Especial

#comunicação #comunicação digital #inovação #interatividade #tecnologia
A indústria criativa e a nova ordem digital
“Durante o FIC19, realizada na Unisinos, convidados contaram como a internet tem influenciado suas experiências profissionais”
Guilherme Machado

Nos dias 28 e 29 de outubro, ocorreu o FIC19 – Festival de Interatividade e Comunicação -, na Unisinos Porto Alegre. Participaram mais de 1700 pessoas, que conferiram 40 palestras apresentadas em três espaços. Comunicação e tecnologia estiveram no centro do debate e nos fizeram refletir (repórteres do Mescla) sobre esse mundo moderno, digitalizado e cada vez mais otimizado. O evento também foi um convite a pensar o nosso papel nessas transformações, afinal, por trás de tanta tecnologia, existem pessoas com histórias para contar. 

A programação foi dividida em tracks (faixas), sendo elas “conteúdo e engajamento”, “experiência e consumo” e “tecnologia e convergência”. Para acompanhar o máximo de palestras possíveis, nossa equipe foi formada por seis repórteres, que suaram a camiseta nesta cobertura especial.

Para que essa experiência pudesse ser compartilhada rapidamente com você, caro leitor, apresentaremos, a seguir, a primeira parte deste material, em que falaremos de nove palestrantes. Em breve, o Mescla publicará as demais partes, com os relatos dos outros convidados.  

Ivan Mizanzuk

Com o Projeto Humanos, o produtor de podcasts investe no formato de storytelling

Por Josi Skieresinski

Apaixonado por rádio, Mizanzuk produz podcasts usando as técnicas de storytelling.
(Foto: Josi Skieresinski)

Ivan Mizanzuk começou sua palestra enaltecendo um tradicional veículo de comunicação: “O rádio é o meio mais visual que existe”. O palestrante explicou melhor: é visual por permitir que as pessoas criem, em sua imaginação, imagens e cenários do jeito que acharem melhor, diferentemente do cinema e da televisão, que já entregam tudo pronto. Para Mizanzuk, o rádio tem a capacidade de se renovar. “E agora, digital, abre portas para outros formatos e programas, como os podcasts, que são consumidos pelas plataformas online”, avalia. 

Mizanzuk é fundador, produtor e host do AntiCast, canal que reúne podcasts de temáticas variadas. Está por trás também do Projeto Humanos, podcast em formato de storytelling. É autor de Até o Fim da Queda (2014) e co-autor de Existe Design? (2013). Doutor em Tecnologia pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), é professor universitário nas disciplinas de história da arte e arquitetura, história do design, planejamento gráfico e metodologia de pesquisa.

“Podcast no Brasil sempre foi muito do tipo as pessoas reunidas em uma mesa, com amigos, conversando, gravando tudo e pronto. Uma hora, uma hora e meia de gravação, faz uma edição mais ou menos grosseira e era isso. Já lá fora, tinha o Serial e o This American Life, produzidos em formato de storytelling”, comenta Ivan. “Storytelling, basicamente, são filmes para se ouvir”, explica.

No Projeto Humanos, que relata histórias reais de pessoas reais, Ivan se inspirou justamente no This American Life, programa de Sarah Koenig, e no Serial, que conta  casos criminais verdadeiros. Atualmente, o Projeto Humanos está na sua quarta temporada, e é o único no país nesse formato, intitulada “Caso Evandro”, que relembra um dos casos criminais mais chocantes da história do Estado do Paraná e do Brasil. Será a primeira temporada totalmente dedicada a um caso criminal brasileiro, sendo fruto de uma pesquisa de dois anos. Mizanzuk, encerra sua fala dizendo que espera que surjam outros projetos que usem e explorem o storytelling como formato para podcasts. 

Rafael Sbarai

Na opinião do jornalista, uma empresa depender unicamente de anúncios é um capítulo que não existe mais

Por Bruna Lago

Sbarai discutiu a diversificação da receita das mídias como
alternativa à dependência de anúncios
(Foto: Bruna Lago)

Estamos acostumados a pagar por entretenimento, por serviços, por conhecimento e por muitas outras coisas. Mas e quanto à informação? Com a cultura da televisão aberta e a venda avulsa de jornais, pagar por uma assinatura de algo que fica disponível na internet não é atrativo para a maioria dos brasileiros. Esse território, que parece livre, disponibiliza conteúdo de qualidade, dentro e fora do país, mas a sociedade não quer pagar por isso. Então, como as empresas podem produzir receita no mundo online?

Rafael Sbarai foi editor de mídia social e interatividade da revista Veja, além de editor e repórter da editoria de esportes do portal iG, atuando sempre em jornalismo online, modelos de novas mídias, tecnologia e negócios. Hoje, é supervisor executivo de produtos do site Globo Esporte e professor de Jornalismo Digital, Jornalismo de Dados e Gestão de Negócio Digital dos programas de graduação e pós-graduação da Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo. Com um currículo voltado ao mundo digital, Sbarai trouxe para a discussão como sobreviver além dos anúncios.

“A grande lição que o digital traz para nós, produtores de conteúdo e empresas de mídia, é não depender de publicidade para sobreviver. Uma empresa depender unicamente de anúncios é um capítulo que não existe mais”, define Sbarai. Para gerar receita e conseguir atenção do consumidor em um mar de informação, as empresas precisam investir em várias frentes simultâneas. Sbarai trouxe o exemplo do jornal norte-americano The New York Times, que arrecada atualmente uma soma considerável pela assinatura de palavras cruzadas e receitas de culinária.

Gustavo Guertler

O jornalista quer transformar a vida das pessoas por meio de conteúdo inspirador, desde que não precise usar terno e gravata

Por Guilherme Machado

Gustavo contou como usou a criatividade para transformar livros
em ferramentas de mudança na vida das pessoas
(Foto: Guilherme Machado)


Gustavo Guertler conta que o que nos define são nossas paixões, e a melhor paixão é aquela que paga nossos boletos. Felizmente, ele conseguiu esse feito. O CEO da editora Belas Letras, vencedora do Prêmio Nacional de Inovação Sebrae/CNI2019 na categoria Marketing, contou sobre sua trajetória de uma forma diferente: mostrou um cocozinho representando a si mesmo. 

Gustavo é jornalista, trabalhou em redações e se sentia bom naquilo que fazia até o dia em que foi demitido. Então, tudo mudou. Conseguiu um trabalho em uma livraria e, assim, começou sua história com a Belas Letras. Sua primeira missão na editora foi produzir livros infantis para convencer as crianças a torcer para determinado time. Quem contava essa história? Figuras populares como Gabriel, o Pensador. E o nome dos livros? “Meu pequeno colorado”, “Meu pequeno gremista”, “Meu pequeno flamenguista”.

O palestrante explica que gosta de transformar a vida das pessoas por meio de conteúdo inspirador. “Desde que eu não precise usar terno e gravata”, salienta Gustavo. Ele abdicou dos trajes sociais até mesmo quando subiu ao palco para receber o Prêmio Nacional de Inovação do Sebrae. Ao lado dos colegas, investiu em inovações na área de marketing. “Primeiro, ouvir as pessoas. Segundo, tratar os clientes como pessoas. Terceiro, servir ao invés de vender”, destaca.

Juntos, também investiram em parcerias com outras marcas, como a Imaginarium, Dentro da História, Dobra e Méliuz. Criaram, ainda, a campanha “Compre 1, doe 1”. Quem doava não eram eles, mas o próprio cliente (pessoa), que era instigado a levar o livro extra a uma criança em uma escola, hospital, orfanato. Gustavo concluiu que: “A vida é uma merda, sim. Mas, com os livros, se torna uma merda mais interessante”. 

Joel Pinheiro 

O efeito das redes sociais nas discussões políticas

Por Lisandra Steffen

“Lacrar nas redes sociais é mais importante que dialogar”
(Foto: Lisandra Steffen)

Joel Pinheiro subiu ao palco do Teatro Unisinos com uma provocação: “Discutindo política no ‘amor’ das redes sociais”. O tema da sua palestra foi o debate político no Brasil marcado por um ambiente repleto de brigas e ódio. Para ele, o grande desafio hoje é construir possibilidades de intervenção que não se restrinjam a fazer valer a própria opinião, produzindo situações negativas para a sociedade.

Joel é economista pelo Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), filósofo e mestre em filosofia pela USP, além de ser “aspirante” – como se denomina – a youtuber. Ele é colunista na Folha de S.Paulo e no aplicativo Exame Hoje. Também comanda o Sem Treta, ao lado de Leonardo Sakamoto, no canal digital MyNews. O programa traz discussões entre a esquerda e a direita (lado em que ele se diz estar) com divergências reais, tratando de assuntos polêmicos.

“As redes sociais, definitivamente, acabaram com o poder que a mídia tradicional e outras instituições tinham na hora de controlar a informação e a opinião que chega até nós”, disse Joel, ao enumerar uma série de fatos sem filtros jornalísticos que a população têm acesso diariamente.

O palestrante alertou ainda que as discussões nas redes sociais não são modeladas para mudar a opinião do outro, ou para aprofundar debates. Elas servem mais para impor crenças e valores ou, até mesmo, para humilhar quem pensa diferente. Quando perguntado sobre o que aprendeu com a última campanha eleitoral, ele respondeu que “não adianta dar murros em ponta de faca, e que os rótulos colocados nas pessoas não mudam a maneira como elas se comportam”. Como um bom filósofo, finalizou a apresentação com um pensamento: “As coisas são muito mais do que o que elas aparentam ser”.

Andreza Delgado

“A gente não pensou em fazer um evento da periferia para a periferia, muito pelo contrário. Nossa ideia era fazer pontes”

Por Josi Skieresinski

Andreza falou sobre a importância de levar novos olhares
e culturas para dentro da periferia

(Foto: Josi Skieresinski)

Andreza contou a experiência que teve em criar uma Comic Con no subúrbio de São Paulo, ou seja, um evento nerd, com forte presença geek, games e cultura pop. O PerifaCon foi fomentado por financiamento coletivo. “A gente chamou as pessoas para sonhar esse sonho junto com a gente”, lembra Andreza. Assim, conseguiram arrecadar R$ 8 mil para a realização da feira. Logo na primeira edição, foram quatro mil participantes e mais de 40 artistas expondo seus trabalhos, tudo de forma gratuita. “A ideia da gente foi e é incentivar esses artistas da periferia e também levar para a periferia esse universo, quebrando barreiras culturais e provendo acesso a essas pessoas”, contou a realizadora do evento. 

Andreza é baiana, mas mora em São Paulo. Ela tem 24 anos, é feminista, nerd, escreve para a revista Capitolina, tem dois livros publicados pelo selo jovem da companhia da Letras. Ela usa suas redes sociais para produzir conteúdo sobre o olhar da mulher negra de periferia. Como se fosse pouco, ainda arranja tempo para tocar um projeto que leva gibitecas para presídios e espaços da periferia de São Paulo. “Não tínhamos ideia dessa potência. Até hoje eu fico impactada pelo que foi o PerifaCon, de ver aquelas crianças felizes e de levar representatividade”, comentou. A fala da Andreza foi política em vários aspectos, chamando a atenção para a falta de acesso e de políticas públicas envolvendo as áreas de baixa renda no Brasil. 

Andreza avisou aos interessados que o PerifaCon 2020 já tem data: será no dia 12 de abril, na zona leste de São Paulo. E garante: todas as edições serão gratuitas para participantes e artistas expositores, e sempre será realizado em alguma periferia. “Se um dia eu falar que tem que pagar para entrar no PerifaCon, perdeu a essência, sabe? Não tem mais porque existir”, concluiu.

Ricardo Piccoli

Sistema desenvolvido pelo empresário permite calcular o alcance de um anunciante por meio do monitoramento de celulares 

Por Pedro Hameister

Piccoli explicou que o MediaEYE monitora em tempo real quantos consumidores transitam por um local onde tenha um anúncio de determinada marca
(Foto: Pedro Hameister)

Em sua palestra no FIC19, na track “conteúdo e engajamento”, Ricardo Piccoli defendeu que a tecnologia nos abre novas portas, mas também faz com que percamos cada vez mais a nossa privacidade. Conforme o empresário, os celulares, que se tornaram indispensáveis em nossas vidas, nos conectam com o mundo ao mesmo tempo em que registram cada um de nossos passos para grandes corporações, e não temos como evitar isso.

“Está nos termos de condições de uso dos celulares. Ou permitimos que eles nos monitorem em tudo o que fazemos, ou não vamos poder usá-los. E esse monitoramento é muito massivo”, disse Ricardo. Segundo ele, estima-se que há mais de 228 milhões de celulares só no Brasil – ou seja, mais aparelhos do que brasileiros. “A pergunta é: o que fazer com tantos dados?”, questiona.

O palestrante apresentou uma ferramenta criada pela agência de publicidade Sinergy Novas Mídias, da qual ele é COO, que pode se tornar o futuro das métricas de anúncios: o MediaEYE. Através de dispositivos posicionados pela cidade, o sistema monitora em tempo real quantos consumidores transitam por um local onde tenha um anúncio de determinada marca, detectando-os através dos celulares. Com isso, a agência pode saber o número total de impressões que uma propaganda teve, quantas pessoas a avistaram, qual a média por dia ou por hora de visualizações, entre outras informações. A marca que for cliente da agência pode acessar o portal do MediaEYE para consultar as informações obtidas pela ferramenta.

Atualmente, o MediaEYE atua em Porto Alegre, Gramado e Florianópolis. Na palestra, Ricardo mostrou o funcionamento da ferramenta, que também calcula qual o período do dia em que há mais impressões de um anúncio, o tempo médio que ele é avistado e até a quantidade de consumidores que se dirigem em seguida para um estabelecimento da marca anunciante. Para tranquilizar quem estava assistindo a palestra, o empresário deixou claro: as informações pessoais dos usuários detectados pelo MediaEYE permanecem em anonimato.

André Fran

O jornalista falou sobre como é produzir um programa que mostra
temas e locais controversos ao redor do mundo

Por Ângelo Gabriel

André Fran conta como foi criticado ao ajudar refugiados
em situações de risco durante as gravações de “Que Mundo é Esse?”

(Foto: Ângelo Gabriel)

Originalidade. É com esta palavra que André Fran, apresentador do programa “Que Mundo é Esse?”, do canal por assinatura Globo News, resolve escolher os destinos de viagem pouco buscados por quem quer sossego. Visitando países como Síria, Iraque e Arábia Saudita, ele contou histórias de vítimas de guerras, refugiados em busca de uma vida digna e de pessoas que produzem e disseminam notícias falsas.

Co-fundador da empresa BASE#1 Filmes, André também é diretor, roteirista e escritor. Primeiro palestrante da trilha “conteúdo e engajamento” do FIC19, o apresentador mostrou ao público como é produzir um programa que mistura jornalismo com reality show e que se aprofunda em temas polêmicos.

Sempre decidindo expor os problemas dos países, André diz que “existem
maneiras de criticar mostrando a realidade”. Segundo ele, os produtores do programa possuem duas regras de ouro. A primeira é: “Não peça permissão, peça desculpas”. A segunda é: “Nunca colocar em risco ou expor o oprimido, sempre o opressor”. Por isso, escolhe histórias de pessoas que sofrem com as leis e regras dos territórios, como, por exemplo, de uma mulher lésbica que mora na Rússia e se encontra secretamente com outras mulheres, visto que no país é proibido fazer propaganda homossexual, e o simples ato de andar de mãos dadas já soa como propaganda.

André acredita que todos podem contribuir para fazer do mundo um lugar melhor. Segundo ele, “a nova ordem digital permite que as pessoas contribuam para a melhoria das situações de diferentes maneiras, seja através de podcasts, postando nas redes sociais ou até mesmo atuando localmente nas comunidades”. Ele encerrou a palestra motivando os participantes a cultivarem esse pensamento de bondade. “Tente fazer a diferença, o mundo precisa muito”, destacou.


Michel Alcoforado

Por quê estamos sem tempo? 

Por Guilherme Machado

Michel falou sobre o tempo e a geração millennial
(Foto: Guilherme Machado)

“A vida de todo mundo tá difícil na percepção de tempo”. Assim, Michel Alcoforado deu início a uma fala cheia de humor fazendo o público se sentir em um stand up comedy. O palestrante falou de tecnologia, tempo, saúde mental e sobre nós, jovens millenials (a geração da internet). Afinal, nossos pais não entendem porque mudamos de ideia tão rápido, queremos ser tudo ao mesmo tempo e estamos “sem tempo, irmão”. 

Michel Alcoforado é doutor em antropologia do consumo, tendo se especializado na University of British Columbia, no Canadá. Em 2012, fundou a Consumoteca, que reúne empresas de pesquisa, análise e tendências com atuação no Brasil e na América Latina. A ideia é transformar a maneira como as marcas lidam com mudanças sociais do ponto de vista da antropologia. Também é palestrante, especialista em planejamento estratégico de comunicação, articulista do site UOL e comentarista da rádio CBN. 

Para Michel, o tempo deixou de ser repetitivo e se tornou cumulativo. Menos do que um jogo de palavras, a diferença é que, se antes a regra era fazer uma coisa de cada vez (estudar, casar, ter filhos, envelhecer e morrer), “tudo isso com algumas dívidas a serem pagas”, como destacou o palestrante, com a revolução digital, o tempo passou ser entendido como aberto a muitas possibilidades (só que não). Por causa dessa ideia real, mas difícil de ser executada, de estarmos em vários lugares, somos dependentes da tecnologia, perdemos ao menos cinco horas no celular, e nossa liberdade é constantemente vigiada e controlada. 

O mundo está um caos, diz ele, e falou mais: tudo é metrificado, pois precisamos de audiência nas nossas redes sociais. Criamos diferentes personas em cada uma delas e estamos muito preocupados com a grama do vizinho. O jovem tem medo de esperar e falhar. Nem todo conteúdo vale o nosso tempo. Qual a consequência? Nos tornamos a geração do Rivotril, que está sempre cansada e ansiosa. Michel nos convidou a pensar em como a nova ordem digital afeta nossas vidas. 

Roberta Yoshida

O futuro bate à porta e cobra automação. Novos empregos surgem todos os dias e outros precisam se adaptar. Mas, a grosso modo, as empresas não estão preparadas para as mudanças 

Por Bruna Lago

A dificuldade das empresas de acompanhar a tecnologia é um dos fatores que influenciam mercados, segundo Roberta Yoshida. (Foto: Bruna Lago)

“O mercado não consegue adotar a tecnologia na mesma velocidade que os indivíduos”. Esse é o centro da discussão levantada pela consultora estratégica Roberta Yoshida. CEO de Capital Humano da Deloitte Brasil, possui mais de 20 anos de experiência em RH. As novas configurações do mundo do trabalho formaram a tônica de sua fala. Questões como a ética, tempo médio necessário para a reinvenção dos profissionais e habilidades mais desejadas pelo mercado deram o tom da palestra. “O futuro vai ser melhor do que o presente, mas estamos vivendo uma fase de transição. E essa transição tem consequências imediatas e a longo prazo”, comenta Roberta.

Durante dez anos, a executiva liderou as iniciativas de transformação de RH na América Latina e tem também vasta experiência como líder em projetos relacionados a mudanças estratégicas organizacionais. Na palestra, Roberta trouxe dados alarmantes tanto em relação ao desempenho das empresas quanto à tecnologia. Pesquisas mostram que quatro de cada dez empresas acreditam que os grandes impactos da automação estão próximos, mas apenas 16% do total admite possuir treinamento para enfrentar a nova realidade. 

Com a perspectiva de trabalhar lado a lado com tecnologia artificial, 70% das empresas apostam na necessidade de um mix de talentos para encarar esse modelo de mercado. Nesse sentido, Roberta alerta que, dentre as competências desejadas hoje, estão a de comunicação, a de análise de dados e a de gestão.  Por fim, destacou o tempo médio necessário para um profissional se reinventar: “Já foi 30 anos. Em 2014, era de cinco. Agora, já está em dois anos e meio”.

Como as políticas públicas ligadas à Educação Superior vão lidar com isso é um dos questionamentos que a CEO deixa para o público. “A maioria de nós já entendeu que sem aprender não evoluímos e não conseguimos nos manter atualizados.” Ou seja, a educação se tornou um valor permanente.

Verônica Oliveira

A mente por trás do projeto que começou como uma forma de divulgar o próprio serviço de faxineira e acabou abrindo inúmeras outras portas 

Por Pedro Hameister

 Verônica Oliveira trouxe muito bom humor para sua palestra e impressionou
a todos com sua história de superação graças às redes sociais
(Foto: Pedro Hameister)

No FIC19, a paulista Verônica Oliveira contou como as redes sociais mudaram drasticamente a sua vida sem que ela esperasse por isso. “Minha mãe sempre me disse que a internet é um lugar mal. Não é. São as pessoas que a usam que, às vezes, são mal intencionadas. A internet pode ser usada para fazer o bem”, contou a faxineira – ela prefere ser chamada assim – em sua palestra.

Após ter perdido o emprego, em 2016, Verônica entrou no ramo da limpeza e começou a compartilhar seu trabalho no Facebook para conseguir mais clientes. A forma criativa e bem humorada como ela se divulgava – criando cards que faziam referências a filmes e séries de sucesso – fez com que o trabalho fosse ganhando cada vez mais alcance. Hoje, sua página faxina boa tem mais de 80 mil seguidores.

Além de faxineira, Verônica também atua como ativista e utiliza suas redes sociais para falar sobre a realidade de quem possui empregos pouco valorizados pela sociedade, sobretudo os relacionados à limpeza na casa dos outros. Ela passou a escrever sobre situações de preconceito que enfrentou mesmo após o sucesso do Faxina Boa, e também sobre a forma equivocada com que as faxineiras são retratadas em anúncios e comerciais televisivos. As postagens dela recebem muitos comentários de pessoas que se identificam com os relatos de Verônica.

O sucesso de seu trabalho também fez com que Verônica integrasse a programação do FIC19 na track “tecnologia e convergência”. Ela também é chamada para fazer palestras em todo o Brasil, participa de campanhas e é convidada para encontros de influenciadores digitais. Porém, não abre mão de seguir trabalhando no ramo que a lançou. “Me perguntam com frequência se ainda estou fazendo faxina. Estou sim! Porque eu amo o que faço”, conta Verônica, com um sorriso no rosto.

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