wp-mailinglist domain was triggered too early. This is usually an indicator for some code in the plugin or theme running too early. Translations should be loaded at the init action or later. Please see Debugging in WordPress for more information. (This message was added in version 6.7.0.) in /home/agexcom/mescla.cc/wp-includes/functions.php on line 6260The post Em terra de Twitter, quem reina é o bot appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>Um estudo de 2012 da International Data Corporation (IDC), intitulado “A Universe of Opportunities and Challenges” (Um universo de oportunidades e desafios – livre tradução), traz a estimativa de que em 2020, o volume de dados na internet terá crescido até alcançar a margem de 40.000 Exabytes – equivalente a 40 trilhões de Gigabytes. Outro estudo, este da IBM, criou um infográfico que apresenta outro dado sobre 2020: 35 zettabytes (4,13 trilhões de gigabytes) serão gerados anualmente a partir dessa data.
Todos esses números indicam uma coisa: o repórter que atua com jornalismo de dados nunca deixará de ter trabalho. Isso não precisa ser um problema, ainda assim, enquanto o profissional interpreta toda essa informação, uma ajudinha é sempre bem-vinda. E essa ajuda pode se materializar na forma de um Bot.

Como todo Bot, Robotox, Fátima e Rui nasceram da criatividade de três mentes humanas. O primeiro, das ideias do designer e desenvolvedor, Babak Fakhamzadeh. Ela, do consultor de dados e tecnologias, Pedro Burgos. O último, do editor e cientista de dados, Guilherme Jardim Duarte.
Bots são robôs. O termo é uma abreviação da palavra em inglês (robot). Mas eles não têm corpo físico, por isso não se assemelham àqueles figurões do cinema, como o Exterminador do Futuro ou C-3PO. Bots existem no mundo virtual, na grande rede. Pode parecer estranho, mas as chances de conviver com um Bot, hoje, são grandes – e as chances de pelo menos um deles viver no teu smartphone talvez sejam ainda maiores. Alguns dos Bots famosos pelo mundo são Siri (Apple), Cortana (Microsoft), Alexa (Amazon) e, para abrasileirar a competição, tem a Magalu (Magazine Luíza).
É complicado encontrar uma definição exata para o que é um Bot. Se jogar essa palavra no dicionário Informal ou no Aurélio, as respostas não são exatamente satisfatórias:


Mas é possível, sim, explicá-los. Bots são robôs programados para cumprir uma função. Essa função pode ser conversar com alguém para cumprir um objetivo (caso da Siri), atender um cliente (Magalu) e analisar dados e informações (Fátima e Rui). Eles substituem o ser humano em tarefas extremamente mecânicas ou em algum trabalho que levaria muito tempo para ser feito, afinal a capacidade processual e a agilidade de um bot supera a humana com facilidade.
Fátima e Rui são dois exemplos de como o jornalismo brasileiro pode se apropriar de técnicas pertencentes a outras áreas, e utilizá-las para si. A dupla atua no Twitter, uma rede social que permite acesso parcial a sua API. API significa Interface de Programação de Aplicativo. Essa interface permite que programas distintos conversem uns com os outros – como se cada um deles tivesse um número de telefone e a API é o sinal. Nessas conversas, são trocadas informações.
Rui e Fátima são programas que acessam o Twitter através da API. É dessa maneira que eles podem utilizar bancos de dados, comparar informações e publicar na plataforma – ou até conversar com os perfis que dela fazem parte.
Do trio de bots, a iniciativa mais recente foi a criação do Robotox. Ele surgiu de uma parceria entre a Agência Pública e a Repórter Brasil. Ele publica no Twitter, diariamente, todas as vezes em que o governo federal concede liberação para uso de um novo agrotóxico.

Robotox é estrangeiro, foi criado em linguagem PHP (Hypertext Preprocessor) por um holandês que reside no Brasil há mais de 3 anos. Babak Fakhamzadeh tem 45 anos, o português carregado de sotaque (até na escrita), é mestre em ciências (Masters of Science, no original) em matemática e atua como freelancer em design e programação. Ele é responsável por quase todas as “coisas online” da Pública.
Segundo Babak, o Robotox surgiu de uma necessidade. “Queríamos fornecer acesso fácil a informações sobre quais agrotóxicos são autorizadas para uso na indústria alimentícia no Brasil”. Ele também ressalta que essas informações são públicas, mas não possuem fácil acesso.

O trabalho do bot é unicamente publicizar essas informações. Ele não faz value statement (declarações de valor, em tradução não literal).
“Estamos preocupados com a extensão em que as agrotóxicos podem ser usadas no Brasil. As informações publicadas pelo bot tornam mais fácil para aqueles que estão interessados investigar mais, jornalistas ou não”, conta Babak.
Robotox não interage com os usuários. Algumas vezes ao dia, ele verifica o Diário Oficial da União e analisa os textos disponibilizados. Cada um desses processos leva, em média, uma hora. O Twitter, de acordo com Babak, não apresenta dificuldades. O maior problema do bot é a análise de linguagem (Natural Language Processing), pois é dessa maneira que o robô interpreta as publicações governamentais.


“Acho que a maior conquista do bot é que ele reduz a barreira para o público, para participar do debate sobre o uso de agrotóxicos no Brasil”, comenta Babak.
Um dos grandes desafios de agências de checagem é manter um diálogo com perfis que compartilham notícias falsas. Foi esse o pensamento que Pedro Burgos teve enquanto trabalhava com a API do Twitter. Com isso em mente, ele iniciou um projeto que, no futuro, criaria a Fátima Bot.


A Fátima é integrante da Aos Fatos, uma das maiores agências de checagem de informação do país. Cofundadora do site, Tai Nalon conheceu Pedro em um encontro sobre jornalismo de dados feito pela Google. Tai se interessou pelo projeto do Pedro e assim teve início a parceria.

Para entender como a Fátima funciona, é preciso compreender a Aos Fatos. Além das checagens, a agência possui debunkings (não existe uma tradução exata do termo para o português, mas a palavra simboliza o ato de desmentir boatos). A função da agência é checar e desmentir informações, armazenando os resultados em seu próprio site. Essas checagens servem para refutar informações falsas compartilhadas por usuários no Twitter. A ligação entre o site e a rede social é a Fátima.
Segundo o próprio Pedro, uma maneira simples de entender esse bot é pensar numa planilha do Google Sheets (que é o irmão do Microsoft Excel, mas de mães diferentes).

Em uma das colunas estão os links das notícias falsas, na outra estão os debunkings. Tendo acesso a essas informações, Fátima vasculha o Twitter de hora em hora procurando por perfis que tenham compartilhado pelo menos um dos links da primeira coluna. Quando encontrados, a Fátima responde a publicação avisando o usuário sobre a mentira, além de acrescentar na resposta o link para a informação apurada.
Uma das especificações do bot é que Fátima responde pessoas que tenham um número considerado grande de seguidores. Um dos motivos para isso é que se a bot interagisse com centenas de usuários num curto espaço de tempo, ela poderia ser considerada um spammer.
Spam é uma palavra inglesa cujo significado é: receber uma mensagem eletrônica sem ter solicitado a mesma. Spammer é o nome dado a quem envia spams. Caso isso ocorresse com a Fátima, o perfil da bot seria bloqueado temporariamente ou suspenso permanentemente.
Apesar das constantes evoluções, Fátima lida com algumas dificuldades. Uma delas é que a bot não faz distinção entre um usuário que compartilhou uma notícia falsa daquele que compartilhou o link para avisar outras pessoas sobre a falsidade da notícia. Outra dificuldade está na atualidade dos links. Se a coluna de debunks e checagens não for atualizada com frequência, Fátima permanece corrigindo antigas mentiras.
Fátima é um bot que evolui com frequência, avanços esses que são resultado do empenho de Pedro (que tem grandes expectativas para a bot):
“Temos várias coisas planejadas. Abrir o código, ou ao menos trabalhar com outros parceiros que possam usar a tecnologia (já temos conversas para fazer isso em outros países da América Latina). Evitar que ela passe muito tempo corrigindo as notícias mais velhas (como faz agora). E no futuro, ao invés de buscar só por links de notícias falsas, buscar por frases, imagens, etc.”, comenta Pedro
Rui e Fátima são bots e foram criados com a mesma linguagem de programação – Python, mas Rui Barbot tem diferenças crônicas quando comparado à Fátima. Ele não procura notícias falsas, ele atua na direção oposta da robô de Aos Fatos O Rui não está preocupado com as questões atuais, seu negócio é denunciar processos judiciais que estão esquecidos. Quanto mais relegados, mais ele gosta.

Guilherme Duarte é responsável pela criação do bot, Felipe Recondo pelo conceito. A inspiração para o robô vem de Rui Barbosa de Oliveira que, entre todos os títulos, também possui o de jurista. É dele uma das frases que simboliza o trabalho do bot.

“O Rui consiste na ideia de que o tempo que processos judiciais levam é um fator importante para entender o Judiciário”, nas palavras de Guilherme. Atuar com o judiciário faz parte da rotina tanto do robô quanto do local de trabalho. O JOTA é um site jornalístico que atua na cobertura do Supremo Tribunal Federal (STF).
O STF abriga ações que foram propostas há anos e ainda não foram analisadas. O Rui faz a vigília e anuncia quando uma dessas ações atinge uma marca temporal significativa. Podem ser seis meses, um ano ou até registrar toda vez que a ação faz aniversário. O bot também alerta os repórteres do O JOTA. Com essas informações, os jornalistas produzem matérias específicas sobre cada caso.



Rui acessa o banco de dados do Supremo Tribunal Federal e monitora os processos lá armazenados. O JOTA não força o bot a analisar todos os processos, pois são milhares criados todos os dias. O robô foca em duas mil ações consideradas relevantes e ele consegue fazer a varredura delas em menos de cinco minutos.
Em termos de funcionamento, o Rui aparenta ser mais simples que a Fátima. Ele não se preocupa em interagir com os perfis no Twitter. O robô é focado em publicar as descobertas na timeline da rede social.
Assim como Fátima, Rui também olha para o futuro. Segundo Guilherme, existe uma meta para aumentar a capacidade de observação do robô, fazendo com que ele atue em bancos de dados de outros tribunais, não só do STF.

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Nas redes sociais, a cena era de seriado apocalíptico. Mas, as estradas vazias não anunciavam o fim do mundo. Era uma greve no principal setor de transportes do país, que cruzou os braços durante dez dias. Empunhando bandeiras do Brasil, manifestantes fizeram uma série de reivindicações, entre elas, pedidos de intervenção militar no Estado e de socorro ao alto escalão do Exército Nacional.
A greve ocorrida em maio passado provocou pane geral no governo, no país e na mídia, que viu seu trabalho questionado na mesma proporção que o movimento se estendia. Em 2013 e 2015, os caminhoneiros também se mobilizaram, mas, em 2018, pegou de surpresa uma imprensa desacreditada na força da categoria. Desse modo, o movimento demorou para ser percebido pelo jornalismo e, quando foi notado, foi apresentado a partir de suas consequências, e não das causas.
No dia 16 de maio, cinco dias antes da paralização, em ofício enviado ao Palácio do Planalto, e revelado pela publicação online The Intercept, os caminhoneiros avisaram: “vamos parar o Brasil”. Encaminhado por entidades ligadas à categoria e endereçado a diversos ministros e ao próprio presidente da República, o documento encontrou as gavetas do congresso. No dia 21, sem respostas, de fato, eles pararam.

A greve teve um aliado poderoso e utilizado por mais de 120 milhões de brasileiros: o WhatsApp. O aplicativo foi crucial para a organização dos manifestantes que colecionavam grupos com lideranças, repassavam fotos e textos patriotas, áudios narrando as paralisações e mensagens de supostos militares anunciando uma intervenção militar iminente. Toda essa carga de informações, muitas vezes recheadas de notícias falsas, foi uma pedra no sapato dos jornalistas que cobriam o acontecimento.
A doutoranda em Comunicação e professora de Jornalismo da Unisinos Luciana Kraemer questionou o fato do aplicativo ser capaz de, ao mesmo tempo, tornar acessível e omitir a informação de todos. “O WhatsApp nem é uma mídia que a gente possa monitorar, quer dizer, claro que pode, se tu tá recebendo. Mas, as mídias sociais, de notícia, que até então eram mais conhecidas como sendo de notícias, como o Facebook, o Instagram, o Twitter, eles ainda preveem um monitoramento, mas e o WhatsApp?”, indagou.

A imprensa também demorou para notar o que acontecia nos smartphones dos manifestantes. Noticiando o modo como os caminhoneiros estavam se organizando, a primeira reportagem foi publicada dias depois do início da greve, o que, para Leandro Demori, editor executivo do The Intercept, foi um erro das redações. “É o mínimo alguém que vá nos pontos de greve e converse ‘como vocês se organizaram, como surgiu a ideia?‘ Um negócio bem básico que deveria ter sido feito no primeiro dia, mas que de fato foram feitas lá no final”, comentou.
No dia 21, enquanto os caminhões começavam a parar pelas estradas, os jornais impressos do país não deram espaço para o movimento. A demora na reação da imprensa e a consequente cobertura do evento feita por ela geraram críticas nos mais diversos meios. A ombudsman da Folha de São Paulo disse que o jornal não conseguiu responder quem, de fato, parou o país. O jornalista gaúcho Carlos Wagner afirmou que a mídia forneceu aos leitores informações imprecisas, “justamente no momento em que ele precisava saber o que estava acontecendo para se organizar”, diz.



Quem acompanhava a greve de casa, via pela televisão três pontos principais de entradas ao vivo dos repórteres: postos e abastecedoras de combustível, supermercados e feiras e o Palácio do Planalto. Nos jornais impressos e internet, a lógica se repetia, assim como as informações e fontes utilizadas.
“Quando acontece um negócio desses, no começo é muito difícil ter uma leitura exata do que fazer. Eu acho que a imprensa tem algumas horas desde o início de um evento traumático em que ela realmente precisa ajustar o foco, é algo normal”, opinou Demori. O The Intercept, veículo em que o jornalista atua, não trabalhou com a cobertura ponto a ponto da greve dos caminhoneiros. Ao contrário, optou por entender o impacto do acontecimento e, após, entrar com matérias de análises e, como no caso do ofício divulgado, informações exclusivas.
Para Demori, a mídia ficou muito presa nos discursos oficiais e o que se viu foi uma cobertura voltada a falas e posicionamentos dos ministros e presidente. “Muitas vezes (a imprensa) acaba caindo em várias armadilhas, intencionais ou não, e compactuando com o discurso oficial. Isso ficou claro quando o Temer anunciou o fim da greve. Ele juntou alguns representantes de entidades lá no palácio e monocraticamente anunciou que a greve acabaria, e claramente isso não aconteceu. Então eu acho que falta senso crítico em relação a isso”, contou.
Luciana Kraemer apontou e criticou uma imprensa pautada pelos poderes. “A agenda dos veículos, tirando os independentes, tem sido a dos governos, o que o ele faz, deixa de fazer ou tá fazendo. Então, quando os poderes fazem, dizem ou agendam algum ato ou ação, aí a imprensa vai atrás. Acho que a imprensa tá muito reativa e não pró ativa”.

Quem acredita que a greve dos caminhoneiros tenha sido um evento complexo para se acompanhar é o professor de Jornalismo da Unisinos Felipe Boff. Para ele, os jornalistas não são figuras desligadas do restante da sociedade e sofreram dos mesmos efeitos do restante da população. Mas, apesar de tal condição, ele não poupou críticas ao trabalho da imprensa na cobertura o evento.
“Percebi que, no primeiro momento, não se mostrou tanto o caminhoneiro. Quando eclodiu a greve, ele não era o principal da cobertura, e sim, imediatamente, se partiu para cobrir os efeitos da greve. A imprensa procurou ouvir o caminhoneiro a partir do momento em que viu que aquela liderança que negociava com o governo não representava de fato a categoria. Então, foi se tentar descobrir quem são essas pessoas que estão protestando e o que elas querem”, comentou o professor.
A pesquisadora e professora da Unisinos, Dra. Beatriz Marocco avaliou o discurso da mídia como “alarmista”. Ela apontou as manchetes voltadas para o desabastecimento de combustíveis, alimentos e medicamentos que predominaram as reportagens. “O discurso parece voltado a amedrontar as pessoas em relação ao desabastecimento nos setores de alimentação e hospitalar. Há um predomínio do discurso oficial”. Beatriz ainda bateu o martelo dizendo que “no Brasil, mídia e governo são irmãos siameses”.
A cobertura da greve não se diferenciou drasticamente de um veículo a outro, dentro da imprensa mais tradicional. De modo geral: sobraram oficialismos, faltaram lados a mostrar. Na televisão, repórteres se revezavam em entradas ao vivo, e, por diversas vezes, com a função de repetir informações.
“A repetição é característica da cultura de massa, na qual o jornalismo também se inclui. A repetição da informação tem função de redundância para que seja assimilada e chegue a todos. Há, também, uma repetição na forma, que faz ouvir sempre as mesmas fontes”, explicou a pesquisadora Dra. Christa Berger. Ela acredita que tal prática tenha, de fato, criado um efeito alarmista na população, enfatizando os efeitos da greve e criando uma espécie de caos social.
Tanto Christa, quanto Beatriz concordam, quando afirmam que a mídia criou um alvoroço na população, com a chamada Teoria Hipodérmica, conhecida no jornalismo. A teoria afirma que uma mensagem enviada para um público afeta a todos os indivíduos da mesma maneira. O que, neste caso, explicaria o fato de que a imprensa teria inflamado a população quanto a falta de abastecimento, criando filas gigantescas nos postos de gasolina e supermercados.
Na opinião de Felipe Boff, os veículos de comunicação não têm o poder de determinar o caos, o que não significa que, em algum momento do passado, não o tenha feito. “Talvez nos primórdios essa teoria tivesse mais sentido, não hoje, com a variedade de canais de informação que nós temos. Não vejo que a imprensa disseminou o caos, eu acho que a ela noticiou. O grande cuidado que nós precisamos ter é sempre a informação de contexto, mostrar que isso aconteceu ali e não necessariamente tá acontecendo em todo lugar”.
Luciana disse que a mídia pecou em não ouvir os manifestantes, mas que isso é um reflexo histórico do distanciamento dos profissionais com os ativistas dos movimentos sociais. Segundo ela, o jornalismo é uma profissão conectada à sociedade, e que, por isso, poderia trazer abordagens diferentes da mobilização sem depender do ponto de vista do governo.
Beatriz sentenciou que o enquadramento, a escolha do que mostrar, por parte da mídia, é, por si só, uma forma de manipulação das informações. Christa não retirou a responsabilidade dos veículos, mas afirmou que há a ausência de recepção crítica por parte da população, para que possa se contrapor a esse efeito do enquadramento midiático.
Boff acredita ser um romântico do jornalismo ao afirmar que o mal das redações é quando o profissional não sai para a rua e acaba realizando um trabalho pelo telefone, e-mail e, pela própria ironia do movimento, pelo WhatsApp. “É o que vai diferenciar mais o trabalho do jornalista do trabalho de quem simplesmente joga a informação na rede. O jornalista é o cara que tem a missão de ir lá, de ir até o fato e ver se tá acontecendo, conversar com as pessoas olho no olho, sabe? As outras pessoas não têm esse compromisso, né?”.
Tanto os professores Luciana e Boff, quanto as pesquisadoras Christa e Beatriz apostam na formação dos profissionais para criar lógicas diferentes dentro da imprensa tradicional. Beatriz disse que as redações são majoritariamente brancas, e que, portanto, é difícil mostrar um lado que não o normativo destas pessoas. “Uma boa formação do jornalista pode mudar esta prática. As cotas são outro fator importante, porque pode tirar da classe média branca o predomínio nas redações jornalísticas”, disse.

Luciana é, entre outras, professora das disciplinas de Jornalismo Investigativo e de Telejornalismo na Unisinos. Ela apontou que o trabalho realizado dentro das salas de aula é o de justamente tentar desmistificar o jornalismo decoratório, de oficialismos. “Eu trabalho muito intensamente essa busca de pautas que não são agendadas pelo poder. Desfazer esse olhar do mais importante ser o que os poderes estão dizendo. Acho isso fundamental”.
Demori falou que existem muitos profissionais excelentes na imprensa, mas que muitas vezes eles ficam presos as lógicas destas mesmas redações. “Cada uma dessas grandes organizações de mídia tem seus papéis bem estabelecidos no poder, então é injusto com o jornalista. Se os chefes de redação falassem para os seus jornalistas ‘nada de hard news, vamos fazer uma cobertura fod*, vamos ver o que a gente consegue trazer’. Temos jornalistas muito bons por aí, esse jogo não é justo”, afirmou.
Boff também falou sobre as dificuldades da imprensa e o quanto isso pode ter afetado o trabalho na cobertura desde evento. “Não é que a imprensa não saiba disso, ela sabe, por outro lado, ela tá sendo muito pressionada com os custos de produção do jornalismo. As pessoas não querem pagar por informação. Aí, como tu vai colocar um repórter na rua se não tem receita pra isso? A imprensa deixa de fazer o trabalho completo, em boa parte, porque ela não tem condições de fazer”, alegou.

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]]>Formada em 2014 em Jornalismo, a jovem largou o emprego de jornalista em uma empresa e, no ano seguinte, foi aos Estados Unidos realizar o sonho de trabalhar no exterior. Embarcou para a cidade de Washington com o marido e a cachorrinha de estimação. “A mãe ficou, a cachorrinha foi comigo”, brincou.
A coragem para fazer a mudança veio devido ao currículo que criou durante a vida universitária. Quando morava em Porto Alegre fez estágios como assessora de imprensa e trabalhou no escritório de comunicação de uma empresa americana. Ali pôde praticar a escrita em inglês, além de ter contato com os funcionários da sede, nos Estados Unidos.
A experiência, porém, não lhe garantiu uma vaga em solo americano. Luísa embarcou sem garantia de vaga e em busca de uma nova oportunidade. Ao chegar em Washington, iniciou a procura em empresas locais. Procurou oportunidades que se encaixassem com seu perfil e de acordo com as experiências dela na área.

Ela conta que procurou vagas em sites como o LinkedIn e nas páginas das empresas. “É muito comum as empresas divulgares vagas em seus websites“, afirma. Além do tradicional currículo, com formação e experiências, ela fala que para se candidatas às vagas, é preciso enviar uma carta de apresentação, contando como o candidato se encaixa na função.
O primeiro emprego na capital norte-americana foi na instituição Alliance to Save Energy. Luísa deu dicas de como conseguir emprego e contou os desafios de competir com os nativos no mercado de trabalho. “A primeira entrevista é geralmente por telefone, o que dificulta. Eu pratiquei muito o meu inglês, falava alto, o dia inteiro, as frases que achava que fosse precisar”, lembra.
Ela afirma que os brasileiros têm um diferencial, pois conseguem estudar na parte da noite e conciliar faculdade e trabalho, assim, chegam no mercado com mais experiência que os americanos. Atualmente, Luísa é coordenadora de mídias digitais na The Brookings Institution, uma organização de políticas públicas sem fins lucrativos. Lá, ela trabalha com estratégias sociais, relatórios, infográficos e vídeos.
A Brookings é uma instituição que conta com mais de 300 pesquisadores, que têm a missão de investigar e sugerir políticas públicas a nível local, nacional e global. Luísa contou com entusiasmo sobre sua rotina de trabalho na Brookings e compartilhou algumas ferramentas que utiliza diariamente e as quais considera indispensáveis para o trabalho. O site de layouts “Canva“, e o para obtenção de fotografias de domínio público, Unsplash, estiveram na lista, além dos mais conhecidos como Photoshop e Indesign.
Uma das curiosidades trazidas por Luísa é em relação à diferença entre ao público consumidor de redes sociais nos dois países: “No Brasil utilizamos muito o Facebook e havia a preocupação das reações na rede. Nos estados Unidos, políticos e empresários utilizam o Twitter como forma de interação com o seu público”.
Alunos de diferentes cursos da Comunicação lotaram o auditório e puderam tirar dúvidas sobre a atuação de suas áreas em específico. Luísa desmistificou a ideia de que é impossível conseguir emprego na área de formação fora do Brasil. Ela deixou a dica de que basta dedicação e foco para atingir objetivos.
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Ligado na história e principalmente nas tendências lançadas todos os anos no festival, o aluno do curso de Comunicação Digital da Unisinos Shahin Nasrabadi viu no curso de extensão e intercâmbio para o SXSW, promovido pela Unisinos, a oportunidade de ver de perto o que há de novo no mundo da tecnologia. “Quando fiquei sabendo que ia rolar esse curso, já fiquei pilhadão. É um lugar para ver onde o futuro tá indo e de que forma a gente pode se preparar para direcionar nossas ideias e pensamentos para essas tendências”, contou. O próximo passo foi programar o quesito financeiro e arrumar as malas.

Foram centenas de eventos integrando a programação do festival e acontecendo simultaneamente no SXSW. São diversos pontos da cidade recebendo atrações, o que exigiu muita organização por parte dos participantes. Apesar de integrar um grupo de alunos e professores, Shahin comentou que é preciso pensar em uma organização “por conta”, focando nos interesses pessoais de cada um. “Muitas vezes o pessoal do grupo se dividia, cada um ia para uma palestra ou painel diferente e depois a gente trocava uma ideia”
Além da participação efetiva nos painéis e discussões, a troca de ideias nos bastidores proporciona muita informação e troca de conhecimento entre os participantes. No depoimento de Shahin não foi diferente. Ele contou que, apesar da organização divergente de cada um, rolou muita conversa sobre os tópicos abordados. “A gente conversava a respeito do que viu, previsões para o futuro, se é assustador ou não. Enfim, foi muito bacana essa troca de experiências com a gurizada”.

A bagagem do estudante voltou para o Brasil um pouco mais pesada do que foi, e não é culpa dos brindes e compras feitas por lá! O festival que lançou empresas como o Twitter, Airbnb e Wikipedia, foi uma fonte inesgotável de conhecimento e é este aprendizado que volta para casa com ele. “A cada palestra ou painel, a cabeça saia pipocando de tanta ideia de aplicação pra fazer nos nossos projetos pessoais e trabalho de conclusão, enfim, realmente ver pra aonde a tecnologia tá nos levando, o comportamento das pessoas e tudo mais”. “Toda a vez que a gente viaja a gente tem uma visão de mundo diferente, vai abrindo os horizontes”, garantiu.
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