wp-mailinglist domain was triggered too early. This is usually an indicator for some code in the plugin or theme running too early. Translations should be loaded at the init action or later. Please see Debugging in WordPress for more information. (This message was added in version 6.7.0.) in /home/agexcom/mescla.cc/wp-includes/functions.php on line 6170The post A ousadia de não lutar, mas conviver na floresta appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>O crime que ocorreu no início da década chamou a atenção do artista Tomaz Klotzel. “Eu comecei a ler mais sobre o assunto e entender mais sobre esta região da Amazônia. Então, teria o segundo julgamento do mandante do assassinato de José Cláudio e Maria, fui para o julgamento e acabei indo para a região de Marabá”, conta. Tomaz ficou no local por um mês e meio, conheceu a CPT – Comissão Pastoral da Terra, órgão que dá assistência aos povos da região amazônica e visitou os locais onde tinham ocorrido os assassinatos, afinal, ali havia uma disputa de terras em que outros casos já tinham ocorrido.
Conversou com testemunhas, parentes, sobreviventes e iniciou pesquisas nos registros policiais. Ao ler o texto de julgamento começou a entender os casos. Aos poucos percebeu que o que tinha em mãos poderia ser denunciado. Para isso, usou sua arte.
“Quando eu chegava nos locais eram lugares sem memória, como uma beira de estrada, uma rua, ou capoeira na mata. Então, o interessante era que os eventos desapareciam, mas os locais davam testemunho do processo de invisibilidade. Um processo violento que tem um objetivo específico, invisibilizar populações. Ao mesmo tempo, eu vi que a coleção de relatos que eu tinha me ajudava a reconstruir essa imagem. Eu comecei a pensar em uma maneira de apresentar um trabalho que unisse a fotografia e o texto e que isso pudesse construir uma imagem” – Tomaz Klotzel
Assim, nasceu Ousadia, Majestade!
Meu esposo era um sindicalista, vivia na luta, trabalhando, lutando para adquirir um pedaço de terra para trabalhar, ele e a minha filha. E acabou sendo assassinado aqui dentro de casa. E no dia do assassinato a casa aqui estava cheia de gente. Tinha até uma criança recém nascida, deitada na rede. – Cleonira Barbosa da Silva Torres, viúva de Pedro de Oliveira Torres (Foto e Texto: Tomaz Klotzel)
Confira o áudio completo
Aqui foi aqui que aconteceu a tragédia. Hoje é uma casa diferente, era uma casa de madeira na época, simples. Eram 7 horas da noite, vieram dois rapazes, bateram na porta, entraram. Executaram a minha mãe, Cleonice, meu pai José e meu irmão caçula que estava na rua. – Edinaldo Campos Lima, filho das vítimas (Foto e Texto: Tomaz Klotzel)
Confira o áudio completo
A Curva do S é um lugar de tristeza para mim. Porque nós convivemos ali. Eu não sinto aquele lugar ali como a moradia de pessoas alegres. A gente sente a presença, quando chega naquele local – não sei se acontece com outras pessoas, ou se é porque isso não sai da minha cabeça, e acho que só vai sair quando eu morrer mesmo. – Maria Jesuíta de Araújo, sobrevivente do massacre (Foto e Texto: Tomaz Klotzel)
Confira o áudio completo
A moto saiu da ponte e caiu aqui na frente. O tiro pegou de lado nele. Terminaram de executar ele e depois executaram a Maria. – Zé Rondon, cunhado das vítimas. (Foto e Texto: Tomaz Klotzel)
Confira o áudio completo
Tomaz criou a obra como uma forma de indagar como se constrói uma imagem e sua constituição. Atualmente, está em exposição no Vídeo Brasil, até 2 de fevereiro.
“A resolução expográfica do trabalho é uma das maneiras de apresentar. A outra é a que apresentei no MARGS, uma palestra com um texto não exatamente explicativo, mas que lida com algumas ideias e questões poéticas. O trabalho é uma coleção de dados que pode ser apresentada de diferentes formas” – Tomaz Klotzel
Ousadia era uma expressão que a Maria tinha, ela dizia: “É necessário ousadia para conviver com a floresta”, o que é muito interessante, porque eles enfrentavam grandes madeireiros. Existe uma expressão que é consórcio, quando vários poderes se reúnem nessa violência que visa silenciar, Zé Cláudio e Maria foram assassinados por um consórcio de madeireiros e de outros poderes. Ousadia não era da luta, mas do convívio. A ousadia de ter a coragem de não batalhar. Já Majestade é o nome de uma castanheira centenária, 60m de altura, que está no lote de terras do casal. – Tomaz Klotzel

Tomaz ,40 anos,tem bacharelado em Fotografia pelo Senac/SP e se considera um nômade: está onde tem trabalho. Suas andanças incluem São Paulo, Marabá, Buenos Aires, Rio de Janeiro, mas suas raízes estão em Pelotas (RS). O pai assinava a revista National Geographic, cujas fotos o encantavam. A fotografia de guerra era uma de suas aspirações, queria viver coisas extremas e liberar o hormônio da adrenalina.
Este gaúcho já desgarrado de seu pago levou um tempo até se entender como artista, resultado do trabalho Meteora, no qual fez um cruzamento de investigações sobre o tempo a partir da ativação de ideias como memória, rito e materialidade. “Foi quando eu tive mais contato com a arte contemporânea. Lá eu conheci outros artistas e minha cabeça explodiu”, afirma Tomaz que prefere não delimitar seu trabalho dentro de mídias. “Para mim, nunca fez muito sentido essas divisões (Fotografia, Cinema, Pintura, Música, Poesia), pelo menos na história da arte, século XX, os caras exploravam os limites. Como assim fotografia? Aí eles faziam fotogramas. A fronteira é um lugar específico”, conta o artista.
O artista também fala sobre ausência. Para ele, as artes visuais sofrem um esgotamento que é do visual, afinal, como podemos fazer uma imagem que seja interessante? Até que ponto podemos trabalhar com ela? “Talvez, assumir uma incapacidade de registro da fotografia, pelo consumo excessivo de imagens algumas coisas se tornam invisíveis”, diz o artista que usa justamente a ausência em seu trabalho Ousadia, Majestade!
The post A ousadia de não lutar, mas conviver na floresta appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>The post A poética do invisível appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>“Esse tema dos fungos é algo que me atrai há bastante tempo. Eu comecei a me interessar por eles, primeiro, esteticamente. Acho que remete a um universo onírico”, conta a artista. Tuane percebeu que estes pequenos seres invisíveis têm uma importância muito grande para os ciclos da natureza e decidiu registrar esse universo em seu projeto de mestrado.
“Eu vejo eles como um agentes da transformação. Eu gosto muito de pensar que, às vezes, o que a gente acha que é o fim de uma coisa, na verdade, é só uma etapa de um ciclo que é muito maior. Gosto de pensar no sentido da transformação. Principalmente, nesse momento em que está todo mundo sem esperanças, é importante pensar que é só um ciclo de algo além” – Tuane Eggers.
“Eu estou trabalhando com experimentações nesse sentido, que é a aplicação de fungos em fotos impressas”, diz. Para aplicar a técnica Tuane imprime suas fotos em tamanhos pequenos em papel matte ou algodão. Em seguida, a artista aplica alimentos sobre a foto, como laticínios ou mesmo frutas. Os dias passam e os fungos se proliferam, então, ela refaz a foto da mesma imagem, o que resulta em uma sobreposição de imagens.
“Fui autodidata na área da fotografia. Eu comecei a fotografar com uns 15 ou 16 anos de uma maneira bem experimental, usava a câmera do meu irmão que era muito simples”, conta a artista. Sua cidade natal, Lajeado, tem uma população de aproximadamente 70 mil habitantes. Para Tuane, viver em uma cidade do interior a fez usar a fotografia para criar e perceber o espaço. “Fazia muitos auto-retratos e fotografava muito o quintal da minha casa”, conta.
No início, a artista publicava suas fotos em seu Fotolog. Para quem não conhece o Fotolog foi um site de fotografias, parecido com o Instagram, que já deixou de existir. “Naquela época, Em 2008, aconteceu uma coisa curiosa pra mim, me convidaram para participar de um filme, um longa metragem chamado “Os famosos e os Duendes da Morte”, que um diretor chamado Esmir Filho produziu”, conta a artista.
Esmir estava em busca de jovens que se relacionavam com a internet, como uma forma de mostrar suas criações nesse ambiente. Tuane interpretou Jingle Jangle e teve a oportunidade de mostrar suas criações que ela postava no Flickr e no Fotolog. O projeto fez a artista acreditar mais no próprio trabalho como um potencial artístico.
Um potencial que também chamou a atenção de outros artistas como Selton Mello (Sim, ele mesmo!) que dirigiu “O filme da Minha Vida“,
“Um dia uma produtora de elenco me ligou e falou: “Tuane, o Selton Mello tá querendo te conhecer, eu posso passar o teu contato pra ele?… Eu fiquei, o quê? Como assim? Ele tinha assistido o filme do Esmir e foi pesquisar mais sobre o meu trabalho e minhas fotos.” – Tuane Eggers
Na obra de Selton Mello, a atriz Bruna Linzmeyer interpreta Luna, uma fotógrafa que se apaixona por Tony (Jhonny Massaro). Tuane acabou produzindo as fotos que aparecem no filme como tendo sido feitas pela personagem principal, Luna. O trabalho dela incluiu fotografar os atores, e de quebra, conhecer uma de suas referências, o fotógrafo e cineasta Walter Carvalho.
Tuane trabalha muito com sobreposições, portanto, prefere a fotografia analógica. “Eu seleciono quantas imagens eu quero, aí ela segura o filme da câmera. Então, eu faço uma imagem, ela segura, e eu faço a outra”, explica a fotógrafa sobre a técnica de dupla exposição em que o negativo pode ser exposto mais de uma vez, o que cria o efeito de suas fotos.
Foi assim que eu descobri outro tempo na fotografia, antes, eu estava acostumada a ver as imagens no momento em que eu fazia. Agora, é outro processo. Tem que esperar. Lidar com a espera pode ser algo angustiante, mas, também permite esse reencontro com a imagem. Então, também é lidar com os erros, acho que a imagem se torna especial, por ser mais única. – Tuane Eggers
Em novembro, a fotógrafa foi convidada para expor seu trabalho na cidade de Porto Alegre, durante o Festival Kino Beat. O convite veio do curador Gabriel Cevallos depois de conferir o trabalho dela no Congresso Cósmico de Ecologia das Práticas. Juntos, eles pensaram em uma forma diferente de expor o trabalho de Tuane, no lugar de telas, optaram por outdoors. “Eu vejo a publicidade como uma coisa meio agressiva e eu acho que colocar os fungos lá, esses seres pequenos e não perceptíveis é uma forma de dar importância a eles.”, conta.




Tuane sempre quis atuar na transformação das coisas. Para ela, o jornalismo regido por interesses, talvez, não fosse o caminho. “Aos poucos percebi que muitas coisas são políticas [… ] Também tem muito a ver com a natureza. Trazer esses seres invisíveis e voltar o olhar para eles também é um ato político”, conta a artista.
Tuane já participou de exposições internacionais no Japão, Rússia e Dinamarca, infelizmente, nunca pode estar presente em nenhuma delas. Seus cogumelos que já viajaram o mundo, na verdade vieram de um lugar mais próximo, uma pequena cidade do litoral gaúcho chamada Maquiné. Suas fotos nascem sempre de um ambiente íntimo, como nas viagens com os amigos, quando ocorre sua poética dos fungos.
Antes de ir embora leia esta poesia selecionada pela artista.
A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.
Manoel de Barros
The post A poética do invisível appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>