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Texto: Luiza Soares e Natan Cauduro

Médico oncologista, escritor e cientista, Antônio Drauzio Verella foi uma das atrações do terceiro e último dia da 37ª edição da Expoagas, tradicional convenção de supermercadistas do Rio Grande do Sul. Com bom humor e olhar atencioso, ele recebeu jornalistas na manhã de quinta-feira, 23 de agosto, para uma rápida coletiva de imprensa antes da palestra que apresentaria. Durante as entrevistas, o médico elucidou alguns tópicos. 

O foco não é o tratamento 

Na perspectiva de Drauzio, prevenir é algo fundamental. A falta de prevenção, acredita o médico, pode quebrar o Sistema Único de Saúde (SUS). Par ele, as doenças enfrentadas pela grande maioria da população são crônico-degenerativas. “São doenças muito caras de tratar. O SUS não quebra porque tem uma verba. A partir do momento que acaba a verba, deixa de atender. A saúde suplementar, se continuar assim, vai quebrar no Brasil”, avaliou.  

Um exemplo, citado por Drauzio, é a situação de pessoas com diabetes ou hipertensão arterial. Com o agravamento da doença, surgem as complicações, tais como ataques cardíacos, derrames cerebrais, amputações, cegueira, insuficiência renal e diálise. “São todos problemas que demandam muito dinheiro. Quanto custa isso? Não é com dinheiro que se resolve esse problema”, disse.

Drauzio Varella durante coletiva de imprensa / Foto: Natan Cauduro

Saúde não é barganha 

Questionado sobre o que achava das propostas dos candidatos à presidência da república na área de saúde, Drauzio disse que elas são muito inconsistentes, e que não vê alguém que, de fato, tenha um programa de saúde. “Nos últimos cinco anos, sabe quantos ministros da Saúde nós tivemos? Seis. A média de permanência no cargo é de 10,4 meses. Aí você troca o ministro da Saúde no Brasil, que traz dezenas de cargos de confiança junto. Trocam os chefes de autarquia, trocam os diretores de hospital, uma revolução. Desorganiza tudo”, comentou.  

Drauzio ainda observou que o atual ministro da Saúde, Gilberto Magalhães Occhi (PP), veio da Caixa Econômica Federal. Isso acontece, na visão do médico, porque o ministério é uma das cotas do Partido Progressista (PP). “Você acha que tem sentido ser cota de alguém o Ministério da Saúde? É um absurdo”. 

A internet também mente 

Combater informações falsas é difícil, segundo Drauzio, pois na web é possível dizer qualquer coisa. Para ele, pessoas que não têm formação na área gostam de acreditar em curas e tratamentos milagrosos. Na rede, com frequência são oferecidas soluções simples e acessíveis. “Essa informação que vem pela internet não passa por nenhum crivo, nenhuma análise. A briga aí é contra a credulidade. Não acredite em tudo que você lê. Vá confirmar, veja um site sério. Tá cheio de sites de universidades, de hospitais, aqui e no exterior, com informação que é digna de crédito”, aconselhou. 

Drauzio Varella no palco da Expoagas 2018 / Foto: Giulia Godoy

Tecnologia X Saúde 

Às 9h, Drauzio abriu a palestra “Promovendo saúde em tempos acelerados”, no Centro de Eventos da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), em Porto Alegre. O médico iniciou relembrando da época em que cursava a Faculdade de Medicina da USP, nos anos 60. Certa vez, presenciou um evento peculiar: uma mesa redonda cujo título era “O que fazer com o tempo livre no ano 2000”. Segundo Drauzio, estudiosos e pensadores da universidade da época acreditavam que haveria ociosidade no futuro, pois as máquinas trabalhariam no lugar dos humanos, criando muito tempo livre. “Nunca vi previsão mais absurda do que essa”, comentou Drauzio.  

Com 75 anos, o cientista conviveu com muitas mudanças tecnológicas. A criação do fax, o surgimento do celular e do e-mail, os smartphones e o WhatsApp. Segundo ele, todas essas mudanças causaram o efeito contrário do que se esperava pelos estudiosos da USP dos anos 60. “Hoje, ninguém tem tempo pra nada. Virou um inferno a nossa vida. A gente trabalha o dia inteiro”, disse.   

 

“Compara a eficiência que nós ganhamos no trabalho hoje, a quantidade de coisas que a gente consegue fazer no dia a dia. Vocês conseguiriam fazer isso sem e-mail, sem WhatsApp, sem o telefone celular? É lógico que não. Impossível. A gente produzia muito menos. Todas as invenções, todos os avanços tecnológicos virão para nos fazer trabalhar mais e ganhar mais eficiência. E vai parar aonde isso? Não vai parar. Isso vai prosseguir o tempo todo dessa maneira e nós aqui é que vamos ter que aprender a nos defender.” 

Drauzio Varella

 

A tecnologia está presente em nossa vida de uma forma nada saudável. Nas palavras do médico, a rotina te faz acordar trabalhando e ir para a cama trabalhando. “Quantas pessoas deitam à noite e ainda dão uma última olhada no celular? Às vezes, essa olhada leva meia hora. Ao acordar, a primeira coisa a se fazer é olhar o celular. Isso domina a nossa vida o tempo inteiro”.   

Outro problema apontado por Drauzio, resultado de todo o avanço tecnológico, é o sedentarismo. De acordo com o médico, o corpo humano não foi feito para se manter imóvel. Coxas, pernas, braços e antebraços existem por um motivo. “O corpo humano é cheio de dobradiças para abaixar, levantar, subir etc. E como é que nós usamos hoje? Trabalhamos sentados o dia inteiro. Cansamos, porque a vida sedentária cansa, dá um mal-estar no corpo. Faz você chegar em casa e, depois de tudo isso, sentar no sofá. É assim a vida que a gente leva hoje”. 

Foto: Giulia Godoy

O copo humano é uma máquina desenhada para o movimento, e quanto mais se move, mais se aprimora, nas palavras do cientista. “Quando o corpo se movimenta, fortalece os músculos, facilita a formação de novos vasos sanguíneos, melhora a circulação do corpo todo, melhora a oxigenação do cérebro. Só traz vantagens o movimento. Ele é absolutamente necessário, e a vida de hoje nos empurra para o outro lado”, afirmou.  

Drauzio não deixou a plateia sem respostas. Segundo ele, existe uma razão para a resistência contra o movimento: “Nenhum animal gasta energia à toa”. O médico ressaltou que o corpo do ser humano foi treinado para comer o máximo que puder e, depois, descansar para guardar energia, assim como o resto dos animais. Para Drauzio, essa é a justificativa e causa para a preguiça matinal quando se tenta levantar cedo com intuito de se exercitar. Aliás, sobre isso, Drauzio arrancou risadas da plateia: “Essas pessoas que dizem levantar dispostas de manhã são mentirosas”. 

Mulher é o sexo forte 

“Em todas as sociedades civilizadas, as mulheres vivem mais que os homens. E nós, homens, nos consideramos o sexo forte. Não sei quem foi que inventou essa história”, brincou Drauzio. Utilizando as comparações e estereótipos entre homens e mulheres, o médico criou uma narrativa sobre como, na prática, as mulheres são o sexo forte.  

As meninas de dois anos de idade, diz ele, já sabem falar. Usam frases conceitualmente perfeitas, com sujeito, verbo e predicado. “Os meninos, em contrapartida, não falam, eles grunhem, e a mãe diz que entende”, contou o cientista. Existe uma corrente de neuropediatras que são contra meninos e meninas, na faixa etária dos seis aos sete anos, estudarem na mesma sala. “Isso não é justo com eles (meninos). Precisam competir com meninas que cognitivamente estão num estágio superior ao deles. E não é bom para as meninas, porque os moleques retardam a evolução delas”. 

Foto: Gabriel A. Ost

Outro exemplo usado por Drauzio são funções do homem e da mulher no processo da gravidez. “Analisem o papel do homem e o papel da mulher na paternidade. O papel do homem é irrelevante. Nós entramos com uma célula. Depois disso, você já não é mais necessário pra nada. É ela, com aquela sua célula, que vai sozinha construir uma criança inteira. O homem pega carona na gravidez da mulher”, explico.  

Drauzio finalizou a apresentação destacando que não há uma única sociedade no mundo em que a mulher viva menos que os homens. “Aqui no Brasil, as mulheres vivem em média sete anos mais que os homens. Nós (homens) morremos sete antes e nós somos o sexo forte?”

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Texto: Eduarda Bitencourt e Giulia Godoy

“Toda vez que me chamam para falar de fake news, eu caminho na contramão desse tema e da relevância a ele atribuída”. Foi assim que o jornalista Ricardo Boechat iniciou sua fala na manhã de quinta-feira, dia 23 de agosto, durante a 37ª Expoagas. Para um público atento, o apresentador mostrou como o fenômeno das notícias falsas pode ser, muitas vezes, fruto de uma sequência de acontecimentos históricos.

Antes de começar, o jornalista questionou o porquê de tratar notícias falsas com um nome estrangeiro. “Por que fake news e não notícias falsas?”, perguntou. Para Boechat, tudo é uma questão de poder. “Antes, quem ditava as regras eram os gregos, depois os romanos e, hoje, os americanos. É o império do momento, no campo cultural, econômico, militar, no comportamento: é o que mais exporta trejeitos, falas. Por que que nós estamos chamando isso de fake news e não do nome equivalente em grego? Porque a Grécia se foi, os Estados Unidos não”, explicou.

Foto: Gabriel A. Ost

Para debater sobre o tema, Ricardo Boechat apresentou situações de um passado não muito distante, no qual regimes ditatoriais foram construídos sob países que se deixaram enganar. Ele afirmou que a notícia falsa pode ser explicada por apenas uma palavra: mentira. “A mentira ao longo da história já produziu flagelos monumentais, sempre associada ao poder. A escravidão, a qual eu já me referi, durou três séculos e tinha como base a economia global, a mentira de que o negro não era humano”, citou como exemplo.

Ao longo do discurso, Boechat expôs mentiras históricas prejudicais a humanidade. Nazismo, escravidão, ditaduras e Ku Klux Klan foram analisados pelo jornalista como mentiras universais aceitas por grupos de pessoas com grandes consequências. “Não há uma mentira maior do que aquela que distingue um homem e uma mulher de outro homem e outra mulher em função de sua raça. Distingue seus direitos, distingue a qualidade da sua vida, o seu direito ao amor, seu direito à procriação, guarda dos filhos, a soberania sob si mesmo, a qualidade de vida, o sofrimento pelo qual vai passar, o direito ao próprio corpo”, afirmou.

A mentira também é a base dos regimes autoritários, segundo o jornalista. “Por que todo o regime autoritário precisa da censura? Porque a censura preserva a versão única. O que é a mentira se não uma versão única que se impunha as demais e, portanto, vence a disputa do conflito, da discussão e do debate?”, instigou o público.

Foto: Natan Cauduro

Saindo dos acontecimentos históricos para fatos recentes, ele comentou sobre eventos como Brexit e a eleição de Donald Trump. Para o jornalista, nenhum desses acontecimentos foi fruto das fake news como a imprensa afirma, mas de uma predisposição da população.

Ao mesmo tempo que reforçava o papel da mentira no dia a dia da sociedade, também enfatizava o fato de que atualmente estamos mais preparados para nos defendermos dela. Para exemplificar, relembrou crenças antigas e como o conhecimento científico era escasso e até mesmo inexistente em alguns casos. “A tecnologia que propaga a mentira é a mesma que permite difundir a verdade e desmascarar essa tal mentira. Essa é a nossa maior defesa. Sete bilhões de pessoas sujeitas a receber uma mentira através das redes sociais estão conectadas as mesmas redes sociais, ou sites de jornal, ou conteúdo acadêmico que desmascaram a mentira”, prosseguiu.

Ricardo Boechat afirmou que as notícias falsas não nos põem em risco e que a arma para combatê-la está, literalmente, em nossas mãos. “Não olhe para a fake news como uma ameaça, ela não ameaça vocês. O que ameaça vocês é a sua eventual passividade, o seu eventual desinteresse em valer se de recursos que estão no alcance da sua mão para entender que aquilo que estão te contando está próximo, distante, contrário ou a favor dos fatos”, finalizou.

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