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Arquivos Ditadura Militar - Portal da Indústria Criativa https://mescla.cc/tag/ditadura-militar/ Informação, inovação, tendências e eventos. O Mescla reúne tudo que você precisa saber sobre a Indústria Criativa. Mon, 19 Aug 2019 01:02:39 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 Hermenegildo: por dentro do documentário https://mescla.cc/2019/08/16/hermenegildo-por-dentro-do-documentario/ https://mescla.cc/2019/08/16/hermenegildo-por-dentro-do-documentario/#respond Fri, 16 Aug 2019 18:30:14 +0000 http://mescla.cc/?p=10871 Voltemos no tempo. Imaginem que a reportagem se passou em 1978, quando o Brasil vivia a ditadura de Ernesto Geisel, penúltimo militar a governar o país antes da redemocratização. Na praia gaúcha de Hermenegildo, em Santa Vitória do Palmar – perto da fronteira com o Uruguai -, uma quantidade enorme de mariscos foi encontrada morta. […]

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Voltemos no tempo. Imaginem que a reportagem se passou em 1978, quando o Brasil vivia a ditadura de Ernesto Geisel, penúltimo militar a governar o país antes da redemocratização. Na praia gaúcha de Hermenegildo, em Santa Vitória do Palmar – perto da fronteira com o Uruguai -, uma quantidade enorme de mariscos foi encontrada morta. A tragédia ambiental envolvia ainda inúmeros peixes desfalecidos. Corpos de leões marinhos também se estendiam sobre as areias.

O jornalista Marco Villalobos, à época repórter da RBS, foi um dos primeiros a chegar no litoral do extremo sul do país, junto do renomado ambientalista José Lutzenberger. Órgãos governamentais se instalaram em Hermenegildo para investigar a mortandade, e a pesca foi suspensa. Depois de alguns dias, animais maiores começaram a morrer: cachorros, cavalos, vacas. As pessoas tossiam ao se aproximar da praia, os olhos lacrimejavam e um “cheiro de amoníaco ou algo assim” tomava conta das narinas, segundo o então repórter. 

O relatório oficial conclui que se tratava da chamada maré vermelha: fenômeno que deixa o mar turvo, avermelhado, devido ao desequilíbrio na proliferação de algas. Além de mudar a pigmentação da água, o evento natural altera a oxigenação, matando os animais marinhos.

Zero Hora noticiou a divulgação do laudo do governo sobre a tragédia ambiental em Hermenegildo. (Imagem: acervo ZH)

Mas equipes técnicas que visitaram o local descobriram que não se tratava de um fenômeno da natureza. Havia uma substância tóxica que fazia mal quando inalada, nada relacionado a algas. Ao mesmo tempo, o naufrágio de um navio e os tonéis que surgiam sobre a areia, vindos do mar, colocavam em xeque a posição oficial. Era grande a possibilidade de não se tratar de um fenômeno natural. 

O que o governo perderia ao admitir o acidente? Não sendo as mortes de causa natural, a população afetada deveria ser compensada pelos militares. A dimensão da catástrofe ambiental (que, inclusive, alcançou o litoral uruguaio) traria despesas demais e complicaria a posição do Brasil frente aos países vizinhos.

Fotografia de Mario Poliseni registra o navio Taquari, naufragado próximo à costa de Santa Vitória do Palmar, em 1975
Técnicos utilizavam máscaras por conta da possibilidade de haver gás no ar, devido ao odor forte. (Imagem: O Globo)

Agora, voltemos ao presente. Cerca de 40 anos após o episódio, Marco volta à praia, não como repórter, mas como fio condutor do documentário Hermenegildo, que conta a história do ocorrido.

“Eu tinha a ideia de produzir. O que eu não queria, no primeiro momento, era ser o fio condutor. Pô, eu já fui repórter de TV. Só que, em alguns aspectos, sou um cara muito tímido. Mas eu fui convencido”, conta Marco.

Ele deu a ideia do documentário para a sua antiga colega profissional e amiga Daniela Sallet, que já possui em seu currículo outras produções documentais. Ao assistir a um de seus trabalhos, Marco procurou Daniela para conversar sobre o caso Hermenegildo. Ela topou, mas a condição para a realização do filme era ter o amigo como guia da história.

Daniela contou com a ajuda de Luise Bresolin, que cuidou da fotografia, do tratamento de cor e da finalização. “A gente já tinha trabalhado num especial sobre o Renato Borguetti. A Luise não é do jornalismo, ela é minha amizade e relação profissional do audiovisual”, lembra Daniela. Luise também esteve com Daniela em Substantivo Feminino, documentário produzido em 2017.

As duas inscreveram o projeto em um edital da Secretaria Estadual de Cultura, e conseguiram o financiamento. Assim, começava a tomar forma o que Daniela descreveu como “a história do primeiro jornalista a chegar no local e que volta à Hermenegildo pra pra buscar respostas, esclarecer pontos que não tinham sido elucidados”.

Daniela Sallet trabalhou na Bandeirantes e na RBS. Ela atua como apresentadora de eventos corporativos. (Imagem: Gabriel Ost)

No início, Marco temia o tom da história. “Bah, não podia ser assim ‘as aventuras de Marquinho 40 anos depois’. Acho que a Dani conseguiu acertar a mão”, comenta.

Primeiro, Luise e Daniela viajaram para realizar a pré-produção. Por cinco dias, buscaram residentes que vivenciaram o ocorrido na década de 70. Além disso, a dupla aproveitou para fazer contato com prefeituras, restaurantes e hotéis com o objetivo de planejar a viagem de gravação.

Elas visitaram os municípios de Santa Vitória do Palmar, Rio Grande, Pelotas e Cabo Polonio, no Uruguai. Apesar do edital não permitir nenhuma outra fonte de arrecadação, foi possível conseguir algumas parcerias, como hospedagem, alimentação e transporte.

“O projeto do documentário passou no edital do Fundo de Apoio à Cultura, que não é específico de audiovisual. Então, envolvia produção de peças de teatro, e uma parte do edital era dedicado à circulação de obras ou de projetos que já existiam. Era um edital bastante amplo em termos de projetos possíveis a serem realizados. Por ele não ser específico do audiovisual, os recursos não eram grandes, eram bastante baixos para produzir um filme. Por isso, foi muito importante a gente ir antes e conversar com esses órgãos e possíveis apoiadores para viabilizar realmente a produção do documentário”, explica Luise.

Marco e Daniela se dividiram nas pesquisas e revisaram juntos o roteiro (umas dez vezes). Terminada a pré-produção, com tudo pronto para iniciarem as gravações, surgiu um problema: a alta temporada nas praias. “Seria difícil filmar com o local cheio de turistas. Não seria uma coisa muito condizente com a época do ocorrido”, avalia Daniela. A ideia era mostrar imagens que se parecessem com a praia em 1975, quando ocorreu o incidente, com as mesmas condições. Por isso, as gravações foram remarcadas para logo após o Carnaval. Elas duraram quatro dias, tanto em Hermenegildo quanto no Uruguai.

“Outra coisa importante foi ficar de olho na previsão do tempo”, alerta Luise. Grande parte da captação era externa A equipe chegou a planejar uma data para a viagem, mas transferiu devido a chuvas intensas no litoral. A cidade ficou quase uma semana sem luz. “Ainda bem que a gente não foi, porque, se não, teríamos perdido tudo”, acredita.

Moradores entrevistados por Marco contaram detalhes do que viveram durante a tragédia ambiental (Foto: acervo pessoal)

“Um roteiro é escrito, um parecido é filmado e outro roteiro é mostrado no final da montagem. Tu não podes engessar, como uma ficção, de jeito nenhum”, ensina Daniela.

Durante o período de gravação, diversos contratempos podem ocorrer. Um pneu furado ou um entrevistado que não aparece podem atrasar as filmagens. Por ser um documentário aprovado por edital, existe um prazo de entrega do trabalho. Isso fez com que a agenda da equipe ficasse justa, necessitando de soluções rápidas para qualquer um desses problemas que pudessem ser enfrentados.

“A gente tinha planejado finalizar o projeto em cinco meses. Só não conseguimos por causa da temporada de Verão. Não que a gente tenha ficado parado, fizemos gravações em Porto Alegre, com pessoas que moram aqui, que participaram do fenômeno. Mas teria sido possível a gente fazer em cinco meses. Parte disso é por exigência do edital, outra parte é pelos baixos recursos que a gente tinha. Quanto mais o projeto se arrasta, menos viável ele fica, com poucos recursos. Então, a gente precisava fazer uma coisa bem organizada, bem planejada, para que os recursos fossem suficientes para realizar o projeto”, conta Luise.

Luise também se aventura no mundo da moda e da gastronomia como diretora, diretora de fotografia e pós-produtora. (Imagem: Gabriel Ost)

A equipe destaca que o planejamento foi fundamental para conseguirem terminar o filme. Luise conta que as gravações foram bastante leves. “Acho que isso é devido a essa organização. Todo mundo cumpriu seus prazos, ninguém teve que fazer nada na correria. Tudo foi feito conforme o combinado, porque foi um planejamento realista também, pensado para ser realizado na forma que podíamos”, diz. Diversas gravações feitas na primeira viagem não precisaram ser repetidas, poupando tempo de produção.

Marco lembra a diferença nas produções. “A gente tem que distinguir duas coisas: existe a produção de conteúdo, que é importantíssima, e a produção de administração, execução e logística”.

Além do planejamento, Luise ressalta a agilidade dos jornalistas Marco e Daniela para resolverem situações imprevistas. Cita, como exemplo, o problema que tiveram com a captação de imagens de uma boiada na beira da praia. “As tropas são movimentadas na beira da praia porque lá tem essa característica, das grandes fazendas terminarem na beira da praia. Tínhamos um turno para fazer essas gravações. Percebemos que existiam dois quilômetros entre a fazenda e o mar. Nos demos conta que não daria tempo de chegar com a tropa até a praia”, lembra.

Foi aí que a diretora teve a ideia de gravar a tropa onde estava, longe da costa, e gravar apenas os cavalos correndo na praia. “Isso foi pensado para ficar bem encaixado na edição. Não foi uma coisa resolvida na edição, foi pensado lá na hora, com muita rapidez”, acrescenta Luise.

Tropeiros participaram de cenas para o documentário. (Foto: acervo pessoal)

Com quantas câmeras se faz um documentário?

Os equipamentos usados foram duas câmeras Alpha, da Sony, modelo a7S II, e um drone. Raro foi o momento em que utilizaram iluminação artificial, até pela maior parte do material ter sido captado em ambiente externo. “Em termos de fotografia, é algo bastante mais livre do que se fosse uma obra de ficção. Um documentário a gente tem que trabalhar muito com o que se depara no momento. O plano era chegar lá e rapidamente ter o olhar da diretora de como resolver aquela cena”, revela Luise.

O documentário foi gravado em 4k, com saída full hd. (Foto: acervo pessoal)

As imagens foram gravadas em 4k, com saída full hd, permitindo a gravação das entrevistas com uma câmera apenas. “Isso possibilitou captarmos muitas entrevistas com uma câmera só e, depois, utilizar o recurso de ajuste de aproximação para os cortes nas falas dos entrevistados”, explica Luise. Essa medida auxiliou na otimização do tempo, permitindo que a equipe se dividisse durante as gravações em Cabo Polonio.

Saber quando o material filmado é suficiente pode ser difícil. Para Daniela, acompanhar a evolução dos roteiros é essencial. “Fomos com o roteiro muito bem alinhado. Confirmamos todas as gravações e notamos que tinham até, em alguns casos, imagens extras para fazer”, conta.

Segundo Luise, esse assunto não se esgota, mas é necessário dar um fim à produção em certo momento. “O mesmo vale para montagem. Pode se tornar um processo interminável, porque é muito difícil olhar e pensar que tá tudo cem por centro, sem ter nada o que mudar”, complementa.

Apesar disso, a ideia é produzir um longa com o restante do material e com o que ainda é possível conseguir. “Agora vamos em busca de parcerias, de recursos. Esse filme tá com 42 minutos e a gente ainda tem assunto, temos muito mais a investigar e ampliar as respostas que a gente busca pra esse episódio”, revela Daniela.

Daniela (esquerda) e Luise exibiram o documentário na Cinemateca Paulo Amorim. (Foto: reprodução/Facebook)

Um dos motivos para não lançarem apenas o documentário, um média-metragem, é a falta de premiações e espaço na TV para essa categoria de filme. Por isso, estão fechando um curta com o mesmo tema, porém, sem entregar tanto do recheio da história. A exibição do filme ocorreu na metade desse ano, nas cidades de Porto Alegre, Santa Vitória do Palmar, Hermenegildo e Cabo Polonio.

O documentário teve legendas em espanhol e versões de acessibilidade, que contempla audiodescrição (narração que contextualiza o que acontece na tela quando não existe fala), para o público cego, e legenda descritiva e tradução em libras, para surdos.

“Eu acho muito legal essa questão da acessibilidade. Eu nunca tinha visto, honestamente falando, mas fiquei muito comovido. Na apresentação, em Santa Vitória do Palmar, tava um frio que tu não imaginas. Lotou o Hermenegildo Praia Clube, uma sociedade local. Então, tinha muita gente, pessoas já de alguma idade, moradores e duas ou três escolas das redondezas. Aí, eles levaram acho que duas ou três moças cegas. Cara, quando terminou a apresentação, a gente sempre abre para o pessoal comentar, discordar, gostar, um debatezinho, e foi muito legal ver a alegria de uma dessas moças, que disse: ‘eu queria agradecer vocês porque eu consegui assistir ao filme’. Bah, eu me arrepiei. Se não tivesse dado nada de bom, isso aqui já bastava”, conta Marco.

Marco já atuou como professor na Unisinos e PUCRS. (Imagem: Gabriel Ost)

Luise também se emocionou com a espectadora. “Ela dizia que não gostava de filme, porque ela não conseguia entender, e aquele ela gostou. De repente, a gente plantou nela uma sementinha de ir atrás de filmes assim, com audiodescrição, e começar a gostar de filmes”.

As versões de acessibilidade se tornaram obrigatórias há pouco tempo, e o que ocorre frequentemente, segundo Luise, é o engavetamento dessas versões pelas produtoras, por julgarem não ter público para consumir. “Realmente, é um trabalho que fica bastante interessante, porque tu consegues enxergar e escutar a descrição, vê que não é literal, mas vê que é feito muito bem pensado para esse público entender e contextualizar”, completa Luise.

Ficou afim de saber mais sobre o filme? Siga a página no Facebook e acompanhe os próximos passos da equipe.

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Ditadura na tela: o ex-delegado do DOPs que hoje é pastor https://mescla.cc/2019/05/30/ex-delegado-do-dops-conta-sobre-ditadura/ https://mescla.cc/2019/05/30/ex-delegado-do-dops-conta-sobre-ditadura/#respond Thu, 30 May 2019 18:41:07 +0000 http://mescla.cc/?p=9215 É inusitado que um documentário sobre a ditadura militar no Brasil seja descrito como uma história de amor. Ainda assim, é dessa forma que a documentarista, pesquisadora e produtora audiovisual Beth Formaggini descreve o próprio trabalho. O filme conta a história de Cláudio Guerra – ex-delegado do Departamento da Ordem Política e Social (Dops) do […]

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É inusitado que um documentário sobre a ditadura militar no Brasil seja descrito como uma história de amor. Ainda assim, é dessa forma que a documentarista, pesquisadora e produtora audiovisual Beth Formaggini descreve o próprio trabalho. O filme conta a história de Cláudio Guerra – ex-delegado do Departamento da Ordem Política e Social (Dops) do Espírito Santo e ex-agente do Serviço Nacional de Informações (SNI).

Conhecido como Pastor Cláudio, nome que deu origem ao título do documentário, o agora bispo evangélico descreve com detalhes o trabalho que exerceu durante os anos de ditadura, em especial na “Operação Radar” (1973-1976). Entre as funções como delegado do Dops,  estava a de descartar corpos de torturados e desaparecidos políticos. Um dos métodos que o atual pastor contou ter utilizado foi a incineração.

Os detalhes vieram à tona em uma sala escura, lotada por quatro câmeras e um projetor. A entrevista para o documentário foi filmada e dirigida por Beth, porém conduzida por um pesquisador com experiência em tratamentos relacionados às vítimas de violência, sejam elas físicas ou psicológicas, especialista na escuta de pessoas, o psicólogo Eduardo Passos. Durante quatro horas, Cláudio Guerra relembrou os tempos do regime militar, revelou o paradeiro de vítimas da ditadura e disse ter encarado alguns dos fantasmas que o acompanham há mais de 40 anos.

Trailer do documentário “Pastor Cláudio” / Vídeo: Youtube

Mas afinal: por que uma história de amor?

A diretora do documentário Beth Formaggini, sem saber, teve o primeiro contato com a história do ex-delegado Guerra em 2007, quando produziu seu primeiro longa sobre a ditadura: “Memória para Uso Diário”. Foi com esse trabalho que ela conheceu Ivanilda da Silva Veloso, uma das mulheres que tiveram os seus maridos assassinados pelo regime militar.

Ivanilda era esposa de Itair José Veloso, com quem teve quatro filhos. No documentário,  Beth acompanha a viúva e sua incessante busca atrás de pistas que indicassem o paradeiro do marido desaparecido durante o AI 5. No decorrer dos 94 minutos de filme, surge uma possível explicação para o ocorrido: Itair teria sido preso pela Operação Radar.

A história de Ivanilda, mesmo após o documentário, não saiu dos pensamentos de Beth. Cinco anos após se conhecerem, a produtora encontrou uma segunda pista. O livro “Memórias de Uma Guerra Suja”, lançado em 2012 e escrito por Rogério Medeiros e Marcelo Netto, trazia algumas declarações de um ex-delegado do Dops que participara da Operação Radar: Cláudio Guerra.

“Eu procurei a viúva e falei para ela: olha, Ivanilda, eu li um livro que tem aqui um pastor que assassinou um membro do partido comunista que morreu na mesma operação que o teu marido. Aí eu falei para ela: vou procurar ele para ver se sabe alguma notícia do Itair ” – conta Beth.  

Pastor Cláudio observa imagem do partido comunista brasileiro
Pastor Cláudio durante a gravação do documentário em 2015 / Foto: Reprodução

A entrevista que originou o documentário foi feita após Beth captar recursos junto a editais e outras parcerias. A gravação entre o ex-delegado e o psicólogo foi feita em único dia, ao longo de quatro horas, em 2015. Nessa entrevista, o então agente foi questionado sobre o paradeiro de 19 vítimas – uma delas sendo Itair. Cláudio Guerra apresentou uma história distinta daquela tida, até então, como a oficial.

O material produzido em 2015 foi utilizado para fazer dois filmes. Um deles, um curta-metragem lançado no mesmo ano, chamado “Uma Família Ilustre”, revela a história da Operação Radar. O segundo filme, lançado em 2019, é o longa-metragem “Pastor Cláudio”.

A história da vítima 155  

Itair Velozo, uma das vítimas da ditadura

Sindicalista e integrante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Itair José Veloso nasceu em 1930 em Faria Lemos (MG). Tinha 45 anos quando desapareceu. Informações oficiais apontam que ele foi levado por agentes do DOI-CODI/SP, preso por praticar crimes de atividades subversivas em nome do PCB.

O nome de Itair consta nos registros da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Ele é o número 155 de uma lista com 362 vítimas. O texto da Comissão  traz o depoimento do sargento Marival Chaves em uma entrevista dada à revista Veja em 1992. Segundo o sargento, Itair teria morrido devido a tortura (choque térmico). O corpo, junto de outros, foi jogado da ponte do Rio Novo, em Avaré (SP).

A versão do agora pastor Cláudio foi outra. Na época em que era delegado do Dops e agente do SNI, Guerra foi um dos militares que participaram da Operação Radar – o movimento militar responsável pelo sequestro de Itair e outras 12 vítimas, todas do partido comunista brasileiro. Eles teriam sido torturados, mortos e levados até Guerra. O ex-delegado contou que incinerou as vítimas na Usina de Açúcar de Cambaíba, em Campos dos Goytacazes (RJ), cerca de 280km da capital do estado carioca. Apesar de ter tido a responsabilidade de dar destino aos corpos, Cláudio Guerra matou pelo menos uma das vítimas – Nestor Vera. Segundo o ex-delegado, Nestor encontrava-se extremamente ferido após uma sessão de tortura. O ex-delegado caracterizou o disparo contra a vítima como um “gesto de misericórdia”.

São duas versões para os mesmos assassinatos, mas as documentações oficiais, disponíveis no site da Comissão e publicados pelo Diário Oficial da União (DOU), não levam em conta as revelações do ex-agente do SNI, conhecidas desde 2012, a partir da investigação disponível no livro “Memórias de Uma Guerra Suja”. Nem Itair nem Nestor foram, oficialmente, queimado e morto pelo atual pastor.

Cláudio observa a viúva de Itair
Ivanilda da Silva Veloso, a viúva de Itair / Foto: Reprodução

A historiadora e o algoz

Visitar este período tão difícil da história brasileira não foi tarefa fácil para a documentarista. O trabalho de Beth teve duração de 1 ano e 4 horas. Um ano de preparação, quatro horas de entrevista. Cláudio Guerra, segundo Beth, aceitou prontamente ser entrevistado já no primeiro convite. A documentarista não se encontrou com o pastor antes ou depois do dia da gravação. O único contato presencial foi durante a gravação da entrevista, como diretora de cena:  “Estar trancada dentro de um estúdio com uma pessoa que revela ter cometido violações tão graves é uma experiência muito dolorosa, muito difícil”, revelou a produtora.

Apesar das dificuldades emocionais de voltar ao passado, Beth, que é historiadora de formação,  entende ser fundamental revisitarmos o regime militar de nosso país. Para ela, conhecer a história é uma forma de evitar que graves violações, como a tortura, se repitam no presente.

Pastor Cláudio sentado. Ao fundo, imagens de vítimas da ditadura.
Ex-delegado do Dops, Cláudio Guerra explica o assassinato de Nestor Vera / Foto: Reprodução

Beth vê necessidade de debater o período de 21 anos (1964 – 1985) também em função dos movimentos que pedem pelo retorno do regime militar. “Acredito que grande parte das pessoas que pedem a volta da ditadura, é pura falta de informação. Esse filme vem para ajudar as pessoas a se informarem e a debater a história. E isso não é crime”, argumentou.

Um documentário sobre ditadura: da teoria à prática

O “Pastor Cláudio” foi financeiramente produzido pouco a pouco. Isso explica o gap entre o lançamento do curta e a estreia do longa. Foram quatro anos de trabalho para finalizar a obra. Tudo começou quando a historiadora ganhou dois editais da RioFilme. O dinheiro desses editais somado a parcerias comerciais mais finanças da 4Ventos (produtora de Beth) bancou a história do bispo evangélico.

Equipamentos utilizados por Beth / Ilustração: Acrides Júnior

Lá no site da 4Ventos, você pode assistir de graça dois dos documentários sobre a ditadura militar: “Memória para Uso Diário” e “Uma Família Ilustre”.

Fontes de inspiração

De todo o material pesquisado, Beth destacou alguns livros e documentários que a auxiliaram durante essa jornada. No card abaixo, destacamos alguns deles:

Foto 1 – Livro “A banalidade do Mal”;
Foto 2 – Todos os documentos e vídeos disponibilizados no site da Comissão da Verdade;
Foto 3 – Livro “Como filmar o inimigo”;
Foto 4 – Documentários como “A Imagem que Falta” e “Duch, o mestre das forjas do inferno”;

Ilustração: Natan Cauduro

Essa aqui é a equipe responsável pela produção do documentário:

Equipe que trabalhou na produção do documentário / Ilustração: Natan Cauduro

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Redes sociais viram local de ativismo político https://mescla.cc/2018/10/18/redes-sociais-viram-local-de-ativismo-politico/ https://mescla.cc/2018/10/18/redes-sociais-viram-local-de-ativismo-politico/#respond Thu, 18 Oct 2018 18:03:52 +0000 http://mescla.cc/?p=8241 Patriotismo e fascismo. As palavras não são inversas, tampouco carregam significado em comum, mas o binarismo exposto nos sites de redes sociais parece obrigar as pessoas a escolherem um deles. Desde antes das eleições, o segundo turno vem sendo desenhado por opostos, onde Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL) pareciam ser as únicas alternativas para […]

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Patriotismo e fascismo. As palavras não são inversas, tampouco carregam significado em comum, mas o binarismo exposto nos sites de redes sociais parece obrigar as pessoas a escolherem um deles. Desde antes das eleições, o segundo turno vem sendo desenhado por opostos, onde Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL) pareciam ser as únicas alternativas para o posto de próximo presidente do Brasil. De fato, foram eles os eleitos para o segundo turno eleitoral, mas os meios digitais profetizavam isso há tempos.  

No dia 29 de setembro, uma semana antes do dia da votação, milhares de pessoas saíram às ruas em um movimento organizado na internet. A hashtag #elenão esteve no trending topics do Twitter por dias seguidos, e o resultado nas ruas não deixou a desejar ao comparar-se com o ativismo em rede. No lado oposto, uma multidão de usuários enchia as redes com a hashtag contrária, a #elesim. De um lado, pessoas que afirmavam escolher qualquer um para o cargo máximo do executivo nacional: menos ele. Do outro, fãs do candidato que rejeitam as demais candidaturas afirmando que ele seria o eleito, sim.  

Com um sistema binário desenhado no país, os demais 11 candidatos disputavam a atenção do restante do eleitorado. O grupo “Mulheres Unidas contra Bolsonaro”, hospedado no Facebook, reúne pouco mais de 3,8 milhões de membros mulheres. A mobilização partiu de um grupo que repudiava as declarações preconceituosas feitas pelo candidato. Além do grupo, diversas comunidades levantaram-se contra a eleição de Bolsonaro, propagando ideias como hashtags e imagens com frases do tipo “fascismo não”. 

Imagem utilizada pelo grupo “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro” para organização dos atos do dia 29 | Imagem: Reprodução

Evelyn Mendes, analista e desenvolvedora de sistemas, é administradora do grupo “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro RS”, que engaja cerca de 15 mil pessoas na rede social.  Ela acredita que a rede social não é mais distinta da vida real das pessoas, que elas vivem o digital como uma extensão do seu dia.  “Todo mundo está online, mesmo sem Facebook ou Twitter, você está conectado de alguma forma”, conta. 

Ela ainda acredita que, para além das movimentações políticas em rede, o grupo, em específico o que ela administra, foi criado como uma forma de comunicação, conscientização e mobilização feminina, visando a informação e não somente o repúdio ao candidato. E, por isso, Evelyn não acredita que o movimento termine com o findar da eleição. “É muito mais do que isso, é um movimento de conscientização, que vai durar. Você consegue se conectar com as pessoas, se comunicar e isso está ajudando elas a se organizarem, seja pelo bem ou pelo mal”, explica. 

Iara Jaqueline Baldissera é estudante de Jornalismo e utiliza o Facebook para posicionar-se politicamente. Do outro lado da hashtag, ela traz seu feed de notícias recheado de vídeos, fotos e mensagens de apoio a Jair Bolsonaro, deixando claro o seu posicionamento. Ela aponta que viveu a infância em um Brasil saindo da Ditadura Militar, período em que imaginar espaços de convivência digitais era utopia. Ela vê as redes sociais como meios democráticos, onde é possível expressar-se e organizar uma mudança social.  

Acreditando que o candidato é alguém que se levanta contra o sistema, não acredita que Bolsonaro seja “tudo isso” que falam sobre ele, e que mesmo não apoiando todas as suas ideias, foi ele quem lhe devolveu um sentimento de patriotismo há tanto perdido. É por isso que utiliza o Facebook como forma de militância, buscando reverberar esse mesmo sentimento nas demais pessoas. “Como tudo, temos que ter responsabilidade, bom senso. Eu tenho na minha família pessoas que pensam muito diferente de mim, nem por isso excluí, nem por isso ofendo, nem por isso critico as postagens que fazem, que são extremamente opostas as minhas. Até agora prevaleceu a educação e o respeito”, relata. 

Imagem que circulou nos sites de redes sociais declarando apoio ao candidato Bolsonaro | Imagem: Reprodução

Quem acompanhou o assunto, sob uma perspectiva acadêmica e militante foi Christian Gonzatti, doutorando pela Unisinos, ativista relacionado a questões de gênero e LGBTQ+ e pesquisador da área. Ele explica que, historicamente, o sistema ocidental é binário, trazendo sempre a ideia de opostos: homem e mulher, masculino e feminino, razão e emoção, #elesim e #elenão. Para o pesquisador, esse binarismo causa nas pessoas uma dificuldade de complexificar dados. 

“As pessoas começaram a ler tudo como uma disputa de divas pop, ou de uma partida de futebol, quando na verdade o que está em jogo é um projeto de civilização. E o triste é que são esses dois extremos que vão ser reverberados na rede, que vão gerar uma série de disputas de sentido”, conta. Christian ainda traz a ideia de que neste contexto eleitoral o candidato Bolsonaro é visto como um salvador caso o Partido dos Trabalhadores retorne ao poder. Do outro lado, encabeçando os movimentos do #elenão, existe a luta pela não legitimação de um discurso preconceituoso do candidato do PSL.

 

Ciberacontecimento 

Os movimentos políticos surgidos a partir do #elenão podem ser configuradas como um ciberacontecimento, que são acontecimentos que emergem na sociedade a partir do uso dos sites de redes sociais. Christian explica que a partir da utilização de hashtags, os grupos se organizam em diferentes plataformas e passam a articular rede e rua. 

Christian vivenciou sua pesquisa em uma das manifestações, quando exibiu um cartaz relacionando um dos candidatos a Voldemort, personagem icônico da saga Harry Potter, e acabou sendo amplamente compartilhado nas redes. “Está totalmente implicado a rede, no sentido em que eu já conhecia o cartaz em inglês, de uma manifestação relacionada ao Trump (presidente americano) muito parecida, então eu faço uma releitura dele no nosso contexto através da rede e levo ele para a manifestação. Da manifestação, ele retorna a rede”, conta.  

Christian Gonzatti participando da manifestação #elenão Imagem: Arquivo Pessoal

Houve também uma pressão popular para o posicionamento de artistas e celebridades quanto ao uso de hashtags apoiando, ou não, o movimento inicial. A cantora pop Anitta foi um dos alvos dessas reivindicações. O pesquisador entende que a cobrança por parte do público se dá devido a potência que estas pessoas têm de pautar as discussões da sociedade. Algo muito parecido também foi experimentado pelo, na época candidato, Donald Trump, que viu o crescimento das intenções de voto seguido de protestos e posicionamentos de artistas locais e mundiais.

 

E o jornalismo nisso tudo? 

Gonzatti é muito crítico quanto à responsabilidade que o jornalismo carrega em relação ao binarismo encontrado nas redes, e que tem pautado estas eleições. Para o pesquisador, existe uma problemática muito grande quanto as instituições jornalísticas não conseguirem problematizar e complexificar o cenário atual, o que acaba por reforçar a existência de somente dois lados: o #elesim e o #elenão.  

“É mais uma vez esse jornalismo sendo potencializador desse cenário violento, por essas noções de imparcialidades, por essas noções de que o jornalista precisa só ouvir os dois lados sem complexificar os acontecimentos, que vai narrar a os fatos em uma dimensão muito rasa, sendo conivente com esse cenário binário”, explica Gonzatti.  

O jornalismo vem sendo frequentemente deslegitimado enquanto instituição. Não é incomum ver portais de notícias, ligados a grandes veículos de comunicação, sendo acusados de defender um ou outro lado da disputa. Para o pesquisador, o jornalismo se encontra em meio a uma crise, explicitada neste processo eleitoral e que o momento é de repensar o papel social das instituições jornalísticas.

 

As incansáveis Fake News 

Imagem: Reprodução/Unsplash

A Agência Lupa, que atua na checagem de fatos, apontou que as dez notícias falsas mais populares entre os leitores tiveram mais 865 mil compartilhamentos no Facebook. Entre os conteúdos compartilhados, predominam vídeos descontextualizados, imagens manipuladas e teorias da conspiração. Gonzatti trata o assunto, junto ao seu grupo de pesquisa, como “colapso informacional”.  

Estas informações falsas e manipulações são utilizadas com o intuito de deslegitimar grupos contrários. “Ocorre um colapso informacional, discussão que traz como a informação vem sendo distorcida, vem sendo esvaziada, dando espaço para essa reverberação de fake news, que, no caso do grupo (Mulheres Unidas contra Bolsonaro), tem sido utilizada para deslegitimar a mobilização”, fala.  

Na tarde de quarta-feira, 17, o Tribunal Superior Eleitoral, na figura da presidente ministra Rosa Weber, recebeu para uma reunião os representantes das campanhas de Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). O propósito do encontro era discutir a disseminação de notícias falsas e firmar um acordo para não propagação delas. Estudos preliminares já indicam que as fake news poderão influenciar nos resultados destas eleições.

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