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Para a maioria ali presente, essa foi a primeira oportunidade em dois anos de rever ao vivo os colegas de aula. Foi também a chance de pegar em mãos a revista impressa e folhear as 52 páginas da edição, enquanto se apreciava um café e um bate-papo com o pessoal. A sensação foi de que, aos poucos, finalmente as restrições provocadas pela pandemia estão indo embora. Mas foi, também, um momento pesaroso, de luto e de belas lembranças da convivência com o colega e amigo Guilherme Machado, que faleceu em outubro passado, durante o percorrer do semestre.

A frase entre aspas foi dita pelo Guilherme, em um dos encontros virtuais de aula. Por sinal, a ideia da reportagem que ganhou destaque na capa da revista partiu dele. Infelizmente, o Gui, como os colegas o chamavam, não teve tempo de realizar a pauta. A tarefa foi assumida pelo professor, Everton, e pelas alunas Anna Gabryella Magueta e Josiane Skieresinski, monitora da disciplina. O trio fez questão de realizar a entrevista com a cantora e mulher transsexual Valéria Barcellos. “Pauta relevante, expressa o tema dessa edição e muito do que sentimos nesse processo. Assim, sempre que bater a saudade, teremos essa Josefa, a vida e a rua para nos lembrarem da coragem, do sonho e de por que escolhemos o jornalismo”, destaca o texto publicado na Carta ao Leitor, escrito por Everton.
O tema central da edição foi “a rua”, que, naquele momento, no segundo semestre do ano passado, voltava a ganhar movimento. “A gente ficou muito tempo em casa e o assunto escolhido vinha a calhar”, disse a aluna Bruna Schlisting Machado. Para ela, a rua é o espaço mais democrático que existe. “Têm pessoas de todas as raças, de todas as cores e todas as classes sociais. Então, por causa disso, a revista ficou bastante diversificada, cheia de pluralidades”, observa.


“Despetalar das margaridas” é o título da matéria produzida pela Bruna. Ela comentou que a inspiração veio do trabalho de Fernando Braga da Costa, doutor em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Ele investigou, na sua dissertação de mestrado e tese de doutorado, que o antagonismo de classes, através de um trabalho considerado não-qualificado e subalterno, ganha um efeito de invisibilidade e de supressão da personalidade. “Minha pauta foi sobre a invisibilidade das mulheres garis. Elas vestem roupas laranjas que, às vezes, as tornam invisíveis. É como se a gente passasse por essas profissionais e não as percebessem”, avalia Bruna. “O uniforme colorido é praticamente uma não-cor”, reflete a futura jornalista.
Bruna salienta que, enquanto muita gente ainda estava praticamente trancafiada em casa, os garis não pararam em nenhum momento. “Eles trabalharam a pandemia inteira. Apurar essa reportagem foi mais impactante, também, por causa disso. Enquanto eles estavam lá, trabalhando nas ruas, eu tive o privilégio de ficar dentro da minha casa”.
O nascimento de um novo número da Josefa sempre começa pela apresentação de propostas de tema central pelos alunos. “Eu comecei a olhar para elas e refinar. Sempre é preciso refinar para chegar em um tema para a revista”, explica Everton. Passado esse processo, o professor apresenta a proposta final para a turma aprovar. Depois, inicia o momento de cada aluno escolher uma pauta relacionada a esse tema.
Desta vez, Everton foi além do trabalho de orientação e edição do material produzido pelos alunos. Com a partida do Guilherme, o professor também atuou como repórter. Ele e a turma decidiram prestar um tributo ao Gui realizando a proposta de matéria que ele havia apresentado. Além de tratar de um assunto oportuno e pertinente, estava muito conectado com o tema da edição. “O Guilherme tinha começado a fazer a disciplina em 2020, e ele não pode concluir por conta das questões de saúde. Voltou em 2021, e queria repetir a pauta que tinha proposto no outro ano, que era sobre pessoas trans. Eu disse ‘olha, o enfoque muda, mas tem tudo a ver com a rua. Afinal de contas, o problema de uma pessoa trans é justamente sair na rua’”, conta Everton.
“A Valéria é uma pessoa incrível e tem uma história de vida muito importante. Ela tem, como ela mesmo fala, aberto muitas portas. Mas para além disso, ela tem uma fala muito interessante e muito profunda. Então, foi muito bacana”, relatou o professor. “Para mim, foi muito legal voltar para a reportagem, porque eu não faço esse trabalho há um bom tempo. Eu amo fazer reportagens”, revela Everton, que atualmente, além de professor na Unisinos, é editor no Jornal da Universidade, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Além da entrevista com a cantora Valéria Barcellos e a matéria sobre a invisibilidade das mulheres garis, a edição conta ainda com uma reportagem sobre o grupo de idosos que joga dama na praça da Alfândega, em Porto Alegre; o projeto de lei que prevê o fim da profissão de cobrador de ônibus, aprovado na Câmara Municipal de Porto Alegre; o aumento de pessoas em situação de insegurança alimentar nos últimos anos e um projeto que distribui marmitas nas ruas da capital; as violências sofridas pelas mulheres no deslocamento diário nas ruas das cidades; o coletivo que gera renda à população de rua em Porto Alegre por meio da panificação; como a Nova Olaria, galeria de rua de Porto Alegre, conquistou um pedaço na memória da Capital dos gaúchos; como a Praça Brigadeiro Sampaio (ou Praça do Tambor), no Centro Histórico de Porto Alegre, sintetiza as disputas do espaço público entre diversos grupos sociais; e, por fim, como a falta de transparência e incerteza por parte da Prefeitura porto-alegrense afetou os blocos do Carnaval de rua.
A edição pode ser conferida, na íntegra, em sua edição virtual.
Uma das maiores alegrias para um jornalista é ver o seu trabalho ocupar e ganhar espaços. Por isso, produzir a Josefa costuma ser um desafio importante para os alunos de Jornalismo da Unisinos, que se sentem recompensados ao ver suas matérias estampadas nas páginas da revista.
O reencontro com a possibilidade de ir às ruas ganhou muitos significados e, consequentemente, poder pegar em mãos a publicação, também. A repórter que aqui escreve pede lugar, agora, para falar em primeira pessoa.
Rever gente jovem e reunida me parecia uma cena que passaria a fazer parte só da memória. Poder contar (e ouvir) o que vivemos e tudo o que aconteceu com a gente foi muito importante. Me dói saber quem e o que desapareceu durante esse tempo. Mas é por eles, e pela força assinalada pela memória, que se faz a nossa voz.
E para aqueles que ainda enxergam perigo na esquina e para quem o sinal ainda está fechado: contem com a coragem dos jornalistas, todos os dias, na travessia das ruas. Viver é melhor que sonhar, sempre. Podem confiar.

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]]>A disciplina de Jornalismo Impresso e Notícia produziu a 14ª edição do jornal “Lupa”, que pela primeira vez será encartado no jornal “Babélia”, da cadeira irmã do campus São Leopoldo. Já a atividade acadêmica de Jornalismo Literário foi responsável pela 4ª edição da revista “Josefa”. As imagens utilizadas nas publicações foram retiradas de bancos online de imagens, arquivos pessoais das próprias fontes e algumas foram produzidas pelos alunos em suas residências.

“Produzir um jornal à distância é uma dificuldade mesmo para jornalistas profissionais com experiência”, conta a professora Taís Seibt, responsável por conduzir os alunos de início da graduação a terem seu primeiro contato com a produção de notícias e ambiente de redação jornalística. Uma das soluções que encontraram ao longo do semestre foi acompanhar debates e problematizações em cima dessa nova prática jornalística e dessas mudanças. Taís conta que o próprio “Lupa” abordou essas questões em suas páginas “O resultado foi muito gratificante por conseguirmos vencer todos os obstáculos”, avalia a professora.

“Fazer a revista ‘Josefa’ sempre é um desafio”, aponta o professor Everton Cardoso, que, neste semestre, além de ajudar os alunos a desenvolverem reportagens do gênero literário, também os auxiliou no aprendizado de técnicas e na busca de uma identidade para o texto. “Temos pouquíssimos meses para conhecer os alunos e o processo da disciplina é muito particular”, explica. Ele destaca que os jornalistas são orientados a vida inteira para diminuir o tamanho de suas produções, mas, em uma revista, esse processo é o inverso. “Fazer isso no contexto em que estamos é desafiador. E o meu papel, nesse processo em que cada repórter precisa se conhecer, é de orientação, de referência”, avalia o professor.
O ensino à distância foi algo que atingiu a todos os professores e estudantes. A nova realidade exigiu de Taís uma adaptação quase instantânea. A professora avalia que, como a disciplina foi planejada para ser no formato presencial, a mudança para o ambiente online trouxe alguns obstáculos. “Os estudantes tiveram dificuldade no acesso aos acontecimentos e às fontes, além da falta de ter professor ao lado para consultar e tirar dúvidas”, explica.
O próprio tema da revista, “fora da curva”, é uma descrição de 2020, reflete Everton. “Inevitavelmente, a revista é um retrato deste momento, de como o mundo está percebendo tudo isso”, comenta. Para o professor, daqui algum tempo, outros aspectos do cotidiano irão demonstrar como foi viver uma pandemia. “A gente vai olhar para arte, para o jornalismo, para a literatura, para o cinema e vai entender uma época, não só pelos assuntos, mas pelo clima. E a revista é isso, ela traduz um pouco esse clima, o momento que estamos vivendo, seja pelas suas limitações, potencialidades e características”, aponta. A revista “Josefa” está com previsão de lançamento para o mês de Agosto.

Para a estudante do quarto semestre Alana Cláudia Schneider, de 19 anos, ter participado da elaboração do “Lupa” foi algo super gratificante. Ela diz ter se adaptado bem ao ensino à distância, mas que sente pelo afastamento forçado dos colegas e professores. “Eu sempre tive dificuldade de entrar em contato com as fontes, e, nessa situação, senti as pessoas mais amigáveis. Eu tive experiências muito incríveis nessa disciplina”, lembra.

O futuro jornalista Ulisses Machado, de 26 anos, estudante do oitavo semestre, aponta que teve dificuldades na produção do texto por conta do tema que escolheu, que retrata as pessoas não binárias. “Achar essas pessoas e tentar contato virtual foi complicado. Foi mais trabalhoso do que se eu tivesse feito presencialmente”, destaca. Para Ulisses, o feedback dos textos também que complicado. “Alguns momentos em sala de aula são insubstituíveis”, avalia.
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