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]]>Até 1943, oficialmente, a palavra estória designava invenções ficcionais, enquanto história se referia aos fatos históricos e acontecimentos reais. Com o passar dos anos, a divisão foi caindo em desuso até ser considerada arcaica. Rodrigo Trespach nasceu em 1978, 35 anos depois da diferença entre as duas palavras ser extinguida. Justamente na sua carreira, as duas vertentes se aproximam bastante.
Hoje, com 41 anos, Trespach tem 11 livros publicados, quatro dos quais fazem parte da sua série mais conhecida: Histórias não (ou mal) contadas (Editora Harper Collins, 2018), que abrangem eventos como as duas grandes guerras mundiais e os golpes políticos que ocorreram no Brasil. Historiador, levou um tempo para perceber que, além de ávido leitor, poderia contribuir como escritor. A série apresenta fatos inusitados e acontecimentos que os livros de história não mostram, escrito com simplicidade na narração e fluidez nas ideias. Trespach fala de mulheres, homossexuais, pobres e outras personagens que raramente são mencionados, muito menos abordados como protagonistas de fatos históricos.
Acostumado à rotina de pesquisa, mantém as manhãs ocupadas com a escrita, acompanhado apenas do chimarrão. “Escrever é sempre um verbo conjugado no singular. É algo muito íntimo”, revela. Escrever sobre história requer o cuidado da pesquisa, hábito que mantém religiosamente.
Trespach começou escrevendo para seu blog pessoal, depois para sites de notícias e revistas locais. Essa foi uma maneira de obter visibilidade enquanto começava a nova carreira, em paralelo com a de historiador. O primeiro livro, no entanto, foi editado com investimento do próprio autor, já que, com nome ainda pouco conhecido, não conseguiu uma editora que topasse publicar a obra. Na verdade, isso ocorreu durante um bom tempo. Receber mais “não” do que “sim” se tornou um incentivo de perseverança enquanto vendia o primeiro livro para conhecidos. O contato com inúmeras editoras e o retorno positivo das publicações na mídia local acendeu o interesse de uma pequena editora pela obra de Trespach.
Para o autor, hoje é mais fácil conseguir publicar o que se escreve. O livro impresso ainda é o sonho dos escritores, mas alguns passos na internet facilitam a visibilidade de um nome desconhecido. As grandes editoras procuram autores que engajem mais vendas, portanto, o escritor não pode mais apenas depender de sorte para ser publicado, é preciso criar uma marca antes mesmo de se tornar profissional.
Trespach acredita na crise editorial no Brasil. “Salvo exceções, é quase impossível viver apenas da venda de livros”, diz o autor. Hoje em dia, segundo ele, a melhor maneira é vender uma espécie de pacote que acompanha os novos escritores: dar palestras, participar de várias feiras de livros, publicar artigos em revistas e jornais. Todas as chances de aparecer e formar a marca do escritor devem ser aproveitadas. Até mesmo manter canais no YouTube, dando dicas ou, no caso dele, explicando momentos históricos, serve de vitrine para o trabalho. “Muitos são professores, e além de dar aulas e escrever, também dão oficinas literárias, fazem palestras”, conta. Alguns autores não falam apenas da área que dominam, mas também ensinam técnicas para escrever. Uma maneira de obter visibilidade e, de alguma forma, incentivar o mercado de produção literária.
Mesmo assim, Trespach ainda é otimista sobre a perspectiva de se viver de literatura. “Penso que é um sonho e também uma realidade. Não é fácil, não temos uma tradição de respeito e reconhecimento com pessoas que vivem de literatura. Mas é possível”, afirma, apesar dos percalços no caminho. “Todas as dificuldades fazem parte do aprendizado. Sempre me preocupo em melhorar o que escrevo, identificar o que acertei e também o que não agradou ou ficou bom”, avalia.
Para ser escritor no Brasil, também é preciso ser um bom publicitário de si mesmo. “Leia muito, exercite a escrita, faça experiências, escreva uma vez, duas, reescreva. Nunca deixe de aprimorar o texto. Aprenda a ouvir críticas ruins, não apenas as boas”, aconselha o autor, pensando naqueles que estão começando agora. “Escrever bem é um processo de amadurecimento. Um bom texto é como um bom vinho.”

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]]>Shakespeare é o nome do mais famoso dramaturgo inglês, e também de um charmoso café na Capital, onde Cláudia sugeriu nosso encontro. Ela assina os livros como Cláudia Sepé, embora também tenha Presser no sobrenome, que deriva de “imprensa”. Coincidências ou não, algo já conspirava para que Claudia se tornasse escritora. Autora de dois livros publicados, Histórias de Taiwan (2016) e O Mistério do Carimbo Mágico (2018), ela se prepara para lançar o terceiro nos próximos meses.
Com 53 anos, faz apenas dois que Cláudia se tornou escritora. Às vezes, diz lamentar não ter começado mais cedo, pois sente que precisa correr para conquistar seu lugar no mercado, principalmente nesse momento que o cenário não parece promissor. Ao mesmo tempo, é agora, como mãe e experiente professora, que tem bagagem para falar melhor sobre adolescência.
Após o primeiro gole de café preto, Cláudia me contou, enquanto eu apreciava um chá de hortelã, sobre a carreira dela em sala de aula. Disse que foi influenciada pela mãe, também professora. A presença dos livros e da leitura constante contribuiu para a escolha da Graduação. Fez Letras/Português e Literatura Portuguesa na PUCRS, e aprendeu a gostar da gramática da mesma forma que gostava de histórias. Descobriu, na prática, a falta do hábito da leitura entre as crianças. Menos de um terço da população brasileira costuma ler.
Para ajudar a melhorar esses índices, Cláudia criou, juntamente com uma colega, o projeto Pacto Pela Leitura quando era professora da rede municipal de ensino de Porto Alegre. O projeto funcionou de 2014 a 2017 e reuniu pais de alunos da educação infantil. O trabalho consistia em sensibilizar as famílias para que pudessem atuar como mediadores na leitura dos pequenos.
Foi a mãe, Zenaide Presser, que apresentou os livros à Cláudia. Já o pai, Manoel Sepé, a criação de histórias. Ela lembra que era no colo dele que via surgir criaturas feitas de pepinos e palitos, seus personagens. Essas experiências de mediação de leitura em família ficaram em sua memória e serviram de inspiração para seus textos. Porém, seu envolvimento com a escrita literária demorou a acontecer. Escreveu poemas que não guardou, desabafos que ocuparam linhas e foram apagadas, momentos da adolescência que ganharam as folhas de caderno, mas que ficaram para trás, nada que considerasse próximo a uma grande produção.
Por outro lado, a escrita acadêmica a perseguia. Fez mestrado na área da linguagem, e depois, doutorado em Comunicação (Unisinos), em 2007. Também na Unisinos atuou como professora de Português para Comunicação durante 16 anos. Até que, do outro lado do mundo, mais especificamente da Ásia, veio parte da motivação que a levou a dar início à carreira literária.
Yen Ko Cheng é o marido de Cláudia, que ensinou para ela que o “g” do seu nome não se pronuncia e que as histórias tradicionais do extremo oriente, mesmo as infantis, são bem diferentes das nossas. Eles se conheceram há 17 anos. Têm um filho adolescente, o Rafael. Foi para o filho sentir orgulho das suas origens – tanto a brasileira quanto a taiwanesa – que nasceu a ideia do primeiro livro: Histórias de Taiwan, transmitidas oralmente pelo marido.
“Fiz tudo o que eu deveria: tive um filho, plantei uma árvore e escrevi um livro”, brinca. Foi de forma despretensiosa que, segundo ela, veio o segundo livro, O Mistério do Carimbo Mágico, um compilado do que aprendeu sendo mãe e professora. Rafael é o pano de fundo para os personagens. É ele também quem dá o tom descolado e as gírias que aproximam o livro dos pequenos leitores. Os dois títulos, e o terceiro, que está por sair, são infantojuvenis. Aproximar o adulto do universo pré-adolescente é um dos desafios com o qual Cláudia trabalha. A fórmula perfeita para isso não existe, mas usar a sensibilidade ajuda.
A procura por editoras é demorada e cansativa, muitas vezes, sem retorno. Depois das várias respostas negativas, resolveu investir dinheiro do próprio bolso na publicação. As editoras se justificam dizendo que não estão mais editando títulos novos, afinal, o mercado passa por momentos de reclusão. A primeira parede encontrada por Cláudia foi ser uma autora desconhecida, a segunda, foi o gênero escolhido: infantojuvenil. O mercado, que acompanha e continua valorizando o que mais vende no momento, pode ser cruel com literatura de nicho.
Cláudia não se abala. Frequenta escolas, promove os livros, entra em concursos e batalha pela sua literatura, pela literatura de todos. Fala da classe de autores como uma veterana, afinal, já esteve nas trincheiras antes de estar no campo de batalha.
A ideia de futuro é uma página em branco que pretende ir preenchendo aos poucos. Como as histórias, que surgem sem muito planejamento, da ponta dos dedos direto para os textos, não sabe ainda quais serão os próximos passos como escritora. Por enquanto, está focada na pré-adolescência, mas já escreveu contos com temática mais adulta, e quem sabe, um dia venham outros tipos de romances.
Ah, antes que você, que nos acompanhou até aqui, se pergunte: “Tá, mas o que o título desta matéria tem a ver com tudo isso?” Bom, a resposta está no poeta matogrossense Manoel de Barros. O poema “O menino que carregava água na peneira”, uma síntese do que é ser escritor-poeta, é o favorito de Cláudia. Tanto que até se animou a recitá-lo para os leitores do Mescla. Quer ouvir? Então, clica o link logo abaixo.
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