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Antes de continuar, aperte o play para ouvir duas playlists: esta aqui (Spotify) e esta outra aqui (YouTube), elaboradas especificamente para ser apreciada em conjunto com a leitura da HQ, preparadas pelo próprio Christian. Assim, você pode entrar no clima e já entender um pouco o contexto da história.
A edição da HQ conta com a coautoria de Guilherme Smee, além da arte de Danverdura na história principal, tirinhas especiais que utilizam o universo ficcional do Boy Magya, desenhadas por Arthur Pandeki e Renato Britto, prefácio de Rita von Hunty e posfácio da deputada federal e ativista Erika Hilton, sendo todos esses artistas e personalidades LGBTQIA+. Todos foram escolhidos, segundo Christian, para visibilizar o trabalho de pessoas que têm a mesma proposta que os autores.
“Boy Magya contra o monstro do armário” segue as aventuras do Mario. Ele é, assim como o Chris, um jovem gaúcho. A personalidade do protagonista se baseou claramente na experiência pessoal do autor. “O que é ser um jovem gay afeminado que cresceu no Brasil dos anos 90 e 2000? Esse é o contexto geracional em que eu estou inserido. Nós queríamos que ele não fosse um super-herói totalmente magérrimo ou malhado. Ele tem um corpo que pode ser lido como padrão, mas escapa um pouco ao padrão das histórias em quadrinhos”, comenta Christian.
Diferentemente de seu criador, o personagem se muda para outro Estado do Brasil, Recife, porque é lá, mais especificamente na Universidade Federal de Pernambuco, que existe um dos únicos programas de pós-graduação do país especializados em Arqueologia, área de pesquisa do Boy Magya. “A maior parte das histórias ficcionais brasileiras se passa no eixo Rio de Janeiro-São Paulo, então a gente quis descentralizar, indo para a Região Nordeste. E nada impede que, no futuro, como pesquisador, o Mario precise viajar para outras partes do país”.
Em uma de suas expedições, o herói, que antes era uma pessoa comum, descobre um artefato embaixo de um armário, escondido por bruxas, a pedido da deusa Íris, mensageira da felicidade, da “força colorida”. É a partir desse artefato que o Boy Magya surge e extrai seus poderes. Esses se manifestam com a alegria: quanto mais feliz o Mario está, mais forte ele fica e mais coisas ele consegue materializar apenas com o poder da mente. Mas o inimigo de Íris também possui um cristal, achado pelo coronel Ostra, que ativa os poderes do gatilho e enfraquecem Mario.

Chris conta que sempre foi um sonho dele escrever uma história ficcional, desde que começou a se constituir como um sujeito pensante, em contato com a literatura, principalmente com os livros do Harry Potter e, no universo dos quadrinhos, o Homem Aranha.
“Quando entrei na graduação, passei a fazer parte de um grupo de pesquisa chamado LIC (Laboratório de Investigação do Ciberacontecimento). Lá, eu saciei essa vontade da escrita, mas era um estilo totalmente diferente. Produzi muitos artigos científicos, tanto no mestrado quanto no doutorado”, explica.
“Nessa trajetória, comecei a estudar questões de gênero, sexualidade e cultura pop. Em decorrência de conhecer o Gui Smee, que é o coautor do Boy Magya, nessa caminhada acadêmica, eu comecei a conhecer um pouco da produção de quadrinhos”. Christian desenvolveu a história e os acontecimentos, mas quem o ajudou e ensinou a transformar tudo isso em um roteiro para HQ foi o Guilherme.
“Ele orientou muito na escrita, e tem muito dele no Boy Magya também, já que ele trouxe várias ideias novas. O Gui começou a me estimular em relação a talvez produzir um quadrinho, com uma história que eu tivesse interesse. E daí surgiu a ideia de escrever o Boy Magya, que visa ser uma história que traz vários elementos da teoria queer, dos estudos de música pop, de gênero e sexualidade. Então, tem muito dessa história científica. Eu entendo que é uma forma até de popularizar essas questões de gênero e sexualidade a partir dessa HQ”, explica Christian.

A HQ está repleta de referências. Praticamente em cada página há uma nova menção a algum elemento da cultura pop ou do mundo LGBT. Christian diz que “a intenção foi trazer essa potência, fruição que muitas pessoas LGBT encontram na música pop, na relação com o pop, como esse pop pode ser um ruído na norma também. Um exemplo são os fãs da Lady Gaga e da Madonna, que foram acolhidos na epidemia de HIV e AIDS”.
“Todas as vezes que uma música toca na história, isso acaba dialogando muito com o meu imaginário de potência, do que é um superpoder queer. Um dos meus momentos preferidos de referência é quando o Boy Magya consegue materializar uma nave da Xuxa, e se despede mandando ‘beijinho, beijinho, tchau, tchau’”.

“Infelizmente, nós, pessoas LGBTQIA+, precisamos ser um pouco super-heroínas para viver nesse contexto em que estamos. Então, uma das questões que eu quis trabalhar, e que eu acho que é central nessa HQ, foi a da saúde mental. É importante falarmos sobre isso, porque jovens LGBT tem cinco vezes mais chances de cometerem suicídio do que jovens cis heterossexuais. A gente está mais propenso a problemas de saúde mental em decorrência dessa cultura tão LGBTfóbica. Muitos elementos que dialogam com o que eu e amigos e amigas já passaram estão nessa história”, revela Christian.
Além da representatividade que a história traz e as questões sobre saúde mental, outra temática significativa é o poder da força coletiva. “Nós não precisamos enfrentar nada sozinhos. Podemos constituir famílias. É o que a RuPaul (criadora de RuPaul’s Drag Race) já nos dizia: nós, pessoas queer, podemos escolher nossas famílias. A história tem um pouco dessa mensagem, que vai continuar sendo desenvolvida ao longo das próximas edições.”
A impressão do livro ocorreu graças a uma campanha de financiamento coletivo, que acabou atingindo mais de 150% da meta inicial, fato que já garantiu a sequência da HQ. Quem recebeu os exemplares foram as pessoas que apoiaram financeiramente o projeto. E, de acordo com Chris, a recepção tem sido muito positiva: “O público está se identificando com a história. Recebo feedbacks de pessoas se emocionando, chorando, curiosas em relação à sequência”.

“Boy Magya contra o monstro do armário” pode ser adquirida diretamente com o autor. “Eu anuncio chamadas para os seguidores poderem adquirir a HQ. Com isso, já foram praticamente 1 mil HQs vendidas”. As chamadas acontecem tanto em seu perfil pessoal quanto no da Diversidade Nerd, no Instagram, TikTok e Twitter. Todos os links podem ser acessados aqui.
Há, inclusive, algumas livrarias em São Paulo que possuem o livro disponível. Para quem ficou interessado e não quer esperar para conferir, a história está disponibilizada também na versão digital, que, assim como a versão física, pode ser adquirida com Christian.
A próxima aventura do Boy Magya já está em fase de produção! E tem até título: “Boy Magya: Eva x Angélico”. “Ainda tem muita coisa para conhecermos da personalidade do Mario. A próxima HQ, como nome já dá a entender, tem como temática central o fundamentalismo religioso, o ataque de pessoas religiosas extremistas contra pessoas LGBT e as fake news envolvendo isso. Também a perseguição a drag queens, a pessoas trans, entre outras coisas. Enfim, será bem polêmica. Babado, gritaria e confusão (risos).”
Chris ainda deu mais detalhes: “Temos toda uma trajetória para o Boy Magya e até para equipes que podem surgir da relação com ele. Tudo vai depender do retorno do público, se as pessoas tiverem interesse. E estamos abertos a possibilidades, né? É difícil a cena independente de quadrinhos no Brasil, mas a gente está tendo um excelente retorno, sabe? Estou super feliz”. A campanha para a continuação já está disponível no Catarse. Apoie você também!

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“Letras insubordinadas” está disponível como um encarte da Revista Escape, inaugurando uma série de cadernos que serão publicados em formato de livro. A obra, que estreia Mariléia no mundo literário, é composta pela seleção de seus contos favoritos, veiculados originalmente no periódico Visão do Vale. O convite para publicar o livro veio de Daniel, que já tinha uma relação com o trabalho textual da autora, uma vez que é o responsável pela produção do site dela.

Com histórias inspiradas pela vida cotidiana, o livro, para Mariléia, carrega um significado: “A mensagem, se é que há uma, é essa: a vida comezinha é um prato cheio para a arte”, sublinha. Os contos abrangem da realidade vista pelos olhos de Marinalva, uma galinha especial, até uma travessia carregada de esperança, todos os textos abordando um aspecto diferente das narrativas que cercam a existência costumeira.
Dentre os contos favoritos escolhidos para o livro, a escritora não deixa de ter seus queridinhos, da mesma forma que um leitor costuma ter. O que ela mais gostou do resultado foi “O professor de Português”, que trata sobre a visão de uma aluna com um crush em seu professor. Mariléia acredita ter alcançado nesse texto uma qualidade de escrita mais elaborada. Entretanto, a história que mais estimou contar foi “Quarentena”. “O conto fala de um grupo de idosos que teve que deixar de se encontrar para jogar canastra durante a pandemia. Eu gostei de escrever porque eu contei a história do meu avô nesta quarentena”, comenta a autora.
Entre os contos, por mais diversos que sejam entre si, é possível encontrar duas coisas em comum: a comédia e o feminino. Mariléia diz que a comédia é uma forma de explorar o lado risível da vida, mesmo na tragédia, como forma de expurgar, se desfazer dos sentimentos ruins. Sobre o feminino, é o resultado da maneira que a escritora enxerga sua área.
“Eu trago muitas personagens femininas e busco, com o meu olhar informado, desconstruir estereótipos de gênero e tantos outros. Penso que a literatura é justamente essa possibilidade de alargar horizontes sobre a vida, sobre as identidades, e possibilidades de existir”, observa Mariléia, que leva essa filosofia para outros aspectos de sua vida. Ela é pesquisadora na área de gênero e identidades e uma orgulhosa ativista feminista. Ela, inclusive, faz palestras sobre a importância de falar sobre gênero como forma de diminuir as desigualdades.
Mariléia, que está muito feliz com essa publicação – para ela, significa visibilidade e reconhecimento –, está recebendo convites para realizar workshops sobre escrita. Além disso, pessoas ativamente comentam sobre sua obra. Mesmo assim, segundo ela, isso não significa que já alcançou o que queria. Na verdade, esse foi só o começo. A autora já concluiu seu próximo livro, produzido durante a pandemia.
“Esse período me trouxe mais introspecção, recolhimento, o que não significa, necessariamente, paz, pois, para mim, escrever é um processo de muita angústia, muitas vezes”, explica. Para ela, a única maneira de lidar com essa angústia é escrevendo. Essa ação não é opcional, mas sim uma “necessidade de alma”.
Seu próximo livro, que tem o título mantido em segredo, vai envolver magia. Narrará a história de uma ordem antiga de curandeiras e a ligação que ela tem com uma herança deixada por uma benzedeira à sua neta, desenrolando, assim, uma trama repleta de mistérios. O romance, que está em fase de revisão, foi finalizado em maio deste ano, e será publicado até o primeiro semestre de 2022.
Enquanto esperamos pelo novo lançamento da autora, é possível conferir mais de seus trabalhos através de outras fontes. “Sugiro o conto “O diabo mora comigo”, que foi premiado e publicado em uma coletânea portuguesa chamada Mulherio das Letras. Fala sobre abuso sexual, um tema pesado”. A escritora também tem uma grande seleção de obras em seu blog.
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Francine e Mariana possuem uma década de experiência em assessoria de imprensa. Elas se conheceram em 2016, quando trabalhavam na agência PlayPress, em Porto Alegre. As amigas perceberam, ao avaliar suas trajetórias, que precisavam dar mais sentido ao que viam fazendo na comunicação. “Optei pelo jornalismo porque sempre acreditei que a comunicação pode mudar o mundo. O jornalismo é feito para dar voz para quem não tem”, acredita Francine.
Um caminho cheio de potencialidades, uma grande parceria, um percurso de engajamento nas causas sociais e uma bagagem de estudos sobre diversidade e gênero. Com essas qualidades acumuladas ao longo da carreira, as jornalistas começaram a pensar, desde o final do ano passado, em como colocar em prática todo esse conhecimento e vontade de ajudar a mudar o mundo. Assim, nasceu, em 27 de abril deste ano, a Alteritat, uma consultoria de diversidade.
Uma das funções da comunicação é ampliar o que está em pauta na sociedade. Para Francine e Mariana, uma dessas pautas é a importância de mostrar que a pluralidade é necessária nos mais variados locais de trabalho. As jornalistas citam a filósofa e pesquisadora Djamila Ribeiro. Ela acredita que a diversidade contribui para um ambiente mais democrático e produtivo, além de estimular a criatividade e dar voz às pluralidades e potencialidades.
Alguns assuntos ainda são difíceis de serem tratados em certos espaços. Muitas vezes, há a falta de habilidade ou conhecimento para iniciar um diálogo ou para implementar ideias, principalmente se envolvem temas que geram polêmicas na sociedade. “São justamente os assuntos polêmicos os que mais precisam ser debatidos, os mais urgentes”, observa Francine. Segundo ela, há um consenso de que esse tipo de serviço estará cada vez mais presente nas empresas. É uma maneira de vencer as formas de negar o avanço do mundo e engajar as pessoas nas pautas sociais, uma vez que, além de todo progresso sobre esse debate, grandes empresas internacionais já vêm implementando isso.
Há consultorias de diversidade atuando em todo o Brasil. Elas realizam um diagnóstico em uma empresa ou instituição para verificar como andam os processos de comunicação e diversidade. Assim, será possível saber de onde devem partir os melhoramentos. Uma análise dos gestores e demais funcionários ajuda a consultoria a perceber onde a pluralidade está presente ou ausente. Dessa forma, as diversidades são melhor integradas no ambiente de trabalho. Nesse processo, a importância da comunicação é colocada em destaque. “Nós, como jornalistas, queremos não só comunicar para o mundo externo, para as redes, mas também para os próprios funcionários, para que assim eles se sintam acolhidos e valorizados”, enfatiza Mariana.
A Alteritat conta com o apoio de duas psicólogas, uma pedagoga, uma advogada, um doutor em comunicação com foco em conteúdo digital e conteúdo nerd, além de uma consultora de negócios. “Essas parcerias surgiram para termos insumo e conhecimento para nos auxiliarem na hora de elaborar ações”, conta Mariana.

Hoje, Francine também trabalha na Faro Comunicação, onde a Alteritat está incubada, e Mariana é coordenadora de Comunicação da Fundação Pão dos Pobres. De 2016 para cá, quando se formou a amizade, além da PlayPress e da iniciativa de criar a Alteritat, elas trabalharam juntas na Fatto Comunicação. Além das atividades profissionais, as duas acharam tempo para investir nos estudos. Francine tem mestrado em Comunicação pela Unisinos, e Mariana tem especialização em Gestão de Crises, Marketing Digital e Comunicação Institucional. “A Alteritat é isso: usar nossa formação na comunicação para comunicar de uma forma que a gente possa fazer uma mudança”, acredita Francine.
Curtiu o assunto? Seguem alguns links e leituras bacanas:
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