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William Mansque: defendendo a cultura
"O “ex-agexconiano” (como se costuma chamar quem trabalhou na Agexcom da Unisinos) se consolidou como um bem-sucedido jornalista cultural"
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William Mansque escolheu o jornalismo como profissão e diz que nem imaginava que se daria tão bem na área. E “bem” nem chega a ser adjetivo. Depois de sete anos integrando o time de repórteres do GZH, ele agora compõe o seleto Grupo de Investigação (GDI) da RBS, representando o escopo cultural. Em um mercado tão concorrido, Mansque diz que só o fato de ter continuado na carreira e seguir atuando como repórter em um jornal já é considerado por ele como uma conquista. Natural de Guaíba, o então estudante de Jornalismo da Unisinos São Leopoldo acumulou experiência ao estagiar na Universidade. Mansque começou na Agexcom, sua primeira experiência profissional, e logo depois trabalhou na Rádio Unisinos e na TV Unisinos, paralelamente.  

Para William, a cultura pode ser entendida como a maneira com que nos expressamos, nossa identidade, quem somos, nas mais diferentes formas. “É importante a gente ter noção do que está acontecendo, do que nos influencia, que influencia diferentes nichos, da maneira que eles agem. Isso tudo eu creio que esteja no guarda-chuva da Cultura. Eu sempre vou defendê-la. O jornalismo cultural é uma coisa que eu acredito como um todo. E é um espaço a ser disputado sempre. Se tu ver o jeito como alguns governos tratam a cultura, tu já tem uma amostra de como ela pode ser impactada. A importância de cobrir a cultura se dá em entender quem a gente é”, avalia o jornalista. 

Mansque visita o Farol Santander na Bienal do Mercosul: “Devemos sempre valorizar a cultura”
(Foto: reprodução Instagram @wansque) 



O papel da Unisinos 

Mansque deu os primeiros passos na carreira ao se tornar estagiário da Agexcom. “Eu lembro de ter aprendido a editar quando estava na Agex. Bem no começo, a gente usava ainda as fitinhas. Gravávamos com as câmeras Mini DV e, depois, tínhamos que digitalizar as fitas. Estávamos pegando toda essa transição para o digital. Isso lá em 2011/2012”, recorda.  

Mansque teve também uma passagem pela pesquisa acadêmica, atuando no programa de Iniciação Científica, durante a graduação. “Eu era bolsista no grupo de pesquisa da Adriana Amaral (professora do Programa de Pós-graduação). Era uma pesquisa que envolvia a cultura pop, os fãs, a música, subgêneros musicais. Muito dessa coisa de fandoms, que hoje em dia é bastante observado, nós já estávamos estudando. Eu adorava, achava bem legal”.  

A Unisinos como um todo, com os estágios e aulas, ajudou muito na construção do profissional que Mansque é hoje. “Era um ambiente seguro para aprender, para servir como laboratório, algo para experimentar mesmo”, explica. Segundo ele, os professores da Universidade proporcionaram uma experiência que possibilitou um bom desenvolvimento da criatividade, devido à liberdade que, muitas vezes, era viabilizada no processo de escrita.  

“Eu gostava de fazer umas coisas meio diferentes. E eles incentivavam isso. Por exemplo, em uma das cadeiras de redação jornalística, precisamos fazer um perfil jornalístico. Os meus colegas queriam falar de líderes comunitários, pessoas grandiosas… Eu queria fazer de um personagem de videogame”, lembra Mansque. Ele recebeu apoio da Thais Furtado, professora na época. “Ela super apoiou. Esse texto se tornou uma das coisas que escrevi que eu mais gosto até hoje. Eu adoro lembrar desse perfil que fiz. O que eu quero dizer é que talvez, em alguns outros lugares, eu não tivesse sido tão estimulado assim”. 

Ainda nos tempos de faculdade, Mansque teve a honra de ter uma reportagem sua adaptada para a TV, para o programa “Teledomingo”, da RBSTV. Foi uma realização possível graças à disciplina de Jornalismo Investigativo. Teve como tema os “cyberstalking”. “Eu já tinha um projeto de fazer uma espécie de “documentário para o rádio”, o que hoje chamaríamos de podcast, mas, na época, não tínhamos esse domínio da linguagem. Era uma coisa que as pessoas adoravam falar que faziam, “stalkear o Orkut” de outras, mas que podia ser algo criminoso, podia ir para o lado da perseguição. E não era tipificado como crime naquele tempo, hoje as coisas já avançaram mais. Aí, eu comecei a achar pessoas que foram vítimas de stalkers. Fomos eu e uma colega chamada Daiane Dalle Tese que trabalhamos em conjunto. Eu fui conversar com um delegado, e ele quase me xingou, falando que aquilo “não existia”. Eram umas histórias super tensas. Lembro que a turma toda ficou meio tensa quando lemos o resultado final, porque era algo muito absurdo”. É possível acessar a matéria completa que Mansque escreveu com sua colega aqui

A ideia de levar a matéria para a RBS foi da professora Luciana Kraemer. “Foi bem bacana. O jornalista Fábio Almeida foi quem assumiu a reportagem, usou os mesmos cases e achou um delegado que entendia melhor do que estava sendo apresentado. Eu achei muito legal essa parceria que aconteceu entre o Teledomingo e o Jornalismo da Unisinos”. 

O gosto pela cultura 


Sobre a aproximação com a cultura, sua afinidade iniciou logo cedo, quando assistia muito ao canal MTV, lia revistas impressas e acessava constantemente blogs e sites que falavam majoritariamente sobre música, como o “Zonapunk.net” e o “Gordurama”, no auge dos anos 2000.  

“Foi vital, também, eu ter trabalhado na Rádio Unisinos, isso já deu um grande empurrão. Havia uma espécie de “fusão” entre a Rádio e a TV, então acabei produzindo conteúdo para a TV também, como um programa chamado “Clube do Livro”. Era uma época em que ainda se falava muito em transmídia.  Nós fazíamos programas com notícias culturais, notícias de bandas, de cinema, às vezes algo sobre teatro, tentava trazer entrevistados que tinham a ver com isso”.  

A trajetória fora da Universidade 


A ida para a Zero Hora, como estagiário, ocorreu na sequência. Trabalhou primeiro no Gastrô e na Contracapa, depois assumiu o Segundo Caderno. “Ali, eu comecei a me construir mais e ampliar os horizontes. Antes eu era muito centrado em música, então eu fui expandindo aos poucos”. 

O jornalismo possibilitou algumas vivências diferentes para Mansque, até mesmo saindo um pouco da área musical, como participar do júri dos longas ibero-americanos, na edição de 2020 do Fantaspoa, festival de cinema fantástico de Porto Alegre, considerado o maior evento de filmes deste gênero na América Latina.  

Foto: Reprodução Facebook Fantaspoa 



“Embora eu já tenha escrito críticas e resenhas, eu nunca me considerei um crítico de cinema. Sempre acompanhei o Fantaspoa, desde muito tempo atrás. Sempre cobri, sempre gostei de escrever sobre filmes de gênero também. Então, surgiu esse convite. Achei muito bacana, dividi experiências com outros jurados que foram muito “massas”. É puxado, naquela vez eu tive que ver dez filmes em um espaço de tempo curto, em meio ao trabalho e outras coisas. Mas foi bem recompensador ao mesmo tempo”.  

Ele também já cobriu eventos de âmbito nacional e internacional, como as Eleições, Olimpíadas e Copa do Mundo. “Foi legal ter esse choque de conhecer áreas diferentes. Eu gostei especialmente de trabalhar na época Olimpíadas, lidar com esportes diferentes. Foram as Olimpíadas no Brasil, foi uma coisa bem interessante de se fazer”. 

William realizou muitas entrevistas ao longo da trajetória. Alguns importantes, como Jonathan Dörr, do Reação em Cadeia e Bruno Medina, do Los Hermanos. “Com todo mundo que se entrevista, se consegue aprender algo. Isso é o que eu gosto muito no jornalismo. É uma vantagem, principalmente no jornalismo cultural. Poder aprender sobre coisas novas é uma das coisas que eu mais gosto no meu trabalho. Sabe que quando eu vou fazer uma escrita sobre algum artista, eu até prefiro que seja sobre algum que eu ainda não conheço nada? Porque daí eu começo a estudar, ouvir, debulhar, descubro uma coisa diferente. Eu lembro de uma vez que eu entrevistei o Armandinho e ele ficou me dando dicas de vídeos de surfe que tinham uma trilha sonora muito boa, esses tempos eu entrevistei o Jorge Drexler e ele deu dicas de uma cineasta israelense para mim…”.  

 

Mansque entrevistando a ministra da cultura Margareth Menezes. Você pode conferir a matéria que foi resultado dessa conversa aqui (Foto: reprodução Instagram @wansque) 



Para se manter informado, além de continuar acessando os principais sites dos veículos que ainda atuam na área, tanto nacionais quanto internacionais, ele utiliza as redes sociais. “As minhas redes são muito direcionadas para me dar esse tipo de informação. O algoritmo me lê dessa maneira. Eu sigo diferentes perfis, mas eu acho que o algoritmo me “empurra” aquilo (conteúdos de música, cinema etc.) primeiro, porque eu sempre paro para ler, clico, entro nos links para ver mais sobre aquilo. Mas é preciso, claro, sempre tentar ler o máximo possível”.  

 

Dicas para futuros jornalistas

Quando perguntado a respeito do futuro da cobertura jornalística cultural, ele diz que “Estamos sempre passando por mudanças, primeiro tínhamos que gravar com as fitas, como eu já mencionei, depois veio o Orkut, e tivemos que trabalhar em cima dele, depois foi a vez do Facebook, que trouxe uma nova lógica, ao mesmo tempo que tem o Twitter também, aí vem o Snapchat, a gente pensa novas configurações, então ele é engolido pelo Instagram… Dali a pouco vem o TikTok,  que muda o jeito de fazer as coisas, traz uma nova estética, e agora tem o novo desafio da inteligência artificial, que faz a gente repensar. Mas eu acho que o material humano, a criatividade, o teu background cultural, isso sempre vai se impor e vai prevalecer no fim”. 

Ele usa como exemplo o sucesso da jornalista Isabela Boscov, de quem ele lia na faculdade, com os textos que ela produzia para a Veja, e achava geniais. “Ela está aí, agora ela está fazendo aqueles vídeos no YouTube, é um sucesso, as críticas dela são boas… E o que faz ela atravessar o tempo, o que tem nela? O que prevalece, no fim, é o bom conteúdo, é o compromisso com o fato, o respeito ao leitor”, explica. 

“Quando aparecem novos artistas, por exemplo, tu não precisa gostar, mas pelo menos tentar entender minimamente do que se trata. Essa curiosidade tem que estar impregnada no jornalista, independentemente da área. A curiosidade talvez seja a matéria-prima do jornalismo como um todo. Ter essa vontade de querer aprender, a gente vai estar sendo eternamente estudantes”, ensina o jornalista. 

Para o futuro? “O que eu gostaria é cada vez crescer mais como repórter. Ter mais flexibilidade tanto quanto possível”, diz. 

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