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Desde o início do isolamento social, a rotina de Pablito mudou bastante, e isso afetou também seu trabalho. “Antes, intercalava duas entrevistas, uma para o projeto Porto Alegre em quadrinhos e outra para o projeto Fala que eu desenho”, conta o artista, que agora não consegue mais sair para realizar as entrevistas. Para finalizar os projetos, realiza os contatos por vídeo.
“Desde 2016, venho entrevistando moradores da minha cidade natal, Alvorada, e de Porto Alegre. Sempre de forma gratuita, pois amo poder conhecer pessoas através do meu desenho”, explica Pablito. “Mas, para dar continuidade ao projeto, precisava ter um retorno financeiro. Os quadrinhos exigem bastante esforço.” Além dos quadrinhos, as entrevistas e decupagens levam bastante tempo e ele mesmo explica o passo a passo na postagem que apresenta o projeto.

Em 2019, o Mescla contou a história do jovem quadrinista, que também é formado em Comunicação Digital pela Unisinos, e o resultado da conversa pode ser lido aqui. O Pablito também tem o Entrevistas em quadrinhos, onde é possível conhecer todas as histórias que ele conta desde 2016. Atualmente, também publica o Fala que eu desenho na revista online Parêntese, a newsletter de final de semana produzida pelo grupo Matinal.
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Alguns meses se passaram, e eu ouvi o nome dele de novo na Agexcom, onde fica a redação do Mescla, como proposta de pauta. Ficou combinado que a conversa não seria sobre o artista, mas com o artista. Marcamos o encontro em Porto Alegre. Em uma manhã de quarta-feira, depois de sair do trem e caminhar pela Rua da Praia, cheguei ao Margs. Entrei em uma cafeteria de tons avermelhados. Fui a primeira cliente a chegar no local. Além de mim, apenas a funcionária.
Pablito chegou de touca, mochila e pasta. Ele tinha a agenda cheia naquele dia. No meio da conversa, perguntei sobre como a ilustração entrou na vida dele. Ele contou que desenha desde pequeno, mas teve dúvidas, em certo momento: “Eu dei uma parada, porque eu fiquei desestimulado”, revelou. Pablito só voltou a usar o bloquinho e o lápis no caminho para a faculdade. Como morava em Alvorada e estudava em São Leopoldo, gastava horas no transporte público, principalmente no trem. Para passar o tempo, Pablito tirava fotos das pessoas que mais lhe chamavam a atenção e as desenhava. Dessa forma, acabou se aperfeiçoando no hobby. A universidade também teve um papel importante, especialmente a partir do incentivo das professoras: “Eu nem mostrava muito os meus desenhos, mesmo assim elas me incentivaram”, relembrou. Assim, Pablito se encorajou para divulgar as ilustrações em um site que ele mesmo criou. O retorno que recebia deu mais gás para continuar.

Perguntar sobre a inspiração para um artista é sempre uma tarefa difícil, mas eu tentei. Pablito olhou o cardápio e pensou: “Não consigo identificar esse padrão”. A verdade é que ele tenta sempre ser diverso. A vontade de desenhar é o principal critério. E mesmo não seguindo sempre uma regra para escolha do personagem, a estratégia para criar essas ilustrações é quase sempre a mesma: ele olha para alguém que chama a atenção; tira uma foto; faz um esboço com o lápis; finaliza com uma caneta nanquim; e, por último, pinta o resultado final. Ultimamente, Pablito utiliza mais a pintura digital, no computador, mas também já finalizou desenhos com aquarela e outros tipos de pintura.
Quando ainda trabalhava no jornal, Pablito percebeu que não conhecia muito sobre sua cidade, e foi deste sentimento que surgiu a ideia do Alvorada em Quadrinhos. “Então, o projeto nasceu para isso, para contar um pouco sobre a cidade, para registrar e ter um documento sobre Alvorada”, relatou. O trabalho foi um sucesso, virou livro e inspirou o projeto atual dele: Porto Alegre em Quadrinhos.

Hoje, Pablito trabalha com publicações independentes e participa de feiras gráficas. Lançou dois livros infantis, fanzines e o Alvorada em Quadrinhos. “Eu fiz os livros para experimentar esse tipo de trabalho e também para praticar o desenho”, contou. Para ele, é fundamental estar sempre desenhando. Por isso, além do Porto Alegre em Quadrinhos, o ilustrador desenha moradores de Alvorada, com o projeto “Alvoradenses”. Parecida com a ideia que fez Pablito começar, a intenção é observar os moradores da cidade e ilustrar aqueles que mais chamam a atenção. “Já fiz cerca de 50 desenhos. Quero chegar a 100 para fazer um livro”, revelou.
Pablito escuta minhas perguntas com atenção. A nossa conversa flui naturalmente. Quando eu pergunto sobre a rotina de trabalho, ele trava. É difícil pensar nisso quando você tem de tudo, menos um padrão de atividades. Ele responde explicando como realizou seu último quadrinho: a vida do pescador Deraldo. Acordou às 4h30, andou de lancha e barco e passou o dia compartilhando da rotina de trabalho do Deraldo. Tudo isso tirando fotos, gravando e anotando. Depois de conhecer o pescador, Pablito voltou pra casa e mergulhou de vez em cima do projeto. Passou alguns dias transcrevendo a história, duas semanas desenhando e mais duas semanas colorindo. O trabalho e o esforço do Pablito foi o mesmo em Alvorada em Quadrinhos e Porto Alegre em Quadrinhos. Mas existe uma diferença importante: no último, Pablito se retira da narrativa. O personagem fala com uma pessoa oculta, o leitor.

Pablito diz que todo o tempo e dedicação vale a pena pelo retorno que recebe. Como o Porto Alegre em Quadrinhos só está na internet, ele procura a pessoa entrevistada e mostra o trabalho final impresso. “Eu quero ver a reação deles, é importante pra mim essa troca”, explicou. Um dos planos futuros de Pablito é transformar esse projeto em mais um livro, e convidar todos os entrevistados para o lançamento.
O ilustrador gosta de conversar com os leitores e participar de prêmios. Ano passado, ele ficou em primeiro lugar no 25º Salão Internacional de Desenho para Imprensa com a história da Rita de Cássia, e, esse ano, ficou em segundo lugar no Concurso Sulamericano “Historias de vida que sobreviven la violencia y persecución en el campo en Sudamerica” contando a vida de Janja, moradora do Quilombo dos Alpes. “Esse foi legal, porque teve um prêmio em dinheiro e eu consegui dividir com a Janja”, contou, com orgulho.

Pablito esperava a garçonete trazer a água enquanto pensava na última pergunta que ouviu. “Como funciona para escolher as pessoas que desenho? Áh, é muito por indicação”, respondeu. Morando em Alvorada, é mais difícil conhecer as pessoas na Capital, por isso, ele costuma conversar com moradores de Porto Alegre, que o apresentam possíveis entrevistados. O ilustrador tenta ser diverso nas escolhas e tem uma preocupação social. “A palavra final é a minha curiosidade”, contou Pablito.
O trabalho é todo publicado nas redes sociais do quadrinista, que está sempre ativo no Instagram. “Eu tenho mais liberdade e posso fazer um conteúdo mais longo, já pensando no livro”, explicou. Além disso, Pablito expõe suas obras em galerias e outros espaços de arte. “Eu gosto, porque são pessoas de Alvorada que eu levo para outros lugares e faço elas circularem”, contou.
No fim da nossa conversa, falamos sobre jornalismo. Pablito, que também é ótimo entrevistador, quis saber sobre como é ser repórter e usar as palavras, sem os quadrinhos, para contar histórias. Descobri que ele se apaixonou pelo jornalismo depois da faculdade, quando já trabalhava como diagramador no jornal A Semana, em Alvorada. Pablito citou a premiada jornalista Eliane Brum quando disse que, com um bloco e uma caneta, pode entrar em qualquer lugar, e aquilo o marcou. “Com os quadrinhos, eu também posso entrar na casa das pessoas e contar aquelas histórias”, explicou.
Eliane Brum disse, há alguns anos, que ser repórter é ser protagonista de uma construção, e isso Pablito faz com maestria. Ao desenhar os alvoradenses ou publicar o Alvorada em Quadrinhos, o artista mostra um novo lado da cidade, que geralmente aparece na mídia como uma das cidades mais violentas do Estado. Pablito dá voz e cor àqueles que, frequentemente, acabam passando despercebidos no cotidiano. Muito mais que um hobby, o trabalho de Pablito é um projeto social importante para a sociedade.
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