wp-mailinglist domain was triggered too early. This is usually an indicator for some code in the plugin or theme running too early. Translations should be loaded at the init action or later. Please see Debugging in WordPress for more information. (This message was added in version 6.7.0.) in /home/agexcom/mescla.cc/wp-includes/functions.php on line 6260The post Projeto Versos de Nós abre edital para composição do livro “Nossas Histórias, Versos de Nós” appeared first on Portal da Indústria Criativa.
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Diuly Cardoso, estudante de Produção Editorial e idealizadora do projeto
Foto: Arquivo Pessoal
O objetivo do projeto é dar voz e espaço a autores que se autodeclaram não brancos e que sofreram discriminação racial.
“Nossas Histórias, Versos de Nós nasce da necessidade de dar visibilidade para pessoas pretas, pardas ou indígena, que, durante suas vidas acadêmicas dentro das universidades, presenciaram ou vivenciaram o racismo descarado no seu dia a dia.”, complementa a equipe editorial da Versos de Nós.
Para participar e contribuir com o projeto, há duas formas de se envolver, participando da Comissão Avaliadora do Livro e com a submissão de originais. As modalidades são prosa, contos e poesias.

O Projeto Versos de Nós convida os autores a submeterem seus textos originais. As prosas devem conter, no máximo, oito mil palavras. Os contos devem conter, no máximo, dez mil palavras. Já as poesias não estão restritas por limite de versos e palavras. Se atente ao edital antes de enviar seus textos, pois os quais não se enquadrarem nesses critérios serão automaticamente desclassificados.
O prazo para a submissão de originais encerra no dia 20 de novembro de 2023. Para participar, você precisa preparar seus originais de acordo com as orientações do edital e enviá-los através do formulário de inscrição.
Além de submeter seus próprios originais, você também pode se envolver na construção deste projeto como parte da Comissão Avaliadora do Livro. Os candidatos devem ser da área de Ciências Sociais e Humanas e deverão encaminhar um breve currículo descrevendo sua experiência em aspectos sociais que envolvem o racismo, revisão de textos, leitura crítica e organização de coletânea.
O prazo para a participação na comissão encerra na próxima sexta-feira, 20 de outubro de 2023. Para se candidatar basta seguir as atribuições do edital e enviar a sua inscrição pelo formulário do link.
Acesse a página oficial do Projeto Versos de Nós onde você encontrará as informações detalhadas sobre a submissão de originais e a comissão avaliadora.
Se atente aos prazos! As inscrições para a Comissão Avaliadora do Livro se encerram na sexta-feira, dia 20 de outubro. Já a submissão dos textos originais vai até o dia 20 de novembro.
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]]>Para isso, reunimos a nossa equipe de reportagem, formada pelas repórteres Laura Santiago, Paola De Bettio e eu, Marília Port. Cada uma de nós deu três dicas de livros que merecem muito uma chance nessas férias. São recentes e antigos, de diferentes gêneros, autores e nacionalidades, mas todos têm algo em comum: a arte de pausar a realidade e viver outras vidas através das suas páginas. Bora conferir?
A história é de autoria de Shel Silverstein, o mesmo autor de “A parte que falta”. O livro é muito comovente e sensível. Traz dois personagens: um menino e uma árvore. Eles nutrem uma amizade especial, até o menino crescer e desejar usar a árvore ao longo de várias ocasiões da vida dele, em uma atitude oportunista, interesseira e egoísta. Ainda assim, a árvore é uma verdadeira companheira.
Datado de 1964, o livro fala sobre como nos relacionamos com os outros e com o mundo, e traz também um importante ensinamento sobre a natureza e o meio ambiente, tudo isso de uma maneira afetiva. Além de ter escrito a história, Silverstein produziu as ilustrações.
Escrita pelo colombiano Gabriel Garcia Márquez, a história de época acompanha Sierva María, menina de 12 anos que contrai raiva ao ser mordida por um cão. A narrativa envolvente transita entre os diferentes pecados capitais, cujos horrores afligem o leitor do início ao fim do livro.
Tudo acontece em uma pequena cidade latina de colonização espanhola, marcada por dogmas católicos, onde o que não fosse ao encontro dos ideais da Igreja era considerado bruxaria.
Diante dos sintomas da doença, os pais, pouco presentes, acreditam que a menina esteja possuída. Por isso, enviam Sierva a um convento. A situação piora cada vez mais, quando o padre local se envolve com a menina. Agora, sem mais spoilers! Você vai ficar preso na história e, quem sabe, lerá tudo em um único dia.
Esse é um livro de história real. Por ter uma vasta experiência trabalhando em uma reserva ecológica na Alemanha, o engenheiro florestal Peter Wohlleben dedica as páginas a um pouco de tudo o que aprendeu observando as árvores. Cada capítulo apresenta algum aspecto em particular sobre a forma como vivem, em suas diferenças e semelhanças com os humanos, além das suas interações com outras formas de vida.
À primeira vista, a ideia pode parecer limitada à botânica ou outras disciplinas que se debruçam sobre o estudo das plantas. Mas não se engane: somos muito parecidos com elas e, ao mesmo tempo, temos muito a aprender com a existência delas ancorada na ancestralidade. É uma leitura inspiradora e tranquila, sobretudo para a hora de dormir – embalará o seu sono ao caminhar entre as árvores dos distantes bosques alemães.
A obra mais famosa de Caio Fernando Abreu é especialmente memorável agora, em 2022, ano em que a casa do autor em Porto Alegre foi derrubada. É um livro de contos, dividido em três partes: “O mofo”, que traz a melancolia e frisa diversos elementos para isso, como cigarro, bebida e natureza; “Os morangos”, em que a descrição ainda prende, mas aparentemente sem tanta tensão negativa; e “Morangos mofados”, que encerra o livro com um conto.
Esse último, apresentado com uma música dos Beatles, “Strawberry fields forever”, remete à saudade. Talvez aí fique clara a mensagem do autor, sobre “enfeitar a amargura”, porque o morango, mesmo doce e com aspecto de refúgio, está/é mofado. “A vida não é um morango”, diz um dito popular. Talvez seja um morango mofado. Além de mostrar como “enfeitar a amargura”, oferece várias sensações sobre a vida na década de 1980, momento de tensões políticas e sociais em grande parte provocadas pela ditadura militar.
Este livro é, na verdade, a memória da amizade entre um cachorro e seu tutor, o dramaturgo brasileiro Walcyr Carrasco. O texto explora a parceria e os momentos épicos da amizade do autor com Uno, um husky siberiano. O livro faz com que o leitor se sinta parte da história entre os dois; seja nos momentos felizes, nos momentos estranhos ou nos momentos tristes.
De todas as indicações, essa é direcionada especialmente para aqueles que têm cães como seus melhores amigos e se emocionam com histórias de amizade e superação, como “Marley & Eu” e “Sempre ao seu lado”. A gente sabe como vocês se sentem! 

Se você já leu algo escrito por Paulo Leminski, sabe o poder que ele tem. Se não leu, que essa seja a oportunidade que lhe faltava. Artista das palavras, o autor das poesias dispostas nessa obra provoca, diverte e emociona. Entre jogos de palavras, o tempo parece outro: são centenas de páginas que duram minutos, em que cada poesia equivale a um segundo.
Esse compilado também é uma ótima pedida para quem deseja desbravar os horizontes desse gênero literário e experimentar algo novo, com uma leitura rápida e fluida. Além de tudo isso, ler Leminski significa prestigiar os escritos de um dos grandes nomes da literatura brasileira que, mesmo falecido há mais de 30 anos, continua sempre necessário, histórico e atual.
Vem mais poesia por aqui! Esse livro tem seleção e prefácio de Cláudio Portella. Torquato Neto foi poeta, jornalista e compositor. Criou várias letras de músicas para o Tropicalismo, movimento cultural surgido na década de 1960, e trabalhou nos jornais Correio da Manhã e Última Hora, em que, por vezes, escreveu sua coluna em formato de poesia. Também se aventurou pelo cinema. Existe em sua obra uma certa psicodelia consciente e sagacidade para capturar o abstrato da vida. Sua linguagem poética consegue ser assertiva quanto a uma série de sentimentos.
Transitou ainda pelo cinema marginal e pela poesia concreta. A Vitrine Filmes lançou “Torquato Neto – todas as horas do fim”, trazendo a carga poética, a personalidade e vários trabalhos dele. O título do documentário é uma referência ao final de um de seus poemas, que termina assim: “Eu sou como eu sou presente, desferrolhado indecente, feito um pedaço de mim. Eu sou como eu sou, vidente, e vivo tranquilamente, todas as horas do fim”.
Confesso que ainda estou nas páginas iniciais deste livro. Nas primeiras impressões, tudo indica que será uma leitura para relembrar, ou, no meu caso, descobrir ainda mais detalhes da dura realidade da ditadura militar vivida por aqueles que se opuseram ao sistema que dominou o país por 21 anos.
O livro foi escrito por Matheus Leitão, jornalista investigativo brasileiro e filho da também jornalista Miriam Leitão. O autor narra a história do período que foi comandado por militares no Brasil a partir da perspectiva de seus pais, perseguidos pelo regime autoritário – foi em meio a esse caos que eles se conheceram.
Algum leitor de suspense por aí? Pois bem, para completar a lista, foi inevitável incluir a rainha do crime: Agatha Christie. A renomada escritora britânica deixou um legado de dezenas de histórias publicadas em livro, adaptadas ao cinema, traduzidas para inúmeros idiomas. O livro que ganhou o lugar nessa lista é de 1949, e acompanha a investigação do assassinato do patriarca octogenário de uma família grande.
O problema é que, nessa casa, todos são suspeitos. Essa leitura, por sinal, eu mesma ainda não concluí – vai ser uma leitura de férias para mim também. Cabe a nós, eu e você, conduzidos pelos detetives da Scotland Yard, desvendar o mistério.
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“Comecei com o grupo Leia Mulheres, que era projeto em São Leopoldo, mas depois a Giulia Silvestre, resenhista no Página Cem, mudou para o Tinha Que Ser Mulher com algumas adaptações, e o foco ficou um pouco diferente”, explica. O Tinha Que Ser Mulher é aberto para o público masculino participar, mas até o momento são só mulheres que se envolvem nas leituras e debates. “Entrei em janeiro e me tornei madrinha, que é um pacote de assinatura que recebe conteúdo exclusivo e tem mais debates. Estamos lendo o Segundo Sexo, da Simone de Beauvoir. No terceiro grupo, entrei porque íamos começar com 1984 e, como é leitura desse semestre na faculdade, gosto de enriquecer as minhas falas com essas discussões.”
Nessas discussões guiadas, os leitores são naturalmente motivados a participar ativamente e se apropriar da história, tornando uma leitura mais fácil. Como os exemplares são escolhidos pelo clube, ela ainda não leu muitos livros que consideraria clássicos, geralmente a prioridade dos clubes são livros atuais, e quando se tratam de autoras mulheres, o número de clássicos cai ainda mais. “Eu quero muito ler os clássicos, principalmente por ouvir dos meus amigos que os livros são muito bons. Mas acabo deixando para depois e leio principalmente o que meu clube de leitura recomenda. Como não tenho o hábito, acredito que com o clube vai ficar mais fácil ler os clássicos depois.”
Mas pensando no pouco tempo que a estudante pode ter, lidando com a faculdade e as leituras obrigatórias, por que ela deveria ler um livro antigo também?

Quando pensamos em clássicos da literatura, as listas variam ainda mais. Como uma boa millenial, meus clássicos infanto-juvenis incluem a Coleção Vaga-Lume e A Ilha do Tesouro, mas para a geração z, provavelmente Harry Potter e Percy Jackson já tenham alcançado esse status. Para a professora Eliana Inge Pritsch, cada geração e seu contexto define o que será considerado um clássico.

“Quando eu penso em clássicos, vou estar olhando para um momento de uma civilização em que eu teria uma certa padronização das normas, com um conjunto de escritores que seguem ou discutem essas regras”, explica ela. A professora Eliana tem experiência e muita leitura para falar sobre literatura e clássicos. Professora da Unisinos há 27 anos, ela atua no curso de Letras, Realização Audiovisual (CRAV) e Administração, ministrando aulas que envolvem literatura brasileira, literatura portuguesa, literatura comparada, latim e português histórico. “Quando falamos em Grécia Clássica, podemos situar no século V a.C., porque é nesse momento que se produziu o melhor do teatro. Em Roma, esses clássicos vêm do século I a.C. Alguns dos cânones brasileiros são Machado de Assis, Guimarães Rosa, José de Alencar e Clarice Lispector, uma época mais diversa.”
A Bianca entende que um clássico é aquele livro que passa por muitas gerações e continua essencial, trazendo uma mensagem que perdura. “O Pequeno Príncipe” , por exemplo, é um livro clássico. Ele é de 1943, mas em 2020 ainda estava entre os mais vendidos da Amazon”, argumenta. Então clássicos são livros que continuam nos dizendo alguma coisa importante e demandam uma preparação de espírito — e talvez da mente? — para ler. Mas todos os clássicos são reconhecidos como tal?
Isso nos coloca em outra discussão, talvez difícil de visualizar. Assim como qualquer pessoa com um pequeno conhecimento sobre cinema, ou qualquer pessoa que apenas ame assistir filmes, pode escrever uma lista de quais produções são os seus 100 melhores, qualquer leitor pode elencar os seus clássicos. Mas nem todos os nossos clássicos são canônicos.

“Não é um conceito fácil. O que eu entendo por clássico vai estar também no limite do conceito teórico do que é um cânone. Às vezes esses conceitos se tocam, mas não necessariamente”, elucida a professora Eliana. “O cânone me parece muito mais um modelo, uma caixa. Ele vem historicamente de uma linguagem eclesiástica, com regulações estabelecidas. O cânone, além do seu valor individual, é estético.”
Esse papel de discutir e decidir quais obras são canônicas ou não passou do clero para a educação, e aqui, é mais fácil reconhecer esse conceito quando pensamos que o programa federal de ensino, por exemplo, seleciona as obras clássicas que os alunos precisam ler em determinado período escolar. Por isso, a maioria de nós passou por Machado de Assis, Aluísio de Azevedo e Mário de Andrade. A escola ajuda a nos guiar no que se consideram cânones, porque representam momentos históricos e movimentos literários.
“O livro que está na escola, o livro que as grandes editoras colocam no mercado, todos eles são canonizados por essas escolhas. O nosso famigerado vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com uma lista de obras a serem lidas. A comissão que escolhe esses livros é canônica, nesse sentido”, observa Eliana. “Hoje o clássico não pode mais ser confundido com o cânone, porque o cânone ficou muito estreito.”
Para a professora, apesar de Bernardo Guimarães ser um cânone por escrever A Escrava Isaura e O Seminarista, ele se tornou um clássico para ela, mas na poesia. “Ele me parece um chato prosador, mas para mim, é um excelente poeta. Tem poesias satíricas, eróticas e obscenas, inclusive debochando do indianismo brasileito. E eu acho que vamos encontrando esses caminhos com releituras.”

Como os clássicos não são necessariamente canônicos, eles variam de pessoa para pessoa. Quais são os livros que nunca param de dizer alguma coisa nova? Esses livros também dependem da leitura da época e como esse momento influencia na interpretação. “Nos clássicos brasileiros podemos pensar em Machado de Assis, e eu odiava. Não entendia por que gostavam tanto dele”, confessa Eliana. “Dom Casmurro? O que eu quero com isso? Com 30 anos eu li e foi outra experiência. Você lê com 50 e muda de novo. Então, às vezes, a releitura que vai te levando. Clássico também é aquele livro pelo qual o leitor tem um apreço especial, que trata como um talismã.”
Depois de vencer a barreira da antipatia, Dom Casmurro se tornou uma espécie de arqui-inimigo especial, para a professora. “Eu continuo odiando aquele Bento Santiago. Odeio a manipulação. Mas eu só fui entender essa manipulação quando reli depois dos 30.” Passada a primeira discussão universal sobre a possível traição de Capitu, a nova maneira de ver o mundo, mais madura, ajudou a perceber como é opressiva a relação dos personagens, como o cansaço de Maria Capitolina reflete no abandono das suas ações, como ir embora sem tentar se defender.
O escritor italiano Ítalo Calvino falou muito sobre literatura durante sua vida. No seu clássico – desculpa, não resisti – Por que ler os clássicos, ele destrincha todas as faces desses senhores da literatura e uma das mais interessantes percepções é a de que nunca estamos lendo um clássico pela primeira vez.
“A gente sempre ouve dizer que alguém está relendo, porque a pessoa tem vergonha de dizer que ainda não leu”, brinca Eliana. “Mas também é porque um clássico está sendo lido dentro de uma tradição. Seja porque foram feitas releituras em cima dessa obra, seja porque eles impregnam nosso imaginário, mesmo que ainda não tenha sido pessoalmente lido.”
A professora explica que, segundo os conceitos de Calvino, o clássico tem descendentes e ascendentes. Por exemplo, Dom Casmurro já estava em Otelo, de Shakespeare, com a trama do ciúme. Dali podemos fazer uma ponte com São Bernardo, de Graciliano Ramos, anos depois retratando o mesmo tema central.
Mas Calvino alerta também que, quanto mais pensamos que conhecemos esses clássicos, mais podemos estar enganados. “Quando vamos ler efetivamente, nos damos conta de coisas diferentes do que imaginávamos, ou destacamos partes diferentes de outras pessoas”, concorda Eliana. É o que acontece quando ela oferece a peça teatral Romeu e Julieta para os alunos do CRAV, na disciplina de Dramaturgia e Linguagem. Quando os alunos vão (re)ler, percebem que a ideia do suicídio duplo, que muito se fala, na verdade não passa de um triste acaso — eles queriam mesmo era encontrar uma maneira de fugir juntos.
Você também já deve ter ouvido falar no “complexo de Édipo”, um termo usado por Freud na psicanálise. Mas será que o Édipo, da tragédia grega, era mesmo apaixonado pela mãe? “Tem um pequeno verso em que a Jocasta diz para Édipo não tentar saber do passado, que ele estava melhor assim. Mas é uma interpretação de um verso”, argumenta a professora. “O clássico tem disso, fica tanto tempo na boca do povo que todo mundo vai falar um dia. E quando eu vou ler, não vejo as mesmas nuances, são outras coisas que me chamam a atenção.”
E o Édipo que não tinha nada a ver com essa história, ganhou uma fama inesperada.

E a Bianca, que achou que não estava lendo clássicos, está inclusive lendo cânones, como 1984 que é um clássico distópico, e a literatura feminista da Simone de Beauvoir, que até pouco tempo não tinha espaço. Essa observação é um ponto importante quando pensamos nas mudanças que os clássicos atravessam.
“Principalmente se é uma leitura em cima de uma releitura, de apropriação ou não apropriação, como eu leio e como você lê, isso vai mudar. Quando eu olho esse cânone, poxa, não tem nenhuma mulher brasileira que escreveu no século XIX?”, questiona Eliana. “Quando eu abro a história concisa, as primeiras mulheres a serem retratadas são Cecília Meireles, Rachel de Queiroz, mas existia Maria Firmina dos Reis, lá em 1859.”
Os momentos pelos quais a sociedade passa influenciam o que se tornam os novos clássicos e também, o que pode vir a fazer parte dos cânones. A professora Eliana sugere acompanhar a lista de títulos que concorrem ao Prêmio Jabuti para conhecer os novos futuros cânones. “Gosto muito dessa indicação porque já passou por um colegiado, já teve sua valoração individual entre várias pessoas”, concorda ela. “Além disso, é importante observar que quando se trata de poesia, se antes dos anos 2000 os prêmios iam para autores de grandes editoras, agora são os autores individuais e alternativos que se destacam. Esse também é um movimento que mostra como as editoras não são mais detentoras dos cânones.”
Diante disso tudo, e agora sabendo que os clássicos estão constantemente mudando, você pode se perguntar por que deveria ler um livro que foi escrito quando a civilização em que vivemos nem existia. Por que ler um livro que conta uma história que se repete, ou que existe como releitura em outros títulos?
“Eu não acho que é perda de tempo ler algo só porque supostamente não ensina nada. Todo livro na verdade ensina e desperta a criatividade, que é o que comanda todo o resto. A gente precisa de criatividade para conseguir florescer, para expandir todas as áreas da vida”, enumera Bianca, que já viu mudanças para melhor na rotina desde que começou a se programar para ler. “Eu penso muito na minha sobrinha porque quero que ela tenha hábitos melhores de leitura. Pensando em mim e na próxima geração da família, é uma meta que se torne rotina fixa.”

A professora Eliana, que acaba lendo bastante dentro e fora dos cursos que leciona, dá a dica de colocar os títulos como projetos. “Você não precisa ler tudo agora. O Grande Sertão Veredas eu larguei três vezes, mas em algum momento, depois da página 100 eu passei a adorar.” E como ela lembra, todo aprendizado é válido. “Quando Sócrates estava preparando a cicuta que tomaria para morrer, ele ainda estava lendo, aprendendo alguma coisa. Quando perguntaram para que serviria aquilo, ele respondeu que ao menos aprenderia mais alguma coisa antes de morrer. Por que ler os clássicos? A razão é simples: porque é melhor ler do que não ler.”
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Lelei, que é egressa da Unisinos, começou a carreira com um estágio no jornal Zero Hora. Uma de suas primeiras tarefas era escutar o programa A Voz do Brasil — produzido pelo Governo Federal e transmitido obrigatoriamente em todas as rádios — com o objetivo de fazer um resumo de notícias para disponibilizar à redação. Mais tarde, ela foi efetivada para trabalhar no Departamento de Pesquisa do diário. “Era o Google de hoje”, compara Lelei. Em sua carreira,a jornalista passou por diversas áreas da comunicação, como rádio, TV, impresso e assessoria, se arriscando, inclusive, a empreender na área. Hoje, Lelei realiza edição de livros e textos para a Gira Produção e Conteúdo. Além disso, lançou o livro “E fomos ser gauche na vida”, que conta experiências de vida dela e da irmã Marlene, já falecida, ambas com nanismo.

Poti entrou no jornalismo tardiamente, como ele mesmo diz. Se formou com 39 anos, mas antes de conquistar o diploma, acreditava que seria livreiro. Foi por isso, inclusive, que aprendeu a diagramar quando ainda nem pensava em se tornar jornalista. Poti, assim como Lelei, trabalhou na Zero Hora, ele como repórter de política e editor. Depois de um tempo, começou a produzir livros institucionais até que teve a oportunidade de fazer seu o próprio: “Uma outra banda oriental”. A obra relata histórias que chamaram a atenção dele durante uma viagem que fez ao Uruguai.

“A história de vida da Lelei é muito interessante, como ela conseguiu se adaptar e superar desafios para ser uma jornalista. Ela conhece, praticamente, toda a história da comunicação do Rio Grande do Sul”, comenta o aluno Henrique Tedesco, que acompanhava atentamente o bate-papo. Para o futuro jornalista, conhecer a experiência profissional de Lelei e Poti foi importante para manter os estudantes com esperança e inspirados para trabalhar na área.

O Mescla separou os melhores momentos do evento para quem não conseguiu estar presente. Vale lembrar que o top 8 a seguir é responsabilidade dessa repórter que vos fala e, para conferir toda a conversa na íntegra, basta acessar o link.

Aparentemente, Lelei nunca teve medo de ficar sem emprego. Na conversa, ela lembrou de vários momentos em que optou em largar o trabalho mesmo não tendo nenhuma perspectiva do que faria a seguir. A jornalista foi corajosa, e nunca ficou muito tempo desempregada.

A irmã da jornalista era professora. Lelei quase seguiu os passos de Marlene antes de entrar para o jornalismo. Certo dia, na redação, o chefe de Lelei reclamava da quantidade de greves que os professores estavam fazendo. A jornalista, no dia seguinte, levou todos os contracheques da irmã para mostrar ao chefe. Talvez, assim, ele tenha entendido o motivo das paralisações.

O jornalista explica que, para ele, fazer jornalismo literário é dar um enfoque maior aos aspectos humanos da história. Por isso, — aqui vai um alerta de spoiler às avessas! — um dos capítulos do livro “Uma outra banda oriental”, que focava no trajeto da viagem ao Uruguai, acabou não indo para a edição final. Dessa forma, Poti pode dedicar a obra às histórias que descobriu no país e as decisões que tomou lá.

Quando escreveu o livro “E fomos ser gauche na vida”, Lelei não se preocupou se estava fazendo jornalismo ou literatura. Ela apenas queria contar sobre as experiências que a impactaram. “Todo repórter, por mais que a matéria seja crua, vai deixar escapar a questão humana, porque a gente é humano, e vai permitir a subjetividade”, observa. Ela ainda comenta que a linha entre jornalismo e literatura pode acontecer naturalmente ou ser algo planejado.

Escolher o título de um trabalho pode ser algo difícil. Para os dois jornalistas presentes na aula, não foi diferente. Poti confessou que sua primeira opção era “Uma volta pelo Uruguai”, mas uma conversa com Flávio Ilha, da Diadorim Editora, trouxe à luz a ideia do título oficial. Já Lelei explica que o seu título vem de uma brincadeira que fazia com a irmã. Ambas repetiam essa frase quando precisavam sair juntas. “Ser gauche na vida” foi extraído do “Poema de Sete Faces”, de Carlos Drummond de Andrade.

Poti contou para os alunos que é um grande fã do clássico da literatura “Moby Dick”, do autor estadunidense Herman Melville. Para ele, a obra é sobre viagens. O livro de Poti segue, também, na mesma linha. “Moby Dick” e “Uma outra banda oriental” falam sobre pessoas que viajam para buscar a paz interior.

Poti confessou que não tinha pauta ou planejamento prévio para a viagem ao Uruguai. O jornalista pegou a estrada e, no caminho, tomava as decisões quando a necessidade aparecia. Isso acabou prejudicando um pouco o trabalho, fazendo com que até pensasse em desistir de produzir o livro. Para nossa sorte, não abandonou a empreitada. No total, Poti precisou de quatro anos para finalizar o projeto. Se tivesse planejado, salienta o jornalista, o tempo poderia ter sido cortado pela metade.

O ponto alto da aula foi, sem dúvida, assistir os convidados super à vontade e conversando livremente. A sensação é de que estavam todos reunidos em uma mesa de bar. Deu saudade de quando isso ainda era possível de ser feito.

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Natural de Campo Bom, Roger começou a escrever poemas há cinco anos, e os publicava nas redes sociais. Com três livros de poemas e um romance policial, o escritor tem ainda um livro de terror para ser finalizado. O primeiro livro, escrito em inglês, surgiu para reunir os cerca de 100 poemas que Roger havia publicado nas redes sociais. Satélite Fantasma, de 2017, surgiu porque o artista estava apaixonado e queria transmitir o sentimento de alguma forma. O relacionamento não deu certo e o livro conta as diferentes fases da paixão.
Na época, o escritor procurava informações para publicar em formato digital quando encontrou uma publicidade da Amazon buscando autores para publicações de livros físicos. A partir disso, Roger reproduziu todos seus trabalhos de forma física e o link para cada um deles pode ser acessado aqui. Todo o processo de produção, desde a escrita, passando pela diagramação, as artes da capa e a divulgação após o lançamento, tudo é feito pelo escritor. Roger se utiliza tanto dos conhecimentos adquiridos no curso de Jogos Digitais, quanto no de Letras. Sobre o atual curso, ele conta que o foco é maior é a preparação para dar aula, mas como ele mesmo comenta:“O fato de estar inserido no meio acadêmico faz eu me entender escritor”.

“Inspiração é quando tu tá observando, aquilo fica na tua mente e, quando sai, sai meio madura”, conta Roger. O escritor conta que está sempre prestando atenção em tudo que está em sua volta: os gestos, as falas e o ambiente ao redor acabam servindo de inspiração. A ideia para Queda Livre, o romance policial, veio enquanto o escritor dirigia o carro. Já a narrativa do livro de terror, enquanto passeava com o cachorro. Roger mantém, sempre que possível, uma rotina para escrever. Ele entra no “personagem escritor” e consegue formar a narrativa. Os poemas, por outro lado, não têm um momento específico no dia a dia, eles apenas surgem. Roger se vê como artista no cotidiano. Ele observa e tem uma sensibilidade artística. “Acho que começou quando eu parei de escrever em inglês. Eu questionei a minha brasilidade, minha identidade e qual era a minha verdade”, explica.
Durante a quarentena, a rotina do escritor se tornou caótica e, consequentemente, o hábito de leitura e escrita acabou ficando de lado. Agora, Roger começa a se recuperar. “É difícil escrever, porque tem que escrever, editar, vender… As editoras brasileiras não valorizam o autor novo”, comenta sobre os desafios que costuma enfrentar. Roger conta que divide a escrita com o trabalho, a faculdade e alguns passatempos. Ele lê e cuida da casa. O último, faz para procrastinar, uma “procrastinação produtiva”, como ele mesmo diz. “Eu também toco mal violão, tenho que aceitar ser ruim em alguma coisa”, conta rindo.O artista divulga seu trabalho no instagram, postando os poemas e fazendo vídeos para conversar com os seguidores. “São pessoas com experiências diferentes e que se identificam com o que tu escreve”, diz o escritor que busca sempre responder todas as mensagens.
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Nesse sentido, Dudlei Floriano, professor do ensino médio no Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) – Campus Osório, é um exemplo de professor que precisou se recriar. Na graduação, ele não teve disciplinas de Literatura Afro-Brasileira. Formado pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG) em 2008, Dudlei teve que “correr atrás” para trazer a temática aos alunos. “Se for parar para pensar no que é o cânone literário brasileiro, ou no mundo todo, a grande maioria vai ser homem branco, então, muito raramente a gente tinha algum autor negro”, lembra Dudlei sobre as aulas na universidade. “Estudamos Machado de Assis, que a gente sabe que era descendente de escravo e era mulato, mas em nenhum momento a gente teve uma discussão sobre a raça na obra ou na vida dele”, completa.
Em 2019, uma iniciativa da Universidade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, buscou reparar um erro das pinturas do escritor. A campanha Machado de Assis Real surge para mostrar que, ao contrário de como normalmente é retratado, o fundador da Academia Brasileira de Letras é um homem negro. O podcast Expresso Ilustrada, publicou um episódio explicando como aconteceu o embranquecimento de Machado de Assis e qual a relação dele com o movimento negro.
Dudlei conta que, nas aulas, tenta sempre trazer a Literatura Negra com ajuda do livro didático. “É desafiador, mas acho que é possível, pegando uma mesma temática, falar de diferentes coisas que dialogam uma com a outra”, comenta. Mas, segundo ele, não existe uma fiscalização para saber se a lei está sendo cumprida. O professor acredita que datas como o 20 de Novembro são importantes nesse sentido, já que, pelo menos uma vez ao ano, os professores se veem obrigados a trazer essa temática para as aulas. “A gente fala muito em representatividade, acho que também é importante mostrar isso para inspirar as novas gerações, para verem que é possível. Isso incentiva os alunos a verem que não é um caminho tão elitista assim”, finaliza.
Eliana Inge Pritsch é professora da Escola da Indústria Criativa, e no curso de Letras, dá aula de Literatura. Eliana, que integra a Unisinos há 26 anos, também foi professora da disciplina optativa Seminário Avançado em Letras – O negro e o Indío na Literatura Brasileira, que foi oferecida em duas ocasiões. O contato com a Literatura Negra vem das aulas do Mestrado, no final dos anos 80. Foi com a professora Zilá Bernd que entrou em contato com autores que desconhecia na graduação.
O conhecimento sobre a Literatura Negra que Eliana tinha fez com que a professora tivesse uma preocupação a mais após a Lei de 2003. “Dei palestras, fiz cursos de extensão e, depois, duas edições da mesma disciplina para dar esse tipo de repertório para o profissional de Letras, que vai ser professor e vai chegar na escola”, explica. Para ela, a Literatura Negra tem um traço muito calcado na realidade e na construção de uma memória e uma identidade. Com isso, a professora acredita que não são apenas autores negros que fazem esse tipo de literatura. “Eu vou trazer a Literatura Negra muito mais por aquilo que ela vai me falar. Independe da cor do autor, depende de como ele tá colocando esse assunto”, explica. “A importância de ler Machado como negro é de ver que o nosso maior autor tem uma ascendência africana importante e isso é um tapa na cara da ideia racista”, complementa.
Outra questão importante, para Eliana, é a diversidade, já que, muitas vezes, se olha apenas para os mesmos autores. “Eu acho que é uma voz tão silenciosa que a gente acaba não se dando conta disso, acho que o ensino na literatura passa por essa questão de que eu vou estar sempre trabalhando com o cânone, mas é importante que eu dê essa visibilidade, de trazer esses livros, esses personagens, para que tenha um reconhecimento”, comenta. Ainda sobre o tema, a professora levanta um questionamento: quanto tempo levou para que a Globo tivesse um número considerável de personagens negros em suas novelas?
O Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) tem a resposta. Ao longo dos últimos 20 anos, eles têm realizado uma pesquisa sobre a raça e o gênero nas novelas, usando os dados do site Memória Globo. Entre 1995 e 2014, apenas 10% dos personagens centrais das tramas eram negros. A novela com mais personagens não-brancos, segundo o grupo, foi Lado a Lado, de 2012. Das protagonistas destes 20 anos de novelas, apenas sete eram não-brancas, sendo que estas personagens foram interpretadas por apenas três atrizes.
Assim, o Brasil vai apagando narrativas – e vidas – negras. Portanto, falar sobre a história e a cultura afro-brasileira é importante para instaurar o diálogo e construir a memória e identidade do país. “Eu vejo as nossas narrativas, hoje, cada vez mais se descolando de um protótipo de negro, dessa contestação. São questões desse cotidiano – tô pensando em Estela sem Deus, O Beijo na Parede -, não tem uma coisa panfletária no Jeferson Tenório, nem na Conceição Evaristo. Claro, ela vai se colocar como escritora negra e vai angariar para que tenha esse tipo de visibilidade, mas a marca do texto é trazer essa memória oral e coletiva”, finaliza Eliana.
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Com 43 anos, Jeferson é o mais jovem escritor entre a lista de patronos que a Feira do Livro coleciona ao longo dos anos. O escritor – que se vê muito mais como um contador de histórias – é natural do Rio de Janeiro e chegou em Porto Alegre aos 13 anos. Jeferson diz que começou a escrever antes de se tornar leitor. Foi apenas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde realizou a graduação em Letras, que passou a conhecer os cânones e, consequentemente, desenvolver uma escrita literária. Hoje, é doutorando na mesma universidade, além de ser professor.
Autor de três romances – O beijo na parede (2013), Estela sem Deus (2018) e O avesso da pele (2020) -, Jeferson começou pelos contos até que, um dia, uma aluna, ao ler um destes escritos, sugeriu para o professor aumentar aquela história. A partir de quatro páginas, Jeferson transformou Cavalos não choram em O beijo na parede, que conta, em 130 páginas, a história de João. O Mescla conversou com o patrono da Feira do Livro sobre sua trajetória como contador de histórias, como professor e, também, pesquisador. Dentre os assuntos abordados no papo estão a Literatura Negra e a importância da escolha de Jeferson Tenório para o patrono desta edição da Feira do Livro. Confira, abaixo, como foi a conversa entre uma jovem repórter nervosa com as falhas de conexão da internet e um escritor muito calmo:
Mescla: Eu queria começar, então, ouvindo um pouco sobre a tua trajetória enquanto escritor.
Jeferson Tenório: Tá. Então, eu comecei na adolescência, escrevendo diários. E depois, aos 18 anos, eu escrevi uma novela – a mão, porque não tinha máquina… nem máquina, nem computador, né? Mas era um texto muito ruim ainda, porque eu não tinha experiência com Literatura, eu não era um bom leitor. E depois quando eu entrei na faculdade, em 2001, eu comecei a escrever poemas, participei de um concurso, daí eu ganhei o concurso de poemas. Depois, eu fiquei um bom tempo sem escrever, até que, em 2006, eu ganhei um outro concurso de contos. E a partir daí eu comecei a pensar em escrever narrativa longa, em escrever romance e tal. Então, em 2013, eu publiquei no primeiro romance, O beijo na parede. Cinco anos depois, eu publiquei Estela sem Deus e, agora, a publicação do O avesso da pele.
Mescla: Com que idade, mais ou menos… Tu falou na adolescência… mas lembra com que idade foi isso?
Jeferson Tenório: Eu já morava aqui. Eu vim para cá com 13 anos, então, começou por aí, com 14, 15 anos. Dos 14 aos 18 anos, eu tive esses diários, que eu escrevia… Eu ainda tenho alguns deles guardados comigo. Geralmente eram coisas bobas, assim, não era ainda uma escrita literária, era mais um registro mesmo, mas eu sentia essa necessidade de escrever.
Mescla: Era mais um relato do teu dia, do que acontecia?
Jeferson Tenório: Era mais com as pessoas que eu conheci, que eu conhecia, algumas impressões, também de pessoas.
Mescla: E com quantos anos tu tá agora?
Jeferson Tenório: Tô com 43.
Mescla: Tu também é professor e pesquisador, não é? Tu tá fazendo o teu doutorado ainda, como é conciliar tudo isso? Ou não precisa conciliar, essas coisas se complementam? Como é essa parte da tua vida?
Jeferson Tenório: Então, é uma parte bem difícil, assim, de conseguir conciliar. Principalmente, depois do lançamento desse último livro em que eu acabei tendo muitos compromissos, mesmo estando na pandemia. Há poucos dias, também, defendi a minha qualificação (do doutorado). Eu ainda dou aula em escolas, tem a minha família… Então, tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e eu tô tendo bastante dificuldade de conseguir dar conta disso tudo. Claro que a gente acaba tendo que abrir mão de algumas coisas, alguns convites que eu sei que eu não vou conseguir comparecer, então, em outros momentos até iria, mas agora não tem como. Então, é isso que eu estou fazendo, tentando administrar a minha agenda de modo que eu consiga atender as pessoas com qualidade porque não dá para aceitar tudo e fazer qualquer jeito. Por isso, eu também saí de uma das escolas onde eu estava. Agora eu trabalho menos horas e vou abrindo mão das coisas até conseguir fazer tudo que eu preciso.
Mescla: Como que tu te encontrou na Literatura? Tanto enquanto escritor, quanto como leitor? Qual é a tua relação com a Literatura?
Jeferson Tenório: A minha relação com a Literatura foi tardia, eu não fui um bom leitor, nem na infância, nem na adolescência. Os livros não me atraíam. O meu letramento estético começou com o hip hop e o rap. Eu cheguei a ter um grupo de rap aqui em Porto Alegre, fiz algumas apresentações e foram suficientes para eu entender que não era o meu caminho. E aí, então, quando eu entrei na faculdade, comecei a ter contato com a Literatura e, principalmente, essa Literatura mais ocidental. Eu comecei a ler a Literatura Grega, essa mais canônica. Aí foi Shakespeare, Cervantes, Homero, toda essa Literatura mais eurocêntrica. E só mais tarde, já no fim da minha graduação, é que eu comecei a ler outras coisas fora desse eixo. Comecei a ler Literatura Africana, comecei a ler autores negros, mas isso foi bem depois. Então, acho que a faculdade foi esse momento de eu ser apresentado à essa Literatura e me tornar um leitor mesmo, de fato.
Mescla: Esse momento foi essencial para quem tu é hoje. Foi esse teu encontro com a leitura na graduação.
Jeferson Tenório: Isso. Foi essencial para eu me tornar um leitor.
Mescla: Como é que surgiu essa ideia de “ah, vou escrever um romance agora, vou sentar e vou fazer uma narrativa mais longa”? Jeferson Tenório: Ela surgiu a partir de um conto chamado Cavalos não choram. Ele foi um conto que eu escrevi para um Concurso Literário para a Universidade do Paraná e era um concurso chamado Paulo Leminski. Eu inscrevi, então, esse conto. Ele tinha, acho, três ou quatro páginas, aí ele tirou terceiro lugar, eu acho, nesse concurso. Eu me lembro que, nessa época, eu era professor do EJA – Ensino de Jovens e Adultos – e uma das alunas tinha lido meu conto naquele momento em que os blogs começaram a surgir. Ela me falou desse conto e me disse: “porque tu não continua essa história? Ela é tão boa”. E eu fiquei com aquilo na cabeça: “bom, quem sabe eu estico um pouco essa história” e foi que aconteceu. Eu acabei esticando essa história a 130 páginas até se tornar O beijo na parede. Mas ele surgiu a partir desse conto e desse pedido dessa aluna para que eu esticasse a história e chegasse, então, nesse personagem, que é o João.
“No meu íntimo, eu sou contador de histórias.”
Jeferson Tenório
Mescla: Quando é que tu começou a te enxergar como escritor? Tu lembra de algum momento específico que tu pensou “agora eu sou um escritor” ou isso sempre esteve presente?
Jeferson Tenório: Eu acho que ainda não tenho, assim, de ser um escritor. Eu me sinto mais um contador de histórias, alguém que conta histórias e procura manter a atenção dos leitores, porque eu, em sala de aula, também sou um contador de histórias, né? Eu vivo contando, inventando história para os meus alunos. Então, eu me considero mais um contador. Mas, de maneira formal, porque é o modo como as pessoas me apresentam, se deu quando eu publiquei o primeiro livro, O beijo na parede. E aí, eu vi ali as chamadas, as entrevistas e começavam a me chamar de escritor. E aí, eu meio que fui aceitando. Não foi uma coisa que eu sempre quis, foi meio acidental, também. E eu vi que era necessário ter essa nomenclatura de escritor, para as entrevistas, para as pessoas eu sou escritor, né? Mas, no meu íntimo, eu sou contador de histórias.
Mescla: Se tu estivesse em uma aula, já que tu é professor, e tu precisasse descrever o que tu escreve, mas, também, descrever a Literatura Negra de um modo geral, como tu descreveria isso?
Jeferson Tenório: Nossa, é uma coisa bem difícil, porque não há um consenso do que seria uma Literatura Negra, ou uma Literatura Afro-Brasileira. Aliás, tem até um problema teórico aí, se se chama de Literatura Negro Brasileira, se é Literatura Negra, ou se é Literatura Afro-Brasileira. Então não há um consenso nem quanto à nomenclatura. E, também, tem que estabelecer critérios, né. Então, na Literatura Negra são só pessoas negras que escrevem? Ou seja, uma pessoa branca pode fazer Literatura Negra? Então tem várias coisas envolvidas aí. O que dá para dizer é que a gente tem que separar o que é Literatura de autoria negra – e aí eu só vou levar em consideração pessoas que se autodeclaram negras – e uma Literatura que seja dita Literatura Negra, ou seja, pessoas brancas também poderiam escrever textos em que aparecem marcas de uma cultura negra ou de matriz africana. Que é o caso, por exemplo, do moçambicano Mia Couto, um escritor branco, mas que tem uma Literatura, digamos, negra. Então, é difícil porque é bastante complexo. Mas o que eu faço, eu acho que é uma Literatura Negro-Brasileira, por eu ser um autor negro e, também, por ter personagens negros e toda a problemática que aparece sobre as questões raciais no meu livro.
Mescla: Qual é a importância, para ti, de ter esse tipo de Literatura, uma Literatura Negro-Brasileira?
Jeferson Tenório: Eu acho que a importância é poder contar a história do Brasil, através da Literatura, de um outro ponto de vista. Acho que até há pouco tempo, a gente tinha apenas uma versão dessa história do Brasil e uma versão branca, uma versão de classe média e que não tinha essa outra parte da história do Brasil, né? Então, acredito que as Literaturas escritas por mulheres negras, talvez, tenham a oferecer muito mais do que a Literatura escrita por homens negros. Porque é um outro ponto de vista, como a Conceição Evaristo falou, das escrevivências, ou seja, essas experiências que, por muito tempo, foram silenciadas. Elas, agora, emergem e mostram o quanto é importante a gente ter esse outro ponto de vista para ampliar o que a gente entende por Literatura e, por consequência, a história do Brasil.
“Eu acho que a importância é poder contar a história do Brasil, através da Literatura, de um outro ponto de vista.”
Jeferson Tenório
Mescla: E, quando tu começou a ter contato com a Literatura na graduação, como foi, para ti, começar a ter contato e ler essas escritas não tão populares?
Jeferson Tenório: Foi um momento de descobertas e redescobertas. Entender, por exemplo, que o Machado de Assis era um autor negro, entender que Lima Barreto era um autor negro. Começar a ler Carolina Maria de Jesus, conhecer a Conceição Evaristo. Então, foram momentos que, talvez, tenham passado na minha graduação, mas não havia essa marca de me dizerem “olha, isso aqui são autores negros” e isso, talvez, fizesse bastante diferença, na época, para mim, de poder saber que existia. Mas foi gradual essa entrada dos autores negros, africanos, né, na minha vida. Até pouco tempo, eu não tinha lido autores importantíssimos, como a Toni Morrison, por exemplo, James Baldwin, Ralph Ellison, Luiz Gama. Luiz Gama eu fui conhecer há dois anos. Então, são autores que passaram batido, justamente pela formação que eu tive na minha graduação, que, simplesmente, isso não era uma questão.
Mescla: Tu uma comentou, quando a gente falava sobre a Literatura Negra, sobre separar a Literatura Negra por autoria negra e não negra. E tu comentou agora há pouco sobre o Machado de Assis, e ele foi embranquecido. O que isso significa para a Literatura Negra este embranquecimento?
Jeferson Tenório: O que aconteceu com o Machado, é que ele é o escritor mais importante que nós temos na Literatura Brasileira, mas em uma sociedade que tem o racismo como sua base, é muito difícil reconhecer que o maior escritor que nós temos era negro. É o que eu vejo no Machado… eu tenho uma influência machadiana, não só na escrita, mas, também, em como ser um homem negro. O Machado de Assis é um exemplo, para mim, porque ele viveu no momento em que o movimento escravagista era vigente. Então ele participou desse momento, e eu fico imaginando o quanto não foi difícil para ele, também, conseguir fazer o que ele fez, sair lá do Morro do Livramento, aprender francês praticamente sozinho, depois vira tipógrafo, vai trabalhar como funcionário público e funda Academia Brasileira de Letras. E tendo um grande reconhecimento, né? Quando ele morreu, o cemitério ficou cheio de pessoas que foram lá homenageá-lo. Aí eu fico pensando que ele só conseguiu isso, porque ele soube jogar o jogo da sociedade, que era bastante cruel, mas ele foi quase como um capoeirista, como se ele pudesse entrar no jogo e recuar, agachar e bater, quando tem que bater. E isso é muito dos textos dele. Sabe-se muito pouco da vida íntima dele, mas nos textos é possível ver essa postura de alguém que conhece o jogo, conhece as regras e eu acho que isso é muito representativo para mim, como homem negro e como escritor negro, de me espelhar no Machado de Assis para conseguir fazer o que ele fez. Isto é, saber o momento de recuar e, depois, saber o momento de avançar, porque o racismo é tão complexo e tem tantas camadas que, às vezes, é preciso ter um jogo de xadrez para movimentar as peças na hora certa.
Mescla: A gente sempre viveu numa sociedade racista e com diversos tipos de preconceitos e agora temos esses movimentos aumentando, principalmente, nesse ano, o Black Lives Matter por exemplo. Qual é a importância de as pessoas estarem falando mais sobre isso? Tu vê que vai ter algum avanço? Que tipo de avanço isso pode ter?
Jeferson Tenório: Olha, eu não sou muito otimista quanto aos avanços, porque, quando eu comecei a escrever O avesso da pele, era 2016, depois de uma abordagem policial que eu sofri aqui em Porto Alegre e eu pensei “eu quero escrever essa história”. Em 2017, eu assino contrato com a editora e naquele momento a gente ouvia falar de abordagens policiais, de pessoas que acabavam morrendo nas abordagens e tal, mas não tinha toda essa visibilidade que a gente tá tendo hoje. Mas aí eu parei para refletir e pensei que não estava em evidência para quem? E, hoje, está em evidência, também, para quem? Para a população que não sofre essas violências, a violência policial está em evidência, mas para a população negra isso sempre esteve evidente, sempre foi um problema para nós. Desde que a gente começa a caminhar na rua sozinho, a gente corre o risco de ser abordado, ser preso, ser espancado, ser morto, isso é uma realidade. O que tá acontecendo agora é que as pessoas estão filmando mais, as pessoas estão denunciando, existe, também, o advento da internet em que a gente pode escrever uma coisa e isso ganha uma proporção muito grande. E os autores acabaram entrando aí nessa esteira, porque há, também, uma vontade de ler essas experiências. Então acredito que, hoje em dia, exista essa visibilidade, mas eu só tenho medo que isso se torne uma onda, uma moda, e que no ano que vem, “ah não, agora a gente vai falar de outra coisa porque já falando dos negros, né, já tá resolvido essa história aí, agora, vamos partir para outra coisa”, esse é o meu medo. Então, nesse sentido, que eu não sou muito otimista.
“Em uma sociedade que tem o racismo como sua base, é muito difícil reconhecer que o maior escritor que nós temos era negro.”
Jeferson Tenório
Mescla: Tu, provavelmente, teve dificuldade enquanto escritor para começar a escrever, contar histórias. Quais foram essas dificuldades? E elas, de alguma forma, estavam ligados com esse racismo dentro da nossa sociedade? Como é que foi isso?
Jeferson Tenório: Quando eu começo a pensar nessas questões, ela já é, também, tardia. Na verdade, quando eu escrevi O beijo na parede, só depois, quando eu terminei o livro, é que eu me dei conta que a maioria dos personagens eram negros, por exemplo. Eu dei o meu livro para um escritor, um amigo meu ler e foi ele quem me chamou atenção. E eu não me dei conta disso, porque era natural que os meus personagens fossem negros, porque as pessoas que eu convivia eram pessoas negras. Então, pra mim, era muito coerente que meus personagens também fossem negros. Então, não foi muito consciente essa chegada aos personagens negros. Já no segundo livro, Estela sem Deus, aí foi bem consciente, eram coisas que eu queria, de fato, marcar, racionalizar, também as pessoas brancas, não só as pessoas negras, isto é, dizer, descrever, quem é cada um. E O avesso da pele aí, eu já faço uma faz uma espécie de tese sobre o que eu penso das questões raciais no Brasil. O avesso da pele é uma tese de que nós precisamos falar sobre o preconceito racial, mas não podemos esquecer do nosso avesso. Ou seja, daquilo que é subjetivo, aquilo que nem a polícia, nem o Estado vão ter acesso, porque algo único, singular, só nosso e é isso que nos torna humano e não a cor da pele. Essa seria a tese, mas para chegar nessa tese, eu tive que fazer toda essa caminhada, com os outros dois livros
Mescla: Teve um processo pra tu chegar na narrativa do último livro. Começou não sendo uma coisa consciente, depois foi… E o que tu acha que isso diz da tua evolução enquanto escritor? Tem um marco de diferença entre o Jeferson que escreveu o primeiro romance pro Jeferson de agora?
Jeferson Tenório: Ah sim, hoje em dia eu tenho muito mais instrumentos para construir uma história do que eu tinha há alguns, há, sei lá, 10 anos. O que, por um lado, é bom. O domínio da escrita é melhor, quando se tem mais consciência da manipulação que eu faço com a linguagem, mas, por outro, também, talvez perca um pouco o encantamento do fazer literário, né. E eu digo tanto quanto leitor, quanto escritor. Ou seja, dificilmente, hoje em dia, eu vou ter um livro que vai me causar um grande arrebatamento, porque quando eu leio, eu já leio com aquele olho viciado de quem estuda teoria, estuda personagem, estrutura do texto. Então eu tenho já esse olhar mais técnico. E na hora da escrita também, eu tenho muito essa questão técnica. Tanto que, agora nos últimos meses ou de um ano para cá, quando eu tenho que escrever algum texto ficcional, eu faço algum trabalho de imersão, de sensibilização. Então eu começo a ler muito poemas e tento decorar poemas, eu escuto muito música instrumental, muita música clássica e eu passo dias fazendo isso para que eu possa me afastar desse olhar técnico e me aproximar um pouco dessa atmosfera mais poética, mais lírica, mais ficcional, porque, se não, eu entro no texto de forma muito técnica e eu acho que deixa o texto muito superficial. Então eu preciso dessa imersão para conseguir produzir uma Literatura que se aproxime daquela de quando eu comecei a escrever, que era um Jeferson sem muita bagagem teórica.
“O avesso da pele é uma tese de que nós precisamos falar sobre o preconceito racial, mas não podemos esquecer do nosso avesso. Ou seja, daquilo que é subjetivo, aquilo que nem a polícia, nem o Estado vão ter acesso, porque algo único, singular, só nosso e é isso que nos torna humano e não a cor da pele.”
Jeferson Tenório
Mescla: Então teve essa mudança.
Jeferson Tenório: Teve essa mudança. Acredito que para escrever ficção, a gente precisa abandonar um pouco a teoria, abandonar um pouco tudo o que eu acabei estudando no mestrado e, agora, no doutorado para conseguir fazer Literatura, eu acho que é igual a tudo na vida, principalmente com coisas muito subjetivas, os afetos, a criação, a gente tem que deixar um pouco a teoria de lado e viver aquilo, porque senão fica uma coisa muito pensada e muito técnica e Literatura não se faz apenas com técnica, tem uma outra coisa e é essa outra coisa que eu busco.
Mescla: Tu lembra como foi receber a notícia que tu seria o patrono da Feira do Livro?
Jeferson Tenório: Sim, foi há alguns dias, em setembro, que eles me disseram que eu tinha sido escolhido. O presidente da Câmara do Livro me ligou e, no início eu até não entendi muito bem, porque eu achei que eu tava sendo convidado para ser uma das pessoas iam votar no Patrono, não que eu fosse o Patrono. Aí ele falou muito rápido, eu pedi pra ele repetir e aí eu fiquei bastante surpreso com a escolha e fiquei, também, muito feliz. Não tem como não ficar feliz, porque eu sei da importância desse papel e do quanto as pessoas gostam da Feira do Livro, mesmo quem não frequenta muito a Feira do Livro, sabe, a importância do patrono. Ainda mais em uma Feira como essa que tá marcando uma mudança tanto de plataforma, como dos autores que estão presentes, das discussões, dando ênfase mais na diversidade e o fato de eu ser o primeiro Patrono negro depois de 65 edições. Então isso é muito simbólico, muito importante e eu fiquei muito feliz.
Mescla: Já que a gente está falando de tu ser a figura Patrono da Feira do Livro, de tu ser o primeiro patrono negro depois de 65 edições, mas, também, te considerar um contador de histórias, o que tu diria para alguém pensando em começar a escrever, pensando em entrar nesse mundo?
Jeferson Tenório: Eu acho que a primeira coisa é ler muito, né. A gente precisa ler bastante e acho que ler é mais importante do que escrever, sempre. Só através da leitura que a gente consegue produzir alguma coisa, acho que a segunda coisa é ter paciência e, também, disciplina. Ninguém escreve um livro sem disciplina e paciência, seja qual for o gênero, um livro de poemas, um livro de contos, é necessário paciência, porque a escrita pede esses momentos de espera. Então, é necessário escrever, deixar, aguardar um pouco. Vai viver, vai fazer outras coisas, depois volta de novo para o texto. Quando se resolve, de fato, escrever o texto, é preciso disciplina. E quando eu digo isso, é preciso ter determinadas horas para fazer isso. Quando eu fiz o meu primeiro livro, O beijo na parede, eu trabalhei durante três meses, nos meses das minhas férias escolares, durante oito horas, para conseguir terminar o livro. E eram oito horas mesmo, então eu trabalhava quatro horas de manhã e quatro horas de tarde. E com paciência, tem dia que não rende, tem dia que a gente escreve apenas uma frase, tem dia que vai duas páginas. Mas eu acho que é isso, é leitura, paciência, disciplina.
“Literatura não se faz apenas com técnica, tem uma outra coisa e é essa outra coisa que eu busco.”
Jeferson Tenório
Mescla: E quais são as suas referências enquanto escritor?
Jeferson Tenório: Elas foram mudando ao longo do tempo. E, às vezes, elas voltam com mais força. Mas há alguns livros que sempre ficam. Acho que o Hamlet do Shakespeare é um livro que me marca muito. Inclusive, O avesso da pele é um pouco uma homenagem ao Hamlet. Eu também tenho Dom Quixote que também me marcou muito. E o Machado de Assis, né, toda obra dele. É uma obra que me encanta muito e que me influencia muito, é uma referência. Depois, tem os contemporâneos, a Conceição Evaristo, a Carolina Maria de Jesus, o James Baldwin – escritor norte-americano -, a Toni Morrison, o Paul Auster, que é um escritor que eu gosto muito. Então, são escritores que são referências, mas eles vão oscilando. A cada momento um se torna mais referência que o outro dependendo do momento que eu tô passando.
Mescla: Tu comentou que, para escrever ficção, precisa tirar a cabeça da teoria e tu faz essa imersão. Então, entrando no tema da ficção, tu acha que a ficção ajuda a enfrentar os problemas da sociedade?
Jeferson Tenório: Eu acho que pode muito pouco, no sentido mais pragmático da coisa, né. Eu sempre digo que ninguém vai ler O avesso da pele, por exemplo, e vai virar antirracista no dia seguinte. Eu acho que o que a Literatura faz é tentar despertar, sensibilizar as pessoas para algum tipo de problema que o livro tá evidenciando ali. Porque a Literatura opera em um outro nível, o nível da subjetividade, o nível da reflexão, um nível mais filosófico e isso acontece em outro tempo, que não é o tempo do embate, não é o tempo da luta. Eu acho que o que contribui mesmo para os problemas da sociedade é a criação de leis, a gente ter programas de governo, ter protesto na rua, protesto na internet. Isso são coisas mais do front, é como eu digo, pegar em armas. Mas a Literatura não serve para isso. Ela serve para que a gente possa perceber o outro e exercer um pouco de alteridade. É nisso que eu acredito. E ela atinge de maneira muito profunda as pessoas, mas não é imediato. Ela vai ressoando até que ela vai se tornando, talvez, uma pessoa melhor, um cidadão melhor.
Mescla: Para finalizar a nossa conversa, eu queria saber: se tu fosse capaz de falar com o Jeferson de alguns anos atrás, aquele que começou a escrever contos, que logo depois tava escrevendo o primeiro livro, o que tu falaria para ele? Teria alguma coisa que tu, o Jeferson Patrono da Feira do Livro de Porto Alegre, diria para ele agora?
Jeferson Tenório: Aprenda a fazer lives logo, lá em 2020 vai ser importante (risos). O que eu diria para ele é: continua escrevendo. É o que eu digo para as pessoas que estão começando a escrever, né. Continua escrevendo, porque as oportunidades aparecem, embora sejam escassas, mas elas aparecem. E eu tive a sorte de as oportunidades aparecem, para mim, no momento em que eu tinha um texto pronto, por exemplo. Foi o que aconteceu com os três livros. O que acontece com algumas pessoas é que as oportunidades aparecem e aí a pessoa não tem o texto, que é o principal. Então, o que eu diria para o Jeferson de 10 anos atrás é: continua escrevendo, porque escrever vale a pena.
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O Presídio Estadual de Taquara é composto por um conjunto de prédios azuis no alto do Morro do Leôncio. Para entrar nele, é preciso enfrentar uma estrada de chão batido que termina em um grande portão eletrônico. Nas construções abaixo do portão principal fica o Anexo, com os apenados do regime semiaberto. No topo do morro, os prédios do regime fechado e o setor administrativo. De lá, é possível ver quase toda a cidade de Taquara.
Quem recebeu a equipe do Programa L&R foi a psicóloga da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe), Kamêni Rolim. As professoras do curso de Letras Isabel Arendt e Andrea Wolwacz e o aluno Bruno Evaldt se encontraram com a diretora do Petaq, Mara Pimentel, e a defensora pública Ana Paula Dal Igna. Durante uma hora, as profissionais conversaram sobre os encontros anteriores e os cuidados que as professoras vêm tomando para adequar o projeto ao perfil do público da casa prisional, que em sua maioria não tem sequer o Ensino Fundamental completo. Dessa forma, conseguem mais o engajamento dos apenados e auxiliam na ressocialização deles.
A população do Petaq se divide entre os 150 detentos do regime fechado e os quase 80 que ficam no Anexo. O programa Leitura & Remição trabalha com os apenados do regime fechado e tem como objetivo principal a educação informal, ou seja, não há preocupação com conteúdos específicos do ensino básico. Concretamente, o programa dá possibilidade de remição de quatro dias de pena por livro efetivamente lido. “A gente recebe muita demanda deles, tudo o que a gente lança tem procura”, explicou a psicóloga Kamêni.
O Programa possibilita que a universidade entre no ambiente e na rotina dos presos, e os altere. Trata-se de uma ação que envolve muito planejamento e é cercada de cuidados. Os encontros do L&R acontecem em uma galeria para detentos do regime fechado. Para entrar neste espaço, é preciso passar por três grades de ferro. Cada vez que as professoras atravessam uma, precisam esperar a porta fechar atrás delas, e só então têm permissão para continuar. O espaço, utilizado para atividades em grupo com os apenados, contém um quadro e diversas cadeiras. Há apenas cinco aberturas para ventilação; as janelas são lacradas. O único barulho que se conseguia escutar naquele momento era o dos ventiladores pendurados nas duas das quatro paredes da galeria. Fazia muito calor naquela tarde. A temperatura marcava 31ºC. As cadeiras já estavam organizadas em círculo quando os alunos chegaram. “Podem passar”, disse o agente penitenciário responsável pela escolta. Doze apenados atravessaram as grades e, timidamente, encontraram um lugar para sentar.
Era a quarta vez que as professoras iam ao Presídio, mas era a primeira participação para a maioria dos presos. Eles estavam tímidos e procuravam não olhar no rosto das professoras. Após uma saudação, Isabel pediu a atenção dos presentes para que escutassem uma música do Paralamas do Sucesso:
“Ouve o que eu te digo, vou te contar um segredo: é muito lucrativo que o mundo tenha medo.” A canção foi utilizada pelas mediadoras para iniciar a oficina. À pedido delas, cada um dos apenados escreveu em um papel seus temores e entregou para outro colega. O medo é um sentimento humano. Aquelas pessoas, privadas de liberdade, sentem tanto medo quanto as que estão livres. “O medo existe para organizar as formas como vemos as coisas”, completou a psicóloga Kâmeni.
Os medos, escritos nos papéis, eram lidos em voz alta pelos participantes: “Tenho medo de não ver minha família”; “Meu medo é de apontar o dedo e apontar errado”; “Tenho medo de não ser lembrado como algo positivo, principalmente, pela minha família”; O encontro mostrou que os presos se preocupavam, também, com os parentes e o risco de contrair o coronavírus, que estava começando a aparecer no país. Mas as frases escritas também mostravam os desejos deles para o futuro. “Quem foi o M. D.*? Por enquanto eu sou presidiário, mas eu quero mudar isso”, contou um dos participantes do projeto.

O grupo então recebeu o novo livro para leitura: “Max e os felinos”, de Moacyr Scliar. A história gira em torno da vida de Max, suas escolhas, seus medos e as consequências de suas atitudes. Os livros são emprestados para os presos, que devem devolvê-los no dia da escrita do relatório, mas dois exemplares ficam no presídio para que outros apenados, além do grupo do L&R, possam ter acesso. “Eles vão ser disseminadores da leitura de outros lá dentro, porque esse livro vai ser lido por eles e por todos”, contou a professora Isabel.
Eles têm apenas duas horas por dia no pátio e não conseguem apreciar a vista da cidade. Entretanto, através da leitura, eles viajam para diferentes mundos e realidades. Talvez essa seja a liberdade possível e necessária para que a ressocialização aconteça.

Os homens presentes na oficina se comunicavam com a cabeça baixa e uma voz sussurrada. Era difícil escutá-los entre o som dos ventiladores. A forma como se expressavam revela também as consequências dos preconceitos que a sociedade coloca naquele grupo. Com idades entre 20 e 30 anos, eles começaram no projeto pela chance de sair mais cedo daquela situação. Mas permaneceram pela experiência que a literatura proporciona. “Eu peguei gosto pela leitura, ela acaba abrindo a mente”, explicou V.G..
Dos participantes daquela tarde, cinco estão no projeto desde o início. Muitos saíram por medo de serem avaliados. Os que ficam, incentivam outros a entrarem no programa e discutem, nos momentos em que se encontram, a história e suas opiniões sobre o desenrolar da narrativa. “Poucos participaram desse último encontro e eles ficaram preocupados, então eles mobilizam os demais para que a atividade continue”, contou Kamêni. M.D., o mais falante do grupo, contou ter lido apenas um livro durante toda a vida. Desde que está preso, há um ano, já leu mais de 12, nem todos pelo programa. Já E.L. espera que a literatura o ajude a lidar com a vida: “Existem pessoas, no sistema prisional, que querem viver em sociedade”.
Todos os participantes, novos ou não no programa, enxergam a importância do projeto. Se mostram felizes em dividir suas experiências e agradecem às professoras por se importarem. Ao relatar o que sentem e como vêem esta experiência, eles contam que, além da remição da pena, o programa proporciona um refúgio para a situação em que estão.

A forma como se relacionam com os outros também mudou depois do projeto. A. T. costumava dividir a cela – um espaço com quatro paredes e uma janelinha – com outro participante. Durante um dos ciclos, estavam lendo um livro de mistério e se reuniam todos os dias para discutir as teorias sobre a história. Essa conversa, que começou dentro da cela, se espalhou para todo o presídio, envolvendo não só os membros do L&R, mas, também, outros apenados. “Eles estão trabalhando outras questões ao ler, que eu acho que são fundamentais”, explicou a professora Andrea.
Eles esperam o mês inteiro pela dinâmica e o encontro com as professoras. O grupo, constituído, principalmente, por homens que não costumavam ler, encontraram um conforto naquele pequeno espaço. “Eles ampliam os horizontes, os conhecimentos e eles podem refletir sobre outras possibilidades de uma vida futura e melhor para eles”, completou a professora. Com interesses em comum, agora eles sugerem livros para familiares que os visitam e procuram ler além do que o projeto proporciona. Hoje, eles leem para sair do presídio. Em breve, estarão reinseridos na sociedade com uma nova visão do mundo. Não os encontraremos mais no Petaq.
As quatro professoras que fazem o Programa L&R acontecer se intercalam nas visitas. Andrea Wolwacz, Eliana Pritsch, Isabel Arendt e Márcia Duarte são os nomes por trás da preparação das oficinas e da escolha dos livros. Andrea é professora e pesquisadora em Literaturas de Língua Inglesa. As áreas de interesse de Eliana são Literatura e Línguas Clássicas. Já Isabel têm experiência nas áreas de Letras e História, com ênfase em Literatura e na cultura alemã. Márcia atua com Literatura brasileira e gaúcha. A seleção de livros para o programa foi feita com muito cuidado, levando em conta as áreas de conhecimento de cada professora, e foi se modificando à medida que elas conheciam melhor o seu público leitor.

O primeiro encontro, segundo elas, foi cheio de dúvidas. As pessoas não se conheciam e havia uma estranheza no ar. Não era possível prever como o projeto ia ser recebido. É comum ter medo do que se desconhece. Esse sentimento foi se desfazendo no decorrer dos encontros e com a abertura dos apenados. “Pra mim, foi uma sala de aula. Eu comecei a interagir com eles e fiquei emocionada com o que relataram”, explicou a professora Andrea. A sensação é compartilhada por todas as docentes que veem o projeto como algo positivo para elas e, principalmente, para os participantes. “A gente só conhece o olhar negativo sobre o sistema prisional e, de repente, tu tem uma ação positiva e tu vê aflorar o lado humano deles”, afirmou Isabel.
O respeito pelas profissionais e a vontade de participar pode ser percebida pelas professoras desde o primeiro encontro, que aconteceu no fim do ano passado. Era terça-feira, 15 de outubro, quando Isabel entrava no Petaq pela primeira vez. Nesse dia, ela estava acompanhada de outra aluna do curso de Letras, Bruna Piason. Bruna relatou que passou por diversas transformações em apenas uma visita. Compreendeu que a visão que tinha do sistema prisional era equivocada. “Eles estão ali por alguma coisa que fizeram, mas isso foi levado por outra coisa maior, é tudo questão de contexto. É muito profundo e complicado”, completou a estudante.
O livro escolhido naquele momento foi “Antes que o mundo acabe,” do escritor gaúcho Marcelo Carneiro da Cunha. Foi o primeiro por ser um livro de fácil acesso às professoras, já que é uma das leituras pedidas no decorrer do curso. Para conseguir os 15 exemplares, elas levantaram uma campanha nas redes sociais e conseguiram que alunos e ex-alunos cedessem suas cópias para o programa. Resultado, os apenados não só leram o livro em um mês, mas também emprestaram para outros detentos que não participavam do projeto. No fim da primeira oficina, os participantes agradeceram às professoras pela disponibilidade e as aplaudiram, em homenagem ao Dia do Professor.
O Programa L&R traz a esses homens algo difícil de manter ou desenvolver na prisão: um olhar sensível que os façam relembrarem da humanidade que carregam. “Nós precisamos, enquanto sociedade, fazer ações para melhorá-los quando saírem daqui, porque vão sair e, se não fizermos nada, a perspectiva é pior ainda”, explicou Mara Pimentel. O encarceramento amplifica as vulnerabilidades. Ele gera sofrimento. “A gente tem uma cultura que vai olhar para o negativo, mas e além disso? Todas as pessoas passam por dificuldades, mas, pra quem cumpre pena, parece que amplifica”, explicou Kamêni. O trabalho realizado pelo L&R permite momentos para sair desse encarceramento e isso modifica o olhar que esse indivíduo tem de si mesmo e do que o cerca.
Em diversos momentos, os participantes relataram que aquela atividade faz com que se sintam ouvidos. Eles se sentem “humanos de novo”, como já foi declarado em um dos relatórios entregues às professoras. Em uma breve busca ao dicionário, é possível encontrar que a definição de humanidade, entre outras coisas, remete ao “sentimento de compaixão entre os seres humanos”. Ao se colocar no lugar de outra pessoa e a tratar com empatia, mostramos um lado da sociedade pouco visto por aqueles homens. A postura da cabeça baixa mostra o quanto se julgam e se sentem julgados. A voz sussurrada escancara que, além da privação de liberdade, o encarceramento também os tolhe do direito de expressão. Ao se tornarem leitores, eles não apenas viajam pela literatura, aprendem a lidar com sentimentos, a resolver problemas e criam uma rede de apoio que vai muito além das paredes da cela. Independentemente do crime que cometeram, todas as pessoas – privadas de liberdade ou não – estão inseridas em um contexto social que influencia suas escolhas. E todas elas merecem ser ouvidas.
No fim da tarde, o grupo se despediu. Os apenados, com a nova leitura, foram acompanhados de volta para as celas pelo agente penitenciário. As professoras seguiram o caminho oposto. Junto com a psicóloga, saíram do prédio azul e foram em direção ao estacionamento. Direções diferentes, mas um mesmo objetivo: a liberdade de buscarem e a determinação de alcançarem um futuro melhor.
*Para manter a privacidade dos entrevistados, os nomes não serão divulgados
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]]>Em janeiro deste ano, um pouco antes da pandemia, os repórteres do Portal Mescla receberam o premiado escritor Henrique Schneider no estúdio de TV da Unisinos para uma conversa sobre o processo criativo dele. O papo foi em formato de sarau, e fez parte também das atividades de formação de verão do Mescla. Com bastante entusiasmo e paixão pelo seu trabalho, Henrique deu uma aula sobre como entende a criatividade, sua forma de organização e pesquisa ao escrever e, principalmente, o quanto ser escritor é um trabalho sério que deve ser exercido com dedicação.
“Organização, disciplina e repetição são fundamentais. Pablo Picasso já dizia ‘cada vez que a inspiração chegou para mim, ela me encontrou trabalhando’”, resume o autor sobre o seu trabalho.

Natural de Novo Hamburgo, onde mora até hoje, o autor lançou seu livro mais recente, Setenta, em 2018, que recebeu o Prêmio Paraná de Literatura. Henrique também já foi agraciado com o Prêmio Maurício Rosemblatt, Prêmio Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores (Ages) e foi finalista da 50ª edição do Prêmio Jabuti, a premiação de literatura mais tradicional do Brasil. Além disso, foi colunista no jornal ABC Domingo e participou de projetos de disseminação da leitura.
Como não poderíamos guardar apenas conosco o que aprendemos com Henrique nesse bate-papo, a nossa conversa foi transformada em um podcast que vocês podem conferir abaixo. Ele foi dividido em três partes, onde foram abordados o antes, o durante e o depois da escrita.
A equipe Mescla agradece ao Henrique pela disponibilidade em conversar conosco e por ter nos agraciado com essa conversa muito rica sobre literatura, criatividade, dedicação e, principalmente, disciplina.
Livros de Henrique Schneider citados:
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