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Além disso, a premiação teve como fato inédito a indicação de melhor ator para um muçulmano (Riz Ahmed, O Som do Silêncio) e para um asiático-americano (Steven Yeun, Minari: Em Busca da Felicidade). Foi também a primeira indicação na história do Oscar de uma asiática na categoria de melhor atriz coadjuvante (Yuh-Jung Youn, Minari: Em Busca da Felicidade). Ela acabou levando a estatueta. Também foi a primeira vez que um longa-metragem produzido por negros foi indicado a melhor filme (Judas e o Messias Negro). Os dois atores negros do mesmo filme disputaram o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante.
A busca por mais diversidade fez com que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas que organiza o Oscar decidisse que a partir de 2025, todas as produções que desejarem concorrer à categoria de melhor filme deverão acatar pelo menos uma das seguintes regras:
“Ter um ator ou atriz de grupos étnico-racial subrepresentados num papel de protagonismo;
30% do elenco e da equipe de produção, ou direção, ser de minorias sociais;
Tema central do filme sobre essas minorias;
Igualdade de pagamento entre brancos, negros, mulheres e LGBTQIA+
Produções locais já se orientam por diversidade”
O coordenador do Curso de Realização Audiovisual da Unisinos (CRAV) Milton do Prado vê como muito positivo o o fato do Oscar estar mais atento a inclusão de grupos minoritários ao prêmio. “As indicações e votações do Oscar representam tendências de debates sociais, tanto que o júri, atualmente, já possui participação maior de estrangeiros, por exemplo”, completa.
Mas, apesar de ser o evento mais popular de cinema no mundo, Milton, que também ocupa a cena da realização audiovisual a partir de seu trabalho de montagem e crítica de cinema, entende que o Oscar tem quase nenhuma influência na produção e no debate social e cultural do cenário brasileiro de cinema.Para ele, é o Oscar que está sendo influenciado. “Isso mostra uma evolução no debate em Hollywood e no mainstream. A discussão pode ter mais influência no público que assiste aos filmes, mas quase zero em quem realiza projetos aqui no Brasil. Isso é só mais uma tentativa do mainstream em não perder terreno e público”, entende Milton.

A professora do CRAV e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS), Fatimarlei Lunardelli, concorda que a discussão sobre diversidade na equipe e nos temas de filmes está mais adiantada aqui no Brasil do que na cena norte-americana. “A websérie Confessionário: Relatos de Casa, sobre violência doméstica e de gênero, com direção de Deborah Finocchiaro e Luiz Alberto Cassol, é mais um dos exemplos de como a produção no estado discute sobre esses tipos de tema”,“
“Cheguei a ouvir que protagonistas mulheres não tinham a capacidade de atrair muito público”
A cineasta e ex-aluna do CRAV Tatiana Nequete é uma das realizadoras gaúchas preocupadas com o tema diversidade no cinema. Tatiana é diretora e criadora da série Oráculo das Borboletas Amarelas, da TV Brasil, que aborda temas como machismo, racismo, feminismo, além de ter maior número de personagens femininos como protagonistas. “Por conta dos temas abordados, sofremos e demoramos muito para colocar o projeto em ação. Cheguei a ouvir que protagonistas mulheres não tinham a capacidade de atrair muito público”, relata a diretora.

Além disso, Tatiana conseguiu montar uma equipe muito bem representada por mulheres. Por isso, elas ocupam todos os cargos de liderança na equipe de produção. “Fizemos dessa maneira pensando, primeiramente, por se tratar de uma série que possui protagonistas femininas. Também para não corrermos o risco de ter um ambiente machista e tóxico, como é comum na grande maioria dos sets de filmagem no Brasil”, revela.
Falando especificamente sobre a presença feminina na produção audiovisual, a cineasta Tatiana acredita que isso só vai aumentar quando forem criados mecanismos sociais e políticos que permitam à mulher ocupar cargos de liderança no cinema. “Infelizmente, ainda há pouquíssimas mulheres como diretoras gerais e de fotografia. Por isso, as narrativas de homens brancos ainda predominam nos temas abordados nos filmes”, completa.
A percepção de Tatiana pode ser comprovada pelos números. Segundo o levantamento da Ancine, Diversidade de Gênero e Raça nos Lançamentos Brasileiros de 2016, apenas 5% dos profissionais dos longas lançados comercialmente eram negros. Destes filmes, mulheres só estavam em funções de direção e roteiro em 19% e 16%, enquanto negros somente em 2,1% das realizações audiovisuais. Além disso, negros faziam parte de meramente 8% de elenco principais e mulheres eram diretoras de fotografia em 7,7% das produções.
Em relação ao Oscar, Tatiana acredita que o ato da premiação em abrir espaço para um número maior de profissionais pouco representados deve ser mais valorizado. “Ter essa discussão no Oscar é um sinal muito importante e forte de que as coisas estão. Mostra que isso é uma tendência no cenário”, afirma a diretora, complementando que, apesar disso, ainda existe um longo caminho a ser percorrido para se chegar a uma igualdade de direitos e oportunidades no cinema.
Tatiana Nequete entende que o assunto está cada vez mais presente no ambiente acadêmico. Mas também revela que quando entrou no curso em 2003 a presença de grupos minoritários era baixíssima. “quando ingressei na universidade, o número de mulheres, negros e negras era muito pequeno. Além disso, existiam poucas mulheres no mercado como diretoras. Eu acabava tendo pouca referência que pudesse me inspirar”, relata a cineasta.
O coordenador do curso da Unisinos, Milton do Prado entende que as discussões sobre diversidade cresceram bastante na última década. “O maior número de debates e conversas sobre diversidade podem ser explicados também por conta da presença dessas pessoas na sala de aula. A presença de mulheres e negros, por exemplo, aumentarou bastante na última década”, conta Milton
A demanda por debater essas questões fez com que o curso criasse o projeto CRAV Mais Diverso. “A ação, que foi pensada em conjunto com todos os professores, acontece desde o ano passado e tem como objetivo trazer mais discussões étnicas-raciais, feminismo e de gênero para dentro da sala de aula”, conta.
O professor ressalta ainda que a preocupação com a representatividade na funções ocupadas na realização, e nos temas, deve ser seguida pelo olhar criterioso em todos os aspectos da produção. “O filme deve ser bem realizado. O produto deve ir além de ter apenas um bom tema central”, acredita Milton.
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]]>Nos primórdios daquela que é conhecida hoje como a “sétima arte”, muito antes das hashtags e das redes sociais, mulheres já lutavam para conseguir seu espaço no mercado cinematográfico. Separamos uma lista com nove mulheres inspiradoras (atrizes, diretoras, produtoras e figurinistas) que mudaram, influenciaram e marcaram para sempre o mundo cinematográfico.

Um ícone do cinema mundial abre a lista. Meryl Streep é considerada por muitos como a melhor atriz de sua geração. Estreando profissionalmente em 1975, já foi indicada 21 vezes ao Oscar e 29 vezes para levar o Globo de Ouro. Venceu três e oito prêmios, respectivamente. Ela é recordista absoluta de indicações nas categorias ligadas à atuação. Meryl recebeu, em 2011, a Medalha Nacional das Artes pelas mãos do então presidente norte-americano, Barack Obama. A honra é concedida para personalidades que contribuíram com a arte e a cultura dos Estados Unidos.

Uma das artistas mais importantes do cinema mudo, a canadense Mary Pickford participou – junto com o marido, Douglas Fairbanks, o lendário Charlie Chaplin, e com o diretor D.W. Griffith – da fundação da United Artists. A companhia de cinema tinha como objetivo fazer frente às grandes corporações e dar maior liberdade aos artistas no controle de seus próprios filmes. Em 1918, Mary era a atriz mais bem paga do governo norte-americano. Conhecida como Pequena Mary, foi uma das primeiras mulheres a entrar em Hollywood e a segunda atriz a ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz, ganhando o prêmio em 1930. Ela conseguiu obter controle total sobre suas produções, até mesmo em relação a distribuição dos filmes.

Primeira mulher a ganhar o Oscar de Melhor Direção, pelo filme “Guerra ao Terror”(2010). Como uma jogada do destino, a categoria contava também com outro nome de peso: o diretor e ex-marido de Kathryn, James Cameron, que concorreu à estatueta dourada pelo filme “Avatar”. Não bastasse a premiação histórica de Kathryn, “Guerra ao Terror” ganhou outras cinco estatuetas, incluindo a de Melhor Filme, configurando-se, assim, como o grande vencedor da premiação daquele ano.

Primeira mulher a dirigir, roteirizar e produzir filmes, a francesa Alice Guy Blaché é a definição de pioneirismo no cinema. Participou de cerca de mil produções, algumas delas comandando a produção do início ao fim. Uma de suas produções mais emblemáticas foi “A vida de Cristo” (1906), que contou com efeitos especiais e sonoros, cenários elaborados e mais de 300 figurantes. Alice explorou o uso de áudio, efeitos visuais, luzes e narrativas de forma inovadora e serviu de inspiração para grandes nomes do cinema, como Alfred Hitchcock.

O apelido de “grande dama do cinema brasileiro” está, de fato, à altura de Fernanda Montenegro. Primeira latino-americana e única brasileira já indicada ao Oscar de Melhor Atriz, ela é um nome solitário na lista de atrizes indicadas por atuações em português. Ganhando sua primeira premiação no cinema em 1964, ela ostenta um currículo invejável e tem seu nome amplamente citado quando o assunto é inspiração.

Intérprete de Ellen Ripley em “Alien, o 8° passageiro”, Sigourney Weaver revolucionou a indústria cinematográfica ao ganhar um papel principal sendo ela uma atriz desconhecida. Além da estreia surpreendente, a personagem deu início a uma tendência de protagonistas mulheres em filmes de ação, movimento que influencia a indústria do cinema até hoje. Além disso, Sigourney já recebeu três indicações ao Oscar.

Estilista norte-americana, Edith Head contabiliza 35 indicações ao Oscar de melhor figurino, sendo que levou para casa oito estatuetas, o que a torna a mulher com o maior número de vitórias na premiação. Algumas estrelas, como Elizabeth Taylor e Ginger Rogers, exigiam a presença de Edith no evento. Em 2004, ela recebeu uma homenagem inusitada. A personagem Edna Mode, em “Os incríveis” – baixinha, óculos redondos, cabelo preto e personalidade irreverente – foi livremente inspirada na estilista.

Em 1980, Sharry Lansing entrou para a história do cinema ao se tornar a primeira mulher a liderar um grande estúdio em Hollywood – 20th Century Fox, em 1980. Sharry foi ainda CEO da Paramount, onde foi responsável pela produção de sucessos como “Coração Valente” (1995), “Patricinhas de Beverly Hills” (1995) e “Forrest Gump” (1994).

Quando o assunto é “mudar o cinema”, Hattie McDaniel é um nome que entraria nas mais importantes listas. Ela foi a primeira mulher negra a ser nomeada e receber um Oscar, em 1940, pelo papel em que atuou no filme “E o vento levou”. Antes de Hattie, negros não eram permitidos nas cerimônias de entregas das estatuetas, a não ser como serviçais. Com isso, Hattie quebrou ainda mais uma barreira, tornando-se a primeira mulher afrodescendente a entrar como convidada na cerimônia.
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]]>The post Spotlight revelou o papel social do jornalismo investigativo appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>Um filme sem grandes efeitos visuais e sonoros, mas que pela simplicidade e história comovente, conquistou o público e também as críticas. A narrativa deixa claro o importante papel social que jornalismo investigativo tem. Na produção, a equipe formada por quatro repórteres e um editor investiga acusações de pedofilia feitas contra padres. Inicialmente, trabalhava-se com a hipótese de que cerca de 70 religiosos estavam envolvidos no esquema. Com o decorrer da apuração, logo o número aumentou muito, provocando uma crise na igreja católica.
O trabalho de coleta de dados da equipe também chama muito a atenção. Durante meses os profissionais analisaram documentos, correram atrás de fontes que confirmassem as suspeitas, encurralaram sacerdotes e representantes da igreja católica, ouviram as vítimas. Tudo de maneira analógica, sem muito auxílio de computadores e grandes tecnologias. Vale ressaltar que a investigação feita pelo núcleo do The Boston Globe demandou tempo e investimento financeiro por parte do jornal, algo que não é tão comum dentro das redações.
Muitos estudantes de Jornalismo e o público em geral, manifestaram nas redes sociais o desejo de que mais reportagens desta linha ganhem espaço dentro dos veículos de comunicação. Outros acreditam que a imprensa brasileira deve se inspirar no trabalho da equipe americana, utilizando o jornalismo investigativo em prol da sociedade, criando núcleos semelhantes com o do filme dentro veículos. O problema, porém, não é a falta de profissionais que trabalhem com jornalismo investigativo, mas todo o grande investimento que ele demanda das redações.
“Não consigo afirmar se a produção do filme é fiel à realidade que se propôs a mostrar, por não tê-la vivido. Mas é próxima à rotina de uma apuração de fôlego que envolve a coleta, organização e “entrevista” de dados e documentos, a busca por fontes humanas que confirmem ou refutem a história e os debates internos a respeito do material obtido. O que pode escapar ao espectador é que as redações não são assim o tempo todo, não é todo dia (nem mesmo toda semana) que se tem uma equipe dedicando-se exclusivamente a um tema, debatendo sobre ele”, comenta a jornalista Marina Iemini Atoji, gerente-executiva da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).
Marina acredita que um conjunto de situações contribui para a eventual redução da quantidade de reportagens investigativas, mas que a principal é o enxugamento das redações, que leva profissionais a terem de produzir mais de uma pauta por vez, restando pouco tempo para apurações que exijam dias ou meses de imersão. Outro problema é o grande investimento financeiro que este tipo de trabalho demanda, o que não é fácil bancar em tempos de crise. Por isso que ainda é das redações de jornais impressos e veículos tradicionais que saem mais reportagens investigativas.
Segundo Leandro Demori, representante do Medium no Brasil, esta realidade está mudando aos poucos,. Cada vez mais a plataforma vem sendo utilizada por jornalistas, muitos independentes, para a divulgação de reportagens investigativas. “O perfil do site acaba chamando esse tipo de reportagem. O Medium não dá nenhum apoio financeiro, mas impulsionamos as publicações que julgamos importantes e de grande relevância. Acredito que é por isso que cada vez mais jornalistas então se juntando à plataforma”, disse Demori.
Leandro conta ainda que é membro da Abraji e que divulga junto aos profissionais o espaço do Medium, que é gratuito e pensado para jornalistas. “Como jornalista, eu entendo que o nosso trabalho é dar luz a coisas que estão na escuridão. Nós damos voz aos problemas, pegamos temas que normalmente não são trabalhados e buscamos enxergar por outro ângulo. Acredito que a função social está em todas as linhas do jornalismo, não apenas no investigativo”, conclui Demori.
Alternativas para o jornalismo investigativo
A Abraji atua no aperfeiçoamento profissional de jornalistas e estudantes de Jornalismo, por meio de cursos e de um congresso anual. A ideia é que jornalistas mais bem preparados produzam um jornalismo de qualidade e responsável. O evento também traz o próprio jornalismo para debate e reflexão, além de temas que não estão diretamente ligados ao exercício profissional, mas o afetam significativamente, como o empreendedorismo, novas mídias e questões jurídicas.
“Dois outros campos de atuação da Abraji visam a dar suporte ao jornalismo investigativo: acesso a informações públicas e liberdade de expressão. Ajudamos a aprovar a Lei de Acesso a Informações Públicas e temos feito o monitoramento de sua implementação. Acompanhamos casos de violência contra jornalistas no exercício de sua profissão e damos visibilidade a eles, buscando mitigá-los”, conta Marina Iemini Atoji.
Mariana deixou algumas dicas para quem quer seguir carreira no jornalismo investigativo: “Estar sempre atento ao que ocorre ao seu redor é premissa para qualquer jornalista. A partir disso, questionar tudo e todos (inclusive a si mesmo), no sentido científico (por quê? Para quê? Por quem? Em nome de quem?). Checar tudo mais de uma vez também é fundamental para o profissional de qualquer área no jornalismo. Divulgar ou deixar de divulgar algo tem consequências importantes, e a precisão é valiosa”, disse a jornalista.
Ela garante ainda que é preciso ter persistência e certa resiliência, pois não é uma carreira tranquila. “Também não é emocionante o tempo todo. Em boa parte do trajeto, o ofício trata das histórias ordinárias – mas nem por isso elas são menos importantes. Às vezes, é delas que vêm as grandes histórias investigativas”, conclui Marina.
Uma alternativa para financiamento do jornalismo investigativo, são os programas de bolsas-reportagem. Atualmente, a Agência Pública, veículo independente e conhecido pelos trabalhos de investigação jornalística, está recebendo inscrições de projetos para investigação do Judiciário Brasileiro. A bolsa é de R$2 mil e mais informações sobre os critérios de participação podem ser encontradas em http://apublica.org/2016/01/atencao-reporteres-e-hora-de-investigar-o-judiciario/.
Novidades sobre jornalismo investigativo, informações sobre bolsas de incentivo, esclarecimentos sobre a Lei de acesso à informação e muito mais podem ser acessados no site da Abraji.
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