Deu certo

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O deserto de notícias floresce
“O impacto de uma notícia próxima pode ultrapassar um desdobramento nacional? Mostrando que sim, o jornalismo hiperlocal aproxima leitores dos problemas que eles mesmos se empenham em resolver ”
Bruna Lago



Todos os dias, geralmente pela manhã, as caixas de e-mail recebem newsletters atualizadas com as notícias do dia e o desenrolar de problemas de grande escala. Basta cadastrar seu endereço de e-mail para que muito material, inclusive gratuito, seja entregue de maneira eficiente e econômica. Sem papel, sem necessidade de aplicativo próprio, para ler no celular. Grandes jornais, como O Globo e El País, além de publicações exclusivamente digitais, como o Nexo, disponibilizam aos leitores as newsletters, um trabalho de curadoria das notícias que saem nos veículos.


O grupo Matinal Jornalismo aposta na newsletter como formato de envio de informações jornalísticas, e como espécie de gênero, que envolve compilação de notícias focadas no Rio Grande do Sul, especialmente em Porto Alegre. Trata-se de um projeto independente de jornalismo digital que oferece uma ampla curadoria dos assuntos do Estado, com foco nos interesses dos porto-alegrenses. Além do compilado de notícias diárias, o Matinal ainda inclui mais dois produtos: a revista Parêntese e o blog do jornalista Roger Lerina, tudo elaborado por uma equipe de 15 pessoas. Marcela Donini, que já trabalhou para a Zero Hora e é co-fundadora da Farol Jornalismo, é a editora-chefe do Matinal. Ela explica a dinâmica da newsletter:


“Fazemos uma curadoria com recorte daqui, sobre os impactos do Rio Grande do Sul, mas nossas produções são locais”, comenta Marcela. “Muitas das grandes redações não conseguem dar conta porque cobrem a agenda nacional, que neste momento está muito turbulenta. Esse não é o nosso foco.”

Com uma vasta experiência como jornalista, Marcela agora está à frente da edição do Matinal (Foto: Reprodução/Alice Vergueiro)


O Matinal, apesar de trazer notícias de âmbito nacional, faz uma curadoria que privilegia o olhar sobre o Rio Grande do Sul e os reflexos que as notícias de fora causam para o Estado. “Eu acho que trabalhar com o local traz uma peculiaridade que é o impacto na vida das pessoas”, conta Marcela. “É possível ter impacto com uma cobertura nacional, mas a mudança é mais imediata com esse jornalismo local. Publicar uma matéria denunciando um problema na prefeitura, na câmara de vereadores ou alguma coisa que aconteceu no teu bairro. A mudança é mais rápida do que uma investigação em amplitude nacional.”


Em épocas sem isolamento social, é trabalho do repórter estar nas ruas, conversando diretamente com a fonte, e essa é outra questão importante para Marcela. “Quando tu mora ali, tu cultiva as tuas fontes de uma maneira mais próxima, tem respostas mais rápidas. O repórter cidadão tem esse olhar de morador para percorrer as ruas.”

Desertificação de fontes


Deserto de notícias é o nome dado aos municípios onde não existem meios de imprensa. Em geral, são cidades pequenas, com uma população em torno de 7 mil habitantes. Segundo o Atlas da Notícia, na Região Sul do país, 54% dos municípios não têm nenhum veículo jornalístico. Apesar de ser mais da metade das cidades, ainda ocupa a segunda melhor posição.

Reprodução: Tabela Atlas da Notícia


Na Região Sul, o Rio Grande do Sul é o Estado com o maior número de desertos de notícias – 55% dos 497 municípios não possuem jornais. Não é uma porcentagem muito diferente de Santa Catarina ou do Paraná, mas está em uma posição infinitamente melhor se comparado com o Tocantins, que chega a ter 80% das cidades sem jornais próprios. Mesmo assim, o fato de mais da metade das cidades gaúchas não contarem com veículos de notícias pode explicar questões muito mais profundas. 


Porto Alegre não é uma cidade pequena, longe disso. São quase um milhão e meio de habitantes e, para acompanhar tantas histórias, existem oito grandes jornais e um mercado efervescente de web jornais. E, ainda assim, não é o suficiente. Para Taís Seibt, doutora em Comunicação e professora da Unisinos, esse jornalismo focado em localidades é essencial. Taís é pesquisadora sobre jornalismo de checagem e idealizadora da iniciativa Afonte Jornalismo de Dados.


“Estamos vendo o efeito dessa falta de cobertura. Nos últimos anos, percebemos o crescimento da desinformação”, acredita a jornalista. “Nacionalmente, ainda conseguimos encontrar referências, porque temos essas atuações voltadas para o macro. Mas no nível hiperlocal, com quem vamos confirmar se as informações são verificadas e apuradas?”

Pesquisadora de jornalismo de checagem, Taís avalia os veículos hiperlocais como essenciais (Foto: Reprodução Medium)

De volta à caixa de entrada


Com as assinaturas de jornais se reduzindo em todo o Rio Grande do Sul – e também no país e no mundo –, as newsletters assumem um papel importante, mas é preciso entender que essas medidas não competem com grandes veículos. Como lembra Taís, isso é outra esfera. 


“Cada vez mais, a busca de informações está em outros canais, está nas redes sociais, no próprio e-mail. Se pensar no cenário regional, Zero Hora, Correio do Povo estão cada vez cobrindo menos as questões hiperlocais. E essa porta está aberta para informações, mas não acho que elas deveriam estar em canais tradicionais.”


Para a jornalista, as newsletters cumprem bem o seu papel de alcançar o leitor e romper com meios tradicionais. Outro ponto positivo levantado por ela é o caráter organizador que os e-mails apresentam. “Apesar de ser um bombardeio de informações em todas as redes, organizar a leitura da newsletter acaba sendo melhor. Nesse momento de pandemia, por exemplo, mesmo os veículos que não tinham, e aqueles que tinham newsletters pagas, estão fornecendo material gratuito para que o leitor possa ter um resumo do dia. Até mesmo as agências de fact checking estão utilizando as newsletters como forma de facilitar a organização da cobertura para o leitor.”

O valor do impacto


Mesmo com o encolhimento das redações, veículos que se aventuram a trabalhar com pautas estritamente locais ainda são poucos. “Há alguns anos, houve um movimento dos jornais trabalharem mais com o local, mas não conseguiram se desprender do noticiário nacional”, observa Marcela. “Não acho que se tenha que fazer uma escolha, é possível ser um jornal generalista e fazer as duas coisas. Mas pode não dar conta do jornalismo local se tem tantas pautas mais amplas para cobrir.”


Taís relembra o encolhimento drástico das redações em meados de 2015 e 2016, que jogaram de volta para o mercado uma grande parcela de profissionais especializados. “Muitos desses profissionais tomam essas iniciativas mais hiperlocais, mais segmentados ou especializados em um determinado tema. Na falta de espaço, é preciso encontrar alternativas, e muitas dessas iniciativas surgiram nesse período.”


O novo jornalismo hiperlocal faz frente à diminuição ou extinção de correspondentes no Interior do Estado e, pensando nacionalmente, de correspondentes de fora dos estados de origem do veículo. Com uma maior ligação com a região, novas relações surgem. Para Marcela, o impacto proporcionado pela proximidade é uma tendência no jornalismo.


“Como medir o impacto das matérias? No fim das contas, para quem a gente faz jornalismo? Por que investimos nisso? É para empoderar as pessoas para que exerçam sua cidadania mais plenamente?”, pondera a editora-chefe do Matinal. “Ligando ao impacto do jornalismo local ser mais ágil, pode ser que se torne uma tendência. As pessoas cada vez têm mais acesso à informação com as redes sociais e começam a se empoderar dessas ferramentas. Elas mesmas denunciam problemas.”


Ela lembra que, se no passado as pessoas mandavam cartas ou se dirigiam até as redações para denunciar problemas no seu bairro, hoje as redes sociais tornam esse contato mais efetivo. E essa participação também é hiperlocal, com problemas que acontecem ali, na sua rua, e isso empurra para um jornalismo que siga essa linha de demanda.


Mas apesar de ser uma boa alternativa, a pesquisadora Taís Seibt acredita que esse modelo ainda precisa se fortalecer. Fatores como a falta de investimento do capital privado no negócio e uma queda na economia pessoal de possíveis assinantes são alguns dos fatores. “É muito mais uma alternativa para os profissionais se recolocarem no mercado, mas ainda enfrentam dificuldades para crescer.”


No Matinal, a busca é por uma receita diversificada. “Ter um pouco de assinaturas, um pouco de receita publicitária e que vem de eventos. A pandemia mudou um pouco esse cenário. Chegamos a fazer um evento com cobrança de ingresso, mas com o isolamento não foi possível dar seguimento”, lamenta Marcela. Com a economia afetada de uma forma geral, a receita publicitária sofreu uma queda acentuada. Mas, para a jornalista, as dificuldades também mostram um lado bom. “Tem muita história local que gostaríamos de acompanhar e ainda não conseguimos por ser uma rede pequena. Isso denota que a imprensa local não está cobrindo todas as histórias e indica que ainda temos um caminho para crescer.”

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