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]]>Quando chegou na faculdade, escolheu estudar na Unisinos, e optou por Jornalismo, pois ainda não existia o curso de Fotografia. Dois anos depois, a Universidade, como se ouvisse as preces de Thiéle, inaugurou a graduação na área. Não deu outra: a paixão falou mais alto, e ela mudou de curso.
Aprendeu muito com seus professores, que lhe trouxeram bagagem teórica, referencial e prática. “Sempre fomos instigados a produzir projetos e ensaios, então ajudava muito com a criatividade e com a necessidade de criar algo interessante”, conta a jovem. Dentre tantos projetos, surgiu…
“Com o nascimento de grandes aglomerados urbanos, tivemos que aprender a lidar com a ideia de multidão. Mais do que aquela que nos tromba e confronta pelas ruas, uma multidão de fisionomias que cruzam nossos olhos todos os dias. Partindo de uma fala de Walter Benjamin que diz que antes do desenvolvimento dos transportes coletivos, as pessoas não conheciam a situação de se olhar reciprocamente por minutos ou horas a fio sem dirigir a palavra umas às outras, passei a registrar os olhares de usuários de metrô. Com uma estética de close furtivo, obtida na pós-produção, desloco-os de seu local de origem, levando-os para outro espaço temporal, remontando a troca de olhares desses estranhos íntimos”
Thiéle Elissa













Foi a partir da ideia de aproveitar o tempo que passava no transporte público para fotografar e transformar as imagens em objeto de pesquisa e trabalho que surgiu o projeto Estranhos Íntimos. No início, Thiéle optou em realizar retratos mais clássicos, mas, conforme aprendia com as disciplinas, modificou o seu trabalho, chegando em uma estética de close. As imagens foram recortadas para aproximar os olhos ou detalhes dos rostos de seus personagens.
Tudo foi feito com o celular. Não interessava a presença do trem nas imagens, a artista queria apenas deslocar seus personagens para outro espaço temporal, criando uma atmosfera de sonho e devaneio. “Imagens abstratas que lembram constelações, a superfície da lua, um céu estrelado”, conta a artista.
“Ela conseguiu construir um trabalho muito coerente e consciente a partir da própria rotina dela. Como ela pegava muito trem, ela conseguiu utilizar esse tempo e essa temática para desenvolver a série”, conta Thiago Coelho, professor de Fotografia da Unisinos.
O ensaio foi finalista do Prêmio Conrado Wessel e do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia. Esteve exposto na Sala Antônio Caringi, na Secretaria de Cultura da cidade de Pelotas de 3 de setembro a 11 de outubro. O curador, Gabriel Bicho, conta, de forma poética, o que buscava com as imagens de Thiéle: “O trânsito entre a indefinição da realidade e a ampliação do significado para sustentar o que de mais explícito o trabalho da artista poderia nos dar: seu próprio discurso”.
Tem algum personagem que lhe chamou a atenção durante o desenvolvimento desse trabalho?
“Todos de alguma forma. A premissa para serem fotografados era que algo neles despertasse a minha atenção. Algo interessante que aconteceu foi rever um deles em outra ocasião no próprio trem. Pra mim, ele era tão íntimo já. Para ele, eu era desconhecida.” – Thiéle Elissa
Estranhos Íntimos foi a primeira exposição individual de Thiéle, mas a fotógrafa já havia feito outras mostras coletivas, como “Apto 202”, “Ocupação”, “Limiares” e o “Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia”, que esteve em exposição no Museu do Estado do Pará, em Belém, no ano passado.
“Apto 202” foi produzido em 2014 e 2015, chegando ao grande público em 2016, quando foi exposto na Galeria Mascate. No trabalho, a artista acompanha o cotidiano de sua segunda casa, habitada por sua tia Diná. Objetos e fotografias tornam-se retratos de sua personagem. Thiéle fez da memória sua principal ferramenta para compor a história de suas fotografias.










Atualmente, Thiéle é integrante da Galeria Mascate e também faz parte do Grupo de Estudos em Fotografia, ministrado por Tiago Coelho e Marco Antonio Filho, no Barraco Cultural, em Porto Alegre. Já recebeu menção honrosa na convocatória da Galeria Ponto de Fuga para a Bienal Internacional de Curitiba, em 2018. Também foi vencedora da 12ª edição do Projeto Vitrine do Ateliê da Imagem, no Rio de Janeiro.
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]]>“A gente fez essa proposta para que tivéssemos artistas gaúchos produzindo sobre a temática do festival. O resultado foi melhor do que esperávamos”, diz Tiago. Ele conta que esta foi a primeira experiência para Larissa, Vitória e Henrique que já foram seus alunos e destaca que os trabalhos produzidos foram de grande importância para a carreira profissional de cada um.
“Eu sempre senti um certo deboche por ter um sotaque e por ser do interior, como se eu não pudesse ocupar aquele espaço na universidade” – Larissa Hansen

Larissa, 22 anos, está no quinto semestre de fotografia e veio do interior de Tuparendi (RS). Durante os três meses de sua residência artística, ela produziu um curta-metragem acompanhando a rotina dos pais que moram no campo. A ideia era justamente quebrar o estereótipo do homem do campo como uma figura desprovida de saber. Como resultado, Larissa foi convidada a participar de uma das mesas do evento.
“Quando eu vi os outros selecionados eu entrei num estado comparativo, tinha uma galera com um portfólio muito fod*. Inclusive, um deles era professor de universidade”, conta ela. “Expor neste festival me trouxe tanto autoconhecimento quanto confiança na minha identidade artística e fotográfica”. Larissa viu que não estava sozinha e mesmo artistas mais experientes também tinham suas inseguranças.
Para ela, foi indescritível expor no FestFoto. “Foi muito massa, porque meus pais estavam lá. Quando eu mostrei meu curta e reacenderam as luzes, vi a galera secando as lágrimas, foi muito emocionante!”, conta ela. Essa emoção também vem do processo árduo de deslocamento. “Muitas vezes eu tinha zero grana para ir à Porto Alegre. Então, eu tinha que me virar”. Este desafio e o contato com outros artistas fizeram a experiência de Larissa uma das mais marcantes.
“Definitivamente, foi um momento de transição entre ser uma estudante de fotografia e ser alguém que se posiciona como fotógrafa/artista” – Vitória Macedo

Vitória Macedo conta que cada minuto foi um aprendizado para todos, independentemente da experiência como fotógrafo: “Participar da residência artística foi ótimo, pois me permitiu trabalhar com vários artistas que eu nunca pensei em trabalhar, mas que eu já acompanhava e admirava há muito tempo”, diz ela. Compartilhar seu trabalho e acompanhar o processo criativo de cada artista foi uma barreira ultrapassada para Vitória.
“Durante a residência, desenvolvi o projeto intitulado Maafa, onde abordo os atos de suicídios dos africanos durante o período do tráfico negreiro, não como sinal de fraqueza, mas como um ato de insubmissão e resistência ao trabalho escravo. Abordo também a significação do oceano Atlântico como uma passagem a um território desconhecido, e à uma vida de sofrimento, desconectada de suas raízes”, diz Vitória.
Para ela, expor no FestFoto foi uma experiência incrível e desafiadora. “Você passa a produzir com uma carga maior de responsabilidade e comprometimento sabendo que o trabalho vai ser parte de um festival tão importante”.
“Foi pensando que Eva está na origem do grande pecado, e que todas as mulheres são suas seguidoras, que propus brincar com os séculos e séculos de culpas atribuídas” – Ursula Jahn

Ursula é egressa do curso de Fotografia da Unisinos e já teve outros trabalhos expostos em galerias. “Participar da residência artística do FestFoto foi uma nova experiência linda, uma das coisas mais gratificantes que me aconteceu nesses últimos anos”, diz ela. Seu trabalho foi baseado no primeiro livro da Bíblia. Gênesis 3:5-6 é uma videoperformance sobre o fardo que as mulheres carregam até hoje, por terem provocado a primeira diáspora ao comer o fruto proibido do Paraíso.
“O ato de comer o fruto proibido, representado aqui em uma grande torta de maçãs, sugere devorar a culpa, satirizando os fundamentos da dominação masculina, em um gesto de se livrar de tudo isso. Permitir e aceitar ser Eva quando nos queriam Maria”, conta a fotógrafa. Para ela, participar da exposição foi gratificante por ampliar e dar visibilidade às intervenções feministas no campo da arte e da fotografia.
Em seus últimos trabalhos, ela conta que produziu muitos autorretratos, um processo criativo mais introspectivo e que a levava para uma zona de conforto. “A residência artística do Festfoto me fez experimentar outras possibilidades fotográficas, pensar em fazer outras coisas diferentes das quais eu fazia e dialogar e trocar conhecimentos com os demais participantes e com os tutores, o que foi essencial para o resultado final de meu trabalho”, relata.
Curtiu? o trabalho dos alunos está em exposição na Fundação Iberê Camargo até o dia 23 de junho. Não perde essa oportunidade.
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]]>Na disciplina teórica os estudantes preparam um artigo científico que traz os embasamentos necessários para justificar o trabalho prático a ser desenvolvido. Entre os projetos produzidos há aqueles que ganham destaque pelas abordagens e técnicas diferenciadas. Alguns deles, como o de Eveline Medeiros, 24, exploram questões antropológicas como o Sagrado Feminino. Outros, como o de Samuel Gambohan, 37, trabalham com fotografia de moda.
A coordenadora do curso de Fotografia, Marina Chiapinotto, diz que é comum os alunos criarem a ideia final durante as disciplinas que antecedem o Projeto Integrador. Assim, o trabalho é o momento em que é possível demonstrar a maturidade adquirida ao longo da graduação e apresentar um ensaio refinado. “É um curso muito rápido, mas esses três anos são muito transformadores, a gente tem alunos que, às vezes, que nunca pegaram uma câmera profissional na mão. E depois, no final da graduação, ele faz algo muito mais ligado à fotografia artística que tem um grau de complexidade muito diferente”, conta.
Foi o caso de Samuel, que se deparou no último semestre com uma ideia latente e decidiu transformá-la em projeto. “Eu não tinha um tema, fiquei dois semestres pensando e não descobria o que ia fazer. No primeiro dia de aula do último semestre, eu me dei conta que tinha um projeto que há muito tempo eu queria fazer”, lembra. Foi assim que nasceu o trabalho final, com um viés biográfico retratando o trabalho do figurinista porto-alegrense Déh Dullius.
O fotógrafo conta que ter momentos de incerteza quanto ao trabalho e aprender a conviver com elas foi transformador, porque através delas, foi possível compreender o que estava funcionando ou não na execução do projeto. Eveline Medeiros também enfrentou dúvidas. Ela conta que vinha conhecendo o tema desde antes do Projeto Integrador, e quando iniciou a disciplina, teve certeza do assunto, mas como representá-lo em fotografia precisou de estudos e sucessivas tentativas.
“Um ano antes eu já comecei a me integrar no tema e ir atrás. Eu já tinha algumas ideias, mas queria tudo bem desenhado na minha cabeça para começar a desenvolver e focar na prática. Eu queria que esse projeto fosse o melhor projeto de toda a graduação”, conta Eveline. Ela diz ainda que viu no projeto uma oportunidade de demonstrar todo o trabalho e aprendizado ao longo do curso, e que por isso dedicou-se completamente ao projeto.
Quem torce junto com os alunos, com o resultado dos trabalhos, são os professores do curso. Ao final do semestre, os ensaios fotográficos resultantes dos projetos dos alunos de Fotografia são expostos em uma galeria de arte. Marina conta que é o momento em que a dedicação dos professores e alunos é recompensada. “Pra gente que é professor, é maravilhoso. Eu me sinto plena em chegar na galeria e ver o material dos nossos alunos com uma qualidade para ser exposta e validado por um espaço legitimador de arte. Isso é muito importante para nós”, conta.
“É muito gratificante ver a alegria deles em ver o próprio material nas paredes de uma galeria”, expressa Marina. A emoção é dividida com os estudantes que, muitas vezes, veem suas fotografias expostas pela primeira vez. Eveline diz que a mostra foi o ponto alto, quando o projeto ganha vida e é mostrado para o mundo. “Ele virou material, virou algo vivo, que não está mais no digital, ele tá ali, a gente pode tocar. Você vê aquilo se materializar na tua frente, e foi tu que fez, e ver as pessoas absorvendo aquilo, tu meio que pare essa criança pro mundo, então foi incrível ver ele pronto”, conta a fotógrafa.

Samuel chama de indescritível a sensação de ver o projeto pronto e diz se sentir responsável pelo teor apresentado. “Eu fiquei muito feliz por que foi um trabalho com uma abordagem biográfica. Eu acho que é um trabalho com um cunho humano muito forte, então eu vejo muito como uma forma de ter dado uma contribuição para as coisas que eu acredito”, comenta. Além de colocar em prática os ensinamentos adquiridos no curso, o Projeto Integrador é a chance de trazer para a graduação ideias e desejos pessoais.
Marina fala que, devido ao seleto número de alunos, é possível fazer um acompanhamento próximo dos trabalhos e tentar conectar os estudantes a festivais e concursos de fotografia. Além disso, o incentivo para a participação e inscrição nestas oportunidades é constante para os 108 alunos do curso nos campi São Leopoldo e Porto Alegre.
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