wp-mailinglist domain was triggered too early. This is usually an indicator for some code in the plugin or theme running too early. Translations should be loaded at the init action or later. Please see Debugging in WordPress for more information. (This message was added in version 6.7.0.) in /home/agexcom/mescla.cc/wp-includes/functions.php on line 6170The post As vozes que (ainda) não ouvimos appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>
Nossa maior meta ainda é reduzir a branquitude no Portal. Esta é uma das conclusões a que se chega após realizar o segundo levantamento que pretende fazer um mapa da representatividade de fontes entrevistadas pelo Portal Mescla em 2021. Se em 2020 o Portal foi 95% branco, em 2021 foi para 91%. É uma redução baixa, mesmo levando em conta o processo de sensibilização que a equipe vem experienciando para tentar garantir maior equilíbrio de visibilidade não branca
Indo diretamente aos números, de abril de 2021 a abril deste ano, foram 150 fontes consultadas pelo Mescla, mais da metade delas em matérias sobre acontecimentos provocados pelos cursos de graduação da Unisinos; E aí vem uma questão necessária de ser levada em conta do ponto de vista metodológico. No ano passado, começamos a enviar um Formulário para as fontes entrevistadas, após a publicação ir ao ar. Ele questiona como a fonte se identifica em relação a raça, gênero e orientação sexual. Das 150 fontes, bem menos do que a metade (46) respondeu ao questionário. A fonte responde voluntariamente, não sendo obrigada a preencher com o e-mail ou mesmo o nome, ou seja, pode escolher ficar totalmente anônima. O número de respostas que obtivemos (as 46 respondentes) equivale a 30% de todos os entrevistados
Desta amostra, cerca de 91% são pessoas brancas. Pretos e pardos somam cerca de 9%. Vale ressaltar uma constatação da edição anterior: como o Mescla é um Portal que traz muitos assuntos ligados à Escola da Indústria Criativa da Universidade, uma universidade particular, sabemos que estamos inseridos em um contexto extremamente privilegiado (e branco).

Em relação ao gênero, cerca de 61% dos respondentes se declararam mulheres cis e outros 35% homens cis, ou seja, 96% das vozes ouvidas pelo Mescla fazem parte da cisgeneridade. Este é outro desafio que o levantamento mostrou: como escapar do padrão cis.

Diferentemente da primeira edição, nesta foi incluída uma questão referente à orientação sexual. Neste primeiro levantamento acerca do tema, os autodeclarados bi e homossexuais somaram quase 22%, e o predomínio é de heterossexuais (78,3%).
No entanto, o Portal considera este um resultado positivo em relação as porcentagens das outras categorias. Ainda mais, como contraposição ao levantamento inédito feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com dados de 2019, que aponta que apenas 2% da população brasileira se autoidentifica como homo ou bissexual no país.

Outra questão que as fontes respondem diz respeito à faixa etária. Aqui, o Portal fica contente em saber que escuta pessoas que vão dos 19 aos 82 anos. Pessoas em diferentes etapas da vida, que vai desde aquelas que estão ingressando na universidade até aos experientes sêniores acadêmicos e profissionais da indústria criativa.
Apesar de os números mostrarem novamente uma realidade não tão diversa como o Portal deseja, continuaremos confrontando com nós mesmos. Como jornalistas, somos inquietos, e a inquietação é chave fundamental como ferramenta de transformação social.
Algumas observações precisam ser feitas para que se possa interpretar melhor os dados encontrados. Como trata-se de um levantamento customizado, ou seja, organizado pelo Mescla sem referência prévia, a metodologia de coleta de dados precisou ser aprimorada. Na primeira edição (referente à 2019 e 2020), as fontes foram classificadas por gênero (homens e mulheres) e raça (brancos, negros ou não identificados). “Não identificados” foi a forma encontrada para resolver a falta desta informação, já que não houve envio de questionário para as fontes. A categorização foi realizada a partir da visualização dos repórteres que conversaram com as fontes presencialmente, via videochamada. (pandemia) ou telefone. Neste sentido as fotos nas redes destas pessoas entrevistadas também ajudaram.
Dessa forma, a grande mudança neste segundo levantamento, é que em 2021 passou a ser prática interna obrigatória (por parte da reportagem) enviar o formulário para as fontes que ajudaram a construir as matérias, conforme já explicado. Este formulário é um pedido, portanto, nem todas as fontes podem ou querem responder. Ele passou a ser enviado no mês de julho, em 2021. Também conforme já citado, se obteve apenas 46 respostas até este segundo relatório.
Em 2020 foram contabilizadas 336 fontes ouvidas nas diferentes produções jornalísticas do Mescla e todas elas contaram para o levantamento. Nossos resultados não são positivos, apesar de entendermos que eles mostram apenas uma parcela. Esta é uma construção, um projeto maior do Mescla, por isso, iremos sempre “prestar contas”. Nosso dever e responsabilidade de diversificar e inclusificar nos desafia e exige mudanças.

Em março de 2020, quando a equipe que produz o Portal Mescla parou para refletir e realizar uma autocrítica sobre o nosso papel e responsabilidade como grupo para garantir mais diversidade de raça, gênero e classe em todos os espaços, e como um portal jornalístico, entende-se que se trata de um dever relacionado a um direito humano de lutar por uma sociedade menos discriminatória. Portanto, é preciso manter a coerência com o que se acredita e compartilhar a reflexão sobre as práticas profissionais incluídas na rotina de trabalho do grupo. Naquele momento, começamos a “olhar com lupa” nossas produções, e o foco foram as três principais editorias abastecidas por nós: Por Dentro, Deu Certo e Especial. Os resultados estão aqui.
De lá para a cá, foram diversos debates e momentos de autocrítica e planejamento de ações para aumentar as vozes representativas no Portal. Para além do trabalho como sujeitos mediadores da informação, aprendemos muito sobre nosso papel como cidadãos, e continuamos refletindo sobre nossas posições sociais. Como jornalistas, a inquietação não acaba. Entramos em 2021 analisando nosso processo de produção de conteúdo e resolvemos produzir um Levantamento de Raça e Gênero, inspirados pela iniciativa do Grupo Matinal Jornalismo, para que pudéssemos identificar quem eram as fontes escolhidas pelo Mescla para falar sobre os mais diversos assuntos e quem eram os profissionais que convidávamos a “ocupar a cena” do Portal.
Nesse sentido, os números servem para acompanharmos e entendermos como o Portal Mescla tem se relacionado com a diversidade de gênero, étnica e racial em relação às suas fontes. Para transformarmos a percepção em números, e os números em ações que ampliem nosso papel contra a desigualdade social e racial.
Além de convidarmos à todes para dialogar com o Mescla, nos dando dicas de conteúdos e atividades e apontando quais podem ser nossas falhas, criamos um banco de fontes interno. Além da inclusão de fontes que ampliem a diversidade, estamos pensando em pautas mais inclusivas e qual a melhor forma de trabalhar com elas, visto que o Mescla é feito por pessoas em posições privilegiadas e normativas. Dessa forma, uma espécie de banco de pautas foi também criado.
Em nossas reuniões de pauta semanais comentamos sobre publicações, eventos, espaços de formação e debates sobre o que tem acontecido ao nosso redor. Além dessas pesquisas e diálogos, a Agexcom – agência na qual o Portal está inserido – tem abraçado este compromisso também. Dessa forma, participamos de uma oficina sobre diversidade na comunicação com a Alteritat e um bate-papo com a professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Unisinos, Maria Cláudia Dal’Igna.
Conforme escreveu a filósofa, professora, pesquisadora e escritora Djamila Ribeiro, em seu livro “Pequeno Manual Antiracista”, “Fala-se muito em empatia, em colocar-se no lugar do outro, mas empatia é uma construção intelectual, ética e política”.
Por fim, convidamos a todes a acompanhar nossos próximos passos e a conferir nossos conteúdos do Portal. Toda e qualquer observação é bem-vinda.
The post As vozes que (ainda) não ouvimos appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>The post As vozes que não ouvimos: Mescla realiza Levantamento de Raça e Gênero appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>
Este Especial é, acima de tudo, uma peça de reflexão e (auto)crítica sobre a responsabilidade de cada um para garantir mais diversidade de raça, gênero e classe em todos os espaços. E o espaço em questão é o próprio Mescla, que agenda e repercute os caminhos da Indústria Criativa. Pensando nisso, trocamos a terceira pessoa do singular, forma mais comum da narrativa jornalística, pela primeira do plural. O nós representa não apenas as repórteres que assinam este texto, mas também a equipe de demais estagiários, professores e funcionários que fazem o Portal Mescla.
As manifestações antirracistas que varreram o mundo no ano passado, nos provocaram ainda mais a pensar sobre esta responsabilidade da mídia. A inquietação revelou que precisávamos melhorar a formação nos temas de branquitude e negritude, e, neste sentido, realizamos uma oficina com o Núcleo de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas (Neabi). O encontro, que foi aberto para a comunidade Unisinos, nos deu elementos para pensar a partir do nosso lugar, uma redação branca, dentro de uma universidade privada majoritariamente branca. Qual seria o nosso papel nesta luta antirracista?
A oficina foi o início da caminhada para viramos a chave, e incorporarmos o enfrentamento à discriminação racial para além das datas comemorativas ou eventos ligados a protestos contra a violência racial. O que poderia ser feito de concreto pela redação para mudar? Paramos, então, para analisar todo o nosso processo de produção de conteúdo. Identificamos quem estávamos escolhendo como fontes para se pronunciarem sobre os mais diversos assuntos do Mescla e quem eram os profissionais que estávamos convocando a ocuparem a cena do Portal.
Após diversas discussões girando em torno desse tema, e inspirados pelo Grupo Matinal Jornalismo, um projeto gaúcho e independente de comunicação digital, achamos que seria necessário produzir um Levantamento de Raça e Gênero das matérias do Mescla. Marcela Donini, editora-chefe do Matinal, conversou com o Mescla no ano passado sobre o levantamento realizado pelo grupo que rendeu a eles a percepção de que precisavam aumentar a diversificação das fontes. A jornalista entende que estar ligada às questões raciais é fundamental, mas não basta. Marcela também acredita que nem o próprio editorial, escrito em julho de 2020, fará o Matinal ser exemplo de diversidade. “Procurei, ativamente, jornalistas negros pra me colocar a disposição”, explica. Segundo o levantamento, 87% dos autores e entrevistados da Parêntese – revista semanal do Grupo Matinal – são brancos.
O levantamento, no Portal, nos motivou a olhar com lupa para nossas produções. Tendo como foco as três editorias que concentram a maioria dos assuntos tratados no Mescla – Por Dentro, Deu Certo e Especial -, fizemos uma busca por todas as fontes consultadas nas matérias publicadas a partir de maio de 2019 (quando o Mescla foi reestruturado) até dezembro de 2020.
Classificamos os entrevistados por gênero (homens e mulheres) e raça (brancos, negros ou não identificados). Esta categoria, não identificados, foi a forma que encontramos para resolver a falta desta informação, já que nossa categorização foi realizada depois das matérias estarem no ar, ou seja, nunca perguntamos para os entrevistados como eles se autodeclaravam. Ela passou a ser usada nos casos em que, pela foto dos entrevistados, ou ainda pelo conteúdo da matéria, não era possível identificar cor ou raça. Estávamos cientes, desde o início, que essa forma de realizar o levantamento possuía falhas, mas acabou sendo a maneira mais eficiente de realizá-lo.
O levantamento mostrou 230 matérias publicadas neste período. Entre fontes inéditas e recorrentes do Mescla, 655 pessoas foram ouvidas em dois anos.

Nestes dois anos, a maioria das fontes ouvidas pelo Portal é do gênero feminino. Foram 346 mulheres, mas destas, apenas 19 são negras. Dos 304 homens, só 17 não brancos foram ouvidos. Podemos afirmar que 90% das fontes acessadas pelo Portal em 2019 são de pessoas brancas. Já em 2020, mesmo com o esforço da redação em trazer mais assuntos sobre a desigualdade racial para o Mescla, este percentual aumentou. Foram 95% de fontes brancas.


Como o Mescla traz muitos assuntos ligados à prática da sala de aula, produtos realizados e eventos, os professores da Escola da Indústria Criativa são as principais fontes do Portal. Nesse contexto, nós também não lembramos de ter aulas com algum professor ou professora negros durante o curso, o que explica, ao menos em parte, os números apresentados. Mas não nos isenta da responsabilidade de buscar uma maior diversidade.
Se o levantamento nos mostrou o perfil racial e de gênero de fontes que estamos acessando, uma maioria esmagadora branca, o que temos agora é um alerta para a realização das futuras matérias: Como garantir mais diversidade nesta busca?
Para sabermos como agir, é necessário entender os sentidos do racismo estrutural, que permeia todos os setores da sociedade, e é um obstáculo ao acesso ao estudo. A Agência Brasil publicou uma matéria onde aponta o crescimento de jovens universitários negros no país, 400% (entre 2010 e 2019). Apesar do aumento ser importante, o número está longe de ser o ideal. Os negros e pardos são 38% do total dos estudantes, mas a população negra brasileira é superior à branca, representa 56,10% do total. Isso se reflete no número de profissionais graduados que chegam ao mercado de trabalho.
O IBGE, na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2018, mostra que alunos negros ainda são minoria tanto em universidades públicas, quanto em privadas. 53,4% dos alunos que estudam em instituições privadas são brancos. O Mescla é um produto realizado pela Agexcom, uma agência experimental de comunicação majoritariamente branca. Por estarmos inseridos dentro da Unisinos, somos o reflexo dessa pesquisa.
Se menos de 40% dos jovens negros chegam até a faculdade, muitos menos chegam aos papéis de professores ou especialistas. Por isso, quando, aqui no Mescla, procuramos esses profissionais que se tornam fontes confiáveis para nossas matérias, não chegamos imediatamente aos profissionais negros. Se não nos preocuparmos em encontrar essas fontes não brancas, elas não aparecem diretamente onde possamos vê-las, já que todo caminho até esse local de destaque é dificultado pelo racismo. Neste sentido, as listas de fontes não brancas, que circulam nas redações, como o Guia de Fontes para um Jornalismo antirracista, ajudam a dar projeção para estes profissionais invisibilizados pelo racismo.
Se o racismo é estrutural, como nos ensina Silvio Almeida, qual o papel dos brancos para reduzir a violência racial, seja ela simbólica ou física? Entendemos que trata-se de um processo de conscientização gradual, e que passa por identificarmos os privilégios e a hegemonia da branquitude em todas as esferas da nossa sociedade. Foi o que tentamos fazer com este Levantamento de Raça e Gênero, que mostrou uma diferença exorbitante entre fontes brancas e negras acessadas. Não nos orgulhamos destes números, mas assumimos o compromisso de lutar para aumentar a diversidade e a representatividade neste espaço.
E, para isso, estamos revendo uma série de procedimentos que formam a nossa rotina produtiva, passando pela escolha dos temas, das abordagens, enquadramentos, e, claro, das fontes. Acreditamos ainda que os nossos leitores podem nos ajudar muito nessa mudança, e vamos trabalhar para aumentar este diálogo.
O levantamento quantificou a realidade para que possamos enfrentá-la melhor. Agora que sabemos os “comos” e “os porquês” deste processo, precisamos mudar. Sem transformações práticas, a teoria não vale muito mais do que um sonho distante. Não é tarefa fácil, mas é urgente.
The post As vozes que não ouvimos: Mescla realiza Levantamento de Raça e Gênero appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>The post Deu um branco no jornalismo appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>
Por trás do racismo, nem sempre explícito, há um processo histórico de branqueamento, ou seja, uma tentativa de embranquecer o país e o mundo, baseada em matrizes eurocêntricas, conforme explicou aqui a pesquisadora e coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi) da Unisinos, Adevanir Aparecida Pinheiro.

As práticas de branqueamento têm promovido um apagamento da cultura e referências negras, e isso reflete também na pouca presença negra nas redações jornalísticas, incluindo o próprio Mescla. Por mais que a diversidade seja uma pauta presente nas nossas discussões, não temos repórteres negros. O curso de Jornalismo, inclusive, é composto por estudantes brancos, em sua maioria. Há muitas formas de entender como essas práticas de branqueamento se disseminam e perpetuam, e uma delas é ouvir histórias de jornalistas negros, em diferentes fases da carreira, conhecer as experiências individuais de cada um sobre como se enxergam neste contexto e que horizontes vislumbram.


Em janeiro deste ano, Glauber Cruz se formava em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A formatura aconteceu no mesmo mês que diversos ataques foram feitos a jornalistas pelo Presidente da República. Entre eles, o de que eram uma raça em extinção. Se ser jornalista pode ser complicado, imagine trabalhar em locais onde você é minoria. Natural de Alegrete, município localizado no Oeste do Estado, Glauber chegou a Porto Alegre em 2015 para estudar. Foi crescendo que descobriu que, no Brasil, os espaços são ocupados por cores. “É violentamente simbólico entrar na redação e só ver repórteres brancos”, explica. O simples fato de ser o Glauber jornalista e negro já o deixa distante dos colegas brancos.

As narrativas jornalísticas não deveriam ser contadas pela perspectiva de um único grupo – com visões e experiências similares. A diversidade ajudaria a fazer com que as histórias cheguem a todos. “Quanto mais negros, mais olhares, é isso que torna o jornalismo tão rico”, comenta Glauber.
Durante a formação de Glauber, ele pode perceber mais negros estudando Jornalismo. Atualmente, o jornalista trabalha na RBS TV como editor de imagem para o Jornal do Almoço. Ele conta que tem colegas negros na redação, mas a maioria não ocupa espaços visíveis para os telespectadores. “Tem que ter uma proatividade dos gestores em contratar pessoas negras”, explica. Glauber sempre reforça que os estudantes e jornalistas negros têm realidades diferentes dos demais colegas brancos. Portanto, acrescentar essas experiências às pautas e narrativas torna o jornalismo mais rico e próximo da população.
“As pessoas ‘de cima’ têm que pensar nisso, mas não fazem isso naturalmente, porque são brancas”, comenta. Para o jornalista, algumas ações podem ser tomadas para visibilizar a questão racial. Entre elas, ouvir as pautas sobre invisibilidade racial e agendar isso na instituição.
Foi crescendo e frequentando espaços que ele percebeu o racismo. Glauber não separa o jornalista do militante e acredita que o movimento negro é uma necessidade. “Eu não penso só em mim, penso nas pessoas ao meu redor. Não posso ficar parado, tenho que fazer alguma coisa”, conta o jornalista que persiste em uma profissão que está longe da extinção.
“É impossível separar ser jornalista de ser jornalista negro. O jornalista negro vem primeiro”, conta Bruno Teixeira. Em 2017, se formou na UFRGS e, hoje, trabalha como produtor na Rádio Gaúcha. O jornalista integra o coletivo MilTons já retratado pelo Mescla. Ele cresceu ouvindo piada racista e sendo instruído a sempre sair de casa com o documento de identidade. Morando no Belém Velho, Zona Sul de Porto Alegre, trabalhava em uma rádio no bairro. A relação com o jornalismo é “de casa”, já que os pais sempre foram ligados com o rádio e a TV.
Bruno relata que jornalistas negros estão presentes, mas de forma minoritária e, às vezes, são vistos como um “corpo estranho”. A diversidade, de forma geral, acontece, mas nem sempre essas pessoas estão na linha de frente dos veículos. Para o jornalista, é preciso trabalhar e dialogar com estudantes, ainda na universidade, e dar espaço para discussões maiores sobre a questão racial. Além disso, Bruno acredita que é necessário uma política maior com os RHs (departamentos de recursos humanos), mostrando que existem pessoas negras trabalhando naqueles ambientes.

A invisibilidade da questão racial vai além das contratações nos veículos de comunicação. Glauber e Bruno concordam que a pauta antirracista chegou ao Brasil distorcida e diluída. “Virou uma coisa só. Enquanto a luta racial não for o xis da questão, não vai para frente. O negro fica em último plano”, explica Bruno. Além disso, ele comenta que os profissionais negros só são lembrados, pela maioria das pessoas, em momentos como manifestações ou em datas específicas, como a da Consciência Negra. Segundo Bruno, as redações precisam montar agendas de contatos e chamar negros para serem fontes não apenas em entrevistas temáticas ligadas à negritude e ao racismo. Esse exercício tem que ser diário, para trazer fontes diversas. “É preciso formar imaginários. Os negros também são médicos, também são jornalistas”, completa.
Há 26 anos, Chico Izidro entrava na redação do Correio do Povo como repórter. Com 9 anos, criou, com os amigos, um jornal sobre o dia a dia da escola, e foi ali que se tornou jornalista. Mas o diploma mesmo só chegou em 1991, pela Unisinos. “Ser jornalista é muito do amor, dedicação e paixão que vem com a pessoa”, explica. Já aos 12 anos, se percebeu negro, quando, ao observar uma menina que gostava, a mãe dela o atacou na rua dizendo que mataria a filha antes dela namorar um negro. Chico conta que se questionou, sozinho, em casa, o que teria feito para que aquela mulher sentisse tanto ódio.
“Tem muito racismo implícito. Já ouvi de muitos colegas que é coisa da minha imaginação, mas não é”, relata. Chico conta que divide a redação com cerca de cem colegas. Desses, apenas quatro são negros. Raramente um jornalista negro vira editor. “Não sei se as pessoas não se tocam, se não veem que falta representatividade negra nas chefias”, comenta.

Chico conta que os ataques pela cor da pele o acompanham desde sempre, e não acabaram quando se tornou jornalista. Um dos últimos foi neste ano, um pouco antes do início da quarentena, e promovido por um colega. O caso ocorreu em uma confraternização com outros jornalistas após cobrir a Expodireto. Em um determinado momento, Chico diz ter se confundido com as teclas do controle da televisão e acabou a desligando. A agressão veio em seguida: “É o que dá deixar um negro no controle, só faz merda”, dizia o colega para todos os presentes. Chico conta que nenhum colega interveio na cena. E, mais tarde, quando quis denunciar o ato, acabou sendo desencorajado. Apenas um dos colegas presentes se dispôs a ser testemunha da agressão sofrida pelo jornalista. Chico era o único negro da confraternização.
“As pessoas acham que não existe racismo, que somos todos iguais e felizes”, critica o jornalista ao falar dos ataques que sofreu e relembrando dos jovens negros que morrem todos os dias no país. Segundo ele, a própria mídia não destaca o que acontece no Brasil. Quando pautas raciais são sugeridas nas redações, grande parte delas não vai para frente. “Para que se incomodar?” é a resposta frequente dos editores. “A coisa tá bem mais legal, mas ainda tem poucos negros na redação”, explica. No Correio desde os anos 1990, Chico viu várias mudanças acontecendo na redação, como o aumento de mulheres e de LGBTs. Mas, para o jornalista, isso não é o bastante. “Queria que tivesse ainda mais diversidade, mais mulheres editoras, por exemplo”, comenta.
Chico diz já ter sido confundido como guarda de trânsito e até taxado de assaltante. Porém, quando as pessoas descobrem que ele é jornalista, as atitudes mudam. “Eu ando sempre de crachá, porque, quando a Brigada Militar dá batida no ônibus, eles olham pro crachá e já não tocam mais em mim. Ser jornalista te dá respeito e credibilidade”, avalia.
No início deste ano, a portoalegrense Fernanda Carvalho se tornava a primeira jornalista negra a estar na bancada do RBS Notícias. Além disso, está na equipe de reportagem do Jornal do Almoço e do Bom Dia Rio Grande. A trajetória da jornalista começou quando, há cerca de 12 anos, ela se formou em Brasília e voltou à Capital gaúcha. Aqui, ela criou o blog “Em negrito” para falar sobre a negritude – após um episódio no qual uma amiga fez um comentário racista sem perceber. A partir disso, foi convidada para cobrir o primeiro carnaval que a TVE produziu e, um tempo depois, já estava apresentando o Nação – programa que tratava de temas relacionados à história africana, focando na contribuição da população negra na cultura do Estado.

Fernanda conta que, por ter ficado conhecida muito rápido, não passou por nenhuma situação na qual não era vista como jornalista por ser negra. Mesmo assim, não impediu que as pessoas destinassem lugares para ela: o de falar apenas sobre a negritude. “Entrei na RBS e escutei que ia entrar no lugar da Carol (Anchieta), assim como a Carol escutou que entrou no lugar do Manoel (Soares)”, comenta. Algo que também costuma seguir Fernanda são as comparações. Desde que apareceu no RBS Notícias, é chamada de “Maju do Sul”. “A Maju é a Maju e eu sou eu. Eu não me importo, mas isso demonstra como a branquitude nos enxerga como uma coisa só”, explica.
Fernanda sempre soube a história do negro. Por estar sempre inserida em “espaços brancos”, a jornalista e a irmã foram ensinadas, pelos pais, a se defenderem. “Isso nos tornou mulheres muito fortes”, conta. A partir disso, a participação de Fernanda no movimento negro foi natural. “Eu não tinha bagagem acadêmica, eu falava do que me incomodava. Foi um processo interno para entender a minha importância no movimento, agora eu tenho isso muito claro… muito escuro, né”, brinca.
A jornalista entende que sempre cobrou por representatividade no blog que mantinha, e acabou ela sendo a manifestação dessa necessidade social nos veículos durante o período que apresentou o Nação, na TVE – mesmo que o assunto fosse a negritude – e na RBS. “Chega a ser engraçado, eu nunca imaginei que seria a representatividade, mesmo cobrando isso”, conta. Fernanda recebe elogios e eles sempre falam da competência da jornalista. Ela lembra, porém, que não é mais competente do que os outros que vieram antes dela. Ela teve, apenas, mais oportunidades. Fernanda explica que está vivendo um momento muito especial. “As pessoas brancas estão vendo que a diversidade é enriquecedora para todos”, explica. Ser jornalista hoje, segundo Fernanda, é ser uma ponte entre as coisas e quem precisa de informação. Ela conta que a oportunidade de ter passado em um concurso público (TVE) proporcionou mais diversidade na redação, deixando-a um pouco mais próxima da sociedade, por conta da política das cotas raciais. “Mas sempre somos o pontinho preto na produção e na redação, menos quando o assunto é negritude”, completa.
Mesmo que agende temas ligados à negritude, Fernanda diz que tenta manter o olhar aberto para as pautas. “Eu escolho o que eu faço e o que é ‘notícia para todo mundo’ e pode ser feito por jornalistas brancos”, explica Fernanda, lembrando que precisa fazer um balanço dentro da militância, não esquecendo que é uma pessoa como qualquer outra e tem que se preservar. Para a jornalista, a primeira ação a ser tomada é abrir oportunidades para profissionais nas redações. Depois, é preciso admitir que o racismo existe e que ele é um problema social. “Não tratamos as mortes de jovens negros brasileiros como tratamos as de fora”, complementa.
O jornalismo tem uma importância imensa para mudar o cenário atual, segundo Fernanda. “Temos que denunciar, mostrar, dar nome, dizer que é um problema da sociedade. É preciso entender que não são problemas pontuais, que é estrutural”, explica. A jornalista conta que falar sobre o racismo não é pesado para ela, que é preciso expor para transpor. “Só falando sobre isso é que vamos entender”, completa.
The post Deu um branco no jornalismo appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>The post Ciberacontecimentos e suas influências appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>Juntos, discutiram a influência dos movimentos que surgem na internet e se tornam uma grande potência de poder, tendo repercussão em setores da sociedade, sendo um deles, a política. Um dos exemplos mais recentes foi a onda de repúdio ao assassinato de George Floyd por um policial, nos Estados Unidos. Um fato que ocorre a milhares de distância da gente, vira parte de nossas vidas, implica em tomada de decisão e ações, como a organização de manifestações e passeatas, por exemplo.
Tratam-se de ciberacontecimentos, eventos muito analisados pelos pesquisadores de comunicação da Unisinos.. Na definição dada pelo professor Ronaldo Henn, são acontecimentos que por si só já são relevantes e midiáticos, e por estarem em uma rede pública ganham compartilhamentos a partir de narrativas próprias, e dependendo da força que adquirem, podem virar pauta para o jornalismo.

Ronaldo, que é pesquisador do CNPQ, relata que desde 2014, ele e o grupo de pesquisa começaram a perceber “um modo de articulação sombria e muito sinistra” em relação às deepfakes e desinformação nas redes, e que mais tarde se desenvolveriam junto aos grupos fechados do whatsapp culminando “na ascensão do pensamento neofascista” que hoje está em vários lugares do mundo, além do Brasil e dos Estados Unidos. Segundo o professor, esta cultura do ódio que culminou na eleição da extrema direita nas eleições de 2018, aqui no Brasil, aparecia com muita clareza nas investigações que faziam no grupo de pesquisa LIC.
Felipe, que pesquisa sobre Linguagem e Práticas Jornalísticas, traz à tona a discussão sobre as subjetividades do jornalismo e das narrativas, e de como cada detalhe importa e faz diferença no momento em que são abordados determinados temas. Trazendo para a atualidade, a subjetividade dos corpos, com o triste fato da execução de George Floyd, que marca o estalo para o jornalismo hegemônico de como é importante pensarmos esses outros corpos, como o corpo negro. Professor da Fabico na UFRGS recupera o fato da Globo News ter feito um painel apenas com jornalistas brancos para discutir o racismo, e que após muita revolta nas redes, a emissora volta atrás e seleciona um programa formado por jornalistas negros para discutir o caso.
O pesquisador também relembra os movimentos de 2013 e analisa: “me parece que tem marcas de 2013, marcas da incompreensão de 2013, que nos impedem de avançar hoje”, Felipe diz no sentido jornalístico, pois lá em 2013 começou um cenário muito importante de reivindicações de direitos, mas que, na visão dele, foi sequestrado pelo status quo e a extrema direita, fazendo chegar ao resultado das eleições de 2018, tornando Jair Bolsonaro presidente.
“A ideia de objetividade jornalística é hoje um dos grandes impeditivos para o estabelecimento de uma imprensa antirracista e também um impeditivo enorme para a ideia de uma imprensa antifascista”, Fabiana Moraes, professora da Universidade Federal de Pernambuco começa sua fala com esses dois apontamentos. Segue seu pensamento tecendo críticas a imprensa brasileira, e diz que o jornalismo de grandes empresas segue tratando os problemas como se fosse do outro e não de si.
Apontar o racismo institucional ainda não é algo fácil, diz, inclusive para a imprensa.. “Nos acostumados a falar sobre o racismo em cadernos especiais, em teses, dissertações e artigos, mas não nos colocamos como atores importantes nessa formatação, por isso acredito que esse reposicionamento é necessário”, Fabiana, que já foi entrevistada em outra oportunidade com o Mescla, fala da tentativa de reposicionamento como jornalista e pessoa que pensa o jornalismo.
A autora de O Nascimento de Joicy: Transexualidade, jornalismo e os limites entre repórter e personagem, destaca também a importância de entender os processos que estão acontecendo agora, seja os que envolvem George Floyd, em Mineápolis, como os assassinatos dos jovens Agatha e João Pedro, no Rio de Janeiro. Por que outros assassinatos de pessoas negras não conseguiram mobilizar tanto quanto o de Floyd? “Esse é um ponto muito importante de discutir, de como naturalizamos esses assassinatos e não é difícil naturalizar, quando a gente tem centenas deles por dia, e muitos desses assassinatos não foram filmados e mostrados como o de Floyd que provoca todos esses acontecimentos”.
Acesse o debate na íntegra no canal do grupo Lic Pesquisa.
The post Ciberacontecimentos e suas influências appeared first on Portal da Indústria Criativa.
]]>