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]]>O encontro, realizado na sede da DZ, em Porto Alegre, contou com dez workshops com profissionais das agências realizadoras, além da oferta de vagas de estágio, disponibilidade de mentoria e cartilha de boas práticas. Teve ainda a formação de um banco de talentos para o mercado.

A participante Lohana Souza, aluna de Jornalismo na Unisinos, compartilhou sua experiência no projeto. “Eu conheci o Rumos através das redes sociais. Achei o projeto sensacional, pois há poucas pessoas negras atuando no mercado da publicidade, uma situação semelhante ao que acontece no jornalismo, e eu não conseguia visualizar pessoas parecidas comigo no meu ambiente acadêmico ou de trabalho”, comenta a estudante.
Os workshops oferecidos pelo programa, promovidos pela DZ Estúdio, SunoPaim e Batuca, chamaram a atenção de Lohana. Nos encontros, especialistas explicaram sobre o funcionamento das agências publicitárias, posicionamento de marca, tendências, mídia e tecnologia, planejamento estratégico para comunicação digital e criatividade publicitária no ambiente digital. “Dentro do curso de Jornalismo, não temos essa visão do mercado publicitário. A forma como eles conseguiram exemplificar o funcionamento das agências é extremamente enriquecedora”, avalia Lohana.
Ela, inclusive, espera que os alunos que não participaram do Rumos Mais Pretos 2023 não percam a próxima edição, pois vê no projeto uma ótima oportunidade para os futuros profissionais pretos, pardos e indígenas descobrirem qual a melhor área de atuação seguir, fazer uma rede de contato e ver pessoas parecidas consigo próprias em ascensão nos espaços de poder. “Participem das oficinas e se inscrevam nas oportunidades de estágio. Eu sei que é difícil enxergar essa entrada no mercado de trabalho e que pessoas como eu não conseguem uma inserção tão rápida, mas o programa pode auxiliar nisso”, convida a aluna.

O publicitário Mateus Gobbi, formado na Unisinos em 2018, foi um dos responsáveis pela organização do projeto Rumos Mais Pretos 2023. Mateus, que trabalha como head de pessoas e cultura na agência SunoPaim, conheceu o projeto no ano de 2022, através de um evento aberto com as idealizadoras, e se interessou pela iniciativa. “Desde o final do ano passado, comecei a me aproximar da DZ e da UFRGS, e logo a Batuca também entrou, e começamos a conversar sobre a organização para uma edição maior em 2023”, conta.
Com a missão de ampliar o alcance do programa para mais participantes, instituições de ensino e empresas, a edição de 2023 contou com a adesão de 17 agências, 37 oportunidades de estágio e 6 instituições de ensino apoiadoras. Além disso, a Associação Rio-Grandense de Propaganda (ARP) e o Grupo de Profissionais Negros na Indústria Criativa (GPNic) também entraram como apoiadores. Mateus ainda ressalta que a participação da Unisinos possibilita a superação das barreiras entre aluno, instituição de ensino e agências publicitárias, algo que não era comum durante seu período de formação, e era ainda mais difícil para pessoas negras, pardas e indígenas. “Com o projeto, isso pode ser trabalhado, além de auxiliar em um mercado de trabalho publicitário mais diverso”, observa o publicitário.

Mateus destaca o fato de estar em uma posição de realização de um programa de carreiras pretas, pardas e indígenas sendo ele branco. “Estou coordenando algo sobre uma realidade na qual eu não vivo, então, o primeiro passo para atuar na liderança foi estar aberto a críticas e entender e compreender que o modo como fiz projetos até agora não serve para este”, analisa. No entanto, segundo Mateus, a equipe do projeto buscou diversidade racial e se preparou para lidar de forma acolhedora com as dúvidas e erros cometidos no processo.
Apesar de os workshops já terem sido finalizados, a edição ainda tem um longo caminho até seu encerramento, entrando agora na segunda etapa do projeto: as vagas de estágio. Nessa fase, os participantes escolhem áreas do mercado publicitário que despertaram seus interesses e se candidatam às vagas disponibilizadas pelas agências participantes do programa. Em 2023, são 37 vagas em áreas como atendimento, direção de arte, redação, mídia e planejamento. Os participantes que não conseguirem ingressar nessa segunda etapa entrarão para um banco de talentos, para futuras oportunidades.

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]]>O Blogger (hoje pertencente ao Google) foi a primeira empresa a fornecer sistemas automáticos de publicação de blogs. Assim, qualquer um poderia se tornar um blogueiro. Os blogs nasceram do desejo dos indivíduos de expressarem suas opiniões e serem lidos. Vinte anos depois, novos canais surgiram, como Instagram, Twitter e Facebook. Então, qual o papel dos blogs atualmente?
Na tentativa de unir teoria com o objeto, como se diz no jargão acadêmico, e trazer um olhar mais reflexivo sobre um elemento importante da comunicação digital, o Mescla ouviu o professor da Escola da Indústria Criativa Daniel Pedroso. Doutor em Comunicação, na linha de pesquisa “Midiatização e Processos Sociais”, Daniel usa essa teoria para explicar o fenômeno dos blogs.
“A midiatização é um processo. Neste caso, enquanto uma teoria, ela teria o objetivo de explicar a realidade social a partir da mídia. Isso começa a ocorrer com mais vigor após a Segunda Guerra Mundial, com a aceleração e intensificação da presença da mídia na sociedade, o que causa consequências culturais e sociais. Ela também serve para analisar como a sociedade interage entre si e vai influenciar na forma como a gente se comunica. Tudo isso, fomentado por um ambiente de grande desenvolvimento tecnológico. Hoje, percebemos que coexistem as mídias tradicionais, os novos meios – com uma característica transmídia – e a gente enquanto ator social. Eu, com meu telefone, computador ou dispositivo móvel tenho um potencial meio para gerar discursos sociais. A teoria da midiatização nos ajuda a entender o fenômeno dos blogs a partir do deslocamento do ator social simples para o âmbito da produção”.
Por que o Mescla está problematizando (olha o jargão acadêmico novamente) os blogs? Para contar aqui quatro exemplos de pessoas que usam seus blogs para falar de temas como autismo, Alzheimer e deficiência física. São histórias muito legais que você conhecerá a seguir. Para ajudar a entender a atualidade e as especificidades desse fenômeno, conversamos com outro pesquisador também da área da midiatização: o argentino Mario Carlón, professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires (UBA). Carlon já esteve na Unisinos participando de bancas de mestrado e doutorado, além de ter ministrado a aula magna do PPG em Comunicação. Nossa sugestão: leia os cases e, logo em seguida, acompanhe a entrevista.
Formada em Ciências Sociais pela UFRGS, especialista em Saúde Pública pela USP e, atualmente, estudante de Jornalismo na Unisinos. Mas Fernanda gosta de dizer que é, antes de tudo, a irmã do Mateus. Um jovem de 24 anos que possui autismo severo, não verbal. “Eu sempre digo que eu não seria essa Fernanda se o Mateus não fosse esse Mateus”, conta a jovem.
Fernanda sempre teve o sonho de criar um blog, mas não se sentia confiante para escrever. Foi quando surgiu a ideia de comunicar pelo irmão, que não podia falar por si. O blog Eu Sou a Irmã do Mateus nasceu no dia 5 de setembro de 2016, o dia do irmão no Brasil. Podemos chamar de um desacontecimento, como a jornalista Eliane Brum refere-se às coincidências da vida.
“O blog é uma forma de eu falar sobre autismo de um jeito mais pessoal. Eu digo que o irmão está em um não lugar, ele não é tão família quanto o pai e a mãe, mas também não tem um olhar de fora como o terapeuta, médico ou qualquer especialista”
Fernanda Ferreira
Tanto em suas redes sociais como no blog, a irmã do Mateus compartilha suas vivências com ele. O blog também é um canal de informação para alertar sobre os direitos das pessoas com autismo e dos seus familiares. Seu objetivo é conscientizar, sensibilizar e mostrar que a causa do autismo não pode ser tratada como questão privada, afinal, estima-se que existam 2 milhões de pessoas que possuem o mesmo transtorno de Mateus no Brasil.
Autismo ou Transtorno do Espectro Autista é um transtorno neurobiológico do desenvolvimento que acomete duas áreas principais: déficits na comunicação e interação social e comportamentos repetitivos e interesses restritos. – Associação Americana de Psiquiatria, 2013.
Em 2013, Fernando Aguzzoli deixou o empreendimento que estava criando e a faculdade de Filosofia quando descobriu que sua Vovó Nilva fora diagnosticada com Alzheimer. Passou a se dedicar exclusivamente a ela. Até escreveu um livro sobre a experiência,“Quem, eu? Uma avó, um neto, uma lição de vida”. Para ele, não foi um amor incondicional, pois é um amor que sempre esteve condicionado ao tempo e ao carinho que recebeu da avó.
“Claro que quando nos dispomos a cuidar de alguém, ainda mais no Alzheimer, que requer 24 horas de atenção, a única janela pro mundo acaba sendo a virtual.” Foi assim que Fernando teve a ideia de compartilhar sua rotina e da avó em uma página no Facebook. Com bom humor, construiu uma grande família de seguidores, da qual tem muito orgulho. Seu propósito é mostrar que o Alzheimer não é o fim, mas um novo recomeço todos os dias.
“A gente pensa que o diagnóstico é uma sentença de morte, mas não é! Tem muita vida pela frente. Por isso, criei um canal para auxiliar outras famílias a entender a doença e saber aquilo que está ao seu alcance”
Fernando Aguzzoli
O escritor, selecionado como uma das 20 lideranças em envelhecimento no mundo em 2019 pelo Global Brain Health Institute, indica sites como Alzheimer Association, Alzheimer Society e Alzheimer Disease International, que falam sobre a doença com responsabilidade. “Hoje em dia, estamos vivendo no mundo das fake news, e qualquer um pode criar um blog. Isso é maravilhoso, quando compartilhamos opinião e emoção, mas é perigoso quando decidimos compartilhar informação”, afirma.
Para ele, é preciso entender que Alzheimer não é um processo intrínseco do envelhecimento, e não existe caduco. O processo pode variar, como terapias farmacológicas, para dar mais qualidade de vida ao paciente, ou alternativas psicossociais dos familiares, para melhorar a aceitação do diagnóstico, além de promover uma boa comunicação entre familiares, idosos e também profissionais da saúde.
O Alzheimer, que é a forma mais comum de demência, é uma doença degenerativa incurável. Os neurônios, em certas partes do cérebro, são destruídos, o que pode levar a déficits nas funções cognitivas, como a memória, as habilidades linguísticas e o comportamento. – World Alzheimer Report, 2015
Ivone de Oliveira teve poliomelite seis meses após o seu nascimento. As sequelas lhe impediram de poder caminhar com os próprios pés. Sua melhor amiga tornou-se a cadeira de rodas e, com ela, pode correr atrás dos seus sonhos. Hoje, é palestrante, militante e ativista pela diversidade sexual da pessoa com deficiência. Mas toda essa história começou em 2012, quando criou o blog Gata de Rodas.
A ideia era compartilhar as experiências e os desafios de uma mulher cadeirante, mas o projeto cresceu e acabou abrangendo temas transversais. O blog tornou-se um importante instrumento de visibilidade e emponderamento não só da mulher com deficiência, mas também da pessoa com deficiência, em um contexto geral.
Tudo o que o Gata de Rodas mais quer é quebrar tabus. Principalmente, em relação à sexualidade da pessoa com deficiência. Desde 2017, ela leva pessoas com deficiência para a abertura da Parada LGBTQI+ de São Paulo, a maior do mundo, que reúne, em média, 3 milhões de pessoas.
“Eu recebo muitas mensagens dos meus seguidores com e sem deficiência dizendo que estão mais autoconfiantes para irem atrás de seus projetos e sonhos depois que conheceram o blog Gata de Rodas” Ivone de Oliveira
Para o Gata de Rodas, o uso excessivo das redes sociais em decorrência da necessidade de estar sempre conectado poder resultar na falta de socialização e visibilidade da pessoa com deficiência na sociedade. Ela também lembra que, nas redes sociais, é comum retratar a pessoa com deficiência apenas como alguém que tem dificuldades, e não como um cidadão comum.
De acordo com a Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência (Organização das Nações Unidas – ONU / 2006): “A pessoa com deficiência possui impedimentos de longo prazo de natureza física, intelectual (mental), ou sensorial (visão e audição), os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. É um cidadão com os mesmos direitos de autodeterminação e usufruto das oportunidades disponíveis na sociedade”.

Explicamos os cases da reportagem para o professor Carlon, e o resultado deste papo, por e-mail, nos ajudam a enxergar as possibilidades dos blogs. Acompanhe:
Mescla – Como os blogs se integram na teoria da midiatização?
Mario Carlón – Não conheço muitos trabalhos específicos em blogs de teorias da midiatização. Conheço análises que lidaram com blogs no âmbito de outras análises mais gerais. Do meu ponto de vista, constituem um momento importante, anterior às redes sociais da mídia, em que surgem outras vozes além daquelas privilegiadas pela mídia de massa. Obviamente, muitos dos enunciadores que apareciam nos blogs pertenciam à mídia de massa, ou haviam feito parte deles: jornalistas que, enquanto ainda trabalhavam na mídia, abriram seus próprios blogs ou que deixaram a mídia, mas já eram conhecidos. O importante é que eles permitiram, para muitos enunciadores individuais, novos espaços de comunicação, gerenciados por eles mesmos: mídia gerenciada por novos enunciadores. Isso é para mim os blogs da história da mediação. Algo difícil de identificar e sobre o qual resta estabelecer consenso, porque são meios, mas diferentes dos meios de comunicação de massa. E as definições da era da mídia de massa ainda são muito importantes nas teorias das midiatizações.
O fato de muitos enunciadores que surgiram nos blogs serem indivíduos muito interessantes e abrir muitas questões ainda não totalmente elucidadas pela análise dos discursos, porque a questão do estatuto do enunciador (se é um enunciador individual, coletivo ou uma instituição) geralmente tem sido um dado adquirido (e não discutido) ou encapsulado. Em geral, é algo que foi dividido mais do que algo que foi teorizado e discutido.
Nos blogs apareceu fortemente através de novos enunciadores, principalmente amadores, a exibição de uma vida privada e íntima que rapidamente inundou a rede. Essa mudança foi registrada, mas raramente discutida teoricamente. E muito menos analisou a dimensão que liga aqueles que enunciaram através de blogs e aqueles que os seguiram e comentaram.
A diversidade de blogs tem sido grande e, embora se possa pensar que eles desapareceriam quando as redes de mídia social aparecessem (Facebook, Twitter, YouTube etc.), mas continuam sendo importantes em áreas específicas, como arte, jornalismo ou política .
Mescla – Como figuras até então anônimas podem se tornar representantes de causas por meio das mídias?
Mario Carlón – Porque os blogs fazem o que todas as mídias fazem: eles estabelecem processos de mudanças de escala. E, ao estabelecer esses processos, discursos que antes não tinham visibilidade pública começaram a ter. O que aconteceu então é que muitos enunciadores individuais, com vozes excluídas dos espaços públicos, representando causas específicas ou um ângulo específico de uma causa de interesse público, começaram a mostrar que eram capazes de construir coletivos. A forma como esses grupos são construídos não tem sido um processo privilegiado para os estudos, mas nesses anos fizemos muitos avanços. Do meu ponto de vista, eles são estabelecidos em fases, em processos diacrônicos, geralmente primeiro nas redes sociais e depois em saltos de escala em direção à mídia de massa. É aqui que a história continua: porque muitas vezes hoje em dia esse processo não é realizado através de blogs, mas através de redes de mídia social, que são redes de mídia que permitem a muitos enunciadores a possibilidade de circular seus discursos em espaços públicos.
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]]>A história de Gladis com as questões étnico-raciais veio à tona após a recusa de um convite para palestrar na Semana da Consciência Negra, em 2000, por achar que não sabia falar sobre o tema. “Desde que comecei na UFRGS, trabalhava como orientadora dos estagiários da pedagogia. Eu não me dava conta que já estava me envolvendo bastante com essas questões. Toda vez que surgiam questões raciais com os estagiários, como crianças xingando e brigas, eu era convidada a ajudar, intervir, dar opiniões, sugerir livros de história, etc”, comenta.
Com a formação focada no trabalho com crianças, Gladis resolveu direcionar seus estudos e projetos para a formação de professores da rede de ensino fundamental. Em 2012, por meio da ex-aluna Tanara Furtado, Gladis teve a oportunidade de desenvolver suas propostas, através de uma pesquisa feita pelo Ministério da Educação.
“O MEC fez um levantamento pelo censo escolar de quais temas os professores sentiam mais falta de receber informação. E um dos temas era colocar em prática o artigo 26A da lei de diretrizes e bases, especificamente a lei 10639, que é aquela que altera o artigo 26A e diz que tem que ensinar a história africana e afro-brasileira”, explica. A iniciativa acabou resultando na primeira edição do curso de extensão UniAfro, no ano de 2013, formada por uma coordenação inteiramente de mulheres negras.
A proposta inicial foi de um curso direcionado para professores, pensando em cargas horárias que encaixassem na rotina de educadores que têm aulas o dia inteiro. Gladis tinha a intenção de promover um curso direto de sala de aula, onde os profissionais pudessem estabelecer diálogos e ações com os alunos, com a possibilidade de voltar para o UniAfro e passar um feedback. “Foi muito importante porque o racismo se mostra quando tu se debruças sobre essa temática da história do negro, das diferenças entre negros e brancos no Brasil, as diferenças de acesso à educação e de como o racismo funciona nas relações cotidianas. O curso fez as crianças pensarem bastante, e, sempre que tu colocas filhos a pensar, os pais vão junto” conclui Gladis sobre o retorno da primeira edição do curso.
Após uma primeira edição satisfatória, Gladis Kaercher e a colega Tanara Furtado pensaram que seria interessante oferecer um material para os professores que participassem do curso, algo que pudessem trabalhar em sala de aula com os alunos. Foi então que surgiu a questão da cor da pele de uma outra maneira.
“O curso terminou, e tinha uma coisa concreta que nos incomodava muito e que sempre me incomodou, que era a história do lápis cor de pele. Quando as crianças pintavam figuras humanas ou faziam autorretrato não tinham o lápis correto”, comenta ela. Na época, Gladis e Tanara já conheciam estojos de giz de cera em tons de marrom, mas tinham que lidar com a questão da importação. Após testes em diversas tonalidades, o giz finalmente tomou forma.
“Esse giz ocupou um lugar que é, como é que tu problematizas essas questões raciais, com uma criança pequena? Discutir racismo, discutir todas essas questões às vezes é bastante abstrato pra criança, pra entender as relações sociais, entender as relações de poder, entender o quanto é importante se sentir representado. Ou seja, poder pintar-se para uma criança na cor que eu tenho, na cor que é a cor da minha pele”, explica ela.
Com repercussão do estojo de 12 tons de giz de cera cor de pele, produzido pelas coordenadoras do UniAfro em parceria com a gráfica PrintKor, Gladis Kaercher avalia o material como necessário para fomentar a discussão do racismo com as crianças. “Conseguir pensar as questões do racismo sempre a partir de uma concretude e também sem culpa. Porque discutir o racismo com uma criança branca pode ser uma discussão leve, ela não precisa colocar essa criança num sentimento de culpa de ‘nossa que horror o que minha raça fez com os negros’. Eu acho que é um tema que é necessário”.
Os trabalhos de Gladis e suas experiências serão apresentados em mais uma edição do TEDxUnisinos, no mês de Agosto, que neste ano traz como tema as fronteiras. “Eu gosto de olhar a fronteira nessa potência, um lugar de intercessão. As fronteiras geográficas, culturais, eu acho que as fronteiras de gênero estão sendo construídas desse modo, contemporaneamente. Vejo a fronteira dessa discussão racial como esse lugar de potência, onde não há ‘lá estão os brancos e aqui estão os negros’, mas onde brancos e negros vão habitar e construir essa intercessão”, conclui Gladis Kaercher.
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]]>Para fazer parte das discussões, estarão presentes dois representante dos internos, o juiz Dr. Luciano André Losekann, da Vara de Execução das Penas e Medidas Alternativas e o artista plástico e educador Aloizio Pedersen, idealizador do Projeto Artinclusão. A professora da Unisinos Dra. Cristiane Knijnik será a mediadora do evento, que buscará uma reflexão e discussão sobre o tema aprisionamento e arte. O encontro é aberto ao público e para acadêmicos da universidade. Alunos devem fazer a inscrição através do link e demais participantes enviar nome completo e RG para o e-mail chance@unisinos.br.

Paralelo ao debate, ocorrerá também a exposição de 25 telas acrílicas pintadas pelos artistas do IPF, no hall de entrada da universidade. As obras ficarão disponíveis até 24 de junho, e ao final poderão ser adquiridas pelo público. As pinturas foram produzidas pelo Projeto Artinclusão, que nasceu em 2013 e foi implementado no Instituto Psiquiátrico Forense Maurício Cardoso, em 2017. A proposta atende mais de 40 pessoas e une arteterapia, profissionalização na técnica acrílica sobre tela, geração de renda, inserção social e cidadania.
Alexandre Ayub Dargel, advogado e coordenador da iniciativa, explica que a ideia de desenvolver o projeto nasceu a partir dos atendimentos da população que não tinha condições de contratar advogado, no Prasjur da Unisinos. “Eu atendia muitas pessoas que eram libertadas da prisão e não conseguiam retomar as suas vidas na sociedade, na família e no mundo do trabalho. Por isso o nome do projeto é Chance, para conseguirmos aproximar os participantes de novas possibilidades”, explica.

O Projeto Chance é composto por profissionais do Direito, da Psicologia e de Serviço Social, além de estudantes, que podem participar por meio da realização de estágios curriculares e extracurriculares. Os acadêmicos também têm a oportunidade de desenvolver trabalhos de investigação para tccs e atividades das aulas. “Esse contato propiciado aos alunos é extremamente enriquecedor, uma vez que os aproxima de realidades que, algumas vezes, são diferentes daquelas vividas por eles, e esse é um processo de humanização da compreensão da realidade, que influencia muito as práticas profissionais”, explica Alexandre.
A parceria com o Instituto Psiquiátrico Forense Maurício Cardoso teve início pela articulação da estagiária de Psicologia Mariana Schneider, que organizou uma visita do projeto da Unisinos ao Artinclusão. “Nós participamos da produção de uma obra de arte e discutimos essa realidade com todos os profissionais do IPF, com os participantes e com o coordenador do Artinclusão, o Aloizio Pedersen”, conta Alexandre. Sobre a atividade desta quinta-feira, ele também comenta: “É um evento inédito! Não se tem notícia de algo parecido no país. É a primeira vez que internos do IPF protagonizam um evento acadêmico”.
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A quebra de estigmas e a empatia são cada dia mais necessários em na sociedade, e a comunicação é uma das formas de disseminar essas discussões. As agência de publicidade já estão incentivando clientes na criação de peças mais inclusivas, enaltecendo as diversidades e a representatividade. Para o sócio-diretor e publicitário da Agência Escape, de Novo Hamburgo, Saul Scheid, estamos na era da identificação. “Eu acho que cada vez mais as pessoas não estão se identificando com os padrões estéticos perfeitos e as marcas que ainda usam estão afastando seu público. As pessoas querem uma marca real, de verdade”, explicou.

Saulo Barbosa, publicitário e diretor do núcleo de criação da Agência Escala, acredita que a publicidade tem o papel de provocar na sociedade a abertura de discussões sobre problemas sociais e, percebendo isso, os clientes estão mais abertos. “As marcas estão usando as campanhas e os temas atuais para se comunicar e se mostrar presente nesse contexto. A gente incentiva os novos olhares, novas causas, novas formas de explorar um momento”, conta.
Avon é outra marca que também apostou na diversidade e na quebra de paradigmas no desenvolvimento de suas campanhas. Em outubro de 2015, por exemplo, a empresa contratou a cantora e apresentadora transsexual, Candy Mel, da Banda Uó, para protagonizar o “Outubro Rosa”, mês marcado pela conscientização e prevenção do câncer de mama. Confira o vídeo abaixo:
A demanda das agências de publicidade em produzir campanhas “menos tradicionais” é mais interna, ou seja, as ideias surgem menos dos clientes do que delas.“Podemos dizer que 99% das intenções vem das agências e quando não são aprovados é pelo cliente, porque o risco assumido é deles, eles se posicionam mais defensivamente. As marcas nascidas recentemente estão mais abertas do que empresas mais antigas,até mesmo porque os diretores, coordenadores são mais velhos com uma mentalidade diferente”, disse Scheid.
Para o publicitário Barbosa, o risco em abraçar uma causa ou tema em uma campanha é controlado e depende da maturidade da marca, porém as repercussões e comentários são necessários. “O que a gente tem como verdade na agência é que se tu produzir uma campanha e ninguém comentar, algo errado tu fez”, conta. Além do mais, o retorno do mercado tem sido positivo, favorecendo a realização de novas campanhas e a abertura das marcas.
Barbosa relata também que o posicionamento da marca influencia também na produção das peças publicitárias. Há empresas com comunicações mais agressivas, que deixam seus ideais explicitamente e não se importam em perder clientes por isso e aquelas mais conservadoras. “Nenhum escolha é certa ou errada. O certo está em fazer algo que tenha sentido para a marca”, explica.
O papel da comunicação e da publicidade, mais especificamente, não deve se limitar a apenas vender um produto ou serviço, mas também com seu papel social. “A publicidade tem um papel gigante na sociedade porque podemos contar uma história de diversas formas e diferente do jornalismo ela é parcial”, concluiu Scheid.
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