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Os pitchings
A prova de fogo, neste ano, ocorreu no sábado, 15 de abril, quando os alunos apresentaram para os professores os 17 curtas-metragens que serão gravados nos próximos meses. É um momento de grande responsabilidade, em que o diretor e o produtor de cada equipe revelam as sinopses e os gêneros dos projetos, exibem as referências visuais em formato de moodboard e indicam os atores e as locações propostas – ou já confirmadas. O pitching, expressão que indica a apresentação verbal da proposta de uma obra audiovisual, é o momento em que os estudantes precisam justificar todas as decisões criativas. Por isso, costuma ser um momento muito pessoal e até emotivo, já que muitos futuros realizadores tiram inspirações de suas próprias vivências. Essa apresentação aos professores segue a mesma lógica usada no mercado audiovisual profissional.
A novidade neste semestre foi a presença das cineastas Iuli Gerbase e Daniela Israel. As convidadas especiais, em conjunto com os professores Gilson Vargas, Jessica Luz, Vicente Moreno, Maurício de Medeiros, Fatimarlei Lunardelli, James Zortéa, André Sittoni, Daniel Pedroso e Renata Heinz, deram sugestões, apontaram inconsistências, pensaram na viabilidade e avaliaram os projetos como um todo.

Egressa da turma de 2004 do CRAV, Daniela é CEO e sócia da Bactéria Filmes. Como ex-aluna, já passou pela experiência de apresentar a proposta de um curta. “Avaliando os pitchings, dá pra ver o desenvolvimento que o curso proporciona aos alunos e o profissionalismo deles”, comenta a cineasta. “É emocionante, porque eu me vejo ali nos alunos, apresentando a proposta. Ao mesmo tempo que avaliava, também queria dizer para eles relaxarem, que tudo vai dar certo e esse é só a primeira apresentação de muitas”.

As produções
Os “cravianos” – como os alunos do CRAV se denominam – apresentaram as propostas de 17 curtas-metragens, ou seja, filmes de até 15 minutos. Cada uma dessas produções possui uma abordagem única, assim como estética e temática. Serão produzidas duas comédias, duas dramédias (mistura de drama com comédia), um sci-fi e 11 dramas.
O momento da apresentação, confessam os alunos, é cercado de nervosismo e diferentes emoções. O roteiro, para muitos cravianos, é um trabalho extremamente pessoal. Por mais que envolva a turma toda, o texto abriga as mais diferentes referências de quem o escreve. Alguns estudantes trazem experiências já vividas, enquanto outros colocam no documento os interesses que os introduziram no mundo do audiovisual, aquilo que desejam ver na telona.
“Quando soube que a gente ia fazer um curta no terceiro ano, tive certeza de que eu faria um terror gótico, que é meu gênero favorito. Por causa dessa influência, me aproximei do cinema”. Foi assim que o diretor de “Hospício Jardim Aurora”, Mel Fernandes, descreveu a origem de seu filme. Para Mel, o roteiro veio de maneira inesperada. Ao analisar a dinâmica entre dois personagens do filme “Drácula”, começou a criar uma história e se apropriou desse material, desvinculando-o do original.

Os estudantes têm agora muito trabalho pela frente. As gravações se iniciarão no meio do mês que vem, sempre aos finais de semana e em duas sessões de 12 horas, com uma hora de intervalo. O término está previsto para setembro.
Ficou curioso para ver o resultado desse esforço? Todo os anos, em dezembro, o CRAV faz uma exibição dos projetos trabalhados. São exibidos na Cinemateca Capitólio, na Capital, os curtas dos alunos do terceiro ano, os documentários produzidos no segundo ano e os clipes criados no primeiro ano. O evento de 2023 ainda não tem data definida, mas é só ficar ligado no portal e nas redes do Mescla, além do Instagram do CRAV, para ficar sabendo assim que sair a informação.
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]]>O 50º Festival de Cinema de Gramado, que aconteceu entre 12 e 20 de agosto de 2022, premiou 6 produções realizadas por estudantes e egressos do Curso de Realização Audiovisual da Unisinos (CRAV), sendo 3 curta-metragens e 3 longa-metragens. Ao total, foram 12 prêmios que os Cravianos (aqueles que são egressos do curso) levaram para a casa.
Na categoria longa-metragem gaúcho, as obras premiadas foram 5 Casas, Casa Vazia e Despedida. O longa 5 Casas levou as estatuetas de Melhor Filme e Melhor Filme pelo Júri Popular. Bruno Gularte Barreto e Vicente Moreno, da turma de 2003 do CRAV, levaram o prêmio de Melhor Direção e Melhor Montagem pelo trabalho na produção do longa.
Os egressos Tiago Bello, CRAV 2003, e Marco Lopes, CRAV 2006, foram premiados pelo Melhor Desenho de Som no longa Casa Vazia. Já Gabriela Burck, egressa de 2012, foi premiada pela Melhor Direção de Arte no longa-metragem Despedida
Na categoria de curta-metragem gaúcho, ou seja, aquelas produções com o tempo até 15 minutos, as obras de egressos e estudantes do Curso de Realização Audiovisual foram Apenas para Registro, A Diferença entre Mongóis e Mongoloides e DRAPO A. O curta Apenas para Registro, da estudante Valentina Ritter Hickmann, conquistou o prêmio de Melhor Filme pelo Júri da Crítica. Pelo trabalho no curta A Diferença entre Mongóis e Mongoloides, Jonatas Rubert, egresso da turma de 2009, levou os prêmios de Melhor Direção e Melhor Roteiro, junto com Gabriela Burck, da turma de 2012, que conquistou a estatueta pela Melhor Direção de Arte. Por último, Henrique Lahude, CRAV 2008, ganhou o prêmio de Melhor Produção Executiva pelo trabalho em Drapo A.
“Meu pai tinha essas gravações e ninguém nunca parava para assistir de novo.”

“Foi quase que brincando, assim tipo, nada pretensioso, era só um trabalho.” foi assim que Valentina Ritter Hickmann descreveu o processo de criação do curta. O trabalho, que foi criado para a disciplina de Cinemas Experimentais do Curso de Realização Audiovisual, foi desenvolvido com base em antigos filmes de família em DVD, “Quando eu comecei a mexer nesses arquivos do meu pai, eu nem pedi permissão, era só um trabalho e eu queria usar as imagens de arquivo da minha família. Então fui usando, fui mexendo, fui descobrindo coisas. Tanto que as imagens ali dele divagando foram uma coisa que eu encontrei depois e que eu acho que é o mais vulnerável” contou Valentina.
A ideia para a construção desta obra sempre esteve na mente de Valentina, segundo ela “Eu já sabia que eu ia fazer alguma coisa com esses vídeos do meu pai, mas eu não sei dizer exatamente de onde veio essa ideia. Eu acho que é uma coisa meio da minha família que eu escuto desde que eu sou pequena, tipo aí bem que alguém podia compilar e selecionar os melhores momentos pra gente poder assistir.”

O trabalho se destacou na cadeira de cinemas experimentais e o colegiado decidiu submeter o curta ao Festival de Gramado. Para Valentina “Foi muito legal assim, porque desde que o colegiado já tinha me selecionado para eles enviarem meu filme para Gramado. Para mim aquilo já tinha sido tipo uma baita de uma vitória.” A estudante sente que com essa conquista deixou a sua marca no CRAV algo que não tinha certeza se faria antes da premiação. “Toda a experiência do festival foi muito incrível. Todas as pessoas que eu conheci e elas vindo falar do meu filme, o quanto tinha impactado elas e tocado elas de alguma forma, isso foi muito legal ouvir, porque tanto para mim quanto para o meu pai principalmente não era nossa intenção, sabe? Aquilo ali de fato é um arquivo de família” complementa Valentina.
“´É um documentário que parte de uma jornada pessoal do diretor”

Dirigido por Bruno Goulart Barreto, egresso da turma de 2003 do CRAV, o longa-metragem revisita as memórias e a cidade natal do diretor, Dom Pedrito, e reencontrando pessoas que, de alguma forma, tiveram um impacto em sua vida. Segundo Vicente Nunes Moreno, responsável pela montagem do longa relatou “Então, acaba sendo um filme sobre Dom Pedrito, mas também acaba sendo um filme sobre coisas bem particulares, que também são universais”. O documentário aborda temas como luto, homofobia, racismo, especulação imobiliária e agrotóxicos.
O longa é uma junção de professores e egressos do CRAV, contando com a participação de Vicente Moreno, que já foi estudante do CRAV e está na coordenação do curso, Jessica Luz, produtora executiva, e Bruno Polidoro, um dos responsáveis pela direção de fotografia, todos professores do curso. O diretor Bruno Goulart Barreto é egresso da turma de 2003 e já participou do corpo docente.
O longa estreitou no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã (IDFA), o maior festival de documentários do mundo, e a partir disso foi sendo exibido e premiado em diversos festivais. Já teve exibições na Itália, França, Portugal, Chile e no Ceará. No Festival de Cinema de Gramado, foi a primeira vez que a produção foi exibida em solo gaúcho.
“O CRAV já é uma presença constante no Festiva de Gramado”
Não é raro que múltiplos egressos do CRAV estejam concorrendo e sejam premiados no mesmo festival, principalmente quando a premiação envolve obras produzidas no Rio Grande do Sul. Segundo Vicente Moreno, “Quando os primeiros egressos começaram a entrar no mercado de trabalho foi se tornando cada vez mais comum ter cravianos presentes nas mais diversas equipes. Então hoje em dia é muito difícil no Rio Grande do Sul, um longa-metragem uma série ou um grande projeto audiovisual que não tenha cravianos”.
De acordo com o coordenador, as pessoas premiadas do curso, sejam alunos, professores ou egressos traz uma sensação do trabalho bem-feito, além de mostrar a excelência do curso dentro do cenário gaúcho e brasileiro de cinema, mostrando que é possível fazer cinema no RS. Para os alunos, saber que colegas e egressos estão marcando presença em peso nas premiações de festivais, tem um efeito muito positivo, pois eles se inspiram nesses colegas e veem que os próximos a estarem em festivais podem ser eles.
Para os interessados em assistir as produções, haverá uma exibição com debate no Teatro Unisinos, dia 29 de setembro às 19h30. Serão exibidos DRAPO A, A Diferença entre Mongóis e Mongoloides, Apenas para Registro e Nós que Fazemos Girar. A entrada não será cobrada.
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]]>A Mostra ocorreu logo após o término do semestre com a exibição de curtas, vídeo clipes e animações em stop motion feitas pelos alunos. A edição pode ser feita novamente presencialmente, em uma icônica, clássica e querida sala de cinema portalegrense, na Cinemateca do Capitólio. Neste semestre, novas produções serão realizadas e apresentadas em nova Mostra.
Foi o momento para prestigiar os novos cineastas cheios de talento e criatividade e homenagear o ator Clemente Viscaíno, que acompanha as produções dos alunos “cravianos” desde a primeira turma, iniciada em 2003 e formada em 2006. Clemente participou do curta “O Último Almoço de Domingo”, gravado em 2005. Para alguns estudantes também foi a chance de comemorar o fim de uma importante etapa – a graduação. Sem falar na retomada da vida nas ruas e das salas de cinema. Tudo isso trouxe a energia e a vitalidade da sétima arte.
Cada um dos dois dias contou com uma programação. Cada programa contava com cerca de três curtas e dois vídeos clipes ou dois stop motions. Ao fim de cada um deles os diretores (alunos) debateram com um professor mediador e um convidado especialista.
Esta edição tinha trabalhos realizados desde 2020 que não puderam ser mostrados por conta da pandemia. Ao final do ano, está prevista mais uma edição com aproximadamente 28 curtas-metragens.
O terceiro ano do curso é o momento de criar as produções maiores, onde todo o aprendizado da graduação até então culmina na realização de um curta-metragem de ficção. O quarto ano do curso é dedicado aos estágios supervisionados, quando o aluno experimenta o mercado de trabalho. Cada estudante escreve e dirige seu próprio curta. Além do processo de direção dos próprios filmes, eles ainda vão trabalhar como assistentes de direção e produtores no filme de outro colega. Estas são as funções principais que todos exercem. Para complementar a formação, cada estudante pode escolher duas áreas para se especializar, área esta que vai exercer no curta-metragem dos colegas. As especialidades são direção de fotografia, direção de arte, som, montagem, animação e roteiro.
Um dos coordenadores do curso, Milton do Prado, enfatiza esse aprendizado: “O 3º ano do curso é um ano muito intenso. Eles fazem os filmes nos finais de semana. Eles têm aula durante a semana e todo sábado e domingo eles estão ali. Todo sábado e domingo a gente tem um ou dois filmes sendo feitos e os alunos se revezando nas funções”, comenta Milton.
A sala já estava bem ocupada na abertura, para assistir aos documentários. Ao longo da primeira tarde o gênero documentário foi dominante. De antemão, um dos coordenadores do curso, o Milton, frisou a importância de ocupar o Capitólio para prestigiar o audiovisual. O tradicionalíssimo espaço de cinema porto-alegrense, com arquitetura ímpar no centro da capital, e que vive tempos tenebrosos, por serem espaços públicos de arte e estarem recebendo pouco investimento, precisando sempre resistir.
Antes dos primeiros documentários serem mostrados, foi a vez dos clipes das músicas “Deságua” pela Kaya Rodrigues e “Desilusão”, da banda Almirantes. Essas produções foram feitas pelos veteranos do curso.
Aliando a arte de contar histórias no teatro e a arte do cinema, foi apresentado “Começar, continuar e Permanecer”. No “cenário” de pandemia, quatro atores estiveram no Teatro de Arena de Porto Alegre para refletir sobre suas trajetórias histórias e como a arte aconteceu em meio ao cenário caótico da pandemia.
O segundo curta documentário daquela sessão foi “Boombap: poesia viva”, que trouxe Tiatã, Elle P., Rainha Ju e Rafuagi para traçar ritmos da poesia marginalizada dentro do hip hop e do slam. Foi lindo escutar sobre união, representatividade, força e coragem com a sensibilidade destes artistas.
Para finalizar a sessão, “Esse aqui é o meu lugar” trouxe três gerações para falarem sobre a cena do skate em Porto Alegre. Sérgio Marreta, Fabrício Souza e Clara Strack narraram suas histórias pessoais, e traçaram a jornada por afirmação de espaço na cidade de Porto Alegre.
O arremate do primeiro programa foi o debate com a documentarista Thaís Fernandes, que trouxe sua veia jornalística para entender o processo de criação dos documentários, desde a concepção da ideia até a pós-produção.
A segunda parte da tarde contou com os clipes das músicas “Drink no Inferno”, da banda Fumaça Urbana, e “Amor Líquido”, do Projeto Hare. Logo depois veio “Geração da Consciência”, que trouxe de forma extremamente sensível e bem elaborada o relato de ex-integrantes de organizações militantes sobre como começaram a lutar contra a Ditadura Militar no final de regime. A grande sacada foi que estes relatos foram contados através do rosto e voz de quatro jovens atores, com a mesma idade que os militantes tinham no período. A música ficou com Nei Lisboa, que teve um de seus irmãos assassinado pela Ditadura Militar e cedeu os direitos para o filme.
Enquadradas pela câmera, Gladis e Julia refletem sobre como é a sua relação com a cozinha, as histórias e receitas familiares em “Histórias de Cozinha”. Por fim, “Uma Nova Sinfonia” trouxe a pulsação linda da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA), onde o Maestro Evandro Matté e alguns músicos contaram como foram as atividades durante a pandemia e a retomada das atividades presenciais.
O debatedor foi o pesquisador e crítico Maurício Vassali, que também quis entender sobre o processo de produção e da relação dos diretores com os atores e suas emoções, além dos desafios inesperados de uma produção audiovisual.
Os documentários ficaram marcados pelas temáticas musicais, afetivas e poéticas, mostrando uma antítese importante na arte de contar histórias: sensibilidade com força.
As duas primeiras animações feitas em stop motion foram “Acendi ao vê-la”, da Eduarda Brum, que brinca com as palavras e traz um non-sense divertido e criativo; e “Atrás da Porta”, do Maicon Ferreira dos Santos, que trouxe o suspense e os delírios que os medos podem criar na gente. As duas animações tinham cerca de 1min30.
“A Valsa” foi o primeiro curta de ficção a ser exibido. Com roteiro sensível, afetivo e amoroso, os personagens Lucrécia e Benedito decidem renovar seus votos de casamento no dia de suas bodas de ouro, mas não esperam os truques que a saudade pode pregar. A plateia também não esperava por esse truque, que ficou arrebatada com a história.
“Abissal” traz a personagem Dora, que encontra o corpo de um mergulhador na beira da praia. No entanto, ela é a única que o vê. Com o passar dos dias, ela não consegue discernir entre a realidade e sua paranoia.
Por fim, “Pelos Olhos Teus”, também traz brincadeiras sutis com as ideias das palavras, já através do título. O curta traz uma história corajosa de amor e descoberta, através da personagem Amélia, que vive com a mãe cega. Após um encontro cheio de frustração, ela conhece Marjorie, uma mulher que desperta sentimentos nela.
Estiveram presentes na sessão os atores Clemente Viscaíno e Vilma Loner, de “A Valsa”, Isabella Lacerda, Paulo Flores e Clélio Cardoso, de “Abissal”, e Gabriela Iablonovski, Arlete Cunha, Isadora Pillar e Juliano Rangel, de “Pelos Olhos Teus”, além dos músicos Rafael Kurai, Gabriel Thomsen e Madblush, que junto da diretora Natália Polla compuseram a trilha do curta.
Clemente Viscaíno recebeu uma homenagem, que contou com um clipe de suas participações em diversos curtas do CRAV, no qual ele colabora desde a primeira turma, em 2001, na qual um dos coordenadores do curso, Vicente Moreno se formou, inclusive. Clemente disse que adora colaborar com os alunos do CRAV, porque estes alunos são os diretores, roteiristas e produtores do futuro. Ele contou inclusive que já trabalhou com produções da Rede Globo onde encontrou alunos de outras turmas. Clemente participou de cerca de 27 filmes, entre eles “Como Nascem Os Anjos”, “Memórias Póstumas”, “Carandiru” e “Nosso Lar” e de novelas como “Dancin’ Days”, “Por Amor”, “Anjo Mau” e “Caminho das Índias”.
Os três curtas foram o trabalho de final de curso de três alunas-diretoras. Para compor o debate, a pesquisadora e crítica Juliana Costa trouxe questões e análises para a conversa.
O segundo dia de Mostra contou com as apresentações de animações e os curtas-metragens.
“Elevador”, é animação stop motion dirigido pelo Leonardo Kotz. A única sinopse possível é “Sobe ou desce?”. “Embaçados” é a animação dirigida por Luis Simioni, na qual “um olho” descobre que não enxerga bem.
Os curtas-metragens exibidos na primeira sessão de quarta-feira foram Astronauta Azul, escrito e dirigido por Nicole Vaz, que conta a história de um menino autista que vive a perda da mãe e os desafios que o pai passa para compreender o filho; Livre Ária, com direção de Gabriel Thomsen e roteiro de Gabriel Thomsen e Felipe Trema, que aborda a história de um jovem que tenta escapar da realidade distópica através de memórias do passado; Esboço, escrito e dirigido por Gabriel Picinatto, sobre um homem que se encontra preso em uma sequência de histórias que confundem realidade com fantasia; e Élan, com direção e roteiro de Felipe Trema, em que o personagem André vive solitário até precisar tomar conta do cachorro da vizinha.
Os debates tiveram foco nos curtas-metragens de ficção, sendo o principal da Mostra, onde foi foi possível conhecer um pouco mais das histórias e o processo de elaboração dos filmes. Autismo, ficção científica, realidades distópicas e reconexão com o mundo foram os temas principais dos curtas da primeira sessão do dia 13. O debate foi conduzido pelo diretor e roteirista Felipe Lesbick, e participaram Nicole Vaz, Felipe Trema e Gabriel Thomsen.
Nicole Vaz, roteirista de Astronauta Azul, diz que se inspirou em seu irmão mais novo, que é autista. Para ela, a elaboração da história seria uma forma de homenagear o irmão e abrir espaço para conversas sobre o autismo: “Eu gostava daquilo e pensei em usar esse espaço para ele, para homenagear ele, colocar um pouco ele na tela. O autismo tem muitas variações, e eu quis botar a minha perspectiva como irmã e em como o autismo funciona com ele. Cada autista tem essa questão de ser muito diferente entre si”, comenta a diretora do curta.
No processo de direção, Nicole priorizou planos que deixassem a câmera na altura dos olhos do personagem, interpretado por Lorenzo Hoffman. Ela frisa o quando seria importante se colocar na altura dele para ouvir e compreender. A captação de som também foi pensada com cuidado, pois o som é percebido de forma muito particular: “A gente não queria somente captar som, porque o som é algo que vai ser percebido de forma totalmente diferente nessa questão do autismo. Quando a pessoa pode estar nervosa, o som aumenta, tudo fica muito alto. Tudo tem uma percepção diferente”, explica.

Élan foi o curta-metragem que contou com a Paçoca, a cachorrinha que viveu Peteca na história. André vivia solitário e a vizinha percebeu uma forma de ajudá-lo a se recuperar, com a ajuda de Peteca. O diretor e roteirista Felipe Trema conta que queria uma história que fosse de fácil identificação, que tivesse uma linguagem clara e econômica. Nos ensaios com os atores Fábio Castilhos e Ida Celina a conversa fluía e, para ele, parecia um encontro familiar. “Eles leram o roteiro e quando a gente foi fazer as discussões, eu estava vendo os personagens na minha frente. […] Às vezes eu tinha a sensação de que era um encontro familiar, parecia que eu estava encontrando pessoas que já tinha visto antes”, celebra Felipe.
Paçoca foi a que mais improvisou, interagindo com um dos seus brinquedos, uma bolinha, em cena. “Quando a gente foi pra filmagem tudo funcionou. A cena da bolinha foi improviso. Ela foi lá e pegou a bolinha sozinha. E pensei “esse cachorro vai ganhar um Oscar”, comenta.

No curta Livre Ária, o diretor e roteirista Gabriel Thomsen contou que queria criar uma atmosfera futurista, distópica, e abordar a liberdade através da música. O principal, Levi relembrava suas memórias através de uma flauta, e Gabriel conta que o processo de ensaio foi importante para delinearem as intenções dos personagens. “Enquanto a gente revisava o roteiro e falava as falas, a gente conseguia melhorar mais ainda, dar mais nuance e profundidade às personagens”, explica. Pensando no som, Gabriel conta que a ideia era criar uma ambientação de futuro. “Era pra ter uma premissa mais futurista, daí sons que tinham a ver com uma dimensão mais robótica. E o lugar que a gente gravou também ajudava bastante porque dava uma ambientação mais futurista”.
A protagonista do stop motion Memento Mori é uma aranha. A animação teve direção de Ângela Roveda, e a sinopse é “sem essa, aranha”. Em seguida, um peixe atravessa o deserto no stop motion O Peixe, dirigido por Beatriz Potenza.
A exibição dos curtas da segunda sessão do dia começou com Ruptura, escrito e dirigido por Júlia Heerdt, que conta a história de Sara, uma adolescente que convive com a sensação de não-pertencimento e, em uma festa, se aproxima de Pedro. Em seguida, o curta Eco, com roteiro e direção de Bárbara Lima, que retrata as histórias daqueles que habitaram. Utopia traz a história de Gregor, que vive sozinho e só conversa com Marge, um robô do setor de RH da empresa. Gregor um dia se espanta ao ver uma gravura de si mesmo. Para encerrar a Mostra, o curta Super-Guri trouxe risadas no público com uma comédia em forma de documentário, em que documentaristas acompanham o novo vilão de Porto Alegre, o Gado Gaudério, em sua tentativa de manchar o home do herói da cidade, o Super-Guri. O debate da sessão foi conduzido por Daniela Strack, assistente de direção e produção em diversos projetos de cinema, televisão e publicidade.
Ruptura, escrito por Júlia Heerdt, foi inspirado em uma história real de superação, que ela resolveu levar para as telas. Ela conta que tinha na cabeça algumas das imagens de como seriam as cenas e que quando o roteiro já estava encaminhado e estavam iniciando a pré-produção para as gravações, a pandemia alterou os planos. As filmagens foram adiadas e os estudantes se dedicaram ao TCC para, somente depois, retornarem às gravações. Para ela, a dinâmica de gravações foi desafiadora e ela contou sobre o trabalho em outras produções da turma.
“A gente roteiriza o filme que a gente dirige, a gente produz um filme, a gente faz assistência de direção em um filme, e cada um participa nas suas especialidades. Eu escolhi arte, então fiz arte em outros filmes. É uma doideira. Enquanto a gente está fazendo nosso filme, já estamos produzindo outro, e já pensando em outro. Então foi meio que uma doideira, mas foi muito legal”.
O curta Eco trabalhou a memória de um ambiente. A diretora e roteirista Bárbara Lima conta que quis trabalhar as diversas histórias que aparecem no filme a partir de fragmentos: “Eu busquei não explicar nenhuma história, mas dar fragmentos pensando nessa questão de como a gente não conhece a si nem aos outros completamente e quantas coisas não acontecem escondidas entre as quatro paredes que, de uma forma ou de outra, acabam ecoando tanto em outras pessoas como nos próprios ambientes. Então quando você entra num lugar novo, ou se muda, quantas pessoas já não passaram e deixaram pequenas marquinhas?”, explica.

Utopia foi um curta-metragem que surgiu a partir de um desenho. Beatriz Lopes escreveu e dirigiu o curta, e conta que a ideia inicial surgiu de uma ilustração que fez do personagem principal, Gregor. “Eu gostava muito da estética de um filme de ficção científica. Comecei a pensar e surgiu o Gregor, e eu o desenhei”. Buscando uma motivação para o personagem, ela percebeu que os desenhos poderiam ser uma chave. Na orientação aos atores, Beatriz propôs exercícios aprendidos durante o curso e, por também ser atriz, quis trabalhar a construção do personagem com o ator, Alexandre Vargas. “Sou atriz e gosto muito de direção, de pensar coisas pro ensaio. Eu queria muito trazer um pouco deste peso pro personagem, e no ensaio, deu para passar para ele o peso que eu queria que o personagem carregasse, e ele também contribuiu muito trazendo ideias”.

O curta que encerrou a Mostra foi Super-Guri, uma comédia que conseguiu trazer risos da plateia com o formato de documentário. O diretor Telson Reis Júnior conta que, no processo de escrita, foi transformando os personagens para que fosse criada uma identificação, para que as pessoas gostassem do vilão Gado Gaudério e seu comparsa Quero-Quero. “No processo de tentar encontrar cada personagem eu tive reuniões online com os atores, pra entender mais ou menos a ideia da cena, qual é a personagem, qual a voz deles”, explica. Telson teve receio na hora da estreia, imaginando se as piadas dariam certo, mas as risadas da sala de cinema puderam comprovar.
Um dos coordenadores do CRAV, Milton do Prado, explicou que a pandemia fez com que muitos roteiros fossem adaptados e as gravações, adiadas. Atenta aos protocolos da Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos, a produção tinha que estar sempre de máscara Pff2. se houvesse atores no curta, somente um poderia ficar sem máscara. Uma das produções incorporou as máscaras à história, como foi o caso de Astronauta Azul, em que os personagens as usavam em cena.
Em alguns curtas, há cenas em que dois atores conversam, sem máscara, e Milton explica como foram gravadas: “Foram filmados separados e, depois, foram juntos na pós-produção. Foi filmado um ator com máscara e o outro sem, com a câmera na mesma posição, mesma luz, aí inverte e filma de novo”, explica Milton. Adaptar seus roteiros, repensar as histórias, tudo isso fez parte da realização das produções no meio de uma pandemia. “Essa turma está muito de parabéns! Eles foram absolutamente fantásticos para fazerem filmes legais apesar de todas essas restrições”, celebra o coordenador.
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]]>As exibições presenciais serão feitas em cinco cinemas de Porto Alegre: Cinemateca Capitólio, Sala Eduardo Hirtz (Casa de Cultura Mario Quintana), Cine Grand Café, Cine Farol Santander e Instituto Ling. Serão exibidos 67 filmes, sempre na parte de tarde. A lista completa de todos os títulos pode ser acessada aqui.
Para André Luis Nunes Kleinert, membro do júri da crítica da mostra de curta-metragem, o Fantaspoa é importante para o cinema devido à diversidade de filmes apresentados, muitos dos quais não passariam no circuito comercial padrão. “Tem filmes cuja oportunidade de ver em uma tela de cinema será apenas no Fantaspoa. Depois, só na internet”, comenta o jurado.
André avalia ainda que o destaque do Festival no cinema nacional e gaúcho é justamente por ele ser um dos poucos que foca exclusivamente o gênero fantástico. “Isso ocorre porque esse gênero não é tão bem consolidado, e é visto com um certo preconceito e desconhecimento”, explica. O festival, segundo o jurado, ajuda a dar visibilidade ao gênero e ampliar o acesso para filmes independentes, normalmente fora do circuito dos grandes blockbusters de Hollywood.
Em 2021, o Fantaspoa totalizou mais de 80 mil espectadores, sendo 58 mil visualizações de filmes e 22 mil nas atividades paralelas do evento. Na edição de 2022, além das exibições de filmes, o Fantaspoa conta com 70 convidados brasileiros e estrangeiros, que participam de 37 sessões comentadas com o público e seis atividades de formação.
Os aficionados pelos filmes fantásticos contarão também com duas festas. A primeira será no dia 23 de abril, no bar Opinião. É a “Fantaspoa Toda La Noche”, que vai abrir o 18º Fantaspoa. A temática será inspirada no homenageado do ano, o vampiro Nosferatu. No dia 30 de abril, para marcar o encerramento, será realizada a FFF (Festa à Fantasia do Fantaspoa), no Instituto Ling. A entrada será franca.
Para mais informações sobre o Festival, a programação, as festas e como assistir os filmes via streaming, acesse www.site.fantaspoa.com/2022.
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Além disso, a premiação teve como fato inédito a indicação de melhor ator para um muçulmano (Riz Ahmed, O Som do Silêncio) e para um asiático-americano (Steven Yeun, Minari: Em Busca da Felicidade). Foi também a primeira indicação na história do Oscar de uma asiática na categoria de melhor atriz coadjuvante (Yuh-Jung Youn, Minari: Em Busca da Felicidade). Ela acabou levando a estatueta. Também foi a primeira vez que um longa-metragem produzido por negros foi indicado a melhor filme (Judas e o Messias Negro). Os dois atores negros do mesmo filme disputaram o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante.
A busca por mais diversidade fez com que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas que organiza o Oscar decidisse que a partir de 2025, todas as produções que desejarem concorrer à categoria de melhor filme deverão acatar pelo menos uma das seguintes regras:
“Ter um ator ou atriz de grupos étnico-racial subrepresentados num papel de protagonismo;
30% do elenco e da equipe de produção, ou direção, ser de minorias sociais;
Tema central do filme sobre essas minorias;
Igualdade de pagamento entre brancos, negros, mulheres e LGBTQIA+
Produções locais já se orientam por diversidade”
O coordenador do Curso de Realização Audiovisual da Unisinos (CRAV) Milton do Prado vê como muito positivo o o fato do Oscar estar mais atento a inclusão de grupos minoritários ao prêmio. “As indicações e votações do Oscar representam tendências de debates sociais, tanto que o júri, atualmente, já possui participação maior de estrangeiros, por exemplo”, completa.
Mas, apesar de ser o evento mais popular de cinema no mundo, Milton, que também ocupa a cena da realização audiovisual a partir de seu trabalho de montagem e crítica de cinema, entende que o Oscar tem quase nenhuma influência na produção e no debate social e cultural do cenário brasileiro de cinema.Para ele, é o Oscar que está sendo influenciado. “Isso mostra uma evolução no debate em Hollywood e no mainstream. A discussão pode ter mais influência no público que assiste aos filmes, mas quase zero em quem realiza projetos aqui no Brasil. Isso é só mais uma tentativa do mainstream em não perder terreno e público”, entende Milton.

A professora do CRAV e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS), Fatimarlei Lunardelli, concorda que a discussão sobre diversidade na equipe e nos temas de filmes está mais adiantada aqui no Brasil do que na cena norte-americana. “A websérie Confessionário: Relatos de Casa, sobre violência doméstica e de gênero, com direção de Deborah Finocchiaro e Luiz Alberto Cassol, é mais um dos exemplos de como a produção no estado discute sobre esses tipos de tema”,“
“Cheguei a ouvir que protagonistas mulheres não tinham a capacidade de atrair muito público”
A cineasta e ex-aluna do CRAV Tatiana Nequete é uma das realizadoras gaúchas preocupadas com o tema diversidade no cinema. Tatiana é diretora e criadora da série Oráculo das Borboletas Amarelas, da TV Brasil, que aborda temas como machismo, racismo, feminismo, além de ter maior número de personagens femininos como protagonistas. “Por conta dos temas abordados, sofremos e demoramos muito para colocar o projeto em ação. Cheguei a ouvir que protagonistas mulheres não tinham a capacidade de atrair muito público”, relata a diretora.

Além disso, Tatiana conseguiu montar uma equipe muito bem representada por mulheres. Por isso, elas ocupam todos os cargos de liderança na equipe de produção. “Fizemos dessa maneira pensando, primeiramente, por se tratar de uma série que possui protagonistas femininas. Também para não corrermos o risco de ter um ambiente machista e tóxico, como é comum na grande maioria dos sets de filmagem no Brasil”, revela.
Falando especificamente sobre a presença feminina na produção audiovisual, a cineasta Tatiana acredita que isso só vai aumentar quando forem criados mecanismos sociais e políticos que permitam à mulher ocupar cargos de liderança no cinema. “Infelizmente, ainda há pouquíssimas mulheres como diretoras gerais e de fotografia. Por isso, as narrativas de homens brancos ainda predominam nos temas abordados nos filmes”, completa.
A percepção de Tatiana pode ser comprovada pelos números. Segundo o levantamento da Ancine, Diversidade de Gênero e Raça nos Lançamentos Brasileiros de 2016, apenas 5% dos profissionais dos longas lançados comercialmente eram negros. Destes filmes, mulheres só estavam em funções de direção e roteiro em 19% e 16%, enquanto negros somente em 2,1% das realizações audiovisuais. Além disso, negros faziam parte de meramente 8% de elenco principais e mulheres eram diretoras de fotografia em 7,7% das produções.
Em relação ao Oscar, Tatiana acredita que o ato da premiação em abrir espaço para um número maior de profissionais pouco representados deve ser mais valorizado. “Ter essa discussão no Oscar é um sinal muito importante e forte de que as coisas estão. Mostra que isso é uma tendência no cenário”, afirma a diretora, complementando que, apesar disso, ainda existe um longo caminho a ser percorrido para se chegar a uma igualdade de direitos e oportunidades no cinema.
Tatiana Nequete entende que o assunto está cada vez mais presente no ambiente acadêmico. Mas também revela que quando entrou no curso em 2003 a presença de grupos minoritários era baixíssima. “quando ingressei na universidade, o número de mulheres, negros e negras era muito pequeno. Além disso, existiam poucas mulheres no mercado como diretoras. Eu acabava tendo pouca referência que pudesse me inspirar”, relata a cineasta.
O coordenador do curso da Unisinos, Milton do Prado entende que as discussões sobre diversidade cresceram bastante na última década. “O maior número de debates e conversas sobre diversidade podem ser explicados também por conta da presença dessas pessoas na sala de aula. A presença de mulheres e negros, por exemplo, aumentarou bastante na última década”, conta Milton
A demanda por debater essas questões fez com que o curso criasse o projeto CRAV Mais Diverso. “A ação, que foi pensada em conjunto com todos os professores, acontece desde o ano passado e tem como objetivo trazer mais discussões étnicas-raciais, feminismo e de gênero para dentro da sala de aula”, conta.
O professor ressalta ainda que a preocupação com a representatividade na funções ocupadas na realização, e nos temas, deve ser seguida pelo olhar criterioso em todos os aspectos da produção. “O filme deve ser bem realizado. O produto deve ir além de ter apenas um bom tema central”, acredita Milton.
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]]>O filme é dividido em duas partes, cada uma com uma história diferente. A primeira, “Com um Pouquinho de Sorte” fala sobre um casal, Jorge e Maria, que entra em crise financeira coincidentemente junto com a chegada do primeiro filho. A segunda, “Vida Nova por Acaso”, que foi digitalizada e está disponível na internet, gira em torno de uma dupla de ladrões, Magrão e Crioulo, sua luta para sobreviver em Porto Alegre e a relação que surge entre o Crioulo e uma moça de alta classe social.
O encontro foi ministrado pelos coordenadores de Realização Audiovisual, Milton Prado Franco Neto e Vicente Moreno, e teve como convidados a filha de Odilon Lopez e responsável pelo acervo do falecido diretor, Vanessa Lopez, e o realizador audiovisual e membro do coletivo Macumba Lab, Alexandre Meireles. Vanessa foi quem iniciou a conversa compartilhando um pouco sobre a vida e o trabalho de Odilon.
O diretor nasceu em Minas Gerais, em 1941, e se mudou para o Rio Grande do Sul em 1959. Em terras gaúchas, participou da Campanha da Legalidade, em 1961, foi um dos fundadores da TV Piratini e ajudou a fundar a TVE. Odilon decidiu que queria trabalhar com cinema após conhecer os filmes do Charlie Chaplin, e chegou até a vender um apartamento para conseguir gravar sua obra mais conhecida, “Um é Pouco, Dois é Bom”.
Vanessa disse, durante o encontro, que estava muito feliz pelo reconhecimento que esse filme passou a ter nos últimos tempos.
“Penso que meu maior objetivo na vida é espalhar a obra do meu pai, fazer com que ela alcance o máximo de pessoas possíveis. E me deixa muito feliz ver que o Odilon está conseguindo alcançar a atual geração de jovens com o trabalho dele”, comenta com um sorriso no rosto.
Já Alexandre Meirelles direcionou sua fala durante o encontro para o filme de Odilon. Em especial, à segunda parte, “Vida Nova por Acaso”, por estar disponível na internet para todos que quiserem conferir. Meirelles deixou claro que é um grande fã desse filme e trouxe para o debate muitas perspectivas que o longa traz, como o fato de ele desconstruir a imagem do gauchismo que se tinha na época, e ter muitas filmagens no centro de Porto Alegre dos anos 1970. Mas, para Meirelles, o ponto alto dessa obra está no protagonismo negro que ela traz.
“Apesar de esse filme estar completando 50 anos, ele continua muito atual. A segunda parte dele é uma comédia, é divertidíssima, mas tem um fundo sério nela. Principalmente no protagonista Crioulo, na forma como ele se relaciona com as pessoas de classe alta, na cena em que ele está no mercado e advertem o vendedor para ficar de olho nele, entre outros pontos”, salienta.
Meirelles acrescentou que outro ponto relevante de “Um é Pouco, Dois é Bom” é o fato de ser um filme com protagonista negro diridigo por um homem negro. Segundo ele, a década de 1970 teve uma explosão de presença negra no cinema, mas isso decaiu com o passar do tempo. Porém, Meirelles acredita que os negros estão tendo cada vez mais espaço no cinema atualmente, e que está por vir uma nova onde de obras produzidas por pessoas negras.

O Dia da Consciência Negra amanheceu triste e cinzento. Na noite de ontem, a mesma do debate do filme, e por uma infeliz coincidência, com relação ao que foi discutido, dois homens agrediram até a morte um homem negro, João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, no estacionamento do supermercado Carrefur, na zona norte de Porto Alegre.
O coordenador do curso de Realização Audiovisual da Unisinos, Vicente Moreno, comenta que havia um otimismo no tom do encontro. “A juventude está mais politizada e preocupada com a questão racial. Vemos isso na eleição recente de 5 vereadores negros em Porto Alegre, no Black Lives Matter, no Macumba Lab, no cinema e audiovisual negro que estão ganhando mais protagonismo”, diz ele. Não havia como imaginar que, naquele momento, o assassinato brutal de um homem negro estava acontecendo na capital gaúcha.
O colega de Moreno, Milton Prado Franco Neto, acrescenta que é muito chocante isso ter acontecido não apenas na véspera do Dia da Consciência Negra, mas na véspera do Dia da Consciência Negra justamente de 2020, que também é o ano do assassinato de George Floyd e de uma série de ações da população negra pelo mundo, com o claro recado de que não é admissível essa violência.
“Isso deixa claro que tem uma barreira impedindo que os gritos da população negra pelo fim da violência atinjam parte da sociedade. Aqui no Rio Grande do Sul nós temos uma polícia e uma cultura policial muito violenta, mas não há dúvida nenhuma de que as pessoas negras são as que mais sofrem com isso. E o acontecimento de ontem é só mais uma prova disso”, comenta o professor.
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]]>Há mais de 40 anos, o Festival de Cinema de Gramado vem acompanhando a evolução do cinema brasileiro e, principalmente, gaúcho. Curte cinema? Porque essa pode ser a edição perfeita, ainda mais se você nunca presenciou nenhuma. Primeiro, os conteúdos estarão disponíveis no Canal Brasil Play, via streaming. Segundo, as mostras competitivas serão exibidas na TV pelo Canal Brasil. E ainda tem as redes sociais Facebook e Instagram. Sinta-se convidado ao universo cinematográfico latino-americano. Confira a programação do 48º Festival de Cinema de Gramado.
O Mescla conversou com Fatimarlei Lunardelli, vice-presidente da Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (Accirs) e que também já atuou como professora substituta do Curso de Realização Audiovisual (CRAV) da Unisinos. “Os filmes ainda são inéditos. Posso dizer que uma boa expectativa é em relação ao filme “Um animal amarelo”, sexto longa do diretor Felipe Bragança. Esse é um dos filmes brasileiros selecionados entre 146 inscritos”, diz Fatimarlei sobre a obra, que trata da herança do colonialismo português no Brasil de hoje.
Para ela, o Festival de Gramado deste ano está conseguindo administrar o enorme desafio de manter a continuidade em meio à pandemia, que impõe o isolamento social. “Praticamente todas as atividades estão mantidas e isso é muito bacana, porque, de certa forma, vai alcançar mais gente”. A crítica de cinema lamentou apenas não poder apreciar a beleza do evento na Serra gaúcha.
Mônica Kanitz, curadora da Cinemateca Paulo Amorim e integrante da Accirs, conta que sua expectativa é grande em relação a essa edição: “Há 20 anos, é sempre um momento aguardado de encontro com colegas jornalistas, amigos e realizadores do Brasil inteiro. Junto, vem a possibilidade de conhecer uma nova safra de curtas e longas nacionais, vivenciar a maratona do ‘gauchão’ (a mostra de curtas gaúchos) e ter algumas surpresas – boas e não tão boas – diante da competição de filmes estrangeiros”, diz. Uma de suas dicas para aproveitar o formato gratuito é “Aos pedaços”, do Ruy Guerra. “Trata-se de uma produção de um dos cânones do cinema brasileiro – ele está com 89 anos. A outra é ‘Todos os mortos’, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, dois diretores que vêm realizando projetos instigantes e inovadores no nosso meio audiovisual.”
Os cravianos no Festival de Gramado

Como já é de costume, o CRAV também tem presença marcada no Festival de Gramado. Atuando nas mais diversas funções, desde montagem, produção, até roteiro e direção, os cravianos, como são chamados, são formados por professores, alunos e ex-alunos, que costumam deixar a marca do curso nesse que é um dos mais respeitados festivais de audiovisual da América Latina. Ao todo, são 15 filmes produzidos por cravianos selecionados tanto para os Curtas Gaúchos como para os Longas Gaúchos.
Uma dessas obras selecionadas foi a animação “Sopa Noir“. O curta foi produzido por acadêmicos do CRAV durante os dois semestres de 2019. O roteiro, a direção e a animação foram de Beatrice Petry Fontana, que contou com Thiago Dorsch na produção e direção de arte, Alice Sperb também na direção de arte e Guime na direção de foto. Julia Zoppas, João Cardoso e Luiza Zimmer foram os integrantes da equipe de som. O filme teve apoio da equipe do Laboratório Avançado de Tecnologias da Informação e Comunicação (Labtics). A orientação foi do professor James Zortéa.
Ele explica que todo aluno que decide realizar um filme de animação precisa primeiro apresentar um projeto audiovisual para o colegiado do curso. Após aprovado, começa todo o processo de realização com a formação de uma equipe. Segundo James, a diretora Beatrice destacou-se com o aprendizado de um software 3D que usou na produção. “Todo o CRAV celebra a consagração exitosa do processo acadêmico, que culmina na exibição do filme junto ao circuito profissional, com visibilidade nacional”, destaca.
“Sopa Noir” é uma comédia policial. O filme se passa no mundo dos vegetais, e tem como trama o mistério do assassinato do Chuchu. Beatrice conta que entrou no curso com foco em animação e direção de arte, e que sempre gostou da estética de filmes noir estadunidenses e de comédias. “Pude colocar tudo isso nesse projeto. Foi desafiador, mas admito que o processo foi divertido”, revela Beatrice, que já participou do Festival como espectadora em anos anteriores.
“Acho que não só para mim, mas para a equipe e dubladores do curta, significa o reconhecimento do nosso trabalho, dedicação e esforço posto na produção desse curta. Ser selecionada para o 48º Festival de Gramado mostra que o esforço valeu a pena e também significa de que estou caminhando no rumo certo para o meu futuro profissional”, observa a aluna.
Os egressos também estão no Festival
Filmes de ex-alunos também serão exibidos no Festival. Entre eles está “Lacrimosa“, de Matheus Heinz, responsável por praticamente toda a produção da obra. O filme conta a história de uma menina que perde o irmão, e os pais são acusados pela morte dele. “Eu sempre quis falar sobre esse tema, a morte de um filho pelo seu próprio pai. Acho que, por ser absurdo demais, algo antinatural”, destaca o craviano. Matheus contou apenas com a ajuda do namorado, que ficou com a divulgação, e da irmã, para a dublagem. Ele lamenta não poder participar do Festival de forma presencial. “Saber que mais pessoas terão acesso aos filmes me reconforta”, sublinha.
“O céu da pandemia“, curta da ex-aluna Marina Kerber, também foi selecionado. A obra, que faz parte da série Quarantine Tales e também do festival Fantaspoa at Home, tem no Festival de Gramado a consolidação do reconhecimento. Marina comenta que a produção do filme foi muito caseira e sem uma narrativa linear. “Fiquei muito feliz que o Festival abriu a seleção para diversos tipos de expressão artística”. O curta mistura ficção com documentário e animação com live action, mostrando fatos históricos do momento que vivemos com metáforas visuais. Marina usou apenas o celular e o computador na produção. “O filme foi sendo criado dessa forma, um quebra-cabeça que fui montando aos poucos”, explica.
Daniel de Bem também foi um dos cravianos escolhidos, com o curta-metragem “Ver a vista“. Ele conta que quando era criança, em uma viagem ao interior, seu pai – falecido há quase 20 anos – o levou até um morro para observar a região. O momento, registrado em fitas VHS, foi sua inspiração para construir a obra. O filme foi feito apenas com a montagem e edição de imagens de seus filmes antigos, sobras de material bruto e gravações de celular. Daniel acredita que estar no Festival de Cinema de Gramado traz uma força coletiva com os outros participantes. “A seleção desse filme me inspira a pensar mais um cinema fora das narrativas ficcionais básicas”, comenta.
Jéssica Luz, professora do CRAV, também foi uma das selecionadas, junto dos já formados Pedro Clezar, Natasha Ferla, Jonatas Rubert, Fernando Polla e Higor Rodrigues. Ela é produtora executiva de “Portuñol“, filme que será exibido na categoria Longas Gaúchos. O documentário mostra as misturas culturais na região fronteiriça do Brasil, e tem direção de Thais Fernandes. A pequena equipe registrou a mescla de línguas, como espanhol, português e até o guarani nos diferentes países de fala castelhana. Jéssica explica que o filme foi financiado pela GloboNews e tem duas versões. “Uma é mais longa, de 70 minutos. Essa que a gente tá exibindo no festival é outra, de 50 minutos, que vai passar na televisão, depois de passar no cinema”, explica.
Para saber mais sobre o Festival
Tudo começou em 1973, com a oficialização do evento pelo Instituto Nacional de Cinema. Era uma parceria entre Embrafilme, Prefeitura Municipal de Gramado, Companhia de Jornalismo Caldas Júnior, Fundação Nacional de Arte e as secretarias de Turismo e Educação e Cultura do Estado. Era a estreia do “Deus da alegria” (Kikito), concedido a todos os vencedores. Em 1992, houve a internacionalização do Festival, que passou a apresentar um panorama da produção ibero-americana.

O 48º Festival de Cinema de Gramado tem curadoria de Marcos Santuário, Pedro Bial e Soledad Villamil. Entre os homenageados estão Horst Volk, Marco Nanini, Laís Bodanzky, Denise Fraga e César Troncoso. Se você não conhece o Festival, a hora é esta. Não esqueça de acessar as redes sociais do evento, que ocorre entre os dias 18 e 26 de setembro. Tipo, começa amanhã.
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]]>João Luiz Vieira se formou em 1973, na própria universidade onde atua, no curso de Comunicação Social. Um dos seus mestrados é em Cinema Studies pela New York Univeristy, instituição em que também concluiu seu doutorado. O professor possui pós-doutorado na University of Warwick, Inglaterra.
Além disso, João Luiz Vieira também é autor de diversos textos, críticas, ensaios e livros. Há cinco anos ele estuda um campo relacionado à sobrevivência e preservação da materialidade física do cinema e de lugares, como ocorre com a Cinemateca Capitólio, que hoje podem servir como centro cultural. Aliás, foi no próprio cinema que ocorreu esta entrevista. Ao longo da conversa ele falou também sobre as dificuldades enfrentadas tanto pelos pesquisadores quanto pelos realizadores audiovisuais do país.
Para ver mais: Os dois episódios da entrevista estão disponíveis no MesclaTV e podem ser acessados clicando aqui.
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O evento é dividido em quatro programas, sendo que no Programa 1 serão exibidos os trabalhos dos alunos do segundo ano do curso. Já os Programas 2, 3 e 4 serão dedicados a produções dos alunos do terceiro ano. Para o coordenador do CRAV, Milton do Prado, esse evento é muito importante para os alunos. “É um momento que coroa os trabalhos de todo um ano. Já acabaram as aulas, mas é sempre um momento muito esperado para o nosso curso”, explicou.
Com mais de 150 lugares, os estudantes vão assistir os trabalhos, no Cinemateca Capitólio, junto com um grande público. Depois de cada sessão, será realizado um debate com os alunos e um convidado especial. A entrada é franca e a programação completa pode ser conferida no Facebook.
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