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]]>Enquanto realizavam o trajeto manifestando-se em defesa do cinema, da diversidade e da Amazônia, ouviram vaias vindas dos bares que ficam próximos ao tapete vermelho, sendo atacados com pedras de gelo e restos de alimentos. “O público automaticamente começou a vaiar toda a nossa passagem, jogou pedras de gelo, copos, restos de macarrão. Me acertaram com um limão”, conta Daniela Strack, presidente da Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos (APTC).
Junto dela estava Rogério Rodrigues, presidente do Sindicato da Indústria Audiovisual (SIAV-RS), que teve o nariz cortado ao ser atingido por uma pedra de gelo e só percebeu o corte com o sangramento. Enquanto jogavam comida e pedras de gelo, os opositores do manifesto gritavam “mito”. Para Rogério, a violência sofrida não foi um acaso, mas uma extensão das declarações do presidente da República. “O fato é que produtores, diretores, artistas, credenciados ao evento e, portanto, legítimos de estarem naquele local, fizeram uma manifestação pacífica a favor da cultura”, afirma.

No domingo anterior (18), quando o filme Só sei que foi assim foi eleito vencedor da mostra de curtas gaúchos, artistas já haviam se reunido para protestar. Segundo Daniela, o primeiro manifesto envolveu o setor do audiovisual gaúcho, enquanto no sábado o ato teve uma dimensão nacional, reunindo artistas como o ator argentino Leonardo Sbaraglia, que recebeu o Kikito de Cristal do festival. A organização do evento lançou uma nota de repúdio à violência. Leia abaixo:
“A cidade de Gramado e o Festival de Cinema têm uma história sólida, de fortalecimento e crescimento mútuo. São 47 anos ininterruptos de encontros que trazem à cidade atores, produtores e público do Brasil e América Latina para as mostras, os debates e outras atividades paralelas ligadas à cultura cinematográfica e ao mercado do audiovisual.
Os dias em que acontece o Festival também mobilizam atividades paralelas, festas e shows, reforçando a vocação turística da cidade. O último fim de semana do Festival é particularmente concorrido, enchendo a cidade de diferentes públicos, entre cinéfilos e pessoas que buscam outros eventos. Todos são bem-vindos e o tapete vermelho do Festival é democrático.
Os espaços em seu entorno são públicos e de livre circulação. Servem de atrativo para os que apenas querem ver artistas e também para os profissionais do audiovisual que acreditam na importância e na história do mais antigo e respeitado Festival de Cinema do Brasil. Conviver com esta diversidade de motivos e desejos para estar na cidade é democrático e fundamental para a harmonia de tudo e todos.
Como sempre fez em sua tela, o Festival de Cinema de Gramado acolhe, contempla e evidencia diferentes estéticas e opiniões, sendo historicamente um espaço para debates e manifestações. O que não se pode admitir é a violência como prática ou resposta a ideias e opiniões diferentes. Só a tolerância e o respeito seguirão fortalecendo a história da cidade, do festival, reforçando e saudando o convívio de todos”.
As manifestações que ocorreram no Festival são consequência de uma série de medidas adotadas pelo presidente nos últimos meses. Em julho, Bolsonaro anunciou a ideia de transferir a Agência de Cinema Nacional (Ancine) do Rio de Janeiro para Brasília, com o intuito de monitorar a produção cinematográfica brasileira. “A cultura vem para Brasília e vai ter um filtro, sim. Já que é um órgão federal, se não puder ter filtro, nós extinguiremos a Ancine. Privatizaremos ou extinguiremos. Não pode é dinheiro público ser usado para fazer filme pornográfico”, disse o presidente, referindo-se a Bruna Surfistinha, que conta a história de Raquel Pacheco, uma jovem garota de programa.
Na quarta (21), o atual presidente da Ancine, Christian Castro, participou do encontro do Gramado Film Market, parte da programação do Festival de Cinema de Gramado. Na ocasião, disse ao público que a suspensão de um edital de projetos audiovisuais para emissoras de televisão pública era “Um convite ao diálogo”. Bolsonaro havia criticado algumas produções do edital, como o filme Afronte, e declarou:
“Olha, a vida particular de quem quer que seja, ninguém tem nada a ver com isso, mas fazer um filme mostrando a realidade vivida por negros homossexuais no Distrito Federal não dá para entender. Então, mais um filme aí que foi pro saco, aí. Não tem cabimento fazer um filme com esse enredo né?”.
O professor do curso de Realização Audiovisual da Unisinos Vicente Moreno conta que as ações do presidente são preocupantes e pergunta que tipo de cinema ele pretende fazer. “Seria o dos heróis nacionais?”, ironiza. Vicente fez a montagem do filme Raia 4, de Emiliano Cunha, que levou os prêmios de melhor fotografia, júri da crítica e melhor longa-metragem gaúcho.
“O que estamos vivendo no Brasil é censura. Não tem outro nome. No momento em que o presidente cancela um edital por incomodar-se com o conteúdo de um projeto contemplado, no caso sobre a população LGBT, isso é censura”, diz Vicente. Para ele, o filtro de conteúdo que o presidente quer impor se aproxima daquilo que se viveu no período da ditadura militar.
Vicente também foi alvo das pedras de gelo arremessadas por apoiadores de Bolsonaro, mas afirma que o que se viu em Gramado irá continuar e se multiplicar: “Mesmo que tenhamos que enfrentar mais hordas de desinformados e seu gelo arremessado. O gelo pior está na alma, e a nossa está bem acesa”.
Para Rogério Rodrigues, o Brasil vive seu melhor momento na produção audiovisual, seja para TV ou cinema, tanto em quantidade como em qualidade. “O setor tornou-se uma indústria que representa 0,5% do PIB e com uma qualidade reconhecida pelos resultados alcançados nos festivais internacionais de cinema. As empresas do setor, além de pagarem todos os impostos, como qualquer outra empresa, pagam a Condecine, tributo criado para desenvolver o setor, portanto é a própria indústria que se retroalimenta” conta.
O presidente do SIAV também diz que as declarações de Bolsonaro ameaçam um setor em pleno desenvolvimento com interesses alheios ao Brasil. Considera importante se manifestar, pois a arte é inclusiva, assim como a cultura é necessária à educação e à formação da identidade cultural brasileira.
Durante a cerimônia de premiação do Festival de Cinema de Gramado, as entidades APTC, SIAV IECINE leram uma carta aberta dos secretários de cultura de 22 estados. Veja:

Outra carta assinada por entidades do audiovisual foi lida por Miguel Falabella no palco do Festival.
Esta matéria foi originalmente publicada no site da Beta Redação, na disciplina de Laboratório de Jornalismo – Editora de Cultura, Educação e Tecnologia do curso de Jornalismo. Confira a matéria original e outros trabalhos.
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]]>Nos últimos meses, vimos a mídia repercutindo casos de assédio em Hollywood, situação que fez com que atrizes usassem vestidos pretos nos tapetes vermelhos de premiações, para protestar contra os grandes produtores de cinema acusados de assédio, como Harvey Weinstein. A partir disso, as grifes de moda estão cada vez mais trazendo pautas políticas e sociocultural para as passarelas. Em sua última edição, o New York Fashion Week foi marcado por protestos ao seu atual presidente, Donald Trump, e também de apoio aos imigrantes refugiados.
José Luis Carvalho Reckziegel, professor do curso de Comunicação Digital da Unisinos, explica que os alcances da moda se reconfiguram e se movimentam no sentido de reformular a ordem simbólica e representacional, para que, assim, a moda possa ser entendida em dimensão ampla: “Uma dimensão que espelha simultaneamente o tempo e o social. Refletindo os comportamentos sociais vivenciados pelos pertencimentos e determinados grupos em sua dinamicidade e em sua pluralidade”.
“Partindo-se da realidade de que a moda faz gênero, ela é expressão das aparências que performatizam diferentes formas de ‘ser’ no mundo. Ela é uma forma de posicionamento e de protesto. A moda assim, é vista como expressão cultural e como expressão de gênero”, explica o professor
O estilista Tommy Hilfiger exibiu sua nova coleção em parceria com a modelo Gigi Hadid, com todo o elenco entrando na passarela usando bandanas brancas amarradas no pulso esquerdo em prol de inclusão, batizada de “Tied Together” (“amarrados juntos”, tradução livre). A ação foi criada pelo Business of Fashion para movimentar a indústria da moda em solidariedade a imigrantes e minorias durante a temporada de moda internacional, para conseguir fundos em favor da União Americana pelas Liberdades Civis e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.
Para Reckziegel, há muito tempo a moda vem se apresentando como um fenômeno sociocultural multifacetado. “Suas várias faces nos são apresentadas como reflexo da sociedade e sua contextualização no tempo e no espaço, sempre de acordo com as subjetividades dos sujeitos que dela fazem parte”, afirma o professor. Segundo ele, esse pensamento pode ser entendido considerando-se as transformações ocorridas nos últimos tempos em termos culturais por meio de costumes adornos corporais e expressões identitárias.
“Na moda, as características relacionadas à cultura das aparências representam esforços empreendidos rumo à criação e à manutenção de tendências estéticas, que retratam, promovem e aceleram mudanças comportamentais identitárias no cenário contemporâneo no qual vem sendo cada vez mais evidenciado a luta pelas garantias dos direitos de igualdade e liberdade entre homens e mulheres”, declara o professor.
“Podemos dizer que, nesse sentido podemos considerar a moda como um sistema que possibilita uma total liberação das práticas delimitadoras entre as expressões de gênero e as expressões das sexualidades contemporâneas”, segundo o professor.
A moda está presente em todas as transformações desde o século XV, com o fim do período medieval e o início do Renascimento na Europa, a palavra que conhecemos hoje provém do latim “modus”, que significa “costume” ou “maneira”. Mas foi a partir da Revolução Industrial que a tecnologia e a produção em massa permitiram que os homens comuns pudessem escolher o que vestir, o que antes era restrito à elite por mais de 300 anos.
Às vésperas da Revolução Francesa, a pequena burguesia se juntou e ficou conhecida como os “sans-culottes” ou “sem culote”, forma adotada de se distinguir da nobreza. Já no período Pós-Revolução Francesa, se adota uma moda restrita e simples inspirada no classicismo greco-romano, existe o protesto contra os excessos vividos no Barroco e no Rococó às custas da miséria da população.
Para ilustrar a história dos protestos políticos e socioculturais na moda e como ela é um elemento em constante transformação, abaixo segue cinco tópicos que narram a origem desse movimento que persiste até os dias atuais:
Alguns casos parecidos ocorreram em solo nacional, como o São Paulo Fashion Week de 2016, em que o estilista Ronaldo Fraga levou modelos transgêneros para a passarela e que verbalizavam a sua luta contra a transfobia. Sua coleção colocava em foco as modelos e suas histórias, invés das peças de roupas. Intitulado “O corpo aprisiona, as roupas libertam o ser”, o desfile de Ronaldo propôs uma reflexão sobre a realidade de muitas mulheres e homens que não se encontram em seus próprios corpos e que procuram refúgio nas peças de roupas, para mostrarem quem realmente são.
E em junho desse ano, na Parada LBGTQ de São Paulo, a cantora drag queen Pabllo Vittar se apresentou para milhares de pessoas na Avenida Paulista, usando um conjunto de casaco com capuz e saia longa estampados com manchetes de jornais relacionados à homofobia. Por cima das notícias, havia os dizeres em vermelho: “Parem de nos matar”. O Brasil é o país que mais assassina a população LGBTQ no mundo, segundo dados da Rede TransBrasil e do Grupo Gay da Bahia (GGB). A organizações registraram um aumento de 30% dos homicídios em 2017 ao 2016, passando de 343 para 445.
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