando os meus favoritos. Por mais que eu quisesse muito, desta vez não rolou uma entrevista com o pessoal da The New Yorker, mas quem sabe em uma próxima vez, afinal, por que não? Enquanto não temos a entrevista, minha dica é para vocês jogarem a hashtag #NewYorkerCartoons nas redes sociais.

“Vovó, por que todas as suas fotos de 2020 são capturas de tela?” diz o cartum de Brooke Bourgeois na edição de 17/11/2020 da The New Yorker (Foto: Brooke Bourgeois)

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Acompanhada pela arte https://mescla.cc/2020/11/18/acompanhada-pela-arte/ https://mescla.cc/2020/11/18/acompanhada-pela-arte/#respond Wed, 18 Nov 2020 16:56:46 +0000 http://mescla.cc/?p=14393 A arte existe em todos os lugares, de todas as formas, e a entrevistada da vez da série #NossosTalentos é uma expressão disso. Manuela Zuccari tem 20 anos e está atualmente no 6º semestre do curso de Design, mas começou a pensar na beleza das formas muito antes de pisar em uma universidade. Desenhar e […]

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A arte existe em todos os lugares, de todas as formas, e a entrevistada da vez da série #NossosTalentos é uma expressão disso. Manuela Zuccari tem 20 anos e está atualmente no 6º semestre do curso de Design, mas começou a pensar na beleza das formas muito antes de pisar em uma universidade. Desenhar e pintar evoluíram para a ilustração digital e colagens, uma habilidade que acabou se tornando um meio de expressão e também um indicativo da carreira a seguir.


“Na minha vida toda, sempre fui muito ligada à arte”, conta ela. “Fiz teatro na escola, participei do coral, aprendi vários tipos de dança, como aérea, balé, jazz. Depois, fiz patinação artística, cursos de desenho, de mangá. Fiz várias atividades que foram me completando como pessoa e até mesmo na minha personalidade. Se hoje eu sou uma pessoa expressiva e comunicativa, se faz parte de mim ser empolgada com a arte, foi por causa das atividades que eu pude realizar.”

Os espaços dentro da escola possibilitaram que Manu expandisse seus horizontes
(Foto: Arquivo Pessoal/Manuela Zuccari)


Essa abertura para novas oportunidades e experiências foi uma característica incentivada desde cedo pelos pais, que ofereciam a possibilidade de ir além do que a escola oferecia. “Eles sempre me influenciaram nesse sentido, tanto para ter um currículo, um histórico bom, como para poder me testar. Descobrir, realmente, o que eu gostava”, explica Manuela. “Isso serviu para melhorar minha desenvoltura. O teatro me ajudou a falar melhor, me expor com consciência. Me expressar. O canto e a dança me ajudaram a entender meu corpo e adquirir força muscular. Meus pais me impulsionaram a descobrir pelo que eu era apaixonada e até onde iam minhas habilidades. ‘Melhore o corpo, veja do que é capaz! Se joga!’”


Esse incentivo possibilitou que desde cedo a estudante pudesse se interessar pela arte, tanto que ela sequer consegue dizer quando. De desenhos à pintura, foi na época da pré-escola que ela começou a se dedicar a esse passatempo que, mais tarde, ajudaria a escolher uma carreira. “A arte realmente colou em mim”, brinca. “No final do Ensino Médio, foi difícil pensar que iria começar uma nova fase, especialmente por perceber que teria que deixar o coral e o teatro para trás. Foram as minhas maiores dores.”


Hoje, ela não faz mais teatro, nem participa de coral, mas até momentos antes da chegada da Covid-19, a dança continuava presente como uma forma de expressão. “Eu ouço muita música. Não vivo sem música. Para tomar banho, cozinhar, até estudando, sempre tem um som me envolvendo. Eu ando cantando pela casa, danço bastante. Ia nas festas antes da pandemia para me expressar com a dança”, divide conosco. “Eu não exerço mais muitas das atividades artísticas de antes, porque na escola temos mais tempo e, às vezes, essas atividades estão ali, disponíveis. Mas essas coisas me marcaram e continuam comigo. Eu aprecio o teatro, o cinema, a música, toda essa construção artística porque participaram da minha vida e tiveram um grande impacto.”

Fotos tiradas e editadas pela Manu, em mais uma das experiências
que hoje fazem parte do sonho de carreira
(Arquivo Pessoal/Manuela Zuccari)


Atualmente, ela está se aprofundando no mundo das ilustrações, tanto as clássicas como as digitais, que, inclusive, são pontos fortes do curso de Design. Como a maioria de nós, ela começou a quarentena mais positiva, esperando que não demoraria muito para as coisas voltarem ao normal, então procurou investir seu tempo a mais nos pontos que gostaria de desenvolver. “Fiz bastante fotos, autorretratos, edições para redes sociais, montagens e colagens. Mas ao longo do ano, tem sido um pouco frustrante estar em casa e não poder exercer o que planejei”, revela. “Todas as ideias de agora precisam ser feitas em casa, com você mesmo. Às vezes, minha família não quer tirar fotos, nem posso pedir para as minhas amigas. Por isso, fui diminuindo o grau de produtividade.”


Mas, acostumada a ir além e descobrir o que pode fazer a mais, a estudante de Design acabou descobrindo um novo amor. “A arte salva, no fim. Sem ela, estaria muito mais perdida. Durante a faculdade, presencialmente, não estava ilustrando, mas ultimamente voltei a tentar. Testei um material novo, uma técnica nova, e isso está me deixando feliz. Talvez esteja travada na fotografia, mas estou desbravando a ilustração. A arte vai me acompanhando.”

Fotografias e cores como forma de expressão artística
(Foto: Arquivo Pessoal/Manuela Zuccari)


O fato de que a arte faz parte da sua vida ajudou a levá-la até o curso que estuda, já que o interesse por todas as formas de expressão sempre estiveram ali. “O Design tem essa discussão relacionada à arte. É design? É arte?”, explica Manuela. “O designer vai produzir alguma coisa pensando no público. Como as pessoas vão interagir, qual a usabilidade, a estética, o preço? São muitas questões pensadas para servir o cliente. O artista, ao contrário, é mais egoísta, mais para dentro de si mesmo. Ele produz aquilo porque ele precisa se expressar. Precisa colocar para fora do jeito dele, sem a discussão que a gente tem, por exemplo, quando pensa no mobiliário. Mas deixa de ser arte?” 


Para a estudante, a percepção de que a arte influencia o design ajuda a entender o prazer em uma peça bem acabada. E esse prazer é uma das paixões que move sua própria participação no mundo artístico. “Eu sou artista em um sentido amplo, um compilado de coisas que eu amo fazer”, conclui Manuela. “Já me considero designer desde agora, mas além dessa terminologia, quero a de artista, porque acho que faz parte de quem eu sou.”

Trabalho audiovisual realizado em sala de aula
(Vídeo: Reprodução YouTube)


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Professora de Fotografia da Unisinos é indicada em premiação https://mescla.cc/2020/06/18/professora-de-fotografia-da-unisinos-e-indicada-em-premiacao/ https://mescla.cc/2020/06/18/professora-de-fotografia-da-unisinos-e-indicada-em-premiacao/#respond Thu, 18 Jun 2020 18:18:16 +0000 http://mescla.cc/?p=13340 O Prêmio Açorianos de Artes Plásticas é uma das mais tradicionais premiações da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre. Ele homenageia as principais produções artísticas locais feitas ao longo do ano, além de também fomentar a cultura, a criação e a valorização cultural na capital gaúcha. E esse ano, na XIII edição do prêmio, […]

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O Prêmio Açorianos de Artes Plásticas é uma das mais tradicionais premiações da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre. Ele homenageia as principais produções artísticas locais feitas ao longo do ano, além de também fomentar a cultura, a criação e a valorização cultural na capital gaúcha. E esse ano, na XIII edição do prêmio, a Unisinos está presente entre os indicados.

A professora Rochele Zandavalli, do curso de Fotografia da Unisinos, foi indicada na categoria “destaque em exposição individual”, pelo trabalho “Nosso lugar ao Sol”. O projeto ficou exposto no Centro Cultural da UFRGS de novembro de 2019 até março deste ano, trazendo uma narrativa dividida em três eixos que questiona desde a relação humana com a natureza até a censura e a fetichização do corpo feminino.

Rochele conta que “Nosso lugar ao Sol” consiste em recortes de diversas produções que ela fez desde 2009. Na primeira sala da exposição, a fotógrafa trouxe retratos da relação humana com a morte, do pertencimento à natureza e da efemeridade da vida. Na segunda sala, Rochele trabalhou com a figura feminina e a força que as mulheres podem dar umas para as outras por meio da união. Aqui, foram expostos retratos de grupos de mulheres felizes e unidas em meio à natureza. Por fim, na terceira sala, a exposição de Rochele trouxe um vídeo com imagens de mamilos censurados que ela pegou no Instagram.

“É um trabalho muito voltado para a expressão do corpo feminino, da liberdade, do comportamento. Também há uma crítica à forma como a gente se relaciona com as imagens nas redes sociais, principalmente quando envolvem corpos femininos, e com o quanto a gente naturaliza uma certa violência contra esses corpos”, explica a professora. “O corpo feminino está sempre sendo jogado entre a censura e a pornografia. E nesse jogo, as mulheres perdem dos dois lados.”

Para produzir a exposição, Rochele utilizou, principalmente, a fotografia analógica e algumas técnicas de pintura, como aquarela e até esmalte de unha. A fotógrafa diz que se sente muito grata pela indicação ao Prêmio Açorianos de Artes Plásticas e pela oportunidade de ter realizado essa exposição juntamente com a UFRGS. Principalmente por ela ter sido feita em 2019, um ano em que, conforme Rochele, a universidade sofreu muitos ataques ideológicos, políticos e estruturais contra a educação e a cultura.

“E este ano, essa indicação ao prêmio também é um grande feito. Por conta da situação de isolamento social em que estamos, a exposição acabou sendo quase que profética, até de uma forma irônica. Ela se chama ‘Nosso lugar ao Sol’, fala sobre um lugar amplo, externo, livre e coletivo, que é justamente o que menos estamos tendo agora. ‘Nosso lugar ao Sol’ é tudo o que estamos querendo recuperar nesse momento”, finaliza.

O resultado do XIII Prêmio Açorianos de Artes Plásticas será divulgado nesta sexta-feira, dia 19. A equipe Mescla deseja boa sorte para a professora Rochele Zandavalli!

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Festival Espacial da Querência Internética trará diversidade musical https://mescla.cc/2020/05/29/festival-espacial-da-querencia-internetica-trara-diversidade-musical/ https://mescla.cc/2020/05/29/festival-espacial-da-querencia-internetica-trara-diversidade-musical/#respond Fri, 29 May 2020 19:55:54 +0000 http://mescla.cc/?p=13182 A arte e a cultura não podem parar, mesmo com o novo coronavírus impedindo que aglomerações sejam feitas. E o curso de Produção Fonográfica da Unisinos decidiu adaptar suas atividades para que possam ocorrer com segurança nessa situação. Uma delas é o seu Festival Espacial da Querência Garagística, que foi rebatizado esse ano para Festival […]

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A arte e a cultura não podem parar, mesmo com o novo coronavírus impedindo que aglomerações sejam feitas. E o curso de Produção Fonográfica da Unisinos decidiu adaptar suas atividades para que possam ocorrer com segurança nessa situação. Uma delas é o seu Festival Espacial da Querência Garagística, que foi rebatizado esse ano para Festival Espacial da Querência Internética e estará disponível online no dia 4 de junho, a partir das 20 horas.

O festival é uma realização dos alunos do curso de Produção Fonográfica e está indo para sua quinta edição. Ele é resultado da cadeira de Projeto IV – Festival, onde os estudantes aprendem, na prática, como organizar um festival de música. O professor responsável pela disciplina, Frank Jorge, que também coordena o curso de Produção Fonográfica, diz que a ideia do evento  é apresentar bandas e músicos emergindo de todas as regiões do Rio Grande do Sul e garantir uma boa variedade musical.

“Tanto para os alunos organizadores quanto para o público, é importante trazer um festival que dialogue com diversos estilos musicais e respeite todos igualmente. É um evento de caráter amplo e libertário, não segregacionista”, explica o coordenador.

O professor conta também que o festival será composto por uma série de vídeos dos artistas convidados tocando suas músicas, que serão postados no Instagram do curso por meio do IGTV. A produção do material também ficou por conta dos estudantes.  E o encarregado por fazer a apresentação do evento é o professor Porã, que entende  a necessidade do formato digital como uma oportunidade que vai abrir portas para novos trabalhos da Produção Fonográfica.

“Manter a essência do festival em uma nova plataforma é um caminho para que a gente possa explorar mais esse formato em outras atividades do curso, possíveis outros festivais e iniciativas do curso que vão surgir. Conseguir manter o festival nesse ano tão complicado que estamos vivendo é o mais legal nisso tudo. As bandas e os alunos se empenharam ao máximo. Tenho certeza que o que temos aqui é uma perspectiva bastante inovadora”, diz o professor.

Edição online do festival trará uma enorme variedade musical graças aos esforços dos alunos

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Luz e som como elemento narrativo https://mescla.cc/2020/03/05/luz-e-som-como-elemento-narrativo/ https://mescla.cc/2020/03/05/luz-e-som-como-elemento-narrativo/#respond Thu, 05 Mar 2020 19:49:16 +0000 http://mescla.cc/?p=12888 Mirella Brandi e Muepetmo se conheceram em 2006, a partir de um projeto de multilinguagens chamado OP1. Mirella era artista multimídia e designer de luz, enquanto Muepetmo, cujo nome artístico é um anagrama de “meu tempo” e seu nome verdadeiro é Fabio Villas Boas, atuava como músico, compositor e engenheiro de som. O primeiro trabalho […]

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Mirella Brandi e Muepetmo se conheceram em 2006, a partir de um projeto de multilinguagens chamado OP1. Mirella era artista multimídia e designer de luz, enquanto Muepetmo, cujo nome artístico é um anagrama de “meu tempo” e seu nome verdadeiro é Fabio Villas Boas, atuava como músico, compositor e engenheiro de som. O primeiro trabalho envolvia um corpo em cena, luz, vídeo e música, sem que nenhuma destas linguagens tivesse protagonismo. 

O processo criativo foi baseado na optical art (obras baseadas na ilusão de ótica) e na confluência entre luz, imagem, música e corpo. Com o tempo foram retirando alguns elementos de cena, como o corpo e a projeção, até restar apenas luz e som.  

“Então, começamos a entender uma outra linguagem, um outro modo de utilizar a luz. Ela deixou de ser uma ferramenta para iluminar e começou a ser compreendida, assim como a música, como uma possibilidade de percepção para as pessoas. – Mirella Brandi

Então, a luz ganhou uma importância maior em suas performances. Assim, vieram outros trabalhos como Transtorno, Outro , Rente e Vampyroteuthis Infernalis. Uma parceria que existe até hoje e rendeu prêmios como o Rumos Itaú Cultural (2006), Rumos Música (2010/2012) e Caixa Cultural (2009), além de estabelecer e reconhecer os artistas estabeleceu no nicho do cinema expandido. 

Axioma.8

Axioma significa uma sentença ou proposição que não é provada, mas considerada como óbvia ou como um consenso inicial para a construção e aceitação de uma teoria. Para Mirella e Muep, Axioma é como uma névoa cerebral. Trata-se de verdades inquestionáveis, uma hipótese inicial, ou um princípio. 

A performance que mescla elementos de luz e som traz uma complexa composição musical, o trabalho envolve gravações de piano e instrumentos acústicos propositalmente adulterados com vozes processadas digitalmente em tempo real. Uma experiência imersiva cuja narrativa quem cria é o próprio público.

Confira os vídeos:

Vídeo: Divulgação
Vídeo: Divulgação

O jogo de luz emulado pela artista Mirella Brandi constrói um ambiente propício para se imaginar, afinal, a ideia é fazer um deslocamento. Viajar para outro país ou até mesmo um outro planeta. Quem cria o roteiro é o espectador. A trilha sonora desenvolvida por Muep também é crucial para a imersão, com sons que podem remeter a memórias e lugares. Sobre a história criada pelos artistas, eles preferem manter em segredo. 

Se a gente contar o início de onde estas cenas aconteceram, de onde veio a composição musical, a gente está direcionando essas pessoas para que elas entendam o show ou espetáculo como a gente entende. Não é o nosso propósito, nosso propósito é deixar elas livres para levar essas histórias para onde elas quiserem. – Mirella Brandi

A gente vive na era da emulação, não? Então, a gente emula sensações com equipamentos originais. Talvez, possamos emular a ideia do que temos como ponto de partida. Mas, você pode ir para qualquer lugar (com a sua compreensão), você pode ir para a china. – Muepetmo

Em Axioma, Mirella e Muep voltaram a usar a projeção em cena, um elemento que esteve em suas primeiras performances, mas ficou de lado por algum tempo. “A gente foi deixando de usar o projetor, porque ele preenchia demais a cena, quando você projeta um vídeo ou um filme, a projeção é carregada de códigos, então, não sobra espaço para outras linguagens”, conta Mirella. A performance de Axioma recupera o projetor, mas o utiliza como fonte de luz. 

Foto: Divulgacão
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Um trabalho para ser deslocado

Uma das características de Mirella e Muep é criar projetos não destinados a um espaço específico. Por exemplo, a performance VAMPYROTEUTHIS INFERNALIS, foi exibida ao ar livre, dentro de um bosque, no Sesc Ipiranga, em São Paulo. Este mesmo projeto foi apresentado em uma galeria, na cidade de Berlim. 

O espaço em que os projetos são apresentados também influencia na percepção do público. Em uma das exibições de RENTE, o local disponível era muito pequeno. Mirella conta que a situação de estar apertado levou as pessoas a criarem histórias meio sinistras. “Teve um cara que veio falar com a gente, dizendo que tinha entendido a história e se visto naquele barco de refugiados. Ele viu que o barco virou e todo mundo caiu no meio do oceano. Estava escuro. Então, ele ouviu uma criança gritando”, conta a artista. Apesar de esta não ser a história inicial, a performance ocorreu na Europa, onde a situação dos refugiados era muito presente.  

Performance imersiva inspirada no livro Vampyroteuthis Infernalis de Villem Flusser. (Foto: arquivo)
A performance pode ser apresentada tanto em ambientes abertos como fechados. (Foto: arquivo)
A obra do filósofo Vilém Flusser é transformada pelos artistas em realidade amplificada. (Foto: arquivo) 

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A ousadia de não lutar, mas conviver na floresta https://mescla.cc/2020/01/02/a-ousadia-de-nao-lutar/ https://mescla.cc/2020/01/02/a-ousadia-de-nao-lutar/#respond Thu, 02 Jan 2020 18:11:13 +0000 http://mescla.cc/?p=12808 O trabalho Ousadia Majestade foi apresentado no Festival Kino Beat, que ocorreu em meados de dezembro, no Museu de Arte do RS.  O produto, que fica na fronteira entre a fotografia, poesia, prosa, e tem formato documental se baseia na história do casal de ambientalistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo […]

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O trabalho Ousadia Majestade foi apresentado no Festival Kino Beat, que ocorreu em meados de dezembro, no Museu de Arte do RS.  O produto, que fica na fronteira entre a fotografia, poesia, prosa, e tem formato documental se baseia na história do casal de ambientalistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, mortos em 24 de maio de 2011, em Marabá (PA). José era membro do grupo ambientalista Conselho Nacional das Populações Extrativistas – CNS, e vinha recebendo ameaças de madeireiros e criadores de gado devido a sua atuação na defesa da floresta tropical. Em 4 de abril de 2013, Lindonjonson Silva Rocha e Alberto Lopes do Nascimento, foram sentenciados a 42 e 45 anos de prisão pelo assassinato dos defensores de direitos humanos.

O crime que ocorreu no início da década chamou a atenção do artista Tomaz Klotzel. “Eu comecei a ler mais sobre o assunto e entender mais sobre esta região da Amazônia. Então, teria o segundo julgamento do mandante do assassinato de José Cláudio e Maria, fui para o julgamento e acabei indo para a região de Marabá”, conta. Tomaz ficou no local por um mês e meio, conheceu a CPT – Comissão Pastoral da Terra, órgão que dá assistência aos povos da região amazônica e visitou os locais onde tinham ocorrido os assassinatos, afinal, ali havia uma disputa de terras em que outros casos já tinham ocorrido.

Conversou com testemunhas, parentes, sobreviventes e iniciou pesquisas nos registros policiais. Ao ler o texto de julgamento começou a entender os casos. Aos poucos percebeu que o que tinha em mãos poderia ser denunciado. Para isso, usou sua  arte.

“Quando eu chegava nos locais eram lugares sem memória, como uma beira de estrada, uma rua, ou capoeira na mata. Então, o interessante era que os eventos desapareciam, mas os locais davam testemunho do processo de invisibilidade. Um processo violento que tem um objetivo específico, invisibilizar populações. Ao mesmo tempo, eu vi que a coleção de relatos que eu tinha me ajudava a reconstruir essa imagem. Eu comecei a pensar em uma maneira de apresentar um trabalho que unisse a fotografia e o texto e que isso pudesse construir uma imagem” – Tomaz Klotzel 

Assim, nasceu Ousadia, Majestade!

Ousadia para conviver na floresta

Foto do trabalho Ousadia, Majestade! de Tomaz Klotzel

Meu esposo era um sindicalista, vivia na luta, trabalhando, lutando para adquirir um pedaço de terra para trabalhar, ele e a minha filha. E acabou sendo assassinado aqui dentro de casa. E no dia do assassinato a casa aqui estava cheia de gente. Tinha até uma criança recém nascida, deitada na rede. – Cleonira Barbosa da Silva Torres, viúva de Pedro de Oliveira Torres (Foto e Texto: Tomaz Klotzel)

Confira o áudio completo

Foto do trabalho Ousadia, Majestade! de Tomaz Klotzel

Aqui foi aqui que  aconteceu a tragédia. Hoje é uma casa diferente, era uma casa de madeira na época, simples. Eram 7 horas da noite, vieram dois rapazes, bateram na porta, entraram. Executaram a minha mãe, Cleonice, meu pai José e meu irmão caçula que estava na rua. – Edinaldo Campos Lima, filho das vítimas (Foto e Texto: Tomaz Klotzel)

Confira o áudio completo

Foto do trabalho Ousadia, Majestade! de Tomaz Klotzel

A Curva do S é um lugar de tristeza para mim. Porque nós convivemos ali. Eu não sinto aquele lugar ali como a moradia de pessoas alegres. A gente sente a presença, quando chega naquele local – não sei se acontece com outras pessoas, ou se é porque isso não sai da minha cabeça, e acho que só vai sair quando eu morrer mesmo. – Maria Jesuíta de Araújo, sobrevivente do massacre (Foto e Texto: Tomaz Klotzel)

Confira o áudio completo

Foto do trabalho Ousadia, Majestade! de Tomaz Klotzel

A moto saiu da ponte e caiu aqui na frente. O tiro pegou de lado nele. Terminaram de executar ele e depois executaram a Maria. – Zé Rondon, cunhado das vítimas. (Foto e Texto: Tomaz Klotzel)

Confira o áudio completo

Tomaz criou a obra como uma forma de indagar como se constrói uma imagem e sua constituição. Atualmente, está em exposição no Vídeo Brasil, até 2 de fevereiro. 

“A resolução expográfica do trabalho é uma das maneiras de apresentar. A outra é a que apresentei no MARGS, uma palestra com um texto não exatamente explicativo, mas que lida com algumas ideias e questões poéticas. O trabalho é uma coleção de dados que pode ser apresentada de diferentes formas” – Tomaz Klotzel

Por quê Ousadia e Majestade? 

Ousadia era uma expressão que a Maria tinha, ela dizia: “É necessário ousadia para conviver com a floresta”, o que é muito interessante, porque eles enfrentavam grandes madeireiros. Existe uma expressão que é consórcio, quando vários poderes se reúnem nessa violência que visa silenciar, Zé Cláudio e Maria foram assassinados por um consórcio de madeireiros e de outros poderes. Ousadia não era da luta, mas do convívio. A ousadia de ter a coragem de não batalhar. Já Majestade é o nome de uma castanheira centenária, 60m de altura, que está no lote de terras do casal. – Tomaz Klotzel

O Artista

Tomaz ,40 anos,tem bacharelado em Fotografia pelo Senac/SP e se considera um nômade: está onde tem trabalho. Suas andanças incluem São Paulo, Marabá, Buenos Aires, Rio de Janeiro, mas suas raízes estão em Pelotas (RS). O pai assinava a revista National Geographic, cujas fotos o encantavam. A fotografia de guerra era uma de suas aspirações, queria viver coisas extremas e liberar o hormônio da adrenalina.  

Este gaúcho já desgarrado de seu pago levou um tempo até se entender como artista, resultado do trabalho Meteora, no qual fez um cruzamento de investigações sobre o tempo a partir da ativação de ideias como memória, rito e materialidade. “Foi quando eu tive mais contato com a arte contemporânea. Lá eu conheci outros artistas e minha cabeça explodiu”, afirma Tomaz que prefere não delimitar seu trabalho dentro de mídias. “Para mim, nunca fez muito sentido essas divisões (Fotografia, Cinema, Pintura, Música, Poesia), pelo menos na história da arte, século XX, os caras exploravam os limites. Como assim fotografia? Aí eles faziam fotogramas. A fronteira é um lugar específico”, conta o artista. 

O artista também fala sobre ausência. Para ele, as artes visuais sofrem um esgotamento que é do visual, afinal, como podemos fazer uma imagem que seja interessante? Até que ponto podemos trabalhar com ela? “Talvez, assumir uma incapacidade de registro da fotografia, pelo consumo excessivo de imagens algumas coisas se tornam invisíveis”, diz o artista que usa justamente a ausência em seu trabalho Ousadia, Majestade!

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ENTRENÓS exibe produções dos alunos de Moda https://mescla.cc/2019/12/11/entrenos-exibe-producoes-dos-alunos-de-moda/ https://mescla.cc/2019/12/11/entrenos-exibe-producoes-dos-alunos-de-moda/#respond Wed, 11 Dec 2019 19:29:35 +0000 http://mescla.cc/?p=12693 Uma das melhores partes do curso de Moda da Unisinos é ver o aprendizado em sala de aula se tornando realidade. A cada fim de semestre, ocorre a mostra ENTRENÓS, que reúne as produções desenvolvidas pelos alunos durante a disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso II. O evento será realizado nesta quinta-feira (12), às […]

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Uma das melhores partes do curso de Moda da Unisinos é ver o aprendizado em sala de aula se tornando realidade. A cada fim de semestre, ocorre a mostra ENTRENÓS, que reúne as produções desenvolvidas pelos alunos durante a disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso II. O evento será realizado nesta quinta-feira (12), às 19h30min, no oitavo andar do prédio TEDU da Unisinos Porto Alegre.

A noite também vai contar com os trabalhos produzidos em parceria com os integrantes do Projeto Tarin nas disciplinas de Ateliê de Projeto V e Desenvolvimento de Coleção.

Confira alguns dos trabalhos da mostra ENTRENÓS: 

Transtorno – Angelix Borsa

Coquetel molotv têxtil para Trans-Humanos ciberrevolucionários. (Foto: Divulgação)

Nosso Infinito – Marcela de Bettio

Transitante entre céu e terra, essa coleção simboliza um novo começo. um respiro, um afago. Da simplicidade fez-se arte e do imperfeito, poesia. (Foto e texto: Divulgação)

Iridescência – Larissa Santos

Criando uma marca de moda para o futuro, onde sugerimos novos processos de criação e comunicação para uma coleção de moda conceitual. (Foto e texto: Divulgaçã)

SHADES – Nicolas Machado

O conceito através das sombras. (Foto e texto: Divulgação)

Amor Imperfeito – Marieli Stürmer

A coleção que mostra a beleza na imperfeição sob o olhar wabi-sabi. (Foto e texto: Divulgação)

E Deus Criou a Mulher – Fernanda Scott

A coleção inspirada na atmosfera da obra de Roger Vadim, no saudosismo e nostalgia da Retrotopia: o feminino como afirmação da força e presença da mulher Hipermoderna. (Foto e texto: Divulgação)

Reativo – Keila Ferreira

Esta coleção buscará reações de outros homens e da sociedade de forma positiva, procurando provocar um despertar, que os homens podem ser mais coloridos, estilosos, sem afetar sua masculinidade. (Foto e texto: Divulgação)

Fauna e Flora Brasileira – Samanta Goldim

Desenvolvimento de uma coleção de chapéus para eventos e ocasiões especiais, tendo como inspiração a fauna e flora brasileira, para trazer uma brasilidade à um produto pouco utilizado no Brasil. (Foto e texto: Divulgação)

Moda Fitness Para Mulheres Plus Size – Priscilla Müller

Coleção de moda fitness desenvolvida para mulheres com sobrepeso, buscando espaço para a diversidade de tamanhos dentro do ramo fitness. (Foto e texto: Divulgação)

Libertad – Mariele Pertile

A coleção Libertad busca transmitir o empoderamento feminino a partir da relação da artista Frida Kahlo e do movimento feminista. (Foto e texto: Divulgação)

Be Real – Rúbia Witeck

Ser real. Estar no tempo presente. Pertencer-se. Diversificar-se. Ser si própria. Por amor. A si. (Foto e texto: Divulgação)

RAGNAR – Maira Araújo

A coleção Ragnar é inspirada no personagem Thor, da marca cosplay HEM’S, incentiva a liberdade de sonhar e viver momentos deste mundo lúdico, onde você pode ser o que quiser. (Foto e texto: Divulgação)

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