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]]>“Queria convidar vocês todos a ser o Sancho Pança do conteúdo da internet. Sejam capazes de identificar o gosto de couro de cabra e o cheiro de ferro do vinho que estão bebendo. Sejam capazes de acender a luzinha da desconfiança”. Foi citando “Dom Quixote” que o jornalista do Instituto Humanitas da Unisinos (IHU), Ricardo Machado fez alusão às notícias falsas na atualidade.
O projeto LER: Leitura e Ciência teve o primeiro fascículo ontem, dia 9 de maio, sob o tema “Letramento para as redes sociais”, e contou com uma plateia de mais de 80 professores de escolas do Ensino Fundamental do Vale do Rio dos Sinos. Pela segunda vez, o IHU esteve presente nos encontros. Além do Instituto, demais profissionais da Unisinos já contribuíram nas temáticas do projeto.
Ricardo Machado trouxe a edição 520, do mês de abril, da revista do Instituto, que trata do tema Fake News, para elucidar a discussão. A publicação traz pesquisadores de diferentes áreas, como Comunicação, Direito e Linguística, para discutir a emergência das notícias falsas.

Ele apresentou a revista como uma mediadora de discussões e não como um meio de encontrar respostas sobre o tema. “A gente não traz nenhuma resposta aqui, mas a gente traz um monte de questões que nos ajudam a pensar”. Machado disse ter optado por trazer o ponto de vista dos pesquisadores, por acreditar que eles tenham mais a acrescentar sobre o tema.
O jornalista aproximou a problemática do cotidiano dos professores presentes, dando exemplos de como as notícias falsas circulam nas redes. “As fake news expressam uma nova ética, e essa ética não foi construída por nenhuma instituição, senão por nós mesmos. A gente faz circular informação falsa. Os cidadãos são as pessoas críticas da sociedade que fazem circular essas informações, que são manipuladas e têm um fim político muito específico”.
Machado também fez um alerta sobre o modo como a sociedade entende o fenômeno das notícias falsas. “Parem de chamar as fake news de fake news. Elas são algo muito pior do que isso. É manipulação de dados”. O jornalista ressaltou que essa manipulação não possui lado. Está tanto na política de direita quanto na de esquerda.
“Nós, como cidadãos, temos que ter uma postura radicalmente crítica. Se a gente não desconfiar das informações, a gente facilmente vai se deixar levar por aquilo que é falso”. O jornalista ainda trouxe um exemplo que, em suas palavras, resume os brasileiros da melhor forma: “Sejamos este misto de Macunaíma (herói conhecido pelo seu jeito malandro e sagaz) com Sancho Pança para enfrentar este problema das fake news.

O doutor em Ciência Política Dr. Sérgio Amadeu concedeu entrevista para a revista do IHU, na edição 520, na qual afirma temer que os governos tentem instituir um “ministério da verdade”, lembrando um paralelo ideológico de funções com o Ministério da Verdade do escritor George Orwel, no livro 1984.
“O importante é que começássemos a construir valores baseados na liberdade e na diversidade. O mundo sem diversidade é pobre e autoritário. Esses valores temos que tentar construir de diuturnamente nas redes, no cotidiano, nas famílias, nas escolas e onde estivermos”, disse Amadeu para a publicação.
Na mesma edição da revista, o professor Dr. Antônio Fausto Neto trouxe a ideia de que realizar uma simples checagem dos fatos não é suficiente para sanar o problema das fake news. Para o entrevistado, nunca houve tanto acesso à informação de forma tão plural e horizontal como agora e nunca, no entanto, a população esteve tão desinformada.
Machado completou questionando: “De certa maneira, isto expressa um dos limites do meu campo de trabalho, que é o jornalismo, no sentido de que talvez não estejamos fazendo a mediação da maneira correta. E a questão é: não estamos fazendo por incompetência ou por uma questão editorial?”.
A coordenadora do Projeto LER, Profª. Drª. Maria Eduarda Giering, explicou que o tema do encontro teve inspiração direta em dois projetos da universidade. O primeiro, Comunicação em Debate, ocorreu ano passado e trouxe o jornalista e doutor em Ciências Políticas Leonardo Sakamoto. Na ocasião, ele introduziu na palestra “O que aprendi sendo xingado na Internet” a ideia de realizar uma alfabetização para as mídias.
Maria conta que o Projeto Nuvem – Núcleo Universitário de Educação para as Mídias – também impulsionou a discussão. “Quando o núcleo pensou e se organizou, a partir também da ideia de fake news, eu disse ‘bom, a gente pode de alguma forma contribuir, dentro do LER, porque nós temos um outro público, que é o dos professores do Ensino Básico'”.

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