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Arquivos documentário - Portal da Indústria Criativa https://mescla.cc/tag/documentario/ Informação, inovação, tendências e eventos. O Mescla reúne tudo que você precisa saber sobre a Indústria Criativa. Tue, 02 Aug 2022 19:50:37 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 Recesso teve 16ª Mostra Unisinos e mostrou o fôlego da nova geração de cineastas https://mescla.cc/2022/08/02/recesso-teve-16a-mostra-unisinos-e-mostrou-o-folego-da-nova-geracao-de-cineastas/ https://mescla.cc/2022/08/02/recesso-teve-16a-mostra-unisinos-e-mostrou-o-folego-da-nova-geracao-de-cineastas/#respond Tue, 02 Aug 2022 16:58:30 +0000 http://mescla.cc/?p=16757 Por Paola De Bettio e Joana Troian A Mostra ocorreu logo após o término do semestre com a exibição de curtas, vídeo clipes e animações em stop motion feitas pelos alunos.  A edição pode ser feita novamente presencialmente, em uma icônica, clássica e querida sala de cinema portalegrense, na Cinemateca do Capitólio.   Neste semestre, novas produções […]

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Por Paola De Bettio e Joana Troian

A Mostra ocorreu logo após o término do semestre com a exibição de curtas, vídeo clipes e animações em stop motion feitas pelos alunos.  A edição pode ser feita novamente presencialmente, em uma icônica, clássica e querida sala de cinema portalegrense, na Cinemateca do Capitólio.   Neste semestre, novas produções serão realizadas e apresentadas em nova Mostra.


Foi o momento para prestigiar os novos cineastas cheios de talento e criatividade e homenagear o ator Clemente Viscaíno, que acompanha as produções dos alunos “cravianos” desde a primeira turma, iniciada em 2003 e formada em 2006. Clemente participou do curta “O Último Almoço de Domingo”, gravado em 2005. Para alguns estudantes também foi a chance de comemorar o fim de uma importante etapa – a graduação. Sem falar na retomada da vida nas ruas e das salas de cinema. Tudo isso trouxe a energia e a vitalidade da sétima arte.


A mostra incluiu vários gêneros  

Cada um dos dois dias contou com uma programação. Cada programa contava com cerca de três curtas e dois vídeos clipes ou dois stop motions. Ao fim de cada um deles os diretores (alunos) debateram com um professor mediador e um convidado especialista.   


Esta edição tinha trabalhos realizados desde 2020 que não puderam ser mostrados por conta da pandemia. Ao final do ano, está prevista mais uma edição com aproximadamente 28 curtas-metragens.


A escola de cinema do CRAV

O terceiro ano do curso é o momento de criar as produções maiores, onde todo o aprendizado da graduação até então culmina na realização de um curta-metragem de ficção. O quarto ano do curso é dedicado aos estágios supervisionados, quando o aluno experimenta o mercado de trabalho. Cada estudante escreve e dirige seu próprio curta. Além do processo de direção dos próprios filmes, eles ainda vão trabalhar como assistentes de direção e produtores no filme de outro colega. Estas são as funções principais que todos exercem. Para complementar a formação, cada estudante pode escolher duas áreas para se especializar, área esta que vai exercer no curta-metragem dos colegas. As especialidades são direção de fotografia, direção de arte, som, montagem, animação e roteiro.


Um dos coordenadores do curso, Milton do Prado, enfatiza esse aprendizado: “O 3º ano do curso é um ano muito intenso. Eles fazem os filmes nos finais de semana. Eles têm aula durante a semana e todo sábado e domingo eles estão ali. Todo sábado e domingo a gente tem um ou dois filmes sendo feitos e os alunos se revezando nas funções”, comenta Milton.


O gênero documental  

A sala já estava bem ocupada na abertura, para assistir aos documentários.  Ao longo da primeira tarde o gênero documentário foi dominante. De antemão, um dos coordenadores do curso, o Milton, frisou a importância de ocupar o Capitólio para prestigiar o audiovisual. O tradicionalíssimo espaço de cinema porto-alegrense, com arquitetura ímpar no centro da capital, e que vive tempos tenebrosos, por serem espaços públicos de arte e estarem recebendo pouco investimento, precisando sempre resistir.  


Antes dos primeiros documentários serem mostrados, foi a vez dos clipes das músicas “Deságua” pela Kaya Rodrigues e “Desilusão”, da banda Almirantes. Essas produções foram feitas pelos veteranos do curso.

Aliando a arte de contar histórias no teatro e a arte do cinema, foi apresentado “Começar, continuar e Permanecer”. No “cenário” de pandemia, quatro atores estiveram no Teatro de Arena de Porto Alegre para refletir sobre suas trajetórias histórias e como a arte aconteceu em meio ao cenário caótico da pandemia. 

O segundo curta documentário daquela sessão foi “Boombap: poesia viva”, que trouxe Tiatã, Elle P., Rainha Ju e Rafuagi para traçar ritmos da poesia marginalizada dentro do hip hop e do slam. Foi lindo escutar sobre união, representatividade, força e coragem com a sensibilidade destes artistas.   

Para finalizar a sessão, “Esse aqui é o meu lugar” trouxe três gerações para falarem sobre a cena do skate em Porto Alegre. Sérgio Marreta, Fabrício Souza e Clara Strack narraram suas histórias pessoais, e traçaram a jornada por afirmação de espaço na cidade de Porto Alegre.  


O arremate do primeiro programa foi o debate com a documentarista Thaís Fernandes, que trouxe sua veia jornalística para entender o processo de criação dos documentários, desde a concepção da ideia até a pós-produção.


A segunda parte da tarde contou com os clipes das músicas “Drink no Inferno”, da banda Fumaça Urbana, e “Amor Líquido”, do Projeto Hare. Logo depois veio “Geração da Consciência”, que trouxe de forma extremamente sensível e bem elaborada o relato de ex-integrantes de organizações militantes sobre como começaram a lutar contra a Ditadura Militar no final de regime. A grande sacada foi que estes relatos foram contados através do rosto e voz de quatro jovens atores, com a mesma idade que os militantes tinham no período. A música ficou com Nei Lisboa, que teve um de seus irmãos assassinado pela Ditadura Militar e cedeu os direitos para o filme.


Enquadradas pela câmera, Gladis e Julia refletem sobre como é a sua relação com a cozinha, as histórias e receitas familiares em “Histórias de Cozinha”. Por fim, “Uma Nova Sinfonia” trouxe a pulsação linda da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA), onde o Maestro Evandro Matté e alguns músicos contaram como foram as atividades durante a pandemia e a retomada das atividades presenciais.   


O debatedor foi o pesquisador e crítico Maurício Vassali, que também quis entender sobre o processo de produção e da relação dos diretores com os atores e suas emoções, além dos desafios inesperados de uma produção audiovisual.  


Os documentários ficaram marcados pelas temáticas musicais, afetivas e poéticas, mostrando uma antítese importante na arte de contar histórias: sensibilidade com força. 



A vez da ficção 


As duas primeiras animações feitas em stop motion foram “Acendi ao vê-la”, da Eduarda Brum, que brinca com as palavras e traz um non-sense divertido e criativo; e “Atrás da Porta”, do Maicon Ferreira dos Santos, que trouxe o suspense e os delírios que os medos podem criar na gente. As duas animações tinham cerca de 1min30.  


“A Valsa” foi o primeiro curta de ficção a ser exibido. Com roteiro sensível, afetivo e amoroso, os personagens Lucrécia e Benedito decidem renovar seus votos de casamento no dia de suas bodas de ouro, mas não esperam os truques que a saudade pode pregar. A plateia também não esperava por esse truque, que ficou arrebatada com a história.

“Abissal” traz a personagem Dora, que encontra o corpo de um mergulhador na beira da praia. No entanto, ela é a única que o vê. Com o passar dos dias, ela não consegue discernir entre a realidade e sua paranoia.  

Por fim, “Pelos Olhos Teus”, também traz brincadeiras sutis com as ideias das palavras, já através do título. O curta traz uma história corajosa de amor e descoberta, através da personagem Amélia, que vive com a mãe cega. Após um encontro cheio de frustração, ela conhece Marjorie, uma mulher que desperta sentimentos nela.   


Estiveram presentes na sessão os atores Clemente Viscaíno e Vilma Loner, de “A Valsa”, Isabella Lacerda, Paulo Flores e Clélio Cardoso, de “Abissal”, e Gabriela Iablonovski, Arlete Cunha, Isadora Pillar e Juliano Rangel, de “Pelos Olhos Teus”, além dos músicos Rafael Kurai, Gabriel Thomsen e Madblush, que junto da diretora Natália Polla compuseram a trilha do curta.


Clemente Viscaíno recebeu uma homenagem, que contou com um clipe de suas participações em diversos curtas do CRAV, no qual ele colabora desde a primeira turma, em 2001, na qual um dos coordenadores do curso, Vicente Moreno se formou, inclusive. Clemente disse que adora colaborar com os alunos do CRAV, porque estes alunos são os diretores, roteiristas e produtores do futuro. Ele contou inclusive que já trabalhou com produções da Rede Globo onde encontrou alunos de outras turmas.  Clemente participou de cerca de 27 filmes, entre eles “Como Nascem Os Anjos”, “Memórias Póstumas”, “Carandiru” e “Nosso Lar” e de novelas como “Dancin’ Days”, “Por Amor”, “Anjo Mau” e “Caminho das Índias”.   


Os três curtas foram o trabalho de final de curso de três alunas-diretoras. Para compor o debate, a pesquisadora e crítica Juliana Costa trouxe questões e análises para a conversa.   


Dois dias de exibições 


O segundo dia de Mostra contou com as apresentações de animações e os curtas-metragens.


Stop motions e curtas ficcionais  


“Elevador”, é animação stop motion dirigido pelo Leonardo Kotz. A única sinopse possível é “Sobe ou desce?”. “Embaçados” é a animação dirigida por Luis Simioni, na qual “um olho” descobre que não enxerga bem. 


Os curtas-metragens exibidos na primeira sessão de quarta-feira foram Astronauta Azul, escrito e dirigido por Nicole Vaz, que conta a história de um menino autista que vive a perda da mãe e os desafios que o pai passa para compreender o filho; Livre Ária, com direção de Gabriel Thomsen e roteiro de Gabriel Thomsen e Felipe Trema, que aborda a história de um jovem que tenta escapar da realidade distópica através de memórias do passado; Esboço, escrito e dirigido por Gabriel Picinatto, sobre um homem que se encontra preso em uma sequência de histórias que confundem realidade com fantasia; e Élan, com direção e roteiro de Felipe Trema, em que o personagem André vive solitário até precisar tomar conta do cachorro da vizinha.   


Os debates tiveram foco nos curtas-metragens de ficção, sendo o principal da Mostra, onde foi foi possível conhecer um pouco mais das histórias e o processo de elaboração dos filmes. Autismo, ficção científica, realidades distópicas e reconexão com o mundo foram os temas principais dos curtas da primeira sessão do dia 13. O debate foi conduzido pelo diretor e roteirista Felipe Lesbick, e participaram Nicole Vaz, Felipe Trema e Gabriel Thomsen


Nicole Vaz, roteirista de Astronauta Azul, diz que se inspirou em seu irmão mais novo, que é autista. Para ela, a elaboração da história seria uma forma de homenagear o irmão e abrir espaço para conversas sobre o autismo: “Eu gostava daquilo e pensei em usar esse espaço para ele, para homenagear ele, colocar um pouco ele na tela. O autismo tem muitas variações, e eu quis botar a minha perspectiva como irmã e em como o autismo funciona com ele. Cada autista tem essa questão de ser muito diferente entre si”, comenta a diretora do curta.


No processo de direção, Nicole priorizou planos que deixassem a câmera na altura dos olhos do personagem, interpretado por Lorenzo Hoffman. Ela frisa o quando seria importante se colocar na altura dele para ouvir e compreender. A captação de som também foi pensada com cuidado, pois o som é percebido de forma muito particular: “A gente não queria somente captar som, porque o som é algo que vai ser percebido de forma totalmente diferente nessa questão do autismo. Quando a pessoa pode estar nervosa, o som aumenta, tudo fica muito alto. Tudo tem uma percepção diferente”, explica. 


A equipe de Astronauta Azul filmando uma cena de Lorenzo Hoffman, interpretando Edu. (Foto: reprodução do Instagram / @crav_unisinos) 



Élan foi o curta-metragem que contou com a Paçoca, a cachorrinha que viveu Peteca na história. André vivia solitário e a vizinha percebeu uma forma de ajudá-lo a se recuperar, com a ajuda de Peteca. O diretor e roteirista Felipe Trema conta que queria uma história que fosse de fácil identificação, que tivesse uma linguagem clara e econômica. Nos ensaios com os atores Fábio Castilhos e Ida Celina a conversa fluía e, para ele, parecia um encontro familiar. “Eles leram o roteiro e quando a gente foi fazer as discussões, eu estava vendo os personagens na minha frente. […] Às vezes eu tinha a sensação de que era um encontro familiar, parecia que eu estava encontrando pessoas que já tinha visto antes”, celebra Felipe.  


Paçoca foi a que mais improvisou, interagindo com um dos seus brinquedos, uma bolinha, em cena. “Quando a gente foi pra filmagem tudo funcionou. A cena da bolinha foi improviso. Ela foi lá e pegou a bolinha sozinha. E pensei “esse cachorro vai ganhar um Oscar”, comenta.  


Bastidores das gravações de Élan, escrito e dirigido por Felipe Trema. (Foto: reprodução do Instagram / @crav_unisinos) 



No curta Livre Ária, o diretor e roteirista Gabriel Thomsen contou que queria criar uma atmosfera futurista, distópica, e abordar a liberdade através da música. O principal, Levi relembrava suas memórias através de uma flauta, e Gabriel conta que o processo de ensaio foi importante para delinearem as intenções dos personagens. “Enquanto a gente revisava o roteiro e falava as falas, a gente conseguia melhorar mais ainda, dar mais nuance e profundidade às personagens”, explica. Pensando no som, Gabriel conta que a ideia era criar uma ambientação de futuro. “Era pra ter uma premissa mais futurista, daí sons que tinham a ver com uma dimensão mais robótica. E o lugar que a gente gravou também ajudava bastante porque dava uma ambientação mais futurista”.  


Para encerrar a programação  


A protagonista do stop motion Memento Mori é uma aranha. A animação teve direção de Ângela Roveda, e a sinopse é “sem essa, aranha”. Em seguida, um peixe atravessa o deserto no stop motion O Peixe, dirigido por Beatriz Potenza.  


A exibição dos curtas da segunda sessão do dia começou com Ruptura, escrito e dirigido por Júlia Heerdt, que conta a história de Sara, uma adolescente que convive com a sensação de não-pertencimento e, em uma festa, se aproxima de Pedro. Em seguida, o curta Eco, com roteiro e direção de Bárbara Lima, que retrata as histórias daqueles que habitaram. Utopia traz a história de Gregor, que vive sozinho e só conversa com Marge, um robô do setor de RH da empresa. Gregor um dia se espanta ao ver uma gravura de si mesmo. Para encerrar a Mostra, o curta Super-Guri trouxe risadas no público com uma comédia em forma de documentário, em que documentaristas acompanham o novo vilão de Porto Alegre, o Gado Gaudério, em sua tentativa de manchar o home do herói da cidade, o Super-Guri. O debate da sessão foi conduzido por Daniela Strack, assistente de direção e produção em diversos projetos de cinema, televisão e publicidade.


Ruptura, escrito por Júlia Heerdt, foi inspirado em uma história real de superação, que ela resolveu levar para as telas. Ela conta que tinha na cabeça algumas das imagens de como seriam as cenas e que quando o roteiro já estava encaminhado e estavam iniciando a pré-produção para as gravações, a pandemia alterou os planos. As filmagens foram adiadas e os estudantes se dedicaram ao TCC para, somente depois, retornarem às gravações. Para ela, a dinâmica de gravações foi desafiadora e ela contou sobre o trabalho em outras produções da turma. 


“A gente roteiriza o filme que a gente dirige, a gente produz um filme, a gente faz assistência de direção em um filme, e cada um participa nas suas especialidades. Eu escolhi arte, então fiz arte em outros filmes. É uma doideira. Enquanto a gente está fazendo nosso filme, já estamos produzindo outro, e já pensando em outro. Então foi meio que uma doideira, mas foi muito legal”. 


O curta Eco trabalhou a memória de um ambiente. A diretora e roteirista Bárbara Lima conta que quis trabalhar as diversas histórias que aparecem no filme a partir de fragmentos: “Eu busquei não explicar nenhuma história, mas dar fragmentos pensando nessa questão de como a gente não conhece a si nem aos outros completamente e quantas coisas não acontecem escondidas entre as quatro paredes que, de uma forma ou de outra, acabam ecoando tanto em outras pessoas como nos próprios ambientes. Então quando você entra num lugar novo, ou se muda, quantas pessoas já não passaram e deixaram pequenas marquinhas?”, explica.  


Filmagem de Eco (Foto: reprodução do Instagram / @crav_unisinos)



Utopia foi um curta-metragem que surgiu a partir de um desenho. Beatriz Lopes escreveu e dirigiu o curta, e conta que a ideia inicial surgiu de uma ilustração que fez do personagem principal, Gregor. “Eu gostava muito da estética de um filme de ficção científica. Comecei a pensar e surgiu o Gregor, e eu o desenhei”.  Buscando uma motivação para o personagem, ela percebeu que os desenhos poderiam ser uma chave. Na orientação aos atores, Beatriz propôs exercícios aprendidos durante o curso e, por também ser atriz, quis trabalhar a construção do personagem com o ator, Alexandre Vargas. “Sou atriz e gosto muito de direção, de pensar coisas pro ensaio. Eu queria muito trazer um pouco deste peso pro personagem, e no ensaio, deu para passar para ele o peso que eu queria que o personagem carregasse, e ele também contribuiu muito trazendo ideias”.  


Por trás das filmagens de Utopia, com roteiro e direção de Beatriz Lopes. (Foto: reprodução do Instagram / @crav_unisinos) 



O curta que encerrou a Mostra foi Super-Guri, uma comédia que conseguiu trazer risos da plateia com o formato de documentário. O diretor Telson Reis Júnior conta que, no processo de escrita, foi transformando os personagens para que fosse criada uma identificação, para que as pessoas gostassem do vilão Gado Gaudério e seu comparsa Quero-Quero. “No processo de tentar encontrar cada personagem eu tive reuniões online com os atores, pra entender mais ou menos a ideia da cena, qual é a personagem, qual a voz deles”, explica. Telson teve receio na hora da estreia, imaginando se as piadas dariam certo, mas as risadas da sala de cinema puderam comprovar. 


O impacto da pandemia nos roteiros 


Um dos coordenadores do CRAV, Milton do Prado, explicou que a pandemia fez com que muitos roteiros fossem adaptados e as gravações, adiadas. Atenta aos protocolos da Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos, a produção tinha que estar sempre de máscara Pff2. se houvesse atores no curta, somente um poderia ficar sem máscara. Uma das produções incorporou as máscaras à história, como foi o caso de Astronauta Azul, em que os personagens as usavam em cena. 


Em alguns curtas, há cenas em que dois atores conversam, sem máscara, e Milton explica como foram gravadas: “Foram filmados separados e, depois, foram juntos na pós-produção. Foi filmado um ator com máscara e o outro sem, com a câmera na mesma posição, mesma luz, aí inverte e filma de novo”, explica Milton. Adaptar seus roteiros, repensar as histórias, tudo isso fez parte da realização das produções no meio de uma pandemia. “Essa turma está muito de parabéns! Eles foram absolutamente fantásticos para fazerem filmes legais apesar de todas essas restrições”, celebra o coordenador. 





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Projeto de ex-aluno do CRAV lança série de minidocumentários em parceria com a Mídia NINJA https://mescla.cc/2020/08/12/projeto-idealizado-por-ex-aluno-do-crav-em-parceria-com-a-midia-ninja-desafia-realizadores-a-produzir-durante-a-pandemia/ https://mescla.cc/2020/08/12/projeto-idealizado-por-ex-aluno-do-crav-em-parceria-com-a-midia-ninja-desafia-realizadores-a-produzir-durante-a-pandemia/#respond Wed, 12 Aug 2020 20:02:39 +0000 http://mescla.cc/?p=13671 Em meio ao novo coronavírus, todos os setores que movem a economia foram afetados, e com o audiovisual não foi diferente. Os segmentos de segurança impostos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) tornaram a realização de produções de vídeo mais complicadas. Pensando nisso, a produtora gaúcha Casa Átomo Filmes lançou uma campanha com o lançamento […]

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Em meio ao novo coronavírus, todos os setores que movem a economia foram afetados, e com o audiovisual não foi diferente. Os segmentos de segurança impostos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) tornaram a realização de produções de vídeo mais complicadas. Pensando nisso, a produtora gaúcha Casa Átomo Filmes lançou uma campanha com o lançamento de minidocumentários produzidos por realizadores audiovisuais relatando suas vivências em quarentena. Daí vem o nome do projeto: Quarantine Tales. 

Sócio e diretor de cena da Casa Átomo, Vinícius de Barros foi responsável pelo gerenciamento do projeto. Ele conta que logo no início da quarentena começaram a surgir questionamentos sobre como produzir sem poder se reunir. Com todas as dúvidas que surgiram, tanto de clientes como entre eles mesmos, Bianca Chiaradi, uma das gerentes do projeto, instigou o grupo a criar uma campanha que trouxesse uma solução a tudo isso. Assim, com a ajuda do roteirista Keigiro Ueno, lançaram O Vídeo Aproxima. Mas ainda não era o suficiente. “A gente não queria parar ali, lançar um manifesto e pronto. Começamos a buscar outras maneiras de desenvolver um projeto na quarentena. E aí, junto do meu sócio, Tom Silveira, criamos o projeto Quarantine Tales”, observa Vinícius. 

Vinícius se formou na Unisinos em 2019 no curso de Realização Audiovisual. Atualmente, é sócio da Casa Átomo Filmes
(Foto: Arquivo Pessoal / Vinícius de Barros)

Com a proposta de minidocumentários retratando o distanciamento social, foram convidados a participar da primeira temporada 14 diretores de diferentes áreas do audiovisual de diversos locais do país. Vinícius, que é formado pela Unisinos no curso de Realização Audiovisual (CRAV), explica que cada um deles mostrou a sua rotina de quarentena, repensando o seu processo criativo. Ele conta que a ideia era promover um conteúdo que tivesse qualidade e deixasse uma reflexão. “Cada um está passando a quarentena de uma forma diferente e encarando ela de uma maneira diferente. O que isso pode mudar em você?”, questiona o diretor, observando ainda um outro ponto importante: a reinvenção no modo de trabalho, com limitação de equipes e equipamentos. 

Já para a segunda temporada, a Casa Átomo fechou uma parceria com a Mídia NINJA, uma rede de comunicação independente, que exibiu a série em suas redes. Vinícius explica que, com o final da primeira temporada, muita gente quis saber como poderia participar. Assim, surgiu a ideia da parceria, abrindo as inscrições para pessoas de todo o Brasil contarem suas histórias na pandemia. A curadoria foi realizada por uma equipe da Mídia NINJA, Casa Átomo Filmes e pela cineasta Kamila de Moraes.

A parceria com a Mídia NINJA surge com a segunda temporada, abrindo espaço para qualquer pessoa participar
(Foto: Reprodução / Mídia NINJA)

A coordenadora da TV NINJA, Ana Gonçalves, explica que eles já haviam aberto a grade para divulgação de outros realizadores audiovisuais. Então, quando o pessoal da Casa Átomo entrou em contato para divulgar o projeto, decidiram exibir também os minidocumentários. “Um projeto como esse é importante para manter a produção audiovisual do Brasil profundamente ativa, sem depender de grandes recursos, e também dá visibilidade a novos talentos, que muitas vezes não têm espaço para mostrar seu conteúdo”, destaca Ana.

Os vídeos da primeira temporada foram exibidos na TV NINJA e na Prime Box Brazil. Já os da segunda, apenas na TV NINJA, o que deu bastante visibilidade para os participantes, pois o site conta com mais de 5 milhões de seguidores em sua rede. Para Vinícius, esse projeto serve para repensarmos o nosso papel no audiovisual e no modelo de trabalho. “E também para refletirmos sobre nós mesmos, além de, claro, ter o Quarantine Tales como um retrato histórico sobre o momento que estamos vivendo”, destaca. 

O CRAV presente

O minidocumentário de Sofia fala sobre o significado do viver
(Imagem: Reprodução / Mídia NINJA)

Um dos realizadores selecionados para a segunda temporada de Quarantine Tales foi Sofia Vidor, estudante do CRAV e estagiária de audiovisual da Agência Experimental de Comunicação da (Agexcom) Unisinos. Ela conta que ficou sabendo sobre o projeto por meio do fotógrafo Angelo Bonini, que participou da primeira edição. A partir disso, decidiu tirar do papel a ideia que ela já tinha de produzir algo durante a quarentena, uma produção que trouxesse alguma reflexão. Sofia lembra que, a princípio, tinha dúvidas se faria um vídeo mais focado nela ou mais coletivo. Sofia acabou optando pela segunda opção. Assim nasceu o minidocumentário Ensaio do Viver.

Sofia conta que o projeto surgiu em meio ao movimento #BlackLivesMatter, desafiando-a a pensar sobre como as desigualdades vieram ainda mais à tona em meio a pandemia. Então, pensou em trabalhar com a ideia de algo que todos têm em comum, como o sentimentos.  

Aluna do CRAV, Sofia foi selecionada para participar da segunda temporada do projeto
(Foto: Arquivo Pessoal / Sofia Vidor)

A estudante mandou um questionário para diversas pessoas diferentes, que responderam por áudio, formando uma única voz. Para cobrir esses áudios, ela usou fotos antigas que guarda de seu avô, que era jornalista, além de imagens que já tinha de arquivo. Mesmo diferentes, Sofia pode perceber muito do que é comum: “Sobre essas coisas essenciais, as pessoas pensam as mesmas coisas, gente que nem se conhece, de diferentes áreas e classe social, tem muitas vezes a mesma opinião. Realmente, estamos todos conectados”, destaca Sofia.

Ela conta que se inscreveu no projeto com expectativa baixa, pensando que, se não passasse, seria tranquilo, pois usaria o trabalho como portfólio. Mas, quando viu que foi selecionada, ficou muito feliz, pois viu que existe espaço para produtos mais artesanais, sem precisar se submeter a um padrão do mercado. “Nesse momento em que estamos, se não nos apegarmos em pequenas coisas para ser feliz, ficamos loucos. A pandemia está nos ensinando a ficarmos bem com nós mesmos e transformar a solidão numa solitude”, sublinha a aluna do CRAV. 

Vinícius não descarta a possibilidade de haver outras edições, pois o projeto foi muito bem aceito. Caso aconteça, as informações serão divulgadas no Instagram @casaatomofilmes e @midianinja. Enquanto isso, confira o trailer da segunda temporada do Quarantine Tales: 

Quarentena Projetada

Além do Quarantine Tales, a Mídia NINJA ainda conta com outro projeto que incentiva a realização de trabalhos no audiovisual: o Quarentena Projetada. A ideia nasceu de uma convocatória do Instituto Moreira Salles (IMS) com o objetivo de manter artistas ativos durante a pandemia. A parceria surgiu justamente para que essa chamada a artistas fosse massiva, abrindo para que pudesse ser enviado fotos, vídeos, poemas e design. Para participar, bastava postar o trabalho com #QuarentenaProjetada, que ia diretamente para o site IMS Convida.

Coordenador da frente de fotografia da Mídia NINJA e gestor do projeto Quarentena Projetada, Oliver Kornblihtt explica que o processo foi dividido em etapas. A primeira foi a convocatória, que durou um mês e recebeu mais de 14 mil trabalhos. Seguindo, veio a etapa de projeções, que, por meio de uma curadoria, selecionou 430 obras levando em conta a diversidade entre os artistas. As projeções ocorreram simultaneamente em 11 cidades durante 2h. A terceira etapa foi a entrega do apoio econômico para 30 artistas selecionados. Para Oliver, o projeto teve um impacto bem grande para os artistas, que tiveram um espaço de visibilidade. “O resultado do produto também foi muito legal. Muita diversidade de obra, de produção artística. Para nós, foi um projeto muito impactante”, avalia.

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CRAV promove a 15ª Mostra Unisinos de Cinema https://mescla.cc/2019/12/17/crav-promove-a-15a-mostra-unisinos-de-cinema/ https://mescla.cc/2019/12/17/crav-promove-a-15a-mostra-unisinos-de-cinema/#respond Tue, 17 Dec 2019 18:30:29 +0000 http://mescla.cc/?p=12755 Os estudantes do Curso de Realização Audiovisual (CRAV) da Unisinos estão se preparando para um dos eventos mais importantes do ano, a 15ª Mostra Unisinos de Cinema. Esta edição, que será realizada nos dias 18 e 19 de dezembro, na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, contará com 17 filmes de ficção, três documentários, dois stop […]

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Os estudantes do Curso de Realização Audiovisual (CRAV) da Unisinos estão se preparando para um dos eventos mais importantes do ano, a 15ª Mostra Unisinos de Cinema. Esta edição, que será realizada nos dias 18 e 19 de dezembro, na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, contará com 17 filmes de ficção, três documentários, dois stop motions e dois videoclipes. Todos os trabalhos foram dirigidos, produzidos e roteirizados pelos alunos do CRAV, que também se envolveram com direção de arte, foto, montagem e som.


O evento é dividido em quatro programas, sendo que no Programa 1 serão exibidos os trabalhos dos alunos do segundo ano do curso. Já os Programas 2, 3 e 4 serão dedicados a produções dos alunos do terceiro ano. Para o coordenador do CRAV, Milton do Prado, esse evento é muito importante para os alunos. “É um momento que coroa os trabalhos de todo um ano. Já acabaram as aulas, mas é sempre um momento muito esperado para o nosso curso”, explicou.


Com mais de 150 lugares, os estudantes vão assistir os trabalhos, no Cinemateca Capitólio, junto com um grande público. Depois de cada sessão, será realizado um debate com os alunos e um convidado especial. A entrada é franca e a programação completa pode ser conferida no Facebook.

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Música para (re) existir https://mescla.cc/2019/11/07/musica-para-re-existir/ https://mescla.cc/2019/11/07/musica-para-re-existir/#respond Thu, 07 Nov 2019 21:01:03 +0000 http://mescla.cc/?p=12100 A expressão Araí Ovy tem uma pronúncia complicada, algo como Araí Ouan, com mais som de U do que V, embora o V também esteja presente.  Eu, pelo menos, não me arrisco a falar sem um treino antes. Araí Ovy significa “céu azul”, e é o nome do grupo de músicos da aldeia Ka’aguy Porã, […]

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A expressão Araí Ovy tem uma pronúncia complicada, algo como Araí Ouan, com mais som de U do que V, embora o V também esteja presente.  Eu, pelo menos, não me arrisco a falar sem um treino antes. Araí Ovy significa “céu azul”, e é o nome do grupo de músicos da aldeia Ka’aguy Porã, formada por mais ou menos 80 pessoas. O Mescla foi até a aldeia em um dia em que o céu estava azul o suficiente para honrar o nome indígena, e acompanhou uma experiência incrível produzida pelos alunos do curso de Produção Fonográfica em parceria com a gravadora experimental Sigmund Records.

A viagem até a aldeia na cidade de Maquiné, na região litoral do Rio Grande do Sul, integra o cronograma de atividades extra curriculares dos alunos de Produção Fonográfica que também integram a gravadora experimental: um CD com músicas Mbya Guarani. No início do ano, os alunos entraram em contato com a aldeia e conversaram sobre as demandas. Para eles, era a oportunidade de produzir um material diferente e real; para os indígenas, a chance de preservar sua cultura e de poder vender sua música. 

No dia da visita que o Mescla acompanhou, estavam presentes Marina Tabajara Brilmann, estudante do 6° semestre de Produção Fonográfica; Chrístian Vaisz, professor do mesmo curso e coordenador de projetos na Kiko Ferraz Studios; e a esposa dele, Crislei Gerhardt Vaisz. Marina e Chrístian levaram as quatro músicas gravadas ali, com o coral, para a aldeia ouvir o trabalho final.

A produção e venda de artesanato é uma das fontes de renda na aldeia. (Foto: Bruna Lago)

Durante as primeiras gravações, surgiu a possibilidade de realizar um documentário, um desdobramento da necessidade de preservar a herança cultural em um outro formato. O pano de fundo da produção é o grupo musical Araí Ovy. O audiovisual trata de aspectos culturais, como a idealização que fazemos dos indígenas e a forma como eles se adaptam a outras culturas, característica que pode ser citada, erroneamente, como uma perda de identidade. Para essa produção, a parceria da vez foi com os alunos do Curso de Realização Audiovisual (CRAV), com direção de Pedro Valadão, aluno da Unisinos que concorreu com um curta no Festival de Cinema de Gramado.

A produção do CD

O coral Araí Ovy é formado por treze pessoas, na sua maioria crianças, e coordenado por Romário Benites da Silva, o professor dos costumes indígenas na aldeia. Dos treze,  quatro também tocam violão, violino, cajon — um instrumento de percussão feito de madeira — e um chocalho produzido com sementes secas. Diferente da cultura educacional não indígena, a cultura Mbya está pautada pela oralidade, contar histórias e cantar são parte dos ensinamentos. 

As diferenças culturais não atrapalham na compreensão dos sentimentos envolvidos, e a estudante Marina tem consciência de que a confiança que conseguiram não pode ser desperdiçada. “Desde o começo, nós queremos fazer algo e devolver para a aldeia. O que sempre acontece é que as pessoas só procuram os indígenas para conseguir alguma coisa, gravar, fazer entrevista, e eles não ganham nada com isso”, ressalta.

“As pessoas dizem: são índios, mas não parecem mais índios”. O estereótipo indígena é uma das abordagens do documentário produzido pelo CRAV. (Foto: Bruna Lago)

As primeiras visitas feitas pelos alunos no início do ano foram para conhecer a aldeia e as demandas, como as músicas preferidas por eles, e o processo de produção. Além destas, questões antropológicas voltadas à preservação e também outras legais,  como a forma de venda do CD. Uma das decisões tomadas, foi que as músicas seriam gravadas na aldeia, já que seria mais difícil deslocar as crianças até um estúdio em Porto Alegre. Aí entraram as técnicas fonográficas do curso, pois cada cada instrumento foi gravado separadamente, e o volume foi nivelado na mixagem para que ficasse o mais próximo possível do som que se ouve ao vivo. Para gravar os instrumentos, era necessário que os gravadores pudessem captar em quatro canais simultâneos. 

Outro aluno que esteve presente nas gravações foi Leonardo Reis, do curso de Produção Fonográfica. “Nos acostumamos a gravar em estúdio, então foi uma coisa inesperada, em um ambiente muito diferente. Tivemos que usar tudo que aprendemos, mas de uma forma nova, adaptando para a realidade deles”, explicou Leonardo. Um dos fatores que tiveram de levar em conta foi a falta de eletricidade na aldeia. “A luz começa no nascer do sol e termina quando ele se põe. Chegamos cedo, umas seis e meia da manhã, e usamos gravadores portáteis.”

Pronto para ser ouvido

No dia que acompanhei a visita, Romário reuniu alguns dos membros do grupo para ouvirem as músicas gravadas, mas nem todos puderam ir por causa das suas funções rotineiras. Ao redor do computador, usando fones de ouvido, eles ouviram atentamente, apreciando o resultado da parceria. As crianças se dividiam para ouvir suas próprias vozes, e batiam os pés no ritmo, acompanhando a música.

A maioria das crianças ainda não fala português, mas música e tecnologia trabalham lado a lado para transpor barreiras. (Foto: Bruna Lago)

Apesar de utilizarem a música como expressão, os Mbya Guarani são um povo silencioso. Suas reações são discretas, incluem pequenos sorrisos ou um tamborilar de dedos acompanhando a música. Para nós, acostumados a nos comunicarmos de maneira mais efusiva, traduzir os comportamentos deles enquanto ouviam as quatro faixas foi um desafio. No dia da gravação, com a grande quantidade de alunos e a movimentação, Marina lembra que a diferença era perceptível.

“Eles não falaram nada sobre isso, mas ficavam olhando”, contou a estudante, rindo um pouco com a lembrança. “Eles são muito silenciosos, se comunicam com olhares.” Têm até uma maneira de se referir a isso no modo de chamar os não indígenas: juruá, homem que fala muito.

Após escutar todo o trabalho, Romário tirou o fone, acenou com a cabeça e disse, mais com os olhos do que com palavras: ficou bom.

Agora, todo este trabalho poderá ser visto e ouvido pelo público em geral. O documentário e o CD serão lançados neste domingo, dia 10 de novembro, às 16h na Casa de Cultura Mário Quintana, com entrada gratuita, disponível para toda a comunidade. Os idealizadores também estarão arrecadando alimentos não perecíveis e agasalhos para a aldeia.

Simbolismo cultural e a adaptação nos costumes. (Foto: Bruna Lago)

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Trabalho digital em debate https://mescla.cc/2019/10/07/trabalho-digital-em-debate/ https://mescla.cc/2019/10/07/trabalho-digital-em-debate/#respond Mon, 07 Oct 2019 13:00:22 +0000 http://mescla.cc/?p=11663 O Instituto Humanitas Unisinos (IHU) promove nesta terça-feira (8/10), no campus Porto Alegre, a segunda exibição da Mostra de Filmes sobre Trabalho Digital. Com parceria do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos (PPGCom), o objetivo do evento é debater o mundo do trabalho dentro do cenário de plataformização dos negócios — também chamado de […]

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O Instituto Humanitas Unisinos (IHU) promove nesta terça-feira (8/10), no campus Porto Alegre, a segunda exibição da Mostra de Filmes sobre Trabalho Digital. Com parceria do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos (PPGCom), o objetivo do evento é debater o mundo do trabalho dentro do cenário de plataformização dos negócios — também chamado de “uberização”.

Dois filmes fora escolhidos para a mostra. Um deles é “GIG – A Uberização do Trabalho”, dirigido por Carlos Juliano Barros, documentário brasileiro vencedor do prêmio de melhor filme pelo público na Mostra Ecofalante de Cinema 2019. A obra trata sobre a prática do trabalho autônomo e suas precariedades. O segundo filme é o documentário alemão “The Cleaners”, que mostra um olhar crítico sobre a indústria virtual responsável por fazer limpezas digitais, apagando e controlando os conteúdos que ficam visíveis online.

Os documentários serão debatidos por Rafael Grohmann, professor do PPGCom da Unisinos. Doutor e mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), é também editor da revista E-Compós e integrante do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho da Escola de Comunicação e Artes da USP.

Gig economy

A “uberização” do trabalho, ou gig economy, vem crescendo na sociedade. Esse termo se refere ao trabalho temporário e sem vínculo empregatício. Atualmente, o fenômeno é muito inflado pelos trabalhos digitais, aqueles baseados em aplicativos de celular e plataformas na internet, como Uber e Airbnb. Essa é a área de estudo de Rafael. O professor, que ingressou há pouco tempo no PPGCom da Unisinos, define o trabalho digital de duas formas: uma mais ampla, pois, atualmente, não existe atividade que não envolva o trabalho digital, mesmo que indiretamente; e outra mais restrita, como os trabalhos mediados por plataformas. “Eu gosto dessas duas dimensões, porque a mais ampla entende o trabalho digital como o que a gente faz gratuitamente pelas plataformas”, explica.


Rafael teve a ideia de pesquisar o trabalho digital após a realização do mestrado, quando sentiu a necessidade de pensar em alternativas para o cenário. “Senti falta da comunicação estar presente no debate sobre a questão das plataformas de maneira geral, não só no que se chama área da comunicação, já que toda atividade de trabalho requer um processo comunicacional”, avalia o professor.

Rafael comandará o debate sobre a “uberização” do mercado de trabalho
Foto: Lisandra Steffen


A primeira exibição dos filmes ocorreu no dia 25 de setembro, na Unisinos São Leopoldo. Na oportunidade, Rafael abriu o debate explicando que não se pode comparar criticamente a expressão gig economy com o famoso “bico”, já que, no Brasil, o bico sempre foi a norma, e não a exceção. “Você encara o bico como um emprego, e as taxas altíssimas de desemprego registradas oficialmente começam a ser mascaradas com essa plataformização”, comenta o professor.

Se você se interessou pelo assunto, as inscrições para participar da Mostra de Filmes sobre Trabalho Digital podem ser feitas neste link.

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A poderosa indústria do tomate https://mescla.cc/2019/09/12/a-poderosa-industria-do-tomate/ https://mescla.cc/2019/09/12/a-poderosa-industria-do-tomate/#respond Thu, 12 Sep 2019 18:59:46 +0000 http://mescla.cc/?p=11268 Colaborador do jornal Le Monde Diplomatique, o jornalista francês Jean-Baptiste Malet esteve em Porto Alegre no último domingo, dia 8/9, para participar de um debate sobre o documentário “O Império do Ouro Vermelho”, do qual é autor. Está aproveitando a viagem, que terá paradas também em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Recife […]

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Colaborador do jornal Le Monde Diplomatique, o jornalista francês Jean-Baptiste Malet esteve em Porto Alegre no último domingo, dia 8/9, para participar de um debate sobre o documentário “O Império do Ouro Vermelho”, do qual é autor. Está aproveitando a viagem, que terá paradas também em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Recife e Fortaleza, para lançar o livro sobre o assunto, de mesmo nome, que originou o filme, publicado pela editora Vestígio e disponível para venda em todas as lojas.

O debate é uma realização da Aliança Francesa, que conta com ajuda da Lei de Incentivo à Cultura para promover os eventos pelo país. Na capital gaúcha, ainda contou com a parceria do Curso de Realização Audiovisual (Crav) da Unisinos. 

O coordenador do Curso de Realização Audiovisual, Milton do Prado, foi o responsável pela mediação durante o debate. (Imagem: Estephani Richter)

No documentário, o jornalista mostra as diversas formas de produção do tomate ao redor do mundo. Jean-Baptiste traz o contexto histórico do fruto, que hoje alcança o título de um dos produtos mais consumidos mundialmente. Logo nos primeiros minutos, o jornalista diz que a história a ser contada, na verdade, não é sobre esse alimento que consumimos diariamente, mas sim sobre o nosso mundo globalizado. Comportamento esse que acabou mudando os hábitos alimentares. 

O filme revela que os três maiores produtores de tomates, atualmente, são Estados Unidos, Itália e China. Esse último, aliás, chamou a atenção de Jean-Baptiste, pois é um país onde a população não consome o produto. Mesmo assim, está entre os mais poderosos produtores do planeta. Foi lá que o jornalista iniciou sua investigação. 

No país mais populoso do mundo, encontrou um general no comando das produções de tomate. Dali, o produto seguia para a Itália, onde era vendido. Na China, Jean-Baptiste também encontrou uma fábrica que adicionava fibra de soja na receita, sem especificar o ingrediente no rótulo, tornando, assim, o produto mais barato. Nos Estados Unidos, que possui máquinas mais automatizadas, um liberal é quem domina o mercado. Já na Itália, encontrou produções mais orgânicas, mas também uma espécie de trabalho escravo com imigrantes.

Toda essa investigação, que durou dois anos, resultou primeiro em uma grande reportagem, com denúncias e dados ilustrativos. Em 2017, o relato se transformou em livro e, pouco tempo depois, virou documentário. Segundo Milton do Prado, coordenador do Crav, o filme segue um formato bem jornalístico. “Na produção audiovisual, ele foca apenas na fabricação dos molhos de tomate, mas no livro, traz mais exemplos desse sistema, que visa mais produção do que o bem-estar humano”, avalia o professor. 

Durante o debate, Jean-Baptiste indicou qual seria a solução para o problema da produção, muitas vezes desumana, de tomates. É preciso, segundo ele, encontrar um modelo econômico que pense também no ser humano, colocando mais racionalidade no sistema produtivo. O jornalista explicou que sua intenção com a investigação não era encontrar uma solução, mas mostrar que o problema existe. “O trabalho do jornalista é questionar os poderosos, trazer informação de qualidade, para que as pessoas processem isso e encontrem uma solução”, disse. 

Jornalismo investigativo

Jean-Baptiste Malet é atualmente colaborador do Jornal Le Monde Diplomatique, e está no Brasil lançando seu livro. (Imagem: Estephani Richter)

Jean-Baptiste acredita que ainda existe espaço para o jornalismo investigativo, mas é preciso encontrar algum modelo econômico que possa financiá-lo. Os grandes donos de mídias, pensa o jornalista, veem isso como algo sensacionalista, o que não corresponde com a realidade. Além disso, é um nicho do jornalismo que demanda tempo, dedicação e muita leitura. Para Jean-Baptiste, é preciso ser idealista e não buscar o lucro financeiro, deixando de lado o mito do jornalista super-herói. “Nós precisamos do jornalismo investigativo, mas não devemos esperar que os poderosos das mídias nos deem esse lugar”, declarou.

É preciso denunciar a corrupção, na opinião de Jean-Baptiste. Mas o que muitos jornalistas fazem é transformar a denúncia em um espetáculo, sem deixar claro o funcionamento do sistema. “Até mesmo no Brasil, o jornalismo denuncia muito mais a corrupção política do que a industrial, e isso diz alguma coisa sobre o modo de se produzir notícias”, comentou. Com isso, os partidos políticos instrumentalizam a imprensa, criando apenas intrigas entre si. “Na França, é mesma coisa: o partido de direita e o de esquerda competem para ver qual é o mais corrupto. Com isso, a população associa política com corrupção, e passam a desejar uma figura forte e autoritária para comandar o país. E vocês conhecem a consequência disso”, enfatizou. 

A nova diretora da Aliança Francesa, Mélanie Le Bihan, acompanhou do documentário na Cinemateca Capitólio. (Imagem: Estephani Richter)

A diretora da Aliança Francesa, Mélanie Le Bihan, explica que a associação está sempre organizando eventos com diversos autores e artistas da francofonia. “Me chamou a atenção que, mesmo não sendo um filme em português ou inglês, teve um bom número de pessoas presentes”, disse Mélanie, que acredita que o conteúdo pode servir para todos pensarem a respeito. 

O pesquisador e neurocientista Jessie Gutierres participou do debate. Disse que gostou muito do documentário, principalmente por trazer uma realidade pouco comum no Brasil envolvendo a indústria. “Eu não imaginava que a produção de tomate era tão poderosa e tão corrupta, igual a tantas outras”, ponderou. Para ele, o filme deixou como reflexão a forma como desejamos que a humanidade evolua tecnologicamente no comércio neste século.

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Jornalista e documentarista francês participa de debate em Porto Alegre https://mescla.cc/2019/09/06/jornalista-investigativo-frances-participa-de-debate-em-porto-alegre/ https://mescla.cc/2019/09/06/jornalista-investigativo-frances-participa-de-debate-em-porto-alegre/#respond Fri, 06 Sep 2019 19:34:33 +0000 http://mescla.cc/?p=11220 O vencedor do prêmio Albert-Londres, o mais importante de jornalismo francês, estará apresentando seu documentário O Império do Ouro Vermelho, na capital. A obra de Jean-Baptiste Malet mostra os segredos da indústria alimentícia dos molhos de tomate no mundo.  Foi em 2007 que Jean-Baptiste Malet iniciou sua carreira como jornalista, com investigações para o jornal […]

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O vencedor do prêmio Albert-Londres, o mais importante de jornalismo francês, estará apresentando seu documentário O Império do Ouro Vermelho, na capital. A obra de Jean-Baptiste Malet mostra os segredos da indústria alimentícia dos molhos de tomate no mundo. 

Foi em 2007 que Jean-Baptiste Malet iniciou sua carreira como jornalista, com investigações para o jornal satírico La Revi. Em 2011, ele lançou seu primeiro livro “Atrás das linhas do Front”, que fala sobre o partido francês de extrema direita, Frente Nacional. De 2008 a 2014 passou por várias jornais. Neste período, o jornalista se candidatou para uma vaga no centro logístico da Amazon em Montélimar, onde investigou as regras as quais os funcionários da empresa estão sujeitos. Malet também realizou investigações sobre o chamado business da espiritualidade, ao publicar uma investigação no Le Monde Diplomatique sobre o guro indiano Mata Amritanandamayi.

O professor Milton Do Prado, que é o coordenador do Curso de Realização Audiovisual (CRAV) da Unisinos, vai ser o mediador do debate. Segundo ele, é importante que os alunos e professores da Indústria Criativa participem de eventos como este que trazem para a área o que está acontecendo no mundo. “A universidade não  deve ser fechada em si, por isso estamos sempre incentivando os alunos a participarem destes eventos”, afirma. 

O evento é uma parceria entre a Aliança Francesa e o CRAV, por meio da Lei de incentivo à Cultura e será realizado no próximo domingo, dia 8, na Cinemateca Capitólio, no Centro Histórico, às seis da tarde. O programa se inicia com o documentário e será seguido de debate. Você pode ver o trailer do filme aqui.

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Ditadura na tela: o ex-delegado do DOPs que hoje é pastor https://mescla.cc/2019/05/30/ex-delegado-do-dops-conta-sobre-ditadura/ https://mescla.cc/2019/05/30/ex-delegado-do-dops-conta-sobre-ditadura/#respond Thu, 30 May 2019 18:41:07 +0000 http://mescla.cc/?p=9215 É inusitado que um documentário sobre a ditadura militar no Brasil seja descrito como uma história de amor. Ainda assim, é dessa forma que a documentarista, pesquisadora e produtora audiovisual Beth Formaggini descreve o próprio trabalho. O filme conta a história de Cláudio Guerra – ex-delegado do Departamento da Ordem Política e Social (Dops) do […]

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É inusitado que um documentário sobre a ditadura militar no Brasil seja descrito como uma história de amor. Ainda assim, é dessa forma que a documentarista, pesquisadora e produtora audiovisual Beth Formaggini descreve o próprio trabalho. O filme conta a história de Cláudio Guerra – ex-delegado do Departamento da Ordem Política e Social (Dops) do Espírito Santo e ex-agente do Serviço Nacional de Informações (SNI).

Conhecido como Pastor Cláudio, nome que deu origem ao título do documentário, o agora bispo evangélico descreve com detalhes o trabalho que exerceu durante os anos de ditadura, em especial na “Operação Radar” (1973-1976). Entre as funções como delegado do Dops,  estava a de descartar corpos de torturados e desaparecidos políticos. Um dos métodos que o atual pastor contou ter utilizado foi a incineração.

Os detalhes vieram à tona em uma sala escura, lotada por quatro câmeras e um projetor. A entrevista para o documentário foi filmada e dirigida por Beth, porém conduzida por um pesquisador com experiência em tratamentos relacionados às vítimas de violência, sejam elas físicas ou psicológicas, especialista na escuta de pessoas, o psicólogo Eduardo Passos. Durante quatro horas, Cláudio Guerra relembrou os tempos do regime militar, revelou o paradeiro de vítimas da ditadura e disse ter encarado alguns dos fantasmas que o acompanham há mais de 40 anos.

Trailer do documentário “Pastor Cláudio” / Vídeo: Youtube

Mas afinal: por que uma história de amor?

A diretora do documentário Beth Formaggini, sem saber, teve o primeiro contato com a história do ex-delegado Guerra em 2007, quando produziu seu primeiro longa sobre a ditadura: “Memória para Uso Diário”. Foi com esse trabalho que ela conheceu Ivanilda da Silva Veloso, uma das mulheres que tiveram os seus maridos assassinados pelo regime militar.

Ivanilda era esposa de Itair José Veloso, com quem teve quatro filhos. No documentário,  Beth acompanha a viúva e sua incessante busca atrás de pistas que indicassem o paradeiro do marido desaparecido durante o AI 5. No decorrer dos 94 minutos de filme, surge uma possível explicação para o ocorrido: Itair teria sido preso pela Operação Radar.

A história de Ivanilda, mesmo após o documentário, não saiu dos pensamentos de Beth. Cinco anos após se conhecerem, a produtora encontrou uma segunda pista. O livro “Memórias de Uma Guerra Suja”, lançado em 2012 e escrito por Rogério Medeiros e Marcelo Netto, trazia algumas declarações de um ex-delegado do Dops que participara da Operação Radar: Cláudio Guerra.

“Eu procurei a viúva e falei para ela: olha, Ivanilda, eu li um livro que tem aqui um pastor que assassinou um membro do partido comunista que morreu na mesma operação que o teu marido. Aí eu falei para ela: vou procurar ele para ver se sabe alguma notícia do Itair ” – conta Beth.  

Pastor Cláudio observa imagem do partido comunista brasileiro
Pastor Cláudio durante a gravação do documentário em 2015 / Foto: Reprodução

A entrevista que originou o documentário foi feita após Beth captar recursos junto a editais e outras parcerias. A gravação entre o ex-delegado e o psicólogo foi feita em único dia, ao longo de quatro horas, em 2015. Nessa entrevista, o então agente foi questionado sobre o paradeiro de 19 vítimas – uma delas sendo Itair. Cláudio Guerra apresentou uma história distinta daquela tida, até então, como a oficial.

O material produzido em 2015 foi utilizado para fazer dois filmes. Um deles, um curta-metragem lançado no mesmo ano, chamado “Uma Família Ilustre”, revela a história da Operação Radar. O segundo filme, lançado em 2019, é o longa-metragem “Pastor Cláudio”.

A história da vítima 155  

Itair Velozo, uma das vítimas da ditadura

Sindicalista e integrante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Itair José Veloso nasceu em 1930 em Faria Lemos (MG). Tinha 45 anos quando desapareceu. Informações oficiais apontam que ele foi levado por agentes do DOI-CODI/SP, preso por praticar crimes de atividades subversivas em nome do PCB.

O nome de Itair consta nos registros da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Ele é o número 155 de uma lista com 362 vítimas. O texto da Comissão  traz o depoimento do sargento Marival Chaves em uma entrevista dada à revista Veja em 1992. Segundo o sargento, Itair teria morrido devido a tortura (choque térmico). O corpo, junto de outros, foi jogado da ponte do Rio Novo, em Avaré (SP).

A versão do agora pastor Cláudio foi outra. Na época em que era delegado do Dops e agente do SNI, Guerra foi um dos militares que participaram da Operação Radar – o movimento militar responsável pelo sequestro de Itair e outras 12 vítimas, todas do partido comunista brasileiro. Eles teriam sido torturados, mortos e levados até Guerra. O ex-delegado contou que incinerou as vítimas na Usina de Açúcar de Cambaíba, em Campos dos Goytacazes (RJ), cerca de 280km da capital do estado carioca. Apesar de ter tido a responsabilidade de dar destino aos corpos, Cláudio Guerra matou pelo menos uma das vítimas – Nestor Vera. Segundo o ex-delegado, Nestor encontrava-se extremamente ferido após uma sessão de tortura. O ex-delegado caracterizou o disparo contra a vítima como um “gesto de misericórdia”.

São duas versões para os mesmos assassinatos, mas as documentações oficiais, disponíveis no site da Comissão e publicados pelo Diário Oficial da União (DOU), não levam em conta as revelações do ex-agente do SNI, conhecidas desde 2012, a partir da investigação disponível no livro “Memórias de Uma Guerra Suja”. Nem Itair nem Nestor foram, oficialmente, queimado e morto pelo atual pastor.

Cláudio observa a viúva de Itair
Ivanilda da Silva Veloso, a viúva de Itair / Foto: Reprodução

A historiadora e o algoz

Visitar este período tão difícil da história brasileira não foi tarefa fácil para a documentarista. O trabalho de Beth teve duração de 1 ano e 4 horas. Um ano de preparação, quatro horas de entrevista. Cláudio Guerra, segundo Beth, aceitou prontamente ser entrevistado já no primeiro convite. A documentarista não se encontrou com o pastor antes ou depois do dia da gravação. O único contato presencial foi durante a gravação da entrevista, como diretora de cena:  “Estar trancada dentro de um estúdio com uma pessoa que revela ter cometido violações tão graves é uma experiência muito dolorosa, muito difícil”, revelou a produtora.

Apesar das dificuldades emocionais de voltar ao passado, Beth, que é historiadora de formação,  entende ser fundamental revisitarmos o regime militar de nosso país. Para ela, conhecer a história é uma forma de evitar que graves violações, como a tortura, se repitam no presente.

Pastor Cláudio sentado. Ao fundo, imagens de vítimas da ditadura.
Ex-delegado do Dops, Cláudio Guerra explica o assassinato de Nestor Vera / Foto: Reprodução

Beth vê necessidade de debater o período de 21 anos (1964 – 1985) também em função dos movimentos que pedem pelo retorno do regime militar. “Acredito que grande parte das pessoas que pedem a volta da ditadura, é pura falta de informação. Esse filme vem para ajudar as pessoas a se informarem e a debater a história. E isso não é crime”, argumentou.

Um documentário sobre ditadura: da teoria à prática

O “Pastor Cláudio” foi financeiramente produzido pouco a pouco. Isso explica o gap entre o lançamento do curta e a estreia do longa. Foram quatro anos de trabalho para finalizar a obra. Tudo começou quando a historiadora ganhou dois editais da RioFilme. O dinheiro desses editais somado a parcerias comerciais mais finanças da 4Ventos (produtora de Beth) bancou a história do bispo evangélico.

Equipamentos utilizados por Beth / Ilustração: Acrides Júnior

Lá no site da 4Ventos, você pode assistir de graça dois dos documentários sobre a ditadura militar: “Memória para Uso Diário” e “Uma Família Ilustre”.

Fontes de inspiração

De todo o material pesquisado, Beth destacou alguns livros e documentários que a auxiliaram durante essa jornada. No card abaixo, destacamos alguns deles:

Foto 1 – Livro “A banalidade do Mal”;
Foto 2 – Todos os documentos e vídeos disponibilizados no site da Comissão da Verdade;
Foto 3 – Livro “Como filmar o inimigo”;
Foto 4 – Documentários como “A Imagem que Falta” e “Duch, o mestre das forjas do inferno”;

Ilustração: Natan Cauduro

Essa aqui é a equipe responsável pela produção do documentário:

Equipe que trabalhou na produção do documentário / Ilustração: Natan Cauduro

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Oficina de Roteiro de Cinema em Porto Alegre https://mescla.cc/2018/12/18/oficina-de-roteiro-de-cinema-em-porto-alegre/ https://mescla.cc/2018/12/18/oficina-de-roteiro-de-cinema-em-porto-alegre/#respond Tue, 18 Dec 2018 19:42:30 +0000 http://mescla.cc/?p=9054 Quer aprender a fazer roteiros para seriados, curtas e longas-metragens? Em janeiro, Marcelo Cortez, formado em Letras pela UFRGS, ministrará, na capital gaúcha, a Oficina de Roteiro de Cinema. Cortez estudou roteiro audiovisual na Vancouver Film School e, hoje, trabalha como tradutor, escritor e roteirista para televisão, cinema e videogame.  A oficina irá contar com sete encontros presenciais, sempre nas terças-feiras, à noite. Os participantes terão […]

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Quer aprender a fazer roteiros para seriados, curtas e longas-metragens? Em janeiro, Marcelo Cortez, formado em Letras pela UFRGS, ministrará, na capital gaúcha, a Oficina de Roteiro de Cinema. Cortez estudou roteiro audiovisual na Vancouver Film School e, hoje, trabalha como tradutor, escritor e roteirista para televisão, cinema e videogame. 

A oficina irá contar com sete encontros presenciais, sempre nas terças-feiras, à noite. Os participantes terão aulas expositivas, leitura de roteiros, análises de filmes, estudo de textos e acompanhamento individual no desenvolvimento de um projeto. 

As aulas irão ocorrer de 8 de janeiro a 26 de fevereiro no Centro Cultural CEEE Érico Veríssimo (Rua dos Andradas, 1223). O valor do curso à vista é de R$ 460. Os inscritos irão receber certificado e uma apostila em PDF. Mais informações podem ser obtidas no site da oficina. 

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