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Arquivos LGBTQI+ - Portal da Indústria Criativa https://mescla.cc/tag/lgbtqi/ Informação, inovação, tendências e eventos. O Mescla reúne tudo que você precisa saber sobre a Indústria Criativa. Tue, 07 Jul 2020 19:37:10 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 A representatividade LGBTQI na cultura pop https://mescla.cc/2020/07/07/a-representatividade-lgbtqi-na-cultura-pop/ https://mescla.cc/2020/07/07/a-representatividade-lgbtqi-na-cultura-pop/#respond Tue, 07 Jul 2020 18:49:50 +0000 http://mescla.cc/?p=13497 Primeiro capítulo de uma novela do horário nobre. Um casal branco hétero tem relações sexuais. A trama tem recordes de audiência. Na mesma novela, três meses depois, um casal homossexual troca um beijo. Discursos de ódio entoam por todo o país. Ameaças de boicote são registradas nos quatro cantos. Só então se preocupam no que […]

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Primeiro capítulo de uma novela do horário nobre. Um casal branco hétero tem relações sexuais. A trama tem recordes de audiência. Na mesma novela, três meses depois, um casal homossexual troca um beijo. Discursos de ódio entoam por todo o país. Ameaças de boicote são registradas nos quatro cantos. Só então se preocupam no que as crianças vão pensar.


A situação acima, apesar de hipotética, é uma realidade na vida de LGBTQIs. Não raro, grupos autoentitulados “conservadores” se aproveitam desses momentos para propagar mensagens de medo e ódio, em que defendem um discurso contra a chamada “ideologia de gênero”. Adeptos chegam a falar sobre questões de gênero e sexualidade de forma pejorativa, defendendo que LGBTQIs vão contra os valores da família tradicional. 


“Pensam que um personagem LGBTQI pode influenciar muito, ao passo que toda uma sociedade que fala todo dia para não ser ‘viado’, para ser ‘machinho’, não traz forte influência”, disse o professor da Universidade Federal de Ouro Preto Felipe Viero Kolinski Machado. Ele participou, na sexta-feira, 3 de julho, de uma aula aberta do Laboratório de Investigação do Ciberacontecimento (LIC), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da Unisinos. O evento contou também com a presença do doutorando do PPGCOM Christian Gonzatti e mediação da professora do PPGCOM Maria Clara Aquino Bittencourt.


Tu já tentou não ser?


Felipe abriu a conversa citando o livro “Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer”, de Guacira Lopes Louro. O professor explicou que antes mesmo do nascimento de um indivíduo já existem lugares marcados e cenários pré-definidos. “Habitamos corpos que existem e resistem em uma sociedade que é heteronormativa. A gente nasce, cresce, se desenvolve, existe e resiste, como eu tô dizendo, nesse cenário que é extremamente pré-definido”, disse Felipe. O acadêmico explicou que frases como “é uma menina” ou “é um menino” produzem estereótipos de gênero e não são tão inofensivas como parecem.


A identidade LGBTQI, segundo Felipe, é construída como algo inferior, dentro de uma sociedade heteronormativa. Com isso, ele levantou o questionamento: “Como é que a criança ‘viada’ consegue, de fato, aprender que a sua existência é válida se a sociedade o tempo todo diz que não é?”. A cultura pop, explicou o professor, opera como um importante lugar para a resistência e existência dessas identidades. Para exemplificar, Felipe e Christian mostraram diversos exemplos de personagens e histórias da cultura pop para ilustrar como a representatividade é um fator importante para o fortalecimento dessas identidades inferiorizadas.


“Todo saber é localizado e, historicamente, os saberes estiveram localizados em um lugar que é da branquitude, da masculinidade, da cisgeneridade e da heterossexualidade”, explicou Christian. O doutorando comentou que esse discurso surge disfarçado por uma neutralidade, mas que é através dos estudos queer e dos feminismos que ocorre o rompimento dessa ideia.


Felipe e Christian avaliaram que a representatividade se choca com uma sociedade marcada pelo machismo, a LGBTfobia e o racismo. É em rede que ideias conservadoras e discursos de ódio se fazem presentes. Mas, segundo eles, ao mesmo tempo, essas plataformas em rede também são utilizadas para visibilizar as narrativas de resistência, por meio da identificação LGBTQI com a cultura pop. “Muitas vezes nos interpelam: ‘Tu já tentou não ser?’. Como se esse espaço, no qual habitam nossa sexualidade e nosso gênero, não devesse existir”, comentou Christian ao citar uma cena de um dos filmes da franquia X-Men como uma metáfora para a “saída do armário”. “E isso vem sendo usado em X-Men para pensar esse lugar de subalternidade e precariedade no qual LGBTQIs são colocados”, destacou.


O lugar de fala do jornalismo


Na conversa, também foi discutido o papel do jornalismo na questão da representatividade. O local de fala dos jornalistas se faz presente, na opinião de Felipe e Christian. Se uma redação é composta majoritariamente por homens brancos heterossexuais, assuntos relacionados ao feminismo, aos LGBTQIs e à negritude não estarão em pauta tão frequentemente. “O jornalismo, para além de gênero, também tem raça. A gente tá pensando em um lugar muito marcado para pensar esse saber”, explicou Felipe.


A dupla defendeu que, assim, quando um personagem LGBT, reconhecido na cultura pop, rompe essa barreira e aparece nas mídias hegemônicas, a narrativa muda. Se antes era considerado um ícone, agora sua identidade choca. Isso acontece nas HQs, quando personagens se assumem, nos livros e até em virais na internet. Felipe trouxe o exemplo de Leona Vingativa – um viral de 2009. Como webcelebridade, Leona é uma diva. Mas a mídia não tem sequer termos para falar sobre a personagem. “Esse jornalismo não dá conta nem de definir o que é Leona – o que seria muito fácil se perguntassem para ela, né?”, completou.


A representatividade, conforme explicaram Felipe e Christian, acaba sendo importante para abrir um diálogo sobre questões que são inferiorizadas na sociedade. A cultura pop se transforma em uma ferramenta para que esses temas ganhem visibilidade. Dessa forma, cenas como o beijo da novela ou o termo correto para se referir à Leona se tornam naturais. O debate pode ser acessado na íntegra pelo canal do LIC.

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Estudos de gênero ganham espaço no meio acadêmico https://mescla.cc/2018/06/05/estudos-de-genero-ganham-espaco-no-meio-academico/ https://mescla.cc/2018/06/05/estudos-de-genero-ganham-espaco-no-meio-academico/#respond Tue, 05 Jun 2018 20:18:06 +0000 http://mescla.cc/?p=6316 No dia 17 de maio, se comemorou o Dia Internacional contra a LGBTQfobia. As redes sociais foram tomadas por empresas, artistas, políticos e militantes que postaram mensagens em apoio à causa. No Brasil, país que mais mata LGBTQs no mundo, a data foi pouco, ou nada notada pela imprensa tradicional. Nos veículos gaúchos, pelo menos, a comemoração foi lembrada somente no dia seguinte, quando o casamento entre um homem e uma transexual estampou as capas.    Mas por que gênero, uma temática tão debatida na internet, ainda anda […]

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No dia 17 de maio, se comemorou o Dia Internacional contra a LGBTQfobia. As redes sociais foram tomadas por empresas, artistas, políticos e militantes que postaram mensagens em apoio à causa. No Brasil, país que mais mata LGBTQs no mundo, a data foi pouco, ou nada notada pela imprensa tradicional. Nos veículos gaúchos, pelo menos, a comemoração foi lembrada somente no dia seguinte, quando o casamento entre um homem e uma transexual estampou as capas.   

Mas por que gênero, uma temática tão debatida na internet, ainda anda nas margens do jornalismo? A resposta pode ter origem na formação dos profissionais e professores da academia. Na qualificação da tese de doutorado, o jornalista Tainan Pauli Tomazetti realizou um mapeamento das teses e dissertações de comunicação pelo Brasil, que abrangem a temática no período de 2010 a 2015. Ele descobriu que, dos 4643 trabalhos produzidos, apenas 93, ou 2% do total, tiveram relação a estudos de gênero. Deste número, 25 ligam o assunto com jornalismo. 

A jornalista e pós-doutoranda em Comunicação pela Unisinos Márcia Veiga da Silva é responsável por duas das 25 pesquisas citadas acima. Ela ingressou na área de gênero há 18 anos, quando trabalhava como assessora de imprensa na ONG feminista Themis: Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero. Foi na organização, acompanhando os estudos de antropólogas e juristas, que surgiu o interesse no tema.

Márcia tem dupla formação: em gênero e em jornalismo. Mas foi somente em 2008, com o projeto de mestrado, que passou a ser, oficialmente, uma pesquisadora de gênero. Ela atribui o baixo número de produções acadêmicas sobre o tema e a falta de espaço na agenda dos veículos ao déficit na formação dos profissionais. “Isso acontece muito porque as sistemáticas não são trazidas, não fazem parte da formação dos professores, não está na universidade de uma forma oficializada”, salienta. 

 

Dos 4643 trabalhos acadêmicos produzidos
no Brasil, entre 2010 
e 2015, apenas 2% tiveram
relação 
com estudos de gênero. 

 

“O gênero do jornalismo é masculino” 

Durante o mestrado, a jornalista passou três meses acompanhando a rotina de produção de um telejornal do Estado. Ela analisou a linguagem utilizada pelos agentes nas reportagens, o discurso e saberes que circularam no local e as relações entre os profissionais. A dissertação resultou no livro Masculino, o gênero do Jornalismo. “No meu estudo de mestrado, eu entendi que o jornalismo possuía gênero, e era masculino”, afirma Márcia.  

Nas teorias do jornalismo, a Teoria Construcionista, que fala sobre o papel do jornalismo na construção social, tem como uma de suas linhas principais a inexistência de uma linguagem neutra. Portanto, a escolha das palavras pelo profissional tem forte poder discursivo. Nos estudos de gênero, e segundo a qual Márcia segue, a corrente do pensamento pós-estruturalista, destina um papel importante para a linguagem.  

Para a pesquisadora, o jornalismo reproduz a heteronormatividade da sociedade, que corresponde a norma geral de valorizar não só mais aos homens, mas aos atributos considerados do masculino – força, proatividade, competitividade, individualismo, relações de autoritarismo. Possuir estes valores permite, nas palavras de Márcia, “melhores condições de acessar o poder e o prestígio, não apenas na sociedade de forma geral, mas no jornalismo em particular”. 

“Na hierarquia das notícias, as que têm mais prestígio e mais valor são as hard news, que são as informações duras e fortes. Aí a gente começa a olhar pela linguagem. De que campo são as hard news? São do campo da política, polícia, economia. Campos historicamente ocupados por homens. Outra coisa que acho interessante a gente pensar no masculinismo do jornalismo: o furador, o jornalista furador, que persegue o furo”, instiga Márcia. 

Gênero e jornalismo na história 

Os estudos de gênero deram os primeiros passos no Brasil no final dos anos 70, quando as temáticas feministas começaram a reivindicar espaço na agenda política. Mas foi na década seguinte que pesquisadoras começaram estudos sobre o assunto. Inicialmente, preocupadas com as relações de trabalho entre homens e mulheres, as pesquisas passaram a problematizar estas desigualdades em diferentes âmbitos. 

Foto: Reprodução

Contudo, como explica Márcia, estas análises não possuíam um bom valor na hierarquia do conhecimento, apesar de existirem dentro das universidades, e, portanto, eram tratadas como assuntos menores, vistas com desconfiança.  Foi somente em 2015, com a efervescência da primavera feminista, onde a internet ocupa um papel importante na ampliação da circulação de saberes, que os estudos de gênero ganharam força no Brasil. 

 “Percebe-se maior interesse e, principalmente, a inserção de uma geração mais jovem, porque há uma ampla circulação de saberes que estava colocada na universidade em alguns grupos, no movimento social, mas não tinha uma amplificação. Então, consequentemente, novamente por uma ação de militância, passa-se a ter mais interesse em se refletir sobre”, conta Márcia.  

Gênero no currículo 

A partir da ascensão da internet, as pautas feministas passaram a ganhar grande circulação e repercussão. Nos anos seguintes a 2015 diversos acontecimentos tomaram as mídias sociais e engajaram o público mais jovem. A emblemática propaganda do O Boticário, no dia dos namorados de 2015 – que demonstra dois casais homoafetivos se abraçando – foi espalhado pelas redes, recebendo desde ameaças de boicote a marca a mensagens de apoio.  

Foto: George Campos | Reprodução

A repercussão da propaganda foi tema do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Francielle Esmitiz, hoje mestranda em comunicação pela Unisinos. Ela teve o primeiro contato com estudos de gênero em 2014, quando ingressou na Iniciação Científica, mas sem orientação específica. “Eu e o Christian (colega de IC na época) fomos muito metidos. A gente teve muita dificuldade e acabou começando por textos muito difíceis”, explica. 

Pensando em oferecer suporte teórico para as novas pesquisas atravessadas pelas temáticas de gênero, o Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da Unisinos, conta, desde o primeiro semestre deste ano, com uma disciplina de gênero. Intitulada “Seminário da Linha de pesquisa 2 – Introdução ao conceito de gênero como categoria analítica e epistemológica para pensar a alteridade nas relações de poder-saber a partir do jornalismo”, ministrada por Márcia Veiga. Ela integra o quadro de pesquisadores da Unisinos desde 2015, quando conquistou uma bolsa para realizar o pós-doutorado.   

“Eu, sendo uma pesquisadora da área e com o tema em destaque nos últimos tempos, percebo também que posso contribuir com essa expertise. Por isso, surge esta disciplina a fim de contribuir com alunos e alunas que estejam com diferentes atravessamentos. Mesmo que não diretamente, gênero seja algo central nos seus trabalhos e sempre penso que trazer este aporte e poder pensar sobre é fundamental”, enfatiza a professora.  

Apesar de ser eletiva, a disciplina conta com um número significativo de participantes e se configura como uma das turmas mais cheias do semestre. São 14 alunos de diferentes cursos e linhas de pesquisa do programa estudando as relações entre gênero e jornalismo. Márcia conta que a ideia é trabalhar com os estudantes para que eles possam perceber, como as questões de gênero operam em relações de poder.  

Outra iniciativa que vem surgindo dentro do PPGCOM da Unisinos é um grupo de estudos sobre gênero, formado por alunos do mestrado e doutorado. Francielle faz parte do grupo e conta que, mesmo em fase inicial, eles já conseguiram promover encontros com leituras de textos e diferentes materiais sobre o tema.  

O próximo passo inclui estender o projeto para a graduação.  “Nos cursos da comunicação não tem nenhuma disciplina de gênero. Quando eu fiz o meu TCC vi como seria bom ter uma disciplina, um encontro, um grupo, alguma coisa que pudesse dar este suporte”, conta Fracielle. 

Mudança no horizonte 

Foto: Reprodução

No dia 16 de março, o jornal El País anunciou a criação de uma nova figura em seu corpo editorial: uma editora de gênero. Segundo o veículo, a jornalista Pilar Álvar tem sob sua responsabilidade planejar e melhorar a cobertura sobre o assunto. Pilar trabalha no jornal desde 2007 e é especializada em temas de igualdade.  

Em comemoração ao dia internacional contra a LGBTQfobia, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) lançou o Manual de Comunicação LGBTI+. Carregado de novos conceitos e terminologias, a publicação serve também como um dicionário, orientando estudantes e profissionais durante sua escrita.  

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