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Semana de Arte Moderna de 1922: prestes a completar cem anos, marco cultural ainda trás possibilidades de reflexão
"Primeira reportagem da série discute se o evento, que abriu as portas para o Modernismo no Brasil, proporcionou um legado para o país. O movimento engajou mulheres? Nesta exploração, professoras e pesquisadoras mostram direções para este percurso "
Paola de Bettio Torres


A Semana de Arte Moderna de 1922 foi o evento que marcou o começo do  Modernismo no Brasil e representou a virada de chave na sociedade brasileira, que viu a possibilidade de falar sobre si, tanto no campo artístico como no social e político. 


Prestes a completar cem anos, esse momento precisa ser revisitado: “O conceito que se destaca no Modernismo é a Antropofagia, o fato de efetivamente eu entrar em contato com outras culturas, de eu trazer esses elementos, não negar eles. Eu acho que isso é crucial, dar a eles uma nova perspectiva. É ‘engolir’ e depois ‘botar para fora’ alguma coisa que seja totalmente brasileira”, destaca a professora do curso de Letras da Unisinos, Márcia Lopes Duarte.


Olhar para o legado do movimento nas mais diferentes áreas da indústria cultural e, ao mesmo tempo, enxergar novos ângulos e possibilidades para essa reflexão, é o desafio de duas reportagens que o Mescla produziu. Para isso, além de Márcia Lopes Duarte, foram convidadas a professora de Letras Rita Lenira de Freitas Bittencourt (UFRGS) e a doutora em História da Arte Thiane Nunes. Nesta primeira reportagem, mostraremos as marcas deixadas pela Semana e a grandiosidade do Modernismo brasileiro; na segunda matéria, seguiremos uma investigação: onde estavam as mulheres modernistas da Semana de 22? 


(Para ler esta reportagem, te convidamos a ouvir o álbum “Tropicália ou Panis et Circenses“, de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes, Tom Zé e Nara Leão)


Apesar de ter sido anunciada como “Semana” e o catálogo indicar que ocorreria entre os dias 11 e 18 de fevereiro, foi ao longo de três dias (13, 15 e 17) que aconteceu o evento, no Theatro Municipal de São Paulo (Imagem: Reprodução)



Não foi apenas a Paulicéia que ficou desvairada

O evento foi formado por palestras de escritores, apresentações musicais, exposições artísticas e leituras de poemas. Já no segundo dia, a leitura de “Os Sapos”, de Mário de Andrade, realizada por Ronald de Carvalho, foi acompanhada de vaias, urros e batidas de pé. Contam que quanto mais o público reclamava das apresentações, mais Oswald de Andrade, um dos seus principais idealizadores, sorria e comemorava: a intenção era provocar, e as armas eram a ironia, o deboche, a irreverência e a contestação em forma de linguagens artísticas.


Para Márcia, 1922 fez fervilhar o espírito provocador e viabilizar o Modernismo brasileiro. Imerso a tantos fatores, o movimento é a representação de um marco, porque pincela (desculpem a repórter pela analogia), ao longo do século XX, novas possibilidades de falar, de criar e até de viver, influenciando desde o fazer artístico até as discussões políticas e de hábitos sociais. 


“Tanto para a literatura como para a cultura brasileira em geral, é o Modernismo que realmente vai apontar novas possibilidades, porque, até aquele momento, existia uma perspectiva muito ‘europeizante’”, comenta Márcia. “A grande questão do Modernismo é a Antropofagia, proposta pelo Oswald, e que eu acho que está muito evidente na obra do Mário de Andrade. A questão não é se distanciar totalmente das ideias europeias, não é romper, mas é trazer elas, deglutir e transformar em algo que faça sentido para o Brasil”, completa a professora.



O movimento surge em meio a uma eclosão política e social, que culminou com o fim de um período, a República do Café com Leite. Esse é um contexto de renovações almejadas. Além disso, esses movimentos inovadores são influenciados pelas vanguardas europeias. Diversas questões sociais surgem, algumas estouram, o Tenentismo logo encabeçaria a Coluna Prestes, que mais adiante resultaria na eleição de Getúlio Vargas. Na arte, o Movimento Antropófago grita a necessidade de se repensar os signos da comunicação, seja ela artística ou social. Fervilhava mundo afora manifestações sociais, novas tecnologias sendo apresentadas, o feminismo dando seus primeiros passos nas lutas políticas, a belle époque. Tudo culmina em um sentimento a ser devorado e digerido: a Antropofagia, que brota de todos esses eventos.



Trecho do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, em 1928. A digestão do mundo ao redor nutria essa renovação brasileira, que pula os limites de um movimento apenas artístico, e se consolida como marca permanente e relevante no nosso país (Imagem: Marcela De Bettio)



A árvore cresceu cheia de frutos 


Nos últimos anos, críticas ao movimento e, em especial, à Semana de 22, têm ocupado lugar, uma vez que o movimento que fala em celebrar o Brasil e cultuar nossa diversidade, sem erudição e estrangeirismo, foi encabeçado por homens héteros brancos da elite de São Paulo e do Rio de Janeiro. A República do Café com Leite, tão criticada pelos modernistas, se mostrava ali, com o eixo geográfico da elite brasileira ditando os rumos (e financiando o próprio movimento). O argumento é válido, mas para melhor prosseguir no fluxo da história, não podemos desprezar ou ignorar o grande impacto que esse momento teve para nossa história. 


“Eu sei que tem toda essa questão de ter sido algo feito pela elite cafeeira de São Paulo, eu não sou ingênua de achar que foi um movimento popular. Mas em termos de definição da nossa cultura, eu acho que é extremamente importante. É por causa desse Modernismo que a gente tem autores como Graciliano Ramos, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Clarice Lispector”, observa Márcia.


O cartaz pintado por Di Cavalcanti para a Semana de 22 sugere que da árvore em crescimento e com raízes aparentes brotaria uma nova forma de pensar a cultura brasileira (Imagem: Reprodução)


Perspectiva de Brasilidade 

Para Rita Lenira de Freitas Bittencourt, professora de Literatura Comparada da UFRGS, esse Modernismo inicial é uma espécie de teorização sobre uma nova linguagem, que vai permitir, anos depois, o surgimento do Tropicalismo, de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, além do Cinema Novo, a poesia concreta, ad infinitum. “Onde é que se consolida realmente esse pensamento modernista? Bem mais tarde, lá na Tropicália e no Cinema Novo. Aí que vão ter frutos desse “pensamento antropofágico”, essa questão voltada para uma cultura nacional, para o uso da comunicação de massa, também, que aqui era muito frágil.”


Márcia reitera que todo o fazer cultural do século foi influenciado pelo que surge em 1922: “Olha só toda ‘essa coisa’ do Cinema Novo. Ele deve muito ao Modernismo, assim Glauber Rocha não seria possível sem o movimento modernista. Também Caetano Veloso. Então, é assim, acho que esses autores sabem o legado do Modernismo, e isso é evidente.”


“Macunaíma”, de Mário de Andrade, e a representação do anti-herói, é uma história subversiva, que rompe com a lógica capitalista. A preguiça do personagem é, de certa forma, um “tapa na cara” da sociedade produtiva, do moralismo dos costumes tradicionais. Não é à toa que, anos mais tarde, em 1969, Joaquim Pedro de Andrade transformou o clássico em filme, e acabou sofrendo diversas imposições de censura pela ditadura militar. Alguns anos antes, em 1967, Zé Celso Martinez montou a primeira encenação nos palcos de “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade, escrito 30 anos antes, também em tempos ditatoriais. Em 1937, o Brasil vivia sob o Estado Novo de Vargas. A peça estreou em vésperas do AI-5, renasceu o espírito anárquico e paródico, e coube bem naquele outro contexto.


Cartaz do filme “Macunaíma”, de 1969
(Imagem: Reprodução)



Para Rita, a Semana de 22 “encena” esses movimentos, sugerindo e lançando ideias, que vão brotar em algo genuinamente brasileiro alguns anos depois. “Ali se espalha uma discussão de que as artes no Brasil deveriam se atualizar em relação ao que estava acontecendo em outros lugares. Se repensar, porque, na verdade, o Modernismo é o repensar do próprio fazer. Existia uma pintura muito acadêmica, existia uma literatura parnasiana, um romance muito preso às normas do romance europeu. Então, quando o Oswald (de Andrade), o Mário (de Andrade) e o Raul Bopp propõem um outro tipo de escrita e de literatura, eles estão pensando não só em atualizar as artes no Brasil e acertar o pé com o resto do mundo, mas também pensar uma arte nacional. Dizer ‘a gente tem essa herança europeia, colonizadora, mas a gente tem uma realidade diferente dessa’. Então, a gente tem que incluir isso na dicção de uma literatura que se quer nacional”, explica.

Historiografia misógina?


Mas, naquela época, o movimento encontrou um núcleo muito conservador e reacionário. Uma das primeiras artistas a ser execrada foi Anita Malfatti, chamada de louca, paranoica, tendo seus traços comparados à insanidade ou ao de uma criança por ninguém menos do que Monteiro Lobato. “Paranóia ou Mistificação” foi publicado no jornal Estado de São Paulo em 1917 detonando Anitta (e todos os modernistas), uma vez que, para o escritor de “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, a arte deveria representar o real e o belo. Malfatti morou alguns anos em Berlim. Lá, estudou na Escola de Belas Artes, onde foi apresentado ao trabalho de diversos ícones da pintura expressionista.


Apesar de não ser a única artista expressionista no Brasil, caiu em Anita o peso da crítica. Porém, são poucos os nomes de artistas mulheres modernistas que lembramos. Muitas foram ridicularizadas, taxadas de loucas, proibidas, censuradas ou, então, apagadas da história. A doutora em História da Arte, Thiane Nunes, conta que as mulheres estão acostumadas a serem representadas de uma forma, mas não serem representadas quando elas são as produtoras. “Elas estão na arte sempre representadas como as mulheres nuas, posando etc, mas enquanto produtoras imagéticas culturais, meio que somem”, avalia. Thiane escreveu a tese “Misoginia Modernista e invisibilidade da mulher artista”, em que investigou a história de 23 mulheres artistas, em contexto mundial.


A historiografia falhou? Acompanhe aqui, em breve, a segunda parte deste Especial, em que o Mescla escutou estas três pesquisadoras para compreender onde estavam as mulheres nesse movimento.


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