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Do lado de fora das tendas, os pombos, típicos moradores do local, disputam o caminho com os visitantes, que chegam a 70 mil ao dia, segundo estima a Câmara Rio-Grandense do Livro. O público diário, maior que a população da maioria das cidades gaúchas, é composto por estudantes uniformizados acompanhados dos professores, moradores da cidade, leitores entusiastas e os típicos jogadores de damas que frequentam a praça.
São 104 bancas espalhadas pelos 9 mil m² da Feira, e mais de 800 atividades gratuitas, entre palestras, oficinas, bate-papos e sessões de autógrafo. A programação leva o visitante a perceber que o evento é um grande contador de histórias. As narrativas percorrem as calçadas de pedra, viajam pelas mais de seis décadas de feira, transitam pelas folhas das obras. Existe, ali, uma harmonia entre cidade e cultura.

No primeiro andar do prédio do Memorial do Rio Grande do Sul, uma exposição transporta o visitante para a República Tcheca, país convidado de honra desta edição da Feira do Livro. Diferente da banca tímida no centro da feira, os cartazes, fotografias e histórias contam a história do local que comemora o centenário de fundação da extinta Tchecoslováquia. Eventos, como a homenagem ao país no Cine Santander Cultural, bate-papos com autores tchecos e peças de teatro, foram acrescentados à exposição, trazendo para Porto Alegre uma porção da Europa Central.
Nas paredes, histórias da independência do país, assim como os líderes dos movimentos são lembrados, dividindo o espaço com demonstrações culturais da República Tcheca, entre elas desfiles temáticos e tradições dos habitantes.
Um estande em especial chama a atenção dos visitantes da Feira do Livro de Porto Alegre. Intitulada “Os menores livros do mundo”, a editora exibe dezenas de miniaturas feitas de forma artesanal, assim como mini estantes para guardar as publicações. As obras cabem na palma da mão e carregam histórias. Com matriz peruana, a editora está presente em 23 países espalhados pelos cinco continentes, e produz livros em diversas línguas.
A banca, localizada na área internacional da feira, fica a cargo do representante Elias Avílio, que se mudou para o Brasil afim de trabalhar para a editora. Ele conta que o público é específico e, geralmente, formado por pessoas adeptas a obras peculiares. Uma cliente deixa o local carregando dois livros infantis. Ana Maria diz que procurava um presente para uma criança “que já tem de tudo”, e viu nos menores livros do mundo uma oportunidade de encantar o presenteado.
Com uma grande diversidade de livros, sejam eles os menores ou os mais curtos do mundo, dos artesanais aos produzidos por grandes editoras, a Feira do Livro de Porto Alegre encerra atividades no dia 18 de novembro e deixa a Praça da Alfândega com a expectativa para a próxima edição.
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]]>À primeira vista, o conceito de colaboração na economia não se insere no mercado editorial. Contudo, no mundo das livrarias, a ligação entre ambos pode ser feita quando se analisa um sebo. Economia colaborativa significa reaproveitar ou compartilhar algo, desde bens de consumo ao conhecimento, e isso é algo que sebos fazem por definição.
A história mais comum é que os sebos receberam esse nome pelo fato de livros manuseados serem mais sujos e, portanto, ensebados. Entretanto, se as versões a respeito do nome se confundem e modificam dependendo do especialista ou fonte de referência, o consenso é que eles prestam diversos serviços para o mercado livreiro.
Segundo a monografia O Impacto da internet no futuro dos Sebos de Porto Alegre, de Daiane de Matos, os primeiros registros de sebos no Brasil aparecem em 1875. Na época, das 23 livrarias que existiam no Rio de Janeiro, oito eram sebos. Foi nesse tipo de comércio que também nasceram grandes editoras do país. A livraria e editora Saraiva é um exemplo. Ela começa sua história quando o fundador, Joaquim Inácio Saraiva, compra uma biblioteca usada de livros jurídicos ao se mudar para São Paulo.
Em Porto Alegre, a história desses estabelecimentos é mais inacessível e os primeiros registros só aparecem em 1956. Alocados principalmente no Centro Histórico e na rua General Câmara, os sebos são parte intrínseca do cenário cultural da capital gaúcha.
Se no início a história deles se confunde com a das livrarias e editoras, hoje, os sebos se sobressaem pelo sistema de trocas, preços mais baixos, edições raras e estrangeiras e facilidade para se encontrar livros que saíram de circulação. O mercado, antes considerado sujo, tornou-se opção para um grande grupo de leitores que buscam o reaproveitamento do objeto livro e o consumo consciente.
Em Porto Alegre, “Beco dos Livros”, “Ladeira dos Livros” e “Só Ler” são exemplos de sebos com visões distintas sobre fazer parte da colaboração na economia. No vídeo abaixo, donos e funcionária dos estabelecimentos contam sobre como é trabalhar em um sebo, o envolvimento diário com o público e de que forma o conceito de economia colaborativa pode aderir, ou já aderiu, o mundo dos livros usados.
A Economia colaborativa é um conceito recente e vem se construindo ao longo dos últimos anos. Focada na colaboração e na troca de expertises de diversos profissionais, essa economia tem como característica evitar a compra exacerbada e focar no consumo consciente. Segundo Clair Puffal, gestora do Sebrae no projeto da economia criativa de Porto Alegre, é difícil definir a economia colaborativa dentro de apenas uma “caixinha”, ela pode ter várias definições.
Aline Bueno é mestre em Design estratégico pela Unisinos. Para caracterizar a Economia Colaborativa, Aline se baseia nos aspectos levantados pela jornalista e criadora do portal de economia colaborativa El Plan C, Marcela Basch. “Ser distribuída em um sentido forte, com capitalização, lucros, esforços, informação e controle compartilhados entre pares, sem mais-valia; que tenha responsabilidade, ética e esteja orientada para o bem comum, tanto em termos sociais como ambientais”, sintetiza.
Para Aline, essa economia nos ajuda a modificar a forma de consumo. “É uma economia que nos faz lembrar que temos outras opções além de comprar e vender itens. Podemos trocar, compartilhar, emprestar, doar. Podemos também usar moedas complementares. E ainda podemos fazer tudo isso nos organizando de maneira coletiva, em que todos compartilham as responsabilidades, mas também os benefícios” exemplifica.
Aline ressalta que, além de promover alternativas mais éticas e sustentáveis, as economias colaborativas promovem o alcance dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável elencados pela ONU em 2015. “Em especial, o ODS 8 – Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo, e trabalho decente para todos – e o ODS 12 – Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis”, afirma.
Segundo Clair Puffal, os sebos representam uma parte da economia colaborativa que não percebemos. “O sebo entra na questão de trocas, mas principalmente na questão econômica também. Eu acho que é uma coisa que a gente não se dá conta, mas já existe há tempos e pode ser colocada como colaborativa sim”, afirma.

Aline utiliza a Sharing Business Model Compass para comprovar que sebos (tanto físicos, como virtuais) estão dentro do modelo da economia colaborativa. Desenvolvida por Boyd Cohen e Pablo Muñoz e publicada no site Shareable, a bússola é usada em Startups e ajuda a enxergar um espectro que vai de um modelo mais colaborativo para um nem tanto, mas que ainda assim se encaixa como economia colaborativa.
“Na área periférica, a bússola possui 6 dimensões presentes em modelos de negócios da economia colaborativa: tecnologia, transação, abordagem de negócios, recursos compartilhados, modelo de governança e tipo de plataforma. Cada dimensão é dividida por 3 aspectos” explica Aline.
Para os sebos, ela acredita que estejam no meio do espectro. “Praticamente não precisam de tecnologia para existir (a não ser para sua divulgação). A transação é de mercado, pois envolve compra e venda. A abordagem do negócio, podemos dizer que é híbrida, pois ao mesmo tempo que tem intenção de lucro, em muitos casos os sebos existem em função de uma “missão” (de persistência) de seus donos. Dão novas casas para itens usados. O modelo de governança não é nem de cooperativa, nem exatamente de uma corporação, e o tipo de plataforma é b2crowd.”
O mercado de livros usados não está só no físico, mas também na internet. Hoje, os sebos se proliferam pelas redes sociais e plataformas facilitando o acesso à leitura e ao livro. Um dos maiores representantes desse mercado é o site Estante Virtual, que reúne sebos de todo o país.
O site conta atualmente com um acervo de cerca de 17 milhões de livros, oferecidos por mais de 2.500 sebos e livreiros de todo o país. Fundado em 2005, a Estante já mediou 20 milhões de vendas de livros, sendo que três milhões foram no último ano. Erica Cardoso é Gerente de Marketing da Estante Virtual e comenta que o site veio para preencher um espaço vago no mercado. “Antes da Estante Virtual, poucos sebos tinham sites próprios e pouquíssimos tinham acervo online, como consequência aqueles livros não eram encontrados pelas pessoas que precisavam deles. Nós preenchemos esse espaço, de democratizar a leitura através de bibliodiversidade, preços baixos e empoderamento do pequeno vendedor”, enfatiza.

Para Erica, a Estante não se encaixa dentro da Economia Colaborativa. “Não nos identificamos exatamente como economia colaborativa, mas sim como comércio colaborativo. Ao reunirmos milhares de pequenos sebos e livreiros em um único site, ampliamos o alcance individual de cada um e juntos ganham força para competirem com grandes varejistas. Por exemplo, o sebo no Pará que através da Estante Virtual passou a vender para leitores do Sul e Sudeste, o livreiro de Santa Catarina que passa a vender também para o norte e nordeste. Além disso, através dos sebos, incentivamos o reuso e o consumo consciente, que caminham próximos de economia colaborativa”, afirma.
Segundo Aline Bueno, porém, a Estante participa da Economia Colaborativa. Ela justifica isso voltando ao conceito da bússola acima apresentada. “A Estante Virtual encontra-se mais próxima da periferia da bússola. Quanto à tecnologia, é ela que habilita a existência do negócio. A transação é de mercado e a abordagem do negócio é claramente orientada para o lucro. Assim como os sebos, dão novas casas para itens usados. O modelo de governança é corporativo, ainda mais agora que foi comprada pela Livraria Cultura. O tipo de plataforma também é b2crowd. Portanto, acredito que tanto os sebos quanto a Estante Virtual se encaixam no tema da economia colaborativa, entretanto, encontram-se em posições diferentes da bússola”, finaliza.
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