Deu certo

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Pablito Aguiar em Palavras
"Dos quadrinhos para as palavras: o quadrinista conta sobre sua trajetória, desde os primeiros desenhos até se tornar um profissional premiado. Ele é um personagem tão sensível e visual quanto o seu trabalho"
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Conheci o Pablito no início de 2019, quer dizer, não exatamente ele, mas seu livro – Alvorada em Quadrinhos. Foi na exposição Redesenhando Alvorada, e lembro das coordenadoras da exposição falarem com entusiasmo sobre o jovem artista que iria expor na Galeria Experimental, em Sapucaia do Sul. Pablito Aguiar é formado em Comunicação Digital pela Unisinos, além de ser ilustrador e quadrinista. Esses quadrinhos que eu vi no livro surgiram, primeiro, em um jornal de Alvorada como forma de valorizar a história da cidade. E, agora, ele iria expor essas obras no Vale dos Sinos. 


Alguns meses se passaram, e eu ouvi o nome dele de novo na Agexcom, onde fica a redação do Mescla, como proposta de pauta. Ficou combinado que a conversa não seria sobre o artista, mas com o artista. Marcamos o encontro em Porto Alegre. Em uma manhã de quarta-feira, depois de sair do trem e caminhar pela Rua da Praia, cheguei ao Margs. Entrei em uma cafeteria de tons avermelhados. Fui a primeira cliente a chegar no local. Além de mim, apenas a funcionária.


Pablito chegou de touca, mochila e pasta. Ele tinha a agenda cheia naquele dia. No meio da conversa, perguntei sobre como a ilustração entrou na vida dele. Ele contou que desenha desde pequeno, mas teve dúvidas, em certo momento: “Eu dei uma parada, porque eu fiquei desestimulado”, revelou. Pablito só voltou a usar o bloquinho e o lápis no caminho para a faculdade. Como morava  em Alvorada e estudava em São Leopoldo, gastava horas no transporte público, principalmente no trem. Para passar o tempo, Pablito tirava fotos das pessoas que mais lhe chamavam a atenção e as desenhava. Dessa forma, acabou se aperfeiçoando no hobby. A universidade também teve um papel importante, especialmente a partir do incentivo das professoras: “Eu nem mostrava muito os meus desenhos, mesmo assim elas me incentivaram”, relembrou. Assim, Pablito se encorajou para divulgar as ilustrações em um site que ele mesmo criou. O retorno que recebia deu mais gás para continuar.

Os desenhos no trem | Foto: Reprodução (Instagram)


Perguntar sobre a inspiração para um artista é sempre uma tarefa difícil, mas eu tentei. Pablito olhou o cardápio e pensou: “Não consigo identificar esse padrão”. A verdade é que ele tenta sempre ser diverso. A vontade de desenhar é o principal critério. E mesmo não seguindo sempre uma regra para escolha do personagem, a estratégia para criar essas ilustrações é quase sempre a mesma: ele olha para alguém que chama a atenção; tira uma foto; faz um esboço com o lápis; finaliza com uma caneta nanquim; e, por último, pinta o resultado final. Ultimamente, Pablito utiliza mais a pintura digital, no computador, mas também já finalizou desenhos com aquarela e outros tipos de pintura.


A curiosidade e dedicação de um artista


Quando ainda trabalhava no jornal, Pablito percebeu que não conhecia muito sobre sua cidade, e foi deste sentimento que surgiu a ideia do Alvorada em Quadrinhos. “Então, o projeto nasceu para isso, para contar um pouco sobre a cidade, para registrar e ter um documento sobre Alvorada”, relatou. O trabalho foi um sucesso, virou livro e inspirou o projeto atual dele: Porto Alegre em Quadrinhos.

A paixão pelo que faz se reflete no cuidado que tem com as ilustrações e as pessoas que interage | Foto: Reprodução (Instagram)


Hoje, Pablito trabalha com publicações independentes e participa de feiras gráficas. Lançou dois livros infantis, fanzines e o Alvorada em Quadrinhos. “Eu fiz os livros para experimentar esse tipo de trabalho e também para praticar o desenho”, contou. Para ele, é fundamental estar sempre desenhando. Por isso, além do Porto Alegre em Quadrinhos, o ilustrador desenha moradores de Alvorada, com o projeto “Alvoradenses”. Parecida com a ideia que fez Pablito começar, a intenção é observar os moradores da cidade e ilustrar aqueles que mais chamam a atenção. “Já fiz cerca de 50 desenhos. Quero chegar a 100 para fazer um livro”, revelou.


Pablito escuta minhas perguntas com atenção. A nossa conversa flui naturalmente. Quando eu pergunto sobre a rotina de trabalho, ele trava. É difícil pensar nisso quando você tem de tudo, menos um padrão de atividades. Ele responde explicando como realizou seu último quadrinho: a vida do pescador Deraldo. Acordou às 4h30, andou de lancha e barco e passou o dia compartilhando da rotina de trabalho do Deraldo. Tudo isso tirando fotos, gravando e anotando. Depois de conhecer o pescador, Pablito voltou pra casa e mergulhou de vez em cima do projeto. Passou alguns dias transcrevendo a história, duas semanas desenhando e mais duas semanas colorindo. O trabalho e o esforço do Pablito foi o mesmo em Alvorada em Quadrinhos e Porto Alegre em Quadrinhos. Mas existe uma diferença importante: no último, Pablito se retira da narrativa. O personagem fala com uma pessoa oculta, o leitor.

A história de Deraldo rendeu 10 imagens na rede social | Foto: Reprodução (Instagram)


Histórias que não costumam ser contadas


Pablito diz que todo o tempo e dedicação vale a pena pelo retorno que recebe. Como o Porto Alegre em Quadrinhos só está na internet, ele procura a pessoa entrevistada e mostra o trabalho final impresso. “Eu quero ver a reação deles, é importante pra mim essa troca”, explicou. Um dos planos futuros de Pablito é transformar esse projeto em mais um livro, e convidar todos os entrevistados para o lançamento.


O ilustrador gosta de conversar com os leitores e participar de prêmios. Ano passado, ele ficou em primeiro lugar no 25º Salão Internacional de Desenho para Imprensa com a história da Rita de Cássia, e, esse ano, ficou em segundo lugar no Concurso Sulamericano “Historias de vida que sobreviven la violencia y persecución en el campo en Sudamerica” contando a vida de Janja, moradora do Quilombo dos Alpes. “Esse foi legal, porque teve um prêmio em dinheiro e eu consegui dividir com a Janja”, contou, com orgulho.

Quadrinho que rendeu um prêmio à Pablito | Foto: Reprodução (Instagram)


Pablito esperava a garçonete trazer a água enquanto pensava na última pergunta que ouviu. “Como funciona para escolher as pessoas que desenho? Áh, é muito por indicação”, respondeu. Morando em Alvorada, é mais difícil conhecer as pessoas na Capital, por isso, ele costuma conversar com moradores de Porto Alegre, que o apresentam possíveis entrevistados. O ilustrador tenta ser diverso nas escolhas e tem uma preocupação social. “A palavra final é a minha curiosidade”, contou Pablito. 


O trabalho é todo publicado nas redes sociais do quadrinista, que está sempre ativo no Instagram. “Eu tenho mais liberdade e posso fazer um conteúdo mais longo, já pensando no livro”, explicou. Além disso, Pablito expõe suas obras em galerias e outros espaços de arte. “Eu gosto, porque são pessoas de Alvorada que eu levo para outros lugares e faço elas circularem”, contou.


Jornalismo em quadrinhos


No fim da nossa conversa, falamos sobre jornalismo. Pablito, que também é ótimo entrevistador, quis saber sobre como é ser repórter e usar as palavras, sem os quadrinhos, para contar histórias. Descobri que ele se apaixonou pelo jornalismo depois da faculdade, quando já trabalhava como diagramador no jornal A Semana, em Alvorada. Pablito citou a premiada jornalista Eliane Brum quando disse que, com um bloco e uma caneta, pode entrar em qualquer lugar, e aquilo o marcou. “Com os quadrinhos, eu também posso entrar na casa das pessoas e contar aquelas histórias”, explicou.


Eliane Brum disse, há alguns anos, que ser repórter é ser protagonista de uma construção, e isso Pablito faz com maestria. Ao desenhar os alvoradenses ou publicar o Alvorada em Quadrinhos, o artista mostra um novo lado da cidade, que geralmente aparece na mídia como uma das cidades mais violentas do Estado. Pablito dá voz e cor àqueles que, frequentemente, acabam passando despercebidos no cotidiano. Muito mais que um hobby, o trabalho de Pablito é um projeto social importante para a sociedade.

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