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Repórter do Grupo Bandeirantes RS, Matheus D’Ávila é egresso da Unisinos. Formado em 2016, ele começou a sua carreira ainda quando era estudante, como estagiário na Rádio Guaíba. Após dois anos, transferiu-se para a Rádio Grenal, da Rede Pampa. Em 2017, estreou como repórter da equipe de esportes da Rádio Bandeirantes RS. Aos 28 anos, Matheus é um dos integrantes do programa “Donos da Bola RS” e possui um canal no YouTube chamado “A Dupla”, em que fala sobre Grêmio e Inter, ao lado do colega de profissão Thaigor Janke.
Matheus foi entrevistado no final de 2021 para a atividade de Profissão Jornalista, do curso de Jornalismo da Unisinos. No bate-papo, realizado por videochamada, o jornalista conta detalhes de sua carreira, revela bastidores da profissão e conta como entrou para o mundo do jornalismo esportivo. Confira:
Luísa Bell — Como foi a vida de estudante? Tu sempre quiseste fazer jornalismo ou tu tinhas outra coisa em mente?
Matheus D’Ávila — Eu sempre quis fazer jornalismo. Na verdade, eu fiz um cursinho pré-vestibular quando estava no Ensino Médio, naquelas de ‘pô, será que jornalismo vai ser uma boa?’. Eu tinha uma visão de que, para ser jornalista, era preciso ter alguém para te indicar, para você entrar no meio e trabalhar. E isso me assustava muito, por eu ser de uma família mais humilde. Então, não tinha como alguém me colocar no meio, e eu pensava: “Cara, eu vou fazer uma faculdade, pagar um dinheirão, fazer financiamento, FIES, um monte de coisa e eu não vou ter uma pessoa para me indicar. Vou ficar com uma dívida enorme e eu não vou conseguir trabalhar. Então, eu não vou fazer essa palhaçada. Vou é fazer administração. Na dúvida, é administração”. Mas eu não sou nada bom em números. Eu adoro rádio, desde pequeno. Desde os meus 9 anos, eu ia para o colégio ouvindo rádio. Aí fiz o vestibular da Unisinos e entrei no curso de Jornalismo assim, mas entrei com medo! Achei que eu não fosse me adequar, de ter uma oportunidade de entrar para o jornalismo esportivo, que era meu sonho.
Luísa — O que te fez escolher o jornalismo esportivo?
Matheus — Eu sempre fui, desde menino, muito ligado ao futebol. Eu era um torcedor, gostava de acompanhar, e eu ouvia aquelas pessoas no rádio. Eu assistia a Band, que era o canal aberto que mais falava de futebol, e escutava bastante a Rádio Gaúcha. Eu cresci com aqueles caras no meu ouvido. Apesar de ser jovem, não tinha a rede social como é hoje. Então, eu não conhecia o rosto daqueles caras que eu ouvia. Eles eram apenas vozes para mim. Eu pensava: ‘Pô, um dia, eu vou cruzar com o Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha, e eu não vou saber como é a cara dele!’. Eu era meio assim, meio aficionado, e foi isso que fez com que eu quisesse estudar jornalismo esportivo: pela admiração que eu tinha por aqueles caras que, naquela época, eram só vozes.
Luísa — E como é a experiência de trabalhar com rádio? Quais são os maiores desafios?
Matheus — Eu comecei na Guaíba. Fiz os dois anos de estágio lá durante a faculdade. Eu deixei a emissora num momento de transição, durante a saída do Luiz Carlos Reche. Fui para a rádio Grenal, que era um projeto novo, que ainda estava tentando se firmar. E foi lá na Grenal que eu me afirmei! Eu fui contratado, consegui pela primeira vez dar os passos mais importantes de construção de nome, de afirmação no mercado. Foi um período muito mágico, porque pude me descobrir de fato. Tudo que eu aprendi na Guaíba coloquei em prática na Grenal, com uma liberdade muito maior. Talvez, por ser uma emissora menos tradicional e com muitos jovens, tínhamos muito espaço e liberdade. Foi um grupo que encaixou bem legal na época. O nosso maior desafio hoje, como jornalista esportivo, é saber filtrar o que é notícia e o que não é, o que, talvez, tenha sido o desafio de toda a geração de jornalistas do passado. Mas hoje temos uma carga muito maior de informações para filtrar e desmentir, principalmente.

Luísa — E como é participar do “Donos da Bola”? Poderia nos contar um pouco sobre os bastidores do programa?
Matheus — Um elogio que eu sempre gosto de fazer para o Leonardo Meneghetti [diretor-geral da Band RS] é que ele nos dá muita liberdade. Ele é um cara de outra geração, com uma visão muito avançada, e ele nos permite isso também. Então, a gente faz enfrentamentos com profissionais como o Fabiano Baldasso, o Meneghetti e o Ribeiro Neto, caras com uma longa trajetória. A gente cresceu ouvindo eles, e eles nos dão essa liberdade para podermos colocar também o nosso lado. Não tem nada ensaiado. O Meneghetti até nos proíbe de falar de futebol antes do programa, porque ele acha que temos que guardar para o debate. Então, a gente fala sobre música, séries, qualquer coisa menos sobre futebol quando a gente está alinhado ali, que é justamente para não ter nada de jogada ensaiada. É mais ou menos assim que funciona os bastidores.
Luísa — Tu tens um canal no YouTube chamado “A Dupla”, ao lado do colega de profissão Thaigor Janke. Como foi que surgiu essa ideia?
Matheus — O YouTube começou a ser explorado de uma forma mais jornalística pelo João Batista Filho, que é aqui da Band, inclusive. O João tem canal há muito tempo. Acho que aqui no Rio Grande do Sul, ele foi o primeiro a explorar. Aí tem o Baldasso, que é um cara super consagrado na internet, tem o César Cidade, que fala do Grêmio e que faz muito sucesso no YouTube. E a gente foi vendo esse espaço sendo explorado e nós não tínhamos um canal. O César que disse: ‘Pô, vocês têm que criar, vocês trabalham com informação, a gente se alimenta muito de vocês, a gente vive citando vocês, mas vocês não estão lá’. E o Thaigor e eu conversávamos o seguinte: ‘Cara, já tem muito canal lá. A gente vai entrar e vai fazer a mesma coisa, cada um vai criar o seu, aí a gente vai criar concorrência e não vamos a lugar nenhum’. Até que, um dia, conversando, falamos: ‘Tá, então, por que a gente não se junta e tenta fazer o canal com mais informações por dia sobre a dupla Grenal?’. Trabalhamos com informação, não com opinião. Criamos “A Dupla” em agosto de 2021. Deu super certo. Em três meses, conquistamos 40 mil inscritos, e está crescendo muito. Claro que é um espaço de exposição e de divulgação do teu trabalho, e isso conta muito para gente, mas tem o lado financeiro, que não se pode descartar. Hoje, o jornalista tem um salário extremamente defasado, e a Band nos dá essa liberdade de ter outras opções de renda, por exemplo. Tem empresa que não aceita que você tenha um canal no YouTube, um negócio que é próprio. A Band aceita e incentiva.
Luísa — O que tu achas que é necessário para se realizar uma boa reportagem?
Matheus — Coisa que a gente não tem: tempo! Uma boa reportagem necessita de tempo. No jornalismo esportivo, trabalhamos com muita informação de bastidor, é cultura do esporte isso. A gente dá muita importância para essa fonte de bastidor, que, por vezes, pode nos levar ao erro. No nosso trabalho, lidamos com muito rumor, tentativa de encontrar aquela agulha no palheiro para buscar uma confirmação. Então, é preciso ter tempo, paciência e calma para não cair na onda de dar algo porque os outros estão dando. Tem muita gente palpitando na internet e que está te pautando, e, às vezes, na ânsia de tentar dar uma resposta, tu podes embarcar numa furada e acabar cometendo uma gafe muito grande.

Luísa — Como é ser o repórter setorista do Grêmio?
Matheus — Aqui, no Rio Grande do Sul, a gente não tem o costume de ter setoristas fixos no rádio. Geralmente é rotativo. A minha escala sempre foi: ‘Hoje vou fazer Grêmio, Grêmio amanhã, mas sexta-feira vou fazer Inter, sábado também’. Trabalhei com os dois clubes por muito tempo, mas só que, aqui na Band, nós éramos uma equipe maior. Com a pandemia, ficou basicamente três repórteres. Aí, a gente sentou e disse: ‘Vamos fixar, porque não vai ter treino e não faz sentido ficarmos revezando. Vamos criar especialistas aqui e cada um cuida de um time’. E foi o que fizemos, e deu muito certo para nossa dinâmica de trabalho, porque facilitou muito. Hoje eu sou repórter de Grêmio e a galera já me conhece lá dentro. Mas uma coisa é você ser conhecido pelo dia a dia, outra coisa é você ser reconhecido por ser um repórter de Grêmio. Pode parecer nada, mas tem uma diferença. Então, foi muito bom.
Luísa — E como você lida com as críticas feitas por torcedores?
Matheus — Lido muito tranquilamente e normalmente não respondo. É normal do trabalho, a gente é muito vitrine e acho que nem deveríamos ser tanto assim, porque nós não somos a notícia. Mas eu cuido do Grêmio, que vive uma fase extremamente complicada, e eu tenho me envolvido em pequenas polêmicas com o clube nos últimos anos, por conta de entrevistas. Nem é minha ideia me envolver, mas, talvez, pela forma que a gente trabalha, pela linha editorial, nós somos mais críticos e mais duros aqui. Os caras do clube acabam levando para um lado mais pessoal. Eles nos apontam mais, criticam mais, falam que a gente tá querendo o mal deles, e tem gente que compra essa ideia. A gente trabalha sendo xingado e é bem natural, levamos super na boa, porque, da mesma forma que tem gente nos vaiando, tem quem nos apoia.
Luísa — Quais foram os momentos mais especiais da tua carreira até hoje?
Matheus — A primeira vez que eu andei de avião foi por causa do jornalismo, por conta do meu trabalho. Então, para mim foi muito especial. O jornalismo me permitiu conhecer lugares. Hoje eu conheço vários países sul-americanos, já viajei bastante. É muito especial cobrir o Grêmio e o Inter, porque eu me criei assistindo, falo com jogadores que, talvez, seja aquele sonho de criança. Eu idolatrava o cara lá atrás e agora tenho a oportunidade de conversar com ele por telefone. Eu tenho uma reportagem que me dói até hoje. Ficamos em segundo lugar no Prêmio Ari de Jornalismo. Era sobre torcidas organizadas. Fiz na Rádio Grenal junto com o Diogo Rossi e o Carlos Lacerda. Foi uma baita reportagem. Nós fomos nas sedes das torcidas, falamos sobre violência nos estádios e de como isso não é reprimido. Fizemos uma matéria também aqui na Band sobre o acidente da Chapecoense, da falta de auxílio do clube com as famílias, a tentativa de posicionar a Chape como uma vítima, quando, na verdade, a vítima eram as pessoas. Foi uma matéria bem dura, que também nos rendeu muita crítica do clube, mas que repercutiu legal aqui no Estado e em Santa Catarina.

Luísa — Tu achas que um jornalista esportivo assumir para qual time torce é um problema?
Matheus — Acho que não, sendo um comentarista esportivo. A gente tem muitos exemplos disso. Agora, sendo um repórter, eu acho que pode ser um problema. Não por conta de você ser repórter. Hoje o presidente do Grêmio sabe para que time eu torço e o presidente do Inter também sabe. A gente não esconde isso deles. É óbvio que eu não chego lá e digo: ‘Oi, tudo bem? Sou o Matheus e torço para tal time’. Mas, em conversas, a gente é muito transparente. No “A Dupla”, a gente brinca muito sobre isso. A galera tem a curiosidade de saber para quem, Thaigor e eu, torcemos, e não vamos dizer. Primeiro, porque não vamos ganhar mais nada com isso, talvez só mais críticas. Segundo, porque não interfere em nada no nosso trabalho. E também porque é bem divertido ficar vendo a galera chutando e xingando. Então, a gente brinca muito com isso de “nosso Inter” e “nosso Grêmio”. Acho que vai ser um processo natural, mas acho que é um tabu que vai ter que ser quebrado em algum momento.
Luísa — Tem alguma dica para dar aos futuros jornalistas que queiram seguir na área do jornalismo esportivo?
Matheus — Sim, tenho. Primeiro, não caia no conto do vigário de que precisa ter ‘QI’. Eu fiz um curso de jornalismo esportivo na sede da Associação de Colunistas Esportivos. Nele, o Aroldo dos Santos, que era o presidente da entidade na época, disse que tinha uma vaga na Guaíba e me indicou para o Reche, que me contratou. Segundo ponto: tem que gostar muito de trabalhar e saber que financeiramente nós não somos valorizados. O nosso diploma, por vezes, é contestado, mas ele é muito importante e a gente tem que valorizar ele. Se a gente não valorizar, ninguém vai. E tem que acompanhar, tem que estar muito esperto. Se tu quer ser jornalista esportivo, tu tens que assistir futebol, tem que deixar de lado o amor pelo teu clube – pelo menos precisa respeitar o outro lado, porque os dois são muito importantes e não dá para construir no Rio Grande do Sul uma carreira achando que um tem que acabar. Mas a minha mensagem principal é: não precisa de QI, cara! É só entrar, estudar e agarrar a oportunidade que tiver.
(*) Aluna de Jornalismo. A matéria foi produzida originalmente no segundo semestre de 2021 para a disciplina de Profissão Jornalista. Todas as informações foram atualizadas recentemente por Luísa.
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Rener Oliveira, 25 anos, trabalha com comunicação desde 2013, e já atuou em áreas diversas, como assessoria de imprensa, social media, portais de moda e notícia, revistas, coluna social e audiovisual. Morador de Natal, no Rio Grande do Norte, atualmente ele é redator-chefe da Nordestesse, plataforma colaborativa que busca fomentar a Indústria Criativa no Nordeste, com foco em moda, design, artes visuais, gastronomia e hotelaria.
Formado em Jornalismo pela Universidade Potiguar (UnP) e pós-graduando em Comunicação, Marcas e Consumo, Oliveira relembra o começo da trajetória profissional e fala sobre os principais desafios do jornalismo de moda atual, desde apropriação cultural até as relações do jornalismo com a publicidade. A entrevista foi realizada de forma remota. Confira:
Laura – Qual a sua primeira memória com o jornalismo de moda?
Rener – A memória mais antiga vem da infância. Na loja da minha tia, que revendia peças da Colcci, a gente recebia muitas revistas institucionais. Na época, a Gisele [Bündchen] era garota-propaganda da marca, e uma das capas me marcou. Guardo ela até hoje. O contato com os textos das revistas despertava em mim esse interesse por jornalismo, mesmo que eu ainda não soubesse disso, de maneira indireta. Minha paixão sempre foi moda, e quando vim morar em Natal, a faculdade de Moda já não existia mais. Uma das recordações mais importantes e significativas é de quando compareci a um evento no Teatro Riachuelo, em 2013. Através de um amigo que trabalhava lá, fiquei sabendo que estava acontecendo o movimento HotSpot, uma incubadora de novos talentos que existia dentro da SPFW [São Paulo Fashion Week]. Era uma feira itinerante que rodava algumas capitais do Brasil. Então, com 16 anos, coloquei em uma pastinha meus desenhos de moda e fui. Lá, conheci nomes importantes, em especial o Paulo Borges, idealizador do SPFW. Foi graças ao evento HotSpot também que tive a minha primeira oportunidade de escrever sobre moda através de uma indicação. Então, passei a me interessar e me encontrar cada vez mais no jornalismo.
Laura – Durante o período de formação, você já sabia em que área do jornalismo queria atuar?
Rener – Dentro da faculdade, eu fazia de tudo para falar sobre moda, mesmo que, às vezes, eu fosse quase “obrigado” a variar o assunto. Embora nunca tenha existido pretensão alguma de atuar em qualquer outra área dentro da comunicação, me permiti tentar [outras], mas percebi que aquilo não era o que eu queria por não me identificar.
Laura – A moda brasileira se concentra no Sudeste, em São Paulo, mais especificamente. Como é para você acompanhar a ascensão do Nordeste como um polo promissor no Brasil?
Rener – Tem sido um momento de redescoberta para mim também, pois eu estaria mentindo se dissesse que sabia de tudo que existe no Nordeste depois que comecei a trabalhar para a Nordestesse. Acho que vivemos tanto a nossa própria rotina que, muitas vezes, não dá tempo de você explorar. Nesse momento, a Nordestesse tem sido um grande marco para mim, pois estou descobrindo e aprofundando um conhecimento que até então era muito superficial. Hoje, vejo essa ascensão da moda “made in Nordeste” já nascendo grande, com potencial. Entendo que a Nordestesse vai ser uma das grandes responsáveis por redescobrir a região, porque toda essa influência que a Daniela Falcão [idealizadora da plataforma digital] tem devido, principalmente, à sua trajetória, impulsiona esse movimento. O eixo Rio-São Paulo ainda é muito forte, mas já é, sim, possível perceber a inserção do Nordeste na Fashion Week, por exemplo. Marcas nordestinas, designers pretos estão ganhando espaço. Apesar de ser apenas um começo, ele já é muito bacana. E não se limita ao Brasil, pois a moda nordestina já marcou presença na semana de moda de Milão [Itália]. Outra preocupação é que as marcas do Nordeste não reconhecem seu próprio valor, dessa forma acabam desvalorizando seu trabalho. Estamos em um momento de efervescência, para que esses impactos sejam gerados de uma maneira confortável para toda a cadeia de produção, não só para quem vende, mas para quem faz também.
Laura – Qual o limite da apreciação e da apropriação cultural?
Rener – É um assunto muito delicado, pois existe uma linha tênue. Vemos essa cultura de perfis de denúncia, como o Diet Prada, que acabam promovendo um certo linchamento virtual do qual eu não concordo. Meu questionamento é muito sobre a valorização dos símbolos. Muitos dizem que não foi o Nordeste que inventou a xilogravura, ou até mesmo a bolsa de crochê, ou a sandália de couro, mas são símbolos que estão totalmente ligados à nossa cultura. Inspiração existe, não tem como negar, pois, na moda, praticamente tudo já foi criado. Então, creio que o limite entre apreciação e apropriação seja justamente a dosagem, é você saber “beber” daquela fonte, mas sem fazer igual.
Laura – A moda, tanto no Brasil como no resto do mundo, sempre foi elitista e excludente. Com o “boom” das redes sociais, em especial o TikTok e o Instagram, o debate sobre moda alcançou um público muito maior e variado, mas ainda assim é nítida a falta de uma democratização. O que falta para isso acontecer e qual o papel do jornalismo nessa busca?
Rener – Acredito que essa democratização não vai acontecer tão rapidamente como imaginamos. É um caminho longo e difícil. Antes de chegar às pessoas, existe uma cadeia de processos enorme, existem fatores financeiros altíssimos. Como fazer uma calça que seja democrática em seu acesso, mas que também seja confortável para cadeia produtora? Assim como Ronaldo Fraga já citou há alguns anos, não tem como você comprar um tênis ou uma calça por 30 reais sem ter sangue nela. Por isso, acredito que a democratização acontece quando as marcas entendem seu papel na pirâmide. A democratização vai muito mais para o lado social, para o lado do acesso à informação. O papel do jornalista nessa busca percorre um caminho muito perigoso e solitário. Se esse profissional tem coragem para levantar essas questões, ele vai viver sempre naquela linha. O jornalismo de moda brasileiro atual praticamente não existe. Não existe crítica de moda, a um desfile, a um estilista, isso não existe mais! Durante meu período no ClubHouse junto de personalidades da moda nacional, vários jornalistas apareceram e tenderam para um lado muito mais publicitário, em virtude do dinheiro. A moda é uma bolha, e as conversas rolam lá dentro! Existe essa carência do que o jornalismo já foi antes das influenciadoras: crítico e que ditava tendências.
Laura – Você acredita que existe ainda espaço para esse jornalismo crítico voltar?
Rener – É o que eu vivo. Trago meus pensamentos para as minhas publicações de uma maneira que eu vejo o mundo, e acredito que poderia ser uma maneira melhor de trabalhar. O jornalismo independente traz críticas, mas esse espaço em portais e veículos tradicionais não vai mais dar lugar a esse tipo de conteúdo, mantendo essa superficialidade.

Laura – Como funciona a rotina do jornalista independente?
Rener – Eu não tenho rotina, na verdade. Minhas publicações fluem muito. Existem dias em que eu não consigo achar uma pauta. Não é algo pragmático. Acredito que o principal desafio do jornalismo digital esteja relacionado ao fator financeiro. O meu caso se difere, pois não vivo exclusivamente do meu Instagram. Tenho outro trabalho para além da moda. Sou gerente de marketing digital em uma rede de supermercados e, pontualmente, atuo como assessor de imprensa e social media. A rotina conta muito com o apoio de quem lê e consome o seu conteúdo.
Laura – As revistas ainda exercem influência no público?
Rener – Elas estão passando por um momento de ressignificação, no sentido de ninguém mais acreditar naquela modelo belíssima na capa, mas nas páginas internas, o conteúdo ser pura publicidade. Eu acho que existe, sim, essa relevância, até por essa questão dos títulos. Quem é que não quer trabalhar em uma Vogue, Elle ou Harper’s Bazaar? Existe essa autoridade. No entanto, acho que as revistas devem se adequar a essa nova realidade, e atender a necessidade de um conteúdo significante. Quando houver o discernimento entre o que é apenas publicidade e o que são pautas com um significado real, essa relevância para o seu público com certeza será retomada. Claro que a publicidade é necessária, tudo é muito caro, mas existe uma equipe para atender, deslocamentos, a produção em si, enfim, por isso também busco entender esses dois lados. Ainda assim, precisamos cobrar um direcionamento mais urgente para essas publicações.
Laura – As poucas referências que temos sobre jornalismo de moda são produções de cinema super glamourizadas, como, por exemplo, o filme “O diabo veste Prada”. Quais os principais diferenças dessas romantizações com a realidade?
Rener – Na verdade, não é tanta romantização. O “Diabo veste Prada” existe de várias maneiras. Para mim, isso é muito tranquilo, no sentido de saber o que eu quero, o que eu suporto e o que eu não aceito. Já trabalhei com uma personificação da Miranda Presley – protagonista do filme –, mas não me atingia, porque não levava isso para casa. A romantização da moda existe, e podemos ver isso em “Cruella”, “A baronesa”, e na própria Miranda, que, quando analisamos por outro lado, enxergamos uma pessoa totalmente fragilizada. Existem coisas inaceitáveis, mas ou você se blinda dessas situações e foca no progresso ou não consegue seguir em área alguma. Nossa geração está passando por uma fragilidade muito grande, na qual as pessoas não aceitam críticas. Nenhum trabalho é perfeito. Cabe à pessoa discernir uma situação ruim antes de julgar o próximo como um indivíduo tóxico. Temos que começar a ser mais realistas e não pensar em utopias dentro da moda e na comunicação.
Laura – Olhando para o começo da sua trajetória profissional, lá em 2013, no Movimento HotSpot, se você pudesse alterar algo, faria alguma coisa diferente?
Rener – Me dedicaria mais em algumas circunstâncias nas quais não me dediquei. Mas, como um todo, não faria nada diferente. Cheguei até aqui graças à soma de tudo que passei. Meus dramas, as pessoas que me passaram a perna, as que não foram legais, enfim, tudo isso me fortaleceu. O meu “eu do passado” está muito feliz com o do presente, porque tudo é uma construção, um aprendizado. Questões pessoais, como a separação dos meus pais, depressão da minha mãe, mudança de colégio, a faculdade que ingressei através de programas públicos, todas essas realidades que eu vivi me fizeram ser quem eu sou hoje.
Laura – Você daria um conselho para quem está começando a trajetória no jornalismo?
Rener – Se especialize! A concorrência existe e, para você se destacar, não precisa estar necessariamente em uma revista. Pautei minha carreira na garra, através da minha voz. Não é do dia para noite. Tenha material, tenha um portfólio, isso vai gerar oportunidades! Ou você está preparado e agarra essa oportunidade ou alguém vai fazer. A comunicação é uma área incrível, trabalhamos com a emoção, com pessoas!
Laura – Gostaria de indicar um livro ou filme sobre o tema?
Rener – Acredito que ainda tenha na Netflix o documentário sobre Franca Sozanni, editora da Vogue Itália entre 1988 e 2016, “Franca: caos e criação”. Ela trabalhava moda criticamente em um lado sentimental. É muito mais do que apenas moda, é sobre informar e informar de uma maneira não óbvia, passar uma mensagem poderosa e excluir esse estigma da moda como futilidade. E indicação para livro seriam as obras de André Carvalhal, ele é incrível!
(*) Aluna de Jornalismo. A matéria foi produzida originalmente no segundo semestre de 2021 para a disciplina de Profissão Jornalista. Todas as informações foram atualizadas recentemente por Laura.
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O entretenimento é a vida de Mari. Como ela mesmo pontua, trabalhar com isso é coisa séria: “Muita gente acha que é só zoeira. Alguns até mesmo me perguntam ‘tá, mas tu fica só falando na rádio?’”, explica, entre risos. Com a pandemia, a responsabilidade de comunicadora aumentou. Ao mesmo tempo em que ela produzia entretenimento, não podia ignorar o que estava acontecendo no mundo. “Por mais que eu saiba a importância de falar e alertar sobre o assunto (coronavírus), essa não é a minha pauta principal. As pessoas buscam esse escape da realidade lá na 92.”
Mari começou na Unisinos cursando Administração. Na mesma época, ela trabalhava em uma empresa multinacional de logística, localizada em Porto Alegre. Porém, a então futura administradora não se identificou muito com o curso. Apesar do emprego estável, como ela mesmo explica, aquilo não fazia “brilhar os seus olhos”.
O primeiro contato com o curso de Relações Públicas veio através de conselhos de amigas, que eram da área da comunicação e que afirmavam que Mari tinha tudo a ver com a profissão. Aliado ao incentivo das colegas, uma boa pesquisa para entender, afinal, o que fazia um relações-públicas, a ajudou muito. Não deu outra: “Fiz o primeiro semestre de RP e logo me apaixonei pelo curso, pela grade curricular, por tudo que ia aprendendo”, revela.
Junto com o desafio de trocar de curso, era preciso pensar na troca de emprego. Para isso, Mari tinha um plano: ficaria na empresa de logística somente até ela alcançar o 4º semestre do curso de RP. Após esse prazo, pediria o desligamento da empresa para focar suas atenções na procura de um estágio na área da comunicação.
Foi então que surgiu o Grupo RBS na vida da egressa. Por meio de um processo seletivo para estágio, Mari iniciou na empresa no setor de Atendimento ao Ouvinte da Rádio Cidade FM. Por ser curiosa, como ela mesmo descreve, acabou conhecendo e aprendendo sobre outras áreas. “Vejo que muita gente não pensa dessa forma. Falam ‘mas isso não é a minha função’. Por mais que não seja sua função, conhecer outras atividades pode agregar algo”, comenta.
Após um tempo na Rádio Cidade, Mari começou a fazer participações ao vivo, além da produção de alguns programas. Depois de dois anos de estágio, uma nova janela se abriu: ela poderia escolher entre ficar na Rádio Cidade de forma efetiva ou se mudar para a Rádio Farroupilha. Contrariando a expectativa de todos, Mari escolheu a Farroupilha. E foi lá, trabalhando ao lado de nomes como Sérgio Zambiasi, Gugu Streit e João Carlos Albani, que a comunicadora em formação teve ampliado o seu aprendizado.
Perfeccionista e nada acomodada, a comunicadora comenta que precisa estar motivada o tempo todo: “Quando eu entro no ar, esqueço tudo aqui fora. Prefiro não fazer um programa do que entrar e entregar menos do que eu poderia”, pontua.

Após um tempo na Rádio Farroupilha, surgiu um novo projeto no Grupo RBS que, segundo os gestores de Mari, “era a cara dela”: a Rádio 92. De imediato, se apaixonou pela proposta. Hoje, Mari está no ar pela jovem emissora das 16h às 21h, de segunda a sexta-feira, no comando dos programas “2ª Edição do Conecte 92”, “Top 15”, “Fica a Dica 92” e “Domingão das Patroas”.
Além dos ouvintes da rádio, Mari conquistou também diversos prêmios pelo seu trabalho. Em 2018, venceu na categoria Revelação do Prêmio RBS de Jornalismo e Entretenimento. Em 2019 e 2020, figurou no Top Of Mind das comunicadoras mais lembradas do Rio Grande do Sul, junto com grandes nomes, como Cris Silva e Rodaika.
O trabalho desenvolvido na 92 impulsionou indiretamente outra habilidade recém descoberta por Mari: a de influenciadora digital. O constante contato com os ouvintes fez com que o seu número de seguidores nas redes sociais aumentasse muito: “Tudo aconteceu quando eu não dei conta mais de responder todas as minhas mensagens no Instagram. Lembro que, no começo, eu me sentia mal, mas eu realmente não conseguia.”
Dizem que uma coisa puxa a outra, certo? Para Mari, foi isso mesmo que ocorreu. Além de influenciadora e comunicadora, Mari também é colunista do jornal Diário Gaúcho: “Não esperava que esse desafio caísse no meu colo. Mesmo assim, fui atrás. Redigi dois cadernos especiais para o jornal. Acho que foi o meu grande teste. Mostrei que sou capaz, apesar de não ser jornalista e de muitas pessoas duvidarem da minha capacidade”, conta.
Para o futuro, Mari Araújo quer experimentar novos formatos: “Para 2021, quero trabalhar com TV e com entretenimento. Vejo que tem um espaço legal para fazer isso aqui no Sul, com muito conteúdo e muita qualidade”, acredita.

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