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]]>É através dessa linha do tempo que descobrimos alguns detalhes curiosos sobre o famoso cantor. Por exemplo, que ele sempre causou “problemas” nas instituições onde passava. Desde os 5 anos, estava mais interessado em cantarolar e batucar do que prestar atenção nas aulas. Seja na escola Liceu Porto-Alegrense, seja no Exército. Aliás, foi lá que, a partir dos 15 anos, o então soldado Rodrigues recebeu diversas punições por indisciplina. Para protestar contra a má qualidade da comida do local, a saída foi, claro, compor um samba.

A Ilhota
Lupi, como era chamado pelos íntimos, amigos próximos e admiradores, cresceu na Ilhota, uma ilha que existiu no século passado em Porto Alegre. Ficava localizada na área que hoje vai da Praça Garibaldi até a Avenida Ipiranga, se espalhando em direção à Rua Lima e Silva por um lado e, pelo outro, até a Avenida Getúlio Vargas. A região abrigava pessoas humildes, em sua maioria pretas. Como era um ambiente alvo de muitos preconceitos e isolamento social, os moradores viam na música uma forma de tornar mais leve a vivência naquele pedacinho da cidade. Então, essa experiência de morar na Ilhota e ter contato com o mundo boêmio desde sempre influenciou muito a obra de Lupicínio.
Segundo informações da exposição, a Ilhota foi, aos poucos, sofrendo com um processo de gentrificação – mudança de paisagens urbanas em áreas populares que apresentam sinais de degradação física, transformadas por obras públicas em localidades mais bem estruturadas, que passam a ser ocupadas por grupos mais abastados –, onde os moradores foram sendo removidos. Muitos recorreram ao bairro Restinga, dezenas de quilômetros distante. Foi uma tentativa de “branqueamento” da cidade. Portanto, essa é uma parte importante da história não só de Lupicínio Rodrigues, mas da capital gaúcha também.
“Ilhota, minha favela moderna,
Onde a vida na taberna
É das melhores que há.
Ilhota, arrebalde de enchente
E que nem assim a gente
Pensa em se mudar de lá (…)
Ilhota, a tua simplicidade
É que dá felicidade
Para o teu pobre morador.”
(Composição de Lupicínio em 1937)
Vários Lupis
Se vê, através da exposição, que Lupicínio teve diversas faces. Além de cantor e compositor, também foi
O que muita gente não sabe é que Lupi foi o autor do Hino do Grêmio. Ele era um apaixonado por futebol e, mais especificamente, pelo tricolor. Como torcedor, acompanhou assiduamente no estádio os jogos do clube do seu coração, assim como muitos outros gaúchos. Chegou a jogar nos dois times amadores da Ilhota: Lagarto e Ferreira.
Em 1953, uma greve de motoristas e cobradores de bondes e ônibus dificultou o deslocamento da torcida para um jogo do time. A solução foi caminhar até o Estádio da Baixada. Foi assim que surgiu o primeiro verso do hino: “Até a pé nós iremos”.

Lupi e o rádio
Lupicínio viveu o seu auge na época de ouro do rádio, entre 1930 e 1960, quando esse era o grande veículo de comunicação no Brasil. Vários artistas gravaram e regravaram composições do músico nesse período.
A televisão toma o lugar do rádio na preferência popular a partir da década de 1960, momento em que também se solidificaram os gêneros musicais da Jovem Guarda, Bossa Nova e do rock como os preferidos dos jovens. O estilo musical de Lupi parecia não combinar mais com esses novos tempos. Apesar das gravações de suas músicas continuarem, é um período de relativo “esquecimento” de Lupi pela mídia.
Falando mais sobre as gravações por outros músicos, a obra de Lupi foi redescoberta e interpretada por vários cantores consagrados a partir da década de 1950 até os dias atuais. A exposição traz um apanhado dessas regravações e exibe um mural cheio das centenas de nomes que ajudaram a popularizar as canções. Além do mural, são disponibilizadas apresentações de diferentes épocas que relembram a obra de Lupicínio, como interpretações de Elza Soares, Gilberto Gil, Andréa Cavalheiro, Glau Barros e Pamela Amaro.

Ao final da trilha pela vida de Lupicínio, a exposição agracia o público com um show simulando uma performance ao vivo através de um holograma. Tudo isso com um ambiente muito bem preparado representando um bar, local que Lupicínio adorava. Tem até cardápio disponível. Mas não é um cardápio comum. Ao abri-lo, se vê, na verdade, um “menu dos amigos”, com nomes de diversos parceiros que passaram pela vida de Lupi. É uma forma singela de valorizar essas pessoas que se fizeram presentes e foram importantes para ele.
Nota do repórter: é muito indicado que os leitores desta reportagem façam uma visita à exposição, pois não há foto ou texto capaz de expressar ou chegar perto da experiência de estar no museu sentindo todas as homenagens e tributos que relatam a vida e a obra de Lupicínio Rodrigues. Uma ilustre figura da música nacional, muitas vezes esquecida pelas gerações mais novas. Aproveite até o dia 23 de julho para ir até o Farol Santander. Vale a pena conferir!
Você pode ter um gostinho e se preparar para a exposição ouvindo a playlist com os maiores sucessos regravados de Lupicínio Rodrigues e uma coletânea de músicas dele organizada em 2011.
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Os destaques da entrevista estão disponíveis também na revista Fronteiras do Pensamento, encartada na edição deste sábado (16), no jornal Zero Hora.
Gustavo Borba – Em sua obra Smart, publicada em 2015, você afirmou que um fenômeno mainstream, muito popular em uma rede global e conectada, ainda não produzia uma conversa global significativa, pois a internet não teria limites, mas conta com múltiplas fronteiras. Com as novas tecnologias e as crises ideológicas que vivemos nos últimos cinco anos, você acha que alguma coisa mudou na sua conclusão?
Frédéric Martel – Talvez precisemos atualizar um pouco o que eu disse. Meu ponto de vista tanto em Mainstream quanto em Smart era o seguinte: existe uma tecnologia global, na qual todo mundo usa Facebook – exceto na China e talvez na Rússia e no Irã –, todo mundo está conectado à internet e compartilha algum conteúdo, da Beyoncé ao Ricky Martin. Então, não nego a importância desse tipo de controle da globalização. Ao mesmo tempo, em todos os lugares nos quais eu estive fisicamente identifiquei que havia conteúdo regional de um grande grupo – como a TV Globo ou a TV Record no Brasil –, e essas corporações de telecomunicações são nacionais: você tem muita produção regional, como música e livros locais. Então é mais ou menos assim: nós temos duas culturas. Existe um tipo mainstream global – que é, a propósito, diferente em cada lugar, mas também funciona como um conteúdo global – e outro nacional, regional e local. Então, a ideia de a globalização ser culturalmente um tipo de uniformização não é inteiramente verdadeira. É claro, eu não subestimo o poder das grandes corporações, dos grandes estúdios, como a Disney, a Universal, a Paramount. Mas existe uma tentativa de prover a tecnologia, o software, e não necessariamente o conteúdo. Basicamente, Facebook, Twitter e Google não são provedores de nenhum conteúdo. E os meus estudos mostram que é o conteúdo que você quer, e de um tipo bem local. Se você está no Facebook, por que você não fala com pessoas que estão na Coreia do Sul, quando você está no Brasil ou na França? Você pode compartilhar o que você quiser com qualquer pessoa de qualquer lugar. Mas você não faz isso porque não fala a mesma língua, não compartilha os mesmos interesses, e também porque está em Paris ou no Rio de Janeiro e quer se conectar com seus amigos. Se você for a um restaurante chinês ou japonês, vai querer comer na sua rua, não no Japão. Então, é por isso que precisamos considerar que a globalização não é uma uniformização, pelo menos em um sentido geral, mesmo que possua alguns elementos disso.
Borba – Gostaria de abordar um dos seus conceitos que considero mais interessantes, a ideia da curadoria inteligente – a conexão entre curadoria e algoritmos. Você poderia explicar como poderíamos entendê-lo em 2022?
Martel – Muitas pessoas acreditam que no futuro o controle e as recomendações serão baseados em algoritmos pela máquina, basicamente. Alguns pensam que você só precisa de criticismo humano, aquela resenha tradicional de um livro, de uma música, de um filme no jornal. Eu penso que estão certos e errados. Creio que nós precisamos de uma mistura, porque hoje na Netflix você tem centenas de filmes para assistir; no YouTube, milhares de vídeos sendo postados a cada hora; e no Spotify, milhões de músicas novas toda semana. Então, o conteúdo é tão amplo que precisamos de algoritmos que façam a seleção, mas nós também precisamos de humanos que façam as adições à máquina. É por isso que a “curadoria inteligente” é a soma da inteligência do algoritmo e da máquina com a curadoria humana, e você terá os dois podendo oferecer recomendações muito boas. A propósito, já vemos isso em algumas playlists no Spotify, por exemplo, feitas por humanos e pela máquina, as chamadas “Descobertas da Semana”. Ou no Facebook, quando você curte postagens e mensagens fazendo uma validação humana do conteúdo.
Borba – Aproveitando, permita-me encaixar aqui o que aconteceu em maio deste ano, quando muitos artistas usaram suas redes sociais para reclamar sobre as gravadoras e seus pedidos de conteúdo mainstream para redes sociais específicas. De alguma forma, a internet torna artistas e músicos livres para celebrar e compartilhar sua arte, mas, por outro lado, eles precisam atender a certos padrões da indústria. Como você vê esse processo dialético hoje em dia na internet?
Martel – Veja, em primeiro lugar, se você observar os conteúdos que se tornaram mainstream eles frequentemente são profissionais, não iniciantes. Às vezes você pode ter um cara novo que não é completamente profissional, mas você verá o quão rápido ele se tornará, e esse é um processo tradicional. O mainstream do início é algo independente, você pode se tornar uma superestrela sendo ninguém, o que era bem difícil antes da internet. Mas, depois de um tempo, se profissionaliza. Existem muitos problemas nisso, mas um elemento positivo é que você pode criar sua comunidade. É como uma bolha no nosso próprio mundo, você talvez queira estar em contato e discutindo com pessoas que jogam o mesmo jogo que você. Então, eu não estou muito convencido da bolha como um problema, porque penso que, em primeiro lugar, a bolha não existe, é você que vive a sua bolha.
Borba – Você levantou a hipótese de que estamos diante de uma mudança na civilização, provocada pela transformação da cultura e da informação na era da reprodução digital. E ouvimos hoje ao mesmo tempo a promessa de metaversos e a tendência de uma produção de cultura mais lenta, feita para não durar tecnologicamente neste mundo pós-pandemia. O que você teria a comentar sobre esses dois extremos?
Martel – É como você está dizendo: existem dois extremos. Não sou tecnofóbico ou tecno-ingênuo! Penso que a verdade se encontra entre os dois. Eu diria que a transição digital, adicionada à transição ecológica, são as duas principais evoluções do nosso século. O século do verde digital. Eu gosto de desacelerar – por exemplo, nesse verão vou dar um tempo das minhas contas no Facebook, Twitter, Instagram e LinkedIn. De qualquer forma, não estou julgando a coisa em si como boa ou ruim: apenas é o que é. Nós adentramos o século digital e não penso que possamos ou devamos voltar atrás. Os que criticam os GAFAs [acrônimo de “Google Amazon Facebook Apple”] serão os primeiros a ficarem chateados se os mecanismos de busca ou Google Maps pararem de existir; se tiverem que entrar em uma fila para comprar uma passagem de trem ou fazer uma reserva de avião em uma agência de viagens. Como [o personagem] Don Draper diz em Mad Men – “Escute, eu tenho uma vida, e ela anda em uma única direção: para frente”.
Borba – Você diz que as indústrias de conteúdo parecem preceder movimentos profundos que logo acabam envolvendo a economia como um todo… O que você acredita que elas estariam “antecipando” com seus movimentos nesta segunda década do século 21?
Martel – As pessoas da nossa geração não poderiam adivinhar, sonhar ou temer uma invenção como o smartphone, e é incrível quando você pensa sobre isso. Então, é claro que existe o metaverso, a inteligência artificial, a nuvem… Essa nuvem está conectada ao big data, que mudou o jogo, mas nós também temos muito mais material do que tínhamos sobre a internet. Em termos de regulação, a Europa é líder do setor. A propósito, Dilma Rousseff há muito tempo dizia que precisávamos regular a internet e ela aventou a necessidade de uma internet brasileira. Na época, todos pensaram que ela era louca mas, atualmente, vê-se que ela estava certa por conta do processo de estarmos geolocalizados na internet. Então, você continua globalizado, conectado; mas localizado em um campo ou lugar em especial. A sensação de lugar é algo importante, é até mais importante do que onde você está na internet, e também mais do que o metaverso, provavelmente. Por quê? Porque você vive em algum lugar. Você precisa das coisas de onde você vive. Nós continuamos humanos e ainda que adoremos estar em uma conversação global, não faz sentido se não estivermos em algum lugar específico. A ideia das pessoas vivendo em qualquer lugar… isso não existe. Mesmo com um comissário de bordo mundial, no fim, você volta a algum lugar. E é por isso que falam português no Brasil, porque é um país com história, idioma, território. E isso significa que você não é como os argentinos ou os persas, mesmo que possa dialogar com eles. Esse é o lado bom da internet: você está mais perto, mas você também é você mesmo.
Borba – Aproveitando, vamos falar um pouco sobre o Brasil… Você comentou que de todos os países emergentes, o Brasil foi um dos que considerou mais empolgantes em termos de promessa de uma economia criativa em desenvolvimento. Você ainda está apostando no país hoje? Você acha que desenvolvemos competências para usar a internet como ferramenta inclusiva para a educação e no combate à desigualdade?
Martel – Quando eu estiver em São Paulo e Porto Alegre em agosto trarei uma atualização sobre este tema, mas eu penso que esse tipo de territorialização de conteúdo, especialmente na internet, existia ainda mais do que antes. E nós ainda vemos um tipo de reterritorialização da internet. É claro que na Rússia isso está sendo fechado, eu diria a “borda da internet”, como na China e no Irã, mas mesmo nos países que não possuem um regime ditatorial – e o Brasil é um bom exemplo disso. As pessoas no Brasil podem falar inglês ou espanhol, mas falam principalmente o português brasileiro. A parte majoritária da população não está buscando conteúdos que sejam em inglês, espanhol ou francês, porque não são bilíngues. Então, acho que nós estamos na direção de uma maior territorialização, e acho que esse é um ponto importante. Eu fui mais de dez vezes ao Brasil, é um país que amo, e é claro que eu estava observando isso antes do [governo] Bolsonaro. Aliás, o que quer que você pense sobre Bolsonaro, também é uma extensão de um tipo de ponto de vista nacionalista e cultural na internet. Não sou um “souverainiste” [apoiador da doutrina de preservação da soberania nacional], como dizem na França, mas penso que nós somos – e essa é uma palavra muito importante para mim – geolocalizados na internet. Somos geo, que significa global. Somos parte da conversação global, mas essa conversação é territorializada. Pode ser a mesma conversa em todo o globo, mas também pode conter elementos diferentes ou, ainda, pode ser uma conversação totalmente diferente, porque estamos interessados no que está acontecendo na nossa região, no nosso país, ou mesmo na nossa cidade, na nossa rua.
Borba – Permita-me perguntar algo relacionado a isso no Brasil, porque eu estava pensando sobre os efeitos da internet especialmente sobre as pessoas mais velhas. Aqui, considerando a segurança e outras questões, não temos a cultura de sair com frequência. Passamos horas dentro de nossos apartamentos usando as redes sociais, e 97% das pessoas com 60 anos ou mais têm acesso à internet. Ainda assim, muitas vivem dentro de bolhas virtuais e compartilham fake news. O que você acha disso?
Martel – Sim, é um problema complexo. Por um lado, temos que reconhecer o quão difícil a internet pode ser para os idosos. Você não sabe como acessar, a qualquer momento que você use seu celular há um problema com o som, a imagem, a rede, a conexão… E você está perdido. Vejo pela minha própria mãe, que tem 78 anos, e às vezes não consegue ouvir a mim e meus irmãos porque ela não sabe coisas muito básicas, como levantar o volume. Então, é muito importante certa “direção” para uma alfabetização digital, pois precisamos ensinar as pessoas. Levei duas horas essa manhã para comprar uma passagem de avião para ir da Venezuela à Nicarágua, foi um pesadelo! E eu sei como funciona, então acabei encontrando a solução, depois de duas horas, com o serviço ao consumidor nos Estados Unidos. Mas muitas pessoas não podem fazer isso, então é necessário adicionar serviços para os idosos que sejam mais rápidos, mais eficientes, mas, além disso, precisamos ter alguma alternativa para ajudar as pessoas que não são capazes de acessar. Agora, por outro lado, mesmo para os idosos ou as pessoas que vivem em áreas rurais a internet é ótima, porque oferece muitas oportunidades de conexão – e aí novamente vejo minha mãe usando o telefone para falar comigo de maneira fácil diariamente, o que era muito caro na minha juventude, sem o vídeo. Por isso não sou contra a tecnologia, não sou ingênuo nem antiquado. Tecnologias são “globalmente boas”, mas existem vieses ruins e nós precisamos cuidar disso. É por isso que sou a favor da regulação, não em função de um anticapitalismo ou por ser contra a economia de marketing, mas apenas porque a economia de marketing também oferece liberdade aos competidores e regulações para o bem das pessoas, e também pede que as pessoas e companhias paguem taxas e, no fim, lutem contra uma posição dominante abusiva.
Borba – Você já respondeu várias vezes aos críticos que não podemos mais falar de cultura como um conceito elitista e patrimonialista, e que não podemos mais ter apenas uma definição única de cultura. Agora, com o 6G extremamente rápido, a internet das coisas e uma crise sem precedentes na própria compreensão do que é humano, como você imagina que explicaremos o que é cultura na próxima década?
Martel – Ontem a produção artística era rara, o número de artistas era limitado, e os gatekeepers vigiavam o produto. Era difícil penetrar o mundo da arte, que era tão filtrado, opaco, hermético e dissociado do gosto do público. Muitas vezes, os críticos de arte tradicionais jogavam juntos no jogo da “distinção” e “reprodução” social. Essa hierarquia, às vezes artificial, foi sendo atenuada na era digital. Eu estou entre aqueles que aceitam esse enfraquecimento. Os gatekeepers foram sendo desvalorizados e sobretudo multiplicados. Hoje, com a ascensão dos influenciadores, eles não são mais os espertos. Não que os influenciadores tenham a mesma expertise ou a mesma legitimação, mas eles são mais numerosos e legitimados da sua própria forma, pelo número de seguidores, postagens e cliques – e acima de tudo, são mais segmentados. Nós suspeitamos por muito tempo que a hierarquia cultural era artificial. Era mesmo de cima para baixo, elitista, arbitrária, às vezes peremptória ou condescendente – se não paternalista, sempre supostamente universal; e em última análise centralizada no Ocidente e Europa. Por mérito próprio, influenciadores destroem isso, a hierarquia cultural estática, para fazer com que seja algo mais dinâmico. Formas não-legítimas são valorizadas, os efeitos de raça e gênero são mitigados, cenas, artistas independentes e culturas excêntricas encontram seu lugar ao lado do mainstream – enquanto ontem eles batalhavam para existir em maior quantidade. É claro, os partidários da democracia iluminada, os apoiadores de uma forma de elitismo cultural e os conservadores de listras lamentam esse achatamento, essa dualidade de gostos. Mais uma vez, contudo, não é sobre julgar essa transição do criticismo, que não é nem boa nem ruim em si. Ou como o famoso slogan do movimento queer: “Estamos aqui, somos queer, acostumem-se”. Nós vamos ter que conviver com os influenciadores, gostemos ou não. Essa mutação do criticismo, o poder crescente dos influenciadores – um fenômeno que é mais importante do que imaginamos, porque diz respeito a julgamento, gosto, e todos os valores – ainda está na sua infância. Vejo futuro aqui, combinado com a “curadoria inteligente”, pois dada a abundância das ofertas culturais, ela me impressiona como um dos futuros de criticismo e recomendação. No Spotify, podemos acessar 70 milhões de músicas, mais de 2 milhões de podcasts e 4 bilhões de playlists. Na Netflix, milhões de filmes e episódios de séries estão espalhados por mais de 76 mil gêneros. No Amazon Prime, podemos escolher entre 40 mil filmes toda noite, enquanto mais de 600 mil livros estão disponíveis no Kindle, Scribd ou Google Play Books. Finalmente, mais de mil vídeos são publicados no YouTube a cada minuto. Como conseguir navegar nesta abundância? Precisamos de algoritmos, mas também de curadoria humana. Então, sou bastante otimista: isso será o futuro da cultura. Quando Leonardo da Vinci deixa a Itália, ele produz algumas das suas melhores pinturas. Quando Rimbaud quase foi morto por Verlaine e teve que ser hospitalizado até voltar para casa, antes do exílio em Londres, ele escreveu dois dos melhores textos da literatura francesa: Uma temporada no inferno e Iluminações. Mais recentemente, quando Margaret Thatcher foi contra a cultura, Damien Hirst emergiu como um artista novo, radical e jovem. Artistas estão sempre aptos à mudança, adaptação e transformação da realidade. Eles farão algo também com o metaverso, com a inteligência artificial e com a nuvem!
Borba – A música é uma grande parte da sua vida, então, qual você acha que é o papel dela na educação? Você poderia compartilhar conosco seus artistas favoritos?
Martel – Fico feliz que você tenha perguntado isso. Responderei com Nietzsche: “Sem música, a vida seria um erro”. Algumas pessoas não ligam para a música, que é importante para todos, especialmente para a nova geração. Eles se identificam com um grupo pela música, é diferente de como acontece comigo. Então eu diria que, no começo, a internet poderia ter sido algo destrutivo para a indústria da música – e de certa forma foi. Eles lutaram com o cara mais novo que baixava as músicas ilegalmente, mas a solução acabou sendo dar conteúdo legalizado na internet para as pessoas. Afinal, como você quer punir alguém por baixar músicas que não estão disponíveis online? As corporações queriam que comprássemos CDs, quando ninguém mais compra CDs. Então, a resposta foi muito simples: criar o Spotify, Deezer, Apple Music. Gastei este mês, por exemplo, pelo menos dez horas diárias ouvindo música: os novos álbuns do Kendrik Lamar, Florence and the Machine e Arcade Fire. Sou um grande fã de Leave the door open, de Bruno Mars, do ganhador do Grammy Anderson Paak, e acompanho a carreira do poeta, cantor e rapper francês Gael Faye. Agora mesmo estou escutando uma playlist muito boa de música brasileira moderna… e descobri recentemente Fado Bicha, um tipo de novo fado queer. Não posso viver sem música.
Tradução: Marília Port e Vitória Arruda

Frédéric Martel é um dos escritores franceses mais lidos da atualidade, é autor de Mainstream e Smart, obras fundamentais para refletir sobre as indústrias criativas e a cultura digital em mais de 50 países. Doutor em ciências sociais pela EHESS, França, o jornalista é mestre em ciências sociais, filosofia, ciência política e direito público pelas Universidades de Paris I e II e professor na ZHdK, Suíça. Publicou também o polêmico best-seller do New York Times, No Armário do Vaticano, livro mais vendido em 12 países e traduzido para 20 idiomas.
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Rafael contou para o Mescla como o trabalho com a turma funcionou, “Foram três encontros nas aulas online: o primeiro, para apresentarmos o Nonada, falar do nosso trabalho, nossa linha editorial, e aí eles iam pensar em fontes para serem entrevistadas; o segundo, foi uma conversa sobre os perfilados já decididos e nós demos algumas orientações, por onde seguir, possíveis questões, etc. E o terceiro encontro já foi a partir de todas as entrevistas realizadas e mais um feedback nosso”. Entre a segunda e a terceira etapa, aconteceu o processo de edição pelos professores e depois pelo Rafael e pela Thaís, além da montagem de um cronograma de postagem das entrevistas no site do Nonada. Você pode conferir as entrevistas clicando aqui.
O professor explicou que o gênero “grande entrevista”, que são entrevistas com profundidade, já vêm sendo trabalhado na editoria de cultura, “Entendemos que é um espaço que esse diálogo é mais fluido, acontece de um modo mais interessante, não é tão duro, tão colado na notícia. Ele pode ser mais uma conversa, pela própria natureza da editoria.”, explica.
Ivan Júnior participou da turma e conta que gostou do desafio, ainda mais pelo fato do formato ser pouco explorado, mas muito interessante, “A gente sempre o observa nos veículos e tem vontade de desenvolver um conteúdo com essa estrutura. Por isso, gostei bastante da experiência proposta na Beta Cultura”. Ivan também relatou os processos que envolvem o gênero, grande entrevista, começando pela pesquisa sobre o perfilado, sua história e a forma com que foi noticiado em outras mídias.
A pesquisa é parte da apuração e faz parte da rotina produtiva da reportagem, mas nesse caso, curiosidades e detalhes interessantes da vida do perfilado são importantíssimos para se estabelecer uma boa conversa com os entrevistados, uma vez que, na sequência, há o processo de desenvolver as perguntas, estabelecer quais temas serão abordados e como isso será distribuído ao longo do tempo da entrevista. “A parte de maior dificuldade foi a famosa transcrição da entrevista. Essa parte é muito importante, não podemos deixar passar nada, ou seja, precisamos estar com toda a atenção do mundo”, explica Ivan.
Os alunos das atividades de Beta Redação são divididos em repórteres, editores, editores de redes e, até ombudsman – escuta, responde às queixas dos leitores e faz a crítica do material publicado). A aluna Daniela Gonzatto contou que foi a primeira vez que ela ficou com a função de editora. “Eu gostei muito de ser editora porque a gente teve temas muito diferentes: Carnaval, rap, orquestra, isso só no meu grupo”. Ela ajudou na edição das pautas e na organização das entrevistas de Ivan Júnior, Renan Silva Neves e Leonardo Oberherr. “Tudo isso foi muito significativo para mim. Foi realmente muito interessante participar e ajudar um pouco em cada história, contar um pouquinho de cada personagem”, conclui Daniela.
O Nonada se apresenta como “um veículo de jornalismo cultural independente que entende a cultura para além da produção artística”. O Rafael explica: “A nossa linha editorial segue seis eixos, buscando ecoar com viés decolonial as múltiplas vozes que formam a cultura brasileira, com enfoque em pautas sobre processos artísticos, políticas culturais, comunidades tradicionais, culturas populares, censura e direitos humanos, memória e patrimônio.”
Para o professor Felipe, há um entendimento sobre a cultura que já é discutido logo no início da disciplina, “A cultura também é um campo de reflexão política e social importante, porque a cultura reflete tudo isso e os alunos já estão naturalmente conectados com isso. No entanto, na hora dessa produção, o desafio é ampliado pelo nível de cobrança e alta exigência para lidar com o material que é produzido, uma vez que ele foi publicado neste veículo parceiro. Eles têm um cuidado com o material, que é muito reconhecido, e aplicaram isso com a turma. Claro, foram muito generosos com a turma, tiveram compreensão de que é um processo um pouco diferente do “normal” deles, mas procuraram ao máximo colocar o nosso conteúdo como eles veiculam o deles.”

Rafael conclui que sentiu que a turma lidou bem com o desafio, alinhando bem o conteúdo com o perfil do veículo. “Principalmente no eixo editorial ‘Processo artístico’. E eles trouxeram também a diversidade, tanto de questões raciais, LGBTQI+, e de gênero também”.
Confere no Nonada o resultado final desta parceria, que deixou todos satisfeitos e orgulhosos com o resultado!
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]]>Ao voltar às origens do jornalismo, caracterizado em coberturas de rua, a equipe do Mescla, composta por Karolina Kraemer, Paola De Bettio Torres e Tynan Barcelos, conta em crônicas a experiência de estar na Feira do Livro de Porto Alegre. Confira.
A saída para a Feira do Livro seria minha primeira experiência como jornalista de campo e, ainda assim, minha maior preocupação não foi as fontes que poderia encontrar ou as fotografias que tiraria, mas a roupa que eu iria usar. Não por querer algo que ficasse bonito, mas sim, um “figurino” seguro. Perceba que eu não falei confortável, e poderia ser por precisar caminhar, nem leve, por conta do calor de Porto Alegre, mas seguro (é muito curto? decotado? transparente? chamativo?), porque eu sou mulher e nunca se sabe quem vai estar andando na rua também.
Fiquei me perguntando como as jornalistas que estão na rua todo o dia lidam com esse tipo de insegurança … O que passa pela minha cabeça nessas situações equivale a cinquenta páginas, quase um TCC, mas acontece em um segundo, tão rápido que nem eu consigo resenhar depois.
Por ser uma ansiedade cotidiana para as mulheres, logo ela foi estabilizada, principalmente depois de relembrar três coisas: 1) meus colegas estariam comigo; 2) essa era uma oportunidade de conhecer sobre o jornalismo fora de uma redação (que por meses foi a minha casa); e 3) eu queria muito comprar livros novos, afinal, ninguém é de ferro!
Essa foi a primeira vez que pisei na Feira do Livro de Porto Alegre. Se fui levada quando pequena é outra coisa. Moro na região metropolitana e confesso que achava que seria maior, tanto em bancas, quanto pessoas – provavelmente por sempre imaginar um espaço lotado quando via matérias sobre o evento na TV. Não é que eu tenha sido iludida. A Feira está ao menos quarenta por cento menor, descobri essa estimativa em uma das bancas.
A livreira que me passou essa informação disse que muitas pessoas optaram por não participar da Feira esse ano, o que me surpreendeu, porque tudo lá parecia muito vivo, como se nada sobre o mundo tivesse mudado. Ficou fácil não prestar atenção às máscaras e ao álcool em gel, afinal, eles já fazem parte da rotina. De certa forma, quando voltamos a ter liberdade para fazer o que fazíamos é fácil esquecer que ainda estamos no meio de uma pandemia. E, para mim, isso foi o que mais se destacou.
Na Feira, vi pessoas debatendo sobre autores e temáticas, estudantes empolgados ainda com o uniforme escolar, talvez em uma excursão, mães e pais com crianças no colo e até mesmo idosos, todos vivendo, pela primeira vez ou relembrando, a experiência da Feira do Livro.

Fora do evento, uma paisagem diferente. Lembrei do centro de Porto Alegre cheio, um mar quase infinito de pessoas, me surpreendo com o quanto, em quase dois anos, as coisas podem mudar tanto.
Será esse o novo normal que tanto falam? Esse cenário é melhor ou pior? Não sei responder nenhuma dessas perguntas, mas as cores das bancas, os sons de mil conversas ao mesmo tempo e o cheiro de pipoca doce, me provaram que estar vivo nunca foi tão celebrado.
Eu vejo o hoje como algo muito carregado de persistência. Diante de tudo de ruim que possa acontecer queremos continuar e ver o próximo dia. Nesse sentido, a arte, no campo da literatura principalmente, me passa a impressão de compartilhar experiências na tentativa de ajudar a sociedade a resistir acima de tudo.
Porém, mesmo em um evento que celebra essa busca por conhecimento, é possível ser lembrado que, na maioria das vezes, o acesso a ele não é democrático. Eu comprei três livros na Feira e pouco depois de comprar o último (que deveria ter sido o segundo) sai com meus colegas para tomar um café.
Enquanto conversávamos, pelo menos, duas pessoas passaram pedindo dinheiro para comprar algo para comer. Independentemente do “novo normal” que está sendo debatido, a verdade é que vivemos uma realidade na qual alguns gastam R$ 50 em um livro e muitos passam dias sem conseguir se alimentar.

As coisas que apenas um dia na rua podem te mostrar são diversas e é impossível sair de casa e voltar sem alguma nova ou reforçada perspectiva sobre algo – do preço das passagens do transporte público à falta de uma distribuição de renda adequada – possibilidades infinitas e que, muitas vezes, requerem soluções a longo prazo e, acima de tudo, coletivas.
Voltando para casa de trem, depois de exposta a tantos estímulos diferentes, só conseguia sentir o cansaço batendo. Imaginei como seria ser confrontada com o melhor e o pior do ser humano sem poder “desligar a tela”, estar em campo buscando as mais variadas pautas, uma síntese da vida que estou construindo para mim daqui para frente. Antes que a ansiedade e a precipitação sobre um futuro distante pudessem tirar o melhor de mim, minha estação foi anunciada e, tão logo, a única preocupação era a aula da noite.
A tarde daquela quarta-feira não poderia ser melhor. Com sol, calor e a brisa que vinha de vez em quando da direção do Guaíba, combinados com a alegria de ver uma cidade em movimento em torno de livros, bancas e patrimônio histórico. A amenidade dos ares de primavera foram um suspiro depois de quase dois anos de tensão pela pandemia.
A pandemia de covid-19 ainda não acabou, mas ao contrário do ano passado, as expectativas de melhora e esperança são bem mais altas. Os índices permitiram que a tradicional Feira do Livro de Porto Alegre pudesse acontecer na Praça da Alfândega e arredores. Apesar da nossa visita ter acontecido à tarde, no meio da semana, pude perceber um movimento considerável de pessoas se debruçando ou apenas observando pilhas e estandes de livros. Há questões sensoriais muito particulares e diferentes estando frente à frente das capas, das cores dos livros, podendo ler suas resenhas e seus trechos.
A Feira do Livro é um evento muito democrático. Há romances, ensaios, ficções, poemas, narrativas históricas,,com temáticas políticas e religiosas. Livros de arte, de fotografias, de culinária, histórias em quadrinhos e de contos infantis com ilustrações simpáticas. Muitos livros estavam sendo expostos ao público pela primeira vez mesmo tendo sido lançados em 2019 e 2020.
“Para ler um novo mundo” foi o título para a 67ª edição do evento. Não há como contestar que vemos o mundo com novas perspectivas. Isso já costuma acontecer em ciclos, muitas vezes individuais, de forma natural, mas agora tomou força coletiva, evidenciando problemáticas e novos ângulos.
O patrono desta edição, Fabrício Carpinejar, considerou o evento uma “fisioterapia social”. A retomada lenta (e particularmente assustada) do convívio social acabou por sensibilizar e aguçar meu olhar curioso. Assim, faz todo o sentido a consideração do autor, mas além dessa retomada, o evento mostra que a gente além de retomar aos poucos o contato com as ruas e com as outras pessoas, estamos retomando o hábito de ler. Para isso, buscar pelo mundo de sensações e experiências, pode auxiliar a ler o mundo ser uma tarefa um pouco mais fácil, e também mais interessante.
Não poderíamos ter encerrado melhor: a Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL), que organiza o evento, realizou o levantamento da feira e registrou um aumento de 15% nas vendas em relação à última edição, que aconteceu em 2019, antes da pandemia. No fim das contas, queremos entender o mundo, nos atualizar do que se tem pensado sobre as coisas, sobre as pessoas. Isso só pode acontecer quando estamos diante desse mundo, de corpo inteiro no presente. “Queremos saber”, música do Gilberto Gil, escrita em 1976, elucida bem este momento.

Se para Gil o domingo é no parque, para mim a quarta foi na feira. Através dos imensos corredores de prédios antigos no Centro Histórico, o intenso calor conduzia o caminho para chegar até a Praça da Alfândega, em Porto Alegre. Depois de dois anos, a Feira do Livro, agora em sua 67ª edição, está de volta e apesar do número reduzido de bancas e do pouco movimento, até mesmo para uma quarta-feira, é um local que respira cultura e uma certa esperança de tempos melhores.
Apesar de ter na minha imaginação uma feira maior, principalmente pelo fato de nunca ter estado lá, percebi que mais do que ser apenas algo sobre livros, autores e palavras, a Feira do Livro de Porto Alegre é sobre espaço, ou melhor, sobre espaço cultural.
Não sei se as crianças, os adultos e os idosos que estavam naquele dia percebiam, mas a feira do livro de Porto Alegre está no coração cultural da cidade. Quando se entra pela rua 7 de setembro, logo à direita já se consegue ver o Farol Santander, o Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul e o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS). Se optar por caminhar mais alguns metros, está lá também o Museu da Comunicação Hipólito José da Costa. Todos eles ao redor das diversas bancas que vendem ali seus saldos por alguns poucos trocados ou até mesmo o best-seller nacional.
Talvez, perdoem minha petulância, mas os livros não são os personagens principais da feira. O sentido está no encontro, na conversa com as livreiras e livreiros. O sentido está no pacto cultural, que mesmo não intencionalmente, já é firmado no momento em que se começa a percorrer o corredor de prédios que leva até a feira.
Assim como a cidade de Atenas na Grécia, com sua Acrópole e seus templos, guarda a memória de um tempo lúdico onde os deuses e titãs reinavam, todo entorno da Praça da Alfândega, com suas bancas, seus livros e seus enormes prédios que datam séculos passados, preserva o tempo de uma cidade que, depois de dois anos confinada em casa, não via a hora de estar na rua.

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