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]]>Juntos, discutiram a influência dos movimentos que surgem na internet e se tornam uma grande potência de poder, tendo repercussão em setores da sociedade, sendo um deles, a política. Um dos exemplos mais recentes foi a onda de repúdio ao assassinato de George Floyd por um policial, nos Estados Unidos. Um fato que ocorre a milhares de distância da gente, vira parte de nossas vidas, implica em tomada de decisão e ações, como a organização de manifestações e passeatas, por exemplo.
Tratam-se de ciberacontecimentos, eventos muito analisados pelos pesquisadores de comunicação da Unisinos.. Na definição dada pelo professor Ronaldo Henn, são acontecimentos que por si só já são relevantes e midiáticos, e por estarem em uma rede pública ganham compartilhamentos a partir de narrativas próprias, e dependendo da força que adquirem, podem virar pauta para o jornalismo.

Ronaldo, que é pesquisador do CNPQ, relata que desde 2014, ele e o grupo de pesquisa começaram a perceber “um modo de articulação sombria e muito sinistra” em relação às deepfakes e desinformação nas redes, e que mais tarde se desenvolveriam junto aos grupos fechados do whatsapp culminando “na ascensão do pensamento neofascista” que hoje está em vários lugares do mundo, além do Brasil e dos Estados Unidos. Segundo o professor, esta cultura do ódio que culminou na eleição da extrema direita nas eleições de 2018, aqui no Brasil, aparecia com muita clareza nas investigações que faziam no grupo de pesquisa LIC.
Felipe, que pesquisa sobre Linguagem e Práticas Jornalísticas, traz à tona a discussão sobre as subjetividades do jornalismo e das narrativas, e de como cada detalhe importa e faz diferença no momento em que são abordados determinados temas. Trazendo para a atualidade, a subjetividade dos corpos, com o triste fato da execução de George Floyd, que marca o estalo para o jornalismo hegemônico de como é importante pensarmos esses outros corpos, como o corpo negro. Professor da Fabico na UFRGS recupera o fato da Globo News ter feito um painel apenas com jornalistas brancos para discutir o racismo, e que após muita revolta nas redes, a emissora volta atrás e seleciona um programa formado por jornalistas negros para discutir o caso.
O pesquisador também relembra os movimentos de 2013 e analisa: “me parece que tem marcas de 2013, marcas da incompreensão de 2013, que nos impedem de avançar hoje”, Felipe diz no sentido jornalístico, pois lá em 2013 começou um cenário muito importante de reivindicações de direitos, mas que, na visão dele, foi sequestrado pelo status quo e a extrema direita, fazendo chegar ao resultado das eleições de 2018, tornando Jair Bolsonaro presidente.
“A ideia de objetividade jornalística é hoje um dos grandes impeditivos para o estabelecimento de uma imprensa antirracista e também um impeditivo enorme para a ideia de uma imprensa antifascista”, Fabiana Moraes, professora da Universidade Federal de Pernambuco começa sua fala com esses dois apontamentos. Segue seu pensamento tecendo críticas a imprensa brasileira, e diz que o jornalismo de grandes empresas segue tratando os problemas como se fosse do outro e não de si.
Apontar o racismo institucional ainda não é algo fácil, diz, inclusive para a imprensa.. “Nos acostumados a falar sobre o racismo em cadernos especiais, em teses, dissertações e artigos, mas não nos colocamos como atores importantes nessa formatação, por isso acredito que esse reposicionamento é necessário”, Fabiana, que já foi entrevistada em outra oportunidade com o Mescla, fala da tentativa de reposicionamento como jornalista e pessoa que pensa o jornalismo.
A autora de O Nascimento de Joicy: Transexualidade, jornalismo e os limites entre repórter e personagem, destaca também a importância de entender os processos que estão acontecendo agora, seja os que envolvem George Floyd, em Mineápolis, como os assassinatos dos jovens Agatha e João Pedro, no Rio de Janeiro. Por que outros assassinatos de pessoas negras não conseguiram mobilizar tanto quanto o de Floyd? “Esse é um ponto muito importante de discutir, de como naturalizamos esses assassinatos e não é difícil naturalizar, quando a gente tem centenas deles por dia, e muitos desses assassinatos não foram filmados e mostrados como o de Floyd que provoca todos esses acontecimentos”.
Acesse o debate na íntegra no canal do grupo Lic Pesquisa.
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]]>No dia 29 de setembro, uma semana antes do dia da votação, milhares de pessoas saíram às ruas em um movimento organizado na internet. A hashtag #elenão esteve no trending topics do Twitter por dias seguidos, e o resultado nas ruas não deixou a desejar ao comparar-se com o ativismo em rede. No lado oposto, uma multidão de usuários enchia as redes com a hashtag contrária, a #elesim. De um lado, pessoas que afirmavam escolher qualquer um para o cargo máximo do executivo nacional: menos ele. Do outro, fãs do candidato que rejeitam as demais candidaturas afirmando que ele seria o eleito, sim.
Com um sistema binário desenhado no país, os demais 11 candidatos disputavam a atenção do restante do eleitorado. O grupo “Mulheres Unidas contra Bolsonaro”, hospedado no Facebook, reúne pouco mais de 3,8 milhões de membros mulheres. A mobilização partiu de um grupo que repudiava as declarações preconceituosas feitas pelo candidato. Além do grupo, diversas comunidades levantaram-se contra a eleição de Bolsonaro, propagando ideias como hashtags e imagens com frases do tipo “fascismo não”.

Evelyn Mendes, analista e desenvolvedora de sistemas, é administradora do grupo “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro RS”, que engaja cerca de 15 mil pessoas na rede social. Ela acredita que a rede social não é mais distinta da vida real das pessoas, que elas vivem o digital como uma extensão do seu dia. “Todo mundo está online, mesmo sem Facebook ou Twitter, você está conectado de alguma forma”, conta.
Ela ainda acredita que, para além das movimentações políticas em rede, o grupo, em específico o que ela administra, foi criado como uma forma de comunicação, conscientização e mobilização feminina, visando a informação e não somente o repúdio ao candidato. E, por isso, Evelyn não acredita que o movimento termine com o findar da eleição. “É muito mais do que isso, é um movimento de conscientização, que vai durar. Você consegue se conectar com as pessoas, se comunicar e isso está ajudando elas a se organizarem, seja pelo bem ou pelo mal”, explica.
Iara Jaqueline Baldissera é estudante de Jornalismo e utiliza o Facebook para posicionar-se politicamente. Do outro lado da hashtag, ela traz seu feed de notícias recheado de vídeos, fotos e mensagens de apoio a Jair Bolsonaro, deixando claro o seu posicionamento. Ela aponta que viveu a infância em um Brasil saindo da Ditadura Militar, período em que imaginar espaços de convivência digitais era utopia. Ela vê as redes sociais como meios democráticos, onde é possível expressar-se e organizar uma mudança social.
Acreditando que o candidato é alguém que se levanta contra o sistema, não acredita que Bolsonaro seja “tudo isso” que falam sobre ele, e que mesmo não apoiando todas as suas ideias, foi ele quem lhe devolveu um sentimento de patriotismo há tanto perdido. É por isso que utiliza o Facebook como forma de militância, buscando reverberar esse mesmo sentimento nas demais pessoas. “Como tudo, temos que ter responsabilidade, bom senso. Eu tenho na minha família pessoas que pensam muito diferente de mim, nem por isso excluí, nem por isso ofendo, nem por isso critico as postagens que fazem, que são extremamente opostas as minhas. Até agora prevaleceu a educação e o respeito”, relata.

Quem acompanhou o assunto, sob uma perspectiva acadêmica e militante foi Christian Gonzatti, doutorando pela Unisinos, ativista relacionado a questões de gênero e LGBTQ+ e pesquisador da área. Ele explica que, historicamente, o sistema ocidental é binário, trazendo sempre a ideia de opostos: homem e mulher, masculino e feminino, razão e emoção, #elesim e #elenão. Para o pesquisador, esse binarismo causa nas pessoas uma dificuldade de complexificar dados.
“As pessoas começaram a ler tudo como uma disputa de divas pop, ou de uma partida de futebol, quando na verdade o que está em jogo é um projeto de civilização. E o triste é que são esses dois extremos que vão ser reverberados na rede, que vão gerar uma série de disputas de sentido”, conta. Christian ainda traz a ideia de que neste contexto eleitoral o candidato Bolsonaro é visto como um salvador caso o Partido dos Trabalhadores retorne ao poder. Do outro lado, encabeçando os movimentos do #elenão, existe a luta pela não legitimação de um discurso preconceituoso do candidato do PSL.
Os movimentos políticos surgidos a partir do #elenão podem ser configuradas como um ciberacontecimento, que são acontecimentos que emergem na sociedade a partir do uso dos sites de redes sociais. Christian explica que a partir da utilização de hashtags, os grupos se organizam em diferentes plataformas e passam a articular rede e rua.
Christian vivenciou sua pesquisa em uma das manifestações, quando exibiu um cartaz relacionando um dos candidatos a Voldemort, personagem icônico da saga Harry Potter, e acabou sendo amplamente compartilhado nas redes. “Está totalmente implicado a rede, no sentido em que eu já conhecia o cartaz em inglês, de uma manifestação relacionada ao Trump (presidente americano) muito parecida, então eu faço uma releitura dele no nosso contexto através da rede e levo ele para a manifestação. Da manifestação, ele retorna a rede”, conta.

Houve também uma pressão popular para o posicionamento de artistas e celebridades quanto ao uso de hashtags apoiando, ou não, o movimento inicial. A cantora pop Anitta foi um dos alvos dessas reivindicações. O pesquisador entende que a cobrança por parte do público se dá devido a potência que estas pessoas têm de pautar as discussões da sociedade. Algo muito parecido também foi experimentado pelo, na época candidato, Donald Trump, que viu o crescimento das intenções de voto seguido de protestos e posicionamentos de artistas locais e mundiais.
Gonzatti é muito crítico quanto à responsabilidade que o jornalismo carrega em relação ao binarismo encontrado nas redes, e que tem pautado estas eleições. Para o pesquisador, existe uma problemática muito grande quanto as instituições jornalísticas não conseguirem problematizar e complexificar o cenário atual, o que acaba por reforçar a existência de somente dois lados: o #elesim e o #elenão.
“É mais uma vez esse jornalismo sendo potencializador desse cenário violento, por essas noções de imparcialidades, por essas noções de que o jornalista precisa só ouvir os dois lados sem complexificar os acontecimentos, que vai narrar a os fatos em uma dimensão muito rasa, sendo conivente com esse cenário binário”, explica Gonzatti.
O jornalismo vem sendo frequentemente deslegitimado enquanto instituição. Não é incomum ver portais de notícias, ligados a grandes veículos de comunicação, sendo acusados de defender um ou outro lado da disputa. Para o pesquisador, o jornalismo se encontra em meio a uma crise, explicitada neste processo eleitoral e que o momento é de repensar o papel social das instituições jornalísticas.

A Agência Lupa, que atua na checagem de fatos, apontou que as dez notícias falsas mais populares entre os leitores tiveram mais 865 mil compartilhamentos no Facebook. Entre os conteúdos compartilhados, predominam vídeos descontextualizados, imagens manipuladas e teorias da conspiração. Gonzatti trata o assunto, junto ao seu grupo de pesquisa, como “colapso informacional”.
Estas informações falsas e manipulações são utilizadas com o intuito de deslegitimar grupos contrários. “Ocorre um colapso informacional, discussão que traz como a informação vem sendo distorcida, vem sendo esvaziada, dando espaço para essa reverberação de fake news, que, no caso do grupo (Mulheres Unidas contra Bolsonaro), tem sido utilizada para deslegitimar a mobilização”, fala.
Na tarde de quarta-feira, 17, o Tribunal Superior Eleitoral, na figura da presidente ministra Rosa Weber, recebeu para uma reunião os representantes das campanhas de Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). O propósito do encontro era discutir a disseminação de notícias falsas e firmar um acordo para não propagação delas. Estudos preliminares já indicam que as fake news poderão influenciar nos resultados destas eleições.
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]]>Formado há dois anos pela Unisinos, Christian nasceu em Esteio, Região Metropolitana de Porto Alegre, onde passou os primeiros anos da infância. No início do Ensino Fundamental, mudou-se com a família para Sapucaia. Seus pais, sem estudo e com poucas condições financeiras, sempre trabalharam muito para não lhe deixar faltar o essencial: comida, roupa e educação.
É aqui que um traço marcante da personalidade de Christian começa a ser traçado. Mesmo com todas as dificuldades, ele sente-se privilegiado. “Eu sou um menino pobre, vim de uma escola precária. A única comida que meus colegas tinham no dia era a merenda, mas eu tive sempre alguns privilégios”, refletiu.

Mesmo criança, ele sempre soube quem era. A percepção de mundo que Christian carrega existe desde seus primeiros anos de vida, quando já tinha consciência do discurso social no qual estava inserido. E se no seu filme tivesse uma cena inicial, antes mesmo da introdução, seria a de uma “criança viada”, no sentido mais literal da palavra, brincando escondido com seus bonecos do Power Ranger, porque já sabia que aquilo seria mal interpretado pelas pessoas ao seu redor.
“É muito engraçado porque eu fui uma criança ‘super viada’. Desviada das normas, dos padrões masculinos. Eu sempre soube que era gay, e quando eu tinha cinco ou seis anos, eu já tinha essa noção, eu já percebia nos discursos pessoais, nos discursos midiáticos aquela coisa que ser gay é errado. Aí eu escondia, mas com os meus bonequinhos, do Ranger vermelho e do Ranger azul, eu fazia eles namorarem sem ninguém saber”, contou aos risos.

O consumo de produções da cultura pop começou a fazer parte de sua vida, quando ele desenvolveu práticas fãs e virou consumidor assíduo de Harry Potter, visitando diariamente sites de notícias, esperando eternidades na internet discada de casa para baixar pôsters em HD do filme, lendo livros e participando de comunidades nas redes sociais sobre a saga do menino bruxo.
Com jeito mais afeminado – modo de portar-se destinado às mulheres – aprendeu desde cedo que teria que enfrentar um mar de preconceitos por sua orientação sexual. Com 12 anos, em uma apresentação no show de talentos da escola, uma música do Rouge – grupo formado pelo programa Popstar, que Christian acompanhou incessantemente com sua mãe – o expôs a homofobia do ambiente.
“No final falaram ‘a gente vai colocar uma música para as meninas e uma para os meninos”. E aí, a música das meninas era justamente ‘Ragatanga’, e minha mãe super ingênua disse ‘vai lá, tu sabe a coreografia’ e eu fui na frente das meninas, de toda a escola, e comecei a dançar toda a coreografia. Todo mundo riu e foi a saída do armário porque depois disso não pararam de me infernizar”, relatou.
Aliás, um dos únicos assuntos capazes de tirar o brilho no olho de Christian é a adolescência conturbada. As agressões físicas e verbais foram desencadeadas diversas vezes a partir do consumo de produções da cultura pop. “ A primeira vez que apanhei de um colega, ele me perguntou se eu preferia comprar uma revista da Playboy ou um pôster do Harry Potter. Eu falei que o pôster do HP. Ele começou a dar tapas na minha cara, dizendo ‘tu é muito viadinho mesmo’”, contou, lembrando do episódio ocorrido enquanto ainda frequentava o Ensino Fundamental.
Sua mãe passou a ver que o consumo de produções como Harry Potter, incentivava o filho a buscar conhecimento. Sem condições de custear a graduação em uma universidade privada e tendo convicção que queria estudar, Christian decidiu que entraria no Ensino Superior por meio do Enem. Para isso, procurou instituições de Ensino Médio com boas colocações na prova.

Em sua busca, encontrou uma escola técnica em eletromecânica e eletrotécnica, que no ano anterior ao seu ingresso, esteve na segunda colocação entre as escolas estaduais no Enem. Para buscar o sonho de cursar o Ensino Superior, encarou o desafio de estudar em uma escola majoritariamente masculina, e decidiu tentar.
“Dada a forma como a sociedade sempre impôs um binarismo para as profissões, ela só tinha meninos. Nessa escola foi horrível porque eu me sentia muito excluído, eu não conseguia apresentar um trabalho, eu não conseguia falar, foi a pior experiência da minha vida”, confessou.
“Eu fazia coisas de me cortar, eu ficava muito triste e não podia falar nada pros meus pais porque se falasse pra eles eu teria que dizer que eu era gay. Eu já tinha aceitado pra mim mas é tanto preconceito que a gente tenta negar. ‘Eu não sou, é uma coisa da minha cabeça, vai passar’ ou ‘eu posso casar com uma menina e fingir que sou hetero’ eu dizia”, revelou.
Ainda no Ensino Fundamental, Christian decidiu desenvolver um trabalho na feira de ciências da escola sobre Harry Potter. Vestido como o protagonista e contando com a ajuda de uma amiga, que trajou a roupa de Hermione Granger, mudou a lógica que perseguia as feiras tradicionais da escola, que geralmente exibiam trabalhos sobre dinossauros, drogas etc. “Colocamos umas capas bem bregas de TNT mesmo, e foi o máximo, amaram. A partir daquilo minha mãe viu que Harry Potter me estimulava a estudar, porque ela sempre falou assim “se tu quer ser alguém, estuda’”, contou.

Ao ingressar na Iniciação Científica, já no seu primeiro ano no curso de Publicidade e Propaganda na Unisinos, o primeiro livro que recebeu para leitura foi o “Cultura da Convergência” de Henry Jenkins. A obra trata de produções como Matrix e o próprio Harry Potter , o que o fascinou e lhe deu a possibilidade de enxergar a cultura pop como pesquisa. O grupo de pesquisa foi encerrado no mesmo ano, mas já encantado pelo mundo acadêmico, Christian iniciou uma busca por professores com vagas na equipe.
“Foi aí que eu conheci o professor Ronaldo. Eu estava terminando o ‘Cultura da Convergência’ e não queria parar. Ele estava iniciando uma pesquisa sobre ciberacontecimento. Deu umas duas semanas e aconteceu um ciberacontecimento em torno de Harry Potter e essa foi a minha primeira apresentação em uma amostra de Iniciação Científica. Eu comecei a ver esses processos como uma possibilidade de trazer toda essa questão de gênero e sexualidade articulada a cultura pop”, contou.

Além da saga do bruxo em Hogwarts, Glee, uma série de televisão americana, participou ativamente da vida de Christian e apareceu na iniciação científica como pesquisa. Quando a série estreou, foi sua mãe que o incentivou a assistir, usando uma frase de quem conhece as preferências do filho: “Cris acho que tu vai gostar muito dessa série”.
“Tinha um adolescente que era gay, o Kurt, e tinha toda a representação da homofobia no ensino médio. Minha mãe amava o Kurt, ela defendia o Kurt, torcia pro Kurt. Aí eu pensei ‘peraí, se ela tá adorando o Kurt porque ela não amaria o próprio filho?’ Aí foi que caiu a ficha que havia uma brecha para que eu me aceitasse. Que contasse para as pessoas o que eu realmente era”, relatou. Coincidência ou não, o primeiro artigo científico produzido por Christian, foi em torno do universo Glee.

Os rostos que estampavam os pôsters que a mãe de Christian trazia para o filho, sempre muito fã de alguma coisa, tornaram-se nomes que ilustraram trabalhos acadêmicos, recheados pela convivência difícil com o fato de ter crescido homossexual em comunidades preconceituosas. Analisar produções de sentido e acionamentos que comunidades LGBTQs e demais minorias provocam nas redes sociais remete às interações dos fandoms no Orkut, lugar no qual Christian buscava apoio e um ambiente para se encaixar.
Justamente por pesquisar questões de gênero, sexualidade e o mundo pop – universos que ele conhece muito bem – traz para a pesquisa a vivência e intensifica a sua fala quando o assunto é tocado. Apaixonado pela sala de aula, teve a oportunidade de ministrar aulas para os alunos da graduação, em seu estágio docente. Na disciplina de Teorias da Comunicação, levou seu projeto e sua experiência para a sala de aula e foi capaz de inspirar diversos alunos.
“Queer” é uma expressão utilizada no inglês para denominar, de forma pejorativa LGBTQs, podendo ser traduzida como “bixa”, “viado” ou “sapatão”. Na tradução literal ela significa estranho. Seja por uma ou outra, queer é algo que Christian sempre foi, e faz questão de ser.

Publicitário por formação, sempre esteve próximo ao jornalismo. Desde o primeiro grupo de iniciação científica, no qual ingressou, sempre pesquisou assuntos jornalísticos. Mesmo no mestrado, também na Unisinos, essencialmente por estar envolvido na área de jornalismo pop, é visto como um estranho dentro do grupo. “As pessoas tendem a ler este jornalismo pop como não jornalismo. ‘Isso não é jornalismo, divulgar o clipe da Lady Gaga, isso não é notícia, não é acontecimento’, só que os fãs precisam disso, as comunidades da cultura pop consomem esse tipo de informação”, problematizou.
Em sua curta experiência no mercado de trabalho, foi a pessoa que não aceitou normas de produção das empresas. Questionou trabalhos e chefes. Levantou questões de gênero e preconceitos. Não foi refém da lógica de produção dentro da publicidade e nunca acreditou que questões incômodas para a sociedade devessem ser deixadas de lado em vista do lucro. Dentro de seus estágios afrontou assuntos que achasse pertinente debater. “Eu tive uma trajetória infeliz no mercado, mas que eu considero necessária. O incômodo é importante, a crítica perturba mas transforma, quando a gente está aberto a refletir”.
Neste ano, um dos grandes acontecimentos da vida de Christian foi uma viagem para a Europa, onde apresentou uma pesquisa em um evento exclusivo de Game of Thrones. Foram 15 dias de viagem acompanhado do namorado, Guilherme.

“A academia tem sido uma transformação para mim. Inclusive no sentido de ter esses privilégios de poder conhecer outras culturas, desenvolver outras pesquisas”. Ele conseguiu levar algo próximo do que pretende estudar em seu doutorado, que são os coletivos midiáticos feministas de cultura pop que fazem críticas sobre as produções midiáticas.
Além da visita mágica ao antigo continente, o mais gratificante foi ver o reconhecimento do trabalho pelos pesquisadores locais, que acharam fantástica a pesquisa que vem sendo desenvolvida por aqui. Aliás, internacionalizar a pesquisa é um dos grandes objetivos de Christian.

Christian finaliza o mestrado no final deste ano, mas já pode ser considerado mestre em ensinar empatia para as pessoas ao seu redor. Quando fala em minorias, sempre se coloca na fala, se referindo as lutas delas como “nossas lutas” e de suas vitórias como “nós conseguimos”. Ele coloca na mochila uma carga de sentimentos e experiências adquiridas ao longo de seus 24 anos. Pouca idade aos olhos de quem olha para a certidão de nascimento, mas para quem conhece sua história, parece que 1993 aconteceu há 50 anos atrás.
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