Por dentro

#diadoestagiário
Cadeiras vazias
"Aguentem firmes, queridas cadeiras. Logo logo a razão de ser da agência, e de todos nós aqui, vai voltar"
Marcelo Garcia


Esses dias, tive a oportunidade de visitar o setor onde trabalho, na Unisinos. Em tempos de pandemia, essa frase não é mais tão estranha. Um toque no interruptor aciona as lâmpadas fluorescentes da Agexcom, a agência experimental de comunicação da Universidade. A luz revela uma sala enorme, mais comprida que larga. Há mesas, armários, adesivos coloridos por toda a parte. Quadros brancos ainda preservam recados escritos há um ano e meio, quando o implacável Covid expulsou todos dali.  


O que mais me chamou a atenção diante da imensidão do lugar não foi o silêncio ou o repousar dos computadores, que agora hibernam, mas sim as cadeiras. Todas elas estavam vazias. Ali, paradas, congeladas no tempo, olhando umas para as outras, pareciam se perguntar: “Onde estão os estagiários?” 


O questionamento delas faz sentido. É impensável não ver a agência repleta deles, cuja primeira atividade, ao chegar para trabalhar, era justamente disputar o direito de uso dos melhores assentos. A tentativa de fixar uma cadeira para si colando o nome no encosto nem sempre funcionava. O que elas gostavam mesmo era de circular entre os estagiários. 


Altos, baixos, cabelos coloridos, tímidos ou extrovertidos, com óculos grandes que alcançam a bochecha – a última moda no quesito “acessórios para o rosto” –, ou sem eles, os estagiários e suas cadeiras exclusivas dão vida à Agex. São todos alunos, mas com pressa de profissionais. Pressa de entregar a arte do card ainda hoje, porque foi o combinado com o cliente, pressa de preparar a apresentação para a reunião de logo mais. Pressa de aprender a juntar tudo isso e dar um sentido. 


Os estagiários são a alma da Agexcom. Às vezes, almas um pouco atrapalhadas, diga-se de passagem. O que dizer daquele dia em que um deles tentou passar um café na cafeteira, mas deixou a água dentro da jarra de vidro? Ou daquele outro que resolveu fazer pipoca com queijo no micro-ondas e não fechou a porta, deixando o cheiro de chulé invadir toda a agência? Risadas estrondosas, como se não houvesse amanhã, enquanto uma reunião com cliente se desenrola perto dali, é de praxe.
 

Não raro uma equipe formada ali, na agência, se torna uma equipe para a vida. Vi amizades nascerem entre um trabalho e outro.


Almas atrapalhadas, mas cheias de humanidade. Não raro uma equipe formada ali, na agência, se torna uma equipe para a vida. Vi amizades nascerem entre um trabalho e outro. No arrastar das cadeiras, uma troca de olhares cheios de timidez e outras intenções. Nesse caldeirão de sentimentos, certa vez os estagiários salvaram uma tartaruga perdida de um destino cruel. Patos e lagartos lamentaram. Em outra, a equipe não conseguiu evitar o triste fim de uma barata, e providenciaram um enterro decente para a coitada. 


As cadeiras acompanham de perto os alunos. Elas veem os estagiários, com olhar fixo em seus computadores, desmembrarem campanhas de comunicação, desenharem artes para peças gráficas, redigirem matérias e planejarem pesquisas de satisfação. Apesar de ser um tanto triste vê-las vazias, sei que os seus donos continuam trabalhando a todo vapor, em algum lugar por aí, só que remotamente. 


Depois de terminar minha tarefa presencial, me despedi da Agex naquele dia. Antes de fechar a porta, dei uma última espiada para dentro da agência. “Aguentem firmes, queridas cadeiras. Logo logo a razão de ser da agência, e de todos nós aqui, vai voltar”, eu disse, em voz alta. 


Essa é uma pequena homenagem aos estagiários da Agexcom e a todos os estudantes da Unisinos que estão batalhando, na prática, pelo seu crescimento profissional. Feliz Dia do Estagiário! 


(*) Marcelo Garcia é subeditor do Portal Mescla

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