Deu certo

#deucerto #egresso #matheusdávila #profissãojornalista #radiojornalismo
Matheus D’Ávila: “Uma boa reportagem necessita de tempo”
"Egresso da Unisinos, o jornalista esportivo do Grupo Bandeirantes RS acredita que é preciso ter paciência e calma para não cair na onda de noticiar algo somente porque outros veículos estão divulgando"
Avatar photo


Por Luísa Bell (*)


Repórter do Grupo Bandeirantes RS, Matheus D’Ávila é egresso da Unisinos. Formado em 2016, ele começou a sua carreira ainda quando era estudante, como estagiário na Rádio Guaíba. Após dois anos, transferiu-se para a Rádio Grenal, da Rede Pampa. Em 2017, estreou como repórter da equipe de esportes da Rádio Bandeirantes RS. Aos 28 anos, Matheus é um dos integrantes do programa “Donos da Bola RS” e possui um canal no YouTube chamado “A Dupla”, em que fala sobre Grêmio e Inter, ao lado do colega de profissão Thaigor Janke.


Matheus foi entrevistado no final de 2021 para a atividade de Profissão Jornalista, do curso de Jornalismo da Unisinos. No bate-papo, realizado por videochamada, o jornalista conta detalhes de sua carreira, revela bastidores da profissão e conta como entrou para o mundo do jornalismo esportivo. Confira:


Luísa Bell — Como foi a vida de estudante? Tu sempre quiseste fazer jornalismo ou tu tinhas outra coisa em mente?

Matheus D’Ávila — Eu sempre quis fazer jornalismo. Na verdade, eu fiz um cursinho pré-vestibular quando estava no Ensino Médio, naquelas de ‘pô, será que jornalismo vai ser uma boa?’. Eu tinha uma visão de que, para ser jornalista, era preciso ter alguém para te indicar, para você entrar no meio e trabalhar. E isso me assustava muito, por eu ser de uma família mais humilde. Então, não tinha como alguém me colocar no meio, e eu pensava: “Cara, eu vou fazer uma faculdade, pagar um dinheirão, fazer financiamento, FIES, um monte de coisa e eu não vou ter uma pessoa para me indicar. Vou ficar com uma dívida enorme e eu não vou conseguir trabalhar. Então, eu não vou fazer essa palhaçada. Vou é fazer administração. Na dúvida, é administração”. Mas eu não sou nada bom em números. Eu adoro rádio, desde pequeno. Desde os meus 9 anos, eu ia para o colégio ouvindo rádio. Aí fiz o vestibular da Unisinos e entrei no curso de Jornalismo assim, mas entrei com medo! Achei que eu não fosse me adequar, de ter uma oportunidade de entrar para o jornalismo esportivo, que era meu sonho.


Luísa — O que te fez escolher o jornalismo esportivo?

Matheus — Eu sempre fui, desde menino, muito ligado ao futebol. Eu era um torcedor, gostava de acompanhar, e eu ouvia aquelas pessoas no rádio. Eu assistia a Band, que era o canal aberto que mais falava de futebol, e escutava bastante a Rádio Gaúcha. Eu cresci com aqueles caras no meu ouvido. Apesar de ser jovem, não tinha a rede social como é hoje. Então, eu não conhecia o rosto daqueles caras que eu ouvia. Eles eram apenas vozes para mim. Eu pensava: ‘Pô, um dia, eu vou cruzar com o Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha, e eu não vou saber como é a cara dele!’. Eu era meio assim, meio aficionado, e foi isso que fez com que eu quisesse estudar jornalismo esportivo: pela admiração que eu tinha por aqueles caras que, naquela época, eram só vozes.


Luísa — E como é a experiência de trabalhar com rádio? Quais são os maiores desafios?

Matheus — Eu comecei na Guaíba. Fiz os dois anos de estágio lá durante a faculdade. Eu deixei a emissora num momento de transição, durante a saída do Luiz Carlos Reche. Fui para a rádio Grenal, que era um projeto novo, que ainda estava tentando se firmar. E foi lá na Grenal que eu me afirmei! Eu fui contratado, consegui pela primeira vez dar os passos mais importantes de construção de nome, de afirmação no mercado. Foi um período muito mágico, porque pude me descobrir de fato. Tudo que eu aprendi na Guaíba coloquei em prática na Grenal, com uma liberdade muito maior. Talvez, por ser uma emissora menos tradicional e com muitos jovens, tínhamos muito espaço e liberdade. Foi um grupo que encaixou bem legal na época. O nosso maior desafio hoje, como jornalista esportivo, é saber filtrar o que é notícia e o que não é, o que, talvez, tenha sido o desafio de toda a geração de jornalistas do passado. Mas hoje temos uma carga muito maior de informações para filtrar e desmentir, principalmente.


Matheus revela que é muito especial para ele cobrir o Grêmio e o Inter, porque consegue falar com jogadores que idolatrava quando criança (Imagem: Arquivo Pessoal)


Luísa — E como é participar do “Donos da Bola”? Poderia nos contar um pouco sobre os bastidores do programa?

Matheus — Um elogio que eu sempre gosto de fazer para o Leonardo Meneghetti [diretor-geral da Band RS] é que ele nos dá muita liberdade. Ele é um cara de outra geração, com uma visão muito avançada, e ele nos permite isso também. Então, a gente faz enfrentamentos com profissionais como o Fabiano Baldasso, o Meneghetti e o Ribeiro Neto, caras com uma longa trajetória. A gente cresceu ouvindo eles, e eles nos dão essa liberdade para podermos colocar também o nosso lado. Não tem nada ensaiado. O Meneghetti até nos proíbe de falar de futebol antes do programa, porque ele acha que temos que guardar para o debate. Então, a gente fala sobre música, séries, qualquer coisa menos sobre futebol quando a gente está alinhado ali, que é justamente para não ter nada de jogada ensaiada. É mais ou menos assim que funciona os bastidores.


Luísa — Tu tens um canal no YouTube chamado “A Dupla”, ao lado do colega de profissão Thaigor Janke. Como foi que surgiu essa ideia?

Matheus — O YouTube começou a ser explorado de uma forma mais jornalística pelo João Batista Filho, que é aqui da Band, inclusive. O João tem canal há muito tempo. Acho que aqui no Rio Grande do Sul, ele foi o primeiro a explorar. Aí tem o Baldasso, que é um cara super consagrado na internet, tem o César Cidade, que fala do Grêmio e que faz muito sucesso no YouTube. E a gente foi vendo esse espaço sendo explorado e nós não tínhamos um canal. O César que disse: ‘Pô, vocês têm que criar, vocês trabalham com informação, a gente se alimenta muito de vocês, a gente vive citando vocês, mas vocês não estão lá’. E o Thaigor e eu conversávamos o seguinte: ‘Cara, já tem muito canal lá. A gente vai entrar e vai fazer a mesma coisa, cada um vai criar o seu, aí a gente vai criar concorrência e não vamos a lugar nenhum’. Até que, um dia, conversando, falamos: ‘Tá, então, por que a gente não se junta e tenta fazer o canal com mais informações por dia sobre a dupla Grenal?’. Trabalhamos com informação, não com opinião. Criamos “A Dupla” em agosto de 2021. Deu super certo. Em três meses, conquistamos 40 mil inscritos, e está crescendo muito. Claro que é um espaço de exposição e de divulgação do teu trabalho, e isso conta muito para gente, mas tem o lado financeiro, que não se pode descartar. Hoje, o jornalista tem um salário extremamente defasado, e a Band nos dá essa liberdade de ter outras opções de renda, por exemplo. Tem empresa que não aceita que você tenha um canal no YouTube, um negócio que é próprio. A Band aceita e incentiva.


Luísa — O que tu achas que é necessário para se realizar uma boa reportagem?

Matheus — Coisa que a gente não tem: tempo! Uma boa reportagem necessita de tempo. No jornalismo esportivo, trabalhamos com muita informação de bastidor, é cultura do esporte isso. A gente dá muita importância para essa fonte de bastidor, que, por vezes, pode nos levar ao erro. No nosso trabalho, lidamos com muito rumor, tentativa de encontrar aquela agulha no palheiro para buscar uma confirmação. Então, é preciso ter tempo, paciência e calma para não cair na onda de dar algo porque os outros estão dando. Tem muita gente palpitando na internet e que está te pautando, e, às vezes, na ânsia de tentar dar uma resposta, tu podes embarcar numa furada e acabar cometendo uma gafe muito grande.


Matheus estreou como repórter da equipe de esportes da Rádio Bandeirantes RS em 2017. Hoje, é um dos integrantes do programa “Donos da Bola RS” (Imagem: Arquivo Pessoal)


Luísa — Como é ser o repórter setorista do Grêmio?

Matheus — Aqui, no Rio Grande do Sul, a gente não tem o costume de ter setoristas fixos no rádio. Geralmente é rotativo. A minha escala sempre foi: ‘Hoje vou fazer Grêmio, Grêmio amanhã, mas sexta-feira vou fazer Inter, sábado também’. Trabalhei com os dois clubes por muito tempo, mas só que,  aqui na Band, nós éramos uma equipe maior. Com a pandemia, ficou basicamente três repórteres. Aí, a gente sentou e disse: ‘Vamos fixar, porque não vai ter treino e não faz sentido ficarmos revezando. Vamos criar especialistas aqui e cada um cuida de um time’. E foi o que fizemos, e deu muito certo para nossa dinâmica de trabalho, porque facilitou muito. Hoje eu sou repórter de Grêmio e a galera já me conhece lá dentro. Mas uma coisa é você ser conhecido pelo dia a dia, outra coisa é você ser reconhecido por ser um repórter de Grêmio. Pode parecer nada, mas tem uma diferença. Então, foi muito bom.


Luísa — E como você lida com as críticas feitas por torcedores?

Matheus — Lido muito tranquilamente e normalmente não respondo. É normal do trabalho, a gente é muito vitrine e acho que nem deveríamos ser tanto assim, porque nós não somos a notícia. Mas eu cuido do Grêmio, que vive uma fase extremamente complicada, e eu tenho me envolvido em pequenas polêmicas com o clube nos últimos anos, por conta de entrevistas. Nem é minha ideia me envolver, mas, talvez, pela forma que a gente trabalha, pela linha editorial, nós somos mais críticos e mais duros aqui. Os caras do clube acabam levando para um lado mais pessoal. Eles nos apontam mais, criticam mais, falam que a gente tá querendo o mal deles, e tem gente que compra essa ideia. A gente trabalha sendo xingado e é bem natural, levamos super na boa, porque, da mesma forma que tem gente nos vaiando, tem quem nos apoia.


Luísa — Quais foram os momentos mais especiais da tua carreira até hoje?

Matheus — A primeira vez que eu andei de avião foi por causa do jornalismo, por conta do meu trabalho. Então, para mim foi muito especial. O jornalismo me permitiu conhecer lugares. Hoje eu conheço vários países sul-americanos, já viajei bastante. É muito especial cobrir o Grêmio e o Inter, porque eu me criei assistindo, falo com jogadores que, talvez, seja aquele sonho de criança. Eu idolatrava o cara lá atrás e agora tenho a oportunidade de conversar com ele por telefone. Eu tenho uma reportagem que me dói até hoje. Ficamos em segundo lugar no Prêmio Ari de Jornalismo. Era sobre torcidas organizadas. Fiz na Rádio Grenal junto com o Diogo Rossi e o Carlos Lacerda. Foi uma baita reportagem. Nós fomos nas sedes das torcidas, falamos sobre violência nos estádios e de como isso não é reprimido. Fizemos uma matéria também aqui na Band sobre o acidente da Chapecoense, da falta de auxílio do clube com as famílias, a tentativa de posicionar a Chape como uma vítima, quando, na verdade, a vítima eram as pessoas. Foi uma matéria bem dura, que também nos rendeu muita crítica do clube, mas que repercutiu legal aqui no Estado e em Santa Catarina.


“A Dupla” foi criado por Matheus e pelo colega de profissão Thaigor Janke em agosto de 2021. Ao final do terceiro mês, o canal do YouTube somava 40 mil inscritos (Imagem: Reprodução / YouTube)


Luísa — Tu achas que um jornalista esportivo assumir para qual time torce é um problema?

Matheus — Acho que não, sendo um comentarista esportivo. A gente tem muitos exemplos disso. Agora, sendo um repórter, eu acho que pode ser um problema. Não por conta de você ser repórter. Hoje o presidente do Grêmio sabe para que time eu torço e o presidente do Inter também sabe. A gente não esconde isso deles. É óbvio que eu não chego lá e digo: ‘Oi, tudo bem? Sou o Matheus e torço para tal time’. Mas, em conversas, a gente é muito transparente. No “A Dupla”, a gente brinca muito sobre isso. A galera tem a curiosidade de saber para quem, Thaigor e eu, torcemos, e não vamos dizer. Primeiro, porque não vamos ganhar mais nada com isso, talvez só mais críticas. Segundo, porque não interfere em nada no nosso trabalho. E também porque é bem divertido ficar vendo a galera chutando e xingando. Então, a gente brinca muito com isso de “nosso Inter” e “nosso Grêmio”. Acho que vai ser um processo natural, mas acho que é um tabu que vai ter que ser quebrado em algum momento.


Luísa — Tem alguma dica para dar aos futuros jornalistas que queiram seguir na área do jornalismo esportivo?

Matheus — Sim, tenho. Primeiro, não caia no conto do vigário de que precisa ter ‘QI’. Eu fiz um curso de jornalismo esportivo na sede da Associação de Colunistas Esportivos. Nele, o Aroldo dos Santos, que era o presidente da entidade na época, disse que tinha uma vaga na Guaíba e me indicou para o Reche, que me contratou. Segundo ponto: tem que gostar muito de trabalhar e saber que financeiramente nós não somos valorizados. O nosso diploma, por vezes, é contestado, mas ele é muito importante e a gente tem que valorizar ele. Se a gente não valorizar, ninguém vai. E tem que acompanhar, tem que estar muito esperto. Se tu quer ser jornalista esportivo, tu tens que assistir futebol, tem que deixar de lado o amor pelo teu clube – pelo menos precisa respeitar o outro lado, porque os dois são muito importantes e não dá para construir no Rio Grande do Sul uma carreira achando que um tem que acabar. Mas a minha mensagem principal é: não precisa de QI, cara! É só entrar, estudar e agarrar a oportunidade que tiver.


(*) Aluna de Jornalismo. A matéria foi produzida originalmente no segundo semestre de 2021 para a disciplina de Profissão Jornalista. Todas as informações foram atualizadas recentemente por Luísa.

Mais recentes