wp-mailinglist domain was triggered too early. This is usually an indicator for some code in the plugin or theme running too early. Translations should be loaded at the init action or later. Please see Debugging in WordPress for more information. (This message was added in version 6.7.0.) in /home/agexcom/mescla.cc/wp-includes/functions.php on line 6170The post Michael Sandel discute a justiça, democracia e meritocracia no Fronteiras do Pensamento appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>Professor da Universidade Harvard, sediada em Cambridge, nos Estados Unidos, Michael é autor de livros muito utilizados na área do Direito, como “Justiça: o que é fazer a coisa certa” e “O descontentamento da democracia: uma nova abordagem para tempos periculosos”. Com 70 anos de idade, ele é reconhecido por continuar muito ativo e influente em seus questionamentos e contribuições para diferentes áreas do conhecimento. O livro “Justiça…”, inclusive, se tornou um curso de Harvard, que está disponível gratuitamente na Internet – já foi acessado por mais de 15 mil alunos.

O autor defende a ideia de que a filosofia pertence não somente às universidades e ambientes acadêmicos, com palavras rebuscadas e difíceis de entender, mas, sim, à cidade, onde os cidadãos se reúnem, raciocinam e debatem juntos sobre como organizar a vida coletiva.
Como perseguir uma justiça na busca do bem comum, tentando descobrir o que devemos uns aos outros enquanto cidadãos? Com essa pergunta, Sandel iniciou a conferência. Para ele, há uma forte polarização que atrapalha esse processo. “Mas o que traz essa polarização? Grande parte do discurso público está esvaziado. É tecnocrático, que não interessa a ninguém, dispostos aos gritos, ideologias de partido, membros dos congressos que gritam uns com os outros, sem escutar-se. O próprio projeto democrático está em risco”.

Com isso, Sandel afirmou que os “vencedores” tiveram ganhos, mas que contemplaram apenas os 20% da “classe de cima”. “A maior parte das pessoas tiveram os salários estagnados por décadas, enquanto a desigualdade aumentou. Isso é uma fonte do que nos dividiu. A frustração com a política que provocou a raiva contra a elite e os políticos”, observou o palestrante.
O professor apontou ainda para uma força dos trabalhadores, que veem as elites os menosprezando, elites essas acadêmicas, intelectuais e da mídia. Porque, segundo Sandel, mesmo com as desigualdades aumentando devido à globalização, os principais partidos políticos respondem a isso dizendo “se você quiser competir e vencer, faça faculdade. O que você ganha depende do que você estudar”. “A resposta é sempre ‘melhorar a você mesmo’”, criticou.
Para Sandel, as oportunidades não são iguais. As pessoas não começam a corrida no mesmo local de partida. “Imaginem que possamos corrigir isso: promover uma corrida e fornecer a todos os competidores o mesmo treinamento, acesso a bons treinadores, os mesmos sapatos de corrida, nutrição, para que estejam preparados para correr sem possuir alguma desvantagem. Teríamos uma meritocracia perfeita”, avaliou o filósofo.
A partir desse cenário, Michael interagiu com a plateia, requisitando opiniões e explicações dos participantes. “Nesse cenário meritocrático perfeito, o vencedor da corrida mereceria a vitória, um prêmio maior?”. Com a pergunta, o palestrante permitiu um espaço para o público literalmente dialogar com ele, que ouvia e considerava os pontos levantados. “Liguem as luzes, para que eu possa ver quem está falando comigo”, pediu Michael.

“Os vencedores esquecem a sua sorte. Isso nos leva a esquecer a nossa dívida com as pessoas que nos levaram às nossas conquistas: professores, treinadores… Uma meritocracia perfeita produziria uma arrogância daqueles que estão no topo, levaria a menosprezar os menos afortunados”, comentou Sandel, reforçando o fato de que todo o trabalho tem dignidade. “Um médico e um gari são igualmente importantes, pois se o médico não tratar as doenças, a situação urbana piorará, e se o gari não fizer o seu trabalho, as doenças irão se alastrar”.
Segundo o conferencista, nós perdemos a capacidade de ouvir uns aos outros, especialmente através das nossas diferenças. “Os feeds das redes sociais reforçam isso, nos mantêm em bolhas fechadas. Isso é corrosivo para a virtude cívica”, enfatizou. Para Sandel, é preciso escutar os princípios morais por trás das falas das pessoas. “Temos que ir contra o poder das grandes empresas de mídia social e encontrar uma forma de termos um discurso público mais robusto sobre a moral”.
“É difícil ser otimista”, disse o professor, que fez uma distinção entre otimismo e esperança. “O que me dá esperança é que todos querem uma vida pública melhor, especialmente os jovens. Existe uma fome de se engajar sobre as diferenças, coisas contestáveis. Temos que aprender a fazer isso”.
Sobre isso, Tulio Milman comentou com o filósofo sobre a tarde que ele passou na comunidade Morro da Cruz, na Capital gaúcha. “Eu passei três horas em uma mesa redonda com membros locais e do poder público. Mesmo com recursos limitados, havia uma força e criatividade para criar uma comunidade, fazer com que suas vozes sejam ouvidas. O governador estava lá também. Algumas vozes eram mais inflamadas, com raiva. Mas eram legítimas. Às vezes, a raiva desse tipo é necessária e pode ser saudável”, disse o jornalista.
Michael, então, chamou Vitor, estudante do Ensino Médio, morador da comunidade que ele havia visitado mais cedo ontem. Vitor contou que quer trabalhar com Relações Internacionais e entrar para a política, e a conversa durante a tarde foi uma oportunidade de ter sua voz ouvida.
Essa foi a quarta conferência do evento, que é realizado presencialmente também no campus de Porto Alegre da Unisinos. O Notícias Unisinos esteve presente nos três primeiros encontros, que contaram com a jornalista espanhola Rosa Montero, com a vencedora do Prêmio Nobel da Paz Nadia Murad e com o neurocientista espanhol Rafael Yuste. Ainda serão recebidos o documentarista norte-americano Douglas Rushkoff, no dia 13 de setembro, e o arqueólogo britânico David Wengrow, para encerrar a temporada, no dia 4 de outubro.
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