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]]>Bem antes disso, o pequeno Andrei já dava sinais de possuir uma veia artística. “Eu acho que sempre tive essa inclinação. Dava para ver na minha cara que eu ia mexer com arte”, conta Andrei. “Nos meus pareceres do Jardim de Infância, os professores sempre comentavam que eu gostava de desenhar, inventar histórias e fazer teatrinhos. Eu me fantasiava e inventava uma personagem. Isso sempre foi uma parte muito forte da minha infância”, revela.

A primeira lembrança do contato com os palcos também foi na escola, onde todos os anos os alunos realizavam uma pequena produção de Natal. Andrei não participou da dança com os colegas porque foi convidado a atuar em uma esquete no intervalo entre as apresentações das turmas. Foi nesse momento, lembra Andrei, que sentiu a energia especial que sempre iria uni-lo ao teatro. “Eu estava no palco, atuando com um microfone, e eu tinha cinco anos. Havia muitas pessoas assistindo e isso me deixou realmente fascinado. Daí nunca mais parei. Todo mundo dizia que eu gostava de conversar, que não tinha vergonha, então foi natural que eu procurasse um grupo de teatro”, acredita o estudante.
Mas na cidade de Taquara, onde morava, não havia nenhum grupo teatral.
Em 2008, uma paulista chegou na cidade e decidiu criar seu próprio grupo de teatro, reunindo todos os jovens atores que antes não tinham apoio e suporte experiente para ensaiar. As aulas começaram na garagem dela, no mesmo ano, e foi lá que o Andrei encontrou sua “segunda família”: o Cheiro de Chuva. Já faz 12 anos que o grupo se apresenta em Taquara e na região.
“Acho que a parte mais impactante, a mais definitiva da minha vida como artista, foi ter entrado no Cheiro de Chuva”, diz o jovem ator. Esse impacto também trouxe experiências grandiosas e emocionantes para Andrei, como a percepção de que era realmente um artista. “A energia que eu sinto no palco é tão potente que eu não consigo pensar em mais nada, só no momento, só em estar ali, na conexão que tu faz com o público. Essa sensação impede de ficar pensando ‘olha só, eu sou um ator muito bom!’, porque tu está ali, aproveitando o momento”, brinca ele.
Mesmo assim, Andrei confessa que, às vezes, se sente orgulhoso de ser um artista. Como em 2016, quando o grupo montou a peça “O Renascer do Cangaço”, uma comédia que recebeu muito reconhecimento – tanto em prêmios como no amor emanado pelo público. “Muitas pessoas falaram que acharam a peça linda, que tinham sido tocados. Eu vi pessoas se emocionando, batendo palmas. Teve quem perguntou quando ela seria encenada de novo para poder rever!”, lembra.

O grupo se divide na produção de figurinos, nos gastos com materiais e nas noites de trabalho. Tudo por amor ao teatro, ressaltam os participantes. Apesar de, às vezes, conseguirem um espaço maior para ensaiar, é na garagem da diretora — a mesma que acreditou ser possível criar um grupo na cidade — que os atores se soltam e criam.
A experiência de unirem forças pelo Cheiro de Chuva traz momentos marcantes, como em 2012, quando foram convidados para um festival na cidade de Maximiliano de Almeida, distante cerca de cinco horas de Taquara, na divisa com o Estado de Santa Catarina. O grupo alugou uma van e foram se apresentar na pequena cidade, que não chega a ter cinco mil habitantes. Passaram a noite por lá, depois da apresentação. A sensação foi de estar em férias com a família. “Acho que os maiores pontos turísticos eram uma borracharia e um restaurante”, conta Andrei, se divertindo com a lembrança. “E foi muito legal, porque é uma cidade com um grande histórico de teatro. Muitos atores e peças passaram por lá. E é uma cidade minúscula!”, destaca Andrei. Para ele, esses momentos de descobertas são os mais importantes. “É porque acontecem com o pessoal do teatro. Não tinha tempo ruim: Vamos se apresentar em tal cidade? Vamos! Vamos se apresentar em um parque? Vamos! Tinha ocasiões que montávamos uma peça só para participar de um festival.”

Mesmo com o apoio da família, a carreira artística também enfrentou percalços. Apesar de terem conseguido formar um grupo teatral na cidade onde residem, Taquara não abre espaço suficiente para esse tipo de arte. Para Andrei, essas é uma de suas frustrações. Segundo ele, os moradores locais não são acostumados a consumir arte, mesmo em festivais e apresentações abertas. Os habitantes de Taquara não são o melhor público para o grupo.
“Tenho amigos em cidades pequenas, como Rolante, que fica aqui do lado, que são acostumadas a ter festivais de teatro. E as pessoas fazem filas, as apresentações lotam”, lamenta o estudante. “Meu grupo nunca focou em ganhar dinheiro com a arte. A gente faz por amor. E reconhecer o artista é o principal. Eu não lembro de quanto a gente já ganhou passando chapéu depois de uma apresentação, mas eu lembro muito bem das pessoas que vieram falar que estava muito legal. É isso que marca no final, a energia que o público te dá, o reconhecimento e o amor pela arte.”
Além do gosto pelo teatro, desde criança Andrei demonstrava interesse também em outra carreira. Sempre desenhando, criava gibis, pôsteres e o que seriam suas primeiras peças publicitárias. “Eu fiquei fascinado com a organização das informações e das imagens. Desenhava menus e brincava com a publicidade”, conta.
Hoje, no curso de Publicidade e Propaganda, sabe que a arte também tem um papel importante no seu próprio senso estético. Andrei observa que esse diferencial faz com que muitos dos seus colegas, inclusive, tenham uma passagem ou interesse especial pelo teatro. “Não é um consumo tão direto como é uma peça de teatro, mas a arte está ligada porque precisamos de senso estético, de uma razão, de um aprofundamento. E a faculdade nos ajuda a refinar isso”, explica o estudante. “Temos mais aulas para debater, conversar e entender como funciona a estética das coisas do que aulas de softwares, por exemplo. No curso, aprendemos a lidar com a estética, o design das coisas e como passar a mensagem, os símbolos, por meio da nossa criação.”

Para depois da pandemia, Andrei brinca que o importante é estar vivo. E depois? “Eu não consigo imaginar nada, o que é legal, porque posso deixar o destino me surpreender. Mas minha meta é me mudar para uma cidade maior, como São Leopoldo ou Porto Alegre”, revela. Com isso, surge a dúvida de que se poderá ou não continuar no grupo. Andrei também quer poder se concentrar na carreira de publicitário. “Quero seguir com o teatro, nem que seja frequentando apresentações. Não quero me distanciar tanto, não quero me desprender.”
Seja como for, é o nosso desejo – o meu especialmente – de que Andrei ainda conquiste muitos espaços, dentro e fora dos palcos da vida.
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Antes, lá em 2008, ele era, nas próprias palavras de Acrides, uma criança que “não abria a boca para nada”. Foram as duas estagiárias que atuaram na sua turma da 3ª série que despertaram nele o lado artístico. Carine e Ticiane resolveram montar uma esquete teatral – uma peça curta – com os alunos. “A Carine é atriz e eu achava ela bem louca, no bom sentido”, conta Acrides, agora no 7º semestre da faculdade. “Foi ali que tudo começou”, define o estudante.
A semente do teatro estava lançada. No ano seguinte, a professora iniciou um grupo de teatro com os ex-alunos que tinham demonstrado afinidade. “Ela é minha vizinha em Osório, onde moro. Nos encontramos na rua e ela disse que os encontros seriam aos sábados”, lembra Acrides. Na semana seguinte, ele percebeu que tinha se esquecido do ensaio. “Mas juntei toda coragem e apareci no segundo sábado”, comenta, entre risos.
“Os encontros eram uma loucura e, no início, eu achava a Carine extremamente ‘fora da casinha’”, confessa o jovem aspirante a ator. Na época, ele não sabia que estava indo pelo mesmo caminho. “O tempo foi passando e percebi que estava cada vez mais parecido com ela, e aquilo era maravilhoso.”

A primeira apresentação do grupo foi uma dramatização da música “Trem Fantasma” na principal praça da cidade de Osório. “Para nós, aquilo foi surreal”, conta, saudoso. “Era incrível fazer algo tão divertido simplesmente porque gostávamos.”
Todos os sábados pela manhã, Acrides e colegas ensaiavam em um espaço cedido em uma creche da cidade. Apesar do pequeno espaço, o grupo chegou a ter 40 membros. Com o passar dos anos, muitos deles se tornaram atores fixos e passaram a participar de festivais ou produções maiores. “Mas tudo isso demanda dinheiro, e éramos apenas crianças que dependiam do ‘paitrocínio’. Qual era a solução?”, pergunta o estudante, já oferecendo a resposta: “a famosa rifa”.
O grupo passava o ano vendendo rifas, fazendo brechós de roupas doadas e pedindo patrocínios pela cidade. “Até abraços nós vendemos! A gente se virava como podia e sou muito grato por todos os perrengues que passamos pelo amor à arte”, observa.
Foi essa proatividade em prol do grupo que fez Acrides perceber, desde cedo, que era preciso saber mais. Ele era um jovem ator do interior com o apoio de uma professora, mas se quisesse ir além, ele mesmo deveria se preparar. Quando percebeu, já estava costurando os figurinos, aprendendo a fazer a iluminação, os penteados e o que mais fosse preciso. “Ganhei o apelido de ‘o habilidoso’, porque me metia em todas as áreas e queria aprender a fazer tudo”, relembra. “E meio que consegui.”

Além desse grupo, Acrides ainda participava do teatro da escola, que acompanhou desde o início. A gurizada se dedicava a fazer esquetes para datas comemorativas e apresentações para outros alunos. Com o passar dos anos, os atores foram se formando. Mas o teatro não saiu da vida deles. O professor, que era oficineiro na Secretaria de Cultura, criou um grupo de atividades culturais com os alunos que se formavam.
“Todos os grupos foram super importantes na minha construção artística e pessoal. Cada perrengue, cada roxo que eu adquiri nos ensaios, cada choro após uma apresentação me construiu como artista”, avalia Acrides.
Em 2019, no Festcarbo, o festival de teatro da região Carbonífera, em Arroio dos Ratos, Acrides viveu um dos momentos mais importantes da sua vida artística. Ele e as colegas Taila, Bia e Luiza correram para o espetáculo “Joaquim e Joaquina”, criado por eles mesmos. “Saímos de Osório às 5h, com o céu ainda meio escuro, e fomos fazendo os penteados no carro”, conta. Ele ainda lembra do cheiro de fixador de cabelo. “Ali, éramos só nós quatro, dando a cara a tapa.”
Ao chegar no evento, o quarteto ainda teve que arrumar a luz, o cenário, o som e fazer as maquiagens. Tudo isso tremendo de frio. Aquele dia acabou sendo o mais frio do ano. “Antes de entrar em cena, esquentamos os pés com o secador de cabelo e não tínhamos coragem de tirar os casacos. Mas quando as cortinas se abriram e a luz do refletor acendeu, nada daquilo importou. Haviam 800 crianças sentadas ali, esperando que contássemos a nossa história. Foi uma experiência única. Terminamos enrolados em cobertores, mas com a sensação de dever cumprido.”
Para Acrides, o teatro é muito mais do que fazer algo para si, é compartilhar com o outro o que te transborda. “Nós só sabíamos chorar de orgulho por todo o nosso esforço. E o melhor de tudo: só chegamos lá porque decidimos nos arriscar. Por que, sinceramente, tinha tudo para dar errado”, acredita.

“Quando eu estava no Ensino Médio, me perguntavam constantemente se ia fazer faculdade de teatro, e sempre respondia que não”, conta Acrides. “Não me via trabalhando com arte, mesmo que tudo que eu fizesse dissesse o contrário.”
As sugestões de que era muito criativo o levaram até a Publicidade e Propaganda. Era o início do último ano da escola, e a decisão estava tomada, mesmo que isso gerasse surpresa. Já na faculdade, como morava em Osório, Acrides passava quatro horas por dia no ônibus, uma rotina mais do que cansativa. Outra decisão importante foi sair dos grupos teatrais de que fazia parte.
“Entrei na universidade com a mente fervilhando de ideias e tudo corria bem até o quarto semestre. Foi quando o desespero bateu”, conta. Depois de anos atuando e vivendo pelo teatro, a criatividade, segundo ele, precisava de um escape. “Percebi que necessitava do teatro para me manter vivo por dentro.”
E o palco não trouxe de volta só energia e sentido, mas também benefícios psicológicos visíveis, assegura Acrides. “O teatro me ensinou coisas valiosíssimas que vão muito além do que se vê numa apresentação. Me ensinou a trabalhar em grupo, a persistir independente da dor e do cansaço, a valorizar o contato com o outro e, principalmente, a improvisar com os obstáculos da vida”, explica. “A arte forma humanos, e só quem ama o que faz sabe o poder transformador que o palco tem.”

Sensibilidade, empatia, dedicação e disposição para a troca de experiências são as características que Acrides considera as principais relações entre a arte e a comunicação. Sair da zona de conforto é outro ponto em comum. “Só é possível crescer quando se experimenta o novo. O teatro me ensinou a reagir quando algo dá errado, a ser vulnerável e a ser eu mesmo.”
No ano passado, Acrides realizou o sonho de se apresentar no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, e foi bem no dia do seu aniversário. Mesmo assim, se ver como artista é algo recente. “Eu achava que artista era só quem vivia da arte. Depois, percebi que é muito mais sobre amar o que faz e se entregar.”
Para um sagitariano criativo, 2020 tem sido um desafio. A procrastinação se tornou um inimigo a ser combatido no meio da quarentena. “Em meio a isso e à vontade de sair correndo, tenho alguns surtos de criatividade”, revela.Para o futuro, além de se formar em Publicidade, Acrides pretende estudar teatro mais a fundo e experimentar atividades diferentes que, nesse momento de vida acadêmica, não tem tempo disponível para fazer. Se ele, que dedicava, há alguns anos, cada minuto ao teatro, diz hoje que não tem tempo, então sabemos que sua vida acadêmica deve estar realmente puxada. O Mescla torce para que, em breve, Acrides volte ao seu lugar favorito no mundo: o palco, não importa o tamanho ou onde.
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Quando sento em frente ao Espaço Hora do Conto, passo a conversar com Cleia Haubert, atriz e idealizadora da Cia do Riso, que dá vida à Gelatina. Artista inquieta, Cleia fez teatro durante a adolescência e, quando adulta, foi projetista da loja de móveis que manteve por muitos anos. Há 18, no entanto, paralelamente, nascia a Cia do Riso, quando ao fazer uma substituição em um evento infantil como mestre de cerimônias, em um parque de Xangri-Lá, Cleia caiu nas graças de Caburé, um milionário excêntrico da cidade. A partir daí a produtora de teatro da atriz ganhou vida e hoje a Cia do Riso tem várias frentes de trabalho: produz e organiza eventos e espetáculos com exclusividade, anuais ou regulares. “É muito amplo o trabalho da Cia, mas acaba centralizando no projeto que tenho de vida, porque eu faço parte da direção, do figurino, da maquiagem, da criação de texto, etc.”, contou a atriz.
A Gelatina foi a personagem que agradou Caburé, sendo a responsável pelo pontapé inicial da Cia do Riso. Toda a vez que perguntava sobre a boneca, Cleia sorria. O orgulho que sente da personagem é refletido nos olhos da artista. “Ela é o meu exagero, traz referências das minhas ideias de quando eu era criança, do meu imaginário”, explicou. Na infância, Cleia achava que era Emília, do Sítio do Picapau Amarelo, e assim surgiu a construção da personagem. Durante sete anos, Cleia e Gelatina trabalharam com crianças no parque de Caburé, mas a personagem não é querida só pelo público infantil. Ela faz apresentações para desde o ensinos fundamental, passando pelo médio e chegando até os adultos.
Depois de tanta experiência, Gelatina resolveu virar escritora (com a ajuda da Cleia, é claro!), e a primeira edição, realizada em parceria com a Livraria Kadernu’s, contou com mil livros que esgotaram já em outubro deste ano. Cleia resolveu fazer o livro com Carlos Hollmann, proprietário da Kadernu’s, já que ambos têm uma visão parecida sobre o conceito de Feiras de Livros.
É assim que A Terra do Lelé conta a história da criação de Gelatina, que surge do imaginário de Lelé, uma criança que quer ser rei do planeta dele. Juntas, Gelatina e Cleia, tratam de temas importantes e que já devem ser abordados com os pequenos. “Na terra do Lelé, todo mundo é colorido, então as pessoas podem ser da cor que quiserem, logo, elas podem ser do jeito que quiserem”, explicou. A artista, que se define muito como mãe – das filhas e também de todas as pessoas que interagiram com ela através do teatro -, vê o livro também como um filho. Talvez, por ter projetado móveis por tanto tempo, os objetos da vida de Cleia acabam criando vida também. “O livro é um ponto de partida para mim, para que eu possa trabalhar todos esses assuntos que acho pertinentes. Então, eu tenho que começar a carregar esse filho para os lugares para onde vou”, comentou. A história contada por Gelatina tem ilustrações desenhadas por Cleia, que traz a identidade da personagem para as páginas.
Neste momento de minha conversa com Cleia, o público que está no Espaço Hora do Conto começa a demonstrar que parece ser bem exigente. Sentados nos tapetes de EVA, as crianças da Escola Municipal de Ensino Infantil Zozina Soares de Oliveira esperam ansiosas pelo início da apresentação. Cleia se despede de mim e dá lugar, totalmente, a Gelatina. Tagarela e risonha, a boneca agrada o público nos primeiros minutos. O calor não parece atrapalhar tanto as crianças, que ficam atentas a cada movimento da personagem. “Todo mundo tem uma história para contar, mas, agora, eu vou contar a minha história”. Interagindo com o público do início ao fim, nenhuma contação de histórias de Gelatina é igual, já que ela trabalha com o improviso. Metade do espetáculo é o que a platéia oferece e a outra metade é o que já foi idealizado antes.
Depois da primeira apresentação do dia, sigo com Gelatina para o camarim. Ela tem mais três apresentações e precisa se preparar para a próxima. Cleia explica que Gelatina é sempre a mesma, mas a linguagem muda de um público para o outro. A boneca é tão bem recebida por onde passa que é difícil tirar o figurino e voltar a ser a Cleia. “Esse mundo lúdico afasta a gente da realidade e é maravilhoso”, explicou.
A dupla já passou por diversas experiências juntas e elas me contaram algumas. Momentos sempre significativos para as duas são os trabalhos com alunos de inclusão. Cleia conta que na primeira vez que fez uma apresentação na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), uma pessoa com problema de visão na platéia dava muitas gargalhadas durante o espetáculo, apenas com a percepção auditiva. Além disso, as apresentações em hospitais também marcam a vida das duas. “Isso desconstrói as coisas que a gente pensa”, finalizou.
Desde o começo de minha interação com Cleia e Gelatina, combinamos uma brincadeira: que a artista deixaria a personagem entrar em cena para responder minhas perguntas. Peço, então, para a boneca me contar o que aprendeu com a Cleia. “Além de fazer graça e trazer informação de acordo com as coisas que vão se transformando no mundo, ela ensinou a me adaptar a tudo que vemos de novo”, explicou. Nesse momento, Cleia volta para dar a sua resposta: “eu não preciso envelhecer nunca, posso estar sempre viva com essa criança que está dentro de mim”.
Finalizando nossa entrevista, pergunto se há algo que uma gostaria de dizer para a outra. Gelatina levanta, serve um copo de água e fala, com sua voz característica, meio enrolada e infantil, “ai, mas que pergunta difícil”! Com o silêncio que se instaura, é quase possível ouvir as duas pensando juntas. Depois de uma risadinha, Gelatina resolve começar, “não envelhece, porque eu preciso de ti”.
Cleia explica que o mais interessante de seu trabalho são as lembranças que vai acrescentando na sua trajetória. “É meio melancólico, mas acho que é o que tem de mais legal na vida, tu fazer coisas enquanto tens vitalidade, e depois poder envelhecer e visitar essas memórias. Então, obrigada por isso, Gelatina”, confidenciou com emoção.
A obra A Terra do Lelé, de Cleia Haubert, pode ser encontrada na Livraria Kadernu’s, com a escritora (pelo e-mail: ciadorisonh@gmail.com) e, em breve, estará disponível para vendas online. Confira o trabalho da artista na página do Facebook da Cia do Riso.
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]]>Porto Alegre acordava lentamente na manhã de sábado (dia 7/4) quando a Casa de Cultura Mario Quintana começava a movimentar-se. O sol batia tímido no Jardim Lutzenberger, terraço do edifício cor de rosa, quando um biólogo entrou para fazer a manutenção do local. No hall, a exposição “O Rio na Casa” dava boas vindas àqueles que encaravam os incontáveis lances de escada para vê-la.
As 24 fotos que mostram a Capital a partir da vista dos barcos Cisne Negro e Catamarã, registram as paisagens vistas sob o olhar do Guaíba. O projeto de Leonardo Selister e Cláu Paranhas mostra a importância daquela que os autores chamam de “o bem mais precioso e ameaçado do planeta: a água”. O ensaio também chama a atenção para a presença do rio que banha Porto Alegre.
Foram dezenas de atividades no sábado pela manhã, algumas simultâneas. Quem descia para o térreo não teve tempo para descansar. Logo no hall de entrada da Casa, os atores do Oigalê Teatro de Rua agitavam o público com badulaques e cantoria. Cheios de cores e músicas, o grupo abordou a importância da valorização da água. Eles prenderam a atenção de quem passava por lá e deixaram uma mensagem “o futuro não é raio lazer e naves voadoras, o futuro é água”.
No lado de dentro, as salas foram tomadas por debates e conversas inspiradoras sobre educação, meio-ambiente, consumo, produções sustentáveis, mercado de trabalho e outros assuntos. Entre o público presente estavam empresários, educadores, estudantes e comunidade em modo geral, se revezavam trocando ideias e experiências.
Ao final da manhã, quando o sol já estava a pino e a cidade no ritmo costumeiro, o grupo BatuKatu se apresentou no Palco Líberty, montado na calçada da Rua 7 de Setembro. O projeto, que se denomina como um “Núcleo de Estudos e Vivência em Música Corporal”, usa os corpos dos artistas como percussão e suas vozes como melodia. O resultado foi um público engajado, que participou da apresentação cantando, batendo palmas e dançando.
Crianças, adultos e idosos se encantaram com a música do grupo e mesmo os de passagem paravam em frente ao palco. A apresentação, que teve direito até à roda de ciranda, trouxe, nesta ocasião em especial, fragmentos de composições famosas de artistas brasileiras, como forma de homenagem à mulher. Eles buscaram abordar a problemática da violência e do desrespeito à população feminina e pregaram a igualdade, independentemente de cor, classe ou gênero.
A Virada Sustentável deixa saudades na cidade, que pela terceira vez recebeu o evento. O que fica são ideias fervilhando e anseio por mudanças.
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]]>Inspirado no livro “Holocausto brasileiro”, da jornalista Daniela Arbex, “Aos Sãos” conta a história do manicômio da cidade de Barbacena, em Minas Gerais. A instituição é conhecida por seu passado lúgubre, pois ofereceu, durante décadas, tratamento desumano e injusto para milhares de pacientes. Muitos dos internados não tinham nenhum diagnóstico de doença mental. Eram “perturbadores da ordem”, desempregados, mendigos, prostitutas, homossexuais, mulheres insatisfeitas. Entre a década de 60 e 80, historiadores estimam que pelo menos 60 mil pacientes tenham morrido no local, vítimas de maus tratos e procedimentos negligentes.
Produzido pelo Trama Coletivo de Teatro, órgão que nasceu no Departamento de Arte Dramática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o enredo de “Aos Sãos” gira em torno de cinco pacientes que dividem histórias, angústias e incertezas. O elenco conta com Bruna Casali, Juliana Wolkmer, Luiz Manoel, Rafael Bricoli e Raíza Rolim. Ao todo, são 50 minutos de apresentação, com trilha sonora de Maithan Timm Knabach e figurino de Sandra Amorim.
Novidade do circuito, “Aos Sãos” terá sessões comentadas aos sábados. Profissionais da área da saúde, da assistência social e das artes visuais e dramáticas são convidados para debater e refletir a peça após as apresentações dos dias 7, 14 e 21 de outubro. A peça seguirá em cartaz até o próximo dia 22, sempre às quintas, sextas, sábados e domingos.
Serviço
O que: espetáculo “Aos sãos”
Quando: de 5 a 22 de outubro (todas as quintas, sextas, sábados e domingos), às 20h
Onde: Sala Álvaro Moreyra (Av. Erico Veríssimo, 307)
Quanto: R$ 30 (público em geral) e R$ 15 (estudantes, idosos, classe artística e municipários)
Compra antecipada de ingressos: Loja Sirius (Rua da República, 304)
Duração: 50 minutos
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]]>O evento conta com diversas atrações, como oficinas, palestras, consultorias, comércio de produtos e serviços, artes gráficas, moda, cerveja artesanal e food trucks. Como destaque, exibição especial dentro das comemorações de 8 anos de apresentações do espetáculo teatral Frida Kahlo, à Revolução.
O Teatro Renascença fica na Avenida Érico Veríssimo, 307. O evento começa às 13h, com previsão de ir até as 19h. Para mais informações e acesso à programação, visite a página do evento no facebook.
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