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]]>Na primeira década dos anos 2000, sites de hospedagem de fanfics – histórias ficcionais criadas por fãs – proliferaram, principalmente em inglês. Logo surgiram categorias em espanhol e português, mais ou menos na época em que se consolidaram as versões puramente brasileiras. Com a facilidade de ler e publicar suas próprias histórias, fãs dos mais variados tipos de cultura pop passaram a reunir um acervo de textos que hoje gira em torno dos milhões. One Direction, Justin Bieber e Selena Gomez foram propulsores de uma produção em massa de fanfics a partir de 2010. Mas o ambiente não ficou restrito à música, dando espaço também para livros, filmes e animes.
Nos últimos anos, com o fenômeno da música coreana, o k-pop, alcançando o mundo todo, as fanfics tiveram uma nova explosão de produção. Liderando as listas, grupos como BTS, EXO e Blackpink somam quase meio milhão de histórias, só em dois dos sites mais utilizados pelos fãs brasileiros. Esse montante considerável levanta questões que extrapolam o ambiente virtual ou os fandoms (grupos de fãs), alcançando inclusive as pesquisas científicas.
Mais do que um fenômeno adolescente restrito à internet, as fanfics representam um movimento de subcultura, um conceito que significa barulho, quebra de códigos de comportamento. Essa mudança de códigos forma um campo no qual os indivíduos que se identificam com ele atuam e se reconhecem, elegendo valores simbólicos que só funcionam dentro desse campo.
Os valores simbólicos não têm ligação com valores monetários, justamente porque as fanfics se caracterizam por serem gratuitas. É o elemento da gratuidade que garante que os autores das obras originais não possam processar os produtores desse material derivado. A interação dentro desse campo varia de autor para autor, mas é papel inicial na inserção dos membros, sejam eles produtores ou consumidores dos textos.

O pesquisador Eloy Santos Vieira, doutorando em Ciências da Comunicação na Unisinos, aponta, porém, que a ideia de ambiente democrático foi amplamente vendida, mas não deu certo. “No caso do Brasil, precisamos lembrar sempre que o acesso à Internet ainda é um problema em boa parte do país. Além disso, temos que salientar a necessidade de haver competências e letramento midiático para que uma pessoa esteja incluída na cultura digital”, diz Eloy, que integra também o Grupo de Pesquisa em Cultura Pop.
Eloy é professor convidado na especialização em Redes Sociais e Cultura Digital da Unisinos, e atualmente pesquisa o uso de memes. Para ele, a apropriação desses objetos digitais e produções de fãs podem ser usadas de forma benéfica, inclusive para o letramento nas escolas.
“Existe uma série de trabalhos validando o uso de fanfics em sala de aula, então, acredito que não só são ferramentas importantes para se trabalhar pedagogicamente a questão do letramento, mas também das competências midiáticas”, explica o pesquisador. Para ele, as produções de fãs articulam competências midiáticas e extra-midiáticas, que podem ser articuladas inter e transdisciplinarmente.
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