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Hoje aposentada, Branca foi uma jornalista inquieta, e marcou presença em diferentes frentes de trabalho, desde o mercado profissional, passando pelo acadêmico, até se tornar escritora. Trabalhou como assessora de imprensa em grandes empresas e quando poucos se interessavam por Comunicação Organizacional, ela empreendeu neste ramo constituindo uma empresa chamada, primeiramente, de “Corpo 2”, e depois “Pontuação”. Como ela mesmo diz, foram várias pontas lançadas ao longo de sua vida, que só mais adiante pareceram se unir e fazer sentido.
O estudo foi uma atividade permanente. Além da graduação em Comunicação, somou uma pós-graduação em História Contemporânea, licenciatura em Estudos Sociais, mestrado em Ciências da Comunicação, até então, todos pela Unisinos, e o Doutorado em Comunicação Social, na área do Jornalismo Digital e Organização Editorial de Jornais, pela PUCRS. Em paralelo aos trabalhos que exercia, se tornou professora, um “segundo amor”, que só aumentou ao longo da sua trajetória e proporcionou uma vida acadêmica muito ativa, com várias frentes de pesquisa e com o lançamento de diversos livros. Foi no ambiente de ensino que se realizou de fato. “Consegui, então, unir aquelas pontas que antes pareciam soltas, quase desconexas”, contou Branca sobre o trabalho enquanto professora e pesquisadora.
Nesse ambiente se descobriu como escritora, também. A dissertação de mestrado resultou na publicação do primeiro livro: “Jornalismo Organizacional – produção e recepção”. Do doutorado surgiu o segundo livro: “Comunicação, psicanálise e Complexidade – abordagem sobre as organizações e seus sujeitos”. Publicou, também, “Violência, um discurso que a mídia cala”, fruto de um projeto de pesquisa. Já a paixão pelo meio digital fez surgir mais uma das “pontas”, quando começou a escrever histórias da vida, e com o convite de uma editora de Curitiba, viraram uma incursão pela literatura: “Uma vida de amor”. O livro de contos nasceu de uma brincadeira com um blog, conta.
Aliás, este é outro fato interessante desta “filha da casa”. Mesmo tendo começado sua vida acadêmica e profissional na era analógica, ela não só buscou se atualizar e entender os meios digitais, como trabalhou voltada para o jornalismo tecnológico e ensinou sobre, em sua vida como docente. Ainda em paralelo a essas vastas atividades, investiu no estudo da arte e, especialmente, das artes gráfica (Design), o que “deu corpo”, segundo ela, a atuação, também, como designer gráfica, na área da comunicação organizacional, na qual editou e diagramou jornais e revistas, entre outros materiais impressos. Branca foi editora da revista “Conexão, Comunicação e Cultura”, no então Departamento de Letras e Comunicação da UCS.
“Cada vez mais, as experiências acumuladas foram se amarrando e me permitindo levar para a sala de aula uma prática que podia mostrar as deficiências/dificuldades/exigências do mercado e a vantagem de se ter um olhar desenvolvido na academia.” – Branca Sólio
Hoje, aposentada, mas ainda descobrindo “novas pontas”, distribui as horas dos dias entre curtir os filhos, ler, assistir séries televisivas e produzir bonecas de tecido para doação a crianças em vulnerabilidade social. “Vejo que, embora a carga pareça (e efetivamente seja) mais leve, a missão não terminou. Os tempos são difíceis e como num golpe doloroso teimam em brotar sementes de dor e sofrimento que julgávamos extintas”, assinalou. E se os jornalistas já costumam gostar de contar histórias, espere para ver a combinação de jornalista mais professora. Branca interagiu com o Mescla, por WhatsApp. As respostas, como vocês poderão ver, revelam uma comunicadora nata, que fez questão de dar respostas completas, literárias, recheadas de intertítulos, conexões e toda uma trama muito bem costurada.

Ufa! Depois de uma longa apresentação, de uma incansável jornalista, vamos para a entrevista com ela:
Mescla: Você entrou na faculdade e finalizou a graduação no período tenso da ditadura militar, que atacava diretamente a área. Como era isso pra ti?
Branca: Num primeiro momento, somaram para meu percurso a conclusão do curso de Jornalismo e o interesse por questões ligadas à história e à política, num período em que a ditadura militar, iniciada em 1964, exigia de jovens estudantes como eu uma posição político-partidária alinhada ao pensamento de direita ou, em contrapartida, o silêncio. Assim que concluí o curso, e já ocupando o cargo de Assessora de Imprensa na Unisinos, iniciei um curso de pós-graduação em História Contemporânea, ansiosa por ampliar horizontes que me permitissem maior compreensão do contexto em que estava inserida. Concluída a especialização, iniciei o curso de Estudos Sociais, também na Unisinos, descobrindo, logo adiante, o quanto me sentia à vontade em sala de aula.
Mescla: E sobre tua trajetória profissional, como foi de 72 pra cá?
Branca: “Minha trajetória profissional começou a ser desenhada na década de 70, quando desenvolvi, concomitantemente, três frentes de trabalho: assessora de imprensa na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos; professora de História e Geografia, no Ensino Fundamental (à época Ensino de 1º Grau); empreendedora na área de comunicação organizacional, e em sociedade com outras duas colegas jornalistas também recém-formadas. Eram tempos difíceis, de censura e insegurança. O empreendimento na área da comunicação organizacional, inicialmente uma forma de remuneração, foi crescendo em importância, principalmente a partir do início da década de 80, quando transferi residência para Caxias do Sul (RS), onde, em seguida, comecei a prestar assessoria em comunicação e jornalismo organizacional a uma série de empresas. Na mesma medida em que o trabalho se destacava, consolidando minha prática profissional como jornalista, surgiu o convite para ministrar aulas de Comunicação Organizacional e Design Gráfico no curso de Relações Públicas da Universidade de Caxias do Sul (UCS). Associar teoria e prática, considerando minha formação acadêmica na época (duas graduações e uma especialização), colocou-se como tarefa fácil. Foram dez anos de dupla jornada, que na verdade se complementavam e rendiam bons frutos. As aulas refinavam meu olhar sobre os processos aplicados no mercado, e a prática diária de trabalho me oferecia subsídios para aprimorar a teoria e as aulas desenvolvidas.
Mescla: Como foi a virada quando se tornou professora?
Branca: Um casamento e a consequente maternidade inverteram algumas prioridades, ao longo de alguns anos, interrompendo a carreira acadêmica por algum tempo. Na medida em que o novo milênio se aproximava, algumas inquietações foram provocando reflexões mais profundas. Era hora de uma nova virada. O desempenho profissional no mercado era muito satisfatório, mas era preciso voltar a regar a inspiração, a alma, com a seiva do conhecimento, da academia, que ao fim e ao cabo, nos faz perguntar, sempre, por quê? Acontece que já havia encontrado respostas suficientes. Precisava de novas perguntas. Além do mais, os filhos já haviam cortado o cordão umbilical. Estavam livres, independentes e felizes. Era hora de eu partir para uma nova missão.
A decisão estava tomada: antes mesmo de saber se seria aceita para um retorno à UCS, tratei de disputar uma vaga para o mestrado em Comunicação na Unisinos. Em seguida, a UCS acenou positivamente. O investimento na vida acadêmica adquiriu sentido ampliado quando descobri um novo lugar onde poderia aplicar o que aprendia: a pesquisa. As atividades de mercado continuavam a ocupar espaço na minha vida profissional, mas com intensidade cada vez menor, na medida em que dedicava um tempo cada vez maior às reflexões acadêmicas, ao estudo, à descoberta de novos autores, paradigmas, teorias e um mundo que povoava minha cabeça num desejo quase febril de aprender. As atividades de pesquisa e a edição da revista abriram um novo olhar sobre o ensino universitário. Evidentemente, um doutorado e algumas especializações contribuíram nesse sentido, mas a percepção de que vivemos um novo paradigma e de que o perfil dos estudantes hoje é muito diferente, provocou muitas horas de reflexão sobre o exercício pedagógico. Durante algum tempo, incomodava ouvir alguns estudantes comentarem que minhas aulas “eram difíceis”. Mais tarde, essa sensação de mal-estar deu lugar a uma sensação de dever cumprido, principalmente quando muitos ex-alunos retornavam à Universidade, matriculados no curso de Especialização em Comunicação Digital, que passei a coordenar, a partir de convênio UCS/PUC, nascido de minha participação como aluna no mencionado Jornalismo Digital (PUCRS).
Fizeram-se valer as aulas de diagramação (como chamávamos na época) e as de fotografia (de longe as preferidas), com o Prof. Pe. Nedel, que foi Reitor na Instituição.
Quando olho para trás, vejo aquela turma de jovens sonhadores, dos quais se destaca Dante Carravetta de Azevedo, um amigo do coração, lamentavelmente já falecido.
Vejo, também, um caramanchão na sede da Universidade, onde pequenos grupos se reuniam nos intervalos das aulas de fotografia aos sábados pela manhã.
Lembro, ainda com certo temor, de algumas das aulas do curso de especialização em História Contemporânea e do fato de um dos colegas chegar a sair sempre acompanhado de um grupo buscando evitar que fosse capturado pela Polícia Federal, até chegar o dia em que ele não apareceu mais.
Olhando para trás, vejo o quanto a Universidade e especialmente o curso de jornalismo, foram importantes no desenho de meu destino.
Sinto-me convocada a continuar na luta, o que me faz lembrar de um dos livros lidos recentemente: Torto Arado.
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]]>Em entrevista ao Mescla, ele conta um pouco sobre a sua formação, os primeiros passos no mercado publicitário e o brilho nos olhos ao acompanhar a evolução dos alunos no curso e na vida. Esse bate-papo faz parte de uma série de conversas com profissionais que passaram por estes corredores antes de nós e ainda marcam as memórias dos 50 anos da Comunicação Unisinos. Você pode conferir neste link outras entrevistas publicadas.
Leia a seguir a íntegra da entrevista:
Mescla – O que é a Indústria Criativa hoje?
José – Na minha época, o curso era um só: Comunicação Social. Havia uma vertente, em que tínhamos algumas disciplinas introdutórias das três áreas (PP, RP e Jornal), e mais algumas disciplinas comuns. Depois, cada aluno se direcionava a uma ênfase. A grande ênfase da Publicidade era a criatividade. A criatividade era uma palavra e uma atitude que estava no auge, na época. Valiam – e os clientes também aceitavam – os delírios dos criativos. Deixando de lado tudo que nós consideramos hoje, os nichos, o planejamento, a importância do briefing, a intenção mercadológica. Essa é a grande diferença que vejo em relação ao curso hoje: é muito mais científico, propõe uma série de conteúdos que vieram acompanhando o tempo e alguns ainda propondo cenários futuros.
Mescla – Uma disciplina que marcou a sua trajetória?
José – Todas (risos), mas fundamentalmente a antiga Expressão Gráfica, que foi atualizada e hoje é chamada de Representações Visuais, pelo fato de ser uma disciplina quase introdutória, ofertada no segundo ou terceiro semestre. É fantástico ver os rostinhos bem novinhos adquirindo a consciência de que a prática da comunicação publicitária integra também cultura, história, arte… e é uma linguagem. Quanto mais ela se diferenciar na argumentação, em termos de linguagem verbal e visual, mais ela vai atingir seus resultados. É uma disciplina que me motiva muito, os alunos terminam o semestre brilhando. É muito legal ver isso, me enche de orgulho.
Mescla – Um professor especial?
José – Jim Pompeo. Ele chegou a fazer parte da Agexcom. Foi ele o responsável pelo início da minha carreira profissional, nos anos em que trabalhei em agência. O Pompeo foi um ser humano maravilhoso. Fui monitor dele na época, durante uns quatro semestres. No segundo semestre, ele me convidou para trabalhar com ele em Porto Alegre. “Esteja lá antes das 8h”, ele disse, e às 7h30 eu estava parado no portão. Ele contou que gostava do meu traço, do meu jeito de lidar com as pessoas e tinha vaga no estúdio e na área de tráfego, que eu podia juntar as atividades. E eu só saí de lá para vir para a aula à noite, comecei a ir todos os dias. Foi meu grande mentor. Fui ficando, me formei, e ele continuava aqui, assumiu a coordenação do curso. Um ano depois de formado, ele avisou: “vai abrir concurso para a Unisinos, tu tens que te inscrever”. Fui aprovado e comecei. É um anjo da publicidade que está lá em cima nos olhando.
Mescla – Um amigo que o senhor fez no curso (ou na faculdade, ou ao longo da graduação)?
José – Vários, que permanecem até hoje. Sou padrinho dos filhos e de casamento de ex-alunos que se conheceram nas salas de aula. Mas uma colega que me acompanhou muito desde o início do curso é a Sônia Haas. Entramos juntos, fazíamos todos os trabalhos juntos. Ela entrou uns três ou quatro anos depois que eu já lecionava. Foi coordenadora do curso algumas vezes. Em função de relacionamento e outras coisas, ela se mudou para a Bahia, antes de 2005. Começou a dar aula na Federal. Hoje está aposentada, mora em uma daquelas praias, na Ilha de Itaparica, e a gente conversa, se visita… é também uma das minhas “ídolas”. É uma mulher que admiro muito.
Mescla – Um lugar especial na Uni?
José – O caramanchão, na Sede. Era um pergolado totalmente coberto de trepadeiras, vários bancos e um laguinho artificial lotado de peixes dourados. Ali, a gente se sentava para falar sobre a vida, para sonhar os nossos futuros, para fazer os trabalhos. É um lugar que me marcou muito durante a fase de estudante, em função da convivência e da intimidade que a gente tinha com as pessoas. Isso se tornou uma espécie de refúgio. A minha filha, quando pequena, chegou a conhecer. Adorava, eu ficava sentado vendo ela ver o laguinho e assim por diante. De vez em quando, ainda me vem à memória o velho caramanchão da Unisinos.
Mescla – Um acontecimento que lhe marcou no período?
José – Um encontro de ex-alunos em que, inclusive, houve uma participação bastante grande de ex-professores, o Pompeo já tinha partido. Foi um dia inteiro, nos reunimos na Sede, a partir de pequenos encontros. A [professora] Luiza Carravetta começou a organizar, então nos reuníamos lá na Sede, primeiro com um grupo pequeno. As memórias foram voltando, os afetos foram sendo retomados, as lembranças… E resolvemos tentar um grande encontro. Foram mais de 70 pessoas que acabaram vindo nesse dia. Almoçamos, rimos, conversamos, alguns choraram. Alguns professores que estavam em São Paulo e vivos ainda, vieram. Foi muito legal. Se não estou esquecido, foi em 2011. Já dá para nos reunirmos de novo (risos).
Mescla – O que a graduação na Uni representou na sua vida?
José – Vida. A graduação não existe sem vocês. Vocês [estudantes] são tudo, a nova geração, o futuro. Vocês são inquietos, têm uma energia contagiante. É por isso que sempre que me perguntam qual o significado e o porquê de ainda continuar dando aula e orientando, eu digo que os alunos me dão vida, é uma troca de energia, de conhecimento e de experiência, tão rica e tão grande que acho que não deixa nenhum de nós, professores, parar no tempo. Nos motiva a sempre buscar mais. Também, esse prazer de estar lá, ver vocês se formando, a evolução do curso, o despertar de novos interesses. É vida.
Mescla – A quais livros, filmes e séries o senhor tem se dedicado recentemente?
José – A continuidade de Game of Thrones, claro, que está imperdível. Inclusive, reli os quatro volumes durante a pandemia. Terminei de assistir RuPaul’s Drag Race. Vi também Crônicas de São Francisco. Fiquei muito apaixonado por Coisa Mais Linda, uma série brasileira que se passa na década de 1950. O Tempo Entre Costuras, que é uma série espanhola que se passa durante a guerra civil, muito legal. Nos livros, voltei aos escritos do Jung, no sentido de retomar alguns conceitos em termos de arquétipos e assim por diante. Li algumas biografias de grandes designers, como o Saint Laurent, a própria Chanel… E, também, peguei um que fazia muito tempo que eu queria retomar: Teoria das Cores, do Goethe. Renovou meu conhecimento. E, claro, vi muitas outras coisas, li coisinhas curtas também, isso não dá para parar. Dancei muito quando a ansiedade batia. Colocava a Cher e pulava pela casa (risos).
Mescla – Por fim, assim como as memórias, a criatividade também se renova?
José – Com certeza. A gente está se renovando o tempo inteiro, a vida inteira. Tudo são novas referências, novos conhecimentos, novas curiosidades, novas buscas. Falei do livro do Goethe, a primeira vez que tive contato com ele foi na disciplina de Psicodinâmica das Cores, no meu tempo de graduação. Acho que já reli umas cinco ou seis vezes depois. E a gente sempre descobre coisas novas, porque a gente não é mais aquela pessoa, em termos de processo criativo – que nada mais é do que a forma que a gente vê o mundo. A gente enxerga o mundo como se permite. Nos permitimos enxergar o mundo com liberdade, aceitando tudo que ele tem para nos colocar, em termos de realidade e absorvendo essa realidade, ou carregados de preconceitos, não aceitando algumas coisas que estão aí, isso está relacionado com tudo. Só que o grande filtro são os nossos valores que foram crescendo e evoluindo, a partir daquela base que nos foi dada na infância e foi crescendo e florescendo. A criatividade vai se renovando, porque o mundo se renova, a vida se renova.
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