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Ensaísta, escritora, jornalista, Rosa já realizou mais de 2 mil entrevistas ao longo de sua carreira. Entre elas, se destacam as conversas com a ativista paquistanesa Malala Youszafai e com o ex-presidente dos Estados Unidos Richard Nixon. Aliás, entrevistar dois nomes como esses, que representam culturas tão diferentes, requer algumas estratégicas, comentadas por Rosa durante o bate-papo com professores, funcionários e estudantes presentes.
“Uma entrevista é sempre um ato dramático, drama aqui, como ação”, afirmou a jornalista. Segundo ela, em uma entrevista para um jornal ou televisão, fala-se sobre o que se sabe, documentando o assunto, relatando ao público o que aprendeu, afinal, “tu não escreves para ensinar nada, escreves para aprender”. A escritora também pontuou que, para uma boa entrevista, o mais importante é a verdadeira, pura e genuína curiosidade, pois só assim consegue-se saber mais da outra pessoa e “enxergar” através da mente do outro como ele percebe o mundo. Para isso, ensina Rosa, é preciso ter muito preparo, e guiar a conversa de maneira meticulosa e, é claro, de forma respeitosa.

Ser transparente sobre o que se sabe é o que vale para o jornalismo. Já na ficção, se escreve sobre o que não se sabe, o que vem do inconsciente, “como um sonho que se sonha acordado”, explica. No texto jornalístico, quanto mais claro se é, mais o leitor ganha. Na ficção, a dubiedade, o implícito são elementos que valorizam o texto.
Outro tema abordado pela jornalista foi a questão da saúde mental e o comportamento humano. Rosa, que já enfrentou crises de pânico, angústias e emoções desenfreadas, chegou a estudar Psicologia. Por diversos motivos, achava que estava ficando louca, afinal, faltava-lhe compreensão de todas as questões que lhe afetavam diariamente. Ela diz ainda que é muito provável que todos nós experimentemos algum tipo de transtorno na mente em algum período de nossas vidas. Inclusive, a Organização Mundial da Saúde (OMS) revelou, em estudo, que uma a cada quatro pessoas tem ou terá um transtorno mental. O problema, diz Rosa, é que esse é um tema tabu, mesmo que seja tão constitutivo do humano.

O Fronteiras do Pensamento é um evento que há mais de 15 anos tem o objetivo de questionar, colecionar respostas e explorar ideias que impactam e alimentam toda a sociedade a partir de diferentes perspectivas, como arte, empreendedorismo, tecnologia e demais áreas que se relacionam diretamente com o cotidiano.
O evento começou oficialmente ontem à noite, com a conferência da jornalista e escritora Rosa Montero, no Teatro Unisinos, anexo à Torre Educacional Unisinos (TEDU), em Porto Alegre. A programação, que se estende até outubro, irá contemplar conferências tanto no formato presencial quanto no online. Para ter mais informações, é só clicar aqui.
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Com a temática “Entre o caos e a ordem”, de curadoria de Fernando Schüler, a 17ª edição da conferência Fronteiras do Pensamento trará seis palestrantes internacionais para Porto Alegre. A jornalista e escritora espanhola Rosa Montero abriu a temporada deste ano, na última quarta-feira (31/5), no Teatro Unisinos, no campus de Porto Alegre. Entre os assuntos expostos, Rosa, que já publicou mais de duas mil entrevistas no jornal El País, transitou por contos e histórias que tendiam ao tema da “inutilidade necessária”, e versou sobre a importância da arte.
Discussão atual no Brasil e no mundo, a disseminação de falsas informações foi pauta da conversa com a escritora, conduzida por perguntas do público que acompanhavam a conferência. “Não apenas as fake news, mas as novas tecnologias e seus algoritmos fazem com que só vejamos aquilo que forma parte do nosso pequeno universo”, disse a palestrante. “Há que educar urgentemente desde pequenos, com aulas de como se relacionar com a realidade, para que as crianças tenham cautela e tentem constatar quando se vê algo”, complementa.

Rosa também trouxe sua visão sobre a importância da leitura e da escrita, afirmando que a realidade é uma construção social. “A escrita nos salva de muitas formas. Primeiro, nos salva lendo. Ler é mais íntimo do que fazer amor, pois você entra na cabeça do escritor ou da escritora”, falou. A autora ainda afirmou que “com as palavras, não apenas criamos a nossa vida, criamos a realidade”.
A ex-redatora-chefe de um dos maiores periódicos europeus, questionada sobre o papel da literatura na busca pelo propósito, destacou ser, antes de escritora, uma leitora apaixonada. “Deixar de ler é a morte instantânea”, afirmou Rosa. Entre as mais de 30 obras publicadas por ela, realçam-se coletâneas jornalísticas, romances e literatura infanto-juvenil, premiadas mundo afora. Em novembro, será publicado no Brasil o livro mais recente da autora, intitulado “O perigo de estar lúcida”.
Ao final do evento, Rosa comentou sobre os atos racistas sofridos por Vinícius Júnior, atacante brasileiro que atua pelo clube espanhol Real Madrid: “Algumas pessoas se sentem orgulhosas de vociferar coisas que, até pouco tempo, eram impensáveis”, disse. Para a escritora, isso se deve, em grande parte, à crise financeira que eclodiu na Espanha em 2008, que causou empobrecimento da população e criou, segundo ela, uma “tremenda onda reacionária”, comparado ao crescimento do nazismo na Alemanha nos anos 1930.

De forma presencial, o Fronteiras do Pensamento ainda receberá a ativista iraquiana Nadia Murad, no dia 21 de junho; o neurocientista norte-americano David Eagleman, em 5 de julho; no dia 9 de agosto, o filósofo norte-americano Michael Sandel; o documentarista norte-americano Douglas Rushkoff, no dia 13 de setembro; e, para encerrar a temporada, no dia 4 de outubro, o arqueólogo britânico David Wengrow.
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