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A primeira edição
“Cada edição do jornal Enfoque busca apurar as principais histórias de moradores de uma comunidade. No Enfoque, as pessoas têm nome e trajetórias que serão contadas e partilhadas com outros moradores. (…) Na visita à Ocupação Mauá, a força que mobiliza seus moradores se tornou pano de fundo das reportagens: a união, a solidariedade e a luta pela moradia. Aspectos que fazem com que mães, lideranças, imigrantes e tantos outros personagens, deem vida à Mauá”, informa o editorial da primeira edição.
Sabrina Franzoni conversou com o Mescla e contou um pouco sobre o jornal e como é a experiência de gerenciar uma equipe de alunos nesta produção. “Para os alunos, é um grande aprendizado, porque é uma realidade diferente da que eles estão comumente cobrindo. Eles vão produzir a pauta a partir de uma conversa com a comunidade”. Ela cita a fala de uma das coordenadoras da Rede Solidária São Léo, que faz parte do programa de Extensão da Unisinos, Isamara Allegretti: “Nós não estamos fazendo turismo social. Estamos produzindo algo, a gente dá um retorno para a comunidade”.
A segunda edição
Ainda sobre a segunda edição, a professora afirma que é uma publicação especial, sobre economia solidária, que reuniu oito comunidades diferentes. “Esse material vai ser utilizado por eles para negociações e intervenções junto ao poder público”.
Conforme o editorial, “os alunos da disciplina de Jornalismo Comunitário e Cidadão da Unisinos entrevistaram as lideranças de várias ocupações que têm projetos ou estão desenvolvendo programas de economia solidária, pois além da luta pela moradia, buscam gerar trabalho e renda para os moradores. A visita foi na comunidade Steigleder onde estava ocorrendo uma reunião da Rede Solidária e do Movimento Nacional de Luta Pela Moradia (MNLM). Neste encontro, além de tratarem da distribuição de dezenas de cestas básicas, foi organizada a Jornada Nacional de Luta por Moradia Digna e Contra o Despejo. Os jornalistas em formação realizaram a cobertura dos dois eventos. (…) É importante salientar o trabalho desempenhado pelos alunos da disciplina Profissão Jornalista neste Enfoque. Convidados a participar da saída de campo, acompanharam a cobertura das pautas estabelecidas, dialogaram com os moradores presentes e, posteriormente, cobriram in loco o ato do MNLM realizado na capital”.
Dessa maneira, segundo a professora Sabrina, “a comunidade se vê de uma forma diferente. Ela não é só a pauta policial, a pauta da marginalidade. Ela se vê sendo fonte das matérias em um jornal colorido, um jornal que tem assuntos que interessam à comunidade. A Unisinos visa capacitar seus alunos a estarem aptos a fazer um jornalismo comprometido com a democracia, com o social, com a verdade dos fatos. Não é um trabalho fácil, exige muito esforço, horas de trabalho e comprometimento de ambas as partes (professor e alunos). Que futuros jornalistas serão esses que vão produzir matérias? Nós vamos manter o apagamento e a invisibilidade dessas comunidades? Queremos que se abra o olhar, que as fontes não sejam só os oficiais, de cargos públicos, empresariais, mas também as lideranças comunitárias, os representantes das ONGs. Que essas pessoas também tenham a sua versão publicada no jornal”.
A visão de quem produz
Além da professora, o Mescla entrevistou dois repórteres. Karolina Bley, do oitavo semestre, compartilhou um pouco da experiência de fazer parte da realização do jornal. Ela foi responsável pela matéria “Projeto garante comida no prato de moradores”, sobre a cozinha comunitária na Ocupação Mauá. “O Enfoque possibilita que nós, alunos, conheçamos uma realidade diferente e que muitas vezes é esquecida pela grande mídia. Permite que a gente se sensibilize e traga histórias de pessoas comuns, mas com grande valor-notícia. As irmãs líderes da Ocupação Mauá, Vanusa e Shauane, são duas mulheres extremamente fortes e batalhadoras. Além disso, elas foram muito carinhosas e nos receberam muito bem, nos acolheram e transformaram esse Enfoque em um trabalho muito especial. Eu e meus colegas aprendemos muito com elas, pois as duas são um exemplo de resiliência e de solidariedade”.

Quando perguntada sobre os desafios e “vantagens” na produção, ela diz que “a melhor parte de produzir o Enfoque com certeza é essa imersão na realidade das fontes. Nós vamos presencialmente ver de perto como eles vivem, o que dá muito mais conteúdo para a reportagem do que uma conversa por mensagens. Conhecer pessoas novas e histórias novas é sempre muito bom pra um jornalista. O desafio está sempre na escolha da pauta e em como não tornar o assunto mais do mesmo e sempre respeitando as nossas fontes, que já vivem em situação de vulnerabilidade, então nosso papel é entender eles e não julgar ou descrevê-los de maneira incorreta e pejorativa”.
O aluno Arthur Schneider, que está no seu último semestre, também foi um dos componentes do jornal neste semestre. Para ele, essa é uma oportunidade de aprender a escrever um novo formato de texto. “Estamos acostumados a produzir muitos textos informativos, principalmente nos estágios. Nessa cadeira, a escrita se parece mais com um conto, tu tem que detalhar o que tu está vendo… Já para a comunidade, é uma possibilidade para eles contarem os desafios que enfrentam, as histórias das pessoas que estão ali”.
Ele realizou a matéria sobre um venezuelano chamado Jesus, que sonha em trazer a mãe para o Brasil. “Tu fica chocado com como essas pessoas são esforçadas, elas batalharam muito para estar ali onde estão hoje. Na profissão, não é sempre que tu vai ter contato com essas questões, e poder mostrar a realidade dessas pessoas, para mim, foi bem legal. Eu me senti bem. Dar visibilidade, detalhar, conseguir pegar o máximo de informação para fazer uma boa matéria”.

O jornalismo comunitário e cidadão além da Universidade
Professora Sabrina ainda dá um parâmetro geral sobre a área do jornalismo que é tão importante, mas que muitas vezes não tem espaço nos veículos de comunicação tradicionais. “Eu acho que não é algo que não tenha continuação. Eu vejo que temos, sim, um jornalismo comunitário e cidadão forte. Hoje, temos cada vez mais organizações não-governamentais que têm centrado grande parte das suas narrativas com a capacitação de jornalistas, profissionais de relações públicas, profissionais que vão ajudar a construir essas narrativas de todo o movimento ambiental, de associação de moradores etc., para que eles possam se posicionar tanto através de veículos tradicionais, quanto através das redes sociais. Esse último é um espaço que eu vejo crescendo amplamente. A gente tem visto todo um movimento ciberativista. Por exemplo, todas essas manifestações contra o marco temporal estão se dando na disputa de narrativa através das redes sociais. E não dá para dizer que isso não é um jornalismo comunitário e cidadão”.
Confira a primeira e a segunda edições completas agora mesmo!
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]]>A primeira edição de 2021 do jornal teve o trabalho centrado na Ocupação Renascer, comunidade de 150 pessoas, localizada no bairro Vicentina, em São Leopoldo (RS). Uma das novidades deste ano foi a realização de uma Oficina de Fotografia para os jovens da Renascer, originada de uma parceria entre a Secretaria Municipal de Cultura e Relações Internacionais de São Leopoldo (Secult) e a Unisinos.
A oficina ocorreu no mês de setembro durante a saída de campo feita pelos alunos e professoras para a produção de conteúdos jornalísticos. O objetivo, segundo Beatriz, “Foi levar a cultura e a fotografia como lugar de expressão para aquelas crianças, adolescentes, jovens, que vivem naquela comunidade”. O material que se originou da atividade deu vida ao Enfoquinho, um encarte dentro do jornal Enfoque São Leopoldo, criado para retratar a maneira como as crianças enxergam o lugar onde vivem.

A Oficina foi composta por dois momentos: o primeiro, no qual foi trabalhado noções básicas de linguagem fotográfica, e o segundo, quando os 10 integrantes, de 3 a 14 anos, receberam câmeras digitais (Panasonic Lumix) para registrarem seus olhares sobre o ambiente com o qual interagem. “A fotografia vai muito além de tu ter uma câmera na mão e saber a técnica, muito maior do que isso é você entender o para quê: o que é que eu quero fazer? Para quê que eu quero fotografar?” Diz Beatriz.

Para a professora, a maneira como as crianças correram para seus afetos no momento em que pegaram as câmeras, expõe o entendimento delas sobre a fotografia como a criação de uma memória. “Que memórias foram essas que eles escolheram produzir? Justamente a memória dos seus entes queridos”, algo que, de acordo com a professora, reflete, a sua forma, a luta diária daquela comunidade pelo lar através da visão dos jovens, por meio de suas interpretações sobre o que é, para eles, o lar.
Essa repórter que vos fala foi uma das fotojornalistas que trabalharam nesta edição do Enfoque e, consequentemente, interagiu com os moradores da comunidade durante a visita à Ocupação. Assim como meus colegas, só tenho boas memórias da experiência, como constata Adriana Franco, aluna do 4º semestre do curso de Fotografia: “Fomos muito bem recebidos e em pouco tempo me senti muito à vontade para conversar com todos.”

“Quando se chega lá, muitos de nós, olhamos para o saneamento básico, para as dificuldades, mas eles [as crianças e adolescentes] não. Eles têm uma visão completamente diferente. É possível aprender a forma com que as crianças enxergam o mundo, a forma como eles enxergam a comunidade e como eles vivem”, aponta Maria Carolina Vargas de Souza, estudante do 2º semestre de Jornalismo, outra das fotojornalistas dessa edição do jornal. E de repente, estudantes da Escola da Indústria Criativa e crianças da comunidade se uniram no mesmo desafio, mas com diferentes olhares sobre aquele espaço.
Para o olhar da professora Beatriz, Jamile de Oliveira, uma das participantes da oficina, tirou a foto de sua avó melhor que qualquer um dos fotojornalistas. “Ela voou com a câmera e foi fotografar quem? Seus afetos! Sua avó, sua tia, e mostrou as fotos para elas quando prontas. E depois entrega a câmera para que tirem uma foto dela! Eu fiquei muito feliz com isso”, relembra Beatriz.
Abaixo você confere o Making Off do que foi descrito pela professora, mas o produto final apenas no Enfoquinho:



“O Enfoque trouxe uma pauta que mostra e denuncia a realidade daquela comunidade e o Enfoquinho vem para contrapor isso”. reflete Gabriele Soares, fotógrafa do Enfoque do 4º semestre do curso de Jornalismo . Essa ideia de trabalhar o jornalismo como algo que também diz sobre a beleza dos afetos, para além da denúncia social, surpreendeu a todos.
Durante a Oficina de Fotografia na Ocupação Renascer, pode se dizer que houve um terceiro momento, composto pela interação dos alunos de Fotojornalismo com os oficineiros, algo que não foi idealizado, mas que impactou muitos todos que participaram dele. “Aquilo aconteceu de uma forma muito intuitiva e isso é muito lindo, porque essa é a vida real! É dessas trocas que a vida real é feita, que os aprendizados são feitos”, conta Beatriz.
A participação das crianças na Oficina fez com que elas ficassem mais curiosas sobre aquela arte que estavam aprendendo. Nos fizeram várias perguntas e, no final, os estudantes de fotojornalismo viraram professores, porque era assim que elas nos enxergavam. As crianças e adolescentes, nunca tendo visto uma câmera como as DSLR’s que levamos, naturalmente quiseram experimentar com nossos equipamentos, entrando, outra vez, em contato com algo novo, uma nova possibilidade.
“Teve um menininho, o Dudu [Lucas Eduardo], ele falou que queria ser jornalista quando crescesse, então a gente falou para ele estudar, ir na escola e que, depois, ele iria conseguir estar na Unisinos e eu acho isso muito importante”, revive Maria Carolina, que é complementada por sua colega da disciplina de fotojornalismo Dandara Toniolo, estudante do 7º semestre de Relações Públicas: “No início, quando eu cheguei lá, ele estava falando de ser jogador de futebol, então, a gente conseguiu colocar mais uma ideia na cabeça, trouxe para perto uma coisa que ele, talvez, nunca tivesse pensado”.

O Dudu, de oito anos, também teve a oportunidade de se colocar no papel de ensinar. Quando chegou a hora de outras crianças mexerem nas “câmeras dos profes”, encontravam alguma dificuldade, ele ia até elas e mostrava como fazer, demonstrando que realmente tirou algo daquele sábado de primeiras vezes. “O Enfoquinho vai ser um lugar para o trabalho daquelas crianças não ficar perdido”, conclui Gabriele.
A primeira edição do jornal Enfoque na Ocupação Renascer não é única somente pelo ambiente que incorpora como cenário, mas, também, pela voz que dá ao futuro daquela comunidade. “Eu acho que, na verdade, o Enfoquinho é uma grande oportunidade de conhecer a Renascer sem aquele olhar crítico. Tu vai realmente conhecer através das fotos que os jovens tiraram, ver através das lentes deles”, convida Dandara.
Você pode ler a versão digital do Enfoque acessando este link.

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