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Prestes a completar cem anos, esse momento precisa ser revisitado: “O conceito que se destaca no Modernismo é a Antropofagia, o fato de efetivamente eu entrar em contato com outras culturas, de eu trazer esses elementos, não negar eles. Eu acho que isso é crucial, dar a eles uma nova perspectiva. É ‘engolir’ e depois ‘botar para fora’ alguma coisa que seja totalmente brasileira”, destaca a professora do curso de Letras da Unisinos, Márcia Lopes Duarte.
Olhar para o legado do movimento nas mais diferentes áreas da indústria cultural e, ao mesmo tempo, enxergar novos ângulos e possibilidades para essa reflexão, é o desafio de duas reportagens que o Mescla produziu. Para isso, além de Márcia Lopes Duarte, foram convidadas a professora de Letras Rita Lenira de Freitas Bittencourt (UFRGS) e a doutora em História da Arte Thiane Nunes. Nesta primeira reportagem, mostraremos as marcas deixadas pela Semana e a grandiosidade do Modernismo brasileiro; na segunda matéria, seguiremos uma investigação: onde estavam as mulheres modernistas da Semana de 22?
(Para ler esta reportagem, te convidamos a ouvir o álbum “Tropicália ou Panis et Circenses“, de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes, Tom Zé e Nara Leão)

O evento foi formado por palestras de escritores, apresentações musicais, exposições artísticas e leituras de poemas. Já no segundo dia, a leitura de “Os Sapos”, de Mário de Andrade, realizada por Ronald de Carvalho, foi acompanhada de vaias, urros e batidas de pé. Contam que quanto mais o público reclamava das apresentações, mais Oswald de Andrade, um dos seus principais idealizadores, sorria e comemorava: a intenção era provocar, e as armas eram a ironia, o deboche, a irreverência e a contestação em forma de linguagens artísticas.
Para Márcia, 1922 fez fervilhar o espírito provocador e viabilizar o Modernismo brasileiro. Imerso a tantos fatores, o movimento é a representação de um marco, porque pincela (desculpem a repórter pela analogia), ao longo do século XX, novas possibilidades de falar, de criar e até de viver, influenciando desde o fazer artístico até as discussões políticas e de hábitos sociais.
“Tanto para a literatura como para a cultura brasileira em geral, é o Modernismo que realmente vai apontar novas possibilidades, porque, até aquele momento, existia uma perspectiva muito ‘europeizante’”, comenta Márcia. “A grande questão do Modernismo é a Antropofagia, proposta pelo Oswald, e que eu acho que está muito evidente na obra do Mário de Andrade. A questão não é se distanciar totalmente das ideias europeias, não é romper, mas é trazer elas, deglutir e transformar em algo que faça sentido para o Brasil”, completa a professora.
O movimento surge em meio a uma eclosão política e social, que culminou com o fim de um período, a República do Café com Leite. Esse é um contexto de renovações almejadas. Além disso, esses movimentos inovadores são influenciados pelas vanguardas europeias. Diversas questões sociais surgem, algumas estouram, o Tenentismo logo encabeçaria a Coluna Prestes, que mais adiante resultaria na eleição de Getúlio Vargas. Na arte, o Movimento Antropófago grita a necessidade de se repensar os signos da comunicação, seja ela artística ou social. Fervilhava mundo afora manifestações sociais, novas tecnologias sendo apresentadas, o feminismo dando seus primeiros passos nas lutas políticas, a belle époque. Tudo culmina em um sentimento a ser devorado e digerido: a Antropofagia, que brota de todos esses eventos.

Nos últimos anos, críticas ao movimento e, em especial, à Semana de 22, têm ocupado lugar, uma vez que o movimento que fala em celebrar o Brasil e cultuar nossa diversidade, sem erudição e estrangeirismo, foi encabeçado por homens héteros brancos da elite de São Paulo e do Rio de Janeiro. A República do Café com Leite, tão criticada pelos modernistas, se mostrava ali, com o eixo geográfico da elite brasileira ditando os rumos (e financiando o próprio movimento). O argumento é válido, mas para melhor prosseguir no fluxo da história, não podemos desprezar ou ignorar o grande impacto que esse momento teve para nossa história.
“Eu sei que tem toda essa questão de ter sido algo feito pela elite cafeeira de São Paulo, eu não sou ingênua de achar que foi um movimento popular. Mas em termos de definição da nossa cultura, eu acho que é extremamente importante. É por causa desse Modernismo que a gente tem autores como Graciliano Ramos, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Clarice Lispector”, observa Márcia.

Para Rita Lenira de Freitas Bittencourt, professora de Literatura Comparada da UFRGS, esse Modernismo inicial é uma espécie de teorização sobre uma nova linguagem, que vai permitir, anos depois, o surgimento do Tropicalismo, de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, além do Cinema Novo, a poesia concreta, ad infinitum. “Onde é que se consolida realmente esse pensamento modernista? Bem mais tarde, lá na Tropicália e no Cinema Novo. Aí que vão ter frutos desse “pensamento antropofágico”, essa questão voltada para uma cultura nacional, para o uso da comunicação de massa, também, que aqui era muito frágil.”
Márcia reitera que todo o fazer cultural do século foi influenciado pelo que surge em 1922: “Olha só toda ‘essa coisa’ do Cinema Novo. Ele deve muito ao Modernismo, assim Glauber Rocha não seria possível sem o movimento modernista. Também Caetano Veloso. Então, é assim, acho que esses autores sabem o legado do Modernismo, e isso é evidente.”
“Macunaíma”, de Mário de Andrade, e a representação do anti-herói, é uma história subversiva, que rompe com a lógica capitalista. A preguiça do personagem é, de certa forma, um “tapa na cara” da sociedade produtiva, do moralismo dos costumes tradicionais. Não é à toa que, anos mais tarde, em 1969, Joaquim Pedro de Andrade transformou o clássico em filme, e acabou sofrendo diversas imposições de censura pela ditadura militar. Alguns anos antes, em 1967, Zé Celso Martinez montou a primeira encenação nos palcos de “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade, escrito 30 anos antes, também em tempos ditatoriais. Em 1937, o Brasil vivia sob o Estado Novo de Vargas. A peça estreou em vésperas do AI-5, renasceu o espírito anárquico e paródico, e coube bem naquele outro contexto.

Para Rita, a Semana de 22 “encena” esses movimentos, sugerindo e lançando ideias, que vão brotar em algo genuinamente brasileiro alguns anos depois. “Ali se espalha uma discussão de que as artes no Brasil deveriam se atualizar em relação ao que estava acontecendo em outros lugares. Se repensar, porque, na verdade, o Modernismo é o repensar do próprio fazer. Existia uma pintura muito acadêmica, existia uma literatura parnasiana, um romance muito preso às normas do romance europeu. Então, quando o Oswald (de Andrade), o Mário (de Andrade) e o Raul Bopp propõem um outro tipo de escrita e de literatura, eles estão pensando não só em atualizar as artes no Brasil e acertar o pé com o resto do mundo, mas também pensar uma arte nacional. Dizer ‘a gente tem essa herança europeia, colonizadora, mas a gente tem uma realidade diferente dessa’. Então, a gente tem que incluir isso na dicção de uma literatura que se quer nacional”, explica.
Mas, naquela época, o movimento encontrou um núcleo muito conservador e reacionário. Uma das primeiras artistas a ser execrada foi Anita Malfatti, chamada de louca, paranoica, tendo seus traços comparados à insanidade ou ao de uma criança por ninguém menos do que Monteiro Lobato. “Paranóia ou Mistificação” foi publicado no jornal Estado de São Paulo em 1917 detonando Anitta (e todos os modernistas), uma vez que, para o escritor de “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, a arte deveria representar o real e o belo. Malfatti morou alguns anos em Berlim. Lá, estudou na Escola de Belas Artes, onde foi apresentado ao trabalho de diversos ícones da pintura expressionista.
Apesar de não ser a única artista expressionista no Brasil, caiu em Anita o peso da crítica. Porém, são poucos os nomes de artistas mulheres modernistas que lembramos. Muitas foram ridicularizadas, taxadas de loucas, proibidas, censuradas ou, então, apagadas da história. A doutora em História da Arte, Thiane Nunes, conta que as mulheres estão acostumadas a serem representadas de uma forma, mas não serem representadas quando elas são as produtoras. “Elas estão na arte sempre representadas como as mulheres nuas, posando etc, mas enquanto produtoras imagéticas culturais, meio que somem”, avalia. Thiane escreveu a tese “Misoginia Modernista e invisibilidade da mulher artista”, em que investigou a história de 23 mulheres artistas, em contexto mundial.
A historiografia falhou? Acompanhe aqui, em breve, a segunda parte deste Especial, em que o Mescla escutou estas três pesquisadoras para compreender onde estavam as mulheres nesse movimento.
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Adevanir Aparecida Pinheiro, coordenadora geral do Neabi e professora nos cursos de Ciências Sociais e Pedagogia e do PPG, relata que todos vivemos um processo histórico de branqueamento. E o que seria isso? Segundo o pesquisador José Ivo Follmann, o branqueamento se dá como uma tentativa estruturada de embranquecer o nosso país, quiçá o mundo. Esse branqueamento não figura como uma ação literal — embora alguns autores levantem questões como a miscigenação nesse sentido — mas sobre tornar distante o conhecimento para pessoas negras e apagando a sua história. Talvez, o exemplo mais fácil de se compreender seja o escritor Machado de Assis, que sofre até hoje com o branqueamento, este sim literal, da sua imagem, quando sempre foi um homem negro.

Esse é um processo histórico de longa data. Com uma base científica eurocentrista, não existiam referências sobre o continente africano de forma protagonista na época. “Por isso, nossas matrizes de políticas de branqueamento se fortaleceram, também com as matrizes eurocêntricas”, completou. A coordenadora, que também coordena o Programa GDIREC – Projeto Inter-Religioso da Universidade, ainda relatou mais exemplos de como as políticas de embranquecimento estão presentes no cotidiano e como elas moldam as identidades do país. “Tem negro que não se vê negro, por causa das práticas escolares embranquecidas”, explicou.
Outro ponto ressaltado no encontro foi da história da região do Vale do Rio dos Sinos. Segundo Sueli Angelita da Silva, assistente social do Neabi e mestranda do PPG em Ciências Sociais da Unisinos, a história de São Leopoldo só começa a ser escrita a partir da chegada dos imigrantes. Com isso, acontece um apagamento dos grupos escravizados que residiam aqui naquele momento. Na pesquisa de Sueli, ela visa entender e trabalhar o território da Feitoria (bairro de São Leopoldo) e a juventude negra. Para isso, ela se aprofundou no contexto histórico da cidade. “Para vocês terem uma noção, uma das primeiras empresas da cidade de São Leopoldo foi a Cordoaria e quem ensinou esses germânicos a trabalhar com a corda foram os africanos que aqui estavam, porque eles (os descendentes europeus) não tinham esse conhecimento. Então, a gente vai analisando o contexto do apagamento e do embranquecimento da história”, relatou a mestranda. Sueli ainda conta que muita coisa não é contada. “Quem chegou até aqui oriundo da Alemanha, da Itália, que veio para essa região, veio com a ideia do processo de branqueamento do Brasil. Porque o Brasil era um país muito negro, muito indígena, então precisava ‘melhorar a raça’”, explicou.
Felipe Pereira dos Santos, estudante do ensino médio, também falou sobre sua experiência agora que consegue perceber algumas situações, graças aos conhecimentos que desenvolve com o Neabi. Sobrinho da pesquisadora Sueli, foi apresentado ao grupo de pesquisas e por ele foi indicado ao projeto Jovem Aprendiz da Unisinos. “Eu me meti um pouco na pesquisa quando a minha tia pediu umas opiniões”, contou o adolescente. “Eu me sinto muito sozinho em relação à escola, ao trabalho, à sociedade. Na minha escola, eu sou o único jovem negro que vai se formar no ensino médio esse ano.”
Pela percepção do estudante, a diferença de tratamento ainda é visível, principalmente entre os jovens com os quais participa do programa profissionalizante, uma situação que chateia o adolescente e é um dos fatores que influenciam a evasão escolar, antes e durante o ensino superior.
William Martins, estudante de Jornalismo e Secretário do Neabi, finalizou a conversa sob o ponto de vista da comunicação. “Quando não há a representatividade do negro nas mídias, há o estereótipo. A mídia hegemônica ajuda a reafirmar o racismo. Ainda é necessário ter uma mídia negra ativa e forte”, comentou.
A breve conversa proporcionada pela live é mais uma das propostas da Agexcom em fomentar a discussão entre os integrantes da Agência, especialmente os estudantes, e tem o propósito também de dar visibilidade para pesquisas importantes na Unisinos. A Agex costumava proporcionar, presencialmente, eventos como este para os alunos da Escola da Indústria Criativa. Agora, começa a realizá-los em ambiente remoto. Para não perder nenhum evento e ficar por dentro de tudo que ocorre na Indústria Criativa, siga a página no Instagram do portal Mescla.
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Quando sento em frente ao Espaço Hora do Conto, passo a conversar com Cleia Haubert, atriz e idealizadora da Cia do Riso, que dá vida à Gelatina. Artista inquieta, Cleia fez teatro durante a adolescência e, quando adulta, foi projetista da loja de móveis que manteve por muitos anos. Há 18, no entanto, paralelamente, nascia a Cia do Riso, quando ao fazer uma substituição em um evento infantil como mestre de cerimônias, em um parque de Xangri-Lá, Cleia caiu nas graças de Caburé, um milionário excêntrico da cidade. A partir daí a produtora de teatro da atriz ganhou vida e hoje a Cia do Riso tem várias frentes de trabalho: produz e organiza eventos e espetáculos com exclusividade, anuais ou regulares. “É muito amplo o trabalho da Cia, mas acaba centralizando no projeto que tenho de vida, porque eu faço parte da direção, do figurino, da maquiagem, da criação de texto, etc.”, contou a atriz.
A Gelatina foi a personagem que agradou Caburé, sendo a responsável pelo pontapé inicial da Cia do Riso. Toda a vez que perguntava sobre a boneca, Cleia sorria. O orgulho que sente da personagem é refletido nos olhos da artista. “Ela é o meu exagero, traz referências das minhas ideias de quando eu era criança, do meu imaginário”, explicou. Na infância, Cleia achava que era Emília, do Sítio do Picapau Amarelo, e assim surgiu a construção da personagem. Durante sete anos, Cleia e Gelatina trabalharam com crianças no parque de Caburé, mas a personagem não é querida só pelo público infantil. Ela faz apresentações para desde o ensinos fundamental, passando pelo médio e chegando até os adultos.
Depois de tanta experiência, Gelatina resolveu virar escritora (com a ajuda da Cleia, é claro!), e a primeira edição, realizada em parceria com a Livraria Kadernu’s, contou com mil livros que esgotaram já em outubro deste ano. Cleia resolveu fazer o livro com Carlos Hollmann, proprietário da Kadernu’s, já que ambos têm uma visão parecida sobre o conceito de Feiras de Livros.
É assim que A Terra do Lelé conta a história da criação de Gelatina, que surge do imaginário de Lelé, uma criança que quer ser rei do planeta dele. Juntas, Gelatina e Cleia, tratam de temas importantes e que já devem ser abordados com os pequenos. “Na terra do Lelé, todo mundo é colorido, então as pessoas podem ser da cor que quiserem, logo, elas podem ser do jeito que quiserem”, explicou. A artista, que se define muito como mãe – das filhas e também de todas as pessoas que interagiram com ela através do teatro -, vê o livro também como um filho. Talvez, por ter projetado móveis por tanto tempo, os objetos da vida de Cleia acabam criando vida também. “O livro é um ponto de partida para mim, para que eu possa trabalhar todos esses assuntos que acho pertinentes. Então, eu tenho que começar a carregar esse filho para os lugares para onde vou”, comentou. A história contada por Gelatina tem ilustrações desenhadas por Cleia, que traz a identidade da personagem para as páginas.
Neste momento de minha conversa com Cleia, o público que está no Espaço Hora do Conto começa a demonstrar que parece ser bem exigente. Sentados nos tapetes de EVA, as crianças da Escola Municipal de Ensino Infantil Zozina Soares de Oliveira esperam ansiosas pelo início da apresentação. Cleia se despede de mim e dá lugar, totalmente, a Gelatina. Tagarela e risonha, a boneca agrada o público nos primeiros minutos. O calor não parece atrapalhar tanto as crianças, que ficam atentas a cada movimento da personagem. “Todo mundo tem uma história para contar, mas, agora, eu vou contar a minha história”. Interagindo com o público do início ao fim, nenhuma contação de histórias de Gelatina é igual, já que ela trabalha com o improviso. Metade do espetáculo é o que a platéia oferece e a outra metade é o que já foi idealizado antes.
Depois da primeira apresentação do dia, sigo com Gelatina para o camarim. Ela tem mais três apresentações e precisa se preparar para a próxima. Cleia explica que Gelatina é sempre a mesma, mas a linguagem muda de um público para o outro. A boneca é tão bem recebida por onde passa que é difícil tirar o figurino e voltar a ser a Cleia. “Esse mundo lúdico afasta a gente da realidade e é maravilhoso”, explicou.
A dupla já passou por diversas experiências juntas e elas me contaram algumas. Momentos sempre significativos para as duas são os trabalhos com alunos de inclusão. Cleia conta que na primeira vez que fez uma apresentação na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), uma pessoa com problema de visão na platéia dava muitas gargalhadas durante o espetáculo, apenas com a percepção auditiva. Além disso, as apresentações em hospitais também marcam a vida das duas. “Isso desconstrói as coisas que a gente pensa”, finalizou.
Desde o começo de minha interação com Cleia e Gelatina, combinamos uma brincadeira: que a artista deixaria a personagem entrar em cena para responder minhas perguntas. Peço, então, para a boneca me contar o que aprendeu com a Cleia. “Além de fazer graça e trazer informação de acordo com as coisas que vão se transformando no mundo, ela ensinou a me adaptar a tudo que vemos de novo”, explicou. Nesse momento, Cleia volta para dar a sua resposta: “eu não preciso envelhecer nunca, posso estar sempre viva com essa criança que está dentro de mim”.
Finalizando nossa entrevista, pergunto se há algo que uma gostaria de dizer para a outra. Gelatina levanta, serve um copo de água e fala, com sua voz característica, meio enrolada e infantil, “ai, mas que pergunta difícil”! Com o silêncio que se instaura, é quase possível ouvir as duas pensando juntas. Depois de uma risadinha, Gelatina resolve começar, “não envelhece, porque eu preciso de ti”.
Cleia explica que o mais interessante de seu trabalho são as lembranças que vai acrescentando na sua trajetória. “É meio melancólico, mas acho que é o que tem de mais legal na vida, tu fazer coisas enquanto tens vitalidade, e depois poder envelhecer e visitar essas memórias. Então, obrigada por isso, Gelatina”, confidenciou com emoção.
A obra A Terra do Lelé, de Cleia Haubert, pode ser encontrada na Livraria Kadernu’s, com a escritora (pelo e-mail: ciadorisonh@gmail.com) e, em breve, estará disponível para vendas online. Confira o trabalho da artista na página do Facebook da Cia do Riso.
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A atividade integrava o evento Diálogos Internacionais, promovido pelo Programa de Pós-graduação em Linguística Aplicada (PPGLA). O tema desta edição foi “Contatos entre línguas e culturas no Sul do Brasil” A ideia era aproximar esses trabalhos e metodologias, além de discutir contatos linguísticos, documentações e estudos dos dialetos alemães falados no Brasil. O grupo, liderado pelo Diretor de Línguas Românicas da Universidade de Kiel, professor Elmar Eggert, está no Brasil para uma viagem de estudos.
E se você acha que a língua foi um problema, está enganado. Todas as apresentações foram na língua de Camões, já que os estudantes e professores da universidade aprendem o português durante a trajetória acadêmica. Por isso, português e alemão estiveram nas principais discussões da manhã. “As pessoas não falam uma língua por decreto, elas tem que querer”, explica o professor Eggert. Linguística, História, Sociologia e até Física foram as áreas tratadas pelos participantes, que apresentaram uma breve explicação das pesquisas que desenvolvem em nível de mestrado e doutorado dos dois países. Conversando com o Mescla, Marko disse ainda que um desafio do debate foi apresentar o trabalho em uma outra língua, que não a materna, e na frente de pessoas desconhecidas e de culturas diferentes. Já a brasileira Sabrina Bastos, doutoranda em Linguística Aplicada na Unisinos, contou sobre como o evento agregou na sua formação. “Tem uma raiz social, porque o pessoal da Alemanha se ocupa de problemas de linguagem no uso e das línguas de contato, isso ajuda na formação enquanto doutorando”, explica a estudante. Para ela, a fala da professora Fernanda Von Mühlen foi o ponto alto da manhã. Fernanda completou o mestrado em Linguística Aplicada pela Unisinos e conversou sobre as políticas linguísticas relacionadas ao hunsriqueano, dialeto alemão falado no sul do estado. “É um trabalho muito bonito, porque ela faz um levantamento da percepção dos falantes, além de analisar o passado e o futuro da língua”, contou Sabrina. Ainda para a doutoranda, e também para grande parte dos participantes, eventos como esse são importantes, já que trazem para o público os bastidores da pesquisa. Como resumiu o estudante alemão de Sociologia, Leo Voigt, em bom português, “muito bom”.
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]]>Até 1943, oficialmente, a palavra estória designava invenções ficcionais, enquanto história se referia aos fatos históricos e acontecimentos reais. Com o passar dos anos, a divisão foi caindo em desuso até ser considerada arcaica. Rodrigo Trespach nasceu em 1978, 35 anos depois da diferença entre as duas palavras ser extinguida. Justamente na sua carreira, as duas vertentes se aproximam bastante.
Hoje, com 41 anos, Trespach tem 11 livros publicados, quatro dos quais fazem parte da sua série mais conhecida: Histórias não (ou mal) contadas (Editora Harper Collins, 2018), que abrangem eventos como as duas grandes guerras mundiais e os golpes políticos que ocorreram no Brasil. Historiador, levou um tempo para perceber que, além de ávido leitor, poderia contribuir como escritor. A série apresenta fatos inusitados e acontecimentos que os livros de história não mostram, escrito com simplicidade na narração e fluidez nas ideias. Trespach fala de mulheres, homossexuais, pobres e outras personagens que raramente são mencionados, muito menos abordados como protagonistas de fatos históricos.
Acostumado à rotina de pesquisa, mantém as manhãs ocupadas com a escrita, acompanhado apenas do chimarrão. “Escrever é sempre um verbo conjugado no singular. É algo muito íntimo”, revela. Escrever sobre história requer o cuidado da pesquisa, hábito que mantém religiosamente.
Trespach começou escrevendo para seu blog pessoal, depois para sites de notícias e revistas locais. Essa foi uma maneira de obter visibilidade enquanto começava a nova carreira, em paralelo com a de historiador. O primeiro livro, no entanto, foi editado com investimento do próprio autor, já que, com nome ainda pouco conhecido, não conseguiu uma editora que topasse publicar a obra. Na verdade, isso ocorreu durante um bom tempo. Receber mais “não” do que “sim” se tornou um incentivo de perseverança enquanto vendia o primeiro livro para conhecidos. O contato com inúmeras editoras e o retorno positivo das publicações na mídia local acendeu o interesse de uma pequena editora pela obra de Trespach.
Para o autor, hoje é mais fácil conseguir publicar o que se escreve. O livro impresso ainda é o sonho dos escritores, mas alguns passos na internet facilitam a visibilidade de um nome desconhecido. As grandes editoras procuram autores que engajem mais vendas, portanto, o escritor não pode mais apenas depender de sorte para ser publicado, é preciso criar uma marca antes mesmo de se tornar profissional.
Trespach acredita na crise editorial no Brasil. “Salvo exceções, é quase impossível viver apenas da venda de livros”, diz o autor. Hoje em dia, segundo ele, a melhor maneira é vender uma espécie de pacote que acompanha os novos escritores: dar palestras, participar de várias feiras de livros, publicar artigos em revistas e jornais. Todas as chances de aparecer e formar a marca do escritor devem ser aproveitadas. Até mesmo manter canais no YouTube, dando dicas ou, no caso dele, explicando momentos históricos, serve de vitrine para o trabalho. “Muitos são professores, e além de dar aulas e escrever, também dão oficinas literárias, fazem palestras”, conta. Alguns autores não falam apenas da área que dominam, mas também ensinam técnicas para escrever. Uma maneira de obter visibilidade e, de alguma forma, incentivar o mercado de produção literária.
Mesmo assim, Trespach ainda é otimista sobre a perspectiva de se viver de literatura. “Penso que é um sonho e também uma realidade. Não é fácil, não temos uma tradição de respeito e reconhecimento com pessoas que vivem de literatura. Mas é possível”, afirma, apesar dos percalços no caminho. “Todas as dificuldades fazem parte do aprendizado. Sempre me preocupo em melhorar o que escrevo, identificar o que acertei e também o que não agradou ou ficou bom”, avalia.
Para ser escritor no Brasil, também é preciso ser um bom publicitário de si mesmo. “Leia muito, exercite a escrita, faça experiências, escreva uma vez, duas, reescreva. Nunca deixe de aprimorar o texto. Aprenda a ouvir críticas ruins, não apenas as boas”, aconselha o autor, pensando naqueles que estão começando agora. “Escrever bem é um processo de amadurecimento. Um bom texto é como um bom vinho.”

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Para uma das fundadoras da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (Accirs) e professora do CRAV, Fatimarlei Lunardelli, a cinemateca tem importância pela divulgação e programação do audiovisual, além da diversidade do acervo, que contém obras de vários países e cineastas. “Assim, o espaço oportuniza, para as novas gerações, o contato com diferentes tipos de audiovisuais”, comenta. Além disso, o Capitólio é essencial, uma vez que trabalha com a preservação e memória da produção audiovisual do Rio Grande do Sul, tudo isso através do acervo documental. Segundo Fatimarlei, o debate é muito importante, pois essa contratualização implica em mudanças estruturais da Cinemateca. “O estado precisa responder sobre o futuro da memória e do acervo do Capitólio”, finaliza.
Para uma das fundadoras da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (Accirs) e professora do CRAV, Fatimarlei Lunardelli, a cinemateca tem importância pela divulgação e programação do audiovisual, além da diversidade do acervo, que contém obras de vários países e cineastas. “Assim, o espaço oportuniza, para as novas gerações, o contato com diferentes tipos de audiovisuais”, comenta. Além disso, o Capitólio é essencial, uma vez que trabalha com a preservação e memória da produção audiovisual do Rio Grande do Sul, tudo isso através do acervo documental. Segundo Fatimarlei, o debate é muito importante, pois essa contratualização implica em mudanças estruturais da Cinemateca. “O estado precisa responder sobre o futuro da memória e do acervo do Capitólio”, finaliza.

Sabendo da importância do Capitólio para a cena cultural do estado, o Mescla conversou com a presidente da APTC-RS, Daniela Strack. Confere como foi o papo:

Como funciona a Cinemateca do Capitólio?
A Cinemateca do Capitólio funciona sob supervisão da Coordenação de Cinema e Vídeo, que é um braço da Secretaria Municipal de Cultura, em parceria com a Fundação de Cinema do Rio Grande do Sul (Fundacine). E é a Fundacine que, desde o início, quando foi arrecadado dinheiro para transformar o Capitólio em Cinemateca faz essa captação junto com a Petrobras. Então a Petrobras fez a parte final da obra, através da Fundacine, pela Lei de Incentivo à Cultura. E, quando a obra já estava concluída, foi a partir da Fundacine, com a Petrobras, que a Cinemateca conseguiu adquirir um dos projetores mais modernos do Brasil.
E qual o convênio que existe entre o Capitólio e a Prefeitura Municipal de Porto Alegre?
A partir da inauguração do Capitólio, a prefeitura firmou um convênio com a Fundacine: a fundação poderia continuar fazendo a captação de recursos para programação da cinemateca e para outras benfeitorias. Só que no final do último governo federal foi assinada uma lei que acaba com o convênio entre entidades e a prefeitura. A questão é que nesse processo, a Prefeitura Municipal está revendo as contratos em outros espaços como o CEU – que é um centro cultural na Restinga -, alguns teatros além da Usina do Gasômetro.
Eles anunciaram no mês passado que o Capitólio passaria por essa contratualização e que seria aberto um edital em setembro, mas nenhuma das pessoas da Coordenação de Cinema e Vídeo ou da Fundacine tinham sido avisadas que isso aconteceria. Então, a Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos (APTC) interveio para realizar esse evento e esclarecer dúvidas dos próprios funcionários da Coordenação de Cinema e Vídeo, que é da prefeitura de Porto Alegre. Porque, desde que a prefeitura atual assumiu, nunca foi repassado nenhum dinheiro, nenhuma verba para programação da Cinemateca. E quando eles anunciaram este edital, a prefeitura disse que destinaria para uma empresa privada um milhão de reais anuais.
Explica pra gente o que é uma contratualização?
Basicamente a contratualização é uma espécie de terceirização. A prefeitura pega um valor do orçamento, repassa para uma entidade e essa entidade administra o local.
E qual o objetivo desse evento?
O nosso questionamento, o motivo desse evento, é esclarecer porque esse um milhão de reais não é entregue para a Coordenação de Cinema e Vídeo (órgão da prefeitura) para que ela siga administrando o espaço. Então, isso ta acontecendo sem uma transparência, tanto com a sociedade civil quanto com a Coordenação de Cinema e com a própria Fundacine, que está na origem do projeto desde o início, quando surgiu a ideia de transformar o Capitólio em Cinemateca. A Fundacine foi parceira para viabilizar isso através da captação e com o lançamento do edital. Ninguém garante que a Fundacine vai ganhar esse edital ou que vai continuar trabalhando na Cinemateca. Porque é uma chamada pública e isso vai tirar a autonomia da Coordenação de Cinema e Vídeo, que vem tendo muita dificuldade para receber o orçamento da prefeitura. Então a APTC chamou esse evento pra esclarecer essas dúvidas junto ao secretário de cultura Luciano Alabarse, e uma pessoa da parceria estratégica. Também vamos ter a presença da Coordenação de Cinema e Vídeo, mediação será da Ana Luiza Azevedo, sócia da Casa de Cinema (produtora de filmes). Também vamos contar com a presença do Beto Rodrigues, que é o atual presidente da Fundacine. A ideia é esclarecer, com a sociedade civil, comunidade e artistas, quais são os planos da prefeitura e o porquê de contratualizar.
Em dado momento foi sugerido a opção de contratualizar só a programação da cinemateca e não contratualizar o acervo, então o acervo estaria sob responsabilidade da Coordenação de Cinema e Vídeo. Mas a verdade é que a Cinemateca é um todo, então o acervo e a programação, tudo isso faz parte dela.
Existem muitos pontos a serem esclarecidos quanto a esse edital. Sabemos que a referência é a Cinemateca de São Paulo, mas ninguém sabe o teor deste edital. Então tem uma apreensão muito grande por parte da nossa comunidade artística e também dos funcionários da Coordenação de Cinema e Vídeo.
Qual a atual relação da prefeitura e da Cinemateca do Capitólio?
Atualmente, a prefeitura só paga o salário dos funcionários públicos da Coordenação de Cinema e Vídeo. E, por fora da contratação pública, eles pagam o projecionista e o programador. E os salários estão em constante atraso.
Qual a importância da Cinemateca do Capitólio?
A cinemateca tem três eixos fundamentais. O primeiro: na cinemateca, sob o braço da Coordenação de Cinema e Vídeo, tem o programa de alfabetização audiovisual, que dá a oportunidade para crianças terem contato com a linguagem audiovisual, assistirem filmes e aprenderem. Os professores, principalmente de escolas municipais, recebem toda uma capacitação para trabalhar o audiovisual em sala de aula e levarem esse filmes pras crianças, e, às vezes, esse é o primeiro contato que elas têm com o cinema. E isso faz parte da Coordenação de Cinema e Vídeo e da Cinemateca. O outro fator é o acervo. Por exemplo, essa semana inauguraram uma exposição sobre cartazes do cinema brasileiro e toda essa exposição foi feita a partir do acervo da Cinemateca. Temos toda a história do cinema brasileiro contada através desses cartazes. No acervo da cinemateca a gente deposita cópias dos filmes gaúchos realizados, então também tem essa questão da memória, de guardar o audiovisual que foi feito aqui e, além disso, tem uma biblioteca enorme. Qualquer um pode ir na biblioteca consultar os livros. Também temos, junto com as cópias dos filmes, todas as bitolas disponíveis pro público. É só agendar e fazer a visita. Então é bem importante essa questão do acervo.
O último ponto é a difusão. As salas diferenciadas e a programação altamente qualificada, sempre com mostras do cinema contemporâneo, mas também mistura clássicos. É uma programação realmente fantástica, além do espaço que ela dá pros gaúchos e pro cinema nacional. Muitas pré-estreias dos filmes brasileiros mais importantes dos últimos anos aconteceram lá. Então eu acho que é uma forma de difundir a cinematografia fora desse circuito comercial que é esses cinemas de shopping que colocam blockbusters. A cinemateca não, ela traz um outro tipo de cinema pra cidade.
E, sobre a questão econômica, como que a Cinemateca está funcionando atualmente?
Atualmente ela funciona com o patrocínio da Petrobras. Não se faz mais programação com o auxílio da prefeitura. Inclusive, a prefeitura não teria dinheiro nem pra pagar o programador, então ela sugeriu que o valor do programador viesse a partir do dinheiro da bilheteria, porque o Capitólio tem uma bilheteria muito boa. A média de público, ano passado, foi de cerca de 60 pessoas por sessão, o que é um número fantástico. Quase nenhuma sala de cinema tem.
Então a Cinemateca está numa situação delicada, porque a gente sabe que a Petrobras anunciou vários cortes em patrocínios da área cultural, mas renovou o patrocínio com a Cinemateca e tem grandes chances de renovar o ano que vem também. Mas atualmente ela só funciona graças à iniciativa privada – a Petrobras.
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]]>O objetivo do debate é promover a reflexão sobre a inserção das artistas mulheres nas narrativas da história da arte. A conversa irá acontecer no Centro Cultural da UFRGS (Rua Eng. Luiz Englert, nº 333 – Farroupilha). Para participar, não é necessário se inscrever previamente. O registro é feito na hora e podem ser oferecidos certificados aos participantes. A atividade é gratuita e mais informações podem ser obtidas no site.
19:00 – Abertura com a Profª. Drª. Daniela Kern (PPGAV/UFRGS)
Historiografia feminista da arte: uma visão de conjunto
Reflexões sobre a dialética da conquista do reconhecimento feminino
Anelise Valls (Doutorado/PPGAV)
Respondendo à questão: Por que não houve grandes artistas mulheres?
Thiane Nunes (Doutorado/PPGAV)
Lésbica e artista: Questões de visibilidade e expressão revolucionária
Lívia Auler (Mestrado/PPGAV)
Arte e Feminismo: A desconstrução da violência do olhar
Cristina Barros (Graduação/HDA)
Ofélia desperta: Ética e desejo
Ariane Oliveria (Mestrado/PPGAV)
Um caminho através da autoimagem
Renata Camargo (Graduação/Artes Visuais)
21:00 – Debate com todas as comunicadoras e público
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]]>O lançamento da obra será no dia 24 de agosto de 2018, simultaneamente no Cinebancários, em Porto Alegre; e na Casa da Democracia, em Curitiba. Além disso, será disponibilizado no YouTube, no portal Brasil 247 e no Mídia Ninja. A data de estreia não foi uma escolha aleatória: nesse dia, em 1954, Getúlio Vargas se suicidou. O trailer está disponível aqui . Para mais informações sobre o filme, você pode conferir a página no Facebook aqui.
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]]>Nos últimos meses, vimos a mídia repercutindo casos de assédio em Hollywood, situação que fez com que atrizes usassem vestidos pretos nos tapetes vermelhos de premiações, para protestar contra os grandes produtores de cinema acusados de assédio, como Harvey Weinstein. A partir disso, as grifes de moda estão cada vez mais trazendo pautas políticas e sociocultural para as passarelas. Em sua última edição, o New York Fashion Week foi marcado por protestos ao seu atual presidente, Donald Trump, e também de apoio aos imigrantes refugiados.
José Luis Carvalho Reckziegel, professor do curso de Comunicação Digital da Unisinos, explica que os alcances da moda se reconfiguram e se movimentam no sentido de reformular a ordem simbólica e representacional, para que, assim, a moda possa ser entendida em dimensão ampla: “Uma dimensão que espelha simultaneamente o tempo e o social. Refletindo os comportamentos sociais vivenciados pelos pertencimentos e determinados grupos em sua dinamicidade e em sua pluralidade”.
“Partindo-se da realidade de que a moda faz gênero, ela é expressão das aparências que performatizam diferentes formas de ‘ser’ no mundo. Ela é uma forma de posicionamento e de protesto. A moda assim, é vista como expressão cultural e como expressão de gênero”, explica o professor
O estilista Tommy Hilfiger exibiu sua nova coleção em parceria com a modelo Gigi Hadid, com todo o elenco entrando na passarela usando bandanas brancas amarradas no pulso esquerdo em prol de inclusão, batizada de “Tied Together” (“amarrados juntos”, tradução livre). A ação foi criada pelo Business of Fashion para movimentar a indústria da moda em solidariedade a imigrantes e minorias durante a temporada de moda internacional, para conseguir fundos em favor da União Americana pelas Liberdades Civis e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.
Para Reckziegel, há muito tempo a moda vem se apresentando como um fenômeno sociocultural multifacetado. “Suas várias faces nos são apresentadas como reflexo da sociedade e sua contextualização no tempo e no espaço, sempre de acordo com as subjetividades dos sujeitos que dela fazem parte”, afirma o professor. Segundo ele, esse pensamento pode ser entendido considerando-se as transformações ocorridas nos últimos tempos em termos culturais por meio de costumes adornos corporais e expressões identitárias.
“Na moda, as características relacionadas à cultura das aparências representam esforços empreendidos rumo à criação e à manutenção de tendências estéticas, que retratam, promovem e aceleram mudanças comportamentais identitárias no cenário contemporâneo no qual vem sendo cada vez mais evidenciado a luta pelas garantias dos direitos de igualdade e liberdade entre homens e mulheres”, declara o professor.
“Podemos dizer que, nesse sentido podemos considerar a moda como um sistema que possibilita uma total liberação das práticas delimitadoras entre as expressões de gênero e as expressões das sexualidades contemporâneas”, segundo o professor.
A moda está presente em todas as transformações desde o século XV, com o fim do período medieval e o início do Renascimento na Europa, a palavra que conhecemos hoje provém do latim “modus”, que significa “costume” ou “maneira”. Mas foi a partir da Revolução Industrial que a tecnologia e a produção em massa permitiram que os homens comuns pudessem escolher o que vestir, o que antes era restrito à elite por mais de 300 anos.
Às vésperas da Revolução Francesa, a pequena burguesia se juntou e ficou conhecida como os “sans-culottes” ou “sem culote”, forma adotada de se distinguir da nobreza. Já no período Pós-Revolução Francesa, se adota uma moda restrita e simples inspirada no classicismo greco-romano, existe o protesto contra os excessos vividos no Barroco e no Rococó às custas da miséria da população.
Para ilustrar a história dos protestos políticos e socioculturais na moda e como ela é um elemento em constante transformação, abaixo segue cinco tópicos que narram a origem desse movimento que persiste até os dias atuais:
Alguns casos parecidos ocorreram em solo nacional, como o São Paulo Fashion Week de 2016, em que o estilista Ronaldo Fraga levou modelos transgêneros para a passarela e que verbalizavam a sua luta contra a transfobia. Sua coleção colocava em foco as modelos e suas histórias, invés das peças de roupas. Intitulado “O corpo aprisiona, as roupas libertam o ser”, o desfile de Ronaldo propôs uma reflexão sobre a realidade de muitas mulheres e homens que não se encontram em seus próprios corpos e que procuram refúgio nas peças de roupas, para mostrarem quem realmente são.
E em junho desse ano, na Parada LBGTQ de São Paulo, a cantora drag queen Pabllo Vittar se apresentou para milhares de pessoas na Avenida Paulista, usando um conjunto de casaco com capuz e saia longa estampados com manchetes de jornais relacionados à homofobia. Por cima das notícias, havia os dizeres em vermelho: “Parem de nos matar”. O Brasil é o país que mais assassina a população LGBTQ no mundo, segundo dados da Rede TransBrasil e do Grupo Gay da Bahia (GGB). A organizações registraram um aumento de 30% dos homicídios em 2017 ao 2016, passando de 343 para 445.
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