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Arquivos fotojornalismo - Portal da Indústria Criativa https://mescla.cc/tag/fotojornalismo/ Informação, inovação, tendências e eventos. O Mescla reúne tudo que você precisa saber sobre a Indústria Criativa. Tue, 24 May 2022 20:01:19 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 Das narrativas visuais ao ensaio que rodou o mundo https://mescla.cc/2022/05/24/das-narrativas-visuais-ao-ensaio-que-rodou-o-mundo/ https://mescla.cc/2022/05/24/das-narrativas-visuais-ao-ensaio-que-rodou-o-mundo/#respond Tue, 24 May 2022 18:33:39 +0000 http://mescla.cc/?p=16516 Bruno é um entusiasta das narrativas visuais, como ele mesmo se define. Com uma extensa lista de prêmios ao longo da carreira, o fotojornalista de 37 anos já trabalhou com as mais diversas formas e possibilidades da imagem. Em 2021, viu seu ensaio obs_cu_ra conquistar o mundo, ao receber colaborações de 80 fotógrafos de mais […]

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Bruno é um entusiasta das narrativas visuais, como ele mesmo se define. Com uma extensa lista de prêmios ao longo da carreira, o fotojornalista de 37 anos já trabalhou com as mais diversas formas e possibilidades da imagem. Em 2021, viu seu ensaio obs_cu_ra conquistar o mundo, ao receber colaborações de 80 fotógrafos de mais de 20 países, além de apresentar o trabalho em vários desses lugares. Bruno é formado em Jornalismo e mestre em Ciências da Comunicação, pela Unisinos. Ele também já foi docente da Uni em vários cursos da Escola Criativa, como Fotografia, Jornalismo, PP, RP, Design, Moda e Gastronomia, de 2014 a 2018. O Mescla conversou com Bruno por mensagem de áudio. Confira a íntegra do bate-papo, recheado de histórias enquadradas pelas lentes do fotógrafo. 


Mescla: O que lhe atraiu na fotografia? 


Bruno: [Isso] é curioso… Entrei no jornalismo pensando em reportagem cultural, achando que trabalharia com a parte cultural. Aí, já tinha alguma pista de que futuramente trabalharia com as artes visuais de uma maneira geral, ainda não sabia disso. Mas acho que, logo na primeira cadeira de fotografia, no Jornalismo, vi essa possibilidade de contar história em imagem. Simples assim. Vi que aquilo que eu imaginava que contaria em texto tinha um potencial muito grande para explorar e narrar através de uma sequência de imagens, através de fotografia. Futuramente, descobri o vídeo também como uma possibilidade de contar história. A atração foi por esse poder sintético, universal e ao mesmo tempo complexo, de vários sentidos que a gente pode colocar. Através da estética, através da linguagem, trabalhar com narrativas visuais. Foi isso que me encantou.

Não consigo mais sintetizar em um conceito o que eu trabalho. Gosto de me considerar assim: uma pessoa que foi se especializando em narrativas visuais e hoje não vê muito onde termina uma e começa outra. Eu me sinto mais completo e podendo desenvolver minha criatividade ao máximo transitando entre todas essas linguagens, relacionadas à imagem.


Mescla: Como surgiu a ideia do ensaio obs_cu_ra? 


Bruno: O obs_cu_ra foi justamente um momento em que todos nós estávamos trancados em casa e eu sempre sou muito inquieto [em termos] de produção e produtividade. Sempre gosto de estar me desenvolvendo e me desafiando, do ponto de vista criativo e de inovação, a pensar algo [de um jeito] diferente. Estava, naquele momento, vendo vários trabalhos sendo produzidos durante a pandemia e pensando que eu também tinha que fazer um trabalho sobre esse período histórico e único, para a nossa geração. E foi isso, um insight de olhar para as paredes brancas do meu apartamento e pensar “bom, vou primeiro experimentar essa ideia de uma câmera obscura”, que era algo que eu conhecia do ponto de vista teórico. Li sobre esse período de formação da imagem, do desenvolvimento técnico da fotografia, mas eu nunca tinha explorado essas questões analógicas, sempre fui um cara muito digital.


Eu [pensei] “ah, vou fazer um teste, já que estou em casa, tenho tempo para isso e vou explorar o que tem de potencial ao construir uma câmera, transformar a minha casa numa grande câmera”. E foi o que fiz, testei e achei a fotografia muito potente. Essa é a primeira fotografia do ensaio, em que aparece eu, a minha mulher e o nosso bichinho de estimação ali, o cachorrinho, o nosso mascote. Achei muito potente essa foto e pensei “isso aqui fala muito sobre esse período que a gente está vivendo, deixa eu transformar essa foto única num ensaio fotográfico e ver o que comunica, o que essas fotos podem comunicar sobre esse período que a gente está vivendo”. Sozinho eu não conseguiria desenvolver esse trabalho, então fui em busca do coletivo, convidei vários fotógrafos e fotógrafas para participarem junto comigo e aí deu no que deu.

A imagem que deu início ao ensaio obs_cu_ra (Foto: Bruno Alencastro)


A gente lançou um ensaio, e rapidamente outras pessoas começaram a me perguntar sobre ele, como é que elas poderiam também participar. E aí, em um segundo momento, fiz isso: abri uma convocatória para receber fotos de quem tivesse a fim de participar do ensaio. E cheguei nesse quantitativo maluco: mais de oitenta participações de vinte e poucos países. E aí toda a repercussão que teve, publicado em vários lugares, ali no meu site eu coloco os principais lugares, os continentes, só na Oceania que não (risos). É mais fácil falar em continente do que em país, de tanto lugar em que ele repercutiu.

Levar o meu trabalho para um nível inimaginável, para um lugar em que nunca imaginei que poderia ter uma repercussão, como os grandes centros e festivais de fotografia ao redor do mundo: o convite para ir à Eslovênia apresentar o meu trabalho presencialmente.


Mescla: No seu site, há a premiada fotografia “Encontro de Super-heróis”. Poderia contar um pouco mais sobre a história daquela imagem? 


Bruno: Eu guardo um carinho muito especial sobre essa foto, o Encontro de Super-heróis, porque foi com ela que eu ganhei o principal prêmio de Jornalismo que tem aqui no estado, que é o prêmio da Ari [Associação Rio-Grandense de Imprensa], na categoria Fotojornalismo. Essa foto foi premiada naquele ano [2016], e também teve um concurso nacional de fotografia em que ela foi premiada [Prêmio Fundação FEAC de Jornalismo, de Campinas/SP]. Os bastidores dela são bem interessantes, porque é um plantão, eu estava num plantão de final de semana [na Zero Hora], em um sábado. E, assim, esperando o tempo passar, né… A gente em um plantão de final de semana quer mais é que passe logo, voltar pra casa, descansar um pouco. Então, nem tinha grandes expectativas de fotografia naquele dia, até que uma repórter passou ali na fotografia e pediu um fotógrafo para acompanhar ela nessa pauta. Era uma ação que estava tendo no Dia das Crianças e eu acabei indo com ela, por decisão da equipe, de que eu a acompanhasse. Fui com ela, e chegando no local, a ação até já tinha começado. A gente desceu do carro do jornal e olhou a fachada do Hospital da Criança Santo Antônio [em Porto Alegre], na parte de oncologia e já tinha esses super-heróis. 


Eram vários, tinha o Super-Homem, o Homem Aranha, o Batman, vários desses alpinistas ali pelo lado de fora do prédio descendo de rapel. E eu rapidamente peguei a minha câmera, a lente de maior distância que eu tinha, que era uma teleobjetiva, para pegar de longe, e fiz as fotos do lado de fora, pela fachada, porque já estava acontecendo. E aí pensei comigo “puxa, essa foto seria muito legal se ela fosse feita lá de dentro, pra mostrar as crianças dentro, e não dar tanto protagonismo pros super-heróis e dar mais protagonismo para as crianças, interagindo com eles”, mesmo que através do vidro. E pra minha sorte, depois que eles terminaram o rapel pelo lado de fora, a gente conseguiu se aproximar mais da equipe da assessoria de imprensa e a assessora nos falou que eles iam fazer uma nova descida. E aí, tive a chance de entrar no hospital e poder produzir fotos do lado de dentro. 


Uma outra sorte, por conta disso, é que toda a equipe de televisão (tinham vários veículos de imprensa lá), todo mundo já estava lá do lado de dentro, nessa primeira descida que eles fizeram. E foram pro lado de fora, para daí fazer imagens do lado de fora. Quando fui pra dentro do hospital estava praticamente sozinho. Então, por isso consegui essa foto bem limpa, bem plástica, bem estética, sem grandes informações, sem grandes ruídos para desviar a atenção. Imagina que eu ia ter que estar disputando essa imagem com cinegrafista, com câmera, de repente não ia conseguir fazer ela tão clássica assim, tão bonita e potente do jeito que ela é, por ter conseguido essa liberdade de trabalhar praticamente sozinho lá. Sou muito grato a ela.

Encontro de Super-heróis (Foto: Bruno Alencastro)


Depois que ganhei esse prêmio, procurei a família do menino. Achei que nada mais justo do que dividir este prêmio com a família, com ele, era perto do Natal, Dia das Crianças, então perguntei o que ele queria de Natal, e ele queria uma moto elétrica. Com parte do dinheiro do prêmio, comprei uma moto elétrica, fui levar lá na casa dele. Rapidamente ele já conseguiu alta do hospital, se recuperou e estava muito feliz com o brinquedo novo. Então, é uma história, acima de tudo, com um final feliz. Naquele momento que estava super pesado, ele tratando um câncer que tinha na época, e felizmente saiu dessa. Até hoje tenho contato com a família, e o Vicktor Gabriel está firme e forte. 


Mescla: No seu site, você se apresenta como diretor de fotografia, não fotógrafo ou fotojornalista. Como aconteceu essa diferenciação?


Bruno: Sobre fotógrafo, diretor de fotografia, fotojornalista… Eu nunca consegui me enquadrar numa categoria, numa caixinha ou numa gaveta, em que a gente coloca ali o que a gente é de fato. Ah, “sou jornalista”, ou “sou fotojornalista”, ou “sou repórter fotográfico”, ou “sou diretor de fotografia”, ou “sou filmmaker”… Tem muita terminologia para quem trabalha com imagem, e para mim é sempre uma crise quando eu chego, tenho que fazer check in em algum hotel, tem que preencher um formulário e colocar profissão e sempre fico em crise pra saber o que escrevo. Na verdade, sou um entusiasta das narrativas visuais, acima de tudo. 


Gosto de trabalhar com as narrativas visuais, sou inquieto, estou sempre tentando produzir coisas que nunca fiz e me testar e me desafiar em áreas em que ainda não fui desafiado. Gosto de viver as artes visuais, a fotografia e o vídeo, o cinema, o filme, por completo. Transito por todas elas. É claro que no mercado a gente vai ter categorias, vagas, salários, profissões, mas hoje para mim isso está muito misturado. Na verdade, não consigo mais sintetizar em um conceito o que eu trabalho. Gosto de me considerar assim: uma pessoa que foi se especializando em narrativas visuais e hoje não vê muito onde termina uma e começa outra. Eu me sinto mais completo e podendo desenvolver minha criatividade ao máximo transitando entre todas essas linguagens, relacionadas à imagem.


Mescla: Você passou pela Unisinos na Graduação em Jornalismo, depois no Mestrado em Ciências da Comunicação e ainda como docente. De que forma a trajetória acadêmica contribui para o profissional que é hoje? 


Bruno: Me formei em Jornalismo, mestrado em Ciências da Comunicação, especialização depois, que fiz em Barcelona, dentro do fotojornalismo e da fotografia social. A trajetória acadêmica contribuiu totalmente para a minha trajetória profissional e vice-versa. Nunca tive esse “ranço” que a academia tem com o mercado e o mercado tem com a academia, sabe? Um achando que é mais que o outro e um criticando o outro. Me sinto completo pela trajetória que eu fiz em cada uma dessas frentes, teorizando, pensando, refletindo e agindo, produzindo e tendo experiência prática mesmo. A importância é mútua, é um equilíbrio que tem entre as duas. 


Mescla: Daria alguma dica para jornalistas também identificados com a fotografia que estejam em início de carreira?


Bruno: A dica que tenho vai justamente ao encontro do que eu falei antes, desse profissional que hoje é híbrido, transita entre várias áreas. Eu diria para quem está interessado em fotografia não ficar fechado na fotografia, se abrir para a imagem como um todo. Mais do que fotografia, pensar em imagem: imagem estática, em movimento, imagem que é tecnológica, e que ganha outra cara quando está presente nas redes sociais. Imagem expressa em narrativas curtas do story ou do Tik Tok, e presente em narrativas longas no cinema, e presente numa fotografia para ser plástica, admirada e contemplada numa galeria de arte. Enfim, pensar imagem das mais variadas formas, dos mais variados formatos e linguagens, e transitar por esse maravilhoso mundo das narrativas visuais sem preconceito. […] Acho que é um grande atalho para conseguir se desenvolver nesse mercado de trabalho híbrido e complexo que a gente tem hoje.

Gosto de trabalhar com as narrativas visuais, sou inquieto, estou sempre tentando produzir coisas que nunca fiz e me testar e me desafiar em áreas em que ainda não fui desafiado. Gosto de viver as artes visuais, a fotografia e o vídeo, o cinema, o filme, por completo. Transito por todas elas.


Mescla: Destacaria em especial algum projeto ou etapa da sua carreira? 


Bruno: Sempre gostei desses marcos que foram me dando a certeza de que eu estava no caminho certo. Tem um primeiro marco na graduação, na forma de concursos de fotografia que fui ganhando, todos eles estão no meu site. Tem uma área da minha bio onde eu deixo relacionadas as minhas exposições e os prêmios que ganhei. Então, já foi uma certeza de que eu poderia desenvolver algum trabalho relacionado à imagem, ainda na graduação. Depois, cada trabalho pelo qual passei, sou extremamente grato [a eles] e às conquistas que tive, as histórias que pude contar dentro deles. A história desse menino no Encontro de Super-heróis, a história do jovem contrabaixista, o Weslei, que é um menino que eu acompanhei desde o início, se formando em Música Clássica na escola de música da Ospa [Orquestra Sinfônica de Porto Alegre], e agora ele está lá em Genebra estudando música em um dos maiores conservatórios de música do mundo.

O contrabaixista Weslei Felix Ajarda (Foto: Bruno Alencastro/Agência RBS)


Esses marcos de histórias pessoais que eu fui podendo contar e compartilhar com outras pessoas e que a profissão me possibilitou. Até, claro, chegar ao maior deles, que sem dúvida foi o obs_cu_ra. Levar o meu trabalho para um nível inimaginável, para um lugar em que nunca imaginei que poderia ter uma repercussão, como os grandes centros e festivais de fotografia ao redor do mundo: o convite para ir à Eslovênia apresentar o meu trabalho presencialmente, e no International Center of Photography de Nova Iorque, enfim… Todos esses lugares que ainda hoje eu paro e fico pensando “puxa, o Bruno lá da graduação nunca poderia imaginar que um dia iria conseguir levar o trabalho dele para tantos lugares que sempre olhei com encanto, com admiração e não tinha noção, não tinha capacidade de imaginar que um dia poderia estar lá também”, participando e expondo meu trabalho nesses lugares.


Mescla: Podemos esperar novos projetos em breve? 


Bruno: Com certeza, como falei antes, sou um inquieto das narrativas visuais. […] É um constante estágio de estar procurando oportunidades para me desenvolver mais e mais dentro das narrativas visuais. Ainda continuei inscrevendo o obs_cu_ra em vários festivais de fotografia nesses últimos meses, então é possível que ele seja selecionado para alguns desses eventos que ainda estão falando sobre a pandemia. E, também, a partir de agora, eu começo a mirar editais e convocatórias, já pensando em desenvolver outros trabalhos. 


Tem uma agora aqui na minha cidade mesmo. Moro em Canoas, e tem um edital aberto do município na área cultural, em que inscrevi um projeto. A gente brinca que Canoas é a cidade do avião, [por causa] da praça do avião, até foi aprovada uma lei no ano passado que coloca a cidade como a capital do avião. Aí, pegando esse gancho conceitual, inscrevi um projeto na Secretaria de Cultura justamente para, a partir de fotografias aéreas, a partir de fotografias obtidas com drone, documentar essa cidade e mostrá-la dentro de um ponto de vista que ela se coloca, dentro desse ponto de vista aéreo, pensando a capital do avião. Está concorrendo em um edital público, vamos ver se vai ser aprovado.


O obs_cu_ra também está concorrendo em um edital aqui do estado, não do município, para ser exibido para as pessoas na forma de exposições a céu aberto, em projeções fotográficas, que é algo que acho que tem absolutamente tudo a ver com o projeto, que ele já nasce de fotografias obtidas através dessa projeção analógica, da câmera obscura, apresentar ele agora para as pessoas na forma de projeção digital. O projeto foi classificado, vamos ver se ele vai conseguir ser selecionado, dentro dos projetos que serão contemplados neste edital. Esses são dois editais públicos que estão, neste momento, aguardando aprovação. 


E daqui pra frente, é isso. É encontrar inquietações e motivações para seguir me desenvolvendo dentro das narrativas visuais, seja como for. Como foi com o obs_cu_ra, um projeto arcaico, rudimentar, analógico, seja com vídeo, com produção de conteúdo para as redes sociais, com fotografias aéreas, enfim, o que essa mente inquieta e criativa permitir e desejar e imaginar daqui pra frente, pra continuar de novo nessa fantástica vida e privilégio que é a gente pode viver das narrativas visuais.

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Semana da Comunicação 2022: um apanhado do que rolou https://mescla.cc/2022/05/06/semana-da-comunicacao-2022-um-apanhado-do-que-rolou/ https://mescla.cc/2022/05/06/semana-da-comunicacao-2022-um-apanhado-do-que-rolou/#respond Fri, 06 May 2022 17:36:46 +0000 http://mescla.cc/?p=16405 A programação estava recheada de temas relevantes que passaram pelas possibilidades de “futuros”, diversidade e “inclusificação“, fotojornalismo e fotografia documental, movimentos sociais, influenciadores digitais, além de uma conversa com o Núcleo de Tecnologia do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). Confira abaixo os principais destaques que selecionamos. Para conferir na íntegra o que rolou em […]

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A programação estava recheada de temas relevantes que passaram pelas possibilidades de “futuros”, diversidade e “inclusificação“, fotojornalismo e fotografia documental, movimentos sociais, influenciadores digitais, além de uma conversa com o Núcleo de Tecnologia do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto).


Confira abaixo os principais destaques que selecionamos. Para conferir na íntegra o que rolou em cada dia, inserimos nos títulos das atividades o link que encaminha para o acesso a gravação, disponível em nosso canal no YouTube. 


SEGUNDA-FEIRA, 25/4 

Futuros: modos de fazer 

O primeiro convidado foi o Kim Trieweiler, publicitário, egresso da Unisinos, e que hoje atua na Aerolito, como Chefe de Pesquisa (Head of Research). Ele comentou que se reconhece mais como um pesquisador do que como publicitário. Um “pesquisador de futuros”. Ele é membro da WFSF (World Federation of Futures Studies). 




“O letramento em futuros, que é a habilidade de conseguir imaginar futuros a partir de diferentes pressupostos, para diferentes fins, é fundamental na nossa vida cotidiana e na nossa vida profissional. E para fazer um mundo melhor.” 


O que se transforma quando a gente pensa em “Futuros no plural”? 

Na história da humanidade sempre existiram tentativas de prever o que vai acontecer no futuro. “Existe um fetiche pela previsibilidade. Mas a incerteza é uma característica intrínseca do futuro”. Assim, Kim explicou que a gente cria uma posição de “futureproof” (em tradução livre, à prova de futuro), ou seja, uma posição defensiva de futuro.  





Lidar com o futuro no singular é pensar menos em previsão e mais sobre o controle. Precisamos de “letramento para futuros” (Futures Literacy), ou seja, compreender melhor um futuro imaginado, e ter mais consciência do que faremos. Dessa forma, introduzir o futuro no presente é ter uma noção maior do que queremos e podemos projetar agora – no presente- melhor. Dentro da habilidade de “letramento de futuros”, é possível mapear seis pressupostos antecipatórios (AA, em inglês, anticipatory assumption), que levam a gente a entender melhor como imaginar o futuro. São eles: previsão; destino; reforma criativa; autoaperfeiçoamento; pensamento estratégico e sabedoria-tão-ser. Basicamente, eles são a união de três coisas: tipos de sistemas, usos e métodos.  


Trazendo isso para a comunicação, é a possibilidade de olhar para inovações de fora do mercado, mas com potencial de impactar diversos setores. O Kim criou uma metodologia chamadaTrês ondas de impacto, que ele desenvolveu dentro da Aerolito, para mapear, explorar e entender melhor os possíveis impactos das tecnologias, ciência e inovação em negócios em um determinado tema, setor ou até mesmo mercado. Dessa forma é possível ampliar o olhar sobre os futuros para além do provável.



Selo Comemorativo  

Ainda na primeira noite também aconteceu o lançamento dos 50 anos da Comunicação da Unisinos. Que tal? Viu só como ele ficou lindo? 




TERÇA-FEIRA, 26/4

Criando oportunidades para uma comunicação diversa e inclusificadora  

Além do lançamento da revista Josefa, que você pode conferir aqui , ocorreu a apresentação da Alteritat, uma iniciativa das egressas Francine Malessa e Mariana da Rosa. A conversa, além de tratar de dois focos importantes, a comunicação e diversidade, mostrou como é possível empreender com propósito.  


A Alteritat é uma consultoria de diversidade, que disponibiliza o serviço para empresas e instituições de diversas naturezas e finalidades, além de agências de publicidade e comunicação, universidades, organizações não governamentais, pessoas físicas que possuem atuação pública e até para políticos.  

“Já que nós somos problematizadoras, vamos fazer isso de uma forma que nos dê dinheiro”, brincou Mariana já no começo.  





Elas explicaram que existe muita demanda para se falar sobre diversidade. As pessoas querem ouvir sobre, querem uma mediação no debate, porque não querem ser acusadas ou taxadas de serem preconceituosas. Ou seja, as pessoas sabem da relevância do tema.  


Não escreveram “inclusificar” errado?  

Não! Inclusificar é um verbo criado pela professora e Diretora do Programa de Doutorado em Organização, Liderança e Análise da Informação da Universidade do Colorado, Stefane Johnson, (que, inclusive, produziu um livro sobre isso) que significa mais do que incluir ou “adicionar”. Inclusificar é “viver e liderar de um modo que reconheça e celebre perspectivas únicas e divergentes, criando um ambiente de colaboração e mente aberta ao qual todos sintam realmente pertencentes”, conforme as meninas da Alteritat colocaram no slide. Ou seja, é criar a sensação de pertencimento, entender que existe o diferente e compreender que esse sentimento exista, mas sem discriminação. 


“Ah, mas eu trato uma pessoa negra como eu trato as outras pessoas”, mas dessa forma acabamos tratando como se fossemos todos brancos e pertencentes aos mesmos grupos sociais. Não é apenas contratar (incluir) pessoas e nada mudar dentro das empresas. 

“A comunicação é a principal forma da gente se relacionar socialmente. A gente queria levar essa comunicação social falando sobre diversidade, porque a comunicação traz conteúdos simbólicos, a partir de visões de mundo, com subjetividades e valores sociais de diferentes lugares sociais.” – Francine Malessa  




Os dados provam  

Conforme  estudos compartilhados recentemente, equipes com mais diversidade tomam decisões mais precisas e também fazem investimentos melhores. Apostar em diversidade nos ambientes profissionais de trabalho, é apostar em inovação, porque traz novas perspectivas e prevê um lucro maior! Mas, por que as empresas e instituições ainda não estão tão abertas para a diversidade mesmo com os números comprovando? 


As jornalistas afirmaram que existem obstáculos provados pelo medo de entender e tratar sobre. Isso torna o assunto um verdadeiro tabu, e quem tem medo muitas vezes cria fobia e preconceitos. No entanto, a melhor forma de acabar com isso são as consultorias de diversidade na área da comunicação, como a Alteritat!  


Elas contaram que sempre buscam demonstrar isso no trabalho que realizam, existe ciência e estudo por trás de cada afirmação e estratégia. Por isso, é importante mostrar que há embasamento por trás de todo o debate sobre diversidade e comunicação. 


Temas como sub-representação, linguagem e acessibilidade foram super bem explorados na apresentação. Elas trouxeram dados importantes, como, por exemplo, as pesquisas que mostram que cerca de 80% da população brasileira prefere marcas com posicionamento claro, seja sobre políticas, causas sociais ou cultura. Outro dado bem significativo é o de que cerca de 24% da população brasileira possui algum tipo de deficiência, sendo a visual a maior delas.  



QUARTA-FEIRA, 27/4 

A fotografia documental de movimentos sociais 

A quarta-feira teve a fotografia documental como tema, com o Leonardo Savaris sendo o palestrante. O evento marcou a volta de um evento presencial em São Leopoldo, no Labtics, mas com transmissão simultânea pelo canal no Youtube do Mescla! A coordenadora do curso de Fotografia, Marina Chiapinotto, e o coordenador de Jornalismo de São Leopoldo, Micael Behs, estiveram juntos.


O Leonardo é egresso do curso de Fotografia da Unisinos e já se tornou uma referência em fotografia documental depois de ser o único brasileiro vencedor no Concurso Sul-Americano de FotoMigração: a Migração com Outras Lentes, em 2021, promovido pela Organização Internacional para as Migrações (OIM), entidade ligada à Organização das Nações Unidas (ONU). O prêmio veio pela série documental de dez fotos intitulada “Imigrantes Senegaleses”. 


Savaris contou sobre a trajetória pessoal e como isso se relaciona com seus interesses com a fotografia. Ele conta que iniciou trabalhando “no chão de fábrica”, com metalurgia, e que pode se encontrar quando começou a cursar Jornalismo na Unisinos, já que na época ainda não existia a graduação em Fotografia na universidade.


Cheio de força e emoção, o fotógrafo contou que não tinha experiência alguma com a área, mas que sentia uma forte identificação com a atividade. O então professor Eduardo Veras (que hoje é professor do Instituto de Artes da UFRGS) encaminhou Leonardo para o recente curso de Fotografia, coordenado por Beatriz Sallet, que também marcou a formação dele. 


“Quando eu entro aqui dentro, a Fotografia foi um chão para mim. Eu acho que isso reflete dentro da minha fotografia. Eu fui buscar minha vivência, minha essência, e estou ainda buscando, porque a gente não encontra tão fácil. Acho que dentro da fotografia eu busco um pouco de paz de espírito.”  





“Dentro de uma universidade, acho que cada um tem que fazer seu papel como juventude, tem que ir pra cima, tem que lutar. Eu estava para fazer meu TCC, e eu não acho que seja um sindicalista, mas eu acho que temos que lutar pelos nossos direitos e pelo que a gente acredita. Nesse local das fotos, quando eu fui fazer meu TCC, isso era uma ocupação. A Ocupação Saraí. Dentro do cenário político da época, eu tinha o meu posicionamento, mas eu não entendia o mais amplo. Eu não entendia muita coisa, não entendia por que uma pessoa ocupava um prédio abandonado. A galera da ocupação lutava pelo direito de moradia. Eu queria entender. E eu fui, na cara e na coragem.” 





Para o fotógrafo, o trabalho com imagem e histórias precisa entender sobre as questões que englobam o nosso dia a dia, no entanto, a forma como abordadá-las tem que ser tratada. 



“Estamos falando de pessoas que lutam há 30 anos, por exemplo, como a gente vai retratar eles como coitados? Isso não cabe mais. Eles são muito fortes. Os retratados, quem eu abordei, em nenhum momento aparecem de cabeça baixa. Eles sempre olham para a câmera, direto para a câmera, com postura e força. E eu acho que é esse retrato que tem que ser feito.” 





“Vocês têm que conhecer as pessoas, conhecer a luta das pessoas e tentar, de alguma forma, retratar a luta delas. Se a condição que elas estão é precária, certo, mas elas estão vivendo, tem sangue pulsando na veia de cada um.”





No chat, a professora Beatriz Sallet fez um comentário muito rico que pode sintetizar o trabalho do Leo: “​Os retratos que o Léo fez na Ocupação Saraí devolveu cidadania e identidade a cada ser fotografado. Ele repetiu isso com os senegaleses.”   


Leonardo sintetiza o trabalho dele de mais uma forma: “Toda fotografia é um ato político.” 




QUINTA-FEIRA, 28/4 

Workshop Influenciadores digitais no TCC 

Neste dia, aconteceu um workshop com a pesquisadora mato-grossense Issaaf Karhawi. Ela está fazendo pós-doutorado no PPG de Comunicação na Unisinos, trabalhando no laboratório Cultpop. A tese de doutorado dela rendeu um livro, “De blogueira a influenciadora – Etapas de profissionalização da blogosfera de moda brasileira”, (inclusive, a capa foi produzida pela egressa de Moda da Unisinos e artista-designer, Marcela De Bettio). 


O workshop trabalhou como os influenciadores digitais podem ser um objeto de pesquisa na graduação e demais etapas da vida acadêmica. Issaaf comenta, “Em 2013 eu escrevi um projeto de pesquisa para estudar blogueiras de moda. O que me incomodava naquele momento? Eu sou formada em Jornalismo e existia um embate entre jornalistas de moda e blogueiras. Uma rixa, um desacordo que me chamava atenção, porque aquela intriga sinalizava que tinha algo importante acontecendo.” 




“Eu me deparei com a emergência de um novo perfil profissional no campo da comunicação. Um perfil profissional que era o de blogueira em 2013, mas em 2018, quando eu terminei, elas eram influenciadoras, ‘digital influencers’.” 




A Issaaf mostrou o trabalho de conclusão em Jornalismo dela, produzido em 2010. Ela estudou a “saga Crepúsculo” em um trabalho intitulado “Entre vampiros, lobisomens e fãs – a saga Crepúsculo e a produção de sentidos no ciberespaço”. Na época ela era professora de inglês, e conta que ouvia dos colegas o conhecido discurso moralista de que os jovens não leem mais. “Eu chegava na sala e precisava esperar os alunos pararem de ler, fechar o livro para começar a aula. Como assim, a gente diz que o jovem não lê e de repente eles estão na sala de aula, de um curso de inglês, com esse livro na mão?”. A partir disso, ela foi estudar o que estava acontecendo, “Fui estudar Crepúsculo e fui me encontrando na pesquisa com as fanfics, as ficções escritas a partir de uma obra específica, nos ambientes digitais.” 




“Quando eu digo que estudei blogueiras de moda na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), as pessoas me olham e perguntam ‘Como? Como as pessoas te olhavam’. É isso que eu queria provocar. Os nossos objetos de pesquisa, os temas que a gente escolhe, refletem muito nossos anseios. (..) Os meus indicavam questões que eram controversas. ‘Os jovens não leem’, vou mostrar que eles leem. ‘As blogueiras vão roubar o lugar de jornalista’, eu fui lá e mostrei que blogueira não é jornalista.” 



Para a pesquisadora, o TCC é uma importante oportunidade para pensar em algo específico que estava guardado, mas tem vontade de falar, também é o momento de fazer um projeto experimental. Não pode ser visto apenas como uma formalidade. Issaaf pontuou que as perguntas podem surgir a partir da vivência diária, que pode ser tensionada e desenrolar um projeto de pesquisa que se aproxima do nosso campo. Os temas surgem de aspectos de uma área, mas também podem surgir de polêmicas, do senso-comum, de leituras, de conversações, etc.  



“Quando a gente pensa em influenciadores, tem um aspecto importante: eles desorganizaram o ecossistema midiático.” 


“A Cultura da Participação, que tem a ver com a Convergência de Mídias, com o Digital, com as Redes Sociais Digitais, abre esses polos e permite que cada um de nós produza algo e compartilhe nas redes. Isso gera uma desestrutura.” 




A pesquisadora mostrou os principais aspectos a serem pensados na hora de pesquisar sobre influenciadores digitais e todo esse fenômeno digital, por exemplo, a autenticidade; o trabalho digital; os fluxos de comunicação; questões éticas. Esse último aspecto é o “grande burburinho”, segundo Issaaf, porque nesse ponto é que se tenciona o debate sobre influenciadores digitais. As questões éticas debatidas costumam circular em torno de publicidade velada (ou ilegal), responsabilidade e conteúdo e até desinformação e posicionamento e o “cancelamento”.  






SEXTA-FEIRA, 29/4 

Apresentação do Núcleo de Tecnologia do MTST + Projeto Contrate Quem Luta 

A última conversa da semana rolou com Victor Antunes, Paulo Barros, Gabriel Simeone e Edson de Sousa, que são integrantes do Núcleo de Tecnologia do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). O evento teve início com uma explicação sobre a atuação do MTST, que luta, dentro da lei fundiária, para que todos tenham direito a um teto. O Núcleo mostrou que o MTST defende a legalidade. Entre as leis, há uma que diz que as propriedades devem cumprir um dever social.



“Da mesma forma que se você tiver um carro, você não pode sair andando em cima da calçada, atropelando as pessoas e andar sem pagar o IPVA. Então, o MTST ocupa as terras que ‘andam na calçada’, ocupa as terras que ‘atropelam as pessoas’ e aquelas que não pagam tributo. Não ocupamos para tomar, mas como uma forma de denúncia, porque o poder público faz questão de não fazer valer a lei sobre essas terras.” 





O Gabriel mostrou que o objetivo do Núcleo é organizar os trabalhadores da área de tecnologia em uma ponta e formar novos trabalhadores em outra. Para isso, é necessário desenvolver softwares e enxergar a tecnologia de acordo com a política do movimento.  


Atualmente, há mais de 80 desenvolvedores colaborando com o Núcleo e cinco projetos sendo desenvolvidos. Eles detalharam a iniciativa “Contrate Quem Luta”, que é um projeto que oportuniza o contato de empregadores com profissionais para diversos serviços, através de uma plataforma de empregabilidade justa desenvolvida e organizada pelo próprio Núcleo de Tecnologia do MTST. 



A ferramenta visa garantir o modelo de trabalho justo, horizontal e cooperativo. Estabelece uma relação direta, através de um robô, no qual você pede um serviço, via WhatsApp. A partir dali o “robô”, busca na base dados quem pode oferecer este serviço. A partir do momento em que a pessoa que busca o serviço e o prestador concordam com o trabalho, o número de telefone é trocado e as pessoas conversam diretamente, combinando horário, pagamento e prazo.




A plataforma foi desenvolvida e pensada em oposição ao modelo da uberização do trabalho. É uma plataforma justa de empregabilidade, que busca desenvolver profissionais, sem gerar algoritmos que possam prejudicar os trabalhadores.  




A Semana da Comunicação é sempre esperada porque traz pautas relevantes para pensarmos a área. Nesta edição, pautas sociais e de impacto marcaram a programação, rendendo muitas ideias e dando o que falar. Mas, esse resumo é um convite para aguçar a curiosidade de quem não pode conferir os bate-papos ou então uma forma de lembrar o que aconteceu e refletir para novos debates. Já estamos ansiosos para a próxima edição! 

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A fotografia documental de movimentos sociais https://mescla.cc/2022/04/20/a-fotografia-documental-de-movimentos-sociais/ https://mescla.cc/2022/04/20/a-fotografia-documental-de-movimentos-sociais/#respond Wed, 20 Apr 2022 16:00:00 +0000 http://mescla.cc/?p=16342 Leonardo Savaris é formado pelo curso de Fotografia da Unisinos, em 2017 e já realizou trabalhos para publicações nacionais e internacionais. Atualmente, desenvolve seu trabalho autoral e é fotógrafo freelancer do Jornal Extra Classe, desde 2014. Leonardo é o convidado do terceiro dia, 27 de abril, e discutirá o fotojornalismo sob o viés dos movimentos […]

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Leonardo Savaris é formado pelo curso de Fotografia da Unisinos, em 2017 e já realizou trabalhos para publicações nacionais e internacionais. Atualmente, desenvolve seu trabalho autoral e é fotógrafo freelancer do Jornal Extra Classe, desde 2014. Leonardo é o convidado do terceiro dia, 27 de abril, e discutirá o fotojornalismo sob o viés dos movimentos sociais, bem como sua trajetória acadêmica e profissional. Assim como as demais palestras, o evento acontece presencialmente no Labtics com transmissão simultânea através do canal do Mescla no YouTube. O Mescla conversou com o fotojornalista Leonardo Savaris, que antecipou algumas expectativas para o evento.


Mescla: Quais os tópicos a serem abordados na sua palestra na Semana da Comunicação? 

Leonardo Savaris: Abordarei algumas imagens produzidas no Estado, voltadas para questões sociais. E um pouco sobre minha trajetória dentro da Unisinos, na Fotografia. 


Mescla: O que o público pode esperar do evento? 

Leonardo Savaris: Uma conversa leve e construtiva. Se estiverem com as mentes abertas, poderão se inspirar para construírem suas próprias narrativas. 


Mescla: Como a fotografia documental pode ser um agente de transformação dos movimentos sociais? 

Leonardo Savaris: Acho que não somente a fotografia documental, mas a arte como um todo tem esse poder de transformação. Ainda mais nesse tempo que estamos vivendo, se torna muito necessário qualquer movimentação artística. Os que dominam sabem que a arte gera inquietudes e pensamentos elevados. Eles sabem do poder transformador que ela gera. É disso que eles têm medo. 


Mescla: O interesse pelo fotojornalismo foi um caminho natural para você? 

Leonardo Savaris: Sim… acho que fui buscar meus transtornos ali (risos). 


Mescla: Como o ambiente acadêmico contribuiu para o profissional que você é hoje?

Leonardo Savaris: Devo muito a professores e colegas minha trajetória na fotografia… foi um ambiente inspirador para construir minha linguagem dentro daquilo que estava buscando.

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Enfoque busca ampliar as vozes dos moradores da Região Nordeste de São Leopoldo https://mescla.cc/2021/06/02/enfoque-busca-ampliar-as-vozes-dos-moradores-da-regiao-nordeste-de-sao-leopoldo/ https://mescla.cc/2021/06/02/enfoque-busca-ampliar-as-vozes-dos-moradores-da-regiao-nordeste-de-sao-leopoldo/#respond Wed, 02 Jun 2021 14:47:30 +0000 http://mescla.cc/?p=15118 Está circulando entre os moradores dos bairros Santos Dumont e Rio dos Sinos, de São Leopoldo, os exemplares impressos da segunda edição do jornal Enfoque São Leopoldo: Região Nordeste. Em função das restrições impostas pela pandemia de Covid-19, a produção do periódico, pelo segundo ano consecutivo, está sendo realizada de forma totalmente online. A publicação […]

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Está circulando entre os moradores dos bairros Santos Dumont e Rio dos Sinos, de São Leopoldo, os exemplares impressos da segunda edição do jornal Enfoque São Leopoldo: Região Nordeste. Em função das restrições impostas pela pandemia de Covid-19, a produção do periódico, pelo segundo ano consecutivo, está sendo realizada de forma totalmente online.


A publicação tem a apuração, redação e edição feita por alunos do curso de Jornalismo da Unisinos (campus São Leopoldo). O professor Rafael Grohmann, que comanda a disciplina de Jornalismo Comunitário e Cidadão, responsável pelo jornal, explica que as duas edições previstas para este semestre foram pensadas de maneira que não se transformassem em um conteúdo de jornalismo assistencialista. “A nossa meta foi fazer com que as matérias conseguissem reproduzir a complexidade das histórias de pessoas que vivem em locais periféricos”, comenta. 


O professor destaca que o jornal é fruto, principalmente, do trabalho coletivo e profissional feito pelos alunos. O atual projeto editorial da publicação teve início em 2004, quando o então Enfoque Campus, dedicado a notícias gerais da cidade de São Leopoldo, foi transformado em Enfoque Vila Brás. A partir daí, o objetivo era produzir jornalismo impresso voltado para regiões periféricas da cidade, dando voz aos moradores e luz às suas realizações e também aos problemas locais. De lá para cá, além da Vila Brás, o Enfoque circulou pelas comunidades da Santa Marta, Vicentina e Ocupação Justo. Desde o segundo semestre de 2020, o jornal está com seus olhos e ouvidos abertos para as histórias de moradores dos bairros Santos Dumont e Rio dos Sinos, na Região Nordeste de São Leopoldo.


O desafio do trabalho a distância


Apesar das dificuldades que um produto jornalístico feito de forma remota proporciona, para Rafael, a segunda edição do Enfoque na Região Nordeste de São Leopoldo teve belíssimas matérias. “Fazer de forma online esse tipo de jornalismo é desafiador, já que se perde esse contato pessoal com os moradores, além de se perder a observação do ambiente”, constata o professor. Mesmo assim, Rafael avalia que o jornal trouxe belos perfis jornalísticos, com histórias muito bonitas. “Há matérias, por exemplo, que explicam o que é uma ocupação, algo que possui muito desconhecimento e preconceito na sociedade. Tem também pautas sobre saúde mental, um problema muitas vezes dito como algo que só a elite sofre”, diz o professor.

Reciclagem foi um dos temas principais da primeira edição do Enfoque em 2021
(Foto: Cléber Martins, dirigida por Gabriel Muniz)


Aluna e uma das editoras da edição, Jordana Fioravanti sublinha que o trabalho online para a produção do jornal foi um momento de reinvenção. “Estávamos acostumados com outro padrão, com a experiência de ir à campo, olho no olho, muita percepção na hora de conduzir as entrevistas”, conta. Na opinião de Jordana, o contato humano fez falta na hora de iniciar a conversa com as fontes. “Por um lado, quebramos a barreira do ‘só estando lá para saber’”, entende a futura jornalista.


Para a produção do jornal, os alunos tiveram ajuda, por meio de encontros virtuais, de líderes comunitários, representantes do Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) da Região Nordeste, e da Rede Solidária São Léo. Jordana acredita que essas conversas foram essenciais para a construção da edição. “Eles foram o nosso ‘meio-campo’ para grande parte das pautas desenvolvidas. Foram pessoas que nos ajudaram a conhecer um pouco da identidade da região, mesmo estando de fora”, comenta a estudante. 


A volta de Fotojornalismo


O Enfoque tem como tradição produzir as matérias in loco nos bairros abordados nas páginas do jornal. Além dos alunos de Jornalismo Comunitário e Cidadão, participam também a galera de Fotojornalismo. Infelizmente, no ano passado, a disciplina responsável pelas imagens da publicação não ocorreu. Diante disso, a solução encontrada foi usar fotos extraídas dos arquivos pessoais das fontes, a pedido dos alunos-repórteres. 


A boa notícia para 2021 é o retorno de Fotojornalismo à produção do Enfoque. Claro, também de forma remota. Conforme explica o professor da disciplina, Flávio Dutra, ter alunos pensando exclusivamente nas imagens traz um acréscimo positivo para o jornal: “Ela é importante, pois as matérias jornalísticas necessitam de boas imagens que ajudem a contar essas histórias”.

Enfoque abordou dificuldades do ensino remoto na Região Nordeste
(Foto: Aline Dias dos Santos, dirigida por Rafael Moreira)


Pela necessidade de produzir o jornal de forma online, Flávio conta que as fotos foram obtidas de duas maneiras: extraídas do arquivo pessoal das fontes e clicadas pelos próprios entrevistados, mas pensadas e orientadas pelos alunos. “As maiores dificuldades na realização dessa atividade foram a falta de contato pessoal com as fontes, além da transmissão das fotos para a redação”, comenta o professor. Para a reprodução em uma publicação impressa, as imagens precisam de uma ótima resolução gráfica. “Há uma dificuldade aí, já que, na maioria das vezes, os moradores realizam as fotos pelo celular. Apesar do grande desafio, os alunos trabalharam muito bem”, destaca Flávio. 


Leia a edição 2 impressa ou online


Exemplares impressos da segunda edição do Enfoque São Leopoldo: Região Nordeste estão sendo distribuídos pelo CRAS, que fica localizado na Rua Mauá, 2141, no bairro Santos Dumont. O jornal também está chegando aos moradores via WhatsApp. É possível ainda acessá-lo pela internet. Basta clicar aqui


Fique ligado! Os alunos-repórteres e alunos-fotógrafos já estão finalizando a terceira edição do jornal. Logo os exemplares estarão nas bancas, ou melhor, no CRAS, no celular e no computador. Não perca! 

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Fotojornalismo: imagem e texto são aliados na informação https://mescla.cc/2017/09/28/fotojornalismo-imagem-e-texto-sao-aliados-na-informacao/ https://mescla.cc/2017/09/28/fotojornalismo-imagem-e-texto-sao-aliados-na-informacao/#respond Thu, 28 Sep 2017 20:58:46 +0000 http://mescla.cc/?p=3228 “Uma imagem vale mais que mil palavras” é um bordão muito utilizado, principalmente por aqueles que se valem do argumento de que só é possível acreditar em um fato se ele for visto. Mas é injusto dizer que o fotojornalismo existe somente para atestar a veracidade dos fatos documentados. Contar histórias através das imagens, humanizar […]

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“Uma imagem vale mais que mil palavras” é um bordão muito utilizado, principalmente por aqueles que se valem do argumento de que só é possível acreditar em um fato se ele for visto. Mas é injusto dizer que o fotojornalismo existe somente para atestar a veracidade dos fatos documentados. Contar histórias através das imagens, humanizar o texto e trazer a tona o rosto dos personagens descritos na notícia é, sem dúvidas, um dos serviços da fotografia.

Fotojornalismo é a junção de duas estruturas de informação: o texto e a imagem. Uma não anda se não for aliada com a outra. Para a coordenadora do curso de Fotografia da Unisinos e doutora em Comunicação, professora Beatriz Sallet, o fotojornalismo é a captura do acontecimento em pleno vôo. “Uma boa foto é aquela que sintetiza o acontecimento. Que pega o acontecimento em pleno vôo”, contou a jornalista, que trabalhou por mais de 20 anos como repórter fotográfica no Vale dos Sinos.

Com uma formação geralmente em jornalismo, os profissionais que atuam na captura de imagem devem pensar nos diferentes formatos exigidos por cada pauta, o que exige agilidade com a câmera. “O fotojornalista precisa ter velocidade e eficiência, porque dependendo do tipo de cobertura, ele precisa tirar fotos, fazer vídeos e separar material para  enviar para a redação. Faz tudo direto do lugar do acontecimento”, contou Beatriz.

Professor de Fotografia da Unisinos, mestre em Comunicação e fotojornalista da Zero Hora, Bruno Alencastro acredita que  a importância de um profissional da imagem, mais do que de um fotojornalista, “é fazer narrativas visuais, independente da plataforma, e para um público cada vez mais consumidor de mídia digital”. É neste ponto que a coordenadora do curso da Unisinos conta que o meio acadêmico deve estar afinado com o mercado, trazendo disciplinas nas quais os alunos aprendam na prática o dia a dia das redações e as exigências do público.

O enxugamento das redações atingiram a editoria de fotografia nos veículos. É comum ver fotografias de grandes acontecimentos com os créditos de agências de notícias. Beatriz conta que o envio de repórteres fotográficos, assim como os de texto, para o local da notícia, tem se tornado muito caro para os veículos. Com isso, a compra de imagens das agência tem virado rotina nos jornais.

O lado negativo de assistir o acontecimento de longe e adquirir as imagens depois é que o jornalismo vai ficando cada vez mais “parecido”. Não é incomum dois ou mais veículos de comunicação estamparem a mesma foto de capa quando o assunto é um evento de grande repercussão. No mês de agosto quando aconteceu a tragédia de Barcelona, dois jornais de grande circulação no Brasil, noticiaram o fato com a mesma fotografia principal.

Foto: Arquivo pessoal

Tecnologia e relações de trabalho

Quando falamos em fotografia, é inevitável pensar naquela imagem perfeita que capturamos durante um show para a postagem no Instagram. O profissional do fotojornalismo não deixa de ter a mesma linha de pensamento já que  não preocupa-se somente com a fotografia feita para o impresso, uma vez que a pauta é realizada pensando em todos os meios em que a imagem vai circular.

Para Bruno Alencastro, o aparecimento das novas tecnologias vem obrigando os repórteres fotográficos a adequar seu conteúdo para os novos formatos. “Contar histórias independente do suporte da linguagem, ou seja, hoje em dia a gente é desafiado a fotografar para um formato vertical do celular, uma tela de pé que dura 15 segundos no stories (Instagram)”.

O professor conta também que as tecnologias mudaram a relação do público com os meios. Assim, com a participação crescente dos leitores, que enviam fotos e participam efetivamente das redações com seus relatos fotográficos, os fotojornalistas conseguem dedicar-se a pautas mais elaboradas, com maior refinamento, dando tempo do profissional pensar em seus conteúdos. “Essa coisa de todo mundo fazer foto e vídeo acabou tirando do fotojornalista esses acontecimentos factuais. Um acidente de trânsito sem grandes prejuízos, princípios de incêndio, essas coisas que acabam não sendo grandes pautas. Hoje o leitor faz isso. Eu olho com bons olhos essas relações”

Nos primórdios da fotografia, quando o francês Joseph Nicéphore Niépce registrou a aquela que é considerada a primeira fotografia da história, em 1826, foram necessárias oito horas de exposição de sua caixa escura para a gravação da imagem. A paisagem registrada, foi gravada em uma placa de estanho e o processo batizado de heliografia, ou gravura com a luz solar. Quase 200 anos depois, basta frações de segundos para uma imagem circular na rede e gerar grandes repercussões.

O fotojornalista é desafiado a fotografar para um formato vertical do celular, uma tela de pé. Uma imagem que dura 15 segundos no Instagram

Com o imediatismo exigido para a publicação de conteúdos, o engano ou repasse de informações incorretas acaba tornando-se um vilão nas relações do jornalismo. Beatriz Sallet alertou para as possibilidades de erro quando o assunto é a utilização dos meios digitais. “As imagens trazem mais veracidade para a informação, por isso é muito importante levar em consideração as fontes, de onde aquela imagem vem, assim como na notícia”, afirmou.

A facilidade de produzir conteúdos midiáticos na palma da mão jogou uma responsabilidade ainda maior para os profissionais que trabalham exclusivamente com fotografia nas redações. Bruno diz que é de extrema importância o fotojornalista manter-se atualizado para conseguir produzir conteúdos cada vez mais refinados, buscando sempre surpreender os consumidores de conteúdo do jornal.  O professor embarcou neste mês de setembro para uma especialização em Barcelona na Instituto de Estudos Fotográficos da Catalunha, buscando o que existe de mais atual e contemporâneo em questão de imagem.  

Mais do que nunca, o futuro do fotojornalismo e da produção de conteúdos é na percepção e entrada no mundo da convergência digital. Novos aplicativos de captura e compartilhamento de imagem surgem todos os dias, trazendo para o ramo pessoas que buscam pensar nas narrativas além do formato. O fotojornalismo do futuro depende dos profissionais que nele atuarão. A professora Beatriz Sallet acredita que os repórteres fotográficos passarão a ter a formação em fotografia, apostando no apelo visual da profissão, que cresce a cada instante. Para Bruno, quem estiver disposto a estar sempre inovando e trabalhar com dinâmica, será o fotojornalista do amanhã.

 

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Jornal Enfoque mostra diferentes olhares sobre a Vila Kédi https://mescla.cc/2017/05/12/jornal-enfoque-mostra-diferentes-olhares-sobre-vila-kedi/ https://mescla.cc/2017/05/12/jornal-enfoque-mostra-diferentes-olhares-sobre-vila-kedi/#respond Fri, 12 May 2017 20:14:40 +0000 http://mescla.cc/?p=1181 No último sábado (6) foi lançada a 7ª edição do jornal Enfoque de Porto Alegre, que tem como tema principal a Vila Kédi. Os alunos de Jornalismo Cidadão, da Unisinos POA, junto com os professores orientadores Luiz Antônio Nikão Duarte (texto) e Flávio Dutra (fotografia), abordaram no jornal assuntos como empreendedorismo, educação e religião. Pensando […]

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No último sábado (6) foi lançada a 7ª edição do jornal Enfoque de Porto Alegre, que tem como tema principal a Vila Kédi. Os alunos de Jornalismo Cidadão, da Unisinos POA, junto com os professores orientadores Luiz Antônio Nikão Duarte (texto) e Flávio Dutra (fotografia), abordaram no jornal assuntos como empreendedorismo, educação e religião.

Pensando na proximidade do dia das mães, a aluna da disciplina de Jornalismo Cidadão, Liane Oliveira fez uma matéria especial sobre as grandes mães da Vila Kédi. “As histórias delas são bem significativas para a família e a comunidade que elas estão. Dona Tânia, por exemplo, acabou sendo responsável legal da sobrinha, e a menina até a chama de mãe. Não só na Kédi mas em outros lugares a questão da diversidade das famílias é algo natural”, declarou Liane.

O professor Flávio considera a prática de elaborar as imagens do jornal a melhor experiência possível para uma disciplina como a Fotojornalismo. “Os alunos que vão para campo, acabam entendendo de fotografia e de jornalismo. Eles precisam pensar na imagem e nas informações que ela está vinculada e entender no que a reportagem está focada e se relacionar com o repórter, as fontes e com o produto que eles estão fazendo. Eu considero uma experiência sensacional”, declarou.

Tina Borba, aluna de Jornalismo Cidadão, fez uma matéria sobre a líder comunitária da Vila Kédi, Dona Angela. “Pelo que soubemos, não teve uma eleição para eleger o líder da comunidade. A Dona Angela me contou que antigamente era sua mãe que fazia esse papel, de auxiliar os moradores no que fosse necessário e tomar a frente representando a vila”, contou Tina.

No dia do lançamento do Enfoque os alunos foram na comunidade e distribuíram o jornal para os moradores. Segundo o professor Flávio, a experiência de entregar os jornais na comunidade acaba tendo um duplo papel. “A comunidade nos serve para toda essa experiência jornalística, que é a produção de imagens e fotojornalismo. E para a comunidade, o produto que a gente elabora serve no sentido deles se verem ali, com outros olhos”, declarou o professor.

A aluna de Fotojornalismo Giulia Godoy conta que produzir as fotos do Enfoque foi uma experiência muito gratificante e diferente do que os alunos estão acostumados. “Tem muita gente que nem sabe que ali tem uma vila, muito menos que tem tanta gente com histórias incríveis e um coração enorme. Eu acho que o enfoque tem esse poder de mostrar pras pessoas um lado da sociedade que elas não estão acostumadas a enxergar e que ainda há um pouco de preconceito, e a gente está aqui pra mostrar que é diferente”, contou a aluna.

Para conferir o Enfoque na íntegra, clique aqui.

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Fotojornalismo como forma de registro histórico https://mescla.cc/2017/03/13/fotojornalismo-como-forma-de-registo-historico/ https://mescla.cc/2017/03/13/fotojornalismo-como-forma-de-registo-historico/#respond Mon, 13 Mar 2017 20:47:57 +0000 http://mescla.cc/?p=183 Em 1975, com apenas 19 anos, Elvira Alegre foi a única a registrar em fotos o velório e o enterro de Vladimir Herzog, jornalista morto pela ditadura militar. Quarenta anos depois, seu trabalho ainda serve como referência tendo um imenso valor histórico que inclusive comprova que a morte de Herzog não foi por suicídio, como […]

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Em 1975, com apenas 19 anos, Elvira Alegre foi a única a registrar em fotos o velório e o enterro de Vladimir Herzog, jornalista morto pela ditadura militar. Quarenta anos depois, seu trabalho ainda serve como referência tendo um imenso valor histórico que inclusive comprova que a morte de Herzog não foi por suicídio, como alegava a polícia na época. Em início de carreira, Elvira trabalhava para o extinto jornal “Ex”, do Paraná, veículo que ia contra a ditadura.

Trabalhando para o Jornal Panorama, em Londrina, ela conheceu diversos repórteres paulistas e foi convidada por eles a atuar como fotojornalista no Ex, acompanhando a cobertura diretamente de São Paulo. “Antes de trabalhar no Panorama eles já desenvolviam o projeto no Ex em SP. Passado algum tempo, eles foram demitidos e em solidariedade, eu e Hamilton de Almeida Filho, com quem eu era casada na época, também pedimos demissão e partimos para São Paulo”, lembra Elvira.

Elvira Alegre mostra seus registros do velório e enterro de Herzog (Foto: Sérgio Renalli/FolhaPress)

A fotógrafa conta que antes de entrar para a carreira jornalística ela pretendia cursar Medicina e se preparava para o vestibular quando surgiu a oportunidade no Jornal Panorama. Desde então, ela nunca mais abandonou as câmeras. Um dos momentos mais marcantes de sua carreira ocorreu na madrugada de 25 para 26 de outubro de 1975, quando o telefone de sua casa tocou e veio a tão temida notícia: Vlado estava morto. “De forma não oficial, todos sabiam que Herzog não estava mais vivo mas faltava o pronunciamento oficial da polícia. Quando ele veio, a informação era que Vlado havia se suicidado, o que parecia muito improvável para todos nós”, lembra Elvira.

Vladimir Herzog, como preferia ser chamado Vlado, atuou como jornalista, dramaturgo e professor após se naturalizar brasileiro. Nascido na Iugoslávia, desde o início da ditadura militar no Brasil em 1964, ele lutou pela volta da democracia, sendo militante do Partido Comunista Brasileiro. Em 24 de outubro de 1975 ele foi chamado para prestar esclarecimentos no Exército, de onde não saiu com vida. A confirmação da sua morte veio no dia seguinte, quando um comunicado foi enviado para Brasília dizendo que o jornalista havia se suicidado. Tal alegação era muito comum na época da ditadura e era utilizada como forma de encobrir os assassinatos praticados pelo regime militar.

“Tinha um fato no meio desta história toda que não batia. Herzog era judeu, e os judeus que se suicidam são velados e enterrados em um local diferente dos que morrem por qualquer outra causa, e isso não ocorreu com o corpo de Vlado”, conta Elvira. Ela destaca ainda que por ter sido a única fotógrafa no local do velório e enterro do jornalista, seus registros são documentos que comprovam a mentira por parte da polícia.

Fotos da capela onde Vlado foi velado. Registo que comprova que ele foi assassinado (Foto: Elvira Alegre)

Elvira lembra ainda que quando ela e Hamilton foram avisados da morte de Vlado, ela levou consigo a câmera e saiu tirando fotos de tudo. Um de seus registros mais marcantes mostra Audálio Dantas, na época presidente do Sindicado dos Jornalistas de São Paulo, que, com as mãos na cabeça, passou 15 minutos em silêncio ao lado do caixão de Herzog. “Outra foto muito emblemática é da família de Vlado, mulher e filhos, bastante abalados durante o velório. Foi uma cerimônia muito tensa e triste”, conta a fotógrafa.

Audálio Dantas ao lado do caixão de Vlado (Foto: Elvira Alegre)

A profissional destaca também que apesar da pouca idade ela não tinha medo da ditadura, tanto que se arriscou ao fazer as fotografias. “Outro fato que me marcou muito foi a maneira como aconteceu velório e enterro de Herzog. Na época da ditadura, os mortos pelo regime eram enterrados na espreita já a despedida de Vlado foi sob os gritos da população. Para mim, aquilo era sinal de que uma reviravolta poderia acontecer e eu tinha tudo registrado”, conta.

Enterro de Vlado (Foto: Elvira Alegre)

O jornal Ex foi o único veículo de comunicação a noticiar a morte de Vladmir Herzog como assassinato. A matéria, porém, saiu sem fotos, na edição 16 do impresso, que viria a ser a última. “Todos os exemplares da edição 16 foram vendidos e fizemos uma impressão extra. Toda essa tiragem a mais foi apreendida pela repressão e a nossa equipe decidiu que era hora de encerrar as atividades, afinal não iríamos baixar a cabeça para o regime, mas também não dava mais para continuar tendo em vista as circunstâncias”, disse Elvira.

Elvira Alegre conta que suas imagens ficaram à disposição do jornal e acabaram sendo publicadas em grandes veículos posteriormente, como na Folha de São Paulo, por exemplo. Ela relata que ao abandonarem a redação do Ex levou consigo os negativos das imagens feitas no enterro e velório de Herzog. Dez anos depois, perto da data do assassinato, a Folha divulgou a foto de Audálio Dantas ao lado do caixão com uma legenda creditando a fotografia e dizendo que a imagem ficou inédita por uma década.

Para Elvira éum prazer contar a história de sua atuação no fato pois acredita que esta história não deve cair nunca no esquecimento. “Foi a partir da morte de Herzog que se iniciou uma abertura política, democrática e jornalística no país. E acho que foi por ter sido um momento tão marcante é que até hoje, 40 anos depois, ainda sou procurada constantemente para falar sobre o meu trabalho”, conclui Elvira. Ela ressalta ainda que nunca recebeu nenhuma quantia em dinheiro por essas fotos e que nem pretende, afinal o maior valor está na história que estas imagens carregam.

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