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Todas as matérias, deste e dos semestres passados, podem ser acessadas na página de Jornalismo Investigativo no portal da Beta Redação. E para quem quer ficar ainda mais interessado nas matérias, o Mescla foi conversar com os participantes do grupos.

No ano que mais de uma vez as pessoas se mobilizaram para protestar contra o racismo, o grupo composto por Andressa Morais, Daniela Gonzatto, Sara Nedel Paz, Tainara Pietrobelli e William Martins usou dados de órgãos do estado para descobrir o perfil das vítimas de crimes de racismo e injúria racial, na matéria que pode ser lida aqui. “Tivemos dificuldade em encontrar vítimas recentes que tivessem levado adiante na Justiça esses crimes”, relata Sara. “Isso é justamente uma das hipóteses que levantamos na produção, do porquê desses casos caírem no esquecimento.”
Devido ao distanciamento, todas as entrevistas foram feitas de modo remoto, o que também dificultou essa interação dos estudantes. “Provavelmente nossos maiores obstáculos envolveram o contato com as fontes e o fato do trabalho ser completamente de forma online”, concorda Daniela. “Precisamos nos adaptar, fazendo entrevistas por videochamadas e áudios, por exemplo, o que resgatou um pouco da proximidade que perdemos momentaneamente em função da pandemia.”
“Foi uma forma de aprendermos bastante sobre as diferenças legais entre racismo e injúria racial”, conta Andressa. Para a estudante, a matéria acabou tendo um peso ainda maior quando, em novembro, ocorreu o assassinato de João Alberto Freitas, no mercado Carrefour em Porto Alegre. Um fato lamentável, que acabou fazendo parte das estatísticas da matéria.
Para o grupo, essa foi uma oportunidade única de escavar e analisar dados de uma área sensível, que apenas recentemente começa a ser debatida abertamente. “Esse assunto tem uma relevância social imensa”, observa a estudante. “Pudemos trazer um pouco da dimensão e do panorama dos crimes raciais no estado em que vivemos com a visão de profissionais com propriedade no assunto combinando com dados relevantes, o que também mostra a realidade, sem achismos.”
“Estamos felizes com o resultado. Pudemos pode trazer indagações relevantes sobre o assunto”, conclui Sara. “ Conseguimos mostrar para as pessoas a relevância que isso tem e que não pode ficar apagado. Tem que ser falado sobre. As pessoas vão poder se enxergar na matéria, ver as dificuldades e o que poderia mudar isso.”

Existem muitas matérias sobre vários aspectos do futebol, mas os estudantes César Weiler, Emerson Santos, Frederico Wichrowski, Gustavo Machado e Kévin Sganzerla uniram o amor pelo esporte com a preocupação com o cenário dos atletas no estado. A matéria, que pode ser lida aqui, traz à tona as relações trabalhistas, muitas vezes bem conflituosas entre os jogadores e os clubes de futebol/
“Desde o início nosso grupo queria falar sobre algo relacionado ao futebol, e com a pandemia afetando principalmente os clubes do interior, pensamos em entender como os atletas que recebem pouco são afetados pelas quebras contratuais”, explica Emerson. Na reportagem eles mostram que uma maioria gritante dos atletas vive bem distante da realidade luxuosa da televisão, e o cenário de competições apenas no primeiro semestre do ano dificulta ainda mais.
“Tivemos dificuldades porque, como envolve processos trabalhistas, alguns jogadores não quiseram se identificar, foram usados alguns nomes fictícios”, explica César. “Até mesmo conseguir o número de atletas cadastrados na federação se torna um detalhe demorado.” Para o colega Frederico, a experiência concluiu com ganhos para todos os envolvidos. “É maravilhoso poder entrar em contato com informações tão importantes da carreira de atletas que muitas vezes não são famosos como os que estamos acostumados a presenciar e o quão duras são suas realidades”, diz. “Acredito que trazer à tona dados tão importantes é uma missão imprescindível e contribui para mostrar um lado que muitas vezes não é abordado sobre as coisas.”
“Eu me sinto muito feliz. Diante de todas as limitações, nós fizemos um excelente trabalho”, concorda Gustavo. “Conseguimos informações exclusivas, que nós apuramos diante das fontes e isso por si só já satisfaz muito a vida de qualquer repórter. Obter por conta própria uma informação é muito prazeroso. Conseguimos entrevistas muito importantes com presidentes de clubes. A principal voz da instituição nos atendeu. Foram declarações polêmicas que apimentaram muito a reportagem.”

Não é mais uma novidade, mas os dados continuam a alarmar. Em todo o estado, 39% das escolas não possuem biblioteca, e quando possuem, muitas vezes não são abertas por falta de funcionários. Esse é o tema da reportagem feita por André Cardoso, Clarice Almeida, Isabelle Castro, Lucas Lanzoni e Mateus Friedrich, disponível aqui.
“Tivemos dificuldade num ponto que não esperávamos, que foi foram as fontes estudantis”, conta Lucas. “Além disso, a própria Secretaria da Educação nos respondia com respostas fechadas, que não respondiam os questionamentos.” Os dados com a Secretaria de Educação foram conseguidos graças à Lei de Acesso, mas os estudantes tiveram que correr, já que só chegaram na última semana da produção.
“Por se tratar de educação, já esperávamos que seria um tema que renderia bons resultados”, comenta Isabelle. “A pandemia prejudicou um pouco, e a falta de interesse de alguns órgãos, mas no geral acho que nos saímos muito bem.”

As estudantes Jéssica Mendes, Kellen Dalbosco e Vitorya Paulo apostaram em um tema audacioso, que desde a idealização trazia grandes expectativas. “Queríamos um assunto que expressasse uma problemática”, explica Kellen. “O que causam os homicídios? Os números estão diminuindo? Se sim, por quê? Quem são as pessoas que estão morrendo?”
“Desde que escolhemos o tema, já estávamos apreensivas com a amplitude, e ela se confirmou na produçao”, confessa Jéssica. Falar sobre o caminho dos homicídios na capital exigiu determinação e esforço em grupo. As estudantes cruzaram os dados de homicídios dos últimos dez anos na capital, tendo que reestruturar e criar tabelas que atendessem a nova demanda.
Acostumadas a trabalhar com entrevistas, a quantidade massiva de dados foi o ponto alto nas dificuldades. “A gente trabalha com informação, mas pegar uma planilha com dados de homicídios no estado, por ano, entender os padrões, as estatísticas… É complicado”, concorda Vitorya.
Finalizando o curso de Jornalismo, as estudantes compararam a disciplina a produção de um TCC. “Me vi exausta. Teve um momento do semestre que pensei em cancelar, mas como meu grupo todo estava passando pelas mesmas angústias, seguramos uma a mão da outra”, relembra Vitorya. “Nessa disciplina, se não tiver um grupo engajado, não vai para frente. E fica a lição de não desistir na primeira. Acho que fizemos um trabalho lindo, bem feito e apurado, mesmo com as limitações da pandemia.”
“Falar sobre homicídios é sempre delicado, e sem esse contato presencial, foi ainda mais difícil”, assinala Jéssica. “Mas todas estamos felizes em entregar um trabalho com essa qualidade. Conseguimos um bom resultado e se tornou motivo de orgulho.”
“Jornalismo investigativo é a chama do jornalismo. São dados e histórias, e tu quer entregar para o mundo uma informação, que de alguma forma seja útil”, resume Kellen.
A matéria pode ser lida na íntegra aqui.

Um assunto muito pouco abordado a nível regional foi o tema escolhido pelos alunos Régis Viega, Lucas Ott e Guilherme Santos, que você pode ler aqui. Motivados pela dificuldade encontrada pelo próprio Régis que é cadeirante desde 1999, os alunos foram investigar sobre as vagas de emprego para PCD’s e os dados foram surpreendentes.
“Para mim foi um baque bem grande, já no início da pesquisa”, comenta o colega Guilherme. “As empresas pouco empregam pessoas com deficiências, só fazem isso porque existe uma lei que as obriga.” Uma realidade conhecida de Régis, que é cadeirante, ainda tiveram dificuldade na falta de fontes oficiais que pudessem orientar sobre o assunto. “Também é complicado encontrar cases com portadores de diferentes deficiências. Cegos, por exemplo, são os mais excluídos do mercado de trabalho.”
Com a finalização da matéria, os estudantes comemoram o resultado e a possibilidade da reportagem se tornar uma referência para abordagem do tema. “Não existem muitas reportagens sobre o assunto, parece que não há interesse em saber por que esses números são tão baixos”, concorda Guilherme. Uma hipótese levantada durante a produção se confirmou no contato com as fontes, como conta Lucas. “Não é o mercado de trabalho a raiz do problema. Muitas das vagas não são ocupadas porque essas pessoas enfrentam dificuldades desde a educação. O problema está em toda a sociedade.”
Para descobrir o estado em que se encontram os monumentos na capital, o grupo de Porto Alegre, Carolina Santos, Jessica Montana, Josi Skieresinski e Luiza Soares, teve que cruzar dados e desbravar a falta de informação. A matéria que pode ser lida aqui é um trabalho de investigação sobre o estados dos monumentos históricos e a verba destinada para tal. “Nossa ideia era fazer uma relação das homenagens a pessoas escravocratas ou fascistas, da mesma forma que houve esse movimento em outros países”, conta Luiza. “Queríamos fazer uma relação de quantas pessoas homenageadas eram mulheres, ou negros, mas os dados são poucos e dezatualizados.”
O passo seguinte foi encontrar um novo foco para a investigação, e dessa mudança, os alunos se depararam com a falta de manutenção e preservação desses bens históricos. Com o trabalho realizado, o grupo formou um panorama que também serve de referência. “Estamos realizados. Apesar das mudanças, conseguimos fazer uma reportagem de cultura que é também de denúncia”, conclui Luiza.
Para a professora Luciana, apesar das dificuldades trazidas pela pandemia, o semestre foi produtivo, com temas de grande interesse e um aprofundamento nas técnicas que são usadas no mercado. “Se por um lado o distanciamento social foi obstáculo para o convívio presencial, por outro favoreceu a ambientação para a busca de dados”, observa Luciana. “Estamos todos mais em casa e na frente do computador. Além de ter contribuído para que tivéssemos palestras importantes.”
Durante o semestre, os estudantes puderem conversar com nomes como o jornalista e criador do Lagom Data, Marcelo Soares, radicado em São Paulo; a jornalista Naira Hoffmeister, do Grupo Matinal Jornalismo, e o repórter Marcel Hartmann, ambos recentemente premiados no 62º Prêmio ARI/Banrisul de Jornalismo. “Foram contribuições importantes que deram mais estímulo para os grupos, que se engajaram muito nas suas investigações”, diz Luciana. “Acho que produziram um belo portfólio para a carreira, e ainda vão inspirar as turmas que virão.”
Com os vários grupos e novas realidades, a monitoria acabou tendo papel ainda mais importante no auxílio à organização e suporte dos grupos. O estudante Natan Cauduro foi monitor da disciplina e acompanhou de perto o desenvolvimento dos grupos, apesar das dificuldades.
“Todas as reportagens têm qualidades muito interessantes”, comenta ele. “Foi muito trabalhoso, mas talvez tenha sido mais no sentido de se entender no ambiente virtual, já que todos entregaram matérias bastante positivas.”
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]]>O filme é dividido em duas partes, cada uma com uma história diferente. A primeira, “Com um Pouquinho de Sorte” fala sobre um casal, Jorge e Maria, que entra em crise financeira coincidentemente junto com a chegada do primeiro filho. A segunda, “Vida Nova por Acaso”, que foi digitalizada e está disponível na internet, gira em torno de uma dupla de ladrões, Magrão e Crioulo, sua luta para sobreviver em Porto Alegre e a relação que surge entre o Crioulo e uma moça de alta classe social.
O encontro foi ministrado pelos coordenadores de Realização Audiovisual, Milton Prado Franco Neto e Vicente Moreno, e teve como convidados a filha de Odilon Lopez e responsável pelo acervo do falecido diretor, Vanessa Lopez, e o realizador audiovisual e membro do coletivo Macumba Lab, Alexandre Meireles. Vanessa foi quem iniciou a conversa compartilhando um pouco sobre a vida e o trabalho de Odilon.
O diretor nasceu em Minas Gerais, em 1941, e se mudou para o Rio Grande do Sul em 1959. Em terras gaúchas, participou da Campanha da Legalidade, em 1961, foi um dos fundadores da TV Piratini e ajudou a fundar a TVE. Odilon decidiu que queria trabalhar com cinema após conhecer os filmes do Charlie Chaplin, e chegou até a vender um apartamento para conseguir gravar sua obra mais conhecida, “Um é Pouco, Dois é Bom”.
Vanessa disse, durante o encontro, que estava muito feliz pelo reconhecimento que esse filme passou a ter nos últimos tempos.
“Penso que meu maior objetivo na vida é espalhar a obra do meu pai, fazer com que ela alcance o máximo de pessoas possíveis. E me deixa muito feliz ver que o Odilon está conseguindo alcançar a atual geração de jovens com o trabalho dele”, comenta com um sorriso no rosto.
Já Alexandre Meirelles direcionou sua fala durante o encontro para o filme de Odilon. Em especial, à segunda parte, “Vida Nova por Acaso”, por estar disponível na internet para todos que quiserem conferir. Meirelles deixou claro que é um grande fã desse filme e trouxe para o debate muitas perspectivas que o longa traz, como o fato de ele desconstruir a imagem do gauchismo que se tinha na época, e ter muitas filmagens no centro de Porto Alegre dos anos 1970. Mas, para Meirelles, o ponto alto dessa obra está no protagonismo negro que ela traz.
“Apesar de esse filme estar completando 50 anos, ele continua muito atual. A segunda parte dele é uma comédia, é divertidíssima, mas tem um fundo sério nela. Principalmente no protagonista Crioulo, na forma como ele se relaciona com as pessoas de classe alta, na cena em que ele está no mercado e advertem o vendedor para ficar de olho nele, entre outros pontos”, salienta.
Meirelles acrescentou que outro ponto relevante de “Um é Pouco, Dois é Bom” é o fato de ser um filme com protagonista negro diridigo por um homem negro. Segundo ele, a década de 1970 teve uma explosão de presença negra no cinema, mas isso decaiu com o passar do tempo. Porém, Meirelles acredita que os negros estão tendo cada vez mais espaço no cinema atualmente, e que está por vir uma nova onde de obras produzidas por pessoas negras.

O Dia da Consciência Negra amanheceu triste e cinzento. Na noite de ontem, a mesma do debate do filme, e por uma infeliz coincidência, com relação ao que foi discutido, dois homens agrediram até a morte um homem negro, João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, no estacionamento do supermercado Carrefur, na zona norte de Porto Alegre.
O coordenador do curso de Realização Audiovisual da Unisinos, Vicente Moreno, comenta que havia um otimismo no tom do encontro. “A juventude está mais politizada e preocupada com a questão racial. Vemos isso na eleição recente de 5 vereadores negros em Porto Alegre, no Black Lives Matter, no Macumba Lab, no cinema e audiovisual negro que estão ganhando mais protagonismo”, diz ele. Não havia como imaginar que, naquele momento, o assassinato brutal de um homem negro estava acontecendo na capital gaúcha.
O colega de Moreno, Milton Prado Franco Neto, acrescenta que é muito chocante isso ter acontecido não apenas na véspera do Dia da Consciência Negra, mas na véspera do Dia da Consciência Negra justamente de 2020, que também é o ano do assassinato de George Floyd e de uma série de ações da população negra pelo mundo, com o claro recado de que não é admissível essa violência.
“Isso deixa claro que tem uma barreira impedindo que os gritos da população negra pelo fim da violência atinjam parte da sociedade. Aqui no Rio Grande do Sul nós temos uma polícia e uma cultura policial muito violenta, mas não há dúvida nenhuma de que as pessoas negras são as que mais sofrem com isso. E o acontecimento de ontem é só mais uma prova disso”, comenta o professor.
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]]>O Stay Black se dedica a organizar eventos de rua gratuitos, fazer rodas de conversa e trazer artistas negros de várias partes do Brasil para que seus trabalhos tenham um público cada vez maior. Agora, o coletivo está lançando seu mais novo trabalho, o programa Tem Preto no Sul, graças ao patrocínio conquistado no programa Natura Musical, que anualmente seleciona iniciativas voltadas à música para receberem apoio financeiro.
O intuito do projeto Tem Preto no Sul é ajudar a lançar novos artistas negros na cena musical do Rio Grande do Sul. Para isso, serão selecionados três músicos negros do Estado para receberem oficinas de produção musical, composição e expressão corporal a fim de dar a eles toda a experiência necessária para se lançarem na música. Além disso, cada artista também vai gravar um EP com até três faixas custeado pelo projeto.
Esse é o primeiro projeto do grupo que recebe apoio financeiro via edital. Normalmente, todos os trabalhos são realizados de forma independente. A equipe por trás da iniciativa é composta somente por pessoas negras, o que, segundo o produtor geral do Tem Preto no Sul e um dos fundadores do coletivo Stay Black, Lucas Uilson da Silva, é uma forma de criar oportunidades em outras áreas operacionais do meio produtivo da música.
“Através da criação desse espaço e fomento de uma cena onde estamos no protagonismo, acreditamos que vamos impactar não só em nosso meio, mas na sociedade em geral, revolucionando um mercado que até então nos trata como recorte, nos colocando sempre numa posição de cotas em que nunca podemos ser todos ou ser muitos, sempre somos um ou dois”, explica Lucas, também conhecido pelo nome artístico de Zilladxg.

Zilladxg defende que a baixa visibilidade negra dentro da música é um reflexo do racismo estrutural da sociedade. Conforme o produtor, existe um número cada vez maior de negros na música, mas muitos acabam desistindo por conta da invisibilização, da falta de recursos e oportunidades.
“Quem majoritariamente detém os recursos são pessoas brancas, sejam elas produtoras, empresárias, gerentes de marcas que patrocinam o meio cultural, donas de casas de shows, mídias etc. Enquanto o racismo e o privilégio de classes não forem postos na área central do debate e a presença negra nessas áreas ainda for pequena, as oportunidades seguirão nos desfavorecendo”, afirma.
O músico, poeta e educador popular Richard Burgdurff, conhecido pelo nome artístico de Richard Serraria, acrescenta que os negros sempre tiveram uma presença na música ao longo da história do Rio Grande do Sul. Porém, o racismo estrutural da sociedade apagou a identidade deles, principalmente por causa do tradicionalismo gaúcho.
“O tradicionalismo constrói um folclore que boa parte da sociedade gaúcha toma como oficial e que passa a vigorar como uma verdade. E, nesse folclore, não existe a presença negra. Mas a cultura negra existe e é forte até hoje, inclusive dentro da música. A riqueza do Estado foi construída com mão de obra negra. Então, como pode não haver presença negra na música?”, questiona Richard, que é doutor em Estudos de Literatura Brasileira pela UFRGS.
iniciativas como a Tem Preto no Sul, na opinião de Richard, são importantes para furar bloqueios e mudar o cenário atual da música, em que os negros encontram maior dificuldade de produzir, apresentar e disseminar sua obra. “O racismo e a desigualdade social levam muitos artistas negros a não terem boas condições de gravar suas músicas. Toda brecha, todo espaço que houver para mudar esse cenário e incluir esse tipo de conteúdo, eu considero boa”, defende.
Para Zilladxg, episódios como o assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos, e do menino João Pedro e da vereadora Marielle Franco, no Brasil, não são nenhuma novidade para a população negra. O genocídio da população preta, acredita o produtor, perdura por séculos, se agigantou e ficou cada vez mais incabível nas últimas décadas.
“Nossa organização trabalha para dar voz e vez para essa camada da sociedade historicamente marginalizada e que muito contribui para o nosso país, econômica e culturalmente”, avalia Zilladxg. “Nossas vidas e sonhos devem ser levados a sério. E essa não deve ser uma missão somente das pessoas pretas. Toda sociedade deve e precisa reconhecer essa contribuição e agir para sanar essa triste realidade. Essa deve ser uma luta de todos.”
Os interessados em se inscreverem no projeto Tem Preto no Sul podem fazer sua inscrição por meio deste formulário até o dia 20 de junho.
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Rosana Paulino é bacharel em gravura e doutora em Artes Visuais pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), e tem especialização em Gravura pelo London Print Studio, de Londres. Ela conta que, na época em que iniciou a graduação, havia um “achatamento da formação” em que não se questionava o papel da arte na sociedade brasileira.
“Quando eu entro na USP, eu percebo que não há essa presença do simbólico na formação do artista, ou não era aceitado que o artista trouxesse outras camadas dentro da sua obra”, conta. Para ela, esse achatamento de origens artísticas era inconcebível. As raízes católicas e africanas e suas respectivas materialidades faziam parte de quem Rosana era e, assim, também de sua produção. Ao tentar trabalhar com obras manuais, ela ouvia que a questão da manualidade na arte contemporânea “já estava superada”. Então, questionava: “superada por quem?”

O simbolismo virou marca da arte de Rosana. Usando tintas, linhas, costura, esculturas e fotografia, ela abraça questões sociais, étnicas e de gênero. Nesse contexto de tensionamento das obras da artista, surgem trabalhos que colocam o papel da mulher negra no centro da discussão. Um dos exemplos é a série “Bastidores”, em que Rosana utiliza de forma irônica o bordado.

“Quando a gente pensa em uma mulher bordando, surge uma imagem idílica de um ambiente protegido. Mas o que acontece dentro dessas quatro paredes? Qual a violência vivida que não se vê?”, questiona. Rosana transformou essa dúvida em arte ao utilizar fotografias de mulheres de sua família e bordar por cima de bocas e olhos para representar o silenciamento da violência doméstica. “Como são imagens da minha família, são mulheres negras e a gente vai tomar outra faixa de leitura para eles, que é a questão do racismo institucional”, complementa.

O racismo também é foco da obra de Rosana no livro ¿História Natural?, lançado em 2016. Segundo ela, o livro representa uma confluência de seus 23 anos de trabalho. Ao analisar as imagens que representavam o Brasil no período da colonização, ela percebeu que ciência e arte ajudaram a construir o racismo que perdura até hoje.
“Nós somos um país que se formou a partir dos olhos dos outros. Essas imagens eram feitas para ser enviadas, muitas vezes, para fora do país”, explica a artista. Dividido em três capítulos, nomeados “O Progresso das Nações”, “A Salvação das Almas” e “O Amor pela Ciência”, o livro mistura fotografias com costuras, tecidos e linoleogravura.

Ela explica que as abas costuradas por cima das imagens representam as questões do racismo vedado no país, mas também sobre realidades díspares “suturadas” a força nas mesmas páginas da história. As gravuras também são uma forma de trabalhar a imagem do país, quesito que a artista considera não estruturado. “No Brasil, a gente desconhece um pouco o contexto que a imagem tem sobre a formação de identidades”, comenta.
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]]>A história de Gladis com as questões étnico-raciais veio à tona após a recusa de um convite para palestrar na Semana da Consciência Negra, em 2000, por achar que não sabia falar sobre o tema. “Desde que comecei na UFRGS, trabalhava como orientadora dos estagiários da pedagogia. Eu não me dava conta que já estava me envolvendo bastante com essas questões. Toda vez que surgiam questões raciais com os estagiários, como crianças xingando e brigas, eu era convidada a ajudar, intervir, dar opiniões, sugerir livros de história, etc”, comenta.
Com a formação focada no trabalho com crianças, Gladis resolveu direcionar seus estudos e projetos para a formação de professores da rede de ensino fundamental. Em 2012, por meio da ex-aluna Tanara Furtado, Gladis teve a oportunidade de desenvolver suas propostas, através de uma pesquisa feita pelo Ministério da Educação.
“O MEC fez um levantamento pelo censo escolar de quais temas os professores sentiam mais falta de receber informação. E um dos temas era colocar em prática o artigo 26A da lei de diretrizes e bases, especificamente a lei 10639, que é aquela que altera o artigo 26A e diz que tem que ensinar a história africana e afro-brasileira”, explica. A iniciativa acabou resultando na primeira edição do curso de extensão UniAfro, no ano de 2013, formada por uma coordenação inteiramente de mulheres negras.
A proposta inicial foi de um curso direcionado para professores, pensando em cargas horárias que encaixassem na rotina de educadores que têm aulas o dia inteiro. Gladis tinha a intenção de promover um curso direto de sala de aula, onde os profissionais pudessem estabelecer diálogos e ações com os alunos, com a possibilidade de voltar para o UniAfro e passar um feedback. “Foi muito importante porque o racismo se mostra quando tu se debruças sobre essa temática da história do negro, das diferenças entre negros e brancos no Brasil, as diferenças de acesso à educação e de como o racismo funciona nas relações cotidianas. O curso fez as crianças pensarem bastante, e, sempre que tu colocas filhos a pensar, os pais vão junto” conclui Gladis sobre o retorno da primeira edição do curso.
Após uma primeira edição satisfatória, Gladis Kaercher e a colega Tanara Furtado pensaram que seria interessante oferecer um material para os professores que participassem do curso, algo que pudessem trabalhar em sala de aula com os alunos. Foi então que surgiu a questão da cor da pele de uma outra maneira.
“O curso terminou, e tinha uma coisa concreta que nos incomodava muito e que sempre me incomodou, que era a história do lápis cor de pele. Quando as crianças pintavam figuras humanas ou faziam autorretrato não tinham o lápis correto”, comenta ela. Na época, Gladis e Tanara já conheciam estojos de giz de cera em tons de marrom, mas tinham que lidar com a questão da importação. Após testes em diversas tonalidades, o giz finalmente tomou forma.
“Esse giz ocupou um lugar que é, como é que tu problematizas essas questões raciais, com uma criança pequena? Discutir racismo, discutir todas essas questões às vezes é bastante abstrato pra criança, pra entender as relações sociais, entender as relações de poder, entender o quanto é importante se sentir representado. Ou seja, poder pintar-se para uma criança na cor que eu tenho, na cor que é a cor da minha pele”, explica ela.
Com repercussão do estojo de 12 tons de giz de cera cor de pele, produzido pelas coordenadoras do UniAfro em parceria com a gráfica PrintKor, Gladis Kaercher avalia o material como necessário para fomentar a discussão do racismo com as crianças. “Conseguir pensar as questões do racismo sempre a partir de uma concretude e também sem culpa. Porque discutir o racismo com uma criança branca pode ser uma discussão leve, ela não precisa colocar essa criança num sentimento de culpa de ‘nossa que horror o que minha raça fez com os negros’. Eu acho que é um tema que é necessário”.
Os trabalhos de Gladis e suas experiências serão apresentados em mais uma edição do TEDxUnisinos, no mês de Agosto, que neste ano traz como tema as fronteiras. “Eu gosto de olhar a fronteira nessa potência, um lugar de intercessão. As fronteiras geográficas, culturais, eu acho que as fronteiras de gênero estão sendo construídas desse modo, contemporaneamente. Vejo a fronteira dessa discussão racial como esse lugar de potência, onde não há ‘lá estão os brancos e aqui estão os negros’, mas onde brancos e negros vão habitar e construir essa intercessão”, conclui Gladis Kaercher.
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