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Como inserir os influenciadores digitais nos TCCs
"Em workshop para a Semana da Comunicação 2022, a pesquisadora Issaaf Karhawi quer ajudar os alunos a tirarem os influenciadores de discursos do senso comum e conformá-los a partir do discurso e rigor científico"
Paola de Bettio Torres

Na próxima quinta-feira (28/4), a pesquisadora Issaaf Karhawi ministrará o workshop “Influenciadores digitais no TCC”. A oficina, que vai ocorrer via plataforma Teams, integra a programação da Semana Semana da Comunicação 2022.


Issaaf trabalha com comunicação digital na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Ela é autora do livro “De blogueira a influenciadora”, pela editora Sulina. Atualmente, a pesquisadora realiza pós-doutorado no Programa de Pós-graduação em Comunicação da Unisinos (PPGCOM), no Laboratório de Pesquisa CULTPOP.


O Mescla conversou, via WhatsApp, com a Issaaf para descobrir o que podemos esperar do workshop, além de conhecer um pouco mais sobre a carreira da pesquisadora. Confira:


Mescla – Você vai ministrar o workshop “Influenciadores digitais no TCC” na Semana da Comunicação 2022 da Unisinos. Dá para adiantar um pouquinho sobre o tema?

Issaaf – O objetivo do workshop é apresentar caminhos teóricos e metodológicos para quem tem interesse em estudar influenciadores digitais no TCC da graduação. Todos nós somos impactados por influenciadores digitais no nosso consumo midiático, e a popularidade deles acaba deixando mais difícil o processo de torná-los um objeto de pesquisa de fato científico. Por isso, a ideia do workshop é, justamente, tirar os influenciadores de discursos circulantes do senso comum e conformá-los a partir do discurso científico e do rigor metodológico-científico. Então, quero apresentar as abordagens mais comuns quando se trata de pesquisa sobre influenciadores, mostrar algumas tendências de pesquisa e quais são os métodos e técnicas que podem ajudar a definir e construir amostras de pesquisa. Será uma conversa expositiva como um grande bate-papo, para que todo mundo que tenha a intenção de estudar esse tema possa levar suas questões e suas dúvidas, e que cada um possa sair de lá mais confortável com o seu próprio tema. 


Mescla – Dentro da sua trajetória como pesquisadora, você sempre estudou o universo da comunicação digital?

Issaaf – Sim. Desde 2014 eu pesquiso especificamente influenciadores e blogueiras de moda. A minha formação é em Jornalismo, pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), e tanto o mestrado quanto o doutorado eu fiz na Escola de Comunicação e Artes da USP.  Com a minha pesquisa de doutorado, eu queria entender como as blogueiras de moda saíram de um hobby, de uma prática completamente amadora, para, de repente, se tornarem novos perfis profissionais no campo da comunicação. Então, a minha investigação partia da questão de como se deu o processo de profissionalização da blogosfera de moda brasileira. Eu acompanhei, entre 2014 e 2018, 52 blogueiras de moda para tentar entender como elas se profissionalizaram. E foi uma pesquisa interessante, porque eu comecei estudando blogueiras e terminei falando de influenciadoras. Foi uma mudança na terminologia, mas que impactou no mercado, e eu pude testemunhar isso ao longo da minha pesquisa. Hoje, quatro anos após o término do doutorado, já publiquei o livro “De blogueira a influenciadora”, pela Sulina, e sigo estudando influenciadores digitais, com mais ênfase na relação que os influenciadores têm com as plataformas de redes sociais digitais. No meu pós-doutorado, que eu desenvolvo no CULTPOP, na Unisinos, pesquiso a temática das “blogueirinhas”, isso é, como é que todos nós, em alguma medida, fomos impactados pelas práticas dos influenciadores digitais, e como profissionais autônomos e liberais têm sido apelidados de “blogueirinhos”, justamente por fazer o uso de práticas dos influenciadores e das blogueiras.




Capa do livro “De blogueira a influenciadora” (Imagem: reprodução do Instagram)



Mescla – Quando começou o seu interesse pela temática dos influenciadores digitais e percebeu que era um tema frutífero para uma pesquisa? 

Issaaf – Eu sempre fui consumidora de blogs de moda. Eu assistia a um vídeo de uma blogueira em que ela respondia a perguntas dos leitores, e uma delas era: “Se você não fosse blogueira, o que você seria? E o que os seus pais acharam da sua decisão?”. Eu sou analista do discurso e venho dos estudos de linguagem; costumo construir problemas de pesquisa com base nos discursos que circulam na sociedade. Então, aquela pergunta me apontou que ali tinha algo, que parecia que a gente estava falando de uma profissão. Aquela pergunta me levou a formular a minha própria pergunta de pesquisa, que foi “como se deu o processo de profissionalização da blogosfera de moda no Brasil”. Toda vez que a gente enuncia alguma coisa na sociedade é porque aquela enunciação está amparada em disputas, intensões, em disputas de poder, em consolidação de poderes. Toda a possibilidade de dizer algo é porque outra coisa já foi consolidada e estabelecida, e eu queria olhar para isso que foi estabelecido, que parecia ser uma profissão. Eu só fui perceber, de fato, que o tema de influenciadores digitais era frutífero à medida em que eu fui desenvolvendo o meu trabalho, porque tive o privilégio de estar no lugar certo na hora certa, que foi justamente essa virada do termo “blogueira” para “influenciadora”. Eu podia acompanhar como pesquisadora essa mudança e como ela ainda tinha muitas possibilidades, e como é que ela impactaria o mercado.



Para Issaaf, é preciso reconhecer que os influenciadores são um novo perfil profissional (Imagem: arquivo pessoal)



Mescla – Muitas pessoas ironizam ou agem com preconceito com os “influencers”, desmerecendo ou até detonando o trabalho deles. Como você vê isso? 

Issaaf – Tem uma longa história relacionada a isso. Quando as blogueiras de moda surgiram, colocaram em xeque a prática do jornalismo de moda. Elas sentavam nas primeiras fileiras dos desfiles, reservadas para jornalistas de moda, e elas escreviam suas próprias impressões sobre os desfiles, coleções e alta costura. Desse modo, elas foram muito rechaçadas e desmerecidas, até o momento em que o próprio jornalismo entendeu que ali havia um outro tipo de profissional e que as blogueiras não iriam disputar o espaço com os jornalistas. Foi aí que houve uma aproximação dos jornalistas e das blogueiras. Depois, a gente tem um outro momento, quando as blogueiras começam a fazer parcerias comerciais, que é o modelo de negócio que a gente tem hoje. Como elas eram amadoras, já que as blogueiras de moda não tinham uma formação em comunicação – iam aprendendo na medida em que iam produzindo –, a gente viu muita prática antiética, muita falta de responsabilidade e muito desconhecimento. Tinham blogueiras que faziam publicidade sem anunciar que era publicidade, por exemplo. Isso foi, de novo, desgastando essa atuação profissional, e aí passaram novamente a serem rechaçadas, acusadas de ignorância, de não conhecer as normas do mercado publicitário. E hoje, sobretudo, a gente tem vivido um momento muito delicado. A sociedade começou a reivindicar por posturas mais éticas desses profissionais. Isso porque começamos a entender que há, de fato, uma atuação profissional. A gente tem exigido que os influenciadores sejam mais responsáveis com aquilo que colocam em circulação, que sejam mais transparentes na hora de fazer publicidade.   


Mescla – O que as pessoas em geral precisam saber para entender a figura dos influenciadores digitais hoje? 

Issaaf – É preciso reconhecer que os influenciadores não são apenas sujeitos em busca de “15 minutos de fama”. É claro que há esse tipo de perfil, pessoas que buscam muita visibilidade para fazer dinheiro. Mas é preciso reconhecer que se trata de um novo perfil profissional. Eu até evito falar muito em “profissão”, porque isso vai prever institucionalização, mas, sim, “um novo perfil profissional”. E se há uma atuação que é profissional, deve haver exigência por posturas éticas e responsabilidade. Então, eu acho que é entender que é uma atuação profissional. Isso tudo é o que eu acho que vai ajudar a gente a sair desse mercado, que é, em certa medida, muito irresponsável.




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