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Raphael Kapa: “O aluno passou dois anos assistindo aula pelo celular, então negar a mídia em sala de aula é impossível”
"Jornalista e professor de História, que é coordenador de educação da Agência Lupa de fact-checking será um dos palestrantes do Desafio Nuvem de Educação Midiática, dia 21 de maio "
Gabriel Ferri

A educação midiática é de vital importância nos dias de hoje, em que uma fina barreira separa o mundo real do virtual. Este é um assunto que deve ser debatido dentro de sala de aula desde o ensino básico, utilizando as mídias não apenas como suporte, mas como uma competência a ser desenvolvida, conforme as novas diretrizes da Base Nacional Comum Curricular. A leitura crítica dos conteúdos midiáticos em seus diferentes formatos, interpretação correta de gráficos e porcentagens, comunicação não-violenta, representatividade social e participação cívica são assuntos cotidianos que podem gerar desinformação caso não compreendidos claramente. O Mescla conversou sobre este assunto com o jornalista e professor de História Raphael Kapa, palestrante na primeira oficina do Desafio Nuvem de Educação Midiática, programa de letramento midiático gratuito para professores da rede básica de ensino do Rio Grande do Sul. Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor de História pela Universidade Federal Fluminense, mestre e doutorando em História pela mesma universidade, Kapa já atuou como repórter na Band, Jornal O Globo e na Agência Lupa, onde atualmente é coordenador de Educação. Também é colunista no Canal Futura e na rádio Roquette Pinto e ganhou o prêmio ExxonMobil (Esso) em Educação. Nos últimos anos, tem se dedicado ao combate à desinformação, tanto como jornalista quanto como educador, e é sobre isso que ele irá tratar na oficina: desinformação e fact-checking. As inscrições para o Desafio Nuvem podem ser feitas  até dia 20 de maio pelo link: https://bit.ly/desafionuvem2022

 Mescla: pode começar nos contando um pouco da sua trajetória profissional e a sua relação com a educação midiática. 

Raphael: A minha formação é dupla não porque eu quis fazer, mas fui me encaminhando para isso. Eu sou formado em História e em jornalismo, então pela história acabei caindo muito na sala de aula e pelo jornalismo acabei caindo muito em redação. Aí, unindo os dois fatores, eu comecei a cobrir educação dentro dos jornais. Isso é uma coisa que eu sempre via que, lá fora, a educação midiática já era um tema muito relevante há 10 anos, e aqui no Brasil ainda tinha relações completamente pioneiras. Quando a TV começou a produzir conteúdos educativos foi altamente pioneiro e revolucionário, mas depois sofreu uma estagnação. Então ficou um período ali com iniciativas pontuais, e exatamente um período onde novas mídias começaram a surgir e explodir, e a nossa relação com elas começou a ficar cada vez mais complexa e densa. Nesse sentido, eu comecei a me especializar um pouco na área de educação midiática e casou de ser um período onde a Lupa estava começando a pensar sobre isso. Nisso, fizemos o segundo casamento. Eu fundei a Lupa em 2015, mas como repórter, saí da Lupa para ir para outros lugares e voltei exatamente com a missão de pensar na educação midiática como uma forma de combate à desinformação, exatamente pela explosão de novas mídias. Isso traz uma complexidade e gera um volume de desinformações maior, não quer dizer que nunca existiu, mas quer dizer que o volume aumentou. A gente entendeu que a Lupa, como uma referência no combate à desinformação, não podia não tratar sobre isso. 

Mescla: qual a importância de abordar educação midiática na sala de aula ? 

Raphael: É fundamental porque hoje o nosso aluno é totalmente mediado por mídias, ele já era antes da pandemia, mas ele passou a ser inserido totalmente com a pandemia. Até o espaço da sala de aula, que era um espaço onde você dizia “guarde o celular” ou “use poucas vezes para uma atividade didática”. O aluno passou dois anos assistindo a aula pelo celular, então retomar essa sala de aulas negando a mídia é impossível. A grande questão é como criar essa mediação para as mídias de uma geração que está totalmente intrínseca nela, diria totalmente viciada, que é a geração mais jovem que está no ensino básico. Por outro lado, temos uma outra geração mais adulta que ela se acha muito nativa digital, mas as próprias plataformas estão mudando ao longo do tempo, como o Orkut já existiu, deixou de existir e vai voltar a existir, então achar que você já sabe como se relacionar é um erro. A gente tem que estar sempre se renovando nesse sentido e pensando. E tem uma outra geração mais adulta que não teve essa relação com esse tipo de mídia, como a gente tem hoje, ligado mais em internet e redes sociais. E a relação dessa geração com a informação é outra, é uma relação onde a informação já vinha com uma curadoria, já vinha com uma apuração e hoje eles consomem muitas vezes de maneira muito parecida com que existia antes. O desafio é enorme, por isso que a educação midiática não pode ser pensada só para um segmento, tem que ser pensada para várias faixas etárias e de uma maneira que envolva diversos plurais. 

Mescla: e quais os desafios para os professores em fazer este trabalho? 

Raphael: O maior desafio é que esses professores foram formados para serem especialistas. Eu fui formado para ser professor de história, e na formação em nenhum momento é trabalhada a questão de como os vídeos podem trabalhar dentro da minha especialização. A gente trabalha mídia como suporte e não como meio. Como trocar o quadro negro pelo data show, trocar o levante o braço de um quiz com um aplicativo de quiz, mas não trocar metodologias, práticas, vivências e relações. Então precisamos muito ter novas imersões nesse sentido, porque senão a gente ainda vai tratar a mídia como suporte e não como meio. 

Mescla: Como as ferramentas midiáticas na sala de aula podem contribuir para a formação cidadã? 

Raphael: Eu acho que tem que ser pensado muito pela questão de como professor pensa o seu currículo para isso. Pensar a mídia somente pela mídia não vai funcionar, mas uma aula muito bem preparada e uma educação voltada para cidadania, pensando aí os pontos sensíveis daquela comunidade, como essa pessoa pode se inserir essa comunidade de frente a isso, aí você pode a partir da instrumentalizar com mídias. A mídia por si só não resolve a questão de uma cidadania, mas a educação se dando atrelada com uma mídia pode acelerar o processo de cidadania. 

Mescla: Qual a importância de programas de formação sobre educação midiática, como o Desafio Nuvem, para professores da educação básica? 

Raphael: O universo do professor, falando como professor, é muito desgastante. É um ritmo de trabalho absurdo que as pessoas não têm noção. É preparar a aula, dar a aula, depois prova, fazer a revisão para conseguir retornar com a melhor eficiência, fazer tudo isso e ainda ter que buscar treinamentos, ter que buscar leituras, o que por si só é muito desgastante. Então com iniciativas como essa conseguem trazer esse alento ao professor, chamar junto, chegar e falar “olha temos essas pessoas aqui que estão tratando sobre, talvez se interessa que você escutar, participar, contribuir” eu acho que você forma uma rede colaborativa muito boa, porque não existe especialista nessa área existe quem atua nela. Então quanto mais pessoas atuarem nessa área mais diverso vai ser e menos desgastante. 

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