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Arquivos histórias - Portal da Indústria Criativa https://mescla.cc/tag/historias/ Informação, inovação, tendências e eventos. O Mescla reúne tudo que você precisa saber sobre a Indústria Criativa. Wed, 19 Feb 2025 14:14:12 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0.2 Uma conversa com a jornalista egressa da primeira turma de Comunicação da Unisinos https://mescla.cc/2022/11/23/uma-conversa-com-a-jornalista-egressa-da-primeira-turma-de-comunicacao-da-unisinos/ https://mescla.cc/2022/11/23/uma-conversa-com-a-jornalista-egressa-da-primeira-turma-de-comunicacao-da-unisinos/#respond Wed, 23 Nov 2022 16:54:10 +0000 http://mescla.cc/?p=17343 Branca, como prefere ser chamada, inaugurou o curso com outros 12 alunos. Destes, apenas um era homem. Quando a turma foi aberta, em 1972, o Brasil vivia sob o Ato Institucional n°5, que desde 1968 implementou a censura, o fechamento do Congresso, entre outras ameaças às liberdades civis. Emílio Médici era o presidente. Quando ela […]

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Branca, como prefere ser chamada, inaugurou o curso com outros 12 alunos. Destes, apenas um era homem. Quando a turma foi aberta, em 1972, o Brasil vivia sob o Ato Institucional n°5, que desde 1968 implementou a censura, o fechamento do Congresso, entre outras ameaças às liberdades civis. Emílio Médici era o presidente. Quando ela se formou, em1976, o governo era chefiado pelo general, também gaúcho, Ernesto Geisel, que esboçou sinais de abertura para a redemocratização.  



Hoje aposentada, Branca foi uma jornalista inquieta, e marcou presença em diferentes frentes de trabalho, desde o mercado profissional, passando pelo acadêmico, até se tornar escritora.  Trabalhou como assessora de imprensa em grandes empresas e quando poucos se interessavam por Comunicação Organizacional, ela empreendeu neste ramo constituindo uma empresa chamada, primeiramente, de “Corpo 2”, e depois “Pontuação”. Como ela mesmo diz, foram várias pontas lançadas ao longo de sua vida, que só mais adiante pareceram se unir e fazer sentido.  



O estudo foi uma atividade permanente. Além da graduação em Comunicação, somou uma pós-graduação em História Contemporânea, licenciatura em Estudos Sociais, mestrado em Ciências da Comunicação, até então, todos pela Unisinos, e o Doutorado em Comunicação Social, na área do Jornalismo Digital e Organização Editorial de Jornais, pela PUCRS. Em paralelo aos trabalhos que exercia, se tornou professora, um “segundo amor”, que só aumentou ao longo da sua trajetória e proporcionou uma vida acadêmica muito ativa, com várias frentes de pesquisa e com o lançamento de diversos livros. Foi no ambiente de ensino que se realizou de fato. “Consegui, então, unir aquelas pontas que antes pareciam soltas, quase desconexas”, contou Branca sobre o trabalho enquanto professora e pesquisadora.  



Nesse ambiente se descobriu como escritora, também. A dissertação de mestrado resultou na publicação do primeiro livro: “Jornalismo Organizacional – produção e recepção”. Do doutorado surgiu o segundo livro: “Comunicação, psicanálise e Complexidade – abordagem sobre as organizações e seus sujeitos”. Publicou, também, “Violência, um discurso que a mídia cala”, fruto de um projeto de pesquisa. Já a paixão pelo meio digital fez surgir mais uma das “pontas”, quando começou a escrever histórias da vida, e com o convite de uma editora de Curitiba, viraram uma incursão pela literatura: “Uma vida de amor”. O livro de contos nasceu de uma brincadeira com um blog, conta. 



Aliás, este é outro fato interessante desta “filha da casa”. Mesmo tendo começado sua vida acadêmica e profissional na era analógica, ela não só buscou se atualizar e entender os meios digitais, como trabalhou voltada para o jornalismo tecnológico e ensinou sobre, em sua vida como docente.  Ainda em paralelo a essas vastas atividades, investiu no estudo da arte e, especialmente, das artes gráfica (Design), o que “deu corpo”, segundo ela, a atuação, também, como designer gráfica, na área da comunicação organizacional, na qual editou e diagramou jornais e revistas, entre outros materiais impressos. Branca foi editora da revista “Conexão, Comunicação e Cultura”, no então Departamento de Letras e Comunicação da UCS. 




“Cada vez mais, as experiências acumuladas foram se amarrando e me permitindo levar para a sala de aula uma prática que podia mostrar as deficiências/dificuldades/exigências do mercado e a vantagem de se ter um olhar desenvolvido na academia.”  – Branca Sólio




Hoje, aposentada, mas ainda descobrindo “novas pontas”, distribui as horas dos dias entre curtir os filhos, ler, assistir séries televisivas e produzir bonecas de tecido para doação a crianças em vulnerabilidade social. “Vejo que, embora a carga pareça (e efetivamente seja) mais leve, a missão não terminou. Os tempos são difíceis e como num golpe doloroso teimam em brotar sementes de dor e sofrimento que julgávamos extintas”, assinalou. E se os jornalistas já costumam gostar de contar histórias, espere para ver a combinação de jornalista mais professora.  Branca interagiu com o Mescla, por WhatsApp.  As respostas, como vocês poderão ver, revelam uma comunicadora nata, que fez questão de dar respostas completas, literárias, recheadas de intertítulos, conexões e toda uma trama muito bem costurada.  




A jornalista hoje. Mesmo aposentada se sente chamada “para a luta”. (Foto: Milena Leal)



Ufa! Depois de uma longa apresentação, de uma incansável jornalista, vamos para a entrevista com ela: 


Mescla: Você entrou na faculdade e finalizou a graduação no período tenso da ditadura militar, que atacava diretamente a área. Como era isso pra ti?  

 
Branca: Num primeiro momento, somaram para meu percurso a conclusão do curso de Jornalismo e o interesse por questões ligadas à história e à política, num período em que a ditadura militar, iniciada em 1964, exigia de jovens estudantes como eu uma posição político-partidária alinhada ao pensamento de direita ou, em contrapartida, o silêncio. Assim que concluí o curso, e já ocupando o cargo de Assessora de Imprensa na Unisinos, iniciei um curso de pós-graduação em História Contemporânea, ansiosa por ampliar horizontes que me permitissem maior compreensão do contexto em que estava inserida. Concluída a especialização, iniciei o curso de Estudos Sociais, também na Unisinos, descobrindo, logo adiante, o quanto me sentia à vontade em sala de aula.  



Mescla: E sobre tua trajetória profissional, como foi de 72 pra cá?  

 
Branca: “Minha trajetória profissional começou a ser desenhada na década de 70, quando desenvolvi, concomitantemente, três frentes de trabalho: assessora de imprensa na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos; professora de História e Geografia, no Ensino Fundamental (à época Ensino de 1º Grau); empreendedora na área de comunicação organizacional, e em sociedade com outras duas colegas jornalistas também recém-formadas. Eram tempos difíceis, de censura e insegurança. O empreendimento na área da comunicação organizacional, inicialmente uma forma de remuneração, foi crescendo em importância, principalmente a partir do início da década de 80, quando transferi residência para Caxias do Sul (RS), onde, em seguida, comecei a prestar assessoria em comunicação e jornalismo organizacional a uma série de empresas. Na mesma medida em que o trabalho se destacava, consolidando minha prática profissional como jornalista, surgiu o convite para ministrar aulas de Comunicação Organizacional e Design Gráfico no curso de Relações Públicas da Universidade de Caxias do Sul (UCS). Associar teoria e prática, considerando minha formação acadêmica na época (duas graduações e uma especialização), colocou-se como tarefa fácil. Foram dez anos de dupla jornada, que na verdade se complementavam e rendiam bons frutos. As aulas refinavam meu olhar sobre os processos aplicados no mercado, e a prática diária de trabalho me oferecia subsídios para aprimorar a teoria e as aulas desenvolvidas. 



Mescla: Como foi a virada quando se tornou professora? 

Branca: Um casamento e a consequente maternidade inverteram algumas prioridades, ao longo de alguns anos, interrompendo a carreira acadêmica por algum tempo. Na medida em que o novo milênio se aproximava, algumas inquietações foram provocando reflexões mais profundas. Era hora de uma nova virada. O desempenho profissional no mercado era muito satisfatório, mas era preciso voltar a regar a inspiração, a alma, com a seiva do conhecimento, da academia, que ao fim e ao cabo, nos faz perguntar, sempre, por quê? Acontece que já havia encontrado respostas suficientes. Precisava de novas perguntas. Além do mais, os filhos já haviam cortado o cordão umbilical. Estavam livres, independentes e felizes. Era hora de eu partir para uma nova missão.  

A decisão estava tomada: antes mesmo de saber se seria aceita para um retorno à UCS, tratei de disputar uma vaga para o mestrado em Comunicação na Unisinos. Em seguida, a UCS acenou positivamente. O investimento na vida acadêmica adquiriu sentido ampliado quando descobri um novo lugar onde poderia aplicar o que aprendia: a pesquisa. As atividades de mercado continuavam a ocupar espaço na minha vida profissional, mas com intensidade cada vez menor, na medida em que dedicava um tempo cada vez maior às reflexões acadêmicas, ao estudo, à descoberta de novos autores, paradigmas, teorias e um mundo que povoava minha cabeça num desejo quase febril de aprender. As atividades de pesquisa e a edição da revista abriram um novo olhar sobre o ensino universitário. Evidentemente, um doutorado e algumas especializações contribuíram nesse sentido, mas a percepção de que vivemos um novo paradigma e de que o perfil dos estudantes hoje é muito diferente, provocou muitas horas de reflexão sobre o exercício pedagógico. Durante algum tempo, incomodava ouvir alguns estudantes comentarem que minhas aulas “eram difíceis”. Mais tarde, essa sensação de mal-estar deu lugar a uma sensação de dever cumprido, principalmente quando muitos ex-alunos retornavam à Universidade, matriculados no curso de Especialização em Comunicação Digital, que passei a coordenar, a partir de convênio UCS/PUC, nascido de minha participação como aluna no mencionado Jornalismo Digital (PUCRS).  



Jogo rápido 

  1. Uma disciplina que te marcou?  Um professor especial? 

Fizeram-se valer as aulas de diagramação (como chamávamos na época) e as de fotografia (de longe as preferidas), com o Prof. Pe. Nedel, que foi Reitor na Instituição. 


  1. Um amigo que você fez no curso (ou na faculdade, ou ao longo da graduação)?  

Quando olho para trás, vejo aquela turma de jovens sonhadores, dos quais se destaca Dante Carravetta de Azevedo, um amigo do coração, lamentavelmente já falecido. 


  1. Um lugar especial na Uni? 

Vejo, também, um caramanchão na sede da Universidade, onde pequenos grupos se reuniam nos intervalos das aulas de fotografia aos sábados pela manhã. 


  1. Um acontecimento que te marcou no período? 

Lembro, ainda com certo temor, de algumas das aulas do curso de especialização em História Contemporânea e do fato de um dos colegas chegar a sair sempre acompanhado de um grupo buscando evitar que fosse capturado pela Polícia Federal, até chegar o dia em que ele não apareceu mais.  


  1. O que a graduação na Uni representou na sua vida? 

Olhando para trás, vejo o quanto a Universidade e especialmente o curso de jornalismo, foram importantes no desenho de meu destino. 
 


  1. Quais livros, filmes e séries você tem se dedicado recentemente?  

Sinto-me convocada a continuar na luta, o que me faz lembrar de um dos livros lidos recentemente: Torto Arado. 






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A data de 20 de novembro marca o Dia da Consciência Negra, uma homenagem a Zumbi dos Palmares, líder quilombola brasileiro que morreu em 1695 lutando pela liberdade de seu povo. Ao longo deste semestre, alunos do curso de Jornalismo produziram uma edição do jornal Lupa, nas versões impressa e online, dedicada à temática da negritude. Foram quase quatro meses de trabalhos dos estudantes, que buscaram as melhores formas de abordar o assunto. Para explicar como foi essa experiência, o aluno Paulo Albano, que ajudou a produzir a publicação, fez uma parceria com o Mescla e escreveu o texto a seguir:  

Vidas Negras

Com o objetivo de ampliar o diálogo sobre a representatividade racial e proporcionar a troca de experiências entre públicos que vivem realidades distintas, alunos e professores do curso de Jornalismo da Unisinos realizaram na segunda-feira (11/11) uma roda de conversa com participantes de movimentos sociais ligados à causa negra. O encontro, promovido pela turma da disciplina de Jornalismo Impresso e Reportagem do campus Porto Alegre, faz parte do lançamento da 13ª edição do jornal Lupa (Leia Unisinos Porto Alegre). A publicação, lançada no mês de novembro, tem o tema “vidas negras” como foco das reportagens.

Ao abrir as discussões, a coordenadora do curso, Débora Gadret, frisou: “O jornalismo está inserido no campo das Ciências Sociais, e que, sendo assim, debater pautas como a representatividade racial no ambiente acadêmico é não apenas uma obrigação de professores e alunos, mas também uma necessidade”. Para a professora Taís Seibt, responsável pela atividade que produz o Lupa, iniciativas como essa “são uma forma de não deixar o jornal cair no esquecimento e criar algum legado dentro da universidade sobre a abordagem das questões raciais”. Taís, que acumula a função de repórter com a de professora, ainda revelou que em sua trajetória jornalística nunca havia se sentido tão provocada a pensar e se questionar sobre o assunto como durante a produção do Lupa “vidas negras”.

O grupo de dança Corpo Negra, fonte de uma reportagem
do
Lupa, ilustrou também a capa do jornal
(Foto: Fernanda Ferreira) 

A socióloga Carolina Montiel, que atualmente trabalha com saúde reprodutiva feminina, ressaltou a importância da sociedade e a imprensa fornecerem espaço para temas raciais durante todo o ano, e não apenas em novembro, época em que o assunto naturalmente ganha mais visibilidade. Carolina, que participou da reportagem sobre as altas taxas de AIDS em mulheres negras, observou que o Lupa “conseguiu fugir do óbvio com reportagens variadas” e mencionou aos estudantes a infinidade de histórias existentes na capital gaúcha e região metropolitana que estão à espera de alguém para contá-las.

Durante a produção do Lupa, uma das principais dúvidas dos estudantes foi a legitimidade e a maneira de abordar questões raciais sendo uma pessoa branca. Na visão dos convidados, todos os jornalistas devem falar sobre representatividade independentemente de sua cor. “’Vidas negras’ é sim um tema que deve ser falado por brancos”, afirmou Carol. Ela apontou que os profissionais da imprensa não necessariamente dominam todos os assuntos nos quais trabalham no dia a dia, e que nem por isso deixam de abordá-los. 

A mesma opinião tem Marcelo Fróes, um dos criadores do Núcleo de Estudantes Afro para Representar e Acolher (Neara). “Quando o branco silencia sobre o racismo, ele está contribuindo para perpetuar o preconceito”, salientou o estudante, que também participa do MilTons – coletivo que já teve um especial no Mescla. Outra ação que Marcelo desenvolve é a oficina de programação AfroPhyton – voltado à inclusão digital –, sendo Phyton uma linguagem de programação.  

Para Vitória Nascimento, estudante de Arquitetura e Urbanismo e uma das primeiras participantes do Neara, a importância do grupo na universidade é representada pelo fim da sensação de solidão em um lugar com predominância de pessoas brancas até a aceitação de suas próprias características físicas.

Por Paulo Albano 

Sobre o Lupa

O jornal Lupa nasceu como uma forma de anunciar a chegada do curso de Jornalismo na Unisinos Porto Alegre, e o nome foi uma sugestão do aluno Luís Felipe Matos. Lupa é um instrumento óptico para ampliar imagens, mas a palavra remete também ao detalhamento, ao cuidado com que o jornalismo deve olhar para seus temas. Na verdade, trata-se de um acrônimo, ou seja, uma palavra formada pelas iniciais de outras palavras. Lupa pode ser também Leia Unisinos Porto Alegre. 

Na sua primeira edição, o Lupa falou sobre a Cidade Baixa, um dos bairros mais efervescentes da capital. Ao longo das primeiras 12 edições, foram contadas as mais diversas histórias, algumas ocultas aos olhos dos moradores de Porto Alegre, como as de abandono, de aprisionamento, de pecados, de ruas e avenidas, e também de notícias boas. A 13ª edição marca a primeira vez que o tema “vidas negras” é abordado. Denilson dos Santos Flores, o único aluno negro da turma, comentou sobre a sua expectativa para as próximas edições: 

“Espero que as próximas edições do Lupa tragam assuntos tão importantes como este, da negritude, que possam provocar efeitos positivos tanto dentro da academia quanto fora. A aceitação do nosso jornal está sendo muito grande. Digo “nosso” porque tenho um sentimento de orgulho daquilo que fizemos. Espero que não fique apenas no papel, e que todos vejamos atitudes concretas da universidade. Espero também que alguns dos nossos personagens retornem à um próximo número do Lupa para vermos o que mudou em suas vidas desde o nosso jornal” – Denilson dos Santos Flores

Alunos discutiram sobre privilégios e a importância
de não pautar os negros apenas pela dor

(Foto: Fernanda Ferreira)
O debate também trouxe críticas, como o fato do racismo
ser abordado só no mês da consciência negra
(Foto: Fernanda Ferreira)

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Pablito Aguiar em Palavras https://mescla.cc/2019/08/05/pablito-aguiar-em-palavras/ https://mescla.cc/2019/08/05/pablito-aguiar-em-palavras/#respond Mon, 05 Aug 2019 19:30:33 +0000 http://mescla.cc/?p=10787 Conheci o Pablito no início de 2019, quer dizer, não exatamente ele, mas seu livro – Alvorada em Quadrinhos. Foi na exposição Redesenhando Alvorada, e lembro das coordenadoras da exposição falarem com entusiasmo sobre o jovem artista que iria expor na Galeria Experimental, em Sapucaia do Sul. Pablito Aguiar é formado em Comunicação Digital pela […]

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Conheci o Pablito no início de 2019, quer dizer, não exatamente ele, mas seu livro – Alvorada em Quadrinhos. Foi na exposição Redesenhando Alvorada, e lembro das coordenadoras da exposição falarem com entusiasmo sobre o jovem artista que iria expor na Galeria Experimental, em Sapucaia do Sul. Pablito Aguiar é formado em Comunicação Digital pela Unisinos, além de ser ilustrador e quadrinista. Esses quadrinhos que eu vi no livro surgiram, primeiro, em um jornal de Alvorada como forma de valorizar a história da cidade. E, agora, ele iria expor essas obras no Vale dos Sinos. 


Alguns meses se passaram, e eu ouvi o nome dele de novo na Agexcom, onde fica a redação do Mescla, como proposta de pauta. Ficou combinado que a conversa não seria sobre o artista, mas com o artista. Marcamos o encontro em Porto Alegre. Em uma manhã de quarta-feira, depois de sair do trem e caminhar pela Rua da Praia, cheguei ao Margs. Entrei em uma cafeteria de tons avermelhados. Fui a primeira cliente a chegar no local. Além de mim, apenas a funcionária.


Pablito chegou de touca, mochila e pasta. Ele tinha a agenda cheia naquele dia. No meio da conversa, perguntei sobre como a ilustração entrou na vida dele. Ele contou que desenha desde pequeno, mas teve dúvidas, em certo momento: “Eu dei uma parada, porque eu fiquei desestimulado”, revelou. Pablito só voltou a usar o bloquinho e o lápis no caminho para a faculdade. Como morava  em Alvorada e estudava em São Leopoldo, gastava horas no transporte público, principalmente no trem. Para passar o tempo, Pablito tirava fotos das pessoas que mais lhe chamavam a atenção e as desenhava. Dessa forma, acabou se aperfeiçoando no hobby. A universidade também teve um papel importante, especialmente a partir do incentivo das professoras: “Eu nem mostrava muito os meus desenhos, mesmo assim elas me incentivaram”, relembrou. Assim, Pablito se encorajou para divulgar as ilustrações em um site que ele mesmo criou. O retorno que recebia deu mais gás para continuar.

Os desenhos no trem | Foto: Reprodução (Instagram)


Perguntar sobre a inspiração para um artista é sempre uma tarefa difícil, mas eu tentei. Pablito olhou o cardápio e pensou: “Não consigo identificar esse padrão”. A verdade é que ele tenta sempre ser diverso. A vontade de desenhar é o principal critério. E mesmo não seguindo sempre uma regra para escolha do personagem, a estratégia para criar essas ilustrações é quase sempre a mesma: ele olha para alguém que chama a atenção; tira uma foto; faz um esboço com o lápis; finaliza com uma caneta nanquim; e, por último, pinta o resultado final. Ultimamente, Pablito utiliza mais a pintura digital, no computador, mas também já finalizou desenhos com aquarela e outros tipos de pintura.


A curiosidade e dedicação de um artista


Quando ainda trabalhava no jornal, Pablito percebeu que não conhecia muito sobre sua cidade, e foi deste sentimento que surgiu a ideia do Alvorada em Quadrinhos. “Então, o projeto nasceu para isso, para contar um pouco sobre a cidade, para registrar e ter um documento sobre Alvorada”, relatou. O trabalho foi um sucesso, virou livro e inspirou o projeto atual dele: Porto Alegre em Quadrinhos.

A paixão pelo que faz se reflete no cuidado que tem com as ilustrações e as pessoas que interage | Foto: Reprodução (Instagram)


Hoje, Pablito trabalha com publicações independentes e participa de feiras gráficas. Lançou dois livros infantis, fanzines e o Alvorada em Quadrinhos. “Eu fiz os livros para experimentar esse tipo de trabalho e também para praticar o desenho”, contou. Para ele, é fundamental estar sempre desenhando. Por isso, além do Porto Alegre em Quadrinhos, o ilustrador desenha moradores de Alvorada, com o projeto “Alvoradenses”. Parecida com a ideia que fez Pablito começar, a intenção é observar os moradores da cidade e ilustrar aqueles que mais chamam a atenção. “Já fiz cerca de 50 desenhos. Quero chegar a 100 para fazer um livro”, revelou.


Pablito escuta minhas perguntas com atenção. A nossa conversa flui naturalmente. Quando eu pergunto sobre a rotina de trabalho, ele trava. É difícil pensar nisso quando você tem de tudo, menos um padrão de atividades. Ele responde explicando como realizou seu último quadrinho: a vida do pescador Deraldo. Acordou às 4h30, andou de lancha e barco e passou o dia compartilhando da rotina de trabalho do Deraldo. Tudo isso tirando fotos, gravando e anotando. Depois de conhecer o pescador, Pablito voltou pra casa e mergulhou de vez em cima do projeto. Passou alguns dias transcrevendo a história, duas semanas desenhando e mais duas semanas colorindo. O trabalho e o esforço do Pablito foi o mesmo em Alvorada em Quadrinhos e Porto Alegre em Quadrinhos. Mas existe uma diferença importante: no último, Pablito se retira da narrativa. O personagem fala com uma pessoa oculta, o leitor.

A história de Deraldo rendeu 10 imagens na rede social | Foto: Reprodução (Instagram)


Histórias que não costumam ser contadas


Pablito diz que todo o tempo e dedicação vale a pena pelo retorno que recebe. Como o Porto Alegre em Quadrinhos só está na internet, ele procura a pessoa entrevistada e mostra o trabalho final impresso. “Eu quero ver a reação deles, é importante pra mim essa troca”, explicou. Um dos planos futuros de Pablito é transformar esse projeto em mais um livro, e convidar todos os entrevistados para o lançamento.


O ilustrador gosta de conversar com os leitores e participar de prêmios. Ano passado, ele ficou em primeiro lugar no 25º Salão Internacional de Desenho para Imprensa com a história da Rita de Cássia, e, esse ano, ficou em segundo lugar no Concurso Sulamericano “Historias de vida que sobreviven la violencia y persecución en el campo en Sudamerica” contando a vida de Janja, moradora do Quilombo dos Alpes. “Esse foi legal, porque teve um prêmio em dinheiro e eu consegui dividir com a Janja”, contou, com orgulho.

Quadrinho que rendeu um prêmio à Pablito | Foto: Reprodução (Instagram)


Pablito esperava a garçonete trazer a água enquanto pensava na última pergunta que ouviu. “Como funciona para escolher as pessoas que desenho? Áh, é muito por indicação”, respondeu. Morando em Alvorada, é mais difícil conhecer as pessoas na Capital, por isso, ele costuma conversar com moradores de Porto Alegre, que o apresentam possíveis entrevistados. O ilustrador tenta ser diverso nas escolhas e tem uma preocupação social. “A palavra final é a minha curiosidade”, contou Pablito. 


O trabalho é todo publicado nas redes sociais do quadrinista, que está sempre ativo no Instagram. “Eu tenho mais liberdade e posso fazer um conteúdo mais longo, já pensando no livro”, explicou. Além disso, Pablito expõe suas obras em galerias e outros espaços de arte. “Eu gosto, porque são pessoas de Alvorada que eu levo para outros lugares e faço elas circularem”, contou.


Jornalismo em quadrinhos


No fim da nossa conversa, falamos sobre jornalismo. Pablito, que também é ótimo entrevistador, quis saber sobre como é ser repórter e usar as palavras, sem os quadrinhos, para contar histórias. Descobri que ele se apaixonou pelo jornalismo depois da faculdade, quando já trabalhava como diagramador no jornal A Semana, em Alvorada. Pablito citou a premiada jornalista Eliane Brum quando disse que, com um bloco e uma caneta, pode entrar em qualquer lugar, e aquilo o marcou. “Com os quadrinhos, eu também posso entrar na casa das pessoas e contar aquelas histórias”, explicou.


Eliane Brum disse, há alguns anos, que ser repórter é ser protagonista de uma construção, e isso Pablito faz com maestria. Ao desenhar os alvoradenses ou publicar o Alvorada em Quadrinhos, o artista mostra um novo lado da cidade, que geralmente aparece na mídia como uma das cidades mais violentas do Estado. Pablito dá voz e cor àqueles que, frequentemente, acabam passando despercebidos no cotidiano. Muito mais que um hobby, o trabalho de Pablito é um projeto social importante para a sociedade.

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Curso de extensão mistura jornalismo e quadrinhos https://mescla.cc/2018/03/19/curso-de-extensao-mistura-jornalismo-e-quadrinhos/ https://mescla.cc/2018/03/19/curso-de-extensao-mistura-jornalismo-e-quadrinhos/#respond Mon, 19 Mar 2018 18:21:28 +0000 http://mescla.cc/?p=4938 Já pensou em montar uma matéria jornalística em formato de história em quadrinhos? Pablito Aguiar, desenhista com formação em Comunicação Digital pela Unisinos, ministrará o curso de extensão “Jornalismo em quadrinhos – revelando histórias”. O objetivo é estudar as linguagens e o uso da técnica, além de explorar o quanto esse gênero pode auxiliar dentro […]

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Já pensou em montar uma matéria jornalística em formato de história em quadrinhos? Pablito Aguiar, desenhista com formação em Comunicação Digital pela Unisinos, ministrará o curso de extensão “Jornalismo em quadrinhos – revelando histórias”. O objetivo é estudar as linguagens e o uso da técnica, além de explorar o quanto esse gênero pode auxiliar dentro do universo do jornalismo.

Segundo Pablito, os quadrinhos no jornalismo são uma excelente forma de linguagem, capaz de contar a história de maneiras diferentes, atingindo, assim, públicos mais diversos, com um alcance maior do conteúdo. “Desenho desde pequeno. Foi a forma que encontrei de melhor me comunicar com as pessoas”, disse o desenhista.

O interesse em contar histórias foi o que motivou Pablito a criar o curso. Atualmente, ele está desenvolvendo um projeto que será publicado no Jornal Já, de Porto Alegre, em que entrevista pessoas que contam suas histórias.

O curso presencial terá carga horária de 21 horas. Será realizado de 7 de abril a 19 de maio, aos sábados, das 9h às 12h30min, no campus Unisinos Porto Alegre. Você pode ser matricular aqui.

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Revista faz releitura de sete pecados https://mescla.cc/2017/12/05/revista-faz-releitura-de-sete-pecados/ https://mescla.cc/2017/12/05/revista-faz-releitura-de-sete-pecados/#respond Tue, 05 Dec 2017 20:20:21 +0000 http://mescla.cc/?p=4478 Foi lançada ontem à noite a 48ª edição da Revista Primeira Impressão, uma produção experimental das disciplinas de Narrativas Jornalísticas e Planejamento Editorial e Projeto Experimental em Fotografia do curso de Jornalismo da Unisinos. O evento ocorreu na  Cafeteria Letras e Sabores, localizada no saguão do prédio da Biblioteca, na Unisinos São Leopoldo, e contou […]

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Foi lançada ontem à noite a 48ª edição da Revista Primeira Impressão, uma produção experimental das disciplinas de Narrativas Jornalísticas e Planejamento Editorial e Projeto Experimental em Fotografia do curso de Jornalismo da Unisinos. O evento ocorreu na  Cafeteria Letras e Sabores, localizada no saguão do prédio da Biblioteca, na Unisinos São Leopoldo, e contou com cerca de 40 pessoas, entre estudantes, professores e algumas fontes das reportagens.

Fotos: Kellen Dalbosco

A revista leva um questionamento na capa: “Qual é o seu pecado?” e traz nas páginas histórias que levam os leitores a refletir sobre o tema. “Atualmente, pecado é não estar conectado, é viver com a violência, é não cuidar do próprio corpo e não ser aceito pela sociedade. Dentro do nosso devaneio, descobrimos que pecamos muito e vivemos cercados de pecados – e nem todos podem ser considerados ruins!” antecede o editorial da revista.

Entre os personagens das reportagens presentes no evento estava Patrícia Pedroso, a protagonista de “O ser mulher que incomoda” e a figura que estampou a capa desta edição. Vestida de Drag Queen, foi aplaudida pelos presentes. Ontem, ela representava mais do que a foto da edição, mas as dezenas de pessoas que toparam abrir suas vidas para que os repórteres entrassem e mostrassem uma realidade por vezes escondida.

“Eu fiquei chocada com o convite. Quando a Dyessica (repórter) me falou, eu fiquei muito feliz. Mas eu nunca pensei que seria a capa. Eu amei” exclamou Patty, como gosta de ser chamada. Contar a sua história também foi algo inimaginável para ela, que disse estar ansiosa para enviar a revista a suas amigas Drag Queens de todo o Brasil.

O coordenador do curso de Jornalismo de São Leopoldo, Edelberto Behs, discursou para os presentes. Com orgulho da nova edição da PI, disse que a informação, presente em reportagens que tratam de temas polêmicos, como violência obstétrica e nudez, são uma arma de combate, e que isso a PI “faz muito bem”.

Para os estudantes, foram grandes as dificuldades enfrentadas durante a produção das reportagens. Para Verônica Torres Luize, encontrar uma fonte disposta a conversar sobre o assunto foi um grande desafio. “Era preciso explicar sobre o que se tratava para então poderem se abrir”, contou. “A melhor parte da PI é isso, ela torna o teu trabalho palpável. Você consegue pegar, sentir e mostrar para as pessoas”, contou.

A estudante Eduarda Moraes falou sobre um assunto um tanto polêmico, a nudez feminina. Ela afirma ter enfrentado dificuldades para encontrar fontes dispostas a contar sua história. Um problema diferente encontrou a sua dupla de reportagem. A estudante Maria Carolina de Melo, que atuou como fotógrafa, conta que entrar na intimidade da personagem para fotografar, foi o desafio O resultado final foi positivo, o que explicou a presença da fonte, Emily Schwan, orgulhosa, no lançamento da revista.

Os professores Anelise Zanoni e Flávio Dutra, editores de texto e fotografia respectivamente, mostraram-se orgulhosos do trabalho dos alunos, que teve início em agosto e arrastou-se ao longo do semestre.

Flávio desafiou com a maior preocupação dos fotógrafos. “Como usar uma imagem na capa, por exemplo, sem designar que aquilo é pecado, que é ruim?”. Na capa, por exemplo, a solução foi encontrada com maestria. “Se fez uma pergunta na capa e na foto, o olhar esta inquiridor. O olhar combina com a pergunta. Uma solução editorial para um problema difícil”,  finalizou.

“O trabalho foi feito e a tarefa cumprida. Hoje é um dia de comemoração”, celebrou a professora Anelise. Ela contou que o processo mais difícil e, ao mesmo tempo, mais gratificante é a etapa de diagramação e edição da revista, já que exige um trabalho intenso de revisão e montagem da agenda de diagramação com os estudantes, que participam do projeto. Mas ver a revista tomando forma é a visualização do trabalho feito.

Encontrar um tema editorial e trabalhar com eles, foi o primeiro desafio encontrado pelos professores. Para os estudantes, não bastava debater e aceitar o tema sugerido, mas buscar fontes e informações para as reportagens, que em diversos casos, se mostraram delicadas e de difícil abordagem. A releitura dos sete pecados originais foi abordada nas 22 reportagens da revista. Agora o que fica aos leitores, é a provocação da capa: “Qual é o seu pecado?”

Confira a edição online aqui.

 

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