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Nas últimas semanas, o avanço frenético no desenvolvimento das Inteligências Artificiais resultou em imagens e cenários intrigantes, como a polêmica foto do Papa Francisco em um vestuário que normalmente não associamos a um líder religioso; ou, então, o surgimento de apresentadoras de telejornais totalmente geradas através da IA. Isso causa sérias dúvidas sobre quais são os reflexos dessas tecnologias na sociedade, e se elas realmente representam progresso. A verdade é que respostas para essas questões ainda não existem. Talvez por essa mesma razão, uma série de empresas de tecnologia e personalidades, incluindo o controverso bilionário Elon Musk, tenham assinado uma carta aberta à Organização das Nações Unidas (ONU) pedindo uma pausa no desenvolvimento da Inteligência Artificial.
Esse movimento, no entanto, parece contraditório, uma vez que grande parte desse núcleo de companhias e investidores é responsável pelo financiamento desses avanços tecnológicos. Por isso, para tentarmos entender a complexidade desse cenário tão novo, repleto de perguntas – muitas delas até então retóricas –, precisamos compreender o que de fato são as Inteligências Artificiais.
Decifrando a Inteligência Artificial – o que é isso?
Muito ainda se discute sobre o conceito de Inteligência Artificial, se ela é uma ferramenta que pensa como o ser humano ou que apenas atua como tal. Contudo, ao contrário do que parece, apesar das recentes discussões, essa tecnologia vem sendo desenvolvida há mais de 50 anos. Quem aí conhece o caso do enxadrista Garry Kasparov, que foi derrotado por um computador em uma partida de xadrez? O memorável supercomputador da IBM, Deep Blue, é só um dos tipos de Inteligência Artificial que foram desenvolvidos ao longo dos anos. De modo geral, a IA é classificada em três tipos: Inteligência Artificial Limitada, Inteligência Artificial Geral e, por fim, Superinteligência Artificial.
A primeira delas, a Limitada, diz respeito a um tipo de IA que não se molda aos requisitos de determinado sistema. Sua função é focar e dedicar-se em uma única tarefa complexa. Dentro da IA Limitada, existem duas subcategorias: máquinas reativas e memória limitada. O supercomputador que venceu o campão de xadrez é um exemplo de máquina reativa. E, no nosso dia a dia, os melhores exemplos de IA de memória limitada são os assistentes virtuais, como Alexa e Siri, ou até mesmo serviços de streaming, uma vez que armazenam mais informações do que as máquinas reativas, conseguindo, assim, gerar um banco de dados a partir do histórico de interação com o usuário.
O segundo tipo de IA, a Geral, é considerado mais potente. Isso porque tem a capacidade de pensar e aprender. Dessa forma, consegue se adaptar a diferentes cenários, e isso faz com que exerça uma atividade muito próxima a da mente humana.
E, por fim, o terceiro tipo de Inteligência Artificial – a superinteligência – é a mais “completa” de todas. Esse tipo de tecnologia, que estamos vendo ser desenvolvida desenfreadamente, pode replicar e até superar a inteligência humana por ser um sistema de alto rendimento. Esse é o tipo de tecnologia retratado em “O Exterminador do Futuro”, de 1984..
A Inteligência Artificial é o fim das artes ?
Sempre que uma inovação tecnológica surge, levantam-se inúmeros receios e pensamentos apocalíticos sobre qual será o seu impacto na humanidade. “As máquinas vão substituir o homem? Minha profissão vai deixar de existir? Até quando ainda teremos controle sobre as máquinas?” São essas algumas das principais perguntas que norteiam esse temor. E, como a Inteligência Artificial está reconfigurando cada vez mais diferentes áreas, com o campo artístico não seria diferente.
Contudo, enquanto alguns veem a IA como uma ameaça à originalidade e autenticidade da arte, outros argumentam que a tecnologia pode ampliar e potencializar a criatividade humana, oferecendo novas possibilidades para a expressão artística. “Vejo a utilização da Inteligência Artificial em projetos de artes visuais como parte do processo. Todo artista possui seu método de trabalho, algo que não é estático e está sempre em transformação, por isso, percebo as IAs como ferramentas de auxílio nesse desenvolvimento”, diz o pesquisador e designer UX Carlos Donaduzzi.

Carlos é mestre e doutor em artes visuais, e está em dois Grupos de Pesquisa (GP) com foco em arte e tecnologia nas áreas de fotografia e vídeo: GP Processos Híbridos na Arte Contemporânea, vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e GP Arte e Tecnologia, do laboratório de pesquisa Labart, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Quando falamos da relação entre arte e IA, questões sobre a propriedade intelectual são imediatamente levantadas, uma vez que é difícil definir quem é o criador da obra gerada por uma máquina. Em março, o artista alemão Boris Eldagsen inaugurou uma grande polêmica ao vencer o Sony World Photography Awards, na categoria Melhor Fotografia. Detalhe: a obra foi gerada inteiramente através de Inteligência Artificial.

Boris foi acusado de ter “mentido deliberadamente”. As críticas pesaram e, mesmo alegando ter se mantido transparente sobre a origem da fotografia, o artista acabou recusando o prêmio. Mas por que o choque, já que – segundo ele – o processo de produção da foto nunca foi escondido? Em entrevista ao The Guardian, os organizadores do prêmio disseram que, no momento de submeter a obra, o artista a registrou como uma produção construída com auxílio da IA, e não gerada inteiramente por ela. E, segundo as regras da competição, a categoria Criativa aceita diferentes abordagens experimentais para a criação de imagens, desde cianótipos e radiografias até práticas digitais avançadas. “Após nossa correspondência com Boris e as garantias de que ele forneceu, sentimos que sua inscrição preenchia os critérios para essa categoria e apoiamos sua participação”, afirmaram ao jornal britânico.
O debate acerca dos direitos autorais de uma obra é complexo, segundo o designer Carlos Donaduzzi. “Ela ou isso é a autora das obras? Ou a equipe que desenvolveu o projeto é que deve levar os créditos? Me parece que é algo muito mais coletivo do que individual, assim como qualquer imagem gerada por alguma plataforma ou app”, indaga Carlos ao usar a AI-DA – primeiro robô artista com feições humanas a ser desenvolvido –, para exemplificar a discussão.

AI-DA cria pinturas e esculturas através de ferramentas como câmeras instaladas em seus olhos, seus braços robóticos, e, é claro, os algoritmos. E se modelos como ela se difundissem, e se os mecanismos da IA se tornassem cada vez mais autossuficientes, que espaços sobram para a originalidade e os processos criativos?
Para o pesquisador, o que o artista ser humano produz não pode ser necessariamente dito como original. “Muitas vezes, essa produção é um remontar de referências e pequenas cópias (o que eu acredito que não diminui a importância de um trabalho em arte). E o que as IAs fazem é quase a mesma coisa, porém de maneira automatizada”, acrescenta.
Nesse mesmo sentido, o professor da Escola de Humanidades da Unisinos Celso Cândido Azambuja, que ministra várias disciplinas sobre ética, retoma o princípio do debate sobre o que de fato é ser original e autônomo: “Não existe um indivíduo apartado da sociedade. Então, todas as decisões que tomamos foram anteriormente mediadas por livros que lemos, por influência familiar, formação acadêmica, entre outros. Ou seja, a nossa decisão ´autônoma´ é sempre mediada por relações que construímos ao longo da vida”, explica.
Um exemplo de como a parceria entre homem e máquina pode dar (muito) certo é o da marca brasiliense Airtificial. Fundada pelos designers Igor Borges, Max Rocha e Pedro Hermano, a fashion label fez seu primeiro lançamento em janeiro deste ano. Desde o começo, o desejo dos artistas era contar histórias que conectassem tecnologia e natureza em cenários alternativos dentro de uma estética futurista. Como uma série de livros, o storytelling da Airtificial consiste em apresentar ao público um novo capítulo da história a cada coleção lançada.

“Não precisamos mais de uma superprodução ou superlocação para conseguir um produto bom”, explica Pedro. Mesmo com uma bagagem extensa em fotografia, os designers viram na Inteligência Artificial um “motor para o seu negócio”, especialmente por serem uma marca muito nova e pequena dentro de uma indústria que exige produção diariamente.
Se a forma de se produzir arte está em constante transformação, a maneira como a consumimos também não estaria? “Estamos no meio da onda e não sabemos para onde ela vai. Há menos de um ano, pessoas do mundo da arte achavam que as NFTs (token não fungível – tradução literal da sigla em inglês non-fungible token –, que funciona como um certificado de autenticidade digital e que não pode ser copiado ou replicado) iriam revolucionar a maneira de produzir, expor e vender arte, mas passado esse período, quase ninguém mais fala sobre isso”, acredita Carlos Donaduzzi.
Ética e transparência: pilares fundamentais para o uso da IA
Dentro dessa discussão entre direitos autorais, autenticidade e processos criativos, é extremamente importante reforçar os compromissos éticos que a Inteligência Artificial assume – ou pelo menos deveria assumir – ao produzir e reproduzir conteúdo. Como a foto manipulada do Papa Francisco, mencionada no início da reportagem, ou então a proliferação dos deep fakes, a credibilidade daquilo que vemos na internet é cada vez mais questionável, e, assim, expressões populares como “uma foto vale mais que mil palavras” perdem a validade e tornam-se vagas.

A fotografia como documento é uma discussão extensa e cada vez mais ampla. “Já vimos casos recentes no Brasil onde pessoas foram presas injustamente após serem ‘reconhecidas’ em fotos de banco de dados policiais”, relembra Carlos. Além disso, a disseminação de fakes e desinformação apoiadas em imagens mostram que as pessoas podem ser facilmente manipuladas e que acabam por acreditar naquilo que é conveniente. “As imagens do Papa geradas por IA ativaram outro alerta. E, possivelmente, uma saída para essa falta de confiabilidade seja cobrar as próprias empresas que fornecem esse serviço de gerar imagens uma opção de checagem”, complementa o designer.
Para a jornalista Iara Lemos, especialista em relações governamentais, direitos humanos, política e Inteligência Artificial, a maior urgência para o equilíbrio e uso sensato das IAs é uma regulamentação pensada e aplicada pelo governo. Em seu recente artigo publicado sobre as discussões acerca da IA, Iara diz que “o Brasil ainda está tão atrasado no que diz respeito ao uso da Inteligência Artificial, que nem mesmo há legislação que traga balizas ao tema”.

Nesta semana, a votação para o projeto de lei das fake news na Câmara de Deputados foi adiada novamente. O objetivo do PL 2630/20 – como foi registrado – é estabelecer normas relativas à transparência de redes sociais e de serviços de mensagens, sobretudo no que diz respeito à responsabilidade dos provedores, como o Google, por exemplo, pelo combate à desinformação, bem como estabelecer sanções para o descumprimento da lei. De acordo com Iara, esse é o início de uma ramificação extremamente necessária para que a Inteligência Artificial no Brasil seja regulamentada.
“Temos também o Marco da Inteligência Artificial, que igualmente está engavetado há mais de um ano”, salienta a jornalista. De maneira geral, a proposta do marco estabelece que o uso da IA fundamenta-se no respeito aos direitos humanos e aos valores democráticos, a igualdade, a não discriminação, a pluralidade, a livre iniciativa e a privacidade de dados.
A aprovação do PL citado acima tem causado também grandes discussões acerca do futuro do jornalismo. Entre um boato e outro, criou-se a ideia de que o Projeto de Lei contribuiria para a censura, o que não é verdade. A própria Associação Brasileira de Imprensa entende o PL como um “importante instrumento no combate à desinformação”.
No que diz respeito ao futuro do jornalismo na era da Inteligência Artificial, Iara entende que o profissional precisa ser amplo e, mais do que nunca, saber trabalhar com análise de dados. “A IA não vai acabar com o jornalismo, assim como não vai acabar com a medicina. Não vai ser um robô que realizará cirurgias, ainda que esteja a máquina atuando ali. Ela depende de uma inteligência humana para que o trabalho possa ser realizado”, complementa.
As proporções que a Inteligência Artificial está tomando – e ainda tomará – já estão remodelando a Indústria Criativa. Apesar do desenvolvimento constante nos apresentar cenários inusitados, já conseguimos presumir alguns de seus impactos. Lutar contra o avanço dessas tecnologias é inútil, é perder tempo, isso porque é impossível interromper pesquisas e investimentos para manter-se estagnado.
O maior desafio que essa e as próximas gerações terão que encarar é estimular e desenvolver habilidades essencialmente humanas, comportamentais, e, claro, estimular cada vez mais o seu senso crítico. Seja na moda, no design, na música, literatura ou no jornalismo, a IA estará presente, isso é um fato. O que precisamos é estar abertos às novas formas de sermos criativos.
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A parceria se iniciou há pouco mais de quatro anos com o projeto Amigos da Boa Causa, da Santa Casa. Estudantes da disciplina de Fotografia Institucional, do Curso de Relações Públicas, realizaram fotografias para compor o banco de imagens do hospital e da Casa Madre Ana. A ideia era ajudar na divulgação das ações e projetos das entidades com vistas ao recebimento de doações e parcerias público e privadas.
A professora explica que a primeira etapa é a elaboração de um briefing – reunião de ideias para desenvolver o trabalho. “O objetivo é mostrar o quanto o complexo hospitalar da Santa Casa é amplo e realiza um atendimento humanizado por parte de seus profissionais”, comenta Beatriz.
O trabalho fotográfico se inicia pela UTI Neonatal, onde os bebês recém-nascidos prematuros ou que apresentam problemas de saúde recebem cuidados. “Cada aluno apresenta seu conteúdo e, depois, a gente seleciona as melhores fotos e entrega esse material para formar esse banco de imagens para a Santa Casa”, acrescenta Beatriz. O complexo hospitalar depois utiliza as imagens em cartazes, flyers (panfletos) e relatórios para buscar os recursos junto ao empresariado.

Rosana Gil Peres é a gerente de projetos e captação da Santa Casa. Ela conta que após o desfile de moda que promoveram junto com a Unisinos em prol do Outubro Rosa, em 2018, outras oportunidades foram surgindo. Segundo ela, o complexo hospitalar precisa sempre mostrar a sua estrutura física, os serviços oferecidos e as tecnologias instaladas, para sensibilizar as pessoas sobre o custo alto que a estrutura exige – sem contar que os valores aportados precisam ainda suprir o déficit com o Sistema Único de Saúde (SUS).
Rosana conta que, agora em abril, falou com a equipe de saúde e os pacientes para deixá-los cientes de que haveria uma visita dos estudantes da Unisinos. O local escolhido foi o Hospital da Criança Santo Antônio. “Eles estão ali, brincam e tal. Acredito que isso resgatou um pouco da lembrança da infância, apesar das crianças estarem frágeis de saúde. Mesmo assim, puderam aproveitar um pouco desse momento”, relata Beatriz.

O aluno Lucas Kominkiewicz conta que fazer esse trabalho trouxe a certeza da escolha pelo caminho certo, a de estudar jornalismo. “Alguns momentos me marcaram, como fotografar uma cirurgia em andamento e tirar fotos das crianças que estão em tratamento para diversas doenças”, revela. “A sensação de estar ali me tirou aquele receio de hospital, sabe? Pois é um ambiente acolhedor. Saí da zona de conforto, fora da universidade, literalmente o mundo real, ou seja, a vida como ela é”, avalia o estudante.
Para Julia Azevedo, aluna de Fotografia, a possibilidade dessa saída de campo foi estimulante desde o princípio. Ela escolheu a UTI Neonatal do Hospital Santa Clara, e confessa que saiu de lá apaixonada. “Até estou repensando a área em que quero trabalhar, principalmente após fotografar um parto, que achei simplesmente lindo”, diz.

A aluna espera que esse projeto ajude o complexo hospitalar, e possa fazer as pessoas sentirem o que ela sentiu dando um rosto e uma história para esses pacientes. “Vimos de perto o carinho das enfermeiras com os pacientes e familiares, pois tanto as mães quanto as médicas foram extremamente atenciosas e acolhedoras nos contando a história de cada bebê que fotografamos. Realmente foi um contato muito bonito”, conta Julia.
Michelle Alves faz Jornalismo e participou da saída de campo com os colegas. Ela acompanhou os profissionais de enfermagem, fisioterapeutas, cirurgiões e assistentes sociais dentro dos ambientes. “A vivência foi única, pois mesmo sem ser médica ou paciente, pude estar dentro de uma sala de cirurgia”, lembra.
Ela explica ainda que pode perceber o quanto todos os momentos são planejados para que os pacientes possam se sentir o mais confortável possível diante da situação que estão enfrentando. Michelle também esteve na área infantil, um local mais lúdico, com uma brinquedoteca que as crianças utilizam nos intervalos dos tratamentos. “Ali, eles podem esquecer um pouco de tudo isso que estão vivendo e brincar”, comenta.
Para a aluna, foi extraordinário acompanhar de perto o empenho dos profissionais envolvidos. Ela conta que registrar e produzir imagens no bloco cirúrgico foi uma grande experiência. “É surreal conhecer como esse sistema funciona, é algo que não irei esquecer tão cedo”, diz.
Henrique Kirch revela que sentiu um misto de emoções e, assim como o colega Lucas, admitiu que tinha receio de hospitais. Mas, segundo ele, ver o brilho nos olhos das crianças em tratamento o deixou mais leve para conduzir seu trabalho. “Solidarizar-se com pacientes que estão preocupados com a saúde, visando dias sem dor, é uma questão que deve ser enaltecida também”, reflete.

Henrique diz lembrar bem quando uma das pacientes, a pequena Laila, que luta contra o câncer, viu a mãe dela e sentiu uma imensa felicidade. “Os olhinhos brilhavam. Logo, a mãe a pegou no colo e deu um abraço. Aquele gesto de carinho e amor demonstraram que saúde é uma das maiores riquezas de nossas vidas”, observa o estudante.
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]]>Sem novas exposições desde o fim de 2019 em função da pandemia da Covid-19, a escolha do tema foi feita a partir de seminários acadêmicos. A mostra reúne os trabalhos escolhidos coletivamente pelos sete alunos-artistas. Já na segunda parte do semestre, os discentes assumiram o papel de curadores, onde produziram a exposição física, o catálogo em forma de zine e o material de divulgação. “É a primeira disciplina dentro do curso onde eles levam a público uma exposição fotográfica.Além de eles escolherem um tema e fotografarem para expor as suas obras artísticas, é uma cadeira onde eles estudam toda a parte da curadoria, das exposições, de como fazer um projeto expográfico”, explica Marina.




A disciplina mudou a forma como o estudante Felipe Miller, de 26 anos, enxerga a profissão. “A gente trata a fotografia como um business depois de um certo tempo, quando começa a viver dela, e esquece um pouco esse lado artístico. A minha foto trouxe de novo o artístico para dentro do meu trabalho”, destaca o estudante do quinto semestre. No texto de apresentação da exposição, a correlação entre tempo e fotografia é destacada. Segundo os estudantes, o tempo é a matéria-prima da fotografia, pois o congela e o guarda na memória física e visual.
“As pessoas se deslocam de um lugar para outro, tem horário pra sair e chegar e não percebem no caminho uma planta, um inseto, um pássaro. O foco está em chegar, e não em curtir o caminho. Às vezes, a simplicidade está próxima da gente, na beleza que traz paz e tranquilidade”, afirma a estudante do 5º semestre Rosane Moreira.
Mais do que a formação para os discentes, a mostra também oportuniza o acesso democrático à cultura. A professora Marina explica que, por estar localizada dentro de uma universidade que é aberta à comunidade, o acesso à arte é público e gratuito. “A arte sempre vai ser, para além de uma produção estética, uma produção política”, afirma Marina. A exposição é uma produção dos estudantes Eduarda Scholze, Gabriela Bender, Karla Poletto, Kelly Vargas, Rosane Moreira, Thalia Santos e Felipe Miller.
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]]>A primeira edição de 2021 do jornal teve o trabalho centrado na Ocupação Renascer, comunidade de 150 pessoas, localizada no bairro Vicentina, em São Leopoldo (RS). Uma das novidades deste ano foi a realização de uma Oficina de Fotografia para os jovens da Renascer, originada de uma parceria entre a Secretaria Municipal de Cultura e Relações Internacionais de São Leopoldo (Secult) e a Unisinos.
A oficina ocorreu no mês de setembro durante a saída de campo feita pelos alunos e professoras para a produção de conteúdos jornalísticos. O objetivo, segundo Beatriz, “Foi levar a cultura e a fotografia como lugar de expressão para aquelas crianças, adolescentes, jovens, que vivem naquela comunidade”. O material que se originou da atividade deu vida ao Enfoquinho, um encarte dentro do jornal Enfoque São Leopoldo, criado para retratar a maneira como as crianças enxergam o lugar onde vivem.

A Oficina foi composta por dois momentos: o primeiro, no qual foi trabalhado noções básicas de linguagem fotográfica, e o segundo, quando os 10 integrantes, de 3 a 14 anos, receberam câmeras digitais (Panasonic Lumix) para registrarem seus olhares sobre o ambiente com o qual interagem. “A fotografia vai muito além de tu ter uma câmera na mão e saber a técnica, muito maior do que isso é você entender o para quê: o que é que eu quero fazer? Para quê que eu quero fotografar?” Diz Beatriz.

Para a professora, a maneira como as crianças correram para seus afetos no momento em que pegaram as câmeras, expõe o entendimento delas sobre a fotografia como a criação de uma memória. “Que memórias foram essas que eles escolheram produzir? Justamente a memória dos seus entes queridos”, algo que, de acordo com a professora, reflete, a sua forma, a luta diária daquela comunidade pelo lar através da visão dos jovens, por meio de suas interpretações sobre o que é, para eles, o lar.
Essa repórter que vos fala foi uma das fotojornalistas que trabalharam nesta edição do Enfoque e, consequentemente, interagiu com os moradores da comunidade durante a visita à Ocupação. Assim como meus colegas, só tenho boas memórias da experiência, como constata Adriana Franco, aluna do 4º semestre do curso de Fotografia: “Fomos muito bem recebidos e em pouco tempo me senti muito à vontade para conversar com todos.”

“Quando se chega lá, muitos de nós, olhamos para o saneamento básico, para as dificuldades, mas eles [as crianças e adolescentes] não. Eles têm uma visão completamente diferente. É possível aprender a forma com que as crianças enxergam o mundo, a forma como eles enxergam a comunidade e como eles vivem”, aponta Maria Carolina Vargas de Souza, estudante do 2º semestre de Jornalismo, outra das fotojornalistas dessa edição do jornal. E de repente, estudantes da Escola da Indústria Criativa e crianças da comunidade se uniram no mesmo desafio, mas com diferentes olhares sobre aquele espaço.
Para o olhar da professora Beatriz, Jamile de Oliveira, uma das participantes da oficina, tirou a foto de sua avó melhor que qualquer um dos fotojornalistas. “Ela voou com a câmera e foi fotografar quem? Seus afetos! Sua avó, sua tia, e mostrou as fotos para elas quando prontas. E depois entrega a câmera para que tirem uma foto dela! Eu fiquei muito feliz com isso”, relembra Beatriz.
Abaixo você confere o Making Off do que foi descrito pela professora, mas o produto final apenas no Enfoquinho:



“O Enfoque trouxe uma pauta que mostra e denuncia a realidade daquela comunidade e o Enfoquinho vem para contrapor isso”. reflete Gabriele Soares, fotógrafa do Enfoque do 4º semestre do curso de Jornalismo . Essa ideia de trabalhar o jornalismo como algo que também diz sobre a beleza dos afetos, para além da denúncia social, surpreendeu a todos.
Durante a Oficina de Fotografia na Ocupação Renascer, pode se dizer que houve um terceiro momento, composto pela interação dos alunos de Fotojornalismo com os oficineiros, algo que não foi idealizado, mas que impactou muitos todos que participaram dele. “Aquilo aconteceu de uma forma muito intuitiva e isso é muito lindo, porque essa é a vida real! É dessas trocas que a vida real é feita, que os aprendizados são feitos”, conta Beatriz.
A participação das crianças na Oficina fez com que elas ficassem mais curiosas sobre aquela arte que estavam aprendendo. Nos fizeram várias perguntas e, no final, os estudantes de fotojornalismo viraram professores, porque era assim que elas nos enxergavam. As crianças e adolescentes, nunca tendo visto uma câmera como as DSLR’s que levamos, naturalmente quiseram experimentar com nossos equipamentos, entrando, outra vez, em contato com algo novo, uma nova possibilidade.
“Teve um menininho, o Dudu [Lucas Eduardo], ele falou que queria ser jornalista quando crescesse, então a gente falou para ele estudar, ir na escola e que, depois, ele iria conseguir estar na Unisinos e eu acho isso muito importante”, revive Maria Carolina, que é complementada por sua colega da disciplina de fotojornalismo Dandara Toniolo, estudante do 7º semestre de Relações Públicas: “No início, quando eu cheguei lá, ele estava falando de ser jogador de futebol, então, a gente conseguiu colocar mais uma ideia na cabeça, trouxe para perto uma coisa que ele, talvez, nunca tivesse pensado”.

O Dudu, de oito anos, também teve a oportunidade de se colocar no papel de ensinar. Quando chegou a hora de outras crianças mexerem nas “câmeras dos profes”, encontravam alguma dificuldade, ele ia até elas e mostrava como fazer, demonstrando que realmente tirou algo daquele sábado de primeiras vezes. “O Enfoquinho vai ser um lugar para o trabalho daquelas crianças não ficar perdido”, conclui Gabriele.
A primeira edição do jornal Enfoque na Ocupação Renascer não é única somente pelo ambiente que incorpora como cenário, mas, também, pela voz que dá ao futuro daquela comunidade. “Eu acho que, na verdade, o Enfoquinho é uma grande oportunidade de conhecer a Renascer sem aquele olhar crítico. Tu vai realmente conhecer através das fotos que os jovens tiraram, ver através das lentes deles”, convida Dandara.
Você pode ler a versão digital do Enfoque acessando este link.

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