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Arquivos Direitos Humanos - Portal da Indústria Criativa https://mescla.cc/tag/direitos-humanos/ Informação, inovação, tendências e eventos. O Mescla reúne tudo que você precisa saber sobre a Indústria Criativa. Tue, 17 Mar 2020 21:03:29 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 Um debate sobre a Mina Guaíba https://mescla.cc/2020/03/17/um-debate-sobre-a-mina-guaiba/ https://mescla.cc/2020/03/17/um-debate-sobre-a-mina-guaiba/#respond Tue, 17 Mar 2020 21:03:27 +0000 http://mescla.cc/?p=13053 Em 7 de março, ocorreu mais uma edição do Dia dos Dados Abertos, na Unisinos Porto Alegre, um evento internacional que mobiliza comunidades pelo mundo todo. As jornalistas Taís Seibt e Marília Gehrke, organizadoras do encontro local, pautaram a discussão sobre o projeto da empresa Copelmi, que quer construir, nas cercanias das cidades de Charqueadas […]

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Em 7 de março, ocorreu mais uma edição do Dia dos Dados Abertos, na Unisinos Porto Alegre, um evento internacional que mobiliza comunidades pelo mundo todo. As jornalistas Taís Seibt e Marília Gehrke, organizadoras do encontro local, pautaram a discussão sobre o projeto da empresa Copelmi, que quer construir, nas cercanias das cidades de Charqueadas e Eldorado do Sul, a Mina Guaíba, para extração de carvão mineral. A ideia do assunto está dentro da linha de dados ambientais proposta pela Open Knowledge, órgão responsável pelo evento no mundo todo. 

A construção da Mina Guaíba tem causado preocupação na comunidade gaúcha pelos possíveis impactos ambientais que o empreendimento pode causar, como o rebaixamento do lençol freático e inundações do Rio Jacuí. O projeto está em fase de licenciamento junto à Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler (Fepam). A Copelmi, que trabalha neste ramo desde 1883, concentra mais de 80% do carvão de uso industrial do país. A mina, que será a céu aberto, poderá ocupar uma área de 4 mil hectares.

O encontro contou com a participação do geólogo Rualdo Menegat, o engenheiro ambiental Iporã Brito Possantti e da doutora em Serviço Social Marilene Maia. Taís, que é professora do curso de Jornalismo da Unisinos, explicou a importância de se discutir o assunto: “Não são apenas os moradores vizinhos da obra que vão ser impactados. Como o meio ambiente é único, toda a região metropolitana tem um potencial de impacto muito grande”.

Cada profissional fez um painel sobre os diferentes aspectos do projeto da Copelmi. Rualdo dedicou-se aos impactos locais da construção da mina, que podem afetar o Rio Jacuí e o Parque Estadual do Delta do Jacuí. “Nós não estamos olhando para um evento que começa amanhã e logo termina”, enfatizou o pesquisador. Se o projeto for aprovado, a mina irá funcionar por 23 anos, gerando, segundo a Copelmi, 1.154 empregos diretos e 3.361 empregos indiretos. Apesar dos números, Marilene é reticente. “Não sabemos quais serão as condições de emprego desses trabalhadores. Além disso, parte da população poderia ainda estar fora do debate sobre a Mina Guaíba”, comentou. 

Os palestrantes trouxeram muitos dados sobre o projeto. Marilene apontou que a exploração de carvão mineral na região poderia comprometer a produção de arroz e qualquer outro cultivo agrícola. Além disso, ela calcula que cada tonelada de carvão explorada resultará em um custo de 9,5 dólares ao sistema de saúde. Já Rualdo reforçou o fato de que a mina será construída em uma região imprópria e poderá gerar uma migração populacional, principalmente, de indígenas e agricultores. A extração de carvão mineral poderá afetar e remover a flora e fauna da região. Confira os materiais dos palestrantes.

O Dia dos Dados Abertos reuniu pessoas de diferentes idades, mas com um mesmo objetivo: entender melhor o cenário da Mina Guaíba. Isadora Ribeiro, 16 anos, se preocupa com a iniciativa. Começou a estudar o projeto da Copelmi para um trabalho da disciplina de Sociologia, do Colégio Anchieta. O resultado foi levado para o Salão de Iniciação Científica da UFRGS. Isadora é contrária à instalação da mina e defende a união da população para barrar o empreendimento. “A única coisa que pode provocar a mudança é uma massa se unindo contra isso”, disse a estudante.

Junto com Isadora, participaram Ingeborg Eichwald, Allan Ervin Krahn e Marie Ann Wangen Krahn, integrantes do Serviço de Paz (Serpaz), que trabalha com direitos humanos e resolução de conflitos. “Essa é nossa casa, não podemos destruí-la pela vaidade e pela ganância. Temos que lutar contra a mina e a favor da vida”, defendeu Allan. Para Marie Ann, a vida tem a ver com o cuidado de todo o planeta.    

A estudante Isadora acredita que é preciso que as pessoas se unam contra o projeto Minas Guaíba. (Foto: Guilherme Machado)
Allan, junto com Marie Ann e Ingeborg: “Temos que lutar contra a mina e a favor da vida”. (Foto: Guilherme Machado)

Confira mais imagens do encontro:

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Mil Tons de masculinidades https://mescla.cc/2019/08/02/mil-tons-de-masculinidades/ https://mescla.cc/2019/08/02/mil-tons-de-masculinidades/#respond Fri, 02 Aug 2019 20:17:15 +0000 http://mescla.cc/?p=10768 Sobre os MilTons  O coletivo MilTons é formado por 12 homens negros que representam diversos tons de negritude, com suas sexualidades, religiões e masculinidades. A ideia foi do jornalista Airan Albino há quase dois anos, e o objetivo é debater temas como racismo, paternidade, religião, agressividade e relacionamentos. “Idealizei o projeto por conta de questões […]

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Sobre os MilTons 

O coletivo MilTons é formado por 12 homens negros que representam diversos tons de negritude, com suas sexualidades, religiões e masculinidades. A ideia foi do jornalista Airan Albino há quase dois anos, e o objetivo é debater temas como racismo, paternidade, religião, agressividade e relacionamentos. “Idealizei o projeto por conta de questões pessoais. Descobri o que era masculinidade vendo um filme e fui atrás de estudos sobre o tema. Achei massa e quis começar um projeto em Porto Alegre sobre isso”, diz. O filme que ele se refere é Moonlight, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2017, formado por um elenco todo negro e revelador de uma temática que envolve diversidade sexual e racismo.

Airan reuniu amigos, conhecidos e parentes e deu início ao projeto cujo único requisito para o ingresso era que os integrantes se identificassem como homens negros. Desde então, o grupo se reúne mensalmente no Ponto de Cultura Africanamente e no Odomodê para compartilhar pensamentos e experiências. “São espaços geridos por pessoas negras. Preferimos apoiar espaços como esses do que fazer nossas reuniões em um local onde não-negros estão se beneficiando”, explica Airan. 

Ubuntu

Ubuntu = Eu sou porque nós somos. (Foto: Guilherme Machado)

O Mescla acompanhou uma roda de conversa mediada pelo psicólogo Cainã Nascimento, além de outros membros do MilTons. O papo não tinha um tema específico. A ideia era deixar que a própria roda pautasse o encontro. Assim como nas reuniões mensais do coletivo, cada pessoa presente na roda fez uma apresentação sucinta de si: nome, idade e o motivo que o trouxe até lá.

Meu nome é Pedro. Já ouvi falar do Miltons há um bom tempo. Minha irmã e uma galera sempre me falavam: “Você tem que colar neles, e eu nunca tive a oportunidade de colar no grupo”. Aí surgiu a oportunidade eu eu disse: “Vou lá, aprender bastante, ouvir bastante e agregar de alguma forma”. 

Gabriel Muniz, 34 anos, é baiano e filho da contadora de histórias Cris Muniz. Eles chegaram ao evento por acaso. Queria aproveitar as atividades da Virada Sustentável (evento que abrigou a roda) e trazer a mãe para conhecer um pouquinho de Porto Alegre. “É interessante continuar tendo esse debate, porque realmente é algo muito necessário. Ainda mais num contexto em que os homens negros estão sendo exterminados”, diz. “Aqui, no Rio Grande do Sul, eu percebo que ainda existem algumas questões bem delicadas entre mulheres negras e homens negros que a gente precisa compreender de uma maneira geral e de uma maneira específica”, completa. 

Ao longo do debate, temas como educação e representatividade nas escolas foram surgindo. Em um ambiente de confraternização, mulheres negras pautavam os homens na busca de respostas coletivas. A fala de uma das jovens, que não entendia a dificuldade do irmão de 13 anos para chorar, representava o que por muitos anos foi imposto ao homem negro: ser forte. Mas sim, o homem negro também chora! Aos poucos, a roda foi desconstruindo a persona daquele que resiste a tudo e a todos. 

Mais do que a força, é a fragilidade da condição de homem negro que aparece nas estatísticas. Segundo o Atlas da Violência de 2018, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) com dados de 2016, os “não negros” tiveram taxa de 16 mortes a cada 100 mil pessoas, enquanto a taxa da população negra foi de 40 óbitos a cada 100 mil pessoas. 

O Atlas também revela que mais de meio milhão de vidas foram perdidas devido à violência em apenas 10 anos, a maior parte jovens de 15 a 29 anos, negros e habitantes da Região Norte e Nordeste do Brasil. Além disso, precisamos ressaltar que 55% da população brasileira é negra, segundo o IBGE.

Durante a roda de conversa, cada fala era recebida sem julgamento; todos eram reconhecidos e humanizados ao compartilhar suas visões. A prática do ubuntu, termo que veio dos países sul-africanos, era constante. Ubuntu pode significar “humanidade para com os outros” ou “eu sou porque nós somos” e é uma expressão chave dos encontros mensais do coletivo.   

O evento que ocorreu na Virada Sustentável foi apenas uma amostra dos constantes debates, com tema específicos, que ocorrem a cada mês reunindo os 12 integrantes. A delimitação dos temas serve para que os organizadores leiam bibliografias específicas, ou ainda se preparar emocionalmente para assuntos que possam tocar em questões íntimas.

Quem são eles?

Cainã é psicólogo e amante da sua profissão. (Foto: Guilherme Machado)

Cainã Nascimento, 27 anos, psicólogo, é o mediador do grupo e se vê como uma ponte nas rodas de conversa. “Meu papel dentro do coletivo é de facilitação de rodas de partilha e conversas. Pela minha formação enquanto psicólogo, eu tenho um pouco mais de bagagem para ajudar com que, nos momentos de troca e de conversa, a gente possa fazer isso sem se machucar”, explica. 

Dono de uma fala serena e cheia de alteridade, Cainã também é reconhecido pelo abraço confortante que dá a quem chega. “Eu sou psicólogo clínico, trabalho com clínica privada, mas também atuo em processos de grupo e meditação. Sou uma pessoa muito afortunada por encontrar um trabalho que me deixa gratificado e que é coerente com os meus valores”, conta.

Para Cainã, o mito da democracia racial faz com que pessoas negras não enxerguem o racismo sutil e até explícito que acontece ao seu redor. O grupo é uma maneira de desvelar o racismo estrutural, honrando aqueles que já foram e criando um lugar melhor para os que estão por vir. “O coletivo dá uma oportunidade para que homens falem o que pensam e o que sentem em um espaço seguro, que os desafia sem os torturar por serem quem são”, diz. 

Bruno apresenta o podcast “Coisa de Preto” da Rádio Gaúcha. (Foto: Guilherme Machado)

Bruno Teixeira, 27 anos, jornalista, mora no bairro Menino Deus, mas cresceu no Belém Velho, em Porto Alegre. Sua construção pessoal está muito relacionada a esse bairro e as pessoas que moravam lá. Hoje, ele sente a importância de levar os debates sobre masculinidades para as periferias, para que essas falas não fiquem fechadas a grupos que já vem da academia. 

Bruno foi um dos fundadores do grupo, e conta como surgiu o coletivo: “No início, tivemos a ideia de fazer um ensaio fotográfico sobre questões de masculinidade, e o Airan resolveu chamar o pessoal. Na época, teve um clipe do Kendrick Lamar da música “Element”, que se inspirava em fotos de um fotógrafo negro chamado Gordon Parks. A ideia do ensaio veio a partir dessas imagens”, lembra. 

“Durante as primeiras reuniões para o ensaio fotográfico, começamos a discutir alguns temas, e foi aí que o grupo começou a tomar forma”, diz Bruno. “A gente tenta quebrar muitos estereótipos do que é ser um homem negro, de dizer para uma criança que ela vai ter que ser forte e aguentar tudo, que o homem negro consegue fazer tudo na cama. Aquilo que é ensinado e dito ao homem negro faz com que a gente tenha alguns comportamentos durante a vida que vão nos trazer sofrimento e levar esse sofrimento a outros”, comenta. 

Atualmente morando em São Paulo, Airan é um dos fundadores do coletivo. (Foto: Guilherme Machado)

Airan é jornalista e se vê como o líder do coletivo por assumir a responsabilidade de organização dentro do MilTons. Para ele, a masculinidade negra tem que ser colocada no plural. “Há pontos em comum na forma como o corpo masculino negro é visto. Suspeito, perigoso, agressivo, hiperssexualizado também. Mas esses estereótipos não podem dizer que o negro é apenas isso. Então, o debate sobre masculinidades negras procura levar outras possibilidades de ver um homem negro”, reflete.

Airan diz que o coletivo não se coloca como entidade que tem uma missão, valores ou objetivos. “Nós descobrimos que conversar sobre as nossas questões em grupo nos faz bem, é terapêutico. Então, por que não levar essa experiência para outras pessoas? Levar essa terapia de grupo para jovens negros, pais negros, para mais homens negros? Ou, também, para pessoas que têm homens negros em seus círculos. O nosso papel é compartilhar conversando”, avalia.

Airan busca agregar diversas vozes no coletivo, sejam elas jovens, velhas, héteros, gays, trans, magras, gordas ou acadêmicas. “É importante falar de subjetividade para pessoas que são vistas, julgadas como corpos apenas. Existem muitos estudos sobre o negro não ser visto como humano, e como isso o coloca em um nível inferior perante o padrão (branco)”, explica.

Tudo começou com “Moonlight”

https://www.youtube.com/watch?v=I9Si4dQw9-E

Lançado em 23 de fevereiro de 2017, Moonlight: sob a luz do luar acompanha a trajetória de Chiron, um jovem negro dos subúrbios de Miami, nos Estados Unidos, que descobre sua identidade e sexualidade ao longo da vida, enfrentando preconceitos, da infância à vida adulta. O filme foi escrito e dirigido por Barry Jenkins, e levou três estatuetas do Oscar: Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali (primeiro ator muçulmano a ganhar um prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas norte-americana). Uma história que fala de amor, masculinidade e racismo, trazendo um elenco só de mulheres e homens negros.

Para Airan, esse foi o gatilho necessário para a criação do coletivo Miltons. “Eu amei o filme, mas não soube expressar o que estava sentindo. Só comecei a perceber quando conversei com gurias sobre o longa, e elas me disseram na hora que se tratava de masculinidades”, diz ele na descrição da página do coletivo. No início, em julho de 2017, veio a pergunta: o que é ser homem? 

Em algum momento, você tem que decidir quem quer ser. Não pode deixar que ninguém decida por você. (Moonlight: sob a luz do luar – 2016)

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Ditadura na tela: o ex-delegado do DOPs que hoje é pastor https://mescla.cc/2019/05/30/ex-delegado-do-dops-conta-sobre-ditadura/ https://mescla.cc/2019/05/30/ex-delegado-do-dops-conta-sobre-ditadura/#respond Thu, 30 May 2019 18:41:07 +0000 http://mescla.cc/?p=9215 É inusitado que um documentário sobre a ditadura militar no Brasil seja descrito como uma história de amor. Ainda assim, é dessa forma que a documentarista, pesquisadora e produtora audiovisual Beth Formaggini descreve o próprio trabalho. O filme conta a história de Cláudio Guerra – ex-delegado do Departamento da Ordem Política e Social (Dops) do […]

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É inusitado que um documentário sobre a ditadura militar no Brasil seja descrito como uma história de amor. Ainda assim, é dessa forma que a documentarista, pesquisadora e produtora audiovisual Beth Formaggini descreve o próprio trabalho. O filme conta a história de Cláudio Guerra – ex-delegado do Departamento da Ordem Política e Social (Dops) do Espírito Santo e ex-agente do Serviço Nacional de Informações (SNI).

Conhecido como Pastor Cláudio, nome que deu origem ao título do documentário, o agora bispo evangélico descreve com detalhes o trabalho que exerceu durante os anos de ditadura, em especial na “Operação Radar” (1973-1976). Entre as funções como delegado do Dops,  estava a de descartar corpos de torturados e desaparecidos políticos. Um dos métodos que o atual pastor contou ter utilizado foi a incineração.

Os detalhes vieram à tona em uma sala escura, lotada por quatro câmeras e um projetor. A entrevista para o documentário foi filmada e dirigida por Beth, porém conduzida por um pesquisador com experiência em tratamentos relacionados às vítimas de violência, sejam elas físicas ou psicológicas, especialista na escuta de pessoas, o psicólogo Eduardo Passos. Durante quatro horas, Cláudio Guerra relembrou os tempos do regime militar, revelou o paradeiro de vítimas da ditadura e disse ter encarado alguns dos fantasmas que o acompanham há mais de 40 anos.

Trailer do documentário “Pastor Cláudio” / Vídeo: Youtube

Mas afinal: por que uma história de amor?

A diretora do documentário Beth Formaggini, sem saber, teve o primeiro contato com a história do ex-delegado Guerra em 2007, quando produziu seu primeiro longa sobre a ditadura: “Memória para Uso Diário”. Foi com esse trabalho que ela conheceu Ivanilda da Silva Veloso, uma das mulheres que tiveram os seus maridos assassinados pelo regime militar.

Ivanilda era esposa de Itair José Veloso, com quem teve quatro filhos. No documentário,  Beth acompanha a viúva e sua incessante busca atrás de pistas que indicassem o paradeiro do marido desaparecido durante o AI 5. No decorrer dos 94 minutos de filme, surge uma possível explicação para o ocorrido: Itair teria sido preso pela Operação Radar.

A história de Ivanilda, mesmo após o documentário, não saiu dos pensamentos de Beth. Cinco anos após se conhecerem, a produtora encontrou uma segunda pista. O livro “Memórias de Uma Guerra Suja”, lançado em 2012 e escrito por Rogério Medeiros e Marcelo Netto, trazia algumas declarações de um ex-delegado do Dops que participara da Operação Radar: Cláudio Guerra.

“Eu procurei a viúva e falei para ela: olha, Ivanilda, eu li um livro que tem aqui um pastor que assassinou um membro do partido comunista que morreu na mesma operação que o teu marido. Aí eu falei para ela: vou procurar ele para ver se sabe alguma notícia do Itair ” – conta Beth.  

Pastor Cláudio observa imagem do partido comunista brasileiro
Pastor Cláudio durante a gravação do documentário em 2015 / Foto: Reprodução

A entrevista que originou o documentário foi feita após Beth captar recursos junto a editais e outras parcerias. A gravação entre o ex-delegado e o psicólogo foi feita em único dia, ao longo de quatro horas, em 2015. Nessa entrevista, o então agente foi questionado sobre o paradeiro de 19 vítimas – uma delas sendo Itair. Cláudio Guerra apresentou uma história distinta daquela tida, até então, como a oficial.

O material produzido em 2015 foi utilizado para fazer dois filmes. Um deles, um curta-metragem lançado no mesmo ano, chamado “Uma Família Ilustre”, revela a história da Operação Radar. O segundo filme, lançado em 2019, é o longa-metragem “Pastor Cláudio”.

A história da vítima 155  

Itair Velozo, uma das vítimas da ditadura

Sindicalista e integrante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Itair José Veloso nasceu em 1930 em Faria Lemos (MG). Tinha 45 anos quando desapareceu. Informações oficiais apontam que ele foi levado por agentes do DOI-CODI/SP, preso por praticar crimes de atividades subversivas em nome do PCB.

O nome de Itair consta nos registros da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Ele é o número 155 de uma lista com 362 vítimas. O texto da Comissão  traz o depoimento do sargento Marival Chaves em uma entrevista dada à revista Veja em 1992. Segundo o sargento, Itair teria morrido devido a tortura (choque térmico). O corpo, junto de outros, foi jogado da ponte do Rio Novo, em Avaré (SP).

A versão do agora pastor Cláudio foi outra. Na época em que era delegado do Dops e agente do SNI, Guerra foi um dos militares que participaram da Operação Radar – o movimento militar responsável pelo sequestro de Itair e outras 12 vítimas, todas do partido comunista brasileiro. Eles teriam sido torturados, mortos e levados até Guerra. O ex-delegado contou que incinerou as vítimas na Usina de Açúcar de Cambaíba, em Campos dos Goytacazes (RJ), cerca de 280km da capital do estado carioca. Apesar de ter tido a responsabilidade de dar destino aos corpos, Cláudio Guerra matou pelo menos uma das vítimas – Nestor Vera. Segundo o ex-delegado, Nestor encontrava-se extremamente ferido após uma sessão de tortura. O ex-delegado caracterizou o disparo contra a vítima como um “gesto de misericórdia”.

São duas versões para os mesmos assassinatos, mas as documentações oficiais, disponíveis no site da Comissão e publicados pelo Diário Oficial da União (DOU), não levam em conta as revelações do ex-agente do SNI, conhecidas desde 2012, a partir da investigação disponível no livro “Memórias de Uma Guerra Suja”. Nem Itair nem Nestor foram, oficialmente, queimado e morto pelo atual pastor.

Cláudio observa a viúva de Itair
Ivanilda da Silva Veloso, a viúva de Itair / Foto: Reprodução

A historiadora e o algoz

Visitar este período tão difícil da história brasileira não foi tarefa fácil para a documentarista. O trabalho de Beth teve duração de 1 ano e 4 horas. Um ano de preparação, quatro horas de entrevista. Cláudio Guerra, segundo Beth, aceitou prontamente ser entrevistado já no primeiro convite. A documentarista não se encontrou com o pastor antes ou depois do dia da gravação. O único contato presencial foi durante a gravação da entrevista, como diretora de cena:  “Estar trancada dentro de um estúdio com uma pessoa que revela ter cometido violações tão graves é uma experiência muito dolorosa, muito difícil”, revelou a produtora.

Apesar das dificuldades emocionais de voltar ao passado, Beth, que é historiadora de formação,  entende ser fundamental revisitarmos o regime militar de nosso país. Para ela, conhecer a história é uma forma de evitar que graves violações, como a tortura, se repitam no presente.

Pastor Cláudio sentado. Ao fundo, imagens de vítimas da ditadura.
Ex-delegado do Dops, Cláudio Guerra explica o assassinato de Nestor Vera / Foto: Reprodução

Beth vê necessidade de debater o período de 21 anos (1964 – 1985) também em função dos movimentos que pedem pelo retorno do regime militar. “Acredito que grande parte das pessoas que pedem a volta da ditadura, é pura falta de informação. Esse filme vem para ajudar as pessoas a se informarem e a debater a história. E isso não é crime”, argumentou.

Um documentário sobre ditadura: da teoria à prática

O “Pastor Cláudio” foi financeiramente produzido pouco a pouco. Isso explica o gap entre o lançamento do curta e a estreia do longa. Foram quatro anos de trabalho para finalizar a obra. Tudo começou quando a historiadora ganhou dois editais da RioFilme. O dinheiro desses editais somado a parcerias comerciais mais finanças da 4Ventos (produtora de Beth) bancou a história do bispo evangélico.

Equipamentos utilizados por Beth / Ilustração: Acrides Júnior

Lá no site da 4Ventos, você pode assistir de graça dois dos documentários sobre a ditadura militar: “Memória para Uso Diário” e “Uma Família Ilustre”.

Fontes de inspiração

De todo o material pesquisado, Beth destacou alguns livros e documentários que a auxiliaram durante essa jornada. No card abaixo, destacamos alguns deles:

Foto 1 – Livro “A banalidade do Mal”;
Foto 2 – Todos os documentos e vídeos disponibilizados no site da Comissão da Verdade;
Foto 3 – Livro “Como filmar o inimigo”;
Foto 4 – Documentários como “A Imagem que Falta” e “Duch, o mestre das forjas do inferno”;

Ilustração: Natan Cauduro

Essa aqui é a equipe responsável pela produção do documentário:

Equipe que trabalhou na produção do documentário / Ilustração: Natan Cauduro

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Trabalho produzido na Beta Redação recebe prêmio de Direitos Humanos em Jornalismo https://mescla.cc/2018/12/11/trabalho-produzido-na-beta-redacao-recebe-premio-de-direitos-humanos-em-jornalismo/ https://mescla.cc/2018/12/11/trabalho-produzido-na-beta-redacao-recebe-premio-de-direitos-humanos-em-jornalismo/#respond Tue, 11 Dec 2018 17:30:32 +0000 http://mescla.cc/?p=8982 As histórias de Bruno, Calvin, Diego, Ione e Manuella, contadas através dos olhares das repórteres da Beta Redação da Unisinos, foram reconhecidas e premiadas com o terceiro lugar na 35ª edição do Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo. As estudantes que, ao iniciaram o trabalho, não tinham a intenção de inscrevê-lo na premiação, foram surpreendidas.  O trabalho “Enfim […]

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As histórias de Bruno, Calvin, Diego, Ione e Manuella, contadas através dos olhares das repórteres da Beta Redação da Unisinos, foram reconhecidas e premiadas com o terceiro lugar na 35ª edição do Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo. As estudantes que, ao iniciaram o trabalho, não tinham a intenção de inscrevê-lo na premiação, foram surpreendidas. 

O trabalho “Enfim somos quem sempre fomos” foi proposto às alunas pela professora Cybeli Moraes e pelo professor Felipe Boff durante a disciplina de Laboratório de Jornalismo na Editoria Geral. Com a temática em mãos, as estudantes Jéssica Martins, Juliana Silveira, Karina Verona, Liege Barcelos, Manoela Petry e Milene Magnus se organizaram e dividiram as tarefas. 

A estratégia do grupo foi apresentar os personagens no exercício de suas profissões e também na sua vida social como qualquer outra pessoa, sem deixar claro que elas são LGBTQ+. Todas as matérias começam falando o lado profissional de cada um para depois entrar na vida pessoal. As narrativas buscam descrever todas as dificuldades que eles passaram até obterem sucesso nas respectivas carreiras. 

“Como editora, posso dizer que as histórias são incríveis. As repórteres fizeram um trabalho maravilhoso de apuração, sensibilidade, empatia, de relato e jornalismo puro. Elas conseguiram captar a autenticidade de cada um em suas histórias. Ficou demais!”, orgulha-se Manoela Petry, 25 anos, jornalista formada pela Unisinos em 2018/01. 

A estudante Milene Magnus, 23 anos, relatou as dificuldades que encontrou durante a produção do trabalho. Nem mesmo os conflitos de agenda a impediram de contar a história de Bruno da Costa, 28, que já atuou como motoboy e hoje trabalha em uma agência de comunicação. “Tive que encontrá-lo no trabalho, viajamos de carro e almoçamos juntos”, lembra a estudante. Locais de difícil acesso e a timidez do entrevistado quase se tornaram um obstáculo. “Foi difícil deixar ele tranquilo e à vontade, mas acho que consegui”, completa. 

O trabalho não foi desenvolvido com o propósito de inscrevê-lo em premiações. A ideia surgiu mais tarde e o grupo concordou. Porém, não tinham grande expectativa, relata Manoela. A jornalista também comenta sobre o reconhecimento. “Estar entre os premiados é demais! É um reconhecimento que não esperávamos, mas que nos me deixa felizes. A Beta é uma disciplina que exige bastante dos alunos e ganhar um prêmio por tanto esforço mostra que estamos no caminho certo como estudantes de Jornalismo e que a faculdade tem nos obrigado a dar o nosso melhor”, destaca Manoela. 

arte: divulgação

A cerimônia de entrega dos prêmios ocorreu nesta segunda-feira (10) no auditório da OAB/RS.  

O Prêmio 

Desde 1984, quando foi instituído pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos, pela Ordem dos Advogados do Brasil e sua seccional no Rio Grande do Sul (OAB/RS), o Prêmio DH de Jornalismo vem estimulando o trabalho dos profissionais da categoria dentro do campo social. 

Em 2018, foram 239 trabalhos inscritos em 10 categorias. Para comemorar a 35ª edição do evento foi criada a “Premiação Especial”, destinada a trabalhos que tenham se destacado pela qualidade sobre a temática “fake news“.

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Seminário de Jornalismo Criminal no Brasil aborda a situação de mulheres grávidas e prisão https://mescla.cc/2017/10/18/seminario-de-jornalismo-criminal-no-brasil-aborda-situacao-de-mulheres-gravidas-e-prisao/ https://mescla.cc/2017/10/18/seminario-de-jornalismo-criminal-no-brasil-aborda-situacao-de-mulheres-gravidas-e-prisao/#respond Wed, 18 Oct 2017 20:29:13 +0000 http://mescla.cc/?p=3674 Mídia, Feminismo e Direitos Humanos serão pautados no Seminário Jornalismo Criminal no Brasil no próximo dia 24 de outubro, a partir das 19h na Faculdade EST, em São Leopoldo. O evento visa debater e ampliar os espaços para tratar de questões pontuais e emergentes no país, como a situação das mulheres grávidas em presídios no […]

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Mídia, Feminismo e Direitos Humanos serão pautados no Seminário Jornalismo Criminal no Brasil no próximo dia 24 de outubro, a partir das 19h na Faculdade EST, em São Leopoldo. O evento visa debater e ampliar os espaços para tratar de questões pontuais e emergentes no país, como a situação das mulheres grávidas em presídios no Brasil.

A motivação para preparar o Seminário surgiu por meio da percepção de Letícia Fagundes, egressa do curso de Jornalismo da Unisinos. A profissional defende que interatividade e o contato humano na profissão ainda são essenciais e, por isso, a discussão não pode permanecer apenas nas esferas virtuais.

A jornalista também defende que é necessário pautar os discursos das minorias, que não têm voz ou acesso às redes sociais, mas quais arbitrariedades de direitos humanos repercutem com facilidade. “O discurso que aborda a menina branca, do colégio particular, que quer ir pra escola de saia. Mas esquece da mulher que deu à luz à um bebê, sozinha, numa cela”, argumenta Letícia.

O evento em questão é o primeiro dos sete Seminários de Jornalismo Criminal que devem ocorrer até o final do ano. A intenção é motivar os profissionais para repensarem possibilidades de pautas, buscando informar sobre índices de desigualdade no país. “Descordo que o público goste de ver sensacionalismo”, declara Letícia. “Ocorre que é mais econômico mandar um jornalista cobrir um tiroteio na esquida da emissora do que mandar uma equipe inteira cobrir como a religião anda dando problema pros índios na Amazônia”, completa.

Além de Letícia, que participa do evento como jornalista, o Seminário conta com a palestra de outros dois profissionais: Dani Rudnicki, advogado e coordenador adjunto do Curso de Mestrado em Diretos Humanos da UniRitter e Janaíta Hartmann, professora da rede pública e ativista feminista do Levante Popular. Eles devem abordar feminismo e direitos humanos de mulheres presas, que enfrentam uma realidade violenta que não é representada nos espaços midiáticos.   

A discussão é complexa, como reforça Dani. “A mulher tem o direito de ficar com o filho, mas a criança tem direito à um ambiente saudável. E então, o que é melhor? E para quem? “ questiona o professor. Na palestra do Seminário, ele deve levantar questões que geram legais em toda comunidade acadêmica, como a paternidade, o ambiente de convívio participação de agentes penitenciários na educação das crianças .

Para Janaíta, é necessário pensar quem são os cidadãos que ocupam os presídios brasileiros. “É o povo pobre, da periferia, que tem os Direitos Humanos não atendidos”, afirma a professora. Dentro desse recorte, o feminismo vem pautado com relação às interações nas redes sociais. “Falar de feminismo tá em alta. Tem debate sobre usar a roupa que quiser, sobre ser respeitada na rua. É muito importante pois abarca todas as mulheres. Porém, como podemos discutir a situação de mulheres que sofrem variadas perdas de direito?”, argumenta a ativista em relação às presidiárias.

A expectativa é que o evento funcione também como um espaço de ampliação de debate e percepção dos profissionais da comunicação. “O jornalista e estudante que se inscrever vai ter que pensar em suas próximas pautas em saber fazer do limão uma limonada”, afirma Letícia.  O  Seminário Jornalismo Criminal no Brasil oferece certificado de participação. Para participar, é necessário inscrição prévia através do email brasileirosempauta@gmail.com. O valor de contribuição é de R$ 10,00 para estudantes e R$ 20,00 para profissionais.

 

Serviço:
O que: Seminário Jornalismo Criminal no Brasil – Mulheres grávidas e prisão – Qual o papel da Mídia, do feminismo e Direitos Humanos?
Quando: 24/10 às 19h

Onde: Faculdade EST – Rua Amadeo Rossi, 467 – São Leopoldo
Investimento: R$ 10,00 (estudantes) e R$ 20,00 (profissionais)
Inscrições: brasileirosempauta@gmail.com

 

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